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REPORTAGEM - Olhando para os últimos dias verifico que os melhores trabalhos de reportagem sobre a catástrofe dos incêndios estiveram em jornais impressos ou em sites de informação, nomeadamente no Observador. Domingo de manhã apenas o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias tinham chamadas de capa em destaque evidenciando a dimensão do que estava a acontecer; a edição do Público desse dia era particularmente desajustada da actualidade - valeu-lhe o site que foi recuperando o que o papel falhou. No Observador encontrei as primeiras grandes reportagens, bem escritas, descritivas, com informação, com episódios das vidas das pessoas, com pequenas histórias que ajudavam a fazer o grande retrato do que se passou. Foi no Observador, e também no Público online, que vi as melhores fotografias destes dias - e devo dizer que neste caso a reportagem fotográfica fixou momentos de enorme intensidade e dramatismo, sem sensacionalismos, e ajudando a compreender o que se passou e como as mensagens oficiais se afastavam da realidade que as imagens acabaram por mostrar. O Correio da Manhã TV foi a estação que mais depressa começou a fornecer imagens e relatos e não foi por acaso que este foi o canal noticioso mais visto nesses dias. A RTP3 desta vez conseguiu bater pela sobriedade e rigor a SIC Notícias e a TVI24. A rádio acabou por ser o meio onde menos notei reportagens exemplares. Neste tempo do video, e apesar dos momentos já referidos, não deixa de ser curioso que as melhores reportagens, na minha opinião, tenham sido escritas e fotografadas - quer tivessem sido publicadas em papel ou online. É o triunfo da escrita numa ocasião terrível. E foi-o graças a um regresso à melhor forma de jornalismo - a reportagem. Do resto não falo.

 

SEMANADA - O plano contra incêndios não foi avaliado nos últimos quatro anos;  pelo menos 64 bombeiros morreram em serviço ao longo dos últimos 17 anos; Portugal é o país da europa do sul que registou maior número de fogos florestais entre 1980 e 2013;  até quarta-feira à noite o Governo ainda não tinha ordenado à Inspecção Geral da Administração Interna nenhum inquérito global aos fogos do passado fim de semana; na internet as menções aos acontecimentos de Pedrógão Grande provieram, em 34%, do Facebook, 32% foram observadas no Twitter e 31% em notícias online - indica um estudo da Marktest;  a fibra óptica já é a principal forma de acesso à internet em Portugal, tendo ultrapassado o cabo; a internet em banda larga móvel é utilizada por 6,5 milhões de pessoas; segundo a Marktest, entre Janeiro e Abril de 2017, os portugueses dedicaram 399 milhões de horas à Internet na navegação a partir de computadores de uso pessoal; a Europa recebeu 1,5 milhões de refugiados desde 2015; as compras de automóveis feitas por empresas de aluguer de carros cresceram 26% em função do boom do turismo; em Lisboa existem 2051 pessoas referenciadas como sem-abrigo; o exame de português realizado segunda-feira corre o risco de ser anulado por ter circulado no whatsapp uma gravação que revelava a matéria que iria sair - e que acertou em cheio, citando como fonte uma explicadora, dirigente sindical, que teria passado a informação a uma explicanda sua.

 

ARCO DA VELHA - Um homem invadiu uma casa no Intendente para tentar roubar e violar uma mulher de 85 anos que se defendeu mordendo os orgãos genitais do assaltante, levando-o a fugir - o relato foi feito pela própria às autoridades.

 

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FOLHEAR - A revista que vos trago esta semana é o exemplo da convivência entre o digital e o papel. Neste caso essa convivência existe não nos canais de distribuição de conteúdos, mas sim na equipa que a faz. Grande parte dos elementos com responsabilidades editoriais trabalham simultaneamente neste projecto e em plataformas digitais de última geração como o Quartz e o Medium. Editada duas vezes por ano, a  “Anxy" dedicou a sua primeira edição à raiva - “The Anger Issue”. A revista é um mix cuidado de belos textos, portfolios fotográficos invulgares e um grafismo surpreendente. É editada duas vezes por ano e apresenta-se como uma publicação dedicada a apresentar narrativas pessoais sobre emoções, abordando temas como a ansiedade, a depressão, o medo, a raiva, o trauma e a vergonha, numa incursão que pretende abordar a saúde mental de uma forma diferente, através de exemplos de vulnerabililidade. Nesta edição inaugural a entrevista é com a escritora Margaret Atwood, a autora de “The Handmade’s Tale”; há uma série de ensaios e narrativas de pessoas que lidam diariamente com a raiva e o desespero de outros, desde criados de mesa, a vendedores de lojas de roupa ou cosmética ou, ainda, de agentes de execução que vão penhorar bens em nome de bancos; a grande reportagem é dedicada à instabilidade política na Turquia e aos problemas emocionais que ela fomenta no país; e finalmente há três portfolios fotográficos absolutamente excepcionais. Destaco o de Matt Eich, um dos grandes fotógrafos norte-americanos actuais (procure a conta dele no Instagram), numa visão pessoal do seu próprio universo familiar - um dos melhores ensaios fotográficos que vi nos últimos tempos; dois outro merecem destaque : Melissa Spitz mostra a relação tensa que tem com a sua própria mãe e Brian Frank visita o universo das prisões. São três momentos imperdíveis. Pode comprar a Anxy no site da revista - www.anxymag.com .

 

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VER - A mais recente aventura de Pedro Cabrita Reis é um livro de autor, em que o artista mostra desenhos inspirados pelo poema “Cântico Negro”, de José Régio, que é reproduzido na edição (na foto). Este trabalho começou a ser idealizado há três anos, depois de uma exposição do artista no Rio de Janeiro, o plano editorial e a direção gráfica são da responsabilidade de Cabrita Reis com Lucia Bertazzo e Leonel Kaz, de UQ! Editions, editora brasileira, que tem produzido  livros de artista, sempre com originais. As encadernações da caixa e do grande estojo são obra do Atelier Dreieck, em Paris, que se serviu de um tecido de linho e algodão de um laranja intenso. A tiragem é de 70 exemplares, dos quais 20 estão disponíveis na Galeria João Esteves de Oliveira. Cada caixa inclui um desenho original de Pedro Cabrita Reis, em acetona e pigmentos, trabalhados em folhas de 200x126 cms. Os 20 originais correspondentes a outra tantas caixas estão expostos na Galeria (Rua Ivens 38). Outros destaques: no MAAT inaugurou uma exposição de Fernanda Fragateiro , “Dos arquivos, à Matéria, à construção” e uma outra exposição com os trabalhos dos seis finalistas à edição do prémio EDP Novos Artistas deste ano, escolhidos entre mais de 600 candidaturas.

 

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OUVIR - No final de Maio de 1967 foi lançado o oitavo disco de originais dos Beatles - Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Foi um êxito, na crítica e nas vendas, e esteve durante 27 semanas em primeiro lugar do top britânico de álbuns. Inclui alguns temas famosos como “With A Little Help From My Friends”, “Lucy In The Sky With Diamonds”, “When I’m Sixty Four”, “She’s Leaving Home” e “A Day In The Life”. A ideia do disco foi criar um alter ego dos Beatles, a Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que se pudesse aventurar por territórios diferentes. As gravações começaram no final de 1966, depois de os Beatles terem decidido parar definitivamente com os concertos e as digressões. O facto de estarem a trabalhar num disco que não seria tocado ao vivo proporcionou a oportunidade de experimentarem técnicas novas de gravação e manipulação de som e de incluírem uma orquestra de 40 elementos. Nas numerosas sessões de gravação nos estúdios da EMI, em Abbey Road, dois dos primeiros temas a serem gravados foram “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”, que não estão incluídos no álbum original porque a EMI forçou a banda a editá-los como single no Natal desse ano. A capa, que foi concebida por Peter Blake e Jann Haworth, dois artistas plásticos britânicos da então nascente pop art, teve um custo de 3000 libras, contra as 100 que eram usualmente o orçamento para o trabalho gráfico de um LP. A EMI concordou que a pagaria, unicamente se o disco vendesse mais de um milhão de exemplares mundialmente - senão a conta seria assumida pelos Beatles. Como hoje se sabe a conta acabou por não ser paga por eles. A edição especial que agora foi lançada para assinalar os 50 anos do lançamento original, inclui um pequeno livrinho de 60 páginas onde esta e outras histórias são contadas, além de detalhes e fotos das sessões de gravação. A edição tem dois CD’s - um que corresponde ao disco original, com uma nova mistura estereo, e outro que mostra 18 misturas inéditas das sessões de gravação, entre as quais algumas de “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”. (Edição especial Universal Records, distribuída em Portugal).

 

PROVAR -   Então este é um daqueles dias em que tudo correu mal e a raiva é tanta que nem a fome aparece? Narda Lepes, uma chef argentina, diz que tem uma receita infalível para dias assim: arroz com um ovo estrelado por cima. A coisa é simples: coze-se o arroz, escorre-se bem e mistura-se com meia colher de sopa de manteiga numa tigela. À parte faz-se um ovo estrelado em azeite. Narda recomenda que não se salgue o ovo enquanto ele está na frigideira, para que a clara fique bem cozida, estaladiça, e a gema fique crua. Coloca-se o ovo por cima do arroz e o petisco está pronto quando o amarelo da gema começa a inundar o arroz. Tudo bem misturado é um remédio certo anti-ansiedade, diz convicta a chef argentina na divertida secção de gastronomia da revista “Anxy”, uma nova publicação referida noutro ponto destas páginas. Já Jimena Agois, uma food blogger peruana, prefere massa com pesto è genovesa, tudo preparado na ocasião. Cá por mim, nesses dias, o ideal é uma dose dupla de iogurte natural, misturada com fruta da época cortada aos pedaços, alguns frutos silvestres e um pouco de frutos secos. Se por acaso fôr acompanhada com uma flûte de espumante Murganheira Reserva Bruto, ainda melhor.

 

DIXIT -  “Isto foi um furacão de fogo, veio para nos matar” - habitante na zona de Pedrogão

 

GOSTO - Da eficácia e contenção na comunicação de Jorge Gomes, o secretário de Estado da Administração Interna, que no local acompanhou os incêndios.

 

NÃO GOSTO - A Câmara de Lisboa ignorou a  assembleia municipal e vai aprovar a alteração de um edificio  dos anos 70,decorado com azulejos de António Vasconcelos Lapa, para autorizar um hotel a imitar traça pombalina.

 

BACK TO BASICS - “A arte de agradar muitas vezes encobre a arte de enganar” - máxima hassídica, em textos judaicos

 

 

 

 

 

 

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publicado às 14:00

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TAMANHO  - Tenho andado a reparar que, nas obras recentes promovidas pela autarquia, os projectistas da Câmara Municipal de Lisboa têm  vindo a encolher os lugares de estacionamento para viaturas. Ao princípio achei que se tratava de um corolário natural da perseguição ao automóvel que se tornou na linha política de Medina & Salgado, mas depois percebi que é certamente fruto de insuficiente informação de quem desenha e projecta. No Largo do Casal Vistoso, ao Areeiro, foi feita uma recente intervenção camarária que, como noutros locais, se caracteriza por deixar obras inacabadas durante semanas, provocando desconforto a quem anda a pé nos passeios. Mas ali há também bons exemplos da forma como se desenham os estacionamentos por forma a tornar o dia a dia das pessoas uma gincana. Noutros locais, como nas laterais da Avenida da República, e nalgumas artérias de Campolide, é a mesma coisa: os lugares antigos foram reformulados e agora são mais acanhados. Depois de muito pensar, acho que encontrei uma explicação: como os projectistas da Câmara desenham tudo sem sair dos gabinetes e ir estudar os locais, e sem ter em conta a evolução das máquinas, fizeram lugares mais pequenos. Porquê?  Alguém lhe deu como norma o tamanho dos Fiat 500 clássicos. E os projectistas e quem os superintende não repararam que até os Fiat 500 cresceram, nomeadamente quando a viatura tomou os célebres comprimidos azuis e ificou mais volumoso, como um bem conseguido spot publicitário da marca italiana mostrou há alguns anos.

 

SEMANADA - As reservas de férias no estrangeiro cresceram 10% este ano; 75% das multas por falta de bilhete em transportes públicos foram perdoadas pelo Governo; em Portugal são apreendidos 1262 medicamentos falsificados por dia; Portugal é o segundo maior exportador de vinho para o Brasil, logo a seguir ao Chile; as exportações de vinho cresceram 8% no primeiro trimestre deste ano, em boa parte devido à recuperação de vendas para Angola; Portugal é o país da União Europeia que mais bicicletas exporta, 15% do total ou 1,6 milhões de velocípedes em números redondos; as exportações de cerâmica subiram 20% em quatro anos; Portugal tem um consumo efetivo por habitante de 82%, abaixo da média da União Europeia (UE 100%), estando o Luxemburgo no topo da lista (132%) e a Bulgária no fundo (53%); um estudo divulgado esta semana indica que a maioria dos jovens começam a ter telemóvel aos dez anos de idade e a partir dos 13/14 anos os dispositivos são praticamente regra entre os adolescentes; jovens entre 15 e 18 anos chegam a enviar 200 mensagens por dia; o número de mulheres reclusas está a crescer há oito anos e actualmente existem 869 detidas, existindo 37 crianças que vivem com as mães em estabelecimentos prisionais.

 

ARCO DA VELHA - Donald Trump cancelou uma anunciada visita oficial ao Reino Unido, a convite de Theresa May, até sentir mais apoio do público e por considerar previsível que tenha protestos de rua em Londres.

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FOLHEAR - Editado em França no final do ano passado, com o provocador título de “O negacionismo económico - e como combatê-lo” , este livro criou enorme polémica em torno dos seus autores, os economistas Pierre Cahuc e André Zylberberg. Os dois autores acusam uma parte importante dos seus confrades de fomentarem o obscurantismo e de se recusarem a analisar a realidade económica com base em dados científicos. Para os autores a economia tornou-se uma ciência experimental e existem métodos de análise para saber se a desregulação financeira favorece o crescimento, se o custo do trabalho tem consequências no emprego, se a despesa pública relança a actividade económica ou se a subida de impostos a diminui. Os autores  defendem que a posição dos que se recusam a analisar cientificamente o que acontece no mundo da economia está  a fomentar um negacionismo que, dizem, corrói todas a disciplinas - a história, a biologia, a física ou a climatologia. E dizem que a economia “é sem dúvida a disciplina que se vê confrontada com o negacionismo mais virulento”. O livro foi acusado de partir de uma visão ideológica, de querer aplicar o método experimental em circunstâncias em que não deve ser usado. A polémica foi grande, ainda dura e os dois autores de “O negacionsmo económico” defendem que “ a abordagem científica é indispensável para contrariar qualquer tentativa de transformação de uma mentira em verdade” . Terminam o livro enumerando exemplos do que consideram “efeitos nefastos dos negacionistas - desde a semana de 32 horas ao encerramento de fronteiras e a cessação da emigração, passando pela descida dos impostos ou o aumento da despesa pública”. O livro foi editado em Portugal pela Guerra & Paz e promete criar por cá também uma boa dose de polémica.

 

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VER - A obra que aqui está reproduzida chama-se “L’Homme Qui Marche” e foi feita pelo escultor suiço Albert Giacometti em 1960, numa série de seis exemplares. Foi a primeira escultura a ultrapassar a fasquia dos cem milhões de dólares num leilão, em 2010 e Giacometti foi um dos primeiros escultores a atingir valores próximos de quadros de pintores célebres. Até 10 de Setembro a Tate Modern, de Londres, apresenta uma retrospectiva da sua obra. Curiosamente Giacometti que esteve presente na Bienal de Veneza em 1956, é este ano o artista homenageado no pavilhão da Suíça na mesma bienal. E, mais para o fim do ano, em Paris,  abrirá ao público o Institut Giacometti, obra da sua Fundação, que tem preservado e gerido o legado do artista. Cinco décadas depois da morte de Giacometti, ele volta a estar na ribalta - graças à exposição da Tate (que no próximo ano irá para o Guggenheim de Nova Iorque), ao trabalho desenvolvido pela fundação, aos leilões onde proximamente vão aparecer peças suas e ao filme “The Final Portrait”, de Stanley Tucci, que estreia em Basel. Já que estamos a falar de exposições por esse mundo vale a pena deixar aqui nota que no MoMA de nova Iorque, até 1 de Outubro, está uma retrospectiva dos arquivos do arquitecto Frank Lloyd Wright, para assinalar 150 anos do seu nascimento. Finalmente, e para regressarmos ao nosso pequeno rectângulo, até 1 de Outubro, nos jardins do Museu Nacional de Arte Antiga, está ”O Jardim das Tentações”, uma curiosa mostra do trabalho da ceramista portuguesa Bela Silva, que se inspirou em diversas obras do acervo do museu.

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OUVIR - Nas minhas explorações pelo Spotify, encontrei este disco, editado no Outono do ano passado,  “Country For Old Men”, do guitarrista John Scofield. Ao contrário daquilo que o nome indica não é uma lamechice para idosos, trata-se de uma brincadeira de Scofield em cima do filme “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen. John Scofield tocou ao lado de nomes como Miles Davis,  Charlie Mingus, Pat Metheny e Bill Frisell, para citar só alguns. Agora com 65 anos revisita temas clássicos daquilo que são os seus géneros preferidos - blues, country e folk. A seu lado estão o baixista Steve Swallow, o baterista Bill Stewart e o teclista Larry Goldings - e vale a pena dizer que este é um disco invulgarmente conseguido do ponto de vista da qualidade da execução e da gravação. A primeira grande surpresa acontece na segunda faixa com uma versão, totalmente inesperada, de “I Am So Lonesome I Could Cry”, um original de Hank Williams, aqui completamente subvertido pelos solos de guitarra. “Bartender Blues”, de James Taylor é tocado como uma balada, de forma delicada e sentida. Entre as 12 canções do disco outros destaques vão para “Mama Tried” de Merle Haggard, para os tradicionais “Wayfairing Stranger” e “Red River Valley”, para as versões de “Jolene”, uma das grandes canções de Dolly Parton, e “You’re Still The One” de Shania Twain. E o disco termina com a brevíssima despedida, tocada em ukelele, de um segmento de “I’m An Old Cowhand”, de Johnny Mercer. CD Impulse, no Spotify.

 

PROVAR -  De repente, um jantar para cozinhar. Que fazer? Quer-se uma coisa leve, mas saborosa, tenra mas sem ser insípida. O que me veio logo à cabeça é fazer uns peitos de frango no forno, bem temperados, acompanhados de arroz solto e eventualmente uma salada - nesta época desejavelmente de agrião com rabanetes. O segredo para o tempero reside em farinha de mostarda, vinho branco e mel. A Colman’s é uma marca inglesa com mais de 200 anos, que se dedica a fazer farinha de mostarda, deliciosa, obviamente picante, e que se pode encontrar no El Corte Ingles ou na Amazon. Teoricamente deve pegar-se numa quantidade de farinha de mostarda e misturar com igual quantidade de água para obter uma pasta de mostarda que é melhor que qualquer um dos preparados já feitos que se podem encontrar por aí. Mas para esta receita proponho uma variante: misturar duas colheres e meia de sopa de farinha de mostarda Colman’s com dois decilitros de vinho branco seco e fazer o molho que acompanhará os peitos de frango ao forno. Os ditos peitos de frango não devem ser daqueles enormes, é preferível escolher os de tamanho médio, temperá-los bem, de ambos os lados, com limão, um pouco de alho e sal. No fim colocam-se na travessa onde antes já se deitou o molho de mostarda. E, para finalizar, deita-se em cada um dos peitos de frango uma colher de sopa de mel e, por cima, polvilha-se com um pouco de Colman’s em pó, espalhada sobre o mel. Vai ao forno a 180ºdurante cerca de 20 minutos e no fim liga-se o grill cinco minutos só para tostar um pouco. E pronto.

 

DIXIT - “A verdadeira obra de arte do primeiro-ministro foi ter conseguido desvincular-se, ele e os seus ministros, do governo de Sócrates” - António Barreto

 

GOSTO - Da nova série de “Twin Peaks”, de David Lynch

 

NÃO GOSTO - Edificaçoes de uma cidade romana do século II, à beira da Ria Formosa, foram reduzidas a cacos para construir uma casa particular com o beneplácito da Câmara de Tavira.

 

BACK TO BASICS - “Os verdadeiros líderes vivem vidas paradoxais, em que se veêm obrigados a quebrar regras para as poderem manter” - Beau Willimon, argumentista de “House Of Cards”.

 

 

 

 

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publicado às 13:30

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ÉPOCA - Este ano é com o Verão à porta que regressam as greves, depois de muitos meses de acalmia. Um amigo com quem almocei esta semana tem uma explicação, que me pareceu plausível, para a nova sazonalidade destas movimentações sindicais de peças fundamentais da administração pública, como o ensino e a justiça: o orçamento está em fase de preparação nos próximos meses e o objectivo dos parceiros do Governo é encontrarem mais dinheiro para a máquina do Estado. Estas greves são um sinal a António Costa e uma chamada de atenção a Centeno. Depois do cheque branco que o PCP e Bloco entregaram ao PS pós eleições de 2015, começam agora a vir as faturas. A grande incógnita está em saber o que a habilidade política de Costa conseguirá, estando os seus parceiros notoriamente nervosos e a quererem todos os dias mais uma fatia do bolo da recuperação das contas públicas. É tão engraçado ver como o estado de hibernação foi suspenso aos primeiros calores e como agora as coisas se vão agitando. O jogo tem permissas simples: Costa precisa de uma legislatura completa e com resultados visíveis em termos de cumprimento das regras europeias para tentar a maioria absoluta, ou um resultado que o deixe menos nas mãos do Bloco e do PCP. E os “compagnons de route” temem pelo seu eleitorado que começa a ficar irrequieto e acham que já é tempo de receberem o prémio de bom comportamento. Os próximos meses, até á entrega do Orçamento de Estado, vão ser muito curiosos de seguir.

 

SEMANADA - As mortes por overdose de drogas aumentaram na Europa pelo terceiro ano consecutivo e em 2015 atingiram 8400 pessoas; um estudo divulgado esta semana indica que o mercado das drogas ilícitas na União Europeia movimenta cerca de 24 mil milhões de euros por ano;  o laboratorio de polícia científica da Judiciária identificou em Portugal o aparecimento de 80 novas drogas em seis anos; em 2016, pela primeira vez em quatro anos, o Partido Socialista conseguiu um saldo financeiro positivo de 250 mil euros; a venda de casas penhoradas pelo fisco está a cair mais de 40% em comparação com o ano passado; entre 2007 e 2016 Portugal ganhou uma média de 40 mil novos cidadãos por ano, segundo um estudo do Observatório das Migrações que salienta que a maioria tem origem em países onde se fala português; o consumo de refrigerantes caíu com a nova taxa sobre produtos com açúcar e, no caso das bebidas mais açucaradas, a quebra foi de 72%; segundo a Marktest durante o mês de Abril  foram visitadas 298 milhões de páginas de sites de informação nacionais e o tempo total de navegação nestes sites superou as 4,8 milhões de horas, uma média de 1 hora e 28 minutos por utilizador, o que significa um aumento de 5.6% no número total de horas e de 12.8% no número de horas por utilizador, quando comparados com o mês homólogo do ano anterior; verificaram-se oito acidentes mortais com tratores em 15 dias.

 

ARCO DA VELHA -  Os professores marcaram greve para o dia em que se realizam exames de matérias que andaram a ensinar aos seus alunos.

 

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FOLHEAR - Carlos Quevedo é o mais português dos argentinos. Nasceu em Buenos Aires em 1952 e, em 1978, renasceu em Lisboa depois de ter andado  por diversas paragens. E por cá ficou, a fazer teatro (encenou peças de Beckett, Ibsen e Pinter), dedicou-se à escrita, teve responsabilidades em “O Independente” e na “Kapa”, viu televisão para a “Visão” e de há alguns anos para cá apaixonou-se pela rádio - desde 2015 é o autor e produtor do programa “E Deus Criou O Mundo”, na Antena 1, onde procura fomentar o debate inter-religioso. Vai daí, pegou no conceito e no nome do programa e fez este livro, que aborda três das religiões historicamente mais representativas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. O livro tem uma abordagem histórica das origens destas religiões, a partir de um tronco comum, com origem em Abraão. Como Carlos Quevedo escreve, “só com o diálogo inter-religioso podemos conhecer o mundo diverso e semelhante dos homens de fé”. E sublinha: “Ter o mesmo Deus é o que os une, mas fazer a sua vontade na Terra parece ser a grande divergência”. O livro está organizado em quatro partes : as duas primeiras abordam o enquadramento das religiões, e a terceira mostra as posições que as três religiões têm sobre a vida dos crentes, na família, no casamento e no divórcio e, finalmente, como o judaísmo, o catolicismo e o islão encaram a morte. Este é um livro que permite descobrir os pontos comuns - e as diferenças - entre estas três religiões. “Conhecer os credos é conhecer a humanidade”, como Carlos Quevedo escreve já no final do livro.

 

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VER - A recomendação da semana vai para o novo encontro proposto na Fundação Julio Pomar. Desta vez é entre o próprio Pomar e Pedro Cabrita Reis, que se encontram sob o título “das pequenas coisas”, numa exposição que ficará até 8 de Outubro no atelier-museu na Rua do Vale 7, no Bairro Alto. Esta série de encontros tem por objectivo cruzar a obra de Júlio Pomar com outros artistas por forma “a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade” - o convidado anterior foi Julião Sarmento. “das pequenas coisas” recorre a objectos, esculturas e assemblages, em materiais variados. Pedro Cabrita Reis mostra uma série de esculturas e objectos feitos com materiais de várias proveniências, nomeadamente materiais encontrados na rua e na praia, ocupando todos os espaços do atelier-museu, incluindo o caminho de acesso do edificio recuperado por Álvaro Siza, que até aqui não tinha sido ainda utilizado como área expositiva. A informação da exposição salienta que “foi também na praia, durante um período de quatro meses de férias e trabalho no Algarve, no Verão de 1967, em Manta Rota, que Júlio Pomar começou a produzir assemblages de objectos e materiais aí encontrados, corroídos e desgastados pelo sal, pelo sol, pelo tempo”. A curadoria é de Sara António Matos, que é a directora do atelier-museu desde 2012. Outras sugestões: na Galeria Ratton - Helena Lapas expõe até final de Julho “Matéria do Tempo” (Rua da Academia das Ciências 2C); e até dia 18 ainda pode ver “Pai”, de Paulo Brighenti, na Ermida de Nossa Senhora da Conceição, Travessa do Marta Pinto, por detrás dos Pastéis de Belém.

 

E finalmente, num registo diferente, este sábado, às 16h00 mais uma sessão do ciclo “Grandes Clássicos no Grande Écran do Grande Auditório do CCB “ - no ecrã vai passar “Cleópatra”, o filme de Jospeh L. Mankiewicz com Elizabeth Taylor, de 1963, em nova versão digital restaurada.

 

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OUVIR - João Gil tornou-se conhecido quando, em 1976, fundou os Trovante com Luis Represas, Manuel Faria e João Nuno Represas. Os Trovante fizeram canções que marcam a história da música popular portuguesa e João Gil compôs muita da sua música. Mais tarde criou os Moby Dick, compôs a Ala dos Namorados, esteve no projecto Rio Grande, Cabeças no Ar, Filarmónica Gil, depois os Baile Popular e o Quinteto Lisboa, entre outros. Grande parte da sua obra mais conhecida vem do tempo dos Trovante e da Ala dos Namorados. Luis Represas, João Monge, Carlos Tê são alguns dos co-autores das suas mais célebres composições. “João Gil Por…”, um duplo CD agora editado, recolhe 26 canções assinadas por João Gil, aqui interpretadas por outros nomes - 32 convidados para ser exacto. Permito-me destacar a maneira como Carlão e Lúcia Moniz reinventam a “125 Azul”, como “Tatanka” faz redescobrir “Fim do Mundo”, como Luísa Sobral dá a volta a “Postal dos Correios” ou Héber Marques canta “Solta-se o Beijo”. Destaque ainda para a simplicidade de Miguel Araújo em “Senta-te Aí”, para Jorge Palma em “Dezembro”, para Celina da Piedade (com o próprio João Gil) em “Timor”, e para João Pedro Pais e Márcia, respectivamente em “Providência Cautelar” e “Memórias de um Beijo”. Os discos de versões podem ser um exercício perigoso. Este correu muito bem. CD Warner.

 

PROVAR - Quando era miúdo não gostava nada de côco. Os bolos de côco enjoavam-me, o côco ralado fazia-me impressão. Foi graças ao caril que me reconciliei, através do leite de côco, fundamental para que o belo molho resulte. Aos poucos comecei a usar leite de côco em alguns pratos, como alternativa à nata. Esta semana, por exemplo, fiz lombos de salmão no forno com funcho e courgette cortada em esparguete, tudo embebido em leite de côco. Com os ingredientes previamente temperados com limão, gengibre, cebolinho fresco, pimenta e um salpico de vinho branco ficou uma maravilha ao fim de 25 minutos no forno, já com o leite de côco adicionado. A minha rendição ao côco estende-se ao óleo do dito. Experimentem estrelar um ovo em óleo de côco ou usá-lo para untar a placa das panquecas e não quererão outra coisa. Ainda por cima é uma gordura saudável com benefícios provados. E o melhor de tudo é que dá bom sabor aos alimentos que nele são cozinhados, o que nem sempre acontece com alguns bruxedos apresentados como saudáveis.

 

DIXIT -  “Tenho martelo e vou usá-lo com fartura” - Rui Moreira, a propósito dos festejos de S. João, no Porto.

 

GOSTO - Do discurso de aceitação do Nobel, de Bob Dylan, que ele divulgou esta semana e cuja gravação se encontra disponível na internet.

 

NÃO GOSTO - De um sistema judicial que promove investigações com base em denúncias anónimas e em cima do prazo de prescrição.

 

BACK TO BASICS - “Estou convencido que no sótão do Ministério dos Negócios Estrangeiros há uma pequena sala esconsa onde os candidatos a diplomatas são ensinados a gaguejar” - Peter Ustinov

 

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publicado às 14:00

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TURISMO - O facto de termos tantos turistas a visitar-nos, não só em Lisboa mas um pouco por todo o país, pode ser incómodo para alguns mas é algo de muito positivo. Faz parte da desconstrução do “orgulhosamente sós”. É certo que nunca gostámos de ser invadidos e sempre expulsámos os invasores - mas a realidade é que os turistas não são as tropas napoleónicas nem os exércitos de Castela. O aumento do número de turistas representa o êxito de esforços desenvolvidos (nalguns casos ao longo de décadas, como em Lisboa, através da ATL), tem o efeito económico que se conhece e permite-nos, sobretudo uma maior convivência e troca de culturas com outros povos. Tudo isto ajuda a estarmos menos isolados e, é claro, mais expostos. Como acontece sempre em situações destas a procura de um ponto de equilíbrio é uma questão delicada e que demora tempo a ser conseguida. Doug Lanski, um escritor de livros e guias de viagem esteve recentemente em Lisboa e sintetizou o problema de forma exemplar: “A cidade pode ter turistas, mas os turistas não devem ter a cidade”. Se os turistas dominarem a cidade ela transforma-se num zoológico em que as pessoas se tornam animais de cativeiro e espécies em via de extinção. Este é agora o problema de quem manda nas cidades - estimulem os visitantes mas acarinhem os habitantes sem ser só com flores e obras. Tudo cresceu muito depressa - sobretudo desde que os voos das low cost tornaram destinos periféricos (em relação à Europa central)  como Lisboa, o Porto, os Açores e a Madeira em destinos acessíveis. A mina de ouro foi descoberta e a corrida às pepitas está em pleno. O ponto principal é evitar que se esgote o filão. Essa, creio, é a próxima etapa - que há-de passar por conseguirmos ter uma oferta cultural, nomeadamente expositiva, mais variada e atraente.

 

SEMANADA - A venda de automóveis aumentou 15,8% no ano passado; no primeiro ano em vigor das novas regras da carta por pontos nenhum condutor foi punido com formação e nenhum ficou sem carta, apesar de quase duas dezenas terem condições para isso; um estudo da Direcção Geral do território mostra que no último quarto de século 1,1 milhões de hectares mudaram de ocupação e que o país está mais urbano, mais florestal e menos agrícola; segundo dados divulgados esta semana 19 dos 20 maiores projectos apoiados pelo Portugal 20/20 são de natureza pública e apenas um é privado; na maior parte dos casos analisados num estudo agora divulgado, um presidente de Câmara impedido de  voltar a concorrer pela lei de limitação de mandatos gasta menos no último ano da sua gestão do município; dados divulgados esta semana indicam que 20 idosos são agredidos semanalmente quer em roubos quer no contexto de violência doméstica e só no ano passado mais de 1000 idosos foram violentamente agredidos; nos últimos seis anos 427 pessoas pediram para mudar de sexo e de nome no registo civil e deste total há 28 homens com mais de 50 anos que fizeram operações para mudar de sexo e quatro mulheres foram operadas com o mesmo objectivo; segundo o estudo netScope da marktest em Abril 55% do tráfego de internet foi gerado por PC’s (desktop ou portáteis e 45% por equipamentos móveis (39% de smartphones e 9% de tablets).

 

ARCO DA VELHA - Um homem de 22 anos, detido por violação, dedicava-se a vender estimulantes sexuais pela internet a partir da cadeia da Carregueira, onde está preso, e fornecia outros detidos.

 

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FOLHEAR - António Pinto Ribeiro tem desenvolvido nos últimos 25 anos uma actividade significativa no estudo de questões relacionadas com políticas culturais e com a divulgação de diversas formas de arte contemporânea, nomeadamente de África e da América Latina. O seu trabalho na Gulbenkian, em torno do projecto “Próximo Futuro” e a programação de Lisboa enquanto Capital Ibero-Americana da Cultura, que está a decorrer, são o mais evidente sinal dessa actividade. Nos últimos quatro anos dedicou-se a analisar África a partir da representação literária dos seus quatro grandes rios - o Niger, o Zambeze, o Nilo e o Congo. O objectivo foi estudar como a literatura de viagens dos  séculos XVIII e XIX olhou para as geografias dessa época e, depois ( e fundamentalmente) como no final do século XX e início do século XXI quatro escritores olharam para esse mesmo espaço - Ryszard Kapuscinski, Gianni Celati, Pedro Rosa Mendes e Paul Theroux, que escreveram entre 1958 e 2002. António Pinto Ribeiro recorda no primeiro capítulo que ao longo do século XX África deixou de ser um continente maioritariamente sob domínio colonial de nações europeias, passando a ser composto por 54 países independentes, num processo complexo, por vezes violento. Mostra como a partir da década de 70, em África nasceu e desenvolveu-se uma produção cultural contemporânea que aos poucos começou a ser reconhecida fora do continente. O livro enquadra a História recente com o trabalho dos autores evocados, mostrando ainda excertos do que escreveram. “África - Os Quatro Rios” tem uma capa soberba feita a partir de uma fotografia de Pieter Hugo, um notável fotógrafo sul-africano que foi exposto em Portugal pela primeira vez precisamente numa das edições de “Próximo Futuro”. Edição Afrontamento.

 

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VER - O British Bar existe há mais de 100 anos junto ao Cais do Sodré, à época terra de marinheiros, numa zona onde há meio século abundavam os escritórios de transportadores marítimos, despachantes e  transitários e de representações de empresas estrangeiras. Quando a cerveja Guinness era quase desconhecida em Portugal já ali existia, bem tirada, com o sabor acre único que ela tem. Pedro Cabrita Reis habituou-se a frequentar o local quando era aluno de Belas Artes e não mais o largou, lugar de eleição para aperitivo, dois dedos de conversa ou contemplação pura e simples. Deve ter sido num desses momentos de contemplação que se lembrou de propôr aos proprietários do espaço que as três pequenas montras verticais, nos lados e centro da fachada do estabelecimento, pudessem ser aproveitadas para expôr obras de artistas que o próprio Cabrita Reis iria escolher e convidar. Assim nasceu a ideia do britishbar#, com novidades anunciadas para a última sexta feira de cada mês, até Dezembro. Na semana passada foi a segunda mostra e lá entraram duas esculturas, de Vasco Costa e Ana Jotta, e uma estante de Álvaro Siza Vieira. São de Pedro Cabrita Reis estas palavras, que explicam o que está a fazer: “Os espaços convencionais não me interessam. O que quero é fazer coisas fora da caixa, capazes de apanhar as pessoas que gostam de arte e, neste caso, as que só querem beber um copo ou ver um jogo.”

 

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OUVIR -   Tenho para mim que Miguel Araújo é o melhor compositor-intérprete da sua geração. É um contador de histórias - porque cada canção há-de ser um episódio. Escreve com humor, fala de coisas de sempre e de coisas actuais, e ainda por cima escreve muitíssimo bem em português - sabendo-se que escrever português para ser cantado é um exercício bem difícil. Miguel Araújo domina a técnica e mostra o sentimento. “Giesta”, agora lançado, é o terceiro disco a solo deste ex-Azeitonas e atrevo-me a dizer que é o melhor conjunto de canções de Miguel Araújo - talvez por ser, como ele próprio reconhece, o mais autobiográfico dos seus trabalhos. Para além dos Azeitonas, Miguel Araújo é parceiro habitual de António Zambujo, com quem recentemente fez uma série de concertos que foram um sucesso de público. Mas voltemos a este “Giesta” - cujo nome evoca a zona da Maia onde passou a infância. O disco é cheio de memórias, como a faixa “Axl Rose” que conta como Araújo viu, à distãncia do relato da irmã, a aparatosa queda do guitarrista dos Gun’n’Roses no concerto do estádio José Alvalade. As minhas canções favoritas são “Sangemil”, “Lurdes Valsa Lenta” , “Maria da Glória” e “1987”, que inclui um dueto com Catarina Salinas (dos Best Youth). Giesta, CD Warner, disponível no Spotify.

 

PROVAR -  Um dia destes um amigo perguntava-me porque é que eu andava a falar mais de petiscos, de receitas, de produtos e ingredientes do que de restaurantes. A resposta é que ando desanimado com a necessidade de falar dos novos restaurantes que vão abrindo. Penso que muitos desses novos restaurantes estão a posicionar-se, voluntária ou involuntariamente, como exercícios de comunicação efémeros, com um prazo de validade limitado, muitas vezes com uma rápida degradação da qualidade, e que vivem mais de cenários do que de consistência. Por isso volta e meia regresso a alguns dos meus clássicos, onde a qualidade se mantém e onde o serviço é sempre simpático. Alguns deles até são relativamente recentes, como a “Casa de Pasto”, no Cais do Sodré, onde em boa hora voltei esta semana. Confesso que nem é sítio onde vá com uma frequência desmedida, mas cada visita que fiz correu bem. É comida bem confeccionada, frequentemente com um toque de saborosa imaginação. O chef é Hugo Dias de Castro e notam-se as suas origens nortenhas na comida caseira e no tempero e evita os jogos florais do empratamento minimalista que dão cabo de muitos locais. Gosto do ambiente, da decoração que nos faz pensar estar numa sala de jantar familiar, da simpatia da equipa. Nesta visita provou-se uns secretos invulgarmente bem confeccionados, acompanhados por batata frita na hora às rodelas finas (excelentes) e um polvo com picadinho de legumes acompanhado de legumes no forno. Era terça-feira e penso que seríamos os únicos portugueses na sala. E tudo correu bem. Rua de S. Paulo 20-1º, telefone 963739979

 

DIXIT -  “Quem cá mora tem de ter um regime de protecção, porque são moradores da cidade, porque pagam aqui os seus impostos” - Luis Natal Marques, Presidente da EMEL, sobre a utilização de automóveis particulares em Lisboa.

 

GOSTO - Da edição em DVD, já disponível nas bancas de jornais, de “Paula Rego- Histórias & Segredos”, o belo filme de Nick Willing que estreou recentemente.

 

NÃO GOSTO - O consumo de tabaco gera 32 mortes por  dia em Portugal,segundo a Fundação Portuguesa do Pulmão.

 

BACK TO BASICS - “A arte do compromisso é conseguir partir um bolo de forma a que toda a gente fique com a sensação de ter a maior fatia” - Ludwig Ehrard

 

 

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SALOÍSMO -  Fernando Medina tinha 11 anos quando Madonna lançou “Like A Virgin” em 1984. Aos 44, presidente não eleito da Câmara Municipal de Lisboa, Medina, nado e criado no Porto, foi, sabe-se lá porquê, ao Hotel Ritz saudar a presença da cantora em Lisboa e deu pública nota disso. Nestes anos que leva de vida ninguém lhe terá explicado que o ridículo mata e que com a sua idade actual Medina já não se pode confessar virgem em questões de inocência. Definitivamente Maio de 2017 foi o mês em que o absurdo entrou a todo o vapôr na política portuguesa - no Parlamento saudou-se efusivamente a vitória no Festival da Eurovisão, nos Paços do Concelho celebrou-se a presença da quase reformada cantora - se o Mayor de Los Angeles se sentisse tão ocupado com vedetas na sua cidade não teria descanso, mas aqui tudo é pretexto para cinco minutos de fama, sobretudo quando se está em ano eleitoral. A saloíce é uma coisa tramada e há quem a tenha no sangue e mesmo quando parece escondida salta de repente à vista de todos. Maio foi mês de festa: Papa em Fátima, Benfica no tetra, Madonna em Lisboa, onde aliás já tinha estado mais que uma vez sem tanto alarde político - até este aproveitamento é um sinal dos tempos. O país navega ao sabor dos milhões do Turismo, da saída do défice excessivo e do aumento do consumo. A pensar nisto tudo a música que me veio ao espírito não é de nenhum dos homenageados, nem foi ouvida nestes dias, é de José Afonso e muito adequada aos dias que correm :

A formiga no carreiro

Vinha em sentido contrário

Caiu ao Tejo

Ao pé dum septuagenário

Larpou trepou às tábuas

Que flutuavam nas àguas

E de cima duma delas

Virou-se prò formigueiro

Mudem de rumo

Já lá vem outro carreiro

 

SEMANADA - Portugal saíu do Procedimento de défice excessivo e o facto motivou menos burburinho no Parlamento que a vitória na Eurovisão; o maior montante de fundos da UE recebidos em Portugal foi atribuído à empresa Parque Escolar; o Governo recebeu 30 pedidos para exploração de lítio em Portugal; de janeiro a março a Câmara Municipal de Lisboa arrecadou 1,1 milhões de euros por mês graças à taxa turística; estima-se que em Portugal entrem por ano, sem serem declarados, 125 milhões de euros em dinheiro; uma auditoria do Tribunal de Contas fez fortes críticas à aplicação de multas pelo Fisco aos contribuintes; nos últimos quinze anos fecharam quase cinco mil escolas primárias; em 2016 a EMEL faturou 31 milhões de euros em estacionamento e multas; até Março Portugal captou 1,9 mil milhões de euros de investimento através da atribuição de vistos gold a chineses; foi esta semana divulgado que a falha no sistema de abastecimento de combustível ocorrida em 10 de maio no aeroporto de Lisboa afetou 41.681 pessoas, levou ao cancelamento de 97 voos, 202 descolaram com atraso e 12 tiveram de divergir para outros locais; Manuel Salgado confessou na Assembleia Municipal de Lisboa desconhecer a existência de buracos no centro da cidade e agradeceu terem-lhe chamado a atenção sobre eles.

 

ARCO DA VELHA - Soube-se esta semana que o autódromo do Estoril está ilegal há 45 anos e que nunca teve  licenças, nem de construção nem de edificação. Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais declarou que ignorava a situação.

 

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FOLHEAR - Romeu e Julieta, de William Shakespeare, já teve várias versões no cinema - desde as mais clássicas às que adaptam a história aos tempos contemporâneos. Mas as edições em livro são sempre muito respeitosas e geralmente não se desviam do original - ou, pelo menos, até aqui eram. Na sua colecção “Os Livros Estão Loucos”, a editora Guerra & Paz propõe uma versão de Romeu e Julieta “contado tipo aos jovens”. Esta colecção destaca-se pela adaptação livre das obras que publica, pelas ilustrações e o grafismo e, sobretudo, pela subversão do texto. A coisa começa logo nos nomes dos capítulos. Por exemplo: “Aproxima-se dela como uma traça da luz, agarra-lhe a mão, olha-a no mais fundo dos olhos e atira-lhe um dos melhores piropos de sempre”; ou, ainda: “da passarada habitual, que tudo vê e tudo conta, nem um pio. Como se o temor de que algo possa correr mal lhes tivesse prendido as goelas douradas”. O enredo clássico vai sendo adaptado aos tempos actuais pela conversa entre duas amigas, Vera e Beatriz, que descodificam a intricada teia de amores e ódios entre as famílias de Romeu Montéquio e Julieta Capuleto - ou, como nasce um amor proibido numa noite de verão. “Consegues imaginar os Capuleto e os Montéquio numa festa com karaoke e zumba?” - pergunta Vera à amiga. E é assim que a coisa se vai desenrolando. Uma ideia louca e bem conseguida para tornar grandes textos clássicos mais apetecíveis aos mais novos.

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VER - Em Lisboa, este ano, a ARCO perdeu 23% dos visitantes, quando comparada com a edição do ano passado. As críticas à organização - quanto ao processo de selecção - foram várias e mais audíveis. Aqui há uns anos Berlim tentou estabelecer uma feira de arte com tudo germanicamente organizado, stands para as galerias, um grande espaço, tudo perfeito. O Art Forum Berlim não resultou, o público não pegou, caíu de ano para ano. A cidade percebeu que em vez de subsidiar uma organização, melhor faria em procurar apoiar o trabalho das galerias de arte contemporânea locais. Em 2004 nasceu o Berlin Gallery Weekend: um circuito de galerias que decorre num fim de semana e para o qual são convidados coleccionadores internacionais, privados e institucionais,  além de artistas, críticos e jornalistas. Passada mais de uma década é um sucesso. Mais galerias, maior espaço a novos artistas, mais oportunidades. E mais negócio, ao fim do dia. Cada cidade é um caso, mas vale a pena pensar nisto. Sugestões da semana: na Sociedade Nacional de Belas Artes Maria José Oliveira expõe 40 anos de trabalho naquela que já foi considerada como a melhor exposição neste momento disponível em Lisboa; na Culturgest está “O Fotógrafo Acidental”, que reúne trabalhos de artistas visuais que entre 1968 e 1980 utilizaram a fotografia ocasionalmente como meio de expressão, como Alberto Carneiro, Ângelo de Sousa, Ernesto de Sousa, Fernando Calhau, Helena Almeida, Jorge Molder, José Barrias, Julião Sarmento e Vítor Pomar.; em Setúbal abriu a Festa da Ilustração - António Jorge Gonçalves é o autor contemporâneo em destaque, autor do símbolo da festa, aqui reproduzido, e  Manuel Ribeiro de Pavia o ilustrador consagrado, evocado numa exposição.

 

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OUVIR -   João Morais nasceu para a música no meio da explosão musical dos anos 80 que deu protagonismo aos músicos portugueses. Apaixonou-se pela guitarra, é um autodidacta aventureiro e cresceu na mesma geração de Tó Trips e Luis Varatojo. Pisaram, na época, os mesmos palcos, cruzaram-se em concertos e nos festivais de então. Da guitarra eléctrica João Morais passou para a viola campaniça e assina agora os seus discos com o nome “O Gajo”. “Longe do Chão”, edição Rastilho, disponível em CD e também no Spotify, tem onze temas instrumentais. A sonoridade da campaniça, também conhecida por viola alentejana, é unica.  Tem dez cordas, metálicas,  e era o instrumento musical usado para acompanhar os célebres cantares à desgarrada, ou ”cantes a despique”, nas festas e feiras do Alentejo. É a maior das violas portuguesas e é tocada tradicionalmente de dedilhado, apenas com o polegar. Não por acaso um dos temas em destaque no álbum é “Há Uma Festa Aqui ao Lado”. No entanto este “Longe do Chão” não é um disco preso ao passado - é uma versão urbana de um instrumento rural, na produção, no tratamento do som, na utilização num dos temas da voz e de alguns efeitos instrumentais e sonoros noutros. Mas fundamentalmente é uma demonstração do talento de João Morais e um pretexto para descobrir mais um pedaço das nossas tradições musicais, terminado o ciclo festivaleiro.

 

PROVAR -  As velhas casas de chás e cafés fascinam-me sempre. Já não há muitas, mas as que sobreviveram são as melhores. Bem perto do Saldanha, na Duque de Ávila, praticamente na esquina com a Avenida da República, fica a “Pérola do Chaimite” - cafés puros torrados, robustas e arábicas - moídos na hora com o grau de moagem como quisermos. O atendimento é sempre simpático, os conselhos são dados com experiência e saber. Para além dos vários cafés disponíveis, nas numerosas combinações que se podem fazer, há também chás avulso. Além dos chás e cafés há biscoitos, compotas e geleias, e acessórios para guardar e fazer café, bules de chá, enfim toda a parafernália necessária para fazer um bom café de saco ou um chá de folhas soltas. De entre a numerosa escolha de compotas de pequenos produtores destacam-se os “Sabores da Gardunha”, onde se podem encontrar preciosidades como um doce de gengibre absolutamente surpreendente  bom sozinho, excelente como acompanhamento para barrar sanduíches de fino presunto ou, melhor ainda, queijo bem curado. Entrar dentro de uma casa destas é um prazer, para os olhos e os sentidos, proporcionando aquilo que nenhum café ou chá embalado podem fazer: o ritual dos aromas, o adivinhar dos sabores. Pérola do Chaimite Av Duque de Ávila 38 (dos queijos, pão e presunto pode tratar na charcutaria Dava, mesmo ao lado, apesar do ar mal encarado com que é recebido se não fôr cliente habitual).

 

DIXIT -  “Um dos males da maldade - como morrer para matar o maior número possível de pessoas - é habituar-nos ao mal” - Miguel Esteves Cardoso

 

GOSTO - Da criação, em Guimarães de um centro de investigação dedicado à medicina regenerativa e de precisão

 

NÃO GOSTO - Da situação criada ao site Ciberdúvidas, uma plataforma digital dedicada à língua portuguesa, que está em riscos de encerrar devido à falta de financiamento.

 

BACK TO BASICS -  “A 3ª Guerra Mundial será uma guerra de guerrilha da Informação sem divisões entre militares e participação dos civis”  - Marshal McLuhan, nos anos 60 do século XX.

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publicado às 14:00

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DIVERGÊNCIAS - Esta semana dei comigo a pensar que vivemos a duas velocidades: o país tem uma política, Lisboa tem outra. No país a geringonça esforça-se por promover a inclusão e regista melhores resultados que os esperados; em Lisboa o PS promove a exclusão, incentiva a gentrificação da cidade, afasta os habitantes para a periferia. António Costa e Fernando Medina parecem o polícia bom e o polícia mau das velhas histórias. Lisboa vive debaixo de uma chuva de milhões de receitas trazidas pelo turismo e pela aplicação de novas taxas e comporta-se como um novo rico esbanjador. A desproporção entre os investimentos sociais e os gastos em decoração e festarolas é enorme. A EGEAC, a empresa municipal que gere a área da Cultura, é um particular exemplo de delírio, aplicando a régua e esquadro o princípio medinista de que tudo deve acontecer ao mesmo tempo, não olhando a custos nem a propósitos.  No meio de tudo isto espanto-me, é claro, com o silêncio cúmplice dos Cidadãos por Lisboa, a muleta eleitoral que Costa usou nas anteriores autárquicas e que de insubmissos passaram a cordeirinhos sossegados nos corredores do poder. O que vale a Medina é o despautério em que a oposição se encontra, e os comportamentos de outros candidatos, oscilando entre as gaffes e a ausência. Medina, o senhor milhões, tem no entanto uma incógnita: nunca antes foi ele próprio directamente a votos. E continua sem formalizar a sua candidatura, obviamente para ir fazendo campanha, gastando os milhões que não são seus e fingindo que está apenas a cumprir funções.

 

SEMANADA - A inspecção geral das Finanças demorou um ano a fazer sínteses de uma página de dez auditorias prontas em 2015; segundo dados do Eurostat, ajustado ao poder de compra, Portugal lidera a lista dos países da União Europeia com preços mais caros tanto na eletricidade como no gás; os indicadores de crescimento económico são positivos e prevê-se um crescimento de 2% no PIB; dados do Banco de Portugal indicam que os portugueses estão a faltar mais ao pagamento do crédito ao consumo, sobretudo nos cartões de crédito, e que duplicaram as irregularidades nos bancos; Marcelo Rebelo de Sousa alertou contra o deslumbramento dos números  e sublinhou que após a viragem económica é altura de atacar os problemas estruturais; em Portugal registam-se doze mil novos casos de cancro da pele por ano; segundo o Ministério Público os instrutores dos comandos sabiam que estavam a pôr vidas em risco na prova de instrução que causou duas mortes em Setembro de 2015; a revisão da Lei Eleitoral prevê o fim do número de eleitor e a sua substituição pelo cartão de cidadão com recenseamento automático; a detida mais velha do país, tem 89 anos, é brasileira e está em prisão preventiva por suspeita de ter vendido por 300 mil euros um prédio em Lisboa que não era seu; nos primeiro três dias após a vitória na Eurovisão Salvador Sobral foi citado em 1.641 notícias em todo o mundo e foi na Alemanha que teve direito a mais referências nas notícias; na semana passada a RTP1 ficou em segundo lugar das audiências, o que já não acontecia há muito tempo.

 

ARCO DA VELHA - A Guarda Nacional Republicana apreendeu 708 mil euros em dinheiro, 36 quilos de droga e dezenas de armas nos quatro dias em que as fronteiras foram controladas pelas autoridades, no âmbito da visita do papa Francisco a Portugal.

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FOLHEAR - A revista “Holiday” foi das primeiras grandes publicações dedicadas a viagens e na sua época áurea, os anos 50 e 60 do século passado, contou com grandes nomes entre os seus colaboradores, como Truman Capote, Jack Kerouac e Graham Greene. Em final de 1977 a “Holiday” fechou e 37 anos depois regressou num formato bi-anual, com um enfoque grande em moda usando apenas as viagens e os locais como pretexto. Franck Durand, um Director de Arte francês, é o impulsionador desta nova série, que é publicada duas vezes por ano em Paris, em língua inglesa. A edição da Primavera-Verão 2017, tem por tema a California- a terra onde está Silicon Valley, Hollywood e, claro, Los Angeles. Esta é a verdadeira “promised land” do imaginário americano, o espaço onde tudo é possível, dessde a corrida ao ouro de meados do século XIX ao despontar da contra-cultura em meados dos anos 60 e o explodir da tecnolgia no final do século passado e no início deste. É a região onde criatividade e liberdade andam de mãos dadas e dão bom dinheiro a ganhar - um combinação improvável mas, neste caso, verdadeira. O que esta edição da “Holiday” propõe é uma viagem pelo wild west, que foi primeiro um território espanhol, depois parte do México e finalmente um estado da União - Zorro, no fundo, era apenas um independentista. As fotografias de Bruce Weber mostram este Oeste sob o pretexto da moda local, o portfolio sobre a Getty Villa exibe o esplendor dos anos 50, a história de David Hockney em Los Angeles e Hollywood nos anos 60 conta a aventura de um tempo. E há ainda as fotografias de rua de Bruce Davidson, a história de como F. Scott Fitzgerald entrou no mundo do cinema e, por fim, um roteiro da viagem por estrada de São Francisco a Los Angeles. São 280 esplêndidas páginas.

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VER - Esta é a semana da ARCO, a feira de arte que Madrid exportou para Lisboa, e que vai na sua segunda edição, entre polémicas na selecção dos galeristas e um grande impacto público. Ao mesmo tempo da Feira decorrem uma série de actividades em paralelo, como a inauguração de novos espaços (a Galeria Francisco Fino no Beato ou a madrilena MaisTerraValbuena, em Alvalade - os dois dinâmicos pólos de arte da cidade). A ARCO decorre na Cordoaria, tem 58 galerias, 23 delas portuguesas. No ano passado a ARCO Lisboa foi visitada por 13 mil pessoas, este ano espera-se que o record seja batido até domingo às 18h00, quando encerrará a edição deste ano. Logo à entrada José Pedro Croft, o artista escolhido para representar Portugal este ano na Bienal de Veneza, apresenta três peças inéditas no stand da Galeria Vera Cortês e Paulo Nozolino, representado pela Quadrado Azul, será o único português na Photo España. Do numeroso programa de actividades paralelas à ARCO destacam-se as novas exposições no MAAT, uma nova exposição nas Carpintarias de São Lázaro onde a galeria Belo-Galsterer apresenta “Shadows” de Alfredo Jaar e, na sexta feira, a inauguração de “Uma Pintura e Uma Floresta”, de Pedro Cabrita Reis, no Pavilhão 31 do Hospital Júlio de Matos e que lá ficará até 30 de Junho, pela mão da Galeria João Esteves de Oliveira.

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OUVIR -  Meio mundo descobriu Salvador Sobral no sábado passado graças à vitória no Festival da Eurovisão. Conhecido sobretudo por ter participado em alguns programas de televisão antes do Festival, uma faceta menos conhecida da sua actividade musical é o disco que lançou no final do ano passado, “Excuse Me”. Trata-se de um surpreendente CD com 12 temas, sete dos quais originais do próprio Salvador Sobral e do venezuelano Leo Aldret. O álbum inclui versões de temas clássicos como “Nem Eu” (de Dorival Caymmi), de “Autumn In New York” (de Vernon Duke), “After You’re Gone” (de Henry Creamer e Turner Layton), “Ay Amor” (do cubano Bola de Nieve, aliás Ignacio Villa Fernandez) e, finalmente um tema da irmã, Luisa Sobral “I Might Just Stay Away”.  Foi em Barcelona, quando estudou na escola Taller de Músics, que colaborou com a banda Noko Woi, formada por venezuelanos radicados em Barcelona e foi assim que conheceu Leonardo Aldrey, o venezuelano que co-produziu “Excuse Me”, com o pianista Julio Resende e o próprio Salvador Sobral. Sobre a forma como o cantor se revelou neste disco Miguel Esteves Cardoso escreveu: "A voz dele é límpida e aérea. Tem uma musicalidade irrequieta que se atreve a cantar por cima do canto. Canta como se toda a música dependesse dele. Cada canção é um tudo ou nada.". Aqui está uma boa altura para descobrir “Excuse Me” - CD edição Valentim de Carvalho.

 

PROVAR - Manter a qualidade daquilo que uma casa oferece aos seus clientes é mais que meio caminho andado para defender a reputação e fidelizar a clientela. Nos restaurantes a reputação é muitas vezes um bem que se degrada mas não é o caso nos grandes clássicos, como a Versailles, Ao longo dos anos esta pastelaria, casa de chá e restaurante conquistou clientes. A casa vai-se enchendo em levas sucessivas, desde as sete e meia da manhã até à meia-noite. Há bolos que são uma ameaça ao bom senso - como os caracóis, talvez os melhores de Lisboa. Junto ao Metro do Saldanha, a Versailles é ponto de encontro e é cenário de muitas reuniões e conspirações. A hora do almoço é particularmente concorrida - esplanada cheia, mesas cheias na entrada e na mezzanine, o longo balcão repleto. O balcão tem uma hierarquia - bolos e doces ao pé da porta, salgados lá para o fundo. Ao almoço mais de uma dezena de empregados afadigam-se só ao balcão e os clássicos da casa estão sempre a sair: os pastéis de bacalhau com feijão frade, os rissóis de camarão com salada russa e os famosos croquetes da casa com salada mista - também podem vir com batata frita e esparregado. Na realidade os salgados da Versailles proporcionam um infindável número de composições com as diversas saladas e acompanhamentos à escolha. Todos são fresquíssimos e bons - claro que os croquetes são especiais. Além disso a Versailles oferece outra coisa, além da comida: o espectáculo, que começa na decoração clássica, que tem sido bem preservada, e que passa sobretudo pelas pessoas e pela azáfama de quem lá trabalha. A Versailles não é apenas uma pastelaria ou um restaurante, é um mundo. Avenida da República 15A, telefone 213 546 340.

 

DIXIT - "É uma obra arriscada, por baixo de edifícios antigos e muito frágeis, isto vai provocar problemas complicadíssimos” - Pompeu Santos, engenheiro civil especialista em infraestruturas, sobre a decisão de construir as estações de metropolitano da Estrela e Santos.

 

GOSTO - Da instalação que Ana Pérez-Quiroga expõe no MAAT, uma casa de uma única divisão, em que todo o mobiliário e objectos foram desenhados pela artista. A casa, no interior do edifício da Central Tejo, pode ser alugada (duas noites, 50 euros).

 

NÃO GOSTO - Portugal está entre os cinco países com mais adolescentes obesos.

 

BACK TO BASICS - “Cada um de nós devia, todos os dias, ouvir uma pequena canção, ler um bom poema, ver uma obra de arte e, se possível, dizer algumas palavras com sentido” - Goethe



 



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INTRANSITÁVEL - Não sei se já repararam mas depois das obras recentes os grandes cruzamentos da Avenida da República, em Lisboa, já só funcionam com a presença da polícia municipal. O caos instalado é tal que os semáforos deixaram de ser suficientes, por todo o lado voltaram os polícias sinaleiros. As obras realizadas dificultam o escoar do trânsito, o que leva a entupimentos constantes. Anomalias e erros nas temporizações dos semáforos e obras mal planeadas, feitas a regra e esquadro nos gabinetes sem ninguém se ter dignado ir aos locais, tornaram a vida em Lisboa  um inferno para os residentes - que, bem sei, são a última das prioridades para quem manda na Câmara Municipal de Lisboa. A Polícia Municipal. que teve um aumento de orçamento na casa dos 600 por cento entre o ano passado e 2017, serve agora basicamente para regular os problemas de trânsito entretanto criados e para ajudar a EMEL e aplicar multas por falta de pagamento no parquímetro. Mas essa mesma polícia municipal foge como o diabo da cruz  de evitar os estacionamentos em segunda fila, a tal prioridade que havia de ser resolvida no tempo de escassas semanas, promessa de António Costa ao ser eleito autarca lisboeta há meia dúzia de anos. Um bom exemplo dos males que se passam foi esta semana relatado num jornal a propósito  das obras no bairro do Arco do Cego, que têm tido modificações constantes e que levam a que existam sinais de trânsito contraditórios e que a circulação local seja labiríntica - “É consequência das obras no Eixo Central - estão a resolver os problemas que criaram e a criar alternativas de fuga” - diz Fernando Nunes da Silva, ex-vereador da Mobilidade de António Costa. Como se percebe, está o baile armado.

 

SEMANADA - Na actual época desportiva a GNR registou 270 incidentes com árbitros; o crédito à habitação disparou 48% no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado; no primeiro trimestre deste ano o crédito às empresas atingiu o valor mais baixo desde 2003; 84% das insolvências são de microempresas com vendas inferiores a 250 mil euros; nos tribunais portugueses, em 2016, foram pedidos serviços de intérpretes e tradutores para mais de 16 mil processos, gerando um custo de 2,4 milhões de euros; o Parlamento aprovou a realização de um levantamento que permita perceber quantas pessoas vivem em barracas, informação que o Estado diz desconhecer; o túnel do Marão já rendeu 7,5 milhões de euros em portagens; os portugueses compram 19 milhões de euros por dia de combustíveis para veículos automóveis; o Tribunal de Contas fez uma auditoria à contratação pública por ajuste direto feita pela Águas de Portugal e concluiu que "85% dos processos examinados apresentam irregularidades e insuficiências"; os EUA tornaram-se em 2016 o terceiro destino do vinho de mesa português, tomando o lugar ocupado por Angola, depois de crescimento de 8% nas exportações para este mercado.

 

ARCO DA VELHA - Ninguém pode acusar Fernando Medina de estar em campanha eleitoral - previdente, ainda não se revelou candidato a Lisboa. Entretanto vai fazendo promessas sobre o Metro, a Carris e o que vier à mão. Um presidente não eleito e um candidato clandestino. É o que temos.

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FOLHEAR - “Este livro ensina o meu caro leitor a escrever melhores notas de resgate. Também ensina a escrever melhores cartas de amor, histórias, artigos de revista, cartas ao editor, propostas de negócio, sermões, poemas, romances, pedidos de liberdade condicional, boletins da paróquia, canções, memorandos, ensaios, trabalhos escolares, teses, grafitis, ameaças de morte, anúncios  e listas de compras” - é assim que Gary Provost começa “Cem Maneiras de Melhorar A Escrita”. Provost (1944-1995) foi um escritor e jornalista freelancer norte-americano e depois de ter escrito dez romances lançou o seu primeiro livro sobre escrita, em 1980, intitulado “Make Every Word Count”. A partir daí continuou a sua carreira de escritor e jornalista freelancer e começou a dar conferências e a organizar cursos partilhando o seu saber e técnica. “Cem Maneiras de Melhorar A Escrita” foi lançado em 1985 e reflecte a experiência adquirida, sendo agora publicado em Portugal pela primeira vez, na editora Guerra & Paz. Ao longo da obra Provost fala como sobre formas de melhorar a escrita, como ultrapassar o bloqueio criativo, como escrever um início forte, como melhorar o estilo e dar força às palavras, evitando erros gramaticais e levando o leitor a gostar do que está a ler, além de conselhos úteis sobre a revisão dos textos e sobre como poupar tempo e energia. Um utilíssimo manual para quem gosta de escrever.

 

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OUVIR - “Upward Spiral” tem um ano mas só agora o descobri no Spotify, e desde que o encontrei faz parte da minha playlist com repetição constante ao longo do dia. Branford Marsalis é um dos melhores saxofonistas da sua geração, senhor de uma irrepreensível técnica e com uma grande experiência a trabalhar com vocalistas - até de diversas origens musicais, como fez com Sting nos anos 90. Por sua vez Kurt Elling é um dos mais brilhantes cantores de jazz contemporâneos, um dos mais inventivos e expressivos, longe do ambiente delico-doce e xaroposo que infelizmente povoa a maior parte do jazz vocal que aparece hoje em dia. Elling é de outra escola e se Branford mostra que sabe tocar para um vocalista, Elling mostra que sabe cantar para um grande músico de jazz. É por isso que este encontro entre estes dois talentos é tão formidável - desde as versões de clássicos como  “There’s a Boat Dat’s Leavin´Soon For New York” (uma das canções de Porgy & Bess), ou “Blue Gardenia” (um tema popularizado por Nat King Cole)  até “Doxy” (de Sonny Rollins) ou “Practical Arrangement”, (de Sting), temas onde é  justo destacar também o papel do pianista Joey Calderazzo, a pontuar  eficazmente a vocalização. Mas o momento que melhor mostra como Marsalis e Elling se entenderam, e porventura a mais arrebatadora faixa do disco, é  “I’m A Fool To Want You” (de Frank Siantra e Jack Wolf).  E surpreendente, também, é a versão de “Só Tinha Que Ser Com Você”, o tema de António Carlos Jobim popularizado por Elis Regina e aqui bem evocado. CD “Upward Spiral”, Branford Marsalis Quartet e Kurt Elling, no Spotify.

 

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VER - Em Coimbra, o Centro de Artes Visuais (CAV), revela pela primeira vez o núcleo fotográfico da Colecção Norlinda e José Lima. Sob o título “Un Certain Regard”, esta mostra tem curadoria de Albano da Silva Pereira e apresenta obras de 32 artistas, entre os quais Andy Warhol, Cindy Sherman (na imagem está um dos seus auto-retratos, mostrado na exposição), Edgar Martins, João Tabarra , Joseph Beuys, Nan Goldin, Nobuyoshi Araki, Noé Sendas Paulo Nozolino, Rita Barros, Rui Toscano, Sophie Calle, Thomas Struth e Vik Muniz. José Lima é um industrial de calçado de São João da Madeira que desde meados da década de 80 do século passado tem vindo a constituir  uma colecção de mais de 1000 obras de artistas de referência da arte contemporânea, de diversas nacionalidades e em diversos suportes. É hoje em dia um dos maiores coleccionadores portugueses e há uns anos colocou em depósito as obras da Colecção Norlinda e José Lima na Oliva Creative Factory, um espaço do Município de São João da Madeira onde está permanentemente exposta.

Outras sugestões: Na Pequena Galeria António Pedro Ferreira mostra as suas imagens sobre Fátima realizadas entre 1979 e 2016; no Museu da Etnologia, até 21 de Maio, estão expostas as  imagens do World Press Photo que este ano passou para este belo edifício pouco conhecido na Avenida Ilha da Madeira, no Restelo.

 

PROVAR -   Não sou muito doceiro e em matéria de guloseimas prefiro os biscoitos e bolos secos. Num recente fim de semana beirão, em casa de bons amigos, tive ocasião de experimentar os borrachões, frescos, acabados de fazer, oriundos de uma pastelaria de Alcains. Trata-se um um tradicional e popular bolo seco, de receita muito antiga, que substitui os ovos por azeite, vinho e aguardente e que por isso levou o nome de Borrachão. Já que falo de Alcains não quero deixar em claro a queijaria da Casa Agrícola Cabeço Carvão, que fica na estrada nacional 18, à saída da vila. Provei, com satisfação, o queijo de ovelha amanteigado, o queijo de cura prolongada, bem duro, a que dão o nome de “corno” e o queijo de ovelha à cabreira que para mim é o melhor de todos. Quem visitar a quinta onde está a queijaria pode ver ainda ver utensílios agrícolas antigos e fotografias com história. Entre os borrachões e o queijo terminou-se uma das boas refeições de um belo fim de semana beirão.

 

DIXIT -  “O partido socialista está morto, está atrás de nós” - Manuel Valls, ex-primeiro ministro do governo francês, nomeado pelos socialistas, ao aceitar ser candidato às legislativas nas listas do movimento de Macron.

 

GOSTO - Parabéns aos programadores portugueses - a Mercedes Benz criou um centro digital em Portugal, o One Web, para desenvolver soluções tecnológicas avançadas.

 

NÃO GOSTO - Metade dos alunos carenciados tem negativa a matemática e o inglês é a segunda disciplina com mais reprovações

 

BACK TO BASICS -  "Um país sem memória, ou que não cultiva a recordação das coisas, está irremediavelmente condenado" - Armando Baptista-Bastos

 




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publicado às 14:00

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REALIDADES - Já sabemos que nas próximas autárquicas vamos ter mais candidaturas independentes. Já percebemos que alguns ex-autarcas saíram dos partidos pelos quais foram eleitos e decidiram correr à margem dos aparelhos partidários que lhes deram a primeira encarnação. Em cada cidade, em cada vila, em cada freguesia há uma situação diferente. Apesar desta evidência, no fim, vai haver a tentação de ver quantos votos teve cada partido, perdendo-se assim o foco no local e ensaiando extrapolações para a política nacional. E, no entanto, estas eleições são aquelas em que os candidatos estão mais perto dos eleitores e onde a aferição das promessas eleitorais feitas, a nível local, é teoricamente mais fácil de realizar. Mas é preocupante o generalizado vazio de ideias e de debate, substituído por slogans e programas que mais parecem feitos para o país em nome de princípios genéricos do que para uma situação concreta. O que se tem passado nas autárquicas tem ainda muito a ver com o comportamento clubístico na política e não com escolhas de ideias concretas. Na realidade este é um dos nossos grandes males - pensamos pouco, improvisamos muito, vivemos em ciclos de promessas que se repetem, as mais das vezes sem serem cumpridas. O sistema partidário vigente continua a favorecer que apenas se discutam situações, propostas e soluções de quatro em quatro anos, de acordo com o calendário eleitoral. Na sociedade civil não há o hábito de analisar a realidade, de confrontar políticas, de fazer estudos e elaborar propostas, de avaliar resultados, de forma permanente e continuada. A política local tornou-se o campo dos cenários efémeros, dos alindamentos de fachada e da desmedida cobrança de taxas. Lisboa é um bom exemplo disso mesmo.

 

SEMANADA - A polícia registou 38 ataques de carteiristas por dia; o número de presos com 60 ou mais anos duplicou nos últimos sete anos;  a idade média dos agentes da Polícia Judiciária aumentou para os 48 anos; o Serviço Nacional de Saúde fechou o primeiro trimestre do ano com saldo negativo de cem milhões de euros; um estudo comparativo dos orçamentos dos países do euro indica que os contribuintes portugueses são os mais penalizados pelo custo da dívida; segundo o Banco de Portugal a dívida pública aumentou em março para 243,5 mil milhões de euros, mais 23 milhões face a fevereiro; o Banco Central Europeu voltou a travar as compras de dívida portuguesa em Abril; as vendas dos produtos de marca branca subiram pela primeira vez desde 2012; os portugueses gastam mais de 100 milhões de euros por ano em material de running - roupas, sapatos, gadgets, etc; por cada seis ataques de cães perigosos só foi passada uma multa; a partir de agora, numa separação litigiosa em que o casal tenha animais de estimação, caberá ao juiz decidir com quem fica o bicho; na actual legislatura os deputados já receberam 198 mil euros para reunir com cidadãos nos seus círculos eleitorais mas não são pedidas provas desses encontros por parte dos serviços da Assembleia da República;  duas em cada cinco empresas de construção são ilegais.

 

ARCO DA VELHA - Numa factura de 93 euros da EPAL, 41.30 destinam-se a água efectivamente consumida e 48.61 a diversas taxas da Câmara Municipal de Lisboa - o restante vai para o IVA e outras alcavalas.

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VER - Nos últimos dias vi duas criações, bem diversas entre si, mas que tiveram o condão de me chamar a atenção para a importância de sair da rotina, pular para fora da caixa, puxar pela imaginação, estimular a imaginação de outros. A primeira foi o filme “Fátima”, onde João Canijo demonstra que é o melhor realizador português contemporâneo: o mais criativo, o que melhor mostra uma compreensão técnica do cinema em todos os seus aspectos, o que melhor dirige actores, o mais experimental, o mais inovador, o mais sólido e consistente e que ao mesmo tempo mais arrisca na forma como aborda os temas, prepara os filmes e mostra ser o que mais está aberto à mudança e experimentação. “Fátima” é isto tudo - não se trata de uma evocação de uma peregrinação, esse é apenas o pretexto para a construção de uma teia dramática onde personagens ganham vida própria, entram em conflito umas com as outras e por fim se reencontram. A forma como a procissão das velas é filmada (e como surge no filme) é um exemplo de como mostrar a força da multidão usando a maior sensibilidade.

O outro momento a que me refiro, e que aqui aparece ilustrado, é uma ideia magnífica de Pedro Cabrita Reis para trazer as artes plásticas para a rua - mais propriamente para as montras de um estabelecimento comercial, neste caso um bar histórico do Cais do Sodré. @britishbar#1 é o título da iniciativa que assinala o início de uma série de exposições que até ao fim do ano passarão por aquelas montras. Nesta primeira mostra estão obras de Eduardo Souto Moura, de Rui Sanches e de Ângela Ferreira, todas feitas expressamente para o local onde estão instaladas - cada uma das três montras da fachada do British Bar. Não há melhor pretexto para ir tomar um aperitivo - uma cerveja Guinness ou um Gin por exemplo -  duas especialidades desta casa que merece ser mais conhecida e vivida. E nada melhor que a arte para trazer vida a um local.

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FOLHEAR - Antes de as revistas terem voltado à moda e de serem objectos de colecção já a portuguesa “Egoísta” se deixava folhear com gosto. A “Egoísta” tem 17 anos de idade e 77 prémios no currículo. Sai trimestralmente, bem impressa em excelente papel, é propriedade da empresa Estoril-Sol e o seu director e entusiasta é Mário Assis Ferreira que desde a primeira hora confiou a edição a Patrícia Reis. O projecto gráfico inicial foi de Henrique Cayatte e agora é desenhada por Joana Miguéis, do atelier 004. Cada número é dedicado a um tema e ao longo da meia centena de edições publicadas imagina-se que já por ali se falou de tudo. Faltava a política e é esse o tema da “Egoísta” agora nas bancas. No editorial deste número Mário Assis Ferreira escreve: “No nebuloso universo do partidarismo político, Esquerda e Direita já perderam sentido: as ideologias subvertem-se às manipulações tácticas dos partidos e é na comunhão de ódios que se cimentam alianças espúrias”. Ou, como também Mário Assis Ferreira gosta de dizer, citando Clarice Lispector: “Liberdade é pouco: o que desejo ainda não tem nome!”. Esta  “Egoísta” da política inclui, entre outros, textos de Michelle Obama, Paulo Portas e Daniel Oliveira, uma entrevista com António Costa, portfolios fotográficos sobre Cuba, imigrantes,  Marcelo Rebelo de Sousa e “Ghosts” da África do Sul (o melhor de todos), a reprodução de posters incontornáveis da história da propaganda política e um poema de Manuel António Pina para contrabalançar.

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OUVIR -  Damon Albarn tornou-se famoso do lado de Graham Coxon - ambos fizeram carreira e fortuna nos Blur ao longo da maior parte da década de 90. Depois disso Albarn inventou, perto da viragem do século passado, uma banda virtual, os Gorillaz, cujo primeiro disco saíu em 2001. Visualmente eram personagens de banda desenhada criada por Jamie Hewlett, o criador de “Tank Girl”. Os Gorillaz davam entrevistas virtuais, criaram um biografia ficcionada, o seu álbum de estreia parecia a banda sonora de uma festa de adolescentes e vendeu sete milhões de exemplares. Nos seus quatro primeiros CD’s, entre 2001 e 2010, venderam ao todo 15 milhões de CD’s, até chegarem a este novo “Humanz”, que parece uma espécie de banda sonora para uma noite de reflexão descontraída em torno da presente situação mundial - por aqui passam temas políticos, sociais, ambientais, de comunicação, canções onde se aborda desde a situação da internet até distúrbios mentais. Em “Humanz” Damon Albarn arregimentou um conjunto de convidados como Danny Brown, Pusha T, Jehnny Beth, Danny Brown, Benjamin Clementine, D.R.A.M., Del La Soul, Peven Everett, Anthony Hamilton, Grace Jones, Zebra Katz, Kelela, Popcaan, Jamie Principle, Mavis Staples, Carly Simon, Vince Staples ou Kali Uchis, entre outros. São 20 faixas que mais parecem uma playlist de uma emissão de rádio em streaming do que um álbum - no fundo a prova de como, há quase 20 anos, Albarn percebeu que, com a internet, o consumo da música ía mudar.  Disco Warner Brothers, disponível no Spotify.

 

PROVAR - Estas linhas vão para a série “petiscos que eu faço para mim mesmo”. Já aqui falei da dificuldade atávica da maioria dos cafés portugueses em fazerem sanduíches competentes que superem o trauma da carcaça de borracha com transparências de fiambre e queijo plastificado. Alimento a esperança de que um dia hei-de conseguir que me façam uma sanduíche de queijo da ilha, em bolo lêvedo tostado, lascas finas sobrepostas, temperadas com uma compota contrastante, de preferência dos Açores. Quando me dedico ao assunto em casa uso queijo da Ilha de S. Miguel, de cura prolongada, casca preta. É levemente mais intenso que o de S.Jorge, embora ambos sejam queijos magníficos, entre os melhores de Portugal. Corto-o em lascas e no pão faço-o conviver com uma compota açoreana,  de preferência a de figo embora a de capucho também seja interessante. Pode encontrar tudo isto em www.merceariadosacores.pt. E já que lá está experimente uma das conservas de atum temperadas da marca Catarina - sugiro que um dia destes prove os filetes de atum com funcho ou com tomilho. Vai ver que não se arrepende. E quem quiser atum para sanduíche pode experimentar os Flocos de Atum Temperados, “ideal para sandes”, da fábrica Corretora, de Ponta Delgada. Com agrião pelo meio fica do melhor.

 

DIXIT -  “Quem arrisca falir são os contribuintes, não a Banca”, Nuno Melo, eurodeputado do CDS à revista Domingo, do  Correio da Manhã.

 

GOSTO - Isabel Mota passou a presidir aos destinos da Gulbenkian, sublinhando que a arte, a educação e a ciência são os alicerces da tolerância que criam uma sociedade mais solidária.

 

NÃO GOSTO - Os pré avisos de greve cresceram cerca de 20% nos primeiros quatro meses do ano face a igual período do ano passado.

 

BACK TO BASICS - “A Arte é uma garantia de sanidade” - Louise Bourgeois

 

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publicado às 15:35

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ABUSO - Em 25 de Abril de 1974 o fotojornalista Alfredo Cunha, então no início da sua carreira, fez uma imagem do capitão Salgueiro Maia que ficou para a História, e que se tornou numa das suas fotografias mais conhecidas. Este ano a Juventude Popular pegou na imagem, alterou o seu enquadramento, manipulou-a digitalmente e utilizou-a num cartaz - fez tudo isto sem pedir autorização ao autor da fotografia. Manda o bom senso e a ética, para além da Lei,  que não se utilizem em propaganda e em publicidade fotografias, textos ou ilustrações sem a expressa autorização dos seus autores. A Juventude Popular achou por bem ignorar o Direito de Autor e fez com a imagem de Alfredo Cunha aquilo que quis. Alfredo Cunha anunciou que irá processar a organização por utilização indevida da sua obra. Francisco Rodrigues dos Santos, presidente da Juventude Popular, em resposta, manifestou-se revoltado com a posição do autor e afirmou que “43 anos mais tarde parece que nos querem subtrair aquilo que naquele dia nos deram”,  sugerindo que aquela fotografia “pertence ao património imaterial do país”. Insinua ainda que na base de decisão de Alfredo Cunha estarão motivações políticas. Ora acontece que a propaganda política é a publicidade dos partidos e é lamentável que um dirigente partidário não saiba que os autores têm o direito de recusar que as suas obras sejam associadas a organizações políticas nas quais não se revêem. Estamos pois perante o caso de um dirigente político que defende o abuso do direito de autor - o que neste universo contemporâneo é uma questão na ordem do dia em qualquer área criativa. Pior ainda é que os dirigentes mais velhos e experientes do seu partido não venham explicar ao senhor que a política se faz com respeito pelos outros e não abusando deles. A começar por não violentar a consciência e as opções políticas de quem quer que seja.  

 

SEMANADA - Em 2015 os acidentes em contexto laboral provocaram mais de dois milhões de dias de trabalho perdidos; mais de 10% dos alunos da universidade de Coimbra são brasileiros; já há mais sul-coreanos a pernoitar em Fátima do que brasileiros; em 2016 foram elaborados 1.112 autos a proprietários de cães de raças potencialmente perigosas; segundo a GNR cães considerados perigosos fizeram pelo menos 355 vítimas em 15 meses; em média a ASAE multa 2700 estabelecimentos de restauração por ano e encerra um restaurante por dia; a quantidade de peixe transacionada em lota diminuíu 18% desde 2010 e o preço médio do pescado por quilo subiu 31%; um estudo britânico indica que as crianças que usam tablets e smartphones dormem menos e pior; os dados do Netpanel da Marktest mostram um aumento de 10% no número de horas de navegação em sites de informação durante o mês de Março; um estudo do Eurostat indica que 49% dos portugueses usam a internet para fazer um auto-diagnóstico médico a partir de pesquisas no Google; 90% dos maiores de 50 anos não estão vacinados contra a pneumonia; Portugal tem a terceira maior dívida da União Europeia em percentagem do PIB, logo atrás da Grécia e Itália; Portugal tem a quarta maior taxa de abandono escolar na Europa, a seguir a Malta, Espanha e Roménia.

 

ARCO DA VELHA - Enquanto o Comissário Europeu da Saúde considera que algumas vacinas, como a do sarampo, devem ser obrigatórias, o nosso Ministro da Saúde descartou a possibilidade de de o governo propor a obrigatoriedade da vacinação; o Director-Geral da Saúde, Francisco George, condenou a “moda bizarra” de não vacinar as crianças.

 

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FOLHEAR - São quase 700 páginas a relatar o grande desafio do homem contra a natureza, personificada na grande Baleia Branca, a Moby Dick. É uma escrita que parece às vezes uma reportagem e noutros momentos se revela uma sucessão de recomendações, pensamentos, opiniões.  “Moby Dick” é um dos grandes livros da história da literatura e, no entanto, em vida do autor, Herman Melville, vendeu apenas cerca de 3000 exemplares. Melville navegou em barcos de carga e em baleeiros no Pacífico e no meio das suas viagens foi capturado por canibais na Polinésia, tendo conseguido fugir. Em tudo o que viveu encontrou material para escrever. Fez da vida que viu, da vida que ouviu e da que imaginou a matéria prima das suas histórias. É de William Faulkner esta frase: “ penso que o livro sobre o qual poderia dizer incondicionalmente quem me dera ter escrito isto é o Moby Dick”. Trata-se da história de um capitão de Marinha enlouquecido que, depois de ter sido mutilado por uma baleia, procura vingar-se. O capitão chama-se Ahab e a baleia é Moby Dick, o terror dos baleeiros. No interior do barco de Ahab, o Pequod, gera-se um micro-cosmos onde o ressentimento e o ódio alimentam o confronto e o conflito. “Moby Dick” é o relato do desafio entre o homem e a natureza e das rivalidades e disputas entre os homens. Foi agora editado pela Guerra & Paz na sua colecção de clássicos.

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VER - Ana Vidigal gosta de mostrar as suas memórias - umas vezes pessoais, familiares, outras vezes memórias de tempos vividos, às vezes mapas que desenham o imperfeito mundo em que vivemos. “Eu encontro coisas e guardo-as. Junto-as. Penso que não as perco” - escreve Ana Vidigal a propósito desta sua nova exposição, a quarta individual que faz na Galeria Baginski. Assumidamente, como a artista escreve, “este é um tempo político” e é isso mesmo que estas imagens da memória nos mostram, evocando geografias e momentos. Na fotografia aqui reproduzida Vidigal está junto a “Há manhãs que cantam” - o título da obra em fundo e que remete para a China da Revolução Cultural. Outras, das oito obras aqui expostas, têm títulos como”Morrer na praia”, “Só a a poesia nos pode salvar. Há lugar para mim?(Bambi a fugir de lá)” ou “o fim está no meio”. A exposição está na Baginski até 9 de Junho (Rua Capitão Leitão 51, ao Beato). Mudando de registo e passando para a fotografia, a Barbado Gallery expõe obras recentes do fotógrafo brasileiro Claudio Erdinger que, depois de uma carrreira de duas décadas como fotojornalista nos Estados Unidos, regressou a S. Paulo, de onde trabalha na sua visão das urbes e das alterações de paisagem. A Barbado fica na Rua Ferreira Borges 109. Finalmente, na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27), o artista galego Misha Bies Golas expõe até 11 de Maio “Recordo”, uma co-produção com o DIDAC, uma instituição de Santiago de Compostela, em que o artista mostra como a reutilização de materiais pode ser matéria prima para a criatividade.

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OUVIR -  Ralph Towner é um dos guitarristas de jazz que mais aprecio e discos exclusivamente de guitarra fazem parte das minhas preferências. “My Foolish Heart”, agora editado, é o primeiro disco de Towner a solo desde “Time Line”, de 2006, e neste novo registo ele passa pelos seus territórios preferidos que evocam influências da música clássica, da folk, da música espanhola para guitarra e, claro, dos standards de jazz, como o nome do álbum, “My Foolish Heart” indica. O original de “My Foolish Heart”, uma composição de Victor Young e Ned Washington, surgiu na banda sonora do filme com o mesmo nome, em 1949. Mas este “My Foolish Heart” de Ralph Towner é bem diferente do original e, no caso deste seu novo álbum, é mesmo o único tema que não foi composto por ele - e o guitarrista já afirmou que começou a ouvir esta canção de outra maneira quando ouviu a versão que dela fez Bill Evans, ao piano. No disco Towner toca guitarra de seis e 12 cordas e alguns dos seus temas que incluíu neste álbum são novas versões de composições que fez no início da carreira, como “Shard” e “Rewind”. Um dos novos temas é uma homenagem ao seu amigo Paul Bley, desaparecido há cerca de um ano, duas semanas antes deste disco ter sido gravado - “Blue As In Bley”. Editado pela ECM, “My Foolish Heart” de Ralph Towner foi publicado em Fevereiro deste ano. Como outras edições da ECM não está disponível no Spotify.

 

PROVAR - Mário Ribeiro e Francisco Bessone largaram o Sushic de Almada em meados do ano passado e instalaram-se nas Avenidas Novas, no Nómada. Reformularam o espaço, criaram uma esplanada coberta e fizeram um menu que mostra a forma como encaram a cozinha japonesa, incorporando influências ocidentais e propondo também pratos de gastronomia portuguesa. Em primeiro lugar deve dizer-se que um dos segredos do local é a qualidade dos ingredientes utilizados, a forma como são combinados e, finalmente, o serviço exemplar. Já agora, aqui encontra-se uma garrafeira com uma diversidade e qualidade que é raro encontrar em restaurantes de inspiração japonesa, e a preços decentes. O nome escolhido, Nómada, é afinal o descritivo de uma cozinha que derruba fronteiras e não vive de preconceitos, aberta a experiências e combinações inesperadas.  Nas entradas destaco  o Asian Ebi, em que uma base de arroz envolto em sésamo torrado é temperado com maionese japonesa e finalizado com tempura de camarão com caril. Também merecem destaque as gyosas de legumes e frango, os cones crocantes recheados de atum e cebola em vinho do Porto e sobretudo as vieiras seladas em óleo de sésamo com puré de castanhas, gengibre e manga. Outra belíssima experiência foi o carpaccio de lírio dos Açores cortado em tiras finas regado com molho ponzu e azeite de alho, acompanhado de chips de raiz de aipo. Tenho ouvido elogiar o vongole - pampo cortado em tiras finas com camarão, mexilhão e berbigão à bolhão pato japonês. Ainda no domínio oriental há uma boa oferta de combinados de sushi e sashimi. Se alguém quiser algo menos oriental pode escolher pratos tradicionais que vão do prego de atum com chips de batata doce a um mil folhas de salmão com legumes em manteiga de alho ou uma perna de pato confitada com puré de castanhas e legumes. A escolha de vinho foi um branco, a copo, da Quinta do Penedo, que se revelou muito apropriado. Nos doces destaque para o gelado sobre crumble de maçã e o fofo de chá verde com gelado de melão e gengibre. Nómada, Avenida Visconde de Valmor 40A, telefone  917 779 737. É melhor marcar.

 

DIXIT -  “Não tenho vontade nenhuma de sair do Porto” - Rui Moreira

 

GOSTO - De todo o processo de pesquisa e criativo que o realizador João Canijo e as actrizes seguiram para fazer “Fátima”, um filme fora de série.

 

NÃO GOSTO - Do futebol como pretexto para violência entre adeptos, instigada por dirigentes das claques que se tornam figuras de prôa nas eleições dos clubes e que são toleradas pelos dirigentes.

 

BACK TO BASICS - “Se o objectivo é falar verdade, deixem as preocupações sobre a elegância ao alfaiate” - Albert Einstein.

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publicado às 13:30

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ALCÁCER-QUIBIR  - Em 1578 D.Sebastião foi derrotado, em Marrocos, na Batalha de Alcácer-Quibir, terminando aí o período da expansão portuguesa iniciado com a vitória na Batalha de Aljubarrota. A Dinastia de Avis findou, Portugal perdeu a independência durante 60 anos. Quando olho para o que vivemos agora é impossível não encontrar paralelos. Depois das desgraças ocorridas na política, nas empresas e no sistema financeiro desde o início do século temo chegar à conclusão que estamos perante um novo Alcácer-Quibir, onde os exércitos dos xeques marroquinos foram substituídos pela corrupção e as manigâncias que venceram e nos afundaram. Da mesma forma que aconteceu há mais de quatro séculos, estamos a ser transformados numa mera região de Espanha, agora pelas empresas internacionais, pela Banca europeia e pelo conluio urdido em Bruxelas com perseverança e afinco. Corremos o risco de ficar irrelevantes, o início do século marcou novo fim da ilusão e regressámos à geografia do pequeno rectângulo, que agora estamos a despachar em retalhos de paisagem e de sol - devemos ser dos poucos a desejar que o aquecimento global nos continue a dar calor a rodos. Os recursos naturais da paisagem são o nosso nicho de negócio e vendemos o território a patacas, afastando os locais e dando a primazia  aos forasteiros. Tratamos o presente como um aviário de galinhas poedeiras de ovos de ouro, que vamos servindo de cabidela sem cuidar do dia de amanhã.

 

SEMANADA - Segundo a Direcção Geral da Saúde cerca de 95 mil jovens não estão vacinados contra o sarampo; na sequência da exoneração do responsável pelo departamento que investiga acidentes aéreos (por ter criticado a falta de meios de que dispunha), o Governo nomeou para esse lugar um especialista em incidentes ferroviários; há apenas dois técnicos especialistas em aeronaves nesse departamento, mais um do que em comboios; os portugueses descarregam uma média de 18 aplicações por mês para os seus smartphones e tablets; 78,2% dos portugueses consideram que os dados mais insubstituíveis que têm nos seus telemóveis são as fotografias, elas são aquilo que mais temem perder; segundo a Marktest, em Março, cerca de metade dos acessos aos sites mais relevantes são feitos através de dispositivos móveis; no que toca a consumo de vinho Portugal está no topo da lista, com um consumo de 54 litros por pessoa e por ano, seguindo-se França (51,8 litros), Itália (41,5 litros) Suécia (41 litros), Suíça (40,3 litros), Bélgica e Argentina (31,6 litros em cada país), Alemanha (29,3 litros) e Austrália (27 litros); há 500 mil analfabetos em Portugal; o número de patentes de invenções registadas anualmente por portugueses passou de 200 para mais de mil no espaço de uma década; 12% da dívida directa do Estado está nas mãos das famílias que apostaram nos Certificados do Tesouro Poupança Mais; dois terços das pessoas que mudaram de sexo no Registo Civil em 2016 tinham entre 18 e 29 anos; Mário Nogueira voltou a organizar uma manifestação de rua dos professores; o viaduto de Alcântara continua encerrado ao trânsito e Manuel Salgado continua à procura do camião fantasma.

 

ARCO DA VELHA - O Metropolitano de Lisboa retirou  parte de um painel de azulejos da pintora Gracinda Candeias na estação do Martim Moniz,sem comunicação prévia à autora nem a sua autorização, e a administração da empresa afirma também desconhecer a situação.

 

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FOLHEAR - Desde pequeno que me dedico a fazer colecções. Já passei por várias, de selos a filmes de James Bond, borboletas (ai o PAN…) ou construções de Legos. Ao fim destes anos há duas que permanecem galopantes: discos e livros. A coisa causa-me alguns problemas de espaço mas há um apelo irresistível quando uma editora decide lançar uma nova colecção de livros, ainda por cima com um toque de novidade. A questão da novidade para mim não se coloca tanto nos textos mas na forma como eles são passados a papel. O caso desta semana refere-se a um obra clássica - “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, a versão possível de um Indiana Jones de 1719, que foi a sua data de edição original. A ideia de Manuel S. Fonseca e da sua editora  “Guerra & Paz nesta nova colecção é adaptar, em versões resumidas e de escrita contemporânea, os grandes romances clássicos, versões feitas para um público dos 9 aos 14 anos. Muito acertadamente a colecção intitula-se “Os Livros Estão Loucos” e, para além de “Robinson Crusoé”, irá ainda atrever-se este ano no “Romeu e Julieta” de Shakespeare, na “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll e no aventureiro “Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas. Num livro o aspecto gráfico é determinante e Ilídio Vasco faz mais uma vez maravilhas entre os tipos utilizados, a intromissão de destaques ou de ilustrações. A adaptação do texto vive de um intercalado diálogo imaginário entre dois leitores, irmãos, que se deslumbram com o evoluir da história e das aventuras. Delicioso. E, parece-me, eficaz para conseguir que haja mais gente a ler estes clássicos. Cá para mim o tal plano nacional de leitura devia ter disto.

 

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VER - Durante nove anos o fotojornalista português João Pina (na imagem) trabalhou em “Operação Condor”, o ensaio fotográfico e correspondente exposição que desde 20 de Abril e até 18 de Julho é mostrado pela primeira vez em Portugal, no Torreão Poente do Terreiro do Paço. Inicialmente mostrada em São Paulo, em 2014, esta exposição sobre a repressão nas ditaduras sul-americanas foi financiada por um processo de crowdfunding que recebeu contribuições de pessoas de 20 países diferentes. João Pina, que continua a dividir o seu tempo entre a América do Sul e Portugal, venceu este ano o prémio Estação Imagem, com a reportagem “Rio de Janeiro – Preço pelos Eventos Desportivos”, através da qual tenta mostrar as consequências que os Jogos Olímpicos de 2016 e o Mundial de Futebol de 2014 tiveram naquela cidade. Publicado em jornais e revistas de referência por todo o mundo, João Pina é um dos nomes incontornáveis da fotografia portuguesa contemporânea.

 

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OUVIR -  Em 1963 Astrud Gilberto foi para os Estados Unidos com João Gilberto e tornou-se conhecida no mundo do jazz com o agora clássico álbum Getz/Gilberto, onde cantou pela primeira vez canções do seu marido com arranjos de Tom Jobim. A sua versão de “The Girl From Ipanema” tornou-se num clássico instantâneo e criou o bossa-jazz. Avancemos agora duas décadas: Eliane Elias, que tinha três anos quando Astrud foi para os Estados Unidos, decidiu viver o sonho americano e lá gravou um disco menor em 1983. Mas não desistiu. Ao longo do tempo foi percebendo que ser brasileira era uma vantagem e, na companhia dos músicos norte-americanos com quem conviveu e trabalhou, foi evoluindo até “Made In Brazil”, o disco que ganhou o Grammy de Latin Jazz de 2016. O novo “Dance Of Time”, agora editado, prossegue esse trilho, misturando temas clássicos brasileiros com composições inéditas e standards de jazz. Em abono da verdade deve dizer-se que Eliane Elias tem a seu favor a forma como toca piano, e que é uma das suas grandes mais valias. É uma canção de João Gilberto, “O Pato”, que abre de forma irresistível este disco, mas é justo elogiar “Little Paradise”, um brilhante original de Eliane, assim como a sua versão, inesperada, de “Speak Low”, um tema de Kurt Weil. O disco termina com um dueto com Toquinho em “Pra Não Chorar/ Not To Cry”, um tema que ele compôs para Eliane, tinha ela 18 aninhos. E, finalmente, também gosto do “Na Batucada da Vida”, de Ary Barroso e Luiz Peixoto, uma bela canção de fim de noite. CD Concord, já disponível em Portugal.

 

PROVAR - A focaccia é uma especialidade italiana, um pão achatado que ao ir ao forno é salpicado com rosmaninho ou alecrim, sal grosso e azeite. A farinha usada na sua confecção tem bastante gluten e dá-lhe uma consistência forte. A focaccia pode ser servida para acompanhar uma refeição ou para aperitivos, com azeite, carnes frias ou legumes salteados. Finalmente também pode servir para fazer uma bela sanduíche com um sabor muito próprio e uma textura rica. Não é muito fácil encontrar uma boa focaccia em Lisboa e um restaurante de um food corner de um centro comercial parece o mais improvável local para isso acontecer. E no entanto a focaccia servida no Focca, do Centro Comercial Picoas Plaza, é uma das melhores que ultimamente me foi dado provar. A casa usa a receita tradicional, faz as suas fornadas diárias e propõe uma série de sanduíches de focaccia. Numa visita recente provei uma de mortadela trufada, com cebola confitada, alface e molho de mostarda. Ao lado um cliente deliciava-se com uma de carne de vitela assada com mozarella e outro ainda com uma de presunto de parma, figo e mel. Na lista existe também uma de pernil assado e outra de legumes grelhados, marinados em ervas aromáticas. Eu achei a minha de mortadela trufada uma delícia, que acompanhei com um copo de vinho tinto Gláudio. As sanduiches de focaccia oscilam entre os 5,30€ e os 6.10€. Cabe dizer que o serviço é muito simpático, que existem várias saladas e ao fim da tarde o local proporciona uns petiscos e aperitivos com pedaços de focaccia, queijo, enchidos e várias propostas de vinho a copo. O lema da casa é “una buona focaccia è como un abbracio forte”. Mais informações na página da Focca no Facebook ou em www.focca.pt . Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro 65, 912 756 414.

 

DIXIT -  “Ninguém pode fingir que Portugal é um oásis sem corrupção, sem gestão danosa, sem tráfico de influências e sem grande criminalidade de colarinho branco” - Nuno Garoupa, num artigo intitulado “Falar de corrupção em Portugal é cada vez mais complicado”

 

GOSTO - A Cinemateca Júnior celebra dez anos de atividade, a funcionar no Palácio Foz, com em ateliers, oficinas de cinema e imagem em movimento, e, claro, sessões de cinema.

 

NÃO GOSTO - Do desprezo pelas recomendações de vacinação a crianças.

 

BACK TO BASICS - "Numa época de mentiras generalizadas, dizer a verdade é um acto revolucionário." - George Orwell

 

 






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publicado às 16:28


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