Terça-feira, 15 De Maio,2012

A ATRACÇÃO DA COLHER DE PAU

Parece que uma colher de pau e um tacho são a nova guitarra elétrica.  Quando se quer fama,  é mais fácil obtê-la ao pé de um fogão do que numa banda rock ou num filme. As novas estrelas da televisão são cozinheiros. Fazem programas sobre eles próprios, sobre os sítios onde vão, concursos que vitimizam desgraçados que também querem ser estrelas. Em geral têm lindas caras, são elegantes, sem aquela barriguinha nascida à volta da bancada da cozinha. Por este andar qualquer dia os paizinhos vão mandar os filhos para cursos de cozinha em vez de os atolarem em lições de piano.

 

Os cozinheiros que se transformaram em estrelas são o pilar de uma área do entretenimento televisivo que se está a tornar das mais apetecidas no mundo inteiro – de «Master Chef» a «Hell’s Kitchen», passando por canais como «The Food Network». Cozinhar tornou-se numa moda – um maná para concursos e programas de receitas.

 

Há uma outra categoria – a dos que fazem viagens e vão provando petiscos. Na semana passada a estreia, nos Estados Unidos, do programa de Anthony Bourdain dedicado a Lisboa teve o curioso efeito de colocar os discos dos portugueses Dead Combo no top dos downloads do iTunes. A razão é simples – o «No Reservations» sobre Lisboa tinha  banda sonora do grupo e até incluía uma curta conversa com os músicos. Foi o suficiente para os americanos comprarem downloads dos discos – uma prova de que a TV ainda influencia muitos comportamentos e é um grande veículo comercial. O programa, que só será estreado na Europa daqui a algum tempo, já tem sido sobejamente visto no YouTube – o que coloca por sua vez a questão de evidenciar que os programas de televisão são vistos com cada vez maior frequência fora dos ecrãs de TV e nos ecrãs de tablets ou de computadores.

 

(Publicado na edição de hoje do diário Metro)

publicado por MF às 13:15
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Sexta-feira, 11 De Maio,2012

O Pingo Doce, mudanças digitais, semanada e sugestões avulsas

MARKETING - Polémicas ideológicas e sociais à parte, nos dias a seguir à campanha de descontos do Pingo Doce do dia 1 de Maio muita gente apareceu a elogiá-la como uma grande acção de marketing. Tentemos fazer um balanço. O que correu bem? – uma enorme afluência de público, uma primeira imagem positiva de auxílio às bolsas mais fracas na situação actual de crise, captação de novos clientes vindos de outras cadeias de distribuição, vendas e facturação acima de todas as previsões (por acaso a coincidirem com o tradicional período de aperto de algumas tesourarias devido à liquidação do IVA). E, o que correu mal? – incidentes graves em muitas lojas, acusações de eventual dumping, diminuição do efeito positivo antes referido devido à forma como a acção veio colocar em agenda a questão do relacionamento das cadeias de distribuição com os seus fornecedores (nomeadamente com os produtores agrícolas nacionais), noticiário negativo sobre a transferência dos descontos para os fornecedores. E o que surgiu de novo? – na prática uma alteração do posicionamento da marca Pingo Doce, de loja de proximidade acolhedora para uma cadeia de hard discount. Avaliados os prós e os contras eu diria que os aspectos negativos, em termos de imagem da empresa e do sector da distribuição, superaram os positivos. E, claro, resta saber se o posicionamento do Pingo Doce foi modificado intencionalmente ou não. Se não foi, o investimento para anular esse desvio será considerável. E é mais um ponto negativo.

 

DIGITAL  - Tudo indica que estamos a assistir a uma mudança acelerada na paisagem digital, tal como a temos conhecido até aqui. Há dois anos a revista «Wired» titulava a sua capa de forma provocatória com a frase «The Web Is Dead». Algumas pessoas não perceberam na altura o que isso queria dizer – mas agora, aos poucos, começamos todos a perceber como a provocação era mais pequena que a previsão. Trocando por miúdos: a utilização da internet, dos sites web tradicionais, está a diminuir e a utilização de aplicações teve um aumento explosivo. Em França, um estudo que analisa o primeiro trimestre deste ano, indica que 63,4% dos sites web viu a sua utilização descer, enquanto as aplicações registavam um aumento de utilização de 57,5% . No ano passado foram descarregadas 10,7 mil milhões de aplicações e a previsão é que em 2015 se atinjam os 183 mil milhões. Nada que espante: este ano estima-se que sejam vendidos 119 milhões de tablets, um aumento de 98% em relação a 2011.Tudo muda muito depressa à nossa volta quando olhamos para o mundo digital. Na semana passada um especialista norte-americano assinalava que 80% do investimento publicitário em digital é aplicado em display, a publicidade que aparece por exemplo nos sites dos jornais; mas, sublinhava, 80% do tempo das pessoas que navegam na net é agora passado nas redes sociais como o Facebook, o Twitter, o Linkedin , o Google + e o Instagram. Esta é a tendência e é incontornável. Por isso é que a colocação em bolsa do Facebook e a compra do Instagram dão que falar. E a facturação do Facebook cresceu 45% noi primeiro trimestre, em relação a igual período do ano passado.

 

SEMANADA –  49,1% da população portuguesa já utiliza a internet; mais de 300 famílias entram em incumprimento todos os dias e, destas, uma centena deixa de pagar a prestação da casa; estão a abrir duas lojas de ouro por dia; uma em cada cinco grandes empresas portuguesas tem dívidas em atraso à banca; 1437 alunos universitários pediram empréstimos no valor total de 17 milhões de euros para financiarem os seus estudos; Guimarães Capital da Cultura está sem verbas e vai recorrer à banca para conseguir manter a programação; empresas angolanas reforçaram esta semana as suas posições accionistas no BPI e na ZON; nas eleições francesas a abstenção teve o valor mais baixo dos últimos anos; o tratado de Roma foi assinado há 55 anos, o Tratado de Lisboa foi assinado em 2009 e a Europa está num pantanal.

 

ARCO DA VELHA – Mário Soares apelou a que o PS rompesse o acordo com a Troika; no mesmo dia Carlos Zorrinho sublinhou que o PS não se desvincularia do acordo. O líder da coligação grega de extrema-esquerda Syriza disse que só participaria num executivo se for rasgado o acordo com a troika.

 

VER –  A Carbono é uma loja de discos, especializada nas edições em vinyl, e que fica no nº 6 da Rua do Telhal, perto da avenida da Liberdade. É um espaço com uma dimensão simpática e promoveu agora uma exposição baseada em capas de LP’s intitulada «Descubra as Diferenças». A exposição fica patente até Agosto e baseia-se na comparação entre capas semelhantes, partindo do princípio que qualquer obra parte sempre de influências e referências. Por exemplo a capa de London Calling dos Clash é claramente inspirada pela capa do primeiro LP de Elvis Presley; os Pearl Jam inspiraram-se uma vez num single dos Jackson 5, os portugueses Tédio Boys seguiram o EP «She Loves You» dos Beatles. Ao todo são 200 capas de discos em exposição que mostram semelhanças, homenagens, referências. Se gosta de discos de vinyl esta é uma boa oportunidade para conjugar uma visita a uma exposição invulgar com a descoberta de uma loja única.

 

OUVIR – Walter Benjamim foi um crítico literário, ensaísta e filósofo alemão que viveu no início do século XX. É também o nome escolhido pelo português Luís Nunes, que a partir de Londres, onde vive, criou «The Imaginary Life Of Rosemary And Me», um CD surpreendente, com oito canções simples, onde se misturam referências folk, sonoridades que lembram ás vezes Eels, outras vezes Lambchop ou ainda o lirismo de Mazzy Star. Mas não se pense que este é um disco de cópias – é um disco de belas canções pop, como poucos portugueses dos últimos anos.  Destaque para «Mary», «Airports And Broken Hearts», «Twenty Four» ou «Our Imaginary House», uma delícia que reza assim: ‘«Our imaginary house/has your paintings on the walls/ and my songs under the doors/you may come in if you like/and be happy for a while/or you may move in next door».

 

FOLHEAR – Volta e meia gosto de comprar a revista semanal francesa «Les Inrockuptibles». Não se deixem enganar pelo título – há muito mais coisas lá dentro do que rock – cinema, tendências, literatura, exposições, séries de Tv, sociedade, política. Por exemplo uma bela reportagem sobre os efeitos da campanha porta a porta que os estrategas de Hollande decidiram fazer logo a seguir à primeira volta – quase quatro milhões de casas receberam um contacto da campanha e o efeito eleitoral deve ter rondado os 200.000 votos, sobretudo nos abstencionistas. Aqui está uma coisa para fazer pensar os nossos especialistas em marketing político. A revista tinha também um dossier sobre os negócios entre Sarkozy e Kadhafi e uma reportagem sobre o que resta da Al-Qaeda um ano depois da morte de Bem Laden. Aqui está uma coisa para fazer pensar os nossos especialistas em marketing político. Mas a música tem sempre o seu espaço -  a edição da semana passada tinha na capa a cantora Beth Ditto, dos Gossip a propósito do seu novo disco. E, como acontece com alguma regularidade, a revista inclui um CD amostra com 15 faixas de outros tantos lançamentos recentes, entre os quais os novos dos Citizens, dos Dandy Warhols, The Temper Trap ou de Patti Smith.

 

PROVAR – Em tempos idos o AdLib foi uma das discotecas que marcaram a noite lisboeta. Ficava situada no último andar do prédio que hoje acolhe o Guilty e o Sushi Café Avenida. Há vários  anos o espaço fechou e pouco tempo depois o Hotel Sofitel, na Avenida da Liberdade resolveu ir buscar a designação Ad Lib para o seu restaurante. Tem feito o seu percurso e está nas mãos do chefe Daniel Schlaipfer, que tem origem alemã. As suas propostas são interessantes e tão invulgares como um belíssimo filete de dourada ao vapor com couscous e espuma de caril, que é uma das estrelas da lista. Outra boa referência é o risotto do mar com camarão, polvo e ameijoas.  Ao almoço há um menu executivo a 20 euros, com novidades semanais e que inclui uma entrada, o prato do dia e uma sobremesa. Avenida da Liberdade 127, telef 213 228 350.

 

GOSTO – Da utilização de cortiça portuguesa para a construção do pavilhão de verão da galeria Serpentiner, em Londres, durante os Jogos Olímpicos.

 

NÃO GOSTO – Da forma como Vitor Gaspar vai abrindo excepções aos cortes salariais em 2011

 

BACK TO BASICS – A lógica consegue fazer-nos ir do ponto A ao ponto B; a imaginação leva-nos a qualquer lado – Albert Einstein

 

(Publicado no Jornal de Negócios de 11 de Maio)

publicado por MF às 11:04
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AUDIÊNCIAS – ESTAMOS MELHOR?

Os defensores do novo sistema de medição de audiências têm tendência a dizer que a situação atual é melhor que a que existia anteriormente. Esquecem-se de dizer que o sistema anterior estava tecnologicamente desatualizado face às modificações ocorridas nos últimos anos no sistema de distribuição do sinal de TV, esquecem-se de dizer que todas as partes sabiam disso e que, por isso mesmo, se avançou para uma nova solução. Mas será o novo sistema melhor? Ao fim de dois meses de efetiva entrega de dados pela GFK continuam muitas perguntas por responder, há atrasos nos dados( ainda na semana passada), há um aumento artificial do consumo de televisão porque não estão a ser convenientemente aplicadas as regras que a indústria aprovou, existe um segmento, designado por «Outros», cujo conteúdo é objetivamente desconhecido e que na semana passada, a nível nacional, se fosse um canal, teria sido o terceiro mais visto, com 13,2% de share, à frente da RTP. Enfim, se isto é melhor, já nem sei o que seria se o sistema estivesse pior…

(Publicado na edição de 11 de Maio do Correio TV)

publicado por MF às 11:00
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Terça-feira, 08 De Maio,2012

SÉTIMA LEGIÃO 30 ANOS

Não sou muito dado a revivalismos, mas na sexta-feira fui ver o concerto quer assinalava os 30 anos da Sétima Legião, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Foi uma noite extraordinária – de músicas, memórias, sensações.

 

Nascidos em 1982 os Sétima Legião foram um dos primeiros grupos a projetar uma imagem de Portugal, feita de orgulho no passado e esperança no futuro. É engraçado recordar o que se passava nessa época. Em 1982 Ramalho Eanes era Presidente da República, Pinto Balsemão era primeiro-ministro. Em Portugal aprovava-se a primeira revisão constitucional e realizou-se a primeira greve geral depois do 25 de Abril de 1974. O ano acabou com a queda do Governo Balsemão.

 

Na música foi o ano de «Thriller» de Michael Jackson, do primeiro single de Madonna e do nascimento de uma banda que havia de dar muito que falar – The Smiths. Nos Estados Unidos  a Apple tornou-se na primeira empresa de computadores pessoais a ultrapassar a barreira dos mil milhões de dólares de facturação num só ano.

 

Na noite de sexta-feira passada dei comigo, no Coliseu, a pensar em como tudo isto se tinha passado. Nessa altura eu escrevia no «Som 80», um suplemento do diário «Portugal Hoje», que deixou de se publicar em Julho desse ano; ainda nesse ano participei na fundação da Agência Notícias de Portugal e o «Blitz» nasceria dois anos depois, em 1984. Foi uma das épocas em que estive mais ligado à música que se fazia e à vibração dos dias, agitados, da política, que noticiava na Agência.

 

Recordei-me de tudo isto sexta-feira, de cada vez que Pedro Oliveira e os seus companheiros da Sétima Legião me fizerem recordar: «Tem mil anos uma história/ de viver a navegar/ há mil anos de memórias a contar».

 

(Publicado no diário Metro de 8 de Maio)

publicado por MF às 11:01
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Sexta-feira, 04 De Maio,2012

Mudanças à vista nos grupos de comunicação, a inovação do Meo Kanal e sugestões avulsas

COMUNICAÇÃO –  O universo dos Media continua agitado em Portugal. A circulação global dos jornais continua a descer, o investimento publicitário no conjunto dos media tradicionais continua a reduzir-se, os próprios canais generalistas estão a captar menos publicidade. Alguns dos grupos de media mais antigos apresentam resultados preocupantes e existe a sensação de que até ao fim do ano ocorrerão alterações consideráveis na organização de todo o sector. Operações como a anunciada privatização de um canal da RTP vão desempenhar um papel importante nesta reorganização. Muito provavelmente vão surgir novos grupos de comunicação, pode haver consolidação de outros, não está afastada a possibilidade de fusões. É certo que vários grupos procuram novos investidores e que há vários investidores, lusófonos, que querem tomar ou reforçar posição em Portugal. Até ao fim do ano alguma coisa vai mudar e a nova realidade que iremos ter pela frente vai ser diferente da que temos hoje. Tudo isto obriga a pensar, a elaborar novas estratégias. E abre também novas oportunidades.

 

INOVAÇÃO – Felizmente algumas entidades começam a falar da importância que a inovação tem no desenvolvimento do país. Um dos melhores exemplos recentes de inovação é o Meo Kanal – a ferramenta desenvolvida pela equipa do Sapo e que permite que os clientes Meo criem os seus próprios canais de televisão, de uma forma simples. Como sempre acontece, por detrás da simplicidade da utilização está uma investigação complexa e um trabalho que demorou um pouco mais de um ano desde que a ideia surgiu até ser apresentada. A solução do Meo Kanal é única no mundo e é uma verdadeira inovação  - as possibilidades de comunicação que apresenta são numerosas. Apresentado no início de Fevereiro, o Meo Kanal já tem cerca de 14.000 canais criados – desde canais pessoais e familiares, até experiências de jornais e rádios locais ou mesmo mini séries de ficção feitas por crianças. Entre os clientes Meo, a audiência total do conjunto dos canais Meo Kanal já criados está frequentemente no top ten dos hábitos dos espectadores. Algumas universidades agarraram logo a ideia e utilizam o Meo Kanal como uma extensão da sua actividade, algumas empresas aproveitam também já a plataforma para comunicação interna ou formação. E muita gente cria o seu canal para brincar à televisão. Na realidade esta ferramenta possibilita que cada um seja director de programas do seu próprio canal –  esta é a adaptação aos tempos actuais dos jornais policopiados ou das rádios caseiras gravadas em fita magnética de há décadas atrás. Bem mais recentemente os blogues permitiram criar espaços individuais – mas a tecnologia do Meo Kanal vai mais além pela capacidade que tem de mostrar as imagens, organizá-las e fazer a sua emissão, de forma privada ou pública. Esta é uma nova forma de comunicação e no tempo das redes sociais é um avanço na utilização da televisão como pólo de ligação entre as pessoas. É um enorme passo e, para a PT, que deu luz verde ao avanço do projecto e que o está a suportar, é mais um argumento para a sua afirmação internacional e para o seu posicionamento. Inovação é isto: imaginar, fazer, concretizar e utilizar.

 

SEMANADA –   Mais de 800 farmácias têm os fornecimentos de medicamentos suspensos por falta de pagamentos; a taxa de desemprego ultrapassou os 15%; o número de licenciados no desemprego aumentou 40% no último ano;  as multas aplicadas entre 2008 e 2011 por violação da Lei do Tabaco totalizaram milhão e meio de euros; nos tribunais há 1,7 milhões de processos pendentes, o dobro dos que existiam há 15 anos; a bolsa de Lisboa afundou quase 6% em Abril; as vendas dos jornais generalistas caíram 4% nos dois primeiros meses do ano; José Sá Fernandes foi condenado pelo Tribunal da Relação de Lisboa pelo crime de gravação ilícita de uma conversa em 2006 com um dos responsáveis da Bragaparques.

 

ARCO DA VELHA – Só na zona de Lisboa a acção de promoção do Pingo Doce no dia 1 de Maio provocou 32 ocorrências com intervenção da PSP nas diversas lojas; no Porto um casal foi violentamente agredido na disputa por um carrinho de compras; em Viseu o gerente da loja Pingo Doce sentiu-se mal devido ao caos na loja e teve de ser hospitalizado.

 

VER –  Esta semana dedico atenção à fotografia. Começo pela mostra de 57 imagens do World Press Photo, que está no Museu da Electricidade, em Lisboa. Sugiro, a quem está no Porto, a exposição «Cultura Magra», de Paulo Alegria, que o Centro Português de Fotografia e a Estação Imagem de Mora apresentam no edifício da Cadeia da Relação. A terminar o Arquivo Municipal de Fotografia, de Lisboa, na Rua da Palma 246, tem uma curiosa exposição de Mariana Gomes Gonçalves sobre o universo familiar e, sobretudo, outra, notável, de Isabel Nery e Marcos Borga intitulada «Vida Interrompida» e que, na palavra dos autores, é um trabalho sobre a vivência da hospitalização e uma  reportagem sobre a vulnerabilidade humana, inicialmente pensada como uma reportagem para a revista «Visão».

 

OUVIR – Ahmad Jamal é um dos pianistas de referência do jazz e aos 81 anos continua a ter a capacidade de surpreender. O seu novo álbum, «Blue Moon», foi gravado no final do ano passado em Nova Iorque e além de vários temas do próprio Jamal inclui alguns clássicos, desde logo o «Blue Moon» que dá nome ao álbum, mas também «Gipsy» ou «Invitation» ou ainda «Laura», todos com arranjos surpreendentes – desde a marcação da percussão e bateria até à própria forma inesperada como Ahmad Jamal improvisa. Um disco apaixonante. (CD Jazz Village, na Amazon)

 

FOLHEAR – A capa da edição de Maio da «Monocle» é dedicada ao crescente negócio que existe no Japão em torno dos cães– desde a criação e venda dos bichos, até aos profissionais que os passeiam, os cabeleireiros que os tratam, os fotógrafos que os mostram, os cozinheiros que lhes fazem ementas ou os designers que lhes criam acessórios. É um mundo cão – mas existe, está próspero e insensível a crises. Outros pontos de interesse são um excelente guia de viagem à Tailândia, um artigo sobre o papel do Goethe Institut e uma reportagem sobre a revista «Paris Match». E, claro, esta é a edição em que está o especial sobre design, um directório de 32 páginas com o que de melhor há a assinalar nesta área. Bem sei que é publicidade mas as duas páginas que a Espanha publica regularmente na «Monocle» sob o título «I Need Spain», e que mostram exemplos de talento e criatividade, são um exemplo de boa comunicação na construção da imagem de marca de um país. Para completar a cidade de Madrid publica também nesta edição uma página de publicidade sobre algumas das próximas exposições que podem ser vistas na cidade – a Arte de Piranesi, uma mostra das obras dos últimos anos de vida de Raphael, outra de Edward Hopper e a Photo Espanã, que começa no fim de Maio. Nem faço comparações. Para salvar a honra da pátria está uma nota sobre Luis Mendonça, um ilustrador de obras infantis que a partir do Porto tem ganho já fama internacional – podem ver o seu trabalho em gemeoluis.com.

 

PROVAR –  Sou assumidamente fã de sanduíches e ao contrário do que se pode pensar não é muito fácil encontrar bons exemplares desta raça em Lisboa. Melhor dizendo, não era – porque desde há uns meses abriu uma padaria Eric Kayser no Amoreiras Plaza e a coisa mudou de figura. Aconselhado por voz amiga, lá fui um dia destes e gostei do que vi e do que provei. A oferta é variável, mas uma coisa é constante – a qualidade do pão . Em matéria de sanduíches, a escolha é ampla, com várias possibilidades, desde o saucisson francês até queijos igualmente franceses, tudo bem servido e acompanhados por folhas de alface fresca, rodelas de tomate ou outros legumes. O pão é estaladiço e saboroso, o recheio não é transparente nem insuficiente. O resultado final é acima da média. O croissant da casa já ganhou fama, o pão com chouriço merece elogio e aos sábados e domingos há brunch que por nove euros traz o suficiente para aconchegar os estômagos.

 

GOSTO – O restaurante Vila Joya, dirigido pelo chef Dieter Koschina entrou para a lista dos 50 melhores restaurantes do mundo.

 

NÃO GOSTO – A autarquia de Lisboa demora 96 dias a pagar a fornecedores, mas a do Porto só demora 16 dias.

 

BACK TO BASICS – Quando não se sabe onde se quer ir, qualquer estrada serve – Lewis Carroll

 

(Publicado no Jornal de Negócios de 4 de Maio)

publicado por MF às 12:57
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Segunda-feira, 30 De Abril,2012

REGIME, FALHAS, SUGESTÕES E INDÚSTRIA

SISTEMA– Este ano a habitual sessão solene comemorativa do 25 de Abril, na Assembleia da República foi marcada, dentro e fora de S. Bento, pela convicção de que existem falhas sérias no regime. Numa situação de crise económica e financeira as coisas ainda pioram. Há 38 anos criou-se a ideia de que o exercício da liberdade conduziria à prosperidade e a uma igualdade de condições para todos. Se tivesse existido cuidado a estudar a História ter-se-ia visto que a liberdade politica não anda de mão dada com a prosperidade e que a igualdade de oportunidades não significa sucesso igual para todos. É em parte a descoberta de que afinal as coisas não são como se pensaram que criou as desilusões que alguns sentem. As desilusões, por outro lado, foram agudizadas porque uma geração de políticos prometeu o oásis e camuflou o deserto, prometeu que os europeus seriam todos iguais e, quando se descobriu que as diferenças continuavam enormes, quis tapar o sol com a peneira das obras públicas, de investimentos e de subsídios e apoios muito superiores às posses do país. Durante décadas os partidos compraram votos nas eleições com promessas muito acima das possibilidades. Durante décadas houve falta de coragem para assumir que, para mantermos a liberdade, teríamos que rever as contas de casa. Assunção Esteves foi certeira, quando, na sessão solene comemorativa do 38º aniversário do 25 de Abril, disse que “a actual crise económica é também uma crise politica, uma crise de sistema.” A realidade é que há 38 anos que o sistema cai nos mesmos erros, que a classe politica se isola cada vez mais do eleitorado, que a abstenção aumenta, que são cada vez mais uma minoria aqueles que efectivamente decidem. A participação cívica é cada vez menor e isso nota-se, não só na politica, mas sobretudo na fraqueza da sociedade civil. Num quadro destes cria-se o desânimo – sobretudo quando o caminho das dificuldades é evidente mas o caminho para sair delas continua sem se vislumbrar. A obrigação dos políticos é indicar esse caminho, explicá-lo, fazer com que todos se empenhem em conseguir concretizá-lo. Gostava de poder dizer que vejo quem esteja a fazer isto.

 

INFLAÇÃO – A inflação de que quero falar hoje tem a ver com as audiências de televisão. Desde que o sistema de medição da GFK entrou em funcionamento, a 1 de Março, criou-se a ideia de que a nova medição comprovava que existia um maior consumo de televisão que nas medições anteriores. Esta era uma boa notícia para os operadores de televisão, que assim se viam com mais ratings e, por consequência, com maiores receitas publicitárias – já que o valor de venda das campanhas publicitárias em televisão é estabelecido em função dos ratings (em termos genéricos, do número de espectadores). Algumas agências de meios chamaram a atenção, desde o início, para o facto de esse aumento de consumo de televisão poder ser ilusório, já que tudo indicava que não estavam a ser devidamente aplicadas as regras de validação de rejeição de “constant viewing” excessivo, nomeadamente a rejeição de indivíduos com consumo seguido de 12 horas de televisão e de visionamentos de um único canal por um período seguido de mais de 8 horas. Ao fim de um mês, e depois de confrontados com uma série de dados concretos, os responsáveis técnicos da CAEM acabaram por reconhecer que existiam problemas nesta área. Uma comparação atenta entre os dois sistemas de medição mostra que se fossem aplicadas pela GFK as regras de “constant viewing” os números relativos ao consumo de televisão entre o sistema da GFK e o da Marktest seriam praticamente iguais. Mas no Cabo existe, de facto, uma diferença assinalável – porquê? - uma análise atenta dos dados permite perceber que existem muitos lares no painel da GFK que não têm televisão por subscrição mas que, de alguma forma, vêem canais cabo, o que certamente inflaciona artificialmente o consumo de cabo. Ou seja, os números do cabo estão também distorcidos. Em resumo, o tal consumo de televisão, afinal não é tão grande como parece. O outro lado desta moeda é que, ao apresentar maior consumo, e em consequência mais ratings, a medição da GFK coloca os anunciantes perante uma inflação real no custo das suas campanhas e, por outro lado, entre os canais de televisão, distorce a realidade e cria expectativas que não se cumprirão. Planear uma campanha de televisão não é um exercício cabalístico e precisa de dados seguros para que exista uma boa relação entre os anunciantes e os meios, ou seja entre os clientes e os fornecedores. É por isso que esta situação é tão incómoda para quem trabalha neste sector – o que se tem passado não é uma guerrilha caprichosa contra uma entidade, mas apenas uma chamada de atenção para o que não está bem e para o que prejudica o mercado publicitário mais ainda do que ele já está.

 

SEMANADA –  Portugal passou a comprar muito menos carros do que aqueles que produz; as consultas nos hospitais psiquiátricos de Lisboa e Porto aumentaram cerca de 15%; Luciana Abreu disse que estava a ser vítima de bruxaria; traduzida por miúdos a dívida do Estado significa que cada português deve 18 mil euros; 7549 casais portugueses têm ambos os cônjuges no desemprego; os resgates dos certificados de aforro no primeiro trimestre atingiram 679 milhões de euros, quase metade daquilo que o Governo previa para todo o ano; a bolsa de Lisboa está nos valores mais baixos dos últimos dez anos;.

 

ARCO DA VELHA – O jantar solene oferecido por Cavaco Silva ao Presidente da República da Polónia teve que mudar de local a poucas horas de se realizar, na quinta feira da semana passada, quando a ASAE interditou a cozinha do Palácio Nacional da Ajuda, obrigando a uma súbita mudança para o Palácio Nacional de Queluz.

 

VER – Experimentem ir a pictify.com, um site construído a partir de reproduções de obras de arte lá colocadas pelos seus próprios utilizadores. É uma variante de  uma rede social para devotos das artes plásticas, mas, em vez de escreverem, os utilizadores vão colocando imagens das mais diversas obras de vários autores, uns conhecidos outros nem tanto. É uma espécie de galeria em que o acervo está em permanente rotação. Fascinante.

 

OUVIR – A série “Unplugged” da MTV começou no final dos anos 80, mas entretanto as versões acústicas tornaram-se banais. Quando uma cantora tão intensa em palco como Florence Walsh aceita fazer uma gravação tão contida como esta, o “Unplugged” volta a ser inesperado e supreendente. Destaque para o dueto com Josh Homme na versão de “Jackson”, para a delicadeza de “Only For A Night” ou “Shake It Out” ou para a intensidade  de uma curiosa versão de “Try A Little Tenderness”. Bem engraçado este MTV Unplugged de Florence And The Machine (CD Island /Universal).

 

FOLHEAR – A revista “The Economist” é sempre uma boa leitura, mas a sua edição de 21 de Abril tem por tema a terceira revolução industrial. Volta e meia a revista edita um “special report” – é o caso deste, que em 14 páginas observa as principais alterações que estão a ocorrer na indústria a nível mundial, desde a proliferação de impressoras 3D que podem fabricar objectos, peças, componentes, até à investigação sobre novos materiais, passando pelo ressurgir da actividade fabril, em novos moldes, nas sociedades mais avançadas. É um relatório muito bem feito, uma leitura apaixonante e com dados e ideias que é fundamental conhecer . Está disponível on line em economist.com na secção “print edition – special report”.

 

PROVAR – Se há petisco que me agrada é uma boa conserva de anchovas. De entre as que são mais fáceis de obter nos supermercados, a minha preferência vai para os filetes enrolados de anchova com alcaparras, conservados em azeite, da marca Minerva – uma inconfundível embalagem com uma dominante amarela e letras encarnadas, elaborada na Póvoa do Varzim pela fábrica de conservas A Poveira. É óptima a solo ou então misturada numa salada, com salmão fumado cortado aos bocadinhos.

 

GOSTO – Da ideia de criar um portal que permita aos alunos universitários saber as saídas profissionais e vencimentos à saída dos cursos.

 

NÃO GOSTO – Da forma como alguns ex-militares se apresentaram como donos do 25 de Abril.

 

BACK TO BASICS – “Não precisamos de visitar um manicómio para encontrarmos doidos” - Goethe

 

publicado por MF às 09:35
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Terça-feira, 24 De Abril,2012

A DIFERENÇA DOS MADREDEUS

Por estes dias ouvi umas certíssimas palavras de Pedro Ayres de Magalhães sobre a história dos Madredeus, a propósito do lançamento do novo disco do grupo, Às vezes custa a perceber que esta aventura dos Madredeus tem 25 anos. «Essência», esse novo disco,  recupera, em novas  versões, alguns temas de outras fases da carreira do grupo, entre os quais «Sombra», que Pedro Ayres de Magalhães esclareceu ter sido a primeira canção que compôs para Madredeus. Nessas declarações  ele conta como eram as coisas na música portuguesa em meados dos anos 80 – quando o fado, como recorda, era um tabu, apontado como uma música reacionária. «Achávamos um crime uma cidade como Lisboa ter uma música tradicional tão rica e ser quase escondida» - conta Pedro Ayres. «Sombra», composta em 1985, surge como uma ode ao Fado, a propósito de uma homenagem a António Variações, que morrera um ano antes e cujo derradeiro trabalho havia sido produzido por Pedro Ayres de Magalhães – o álbum «Dar & Receber». Variações, como bem recorda Pedro Ayres, foi muito influenciado pelo Fado, e sobretudo por Amália Rodrigues, de quem era um fã incondicional.

 

Hoje que o Fado voltou a ser popular entre os mais novos e recuperou o lugar a quem tem direito, pode quase parecer estranho ouvir esta história – mas ela corresponde à verdade. Nesse tempo o Fado era mal considerado, até Amália era ainda vista de lado por alguns guardiões do templo da pureza ideológica do novo regime. Foram precisos muitos anos para esse preconceito absurdo acabar – e é da maior justiça reconhecer que os Madredeus tiveram um papel decisivo e incontornável na criação de uma nova identidade musical portuguesa – que se afirmou porque soube guardar o melhor das tradições e criar um estilo próprio.

 

(Publicado no diário Metro de 24 de Abril)

 

 

publicado por MF às 18:54
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Sexta-feira, 20 De Abril,2012

Oposição, tribunal constitucional e sugestões avulsas

ABRANDAMENTO? - Quando este Governo entrou em funções olhou para o que estava à sua volta e resolveu fazer uma terraplanagem. Provavelmente foi uma boa decisão. Só voltando à estaca zero se conseguiriam resolver muitos dos problemas que estavam para trás, frutos de anos de complacência. As medidas que foram tomadas a nível das finanças públicas, em grande parte por força de parceiros europeus e do FMI, assemelharam-se a um bombardeamento massivo. De facto conseguiram estancar uma parte do problema, mas a destruição foi tanta que outros surgiram, como agora o próprio FMI vem reconhecer. Em função disto, cresce o número de vozes que quer tomar medidas para abrandar a austeridade e exigem qualquer coisa que ainda ninguém percebeu bem como se alcança. António José Seguro está a trilhar o caminho, perigoso, de fazer crer a opinião pública que as medidas tomadas são já mais que suficientes e pode começar a existir maior tolerância. Para todos os que gostariam de começar a atenuar as coisas, deixo aqui o último parágrafo de um recente artigo de Lorenzo Smaghi, no «Financial Times»: «Um sistema no qual os políticos agem principalmente debaixo da pressão dos mercados, enquanto pensam que os mercados são míopes e podem ser iludidos, não é somente insustentável – é na realidade ineficiente. Tentar reconquistar a confiança dos mercados, depois de a ter perdido em determinada altura, requer ações duradouras e constantes. Isto causa problemas a nível económico e, claro, não é a melhor forma de consolidar apoio político interno». Espero sinceramente que os nossos políticos não se deixem cair em ilusões. Se o fizerem, o esforço feito até agora irá por água abaixo. Tudo aquilo que nos está a acontecer terá sido em vão se pararmos ou recuarmos. E aí é que será muito difícil dar a volta à situação.

 

POLÍTICA - O processo de escolha de novos juízes para o Tribunal Constitucional revela o pior que existe no sistema político português. Um Tribunal Constitucional devia ser um grupo de sábios, experientes, tão independentes quanto possível. Os nomes indicados e conhecidos serão de excelentes pessoas, mas não se integram na definição acima. Ninguém pode ser prejudicado por pertencer ou apoiar um partido político ou defender determinadas ideias – mas também não é suposto que isso seja condição suficiente para cargos desta natureza. Situações destas desacreditam o regime, desacreditam ainda mais os partidos políticos e desacreditam completamente o Parlamento que teve de inventar uma desculpa para adiar uma votação - já que nos nomes indicados havia situações que impediam que fossem eleitos. Situações destas tornam a política uma farsa. Para quê votar em pessoas assim?

 

SEMANADA –   A factura do gás vai subir 7% em Julho, acumulando uma subida de 18% em três anos; as queixas de fraudes com cartões bancários subiram 40%; o número de ajustes directos nas obras publicas aumentou 90 por cento em 2011, atingido 700 milhões de euros; o número de postos de trabalho na construção caíu mais de 20 desde 2011; a crise está a fechar 26 empresas por dia desde o inicio do ano; no primeiro trimestre as falências de restaurantes aumentaram 143% ; um estudo da Universidade Católica afirma que nos últimos 12 anos os católicos diminuíram 7,4%, tendo aumentado o número de pessoas que dizem professar outra religião e sobretudo os que se dizem sem religião; há 13 285 presos nas cadeias que custam ao estado meio milhão de euros por dia; em vésperas do Congresso da Ordem dos Psicólogos, soube-se que o Porto tem mais cursos de Psicologia que a Áustria, e Lisboa mais do que a Bélgica.

 

ARCO DA VELHA – Na sexta feira Pereira Cristovão saíu da Direcção do Sporting; segunda feira foi reintegrado. O Jornal de Notícias titulou que «Dirigentes do Sporting têm medo de Pereira Cristovão» e escreve que a «Judiciária tem indicações de que o arguido possui dossiês secretos sobre os colegas».

 

VER – Desde a semana passada o edifício Transboavista (Rua da Boavista 84) oferece mais uma série de exposições. Na Plataforma Revolver, agora repartida por três áreas distintas, destaco a colectiva «O Peso e a Ideia», que inclui obras de, entre outros, João Pombeiro, Ricardo Quaresma Vieira, Susana Anágua, Ruth Le Gear e Ana Fonseca. Na VPF cream art gallery está uma mostra imperdível de fotografias de José Maçãs de Carvalho, «Arquivo e Alteridade», que revisita diversas fases do trabalho deste autor – todas imagens marcantes, observações certeiras, que têm em comum a fixação de instantes que se completam e relacionam entre si. Num outro registo e num outro local, o Museu Berardo, aconselho uma visita ao trabalho do fotógrafo moçambicano Mauro Pinto que, com toda a justiça foi o vencedor do BES Photo deste ano.

 

OUVIR – «Radio Music Society» é o quarto álbum de Esperanza Spalding, a contrabaixista norte-americana que em 2010 ganhou um Grammy de melhor novo artista – e se tornou na primeira música de jazz a levar para casa o galardão. Spalding, tocando jazz, tem tudo para ser uma artista pop – desde a sua figura e pose até à forma como toca e canta, passando pela construção de algumas canções – e quase todos os temas são compostos por ela neste disco. Não deixa de ser curioso que Esperanza Spalding tenha escolhido interpretar aqui uma versão de um original de Stevie Wonder, «I Can’t Help It» - e percebe-se como Wonder é uma influência musical para ela. Por falar nisso, o outro tema que não é da sua autoria, «Endangered Species», um original de Wayne Shorter, aponta para outra das suas boas inspirações. Da lista de convidados para este disco fazem parte o guitarrista Lionel Loueke, os bateristas Billy Hart e Jack de Johnette e o saxofonista Joe Lovano – tudo boa gente. O resultado é um disco arriscado mas sedutor, a confirmar talentos de composição e vocais de Spalding, muitas vezes entre o rhythm‘n’blues e o funk, mas sempre com os pés bem assentes no jazz. Já agora, existe uma edição especial que inclui um DVD, que ajuda a compreender o universo de Spalding. A partir de cada canção, a começar pela «Radio Song» que inicia o disco, é construída uma narrativa, sempre protagonizada pela própria Esperanza Spalding, numa sucessão de episódios, cada um obedecendo a um script próprio, um pouco como um episódio de uma série. Curioso e inédito.

 

FOLHEAR –  A revista «Egoísta», premiada nos prémios de Criatividade da Meios, dedica a sua edição de Março ao tema da correspondência postal. «Escrever uma carta é o meio de chegar a algum lugar sem mover nada», escreve Mário Assis Ferreira logo na abertura deste número. De entre o material de toda esta edição destaco as ilustrações de João Carvalho Pina, as fotografias de Augusto Brázio, as «Coisas que te escrevi» de Tiago Salazar e o belíssimo «Um Adeus Portuguez» de Rui Zink, que encerra esta revista. Mas o que vale mais que tudo nesta revista é a noção de objecto impresso, a junção de textos, de imagens, de conceitos – no fundo o trabalho de edição, que é de Patrícia Reis. É o gozo de folhear uma revista que não traz notícias para além da sua existência e do prazer que ela nos dá.

 

PROVAR –  Na lista da cafetaria da Bica do Sapato entrou há pouco tempo um hambúrguer. Trata-se de uma peça à séria, em tamanho e qualidade, grelhada no ponto. Vem sobre um meio pão e com um ovo escalfado a cavalo. É acompanhado por umas batatas fritas despudoradamente grossas e saborosas e por rodelas de cebola fritas envolvidas na mesma polme usada para os peixinhos da horta da casa. À parte vem um molho de churrasco que é para termos a exacta noção do que é um pecado. Já agora a Bica do Sapato tem vindo a desenvolver pequenos petiscos para o fim de tarde, com destaque para o prego de lombo e uns croquetes de rabo de boi que têm que se lhes diga.

 

GOSTO – Da campanha Vamos Lá da TMN, e em especial do testemunho de Pedro Calapez.

 

NÃO GOSTO – De confusões com arbitragens no futebol.

 

BACK TO BASICS – É perigoso ter razão naqueles assuntos em que as autoridades estabelecidas estão enganadas - Voltaire

 

(publicado no Jornal de Negócios de  dia 20 de Abril)

publicado por MF às 17:10
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Terça-feira, 17 De Abril,2012

SPORTING - MAIS JOGO EM VEZ DE PROCESSOS

Cada vez que há um caso na arbitragem, quem perde é o futebol, os seus protagonistas, dos jogadores às equipas, passando por toda uma cadeia de valor (transmissões de televisão, merchandising dos clubes e por aí fora). Falsificar um resultado  é manipular o jogo, tirar-lhe interesse, criar uma ilusão impossível de manter. Já repararam na sucessão de casos que envolvem tentativas de manipulação dos resultados através da compra de árbitros?

 

Analisemos esta situação como se estivéssemos a olhar para um produto: ninguém num mercado aberto sobrevive a resultados falseados, não há consumidores que queiram comprar produtos aldrabados. Mais: não há marca que resista à revelação de que andou a enganar o mercado.

O futebol português tem tido repetidos casos de apitos de diversas cores – sejam dourados ou outros. Para muitas pessoas no futebol vale tudo – em nome do fanatismo. Esse fanatismo cego pode ajudar a disfarçar erros, mas no fim do dia vira-se contra quem usa subornos e pressões em vez de qualidade e eficácia de jogo.

 

Hoje em dia o futebol é uma das maiores formas de entretenimento globais e tem uma capacidade de atrair espectadores para a televisão como poucos outros espectáculos. Mas se fôr baseado em resultados falseados nunca se tornará global, se não tiver uma lógica clara nas decisões da arbitragem, nunca poderá, por exemplo, conquistar o mercado norte-americano. Aqueles que em Portugal falseiam resultados estão a dar cabo da possibilidade de desenvolver uma área importante da indústria do entretenimento. Se calhar é porque pensam apenas em si próprios e em vantagens imediatas e não encaram o que fazem como uma actividade profissional que deve criar marcas, defende-las e gerar resultados – em vez de processos judiciais.

 

publicado por MF às 15:13
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Sexta-feira, 13 De Abril,2012

O Parque Mayer, reformas, fotografias de polícias e portagens

REFORMAS - Quando aqui há uns meses se realizaram manifestações em França contra o aumento da idade da reforma lembro-me de ter visto um dos manifestantes, com ar jovial, saudável e bem posto, a queixar-se do incómodo de não se poder reformar aos 57 anos e apenas aos 62, dizendo, com ar convicto e contrariado, que esta alteração não lhe dava jeito nenhum. Aqui há dias encontrei uma ex-colega minha de faculdade, exactamente com a mesma idade que eu – 57 anos – que me disse estar muito contente por se ter reformado há um ano – fiquei de cara à banda. Lembro-me que na geração dos meus pais a reforma era uma coisa que acontecia muitas vezes depois dos 65 anos, por opção dos próprios. Não consigo compreender que  uma sociedade dispense aqueles que teoricamente têm mais conhecimentos, maior experiência adquirida e que mais podiam contribuir para formar profissionalmente os mais novos. Nos últimos anos criaram-se perversos mecanismos que levaram a este estado de coisas. Podiam-me dizer que, em contrapartida, a muitos jovens foi dada oportunidade de começarem a trabalhar – mas como todos sabemos isso é mentira. Não é preciso ser perito para perceber que permitir antecipar reformas uma dezena de anos é uma opção que complica o presente e compromete o futuro.

 

IMAGENS – Nesta semana ficou conhecido o resultado de um inquérito da Inspecção Geral da PSP aos incidentes no Chiado. Segundo o referido inquérito a policia portou-se como deve ser, planificou como deve ser e actuou como deve ser. Estamos pois conversados sobre o assunto – a policia resolveu pedir desforra a um outro inquérito, também oficial, que não dizia bem isto. Mas a parte mais curiosa é sobre o que aconteceu com repórteres fotográficos – “ficou evidente a necessidade de melhor sinalizar” os jornalistas. Um aspecto pouco focado sobre este tema não envolve só os jornalistas. As imagens do Chiado mostram que  agentes policiais se incomodaram por estarem a ser fotografados e atiraram-se contra quem o fazia – que eram jornalistas. Mas isto levanta outra questão: pode a policia agredir ou impedir um cidadão, mesmo não jornalista, de fotografar uma ocorrência pública, na circunstância uma carga policial? Não devem os policias ser instruídos sobre o facto de não ser crime fotografar na via pública? Não lhes deve ser explicado que não é um acto terrorista registar imagens de ocorrências destas?

 

PORTAGENS - O que se passou no fim de semana da Páscoa com os turistas estrangeiros e as novas portagens rodoviárias é um manual de ineficácia do Estado e de incapacidade de assumir erros. Recordo que o problema vem de trás, do anterior Governo. Aos poucos vai-se descobrindo que tanto incómodo – e tantos prejuízos causados ao comércio nas regiões mais afectadas pelas barreiras levantadas à entrada de turistas por via rodoviária, não têm afinal efeito prático – parece que nada acontece aos condutores estrangeiros que não pagam portagens. A história seria cómica se não fosse trágica. Com a devida vénia reproduzo um excerto de uma nota do blogue “31 da Armada” que me parece sintetizar de forma clara esta inusitada situação: “Na resposta a um problema podemos complicar, imitar ou inovar. No caso do pagamento de portagens nas ex-scut optámos pela primeira. O governo anterior, em mais de 3 anos, não foi capaz de encontrar uma solução que não passasse pela compra de identificadores (o «Expresso», na altura, contou uma história edificante sobre uma empresa amiga especializada nesses aparelhómetros), ou pelo tradicional «ponha-se na fila». Como é evidente, outros já tiveram este problema. E resolveram bem a questão. Com um simples sms de valor acrescentado. E um outdoor de grande formato com a indicação do número para onde se deve enviar a mensagem com a matrícula do carro. Simples. “

 

PARQUE MAYER – Tenho para mim que as recentes decisões judiciais em torno do caso do Parque Mayer ainda vão fazer correr muita tinta. Uma coisa parece certa – António Costa tinha aprovado um plano para o Parque Mayer, adjudicado obras (por exemplo as de recuperação do Teatro Capitólio) com início marcado para este mês. À medida que os dias passam percebe-se que os gritos de vitória lançados por José Sá Fernandes quando se soube da decisão judicial podem ter sido exagerados. Um cidadão olha para o assunto e, do que lê, percebe que a Câmara começou a assumir responsabilidades sobre um terreno que não sabia se seria seu ou não, vai ter de reembolsar o antigo proprietário por entretanto invalidar uma operação de permuta de terrenos e uma expropriação – que não há-de ser fácil – parece ser a solução de recurso. A moral desta história, como a do túnel do marquês, é que processos em que o vereador Zé se mete acabam por sair caríssimos aos contribuintes e à autarquia lisboeta. O Zé é um centro de custos – e quando se arma em negociante e quer criar um centro de receitas acaba por fazer péssimos negócios com o espaço público da cidade, transformando-a numa feira de horrores – como já aconteceu com algumas zonas da cidade, em especial a Avenida da Liberdade. Quando para o ano houver eleições autárquicas, na hora do voto lembrem-se destes edificantes episódios.

 

 

SEMANADA –  Televisão, rádio e imprensa portuguesa perderam 500 efectivos em quatro anos; 59% dos candidatos à advocacia chumbaram no exame final de estágio da Ordem dos Advogados e a média do exame foi de 7,8 numa escala de zero a vinte; a poucos dias do apagão final 30% das famílias sem televisão paga ainda não está preparada para receber a TDT; as vendas de carros caíram 51,7% no primeiro trimestre de 2012; a

Câmara de Leiria deu 7,2 milhões de resultado positivo em 2011; há

prisões com todas as torres de vigia desactivadas por falta de pessoal;

uma juíza do tribunal de Famalicão foi condenada a 180 dias de suspensão pelo Conselho Superior da Magistratura por ter feito acusações a um outro juiz, consideradas falsas; todos os dias 30 pessoas são declaradas falidas em Portugal; insolvências subiram 46% desde Janeiro.

 

ARCO DA VELHA – Portugal ficou classificado em 73º lugar no ranking do primeiro relatório mundial sobre a felicidade, elaborado a pedido das nações unidas, e atrás de 22 países da união europeia.

 

VER – Vou falar do que já não se pode ver: demorou uma noite apenas a mais recente exposição de Julião Sarmento – uma instalação criada na galeria Appleton Square, em Alvalade, em torno de uma das mais preciosas peças do Museu Nacional de Arte Antiga, uma obra do pintor flamengo van Dick, do início do século XVII. Foi uma deliciosa e inventiva provocação, que mostrou como toda a criação artística pode ser reciclada e como as aparências – e os conceitos – podem iludir.

 

OUVIR – Em Maio de 2011 Elvis Costello criou uma série de concertos com esta particularidade: uma tômbola gigante, colocada no palco, tinha o nome de muitas das suas canções, e um espectador era convidado para a girar, escolhendo assim uma delas. Desta forma os concertos não tinham alinhamento fixo, mas sim aquele que a sorte ditava. Nasceu o “Spectacular Spinning Songbook”, trazido pela mão de Elvis Costello & The Imposters. A digressão com o mesmo nome chega à Europa este ano e o disco, gravado em Maio do ano passado, ao vivo, em Los Angeles, inclui um CD e um DVD, com o mesmo alinhamento, cada um deles com 17 temas, entre os quais uma canção que Costello em tempos fez para as Bangles, “Tear Off Your Own Head”, aqui co-interpretada por Susana Hoffs. Os discos ao vivo são pensados para os fãs dos artistas gravados, mas neste caso, e sobretudo o DVD, é bom entretenimento garantido para quem se delicia com os truques de produção de um concerto. O resto é apenas o enorme talento de Elvis Costello. O disco já está disponível em Portugal.

 

LER – Querer ignorar hoje em dia o que se passa nas redes sociais é o mesmo que, há uns anos atrás, dizer que não se tem tempo para ler jornais. As mudanças no universo digital são tão rápidas que, para as entender, ajudar ter uma espécie de guia que nos vai chamando a atenção para o que é mais relevante. Há uns tempos, via twitter por sinal, descobri o sítiomashable.com e desde então tornei-me seu leitor regular. Além de novidades técnicas inclui bons artigos sobre negócios como a recente aquisição do Instagram pelo Facebook e, ainda, uma série de textos oportunos sobre temas como a influência do digital na política ou o papel das redes sociais no local de trabalho.

 

PROVAR – Os menus executivos chegaram a um dos restaurantes de Lisboa com melhor vista – o Terraço do Hotel Tivoli. Aos dias de semana, ao almoço, uma entrada, o prato do dia, uma bebida e café ficam por 25 euros.

 

BACK TO BASICS – A tolerância é uma excelente virtude, mas o vizinho mais próximo da tolerância é a apatia – James Goldsmith

 

publicado por MF às 11:24
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