Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 13 de Novembro)
NEGOCIATAS – Nos últimos anos são muitos os casos de negociatas feitas à sombra da política – quase se tornou num hábito adquirido. A forma como se encara a questão das finanças na política é a grande culpada deste assunto e, na minha opinião, tem três planos de análise, todos eles em situação crítica: o financiamento partidário (cuja nova Lei é melhor que as anteriores mas ainda muito insuficiente); as limitações ao custo das campanhas; e os vencimentos dos titulares de cargos políticos. A questão dos limites aos custos das campanhas é das situações que mais proporciona o actual estado de coisas. Na verdade, ao estabelecer limites objectivamente baixos para os tempos que correm, fomenta-se o financiamento encapotado – já que os dinheiros não declarados se destinam em teoria a pagar as despesas que ultrapassam os limites, situação que toda a gente sabe que existe na maioria dos partidos. O dinheiro ilegal que entra nos partidos serve para isto e a sua existência desculpa muita coisa. Nas autárquicas a situação ainda é pior – quer em relação aos partidos, quer em relação aos independentes (que são penalizados e nem o IVA podem deduzir – um escândalo!). A hipócrita forma como se proíbe a aquisição de publicidade em campanhas políticas fomenta o aparecimento de empresas, muitas vezes ligadas a pessoas dos aparelhos dos partidos, que exploram materiais de publicidade exterior não regulamentada, que desenvolvem marketing digital, que produzem sites, gerem actuação nas redes sociais, produzem filmes e por aí fora, tudo numa actividade semi-encoberta para não ofender a lei. O evoluir da tecnologia e do mercado impossibilita o pensamento angélico da Lei – um mundo onde a propaganda política e partidária nunca é paga e é feita de voluntariado. Em nome da igualdade (fictícia) de oportunidades para os concorrentes a eleições, na verdade fomenta-se o financiamento ilegal e proliferam empresas informais que concorrem abusivamente no mercado da publicidade e da comunicação – em resumo, é uma fantochada. Fantochada igual é a da remuneração dos cargos políticos – quando meros assessores de gabinetes governamentais ganham mais que deputados ou quando assessores de autarquias ganham mais que vereadores, o mundo está virado ao contrário. Enquanto isto não fôr mudado, prosseguirão os escândalos e há terreno para a corrupção e o compadrio medrarem.
ESCUTAS – Duas perguntas: Se Sócrates, como repetidamente disse em público, nada se interessava nem sabia sobre a TVI, porque era então esse um tema de conversa entre ele e o seu amigo Vara? E outra pergunta, mais dura: até que ponto as simpatias politicas, públicas, do Presidente do Supremo, Noronha do Nascimento, pesaram na sua decisão – nomeadamente de não haver qualquer pronunciamento antes das eleições legislativas quando o material já estava na sua posse? E, claro, é polémico – vários juristas o admitem - que caso existam suspeitas de relevância criminal numa conversa em que o escutado estava a ser vigiado dentro dos limites da Lei elas não possam ser investigadas. Por acaso a Lei que fundamenta a simpática decisão do Presidente do Supremo deriva de uma proposta do próprio Governo Sócrates. O cidadão comum, que não é jurista, acha que há coisas feitas por favor, conveniência e compadrio em todo este caso. Quando a política e a justiça vivem envolvidas num manto de mentiras e cumplicidades quem fica pior é o regime – a ética republicana anda mesmo por baixo em véspera de faustosas comemorações.
CULTURA – Por ocasião da tomada de posse deste Governo escrevi que a nomeação de Gabriela Canavilhas podia ser um bom sinal. Mas as suas primeiras declarações à imprensa, pondo a tónica na necessidade de, na Cultura, transformar o pouco de que se dispõe em muito, fazem-me lembrar as fatais declarações do seu antecessor, José António Pinto Ribeiro, que também entrou a matar com o lema de fazer mais com menos. A questão da política cultural é dupla: desde que Sócrates é Primeiro Ministro esta área tem tido uma completa ausência de estratégia e, por outro lado, tem objectivamente cada vez menos orçamento. De nada servirão as declarações de Sócrates sobre a importância do sector se continuar na prática a subalternizá-lo e a levar os seus Ministros a defenderem que a melhor omolete é a que se faz sem ovos. No fundo a Ministra da Cultura sabe que precisa de mais meios para poder criar uma nova estratégia – não faz sentido cair nos erros dos seus antecessores.
OUVIR – Tenho uma devoção especial pelos Eeels – estou a falar da banda rock norte-americana e não das enguias da Murtosa em conserva, que por acaso também fazem as minhas delícias. Eu gosto dos Eeels porque fazem canções simples, parecem genuínos e tocam de uma forma absolutamente arrebatadora,. Sou fã do seu mentor, Mark Oliver Everett, conhecido como E. , desde o disco «Beautiful Freaks» de 1996. Una anos depois, se a memória me não falha na altura do álbum «Daisies Of The Galaxy», eles actuaram ao vivo no Lux, em Lisboa e eu fiquei rendido à energia que saía de toda aquela simplicidade. De modo que quando este ano vi um novo disco da banda nem hesitei - «Hombre Loco», subtitulado «12 Songs Of Desire» é mais um trabalho magnífico. Se querem ter uma ideia do assunto procurem no youtube o video the «The Look You Give That Guy», protagonizado pela modelo, actriz e escritora Padma Lakshmi (avassaladora!), que faz olhinhos ao próprio Everett. Transcendente – musical e visualmente.
VER – Uma das revistas de que procuro não perder nenhuma edição é a portuguesa «L+Arte», sem dúvida a melhor publicação na síntese entre arte contemporânea, apresentação de novos artistas, noticiário de artes plásticas e o mundo das antiguidades. Destaque na edição de Novembro para o portfolio de António Olaio, para o artigo sobre a retrospectiva de Amish Kapoor em Londres e para um bom artigo de antecipação sobre as próximas Feiras de Arte em Lisboa e em Vigo.
LER – «Blackpot» é uma novela policial, até agora inédita, de Dennis McShade, ou seja, Dinis Machado. Tem 58 páginas, foi publicada pela Assírio & Alvim e lê-se de um jacto. Percebe-se também que foi escrita de um jacto, depois de muito pensada e estruturada. Tem uma narrativa veloz e formalmente invulgar e uma acção decalcada de uma tempestade. Se eu fosse realizador de cinema pegava já nesta história e filmava-a. Está escrita para ser um filme.
BACK TO BASICS –Raramente a verdade é pura, e nunca é simples -
Oscar Wilde.
Sábado, 7 de Novembro de 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 6 de Novembro)
PARCIALIDADE - Um ano depois de Barack Obama ter vencido a eleição presidencial vai um grande sururu na Casa Branca por causa da Fox News. Obama acusa a Fox News de ser tendenciosa. A conversa alastrou pelos media e Fareed Zakaria, o editor da Newsweek, um Obamista assumido, colocou a sua revista ao serviço da cruzada anti-Fox News. Convém aqui dizer, de passagem, que o desenvolvimento da reformulação editorial da Newsweek, que Zakaria empreendeu há uns meses, transformou a revista, num espaço muito alinhado politicamente com a Casa Branca e com os objectivos internos e externos de Obama – ou seja, o reverso da moeda que é criticada na Fox. Esta conversa sobre o alinhamento dos media não é nova – assistimos até há pouco tempo a grande sururu em torno da TVI e do Público – em ambos os casos, como agora já se percebeu, a linha editorial foi domesticada. O fenómeno acontece por todo o lado – desde Chávez a Obama, pelos vistos – quando algum canal de televisão se torna incómodo passa a ser maltratado. A questão, no entanto, é a forma como as coisas são tratadas a partir de diferentes prismas. Durante anos assistiu-se a um claro enviezamento noticioso francamente favorável, em sentido lato, à esquerda europeia ou aos democratas norte-americanos. Digamos que quase se tornou uma regra do politicamente correcto ser-se anti-Thatcher, anti-Cavaco, anti- Bush. No caso americano, que aqui estamos a analisar, o coro anti-Bush de muitos media foi assinalável – mas não me lembro de à época a Casa Branca ter decretado persona non grata vozes críticas. Num recente artigo do «New York Times» notava-se que se os democratas se irritam com a Fox, os Republicanos também se podem irritar com outro canal noticioso, a MSNBC. Na realidade o facto de existir alguma tendência nos noticiários não é nova; novo é o facto de os democratas americanos estarem a provar o fel que andaram durante anos a servir ao público em geral. E é muito curiosa a forma como reagem.
CÂMARA - Esta semana tomei posse como representante eleito na Assembleia Municipal de Lisboa. Chocou-me a forma como os serviços da Assembleia, certamente mal instruídos por alguém, logo na primeira sessão, deram por adquirido que existia uma única lista candidata à Mesa da Assembleia, fruto de negociações entre PS, PSD e CDU. Em vez de esperarem por ver o que saía do plenário, quiseram dar por adquirido o resultado das negociações entre as estruturas dos maiores partidos. O resultado é que surgiu mais uma lista, do PPM e do MPT, que felizmente salvou as aparências e evitou que Simonetta Luz Afonso fosse eleita em lista única, como me pareceu ser o desejo dos negociadores. Os serviços lá fizeram à pressa novo boletim de voto, menos cuidado e completo que o anterior. Os pequenos partidos e os independentes fazem falta, e muita, para que a política não se transforme numa farsa negocial – esta a primeira lição que aprendi logo no meu primeiro dia em funções.
LIXOS - A operação Face Oculta vem chamar a atenção para um aspecto muito curioso: negócios que se desenvolveram na sequência de medidas tomadas sob a capa ambiental tornaram-se rapidamente em expoentes de grupos de interesse, em pressões e corrupções. Para além das boas intenções de alguns, os negócios desenvolvidos à sombra do ambientalismo têm muito que se lhe diga, como estes dias têm mostrado O que se tem passado em Portugal lembra estranhamente a série «Sopranos», onde o principal negócio da Máfia estava precisamente na área da reciclagem de lixos. A história das negociatas ocorridas nesta área, e que cronologicamente e de facto surgiram por ocasião da Expo 98, ainda vai dar pano para mangas. A legislação então feita permitiu e fomentou a criação de negócios que hoje se revelam espúrios – e seria curioso perceber como alguns empresários foram tão rápidos a conhecer novas oportunidades de negócio que podiam ser exploradas. Há muito tempo que não acredito em coincidências…
LER – Não é todos os dias que uma revista comemora 300 anos – três séculos de vida. O caso é que a britânica «Tatler» assinalou na sua edição de Novembro os seus três séculos de existência com um número magnífico de 400 páginas. Um colosso, recheado de histórias, de evocações de épocas da revista – na verdade um manual de como é possível recuperar uma publicação que esteve quase a encerrar portas em finais da década de 70 e que depois fez um percurso notável – começado com Tina Brown entre 1979 e 1983 e então nunca mais interrompido. 1709 foi o primeiro ano da Tatler e um dos acontecimentos desse ano, que esta edição destaca, foi o primeiro voo em balão de ar quente, realizado em Lisboa a 8 de Agosto, pelo padre Bartolomeu de Gusmão que percorreu 400 metros pelo ar para deleite da corte – a nota é acompanhado por uma produção de moda bem actual – é isto que torna uma revista algo de diferente e apetecível e comercialmente muito eficaz.
OUVIR – No ano passado António Pinho Vargas editou a primeira série de «Solo», com composições suas, registadas em sessões de gravação no CCB. Este ano o resto das gravações não editadas e mais umas quantas novas surgem em «Solo II», que consegue ser mais interessante e estimulante que o disco inaugural da série. A maioria das composições continua a ser de António Pinho Vargas, mas há duas versões notáveis «Que Amor Não Me Engana» de José Afonso e «The Times They Are A Changing» de Bob Dylan. Eu, que gosto de discos de piano solo, tenho ficado rendido a este «Solo II», feito à revelia de toda a lógica editorial tradicional e só possível pela dedicação do músico e pela teimosia e perseverança de David Ferreira e das suas Investidas Editoriais – assim se chama a editora que colocou no mercado este belo disco.
REGISTO – Quis o destino que na altura em que se assinalava o 25º aniversário do jornal «Blitz», que fundei e dirigi nos primeiros anos, morresse o António Sérgio, que desde o princípio apoiou a ideia e que ao longo do tempo sempre colaborou com o jornal. Eu, como gerações de ouvintes de rádio, seguia as suas indicações, as suas descobertas. O António Sérgio amava a música e era um mestre a divulgá-la, fazendo-a chegar a mais gente. E fazia rádio com a paixão de quem gosta de comunicar – uma rádio como raramente, infelizmente, se faz hoje em dia.
BACK TO BASICS – Quando se faz a chamada no Senado, os Senadores às vezes não sabem se devem responder «Presente!» ou «Inocente!» - Roosevelt.
Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Outubro)
GOVERNO – Justiça, Educação, Saúde, Tecnologia e Criatividade são os grandes desafios de Portugal para vencer no futuro próximo. São estas as áreas de governação onde a ousadia, a reforma e o investimento fazem falta. É por aqui que pode passar a mudança. Se nada for mudado, e se o paradigma continuar focado onde tem estado, o país não será mais competitivo, não será mais justo e deixaremos às gerações seguintes uma herança pior do que aquela que recebemos. Esta é a responsabilidade de quem aceita governar.
OBRAS – Mal o PS ganhou, começou o regabofe em torno da questão do TGV. Afinal a preocupação dominante nestes dias que correm não é a ligação à Europa, a ligação a Madrid. É fazer uma série de linhas, de curta duração, é reivindicar uma série de paragens que tornariam o TGV num comboio-correio dos tempos modernos com paragem em todas as estações. Na questão do TGV há dois interesses, que são antagónicos: os do país e do nosso desenvolvimento; e os das empresas construtoras que fomentam os lobbies locais e que querem multiplicar as linhas. Alguém tem de explicar que há outras possibilidades de requalificar o transporte ferroviário rápido sem passar pelos investimentos gigantes do modelo TGV – aqui está uma coisa que será a prova de fogo do novo Ministro das Obras Públicas, o cabeça de lista do abaixo assinado a favor dos grandes investimentos públicos. Como vai ele decidir? Pelo futuro do País? Ou pelas construtoras e seus lobbies?
SERVIÇO PÚBLICO – Nos últimos quatro anos assistiu-se a um progressivo apagar das obrigações de serviço público em matéria audiovisual. A descaracterização progressiva levou a cenários verdadeiramente surpreendentes – quer a nível da informação, quer da programação. Os telejornais da RTP 2 (já nem falo da RTP 1…) estão frequentemente entregues ao sensacionalismo, entre desastres, desaparecimentos e acidentes e não se distinguem de outros telejornais: deixou de haver a preocupação com o enquadramento internacional, com notícias da área da ciência e tecnologia, da economia, ou com o acompanhamento da actualidade cultural e criativa. Na área da produção de documentários os recuos são enormes e até no relacionamento com a DOC Lisboa se chegou a um ponto de conflito insustentável. Discutir o que é serviço público é o primeiro passo para depois ver se o Estado cumpre os seus deveres ou se está abusivamente em concorrência com os privados. Bons exemplos de serviço público em estações privadas são as emissões de «O Futuro Hoje» de Lourenço Medeiros na SIC Notícias, e, no caso da rádio, na TSF «O Mundo Digital» de Rui Tukayana ou o «Made In Portugal» de Rui Miguel Silva são também emissões exemplares. Por falar em TSF não deixa de ser curioso que na quinta-feira da semana passada esta estação privada foi a única que interrompeu a transmissão do jogo do Benfica-Everton para fazer um especial sobre o novo Governo, cuja composição havia sido acabada de anunciar. A isto chama-se fazer serviço público.
LER – O número de Novembro da revista «Monocle» é uma das suas melhores edições de sempre. Dois destaques – um editorial e outro comercial. Comecemos pelo editorial, um suplemento de 36 páginas que constitui um guia para a criação de pequenas empresas nos dias que correm – é simplesmente brilhante, cheio de boas ideias e sugestões óbvias mas muitas vezes esquecidas; o segundo, comercial, é um destacável de 12 páginas, colocado ao lado de uma página de publicidade na revista, e que é um guia sobre as indústrias criativas no Reino Unido. A página de publicidade onde o guia está colocado tem o título «Britain Is A Creative Partner To The World» e toda a operação é financiada pelo equivalente ao AICEP português, o UK Trade & Investment – aqui está um exemplo a estudar. Para além destes destacáveis, há um excelente artigo sobre o que a cidade sueca de Gotemburgo fez para atrair novas pequenas empresas e uma boa análise do que pode ser o futuro da indústria da música. No entretanto experimentem visitar o site www.monocle.com .
OUVIR – Discos de jazz gravados ao vivo têm um encanto especial – reproduzem a essência de um género musical baseado na improvisação e no diálogo com o público. «Yesterdays» reproduz um concerto de Keith Jarrett com Gary Peacock e Jack DeJohnette, realizado a 30 de Abril de 2001 em Tóquio, no Metropolitan Festival Hall. Já se sabe que o ano de 2001 foi particularmente interessante para este trio – na realidade é o quarto disco a sair dos concertos desse ano. A gravação percorre composições históricas da fase be-bop como «Strollin» de Horace Silver, «Shaw’nuff» de Dizzy Gillespie e Charlie Parker, «Scrapple From The Apple» de Charlie Parker, e temas clássicos como «You Took Advantage Of Me», «Smoke Gets In Your Eyes» e «Stella By Starlight», entre outros. A gravação foi editada este ano pela ECM quer em CD quer num duplo LP de vinil, o que não acontecia na ECM desde há 15 anos. Um dos melhores trios do jazz contemporâneo numa demonstração de grande sensibilidade e refinada inteligência musical.
VER – Este ano o titular do maior prémio de fotografia, o Pictet, é o fotógrafo israelita Nadav Kander, que vive em Inglaterra. O trabalho vencedor, «Yangtze, The Long River», pode ser visto no site do fotógrafo, www.nadavkander.com – muito bem construído, com uma recolha das mais significativas reportagens que fez ao longo da sua carreira. Vale a pena verem, percorrerem as fotos da reportagem vencedora e descobrirem o universo das imagens de Kander.
PROVAR – Sala simpática, serviço atencioso, acústica agradável (uma raridades hoje em dia nos restaurantes), boas propostas em matéria de comida japonesa, a fugir um pouco do que é mais vulgar e corriqueiro hoje em dia. O restaurante chama-se Sushi Ya e tem como especialidades as massas yakisoba (noodles salteados e misturados com diversos ingredientes) e ainda as robatas, pequenas espetadas grelhadas de vegetais carne e peixe com molho agridoce. Se tem amigos que torcem o nariz a experiências japonesas experimente ir aqui – e enquanto pode experimentar sushis e sashimis com temperos inesperados, pode também provar o outro lado, menso divulgado, da gastronomia nipónica. O Sushi Ya fica na Ajuda, ao alto da Calçada da Tapada, nº106 e tem o telefone 211913819.
BACK TO BASICS – Na realidade não escrevo humor – limito-me a observar o Governo e a relatar os factos – Will Rogers
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Outubro)
O GOVERNO – Um amigo meu, particularmente cínico, diz que não é muito relevante que partido está no Governo – segundo ele a maior parte das leis está feita, as novas leis importantes são feitas em Bruxelas e ao Governo resta distribuir lugares nas administrações das empresas públicas e naquelas onde há golden share. Eu acho que este meu amigo tem humor, mas volta e meia respondo-lhe que não é indiferente a forma como cada um estabelece prioridades (nomeadamente no investimento público), como agiliza reformas (nomeadamente na justiça) e como se propõe diminuir o endividamento externo do país. Vou-lhe dizendo, perante um sorriso irónico, que também me preocupa que se mantenha a política de favorecimento de amigos, aliados ou espúrios cúmplices e que aqueles que não são da cor do Governo, ou simplesmente mantenham alguma independência, sejam preteridos e prejudicados. Mas olhando bem as coisas, na verdade, quando se reduz a governação à gestão de interesses particulares, o meu amigo está certíssimo. Se calhar ele tem mais razão do que parece à primeira vista.
A GOVERNAÇÃO – Fazer compromissos, encontrar pontos de contacto entre propostas diferentes, descobrir a forma de alcançar objectivos comuns é a essência do exercício do poder. Uma maioria absoluta gera um poder absolutista – tivemos isso durante uns anos. Uma maioria relativa gera a necessidade de entendimentos. Eu preferia que existissem acordos formais claros entre partidos diferentes, a compromissos pontuais onde já se sabe que uma parte da verdade fica escondida. Em grande parte dos países europeus não há maiorias absolutas saídas das eleições – mas os líderes partidários e os sistemas são suficientemente maduros para saberem encontrar pontos comuns que permitem um programa conjunto. Na política portuguesa confunde-se demasiadas vezes as divergências com rivalidades e inimizades – é um sinal da imaturidade dos nossos políticos, dos nossos partidos e do nosso sistema. O vencedor das eleições faria bem em estimular um acordo em vez de se posicionar à partida como atirador solitário.
LER – O número de Novembro da edição britânica da Wired (cada vez melhor, já agora), traz um interessantíssimo artigo, muito útil neste clima pós autárquicas. O tema é como desenvolver o potencial digital na gestão e na vida das cidades, em questões como o transporte, a informação, a biotecnologia ou a arquitectura. E, já agora, a revista anuncia um jogo on line (a sério, não é brincadeira), que se chama Cities XL (
www.citiesxl.com) onde os jogadores são chamados a tomar decisões sobre a gestão das cidades – muitos presidentes de Câmara haviam de ganhar com a experiência.
OUVIR – Cecília Bartoli tem tido nos últimos anos uma aproximação muito interessante aos seus trabalhos discográficos – chamemos-lhe projectos especiais, pensados e estruturados em torno de um tema, de uma história, de um personagem. Neste caso o tema escolhido foi o da música composta para os castratos – uma tradição nascida em Itália, no século XVIII, e que levou milhares de rapazes a serem privados da sua sexualidade para que a sua voz pudesse ter um timbre e uma modulação de outra forma impossíveis de atingir. Nas óperas da época, estes jovens cantores eram apreciadíssimos e o compositor napolitano Nicolo Porpora, desenvolveu o estilo e fundou uma escola para castratos que se tornou uma referência e produziu algumas das maiores estrelas da época. Intitulado «Sacrificium», em homenagem à mutilação que esses jovens cantores sofriam para que pudessem cantar as árias, o novo álbum de Cecília Bartoli recolhe uma cuidadosa selecção de árias para castratos. Na sua edição especial, inclui um precioso livrinho com minuciosa informação sobre a época, e além do CD com os registos inéditos de árias para castratos, tem também um cd adicional que inclui árias de Broschi, Giacomelli e Handel que se tornaram expoente deste estilo. É uma produção extraordinária, com uma sonoridade invulgar, onde Bartoli é acompanhada pela formação Il Giardino Armonico, dirigida por Giovanni Antonini. A edição é da Decca/Universal.
VER – Aproveitem o Outono para fazer uma visita à Gulbenkian. No edifício sede está uma exposição que revisita a Art Déco, a partir da evocação da Exposição Internacional das Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925, em Paris. Aqui estão obras, entre outros, de Lalique, Le Corbusier ou Bucheron. Se fôr ao Centro de Arte Moderna não perca a exposição «Anos 70 – Atravessar Fronteiras», comissariada por Raquel Henriques da Silva, e que mostra o que era a produção artística portuguesa daquela época, atrvés de obras de Alberto carneiro, Ana Hatherly, Costa Pinheiro, Carlos Nogueira, Leonel Moura ou Emília Nadal, entre muitos outros. O mais curioso é, a esta distância de décadas, ver quais as obras e os autores que resistiram ao tempo – nem todos o conseguiram. Finalmente, ainda no Centro de Arte Moderna, e integrada no Festival Temps d’Images, está uma instalção vídeo de três filmes do dinamarquês Jesper Just, que tem apresentado grande parte da sua obra em Nova York.
PROVAR - Ainda estou para descobrir porque é que existe uma espécie de relutância em frequentar os restaurantes dos bons hotéis. Há excepções, claro, mas a convicção geral é a de que esses locais são para os hóspedes e para turistas. Nos dias de hoje isso é um erro crasso e uma assinalável injustiça para as equipas que estão nas cozinhas dessas unidades hoteleiras. Nas Avenidas Novas, na R. Tomás Ribeiro, ás Picoas, bem junto da Igreja de São Sebastião da Pedreira, está o Hotel Real Palácio e o seu restaurante, Guarda Real, merece uma visita. À frente da cozinha está um jovem chefe, Celestino Grave, que procura inovar com base em produtos tradicionais portugueses. Da lista do dia constava uma tempura de bacalhau com arroz de legumes perfumado com óleo de trufas que estava fantástica. Na lista estão várias boas propostas de que destaco o pargo com xarém de camarão, um arrozinho malandro de frango e legumes e a vazia de vitela mirandesa com vinagrete vilão. O serviço de vinhos é impecável e as sobremesas têm outras surpresas como uma trilogia que inclui uma espuma de arroz doce, um shot de pastel de nata e um gelado de toucinho do céu. Rua Tomás Ribeiro 115, tel. 213 199 500.
BACK TO BASICS – É sempre com a melhor das intenções que se faz o pior trabalho – Oscar Wilde
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
PÓS ELEIÇÕES (J Negócios 16 OUT)
ELEIÇÕES – Esta semana dei por mim a pensar que um dia destes valia a pena escrever um «Diário» das eleições para Lisboa., a começar por umas reflexões sobre o calendário eleitoral que, na prática, condicionou de forma perversa a campanha para as autárquicas. Para mim, que fui candidato à Presidência da Assembleia Municipal da lista «Lisboa Com Sentido», de Pedro Santana Lopes, foi uma experiência fantástica e enriquecedora – mesmo tendo sido o PS o vencedor em Lisboa, com larga ajuda de apoios directos do PC, como Carvalho da Silva, Carlos do Carmo e José Saramago. António Costa, o vencedor da noite, afirmou-se como o dirigente do PS capaz de federar a esquerda e esse será um capital político que não deixará de usar nas intrigas internas do seu partido. Para conseguir juntar a péssima açorda política que arregimentou, diabolizou desde o primeiro dia Santana Lopes, que tornou no símbolo do mal, a quem interessava derrotar a todo o custo. Como mais tarde se recordará, para o conseguir não hesitou em juntar nomes de convivência improvável, não apresentou programa para além da obediência ao Governo, e, na prática, transformou os Paços do Concelho em sede da sua campanha contra Santana Lopes. Todos – e creio que foram alguns - os que sendo de centro-direita ou até de direita se fingiram assustar com o papão e votaram vingativamente Costa, numa diletante atitude de angélico e ingénuo comportamento, poderão ver agora o que faz em Lisboa um PS com maioria absoluta e sem desculpas de dificuldades em aprovar medidas. Como o tempo já provou, e estou certo que voltará a provar, os grandes negócios em Lisboa fazem-se com o PS no poder – existe nos círculos da especulação imobiliária, das obras públicas e dos grandes prestadores de serviço a convicção de que «com o PS é que a gente se governa». A tarefa é facilitada porque o argumentário ideológico utilizado pelo PS serve de desculpa e capa protectora para atitudes pouco claras. Um querido amigo meu dizia-me segunda feira que a Mota-Engil tinha sido de facto, em sentido figurado, a vencedora das eleições em Lisboa. Como os leitores deste jornal bem sabem, a Bolsa interpretou as coisas exactamente dessa forma.
VER – Gertrude Stein escreveu o conto infantil «The World Is Round» em 1939 e até agora não existia nenhuma edição portuguesa desta obra. A lacuna foi resolvida com uma edição especial, assegurada pela Galeria João Esteves de Oliveira com base na tradução que Luísa Costa Gomes fez da obra, ilustrada com desenhos a tinta da china sobre papel da autoria de Jorge Nesbitt. É a colecção dos originais criados para ilustrar o livro que a Galeria expõe desde a semana passada e o resultado é surpreendente. Nesbitt, que tem feito um percurso criativo multifacetado, com passagem de destaque pela banda desenhada portuguesa contemporânea, tem-se afirmado, através das suas várias exposições, como um artista que cria universos visuais por vezes surpreendentes, como acontece nesta exposição – em que o recurso à tinta da china acentua a exploração de um imaginário povoado de referências no domínio do Fantástico. A exposição fica até 13 de Novembro, na Rua Ivens 38,
www.jeogaleria.com.
LER – Em 1991 Douglas Coupland tornou-se conhecido com «Generation X: Tales For An Accelerated Culture», um livro sobre a geração nascida no início dos anos 60. Coupland tinha nessa altura 30 anos e o livro era a caracterização dos hábitos, costumes e cultura dos jovens adultos no final dos anos 80. A obra marcou a literatura contemporânea e afirmou o seu autor. 18 anos depois Coupland volta a contar a história de uma geração, desta vez no futuro, num mundo onde várias formas de vida se extinguiram e as abelhas se tornaram uma rara preciosidade, subversiva, perigosa de deter sob qualquer forma. «Generation A», o livro que Coupland acabou de publicar, é um livro sobre as gerações de um mundo mais digital que possamos imaginar, nalguns momentos quase uma réplica contemporânea da obra de Orwell. Com uma forma narrativa inventiva, invulgar e arrebatadora, «Generation A» passa-se em torno de 5 personagens, espalhadas por outros tantos pontos do Mundo, e que têm nas abelhas o ponto comum – são aos mesmo tempo rebeldes e sobreviventes, lutadores e guardiões de um mundo que se extingue. Mas «Generation A» é também uma história sobre o Poder, sobre a utilização do Poder e sobre aqueles que o detêm e os que o querem conquistar. Muito, mas muito oportuno. (Versão original na Amazon).
OUVIR – Não se assustem com os primeiros segundos de «Outdoor», o segundo disco dos La La La Ressonance, agora editado. Partindo de influências do jazz, este quinteto português mistura-as com sonoridades pop e consegue uma fusão invulgar, às vezes a evocar ora sonoridades de formações de câmara, ora música improvisada. «Outdoor» é uma aposta criativa arriscada, mas bem conseguida, e uma das boas surpresas editoriais do panorama nacional no corrente ano. Dos 12 bons originais, compostos pelo quinteto, a minha preferência vai para «Free Radicals», tema mesmo a jeito para remisturas ou para utilização como banda sonora.
PETISCAR – Nestes dias de um inesperado calor outonal vale a pena considerar uma proposta de um belo terraço em cima do rio, longe de contentores, na doca do Jardim do Tabaco. Estou a falar do Xico’s, um bom local para almoçar nestas belas tardes de sábado ou domingo. O estacionamento é fácil (tem parque ao lado). Uma boa proposta de petisco de entrada é o carpaccio de polvo, se lhe apetece alguma coisa leve experimente as favinhas guisadas, o entrecôte café de Paris é célebre (e com razão), há saladas para quem quer evitar desvarios, mas também há um bacalhau lascado à lagareiro a merecer referência. Serviço às vezes um bocado irritantemente desatento, garrafeira boa, preços razoáveis. «Xico’s»,
www.xicos.pt, tel. 211 515 480.
BACK TO BASICS – O primeiro passo no progresso de um homem ou de uma nação é o descontentamento – Oscar Wilde
Domingo, 11 de Outubro de 2009
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LISBOA - Um estudo recente mostra que, entre 1991 e 2008, Lisboa perdeu 26,3% dos seus habitantes. Deste total de 18 anos, em quase 13 a Câmara Municipal foi governada pelo PS, nomeadamente de forma ininterrupta até final de 2001. Ao longo de todo este período Lisboa perdeu uma média de 10.000 habitantes por ano, não conseguiu reter os mais novos, está envelhecida, perdeu competitividade, não foi capaz de atrair as indústrias não poluentes de alta tecnologia, as empresas de software ou de promover um programa de desenvolvimento e atracção das indústrias criativas (que em Nova Iorque significam 7% do total de postos de trabalho da cidade). Vítima de uma total ausência de estratégia, vítima de uma perspectiva conservadora de planeamento e de um caldeirão de interesses que na realidade tem tido poder e capacidade de influência, Lisboa perdeu peso e influência política, perdeu autonomia face ao poder central e descaracterizou-se. Na realidade, nesta campanha, assistimos a um facto insólito: a principal linha programática de António Costa é deixar o Governo mandar em Lisboa - na zona ribeirinha, no aeroporto, nas acessibilidades, nos transportes públicos. A perder equipamentos e a ficar com sectores antiquados, quase a viver só da máquina do Estado, a queda de receitas é inevitável e a perca de competitividade. É preciso ter ambição para inverter o ciclo de decadência e fazer Lisboa reencontrar-se com o futuro.
VISITAR – Amália domina o panorama das inaugurações. Em primeiro lugar destaque para «Amália – Coração Independente», a exposição que se divide entre o Museu da Electricidade-Fundação EDP e o Museu Berardo, no CCB. Na EDP está a pouco conhecida e extraordinária colecção pessoal de jóias da artista e alguns dos fatos que usou em palco. E no CCB está uma enorme exposição, que cruza a história e documentação da carreira de Amália com criações contemporâneas que reinterpretam a sua obra, como acontece com Joana Vasconcelos ou, no vídeo, com o trabalho apresentado por Bruno de Almeida, por exemplo. Na parte histórica e documental, para além dos numerosos cartazes, capas de discos e revistas, destaque para as fotografias, em especial de Mestre Augusto Cabrita e do fotógrafo Silva Nogueira, que entre 1942 e 1954 mais e melhor a retratou. Destaque ainda para o excelente catálogo desta exposição, uma verdadeira peça imprescindível para quem se interessa por Fado e, naturalmente, por Amália Rodrigues. Estas duas exposições estarão patentes até 31 de Janeiro. Uma nota final para uma outra exposição, das iconográficas imagens de Amália, elaboradas por Leonel Moura (sim o senhor aqui ao lado, nesta página) a partir de fotografias da fadista e patentes na galeria António Prates em Lisboa (até 7 de Novembro). Finalmente gostaria de chamar a atenção para uma outra exposição, no Teatro de S. Luiz, «As Mãos Que Trago», dedicada ao compositor Alain Oulman, um nome decisivo da fase mais marcante e criativa da carreira de Amália (até 31 de Dezembro).
OUVIR – Paulo Furtado é um dos mais criativos e interessantes músicos portugueses contemporâneos. Depois de ter sido um dos fundadores dos Tédioboys, a sua actividade divide-se hoje entre ser o vocalista e principal compositor dos Wraygunn – uma das poucas bandas rock portuguesas a ter algum sucesso internacional e carreira regular além fronteiras nos últimos anos. Sob a designação Legendary Tigerman, Paulo Furtado dá largas à sua atracção pelos blues e tem também uma curiosa carreira independente nos Estados Unidos. Compositor criativo, com um raro sentido rítmico, é um instrumentista polifacetado, tocando guitarra, bateria e muitas vezes harmónica. O seu novo álbum, o quinto da carreira, tem a particulariedade de incluir nove cantoras convidadas que dividem com Paulo Furtado a interpretação das quinze canções do CD «Femina». Sem cair em exageros este é dos discos que mais gôzo me deu ouvir neste ano e é provavelmente um dos melhores discos portugueses da década. Destaco temas como «Life Ain’t Enough For You» com Ásia Arento, «She’s a Hellcat», com Peaches; «No Way To Leave On A Sunday Night» com Becky Lee, «Light Me Up Twice» com Cláudia Efe e, acima de todos os outros, «Lonesome Town», um clássico de Baker Knight, numa interpretação mágica de Rita Red Shoes. A edição inclui ainda um DVD – já que Paulo Furtado é tembém relizador e mostra curtas metragens feitas propositadamente para esta edição. CD e DVD «Femina», Legendary Tigerman, Edição EMI.
LER – A nova edição da revista «Monocle» (nº27, de Outubro) tem um interessante artigo sobre os serviços militares em diversos países europeus, mas o prato forte é mesmo um especial Tóquio que faz ter vontade de descobrir aquela cidade. Outros pontos de interesse: um guia para o norte de Espanha, à descoberta da cidade australiana de Darwin e, sobretudo, um curioso artigo sobre a vitalidade da produção de documentários na Noruega (uma coisa exemplar que a RTP tinha obrigação de estudar e seguir…). Em www.monocle.com uma novidade: uma coluna diária sobre os mais variados temas, quase sempre interessante.
PETISCAR – Em pleno Saldanha, no centro de Lisboa, com uma magnífica vista sobre a praça, existe um bar-restaurante que merece alguma atenção. Ao almoço está cheio de gente dos escritórios vizinhos (ali estão algumas grandes empresas de consultoria), o bar ao fim da tarde é animado e o restaurante à noite é sossegado mas não mortiço. Da ementa consta um leque apreciável de saladas, diversas massas, alguns pratos vegetarianos, umas inesperadas gambas à Brás, várias possibilidades de Bacalhau, peixes grelhados triviais, uma boa lista de bifes (boa carne, bem cozinhada) além de várias propostas de porco preto. O serviço é atencioso, as mesas são muito confortáveis, os preços razoáveis. Uma boa alternativa nesta zona da cidade. Entrada pela Av. Casal Ribeiro 63, Tel. 213528242
BACK TO BASICS – O nosso último dever com a História é voltar a escrevê-la (Óscar Wilde).
Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
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ALMANAQUE – O PS perdeu a maioria absoluta e precisa de fazer coligações; logo no dia a seguir às eleições alguns escritórios de advogados foram objecto de aparatosas buscas televisionadas, relativa à compra de submarinos decidida quando o CDS tinha a pasta da defesa; o CDS é o único partido que em conjunto com o PS asseguraria uma maioria estável; o Presidente da República fez uma esfíngica declaração pública sobre o caso das escutas, que deixou o PS furioso.
MUNDO MEDIÁTICO - também no dia a seguir às eleições a Ongoing adquiriu uma participação importante na Media Capital (TVI) e provavelmente terá que vender a participação que detém na Impresa (SIC). Especula-se que a PT, que não comprou uma participação na Media Capital por ordem governamental, pode agora virar-se para a SIC e fazer parte de toda esta solução de nova paisagem audiovisual. O mundo às vezes é perfeito, nós é que complicamos.
DESAPARECIDOS – O fenómeno eleitoral mais estranho é o desaparecimento virtual da CDU e do Bloco de Esquerda na campanha eleitoral autárquica de Lisboa. O desaparecimento é tão flagrante que até parece que estão a fazer de propósito para não disputarem muitos votos ao PS. Estou bem curioso para ver como isto evolui.
PERGUNTA CURIOSA – Será verdade que António Costa recusou um frente –a- frente na TVI com Pedro Santana Lopes na próxima semana?
BOLSO – Como a crise é o que todos sabemos, a sempre inesperada revista «Egoísta» assumiu a sua quota parte deste momento difícil e fez uma edição especial, de pequeno formato, a que chamou «Crise de Bolso». Aqui está mais um número desta revista que vai ser peça de colecção - até porque, sendo pequena em tamanho, tem artigos com assinaturas de peso: Cavaco Silva, António Barreto, Eduardo Lourenço, Muhammad Yunus. Destaque para as mini-reproduções de pinturas de João Vaz de Carvalho e para as fotografias de Pedro Cláudio. Esta «Crise de Bolso» da «Egoísta» é mesmo deliciosa.
OUVIR – J.J. Cale não lançava um álbum de inéditos desde 2004, de modo que o lançamento, este ano, de «Roll On» é um acontecimento maior para os seguidores deste «bluesman». O novo álbum foi, na realidade, feito a partir de gravações efectuadas em 2003 e a faixa que dá o título ao álbum, «Roll On» é feita em parceria com Eric Clapton, que fez as mais célebres versões de duas canções originais de Cale, «Cocaine» e «After Midnight». Considerado um dos maiores compositores e músicos de blues norte-americanos, J.J. Cale volta a dar neste trabalho uma boa amostra de todas as suas capacidades. Destaque para as faixas «Who Knew», «Former Me», «Down to Memphis», «Old Friend» e, claro, «Roll On» .
VER – O edifício Transboavista (Rua da Boavista 66) continua a ser um dos mais animados e surpreendentes espaços da arte contemporânea em Lisboa. Na nova série de exposições o destaque vai para Rita Soromenho que, na Creamarte, expõe, a partir de um suporte fotográfico, novas formas de encarar naturezas mortas em «Nem Tanto Ao Mar, Nem Tanto À Terra». Na Plataforma Revólver está uma colectiva que junta trabalhos de jovens artistas de várias nacionalidades sob o título «Heimweh- Saudade», uma opção que está ligada ao início da criação de residências com artistas estrangeiros convidados a permanecer e a criar no edifício Boavista durante pequenas temporadas. Finalmente João Gonçalves apresenta na Rock Gallery «Do Subterrâneo Opaco». Todas as exposições estão patentes até 7 de Novembro. Mais detalhes em transboavista-vpf.net.
LER – Quer saber como pode criar e aperfeiçoar uma marca em torno de si próprio? Então leia com muita atenção «The Big Sell», o artigo que Peter York escreveu para a mais recente edição da revista «intelligent life», uma publicação trimestral da «The Economist». York dá alguns conselhos para aumentar a auto-confiança e para aplicar o marketing em proveito da própria imagem das pessoas - «personal branding». Esta é uma daquelas revistas com muito para ler e que vale bem a pena.
PETISCAR – Em Lisboa há vários restaurantes alentejanos, mas o D’Avis é dos mais antigos e mais reputados. Da lista fazem parte migas gatas de bacalhau, cação frito com pimentão, migas no pingo do entrecosto e pezinhos de porco de coentrada, entre várias outras sugestões. A tradição é bem seguida na confecção destas especialidades, a matéria prima é boa, o serviço é esforçado. O preço final é aceitável, a garrafeira é extensa e a casa tem uma daquelas decorações, digamos, very typical. Mas o resultado final num jantar de amigos é muitíssimo superior à média. Rua do Grilo nº96 (ao lado da Igreja do Beato), tel. 218681354
BACK TO BASICS – Uma ideia que não é perigosa não merece ser considerada uma ideia (Oscar Wilde)
Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
(blicado no Jornal de Negócios de 25 de Setembro)
FUTURO – A próxima semana promete ser muito agitada: que maioria vai sair das eleições? Como é que o método de Hondt pode influenciar o resultado em número de deputados – quer nos pequenos partidos, quer em alguns círculos eleitorais? Qual a atitude que o Presidente da República tomará na interpretação dos resultados, depois da forma como agiu antes das eleições?
RECORDAR – As eleições servem para fazer o julgamento de quem está no Governo. Por isso vale a pena recordar que nos últimos quatro anos se assistiu a um aumento da carga fiscal; vale a pena recordar como as reformas dos trabalhadores por conta de outrem ficaram penalizadas; vale a pena recordar o clima de tensão na educação; vale a pena recordar as reformas não executadas na saúde; vale a pena recordar os abusos de entidades tão diversas como a ASAE e a ERC; vale a pena recordar o falhanço das entidades reguladoras em sectores como a energia e a banca; vale a pena recordar que a política cultural foi inexistente; e vale a pena recordar que no ano passado Portugal foi o país que mais fundos comunitários perdeu por atrasos na sua utilização, a maioria dos quais na agricultura, um sector arruinado nestes quatro anos.
ESCUTAS – Uma coisa é certa: na opinião pública ficou a ideia de que a Presidência da República armou uma tempestade, impossível de criar sem o conhecimento do próprio Presidente da República. Por isso, o seu silêncio, por vezes ruidoso, não ajuda nada a perceber o que se passa. Como se sabe, Cavaco Silva gosta de criar tabus e nem sempre se sai bem deles. Sobre a essência dos factos nada desmentiu até hoje e, antes pelo contrário, nas curtas palavras que sobre o assunto proferiu, deu a entender que tencionaria investigar o sucedido. A forma como tudo se passou vai ter custos políticos, graves. E este será certamente um dos casos de que se vai voltar a falar quando houver nova eleição presidencial, daqui a dois anos. Claro que por esclarecer fica outra coisa: como é que alguém teve acesso a correspondência interna de um jornal e a passou primeiro a um semanário e, depois, a outro diário? Se isto não é uma história de espionagem, o que é?
FOTO – O momento fotográfico da semana foi a imagem que vários jornais utilizaram para ilustrar uma visita de José Sócrates aos emigrantes portugueses em Paris: Manuel Maria Carrilho e Ferro Rodrigues a acompanharem Sócrates ao TGV. O ridículo por vezes é fatal.
TRÂNSITO – Há 15 dias voltei a andar de scooter pelas ruas de Lisboa, coisa que já não fazia há uns anos. No caos dos engarrafamentos constantes é a única solução para circular de um lado para o outro na cidade sem perder muito tempo. Mas constato que a mesma Câmara de António Costa e Ricardo Sá Fernandes, que faz à pressa ciclovias de estranho traçado como a de Telheiras, não tem cuidado com a segurança de quem se desloca em duas rodas: não usa tinta anti-derrapante nas marcações; nada faz para remover os carris de eléctricos que já não estão em utilização; nada faz para nivelar as tampas de esgotos – muitas autênticas armadilhas; permite que o pavimento de grande parte das ruas seja uma montanha russa de remendos e não obriga os autores dos constantes buracos que se abrem a deixar o piso em boas condições. Para garantir a segurança de quem usa veículos de duas rodas – com ou sem motor – é que não se vê nada feito em Lisboa. O resto é obra eleiçoeira.
VISITAR – A Casa das Histórias Paula Rego, inaugurada a semana passada em Cascais, é um exemplo de bom equipamento cultural, construído de raiz. A arquitectura, no exterior, é uma boa surpresa e, no interior, é de uma eficácia enorme para o objectivo de mostrar artes plásticas – no caso quadros e desenhos. Depois, há muito mais pintura do que aquela que inicialmente se sabia ir existir. Paula Rego entusiasmou-se com o projecto e para além de esboços, estudos e desenhos, trouxe peças importantes da sua obra. Adicionalmente, a área de exposições temporárias da Casa, tem um conjunto de obras da artista cedidas pela Galeria Marlborough, verdadeiramente a não perder. Por último a loja da Casa das Histórias é do melhor que nesta matéria se tem feito em Portugal, graças a uma série de peças de merchandising, desde pens para computador até figuras de louça da Fábrica Bordallo, tudo inspirado na obra de Paula Rego.
FOLHEAR – Muito boa a edição comemorativa do 4º aniversário da revista «N*Style». Sob o tema das tendências de moda para este Outono, a revista é um exemplo de boa fotografia, bom alinhamento editorial e boa paginação. Destaque ainda para as entrevistas com Eduarda Abondanza sobre a Moda Lisboa e com José António Tenente.
PETISCAR – Confesso que iscas à portuguesa é um dos meus petiscos preferidos. Esta semana revisitei a Cave Real e provei umas magníficas iscas, temperadas no ponto certo, cortadas bem finas, como deve ser. A Cave Real é um restaurante onde a cozinha tradicional portuguesa domina, baseada em ingredientes de qualidade e numa confecção sólida e conservadora. Aqui não há grandes rasgos de imaginação, mas o serviço é acolhedor e eficaz, o ambiente é simpático (apesar da presença ocasional do Ministro das Finanças…) e as mesas são confortáveis. Cave Real, Av. 5 de Outubro 13-15 (junto à Maternidade Alfredo da Costa), tel. 213 544 065.
OUVIR – Pete Yorn é um compositor e guitarrista Americano, autor de grandes canções, cuja carreira começou em 2001. Em 2006 pegou em nove canções da sua autoria e fechou-se em estúdio com a actriz Scarlett Johansson, que vai fazendo incursões na música (por exemplo gravou uma série de versões suas de canções de Tom Waits e de Jeff Buckley) . O resultado desta parceria entre Pete Yorn e Scarlett Johansson é o álbum «Break Up», agora editado. São nove canções pop, deliciosas, num disco despretencioso e envolvente, que vai fazendo a narrativa de alguns episódios de uma relação imaginada.. Destaques para «Relator», «Search Your Heart», «Shampoo» e «Someday». Ao princípio o contraste entre a voz de Yorn e a de Johansson parece estranho, mas depois esse contraste torna-se num dos motivos de atracção deste disco.
BACK TO BASICS – A moralidade é sempre o único refúgio das pessoas que não têm o menor sentido ético – Óscar Wilde
Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
(Publicado no Jornal de Negócios do dia 11 de Setembro)
RESUMO DA SEMANA – Efeito TGV: a campanha acelerou, Sócrates disse que Zapatero é o seu maior amigo na Europa, mas não falou dos problemas que temos com os espanhóis quanto ao caudal dos rios comuns. O ponto alto dos últimos dias foi a volta de helicóptero que Louçã deu por cima da Arrábida – as imagens da devastação causadas pelas pedreiras em plena zona protegida, e que segundo Louça têm tido a benção de Sócrates, são um exemplo do que nunca deveria ter podido acontecer.
GATO – É oficial: o esmiuçar do Gato Fedorento aos políticos atinge recordes de audiência (muito mais que os debates) e tornou-se num incontornável ponto da campanha. Mas esta invasão do humor na política mostra como tudo está a mudar. Nenhum político quer correr o risco de não estar presente, de hostilizar o capital de simpatia que o Gato Fedorento ganhou nos últimos anos. Este é o primeiro episódio de um virar de página na relação da televisão e dos media com os políticos, à semelhança do que tem acontecido, desde há muito, em outros países. Dantes os políticos aproveitavam-se dos media e das estrelas mediáticas; agora os media e as estrelas mediáticas exploram os políticos para estimularem as audiências. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…
MUDANÇA – Esta mudança de atitudes poderia ter alguma consequência lógica no funcionamento das campanhas. Por exemplo – os tempos de antena tornaram-se momentos obsoletos em contraste com os sites das diversas campanhas, que, regra geral, são actualizadíssimos e ricos em conteúdo. Por outro lado a proibição da utilização de publicidade comercial surge hoje como uma mera fantasia, fabricada no tempo em que tudo era apenas feito com militância. Os outdoors partidários que pululam pelo país não pertencem a empresas de publicidade, mas raramente são colocados e mantidos por militantes, e sim por empresas de serviços que aproveitam este nicho de mercado. Na realidade vai dar ao mesmo – mas era mais transparente se esta lógica da compra de serviços, que existe e cresce no mercado eleitoral, fosse mais alargada e mais transparente. Muita coisa deverá ter que mudar nas leis eleitorais sob pena de, num futuro próximo, ninguém conseguir comunicar eficazmente. E as consequências disto, já se sabe, são menor esclarecimento, maior abstenção, menor participação cívica.
REGULADORES – O lançamento do livro de Filipe Pinhal deu uma má semana a Vítor Constâncio. O regulador da Banca ficou com as orelhas a arder – mas a situação chamou a atenção para um problema mais lato: nestes quatro anos o PS exerceu o poder como nenhum outro governo em décadas recentes. E exerceu-o provocando situações, forçando alterações, manobrando em proveito de objectivos próprios. Aconteceu assim na Banca, aconteceu assim na Comunicação, aconteceu assim no Mercado. As entidades reguladoras, como o Banco de Portugal, a ERC, e a Autoridade da Concorrência não se livram de serem consideradas cúmplices da política do Governo, surgindo umas vezes autoritárias e intervencionistas, outras cegas e amorfas, conforme as conveniências.
AUTÁRQUICAS – Desenganem-se: não vou falar (hoje) de Lisboa. Vou falar de Nova Iorque, onde Michael Bloomberg se candidata, excepcionalmente e graças a uma autorização especial, a um terceiro mandato, contra William Thompson, do Partido Democrata. O curioso é que, em Nova Iorque, por cada cinco democratas registados existe apenas um republicano, um rácio que não tem impedido Bloomberg de ganhar repetidamente, perante elogios e apoios face à obra feita, nomeadamente com melhores serviços municipais, melhores escolas, menos crime e mais segurança. Bloomberg, um independente apoiado pelos Republicanos, é um caso raro na política americana e é muito interessante ler o seu perfil, intitulado «The Untouchable», publicado na edição de 24 de Agosto da revista «New Yorker» e disponível na internet no site da revista.
PETISCAR – Miguel Castro e Silva, um dos mais famosos Chefes de Cozinha do Porto, abriu em Lisboa o pequeno restaurante De Castro. Talvez não seja bem um restaurante – é mais uma casa de petiscos: pequenas empadas de legumes, moelas picantes, morcela com puré de maçã e pratos mais substanciais como as extraordinárias amêijoas com feijão manteiga. A qualidade, quer da matéria prima, quer da confecção, é superior – aliás o próprio Miguel Castro e Silva tem estado na cozinha. Com uma boa lista de entradas e de pratos quentes, preços comedidos, curta mas boa selecção de vinhos e a particulariedade de servir almoços e petiscos non-stop até às seis da tarde (jantares só mais à frente), a casa tem tudo para funcionar. Falta-lhe apenas uma coisa, fundamental: melhor serviço, maior atenção aos clientes, maior cuidado no acompanhamento dos pedidos. A casa é pequena, tem apenas uma dúzia de mesas, não há necessidade de estragar tão boa comida com tão fraco serviço. Basta um bocadinho mais de organização e atenção: já vi restaurantes maiores funcionarem melhor com menos gente – às vezes basta que haja um responsável de sala, atento e de olhos bem abertos, que perceba o que falta em cada mesa. De Castro, Avenida Elias Garcia 180 B, telefone 217 979 214.
OUVIR – Estando eu um bocadinho farto da barulheira em torno da remasterização digital de uma dezena de discos dos Beatles, que já tenham em várias versões, resolvi comprar a excelente revista britânica de música «Mojo» que na edição de Outubro (já à venda em vários locais), e medinte apenas €8.10, oferecia um CD que é a versão 2009 de Abbey Road (capa replicada e tudo), com as suas canções interpretadas por músicos actuais. Assim os The Invisible fazem uma boa versão de «Come Together», Robyn Hitchcock excede-se em «I Want You», assim como se recomendam as prestações dos Broken Records («Oh! Darling»), Gomez («Sun King»), Blue Roses («Golden Slumbers»), Leisure Society («Something»), Glenn Tilbrook com os Nine Below Zero («You Never Give Me Your Money») e Karima Francis («Sher Came In Through The Bathroom Window») . Ouço-o todos os dias.
BACK TO BASICS – A experiência pessoal é o círculo mais vicioso e limitado – Orson Welles
Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009
A ESPANHA
As declarações de Ferreira Leite sobre Espanha feriram os ouvidos sensíveis das virgens ofendidas com o tema - mas talvez possam recordar-se que a Espanha é imensamente proteccionista, que as empresas portuguesas têm mais dificuldade em entrar no mercado espanhol que vice-versa e que a Espanha tenta sempre dar-nos uma facadazita na questão do caudal dos rios internacionais. Miguel de Vasconcelos, o aliado do domínio dos Filipes em Portugal, tem muitos seguidores neste século XXI - talvez valha a pena recordarem-se que ele acabou defenestrado.
Alguns cómicos argumentam que tais coisas são impensa´veis em tempos de globalização - são pobres de espírito, bem entendido, que têm tendência a confundir o sonho com a realidade.