Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Fevereiro)

 

CEM DIAS – Desde há cem dias que o PS governa sem maioria absoluta e a convivência com o diálogo, o acordo e a busca de consenso não lhe está a ser nada fácil. Os relatos saídos das reuniões entre o Primeiro Ministro e os partidos descrevem a dificuldade em aceitar propostas diferentes, em reconhecer erros, em admitir críticas. O maior problema da situação política está nisto: o Governo quer impôr em vez de negociar, encara cada alteração como uma derrota ou recuo, e não consegue ver o País sem ser do alto do poder. Os malabarismos em torno dessa nova invenção que é o défice flutuante, que se inflaciona ao sabor do momento, para depois se dizer que desceu, é um dos exemplos maiores desse facto.
 
DENÚNCIA – Três dirigentes da bancada socialista da Assembleia da República anunciaram como principal proposta para combater a corrupção um projecto que pretende tornar públicos os rendimentos de todos os cidadãos. Um deles explicou numa rádio que a ideia era permitir que um vizinho achasse estranho que na casa ao lado existisse um Ferrari quando o seu dono tinha poucos rendimentos declarados – e que assim cada cidadão fosse um fiscal. Ou seja esse dirigente do PS acha salutar que cada um vigie o próximo e denuncie o que achar que foge à regra que o Estado impõe. A notícia foi manchete de um diário e a generalidade dos outros partidos parlamentares, da esquerda à direita, teve o bom senso de repudiar a ideia. A meio da tarde o líder parlamentar do PS, Francisco Assis, veio dizer que enquanto ele dirigisse a bancada, esse projecto não veria a luz do dia. No fim, o episódio serviu apenas para mostrar o estado interno do PS, quer em ideias, quer em organização.
 
CONVERSAS - A pior coisa que pode acontecer a um Primeiro-Ministro é ter falta de bom senso e, seja qual fôr a versão apresentada, uma coisa é certa: existiram, em local público, alto e bom som, declarações de José Sócrates sobre um jornalista, declarações que confirmam a tendência, já verificada em ocasiões anteriores, de um desejo de ingerência na forma como meios de comunicação se referem ao Governo. Ora, quem tem cargos públicos e ainda por cima exerce o Poder deve ser um exemplo de boas práticas. Pior ainda é que dois outros membros do Governo achem que classificar a actuação de um jornalista como um problema se resume a uma «calhandrice». Já agora, no início de tanta celebração republicana estimulada por este Governo era bom que o exemplo de tolerância e liberdade viesse de cima.
 
LISBOA - Em torno das obras no jardim do Princípe Real tem existido uma significativa e exemplar mobilização, com especialistas a pronunciarem-se sobre questões técnicas relevantes e a conseguirem desarmar os considerandos do vereador José Sá Fernandes sobre o assunto. Em torno de um outro caso, que está a deixar muita gente em Lisboa preocupada, o encerramento do Hospital de D. Estefânia, também se está a verificar considerável mobilização. Em ambos os casos o «Facebook» tem servido de plataforma de troca de opiniões e de organização. É óptimo que a sociedade civil se manifeste desta forma e se esteja a insurgir contra os abusos e dislates da Câmara Municipal. Mas não posso deixar de pensar que muito provavelmente muitos dos que hoje protestam votaram em António Costa em nome de uma unidade de esquerda cujos efeitos práticos agora estão à vista.

PERGUNTINHA – O que se passa com a reinstalação do Hot Clube, assunto de que já ninguém fala?
 
VER - O prémio BES Photo tem vivido entre a polémica e o equívoco, ao privilegiar o critério da fotografia como suporte técnico e não a linguagem fotográfica como expressão. O resultado é que ao longo dos anos se tem estabelecido a confusão. No seu blog, o crítico Alexandre Pomar afirma, e bem, que «os nomeados foram melhor antes, nas exposições por que foram escolhidos, do que na exposição/concurso. Em parte (outras razões são de produção e "comissariado"), porque lhes falta experiência para enfrentar a provação, o "efeito prémio", o tipo de "projecto" que o "meio curatorial" aprecia.». Mesmo assim quem melhor escapou ao duvidoso crivo do júri e apresenta o trabalho mais coerente é Patrícia Almeida, que mostra o seu olhar sobre o outro lado dos festivais de música. Na realidade é a única que consegue mostrar um olhar em vez de obedecer a um conceito.
  
OUVIR – A guitarra portuguesa é um instrumento traiçoeiro; tecnicamente difícil, a guitarra pode ser tocada de duas formas – conformista, a imitar os grandes nomes; ou arriscada, a procurar as sonoridades estranhas e envolventes que a caracterizam. No segundo caso (às vezes também no primeiro) , o risco é evitar que o resultado não seja uma sonoridade semelhante à que se obtém se se deixar cair o instrumento por umas escadas abaixo. Ricardo Rocha é dos poucos que consegue passar bem na prova mais arriscada. O seu novo disco, «Luminismo», mostra isso mesmo com as interpretações que faz de temas de Carlos Paredes, Artur Paredes e Pedro Caldeira Cabral, em contraponto às suas próprias composições, intricadas e misteriosas, tecnicamente exigentes. O resultado é o melhor disco de guitarra portuguesa dos últimos anos. «Luminismo», Ricardo Rocha, Duplo CD editado por MBari.
 
LER – A edição de Fevereiro da revista «Vanity Fair» tem um extraordinário portfolio de Tiger Woods fotografado por Annie Leibowitz, acompanhado por um artigo sobre os mistérios do golfista que mais se aproximou do estatuto de uma estrela pop. Na mesma edição vale a pena seguir a aposta em seis novas actrizes de Hollywood, um belo artigo sobre Patti Smith e outro sobre a história do disco-sound. A não perder.
 
DEVORAR – Se querem manter-se actualizados sobre novidades gastronómicas, desde restaurantes a produtos, passando por vinhos, não percam o blog Mesa Marcada ( http://mesamarcada.blogs.sapo.pt/ ). Os críticos gastronómicos Duarte Calvão e Miguel Pires e o crítico de vinhos Rui Falcão (não é da minha família) fazem uma bela abordagem do assunto e pelo meio revelam algumas boas curiosidades.
 
BACK TO BASICS –  Quem não quer dar nas vistas não fala alto em restaurantes – anónimo.



Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010
COMEMORAR FALHANÇOS

(Publicado no diário Metro de 2 de Fevereiro)

 

Por muito que me esforce não consigo compreender a azáfama das comemorações do centenário da República nem as largas somas de dinheiro colocadas à disposição da respectiva comissão. A República não é propriamente um regime de sucesso – a balbúrdia da Primeira República conduziu à ditadura e os 36 anos posteriores ao 25 de Abril falharam em grande escala dois dos três ideais republicanos – a justiça e a educação; apenas a saúde apresenta indicadores razoáveis.
O não funcionamento da Justiça em Portugal – desde a investigação até aos Tribunais – mostra como o Estado não se preocupa de facto com os cidadãos. Esta República criou um país onde os crimes ficam sem castigo, onde os boatos se perpetuam, onde os julgamentos se arrastam para além do admissível. Por estas e por outras é que não é de admirar que apareçam no YouTube gravações de escutas – basta ouvi-las para se ficar um pouco surpreendido com o desfecho de alguns processos e as conclusões de alguns tribunais. Torná-las públicas tem a vantagem de ajudar a perceber melhor aquilo que se quer tapar.
Na educação o falhanço do sistema é total – desarticulado o ensino técnico, transformadas as universidades em fábricas de diplomas para desempregados, o ensino não estimula a ligação da teoria à prática e pouco incentiva a ligação das escolas às empresas. O abandono escolar, o desajustamento do conteúdo de muitos cursos, a caótica situação do financiamento do Ensino Superior, as permanentes confusões em torno do Ensino Secundário, fazem da República portuguesa um triste exemplo de criadora de gerações pouco qualificadas.
Os republicanos de há cem anos diziam querer promover a igualdade em torno do acesso dos cidadãos à saúde, à educação e à justiça. Não é preciso ser visionário para perceber como estamos longe dos objectivos, não é preciso ser muito exigente para perceber que meio país anda enrolado em comemorações de um regime consideravelmente falhado – e nem digo nada da pouca vergonha da política que por aí se faz…
 
 

 




(Publicado no «Jornal de Negócios» de 29 de Janeiro)

 

INFORMAÇÃO - Terça-feira à noite estava a ver os telejornais das 22h00 quando de repente vi a emissão interrompida para entrar um «directo» que se resumia à entrega do suporte informático da proposta de Orçamento de Estado, pelo Ministro das Finanças ao Presidente da Assembleia da República. Não havia declarações, não havia nada – apenas a simbólica imagem da entrega do documento, aliás com considerável atraso sobre a hora prevista. Ou seja, um directo digno de países subdesenvolvido que se importam mais com as simbologias do que com as notícias. Chávez não faria melhor.
 
SEMANADA - O PP anunciou que se iria abster na votação do orçamento, o PSD anunciou a seguir que também se iria abster; o IPSD apresentou um estudo onde defende a possibilidade da redução da despesa pública para 41% no espaço de uma legislatura; o economista João Ferreira do Amaral afirmou numa entrevista que para avançar nas reformas mais difíceis não basta haver acordos, tem de haver coligações;
 
EVIDÊNCIA – Depois de quatro anos de austeridade imposta à sociedade, Sócrates não conseguiu impor austeridade ao Estado. Ou seja, o Governo PS impôs ao sector privado o que não conseguiu concretizar no sector público.
 
LISBOA – Esta semana a Emel fez nova manobra de propaganda com umas maquinetas que, à custa dos utilizadores, pretendem tornar a empresa mais rentável. A EMEL é um dos cancros da cidade, uma das peçonhas da política autárquica de vários executivos. O Presidente da Câmara devia impôr normas de funcionamento à EMEL que a obrigassem a cumprir prazos de desbloqueamento e a responder às queixas dos munícipes e que a fizessem dissuadir do estacionamento que incomoda e perturba em vez de praticar a caça à multa cega – que é de facto a única coisa que faz. A missão da EMEL está mal definida de início – não é uma ferramente para facilitar a circulação, é um expediente para ir buscar receitas, ainda por cima com uma duvidosa rentabilidade. Mas, acima de tudo,  a autarquia devia reconhecer que os habitantes de Lisboa, que já pagam por usar automóvel na cidade, deviam estar isentos de estacionamento, que se devia aplicar apenas aos automóveis que vêm de fora da cidade. Isso é que era coragem, verdade e honestidade. De outra forma trata-se de um assalto aos lisboetas, feito pela Câmara Municipal de braço dado com a EMEL.
 
PERGUNTINHA  - Depois do treino de Sá Pinto com Liedson será que o Sporting vai voltar a dinamizar a secção de boxe?
   
TELEVISÃO – Todas as quintas-feiras, na TVI 24, pouco depois das dez da noite, vale a pena ver um dos mais interessantes debates políticos da televisão portuguesa, a «Roda Livre» - Manuel Villaverde Cabral, Rui Ramos e Pedro Adão e Silva debatem a actualidade política com humor, bastante sabedoria e alguma salutar discussão.
  
VER -   «A Bela e o Paparazzo»  é um exemplo do que pode ser o cinema português que não tem vergonha de querer ter público e de divertir os espectadores. António-Pedro Vasconcelos fez uma belíssima comédia onde as interpretações de Marco D’Almeida, de Nuno Markl (com «buchas» em forma de dizeres nas t-shirts) e de Soraia Chaves mostram que não é por falta de talento local que não se fazem filmes mais populares. Com um piscar de olhos a comédias como «O Páteo das Cantigas», este é um exemplo de que o cinema português não está condenado a viver apenas de angústias existenciais – e além disso cumpre o importante papel de mostrar no grande ecrã uma geração de actores e de humoristas que marcam esta época que vivemos.
 
LER – A edição britânica da revista «Wired» publica na sua edição de Fevereiro um delicioso artigo onde se explica como Jamie Oliver, o mediático cozinheiro popularizado por programas da BBC, entrou em força no mundo das aplicações para iphone com conselhos e receitas semanais, que incluem listas de compras e porções variáveis face ao número de convivas. Verdadeiramente um achado. Mas esta «Wired» tem muito mais coisas interessantes e está a ficar muito mais atraente que o original norte-americano.
 
CLIMAX – Durante várias semanas a Apple construiu uma novela de suspense à volta do seu tablet, que se espera venha a oferecer à imprensa um fonte de rendimentos semelhante à que o o iPod ofereceu à indústria dicográfica. O mistério foi desvendado na quarta-feira – a máquina chama-se iPad- e as primeiras impressões superam as expectativas. Eu sou dos que acreditam que este novo produto da Apple pode mesmo mudar a forma como consumimos informação, livros e nos relacionamos com o mundo à nossa volta. Na apresentação um dos responsáveis do «New York Times» mostrou como pode ser lido um jornal no iPad, o que confirma que o produto foi desenvolvido em colaboração com os grupos de imprensa norte-americanos – uma boa notícia para todo a indústria de mídia.
 
OUVIR - Depois de uma separação de cinco anos, os noruegueses Eirik Bøe e Erlend Øye resolveram voltar a juntar esforços e o resultado é um conjunto de 13 canções onde o destaque vai para uma sensação de facilidade intuitiva, de um encanto melódico feito sem esforços nem truques, quase como se fosse natural fazer um disco assim tão simples e atraente. Vou arriscar um chavão – isto é música intemporal. Kings Of Convenience, «Declaration Of Dependence», CD Virgin/Source, na Amazon.
 
PROVAR – Em Lisboa passem pela Deli Delux (a Santa Apolónia) e procurem pelos produtos da Boa Boca Gourmet – não se arrependerão. Depois vão a
www.boaboca-gourmet.com  e descubram como um jovem casal, que vive em Évora, está a conseguir fazer uma marca baseada na qualidade das matérias primas, da confecção e do design das embalagens. Verdadeiramente exemplar.
 
BACK TO BASICS – Ninguém acredita num boato até ser oficialmente desmentido – Edward Cheyfitz.
 


publicado por MF às 11:48
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 22 de Janeiro)

EXERCÍCIOS SOBRE A MEMÓRIA 
 

 

DESPERDÍCIOS - Em declarações à Bloomberg, o antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, defendeu que alguns municípios deviam proceder à demolição dos estádios construídos para o Euro 2004 já que «é muito difícil lidar com dívidas de algo que não cria riqueza nem representa um bem público». Como a mamória é parte da política, recordo que o actual Primeiro Ministro José Sócrates foi o responsável pela condução do processo que levou a que o Euro viesse para Portugal, o que implicou um programa megalómano de construção dos estádios, que arruinou vários clubes e, também, alguns municípios – e que agora se prova ser um enorme desperdício. Os estádios que causam maiores impactos negativos nos respectivos municípios são os de Aveiro, Leiria e Faro. Ponham isto no curriculum de Sócrates, na secção Obras Públicas – também nessa altura se argumentou muito com o efeito positivo que o Euro e os estádios teriam. 
 

 

PRESIDENCIAIS - Manuel Alegre, o responsável pela decisão governamental de acabar com o jornal «O Século» e o seu grupo editorial em 1979, é, para já, o candidato do Bloco de Esquerda; Vitalino Canas, do PS, deu a entender que não seria o seu candidato; Francisco Assis, do PS, deu a entender que Manuel Alegre seria o seu candidato; Marco António, do PSD, deu a entender que Marcelo Rebelo de Sousa poderia ser candidato à Presidência da República; O Presidente da ERC mostrou-se contrário à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da RTP depois de o Director de Informação desta estação ter declarado que era por instruções da ERC que Marcelo teria de deixar o seu comentário dominical.   
 

 

LISBOA - Esta semana assisti, na Assembleia Municipal, à apresentação da Carta Estratégica de Lisboa. Confirmei o que suspeitava: excepção feita à área a cargo de Augusto Mateus, o resto é um documento propagandístico cheio de banalidades e de sugestões avulsas mais ou menos de senso comum, quase nunca surpreendentes, extremamente pouco inovadoras e muito embaladas pelas ideias politicamente correctas mais em voga. Trata-se de um bom levantamento de problemas – até aí concordo – mas de um fraco trabalho de apresentação de propostas ou de formulação de uma estratégia. Qualquer empresa de consultoria ficaria envergonhada se, após tanto tempo, apresentasse um resultado destes - na realidade, em matéria de perspectivas e de futuro, o documento é de uma pobreza  confrangedora. Na realidade, na maioria dos casos, não se trata de uma Carta Estratégica mas de um Inventário de Problemas. 
 

 

HOT CLUBE – Hoje completa-se um mês sobre o incêndio que fez interromper a actividade do Hot Clube, na Praça da Alegria. Ao fim deste mês ainda não se conhece uma solução (estou a escrever este artigo na quarta-feira à noite, dia 20).  Eu acho que nesta questão tem de existir bom senso e realismo. Se a questão mais importante fôr proporcionar o rápido retomar das actividades do Hot (concertos incluídos), a prioridade é encontrar um espaço com área semelhante, condições técnicas razoáveis e localização e acessos simpáticos. Já se sabe que poderá não ser uma solução definitiva, mas também é evidente que a questão da recuperação do prédio vai demorar uns anos a concluir. O bom senso – quer da Direcção do Hot, quer da CML, mandaria que se procurasse uma solução rápida. Se cada um se entricheira no ideal (como me parece que está a acontecer), o Hot vai acabar por se esvair – e vai ficar apenas a alimentar as memórias dos saudosistas. O conservadorismo em relação a tradições e locais é mau conselheiro. O bom é inimigo do óptimo – eu acho que havia já tempo para se ter escolhido um local que, depois, em dois meses, ficasse pronto para funcionar. Mas pelos vistos ligou-se o complicómetro… 
 

 

FILMES – Segundo números do Instituto do Cinema e do Audiovisual, dos 20 filmes mais vistos em 2009, apenas quatro tem participações na produção de países europeus e nenhum é português. O filme mais visto foi «A Idade do Gelo 3», com 667.551 espectadores e o vigésimo foi «A Troca» com 188.611. Em comparação com o ano anterior verificou-se uma diminuição de espectadores de 1,9%, sendo o número final de 15,6 milhões de bilhetes vendidos. O mês com melhores resultados foi Dezembro. Dos 20 filmes mais vistos, todos estrangeiros, 18 tiveram mais que 200.000 espectadores. Passemos à produção nacional – o filme mais visto entre as 22 longas-metragens portuguesas estreadas, foi «Uma Aventura Na Casa Assombrada» com 102.309 espectadores. Destes 22 filmes portugueses, 13 tiveram menos que 3.000 bilhetes vendidos e apenas cinco mais de 10.000 espectadores. Aqui estão alguns números que devem fazer pensar – um país sem uma produção audiovisual massificada é um país sem idioma vivo nos tempos que correm - o resto é pura conversa da treta. Uma curiosidade – até ao início desta semana «Avatar», estreado em Dezembro, já era recordista de bilheteira em Portugal com um total 672.133 entradas. Enfim… 
 

 

VER – Para assinalar o seu 450º aniversário, a Universidade de Évora resolveu convidar o colectivo de fotojornalistas da agência Kameraphoto para mostrar a realidade da Universidade, nas suas várias áreas, nos dias de hoje. O trabalho dos 13 fotojornalistas que trabalharam no projecto, ao longo de um ano lectivo inteiro, resultou em 170 fotografias e também num documentário em video - este é um trabalho exemplar, de que resultou uma exposição e um livro, ambos do ano passado. É um dos raros casos de uma encomenda séria de um ensaio fotográfico, ao que sei com total liberdade para os fotógrafos envolvidos poderem trabalhar e aceder onde quisessem. Fazem falta mais obras assim, mais ideias assim , mais encomendas assim. Talvez algumas das muitas Fundações que existem em Portugal pudessem tomar este exemplo e adaptá-lo. A (boa) edição é da Reitoria da Universidade de Évora. Espreitem www.kameraphoto.com/450/ 
 

 

OUVIR – Um quarteto tradicional (Jon Irabagon no saxofone, Kenny Barron no piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria) mostra como é possível conciliar melodias acessíveis e tonalidades jazzisticas clássicas, com interpretações de uma clara sonoridade contemporânea. Os dez temas são todos compostos por Jon Irabagon, o vencedor de 2008 da Thelonious Monk Institute International Jazz Saxophone Competition. Aqui está um músico a seguir, com um dos discos recentes a ter em conta. CD Concorde/Universal Music, «The Observer», Jon Irabagon, disponível na Fnac. 
 

 

BACK TO BASICS – Na política nada é tão útil como uma memória curta – John Kenneth Galbraith 
 



publicado por MF às 10:29
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Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 15 de Janeiro)

ZIGUEZAGUE - A situação das contas portugueses nos últimos meses parece um filme de horror – os indicadores degradam-se cada vez mais, desde o desemprego ao endividamento externo, passando pelo défice. Depois de ter andado meses a negar as evidências e a atacar quem relatava a verdade sobre o estado da nação, José Sócrates começou agora a fazer ziguezagues na sua até aqui intocável política de investimentos públicos. Tenho alguma curiosidade em ver onde isto vai parar, que projectos o Governo vai acabar por cancelar. Uma coisa é certa – foi preciso a realidade ser muito dura e desagradável para alguma coisa acontecer. E não precisava de ser assim. 
 

SEXO - Agora que as discussões sobre sexo abrandaram no Parlamento e que os debates sobre casamentos de geometria variável se vão desvanecendo, fica já evidente que a pressa foi tanta que tecnicamente o trabalho ficou mal feito. Mais importante, fica claro que o agendamento destas questões fez apenas parte de uma estratégia de desviar a atenção de problemas mais importantes – a situação estrutural das contas públicas e das finanças portuguesas – na esperança que algum milagre as resolvesse. Como é bom de ver não houve milagre e andou-se a perder tempo precioso para tomar medidas ou para fazer negociações políticas em torno de questões verdadeiramente urgentes e estratégicas. Chama-se a isto mau governo – um governo que foge da realidade e arranja artifícios para adiar a resolução dos problemas mais graves. 
 

PARTIDOS - A crise pela qual estamos a passar é um sintoma claro de que o sistema político e partidário têm que mudar – desde a forma de eleição até ao funcionamento do Parlamento ou das autarquias. A reflexão sobre estes assuntos está a tornar-se prioritária, sob pena de cada vez mais diminuir o interesse das pessoas na acção política e cívica. Atravessamos uma época em que a política é encarada como um expediente para obter vantagens pessoais ou uma ocupação para ociosos – é este estado de coisas que é preciso mudar. Atravessamos uma época em que aos eleitos é requerida apenas obediência e desejado conformismo. O resultado desta forma de agir está à vista. 
 

TV - Eu acho que em televisão não existem lugares cativos nem eternas fórmulas de sucesso. Mas também acho que quando se consegue conciliar audiência com qualidade é verdadeiramente um desperdício acabar com um programa como «As Escolhas De Marcelo Rebelo de Sousa» - que na semana passada foi o 15º programa mais visto em todos os canais e o 5º mais visto na RTP. Esta decisão, exclusivamente política, de terminar com o programa volta a colocar a necessidade de debater como deve funcionar o serviço público – e como deve ser de facto garantido o pluralismo. As matemáticas da ERC redundam numa diminuição objectiva de qualidade da emissão – alguma coisa está mal quando o serviço público é obrigado a sobrepor critérios políticos a critérios qualitativos e ao juízo dos espectadores e da crítica. 
 

LER – A edição 41 da revista trimestral «Egoísta» é dedicada à natureza e tem numerosos portfolios fotográficos, bastante desiguais. Merecem destaque os de Pedro Cláudio, de Gonçalo F.Santos, de Alfredo Cunha e de Nelson D’Aires. Nos textos destaque para «A Natureza da Carne» de Miguel Gullander e «A Velha» de Hélia Correia. São poucos mas bons – talvez a obrigar a revista a voltar a ter alguns rasgos de inovação que lentamente se vão sempre perdendo ao longo dos anos. De qualquer forma a «Egoísta» continua a ser um objecto impresso invulgar – precisa é de voltar a ser surpreendente. 
 

OUVIR – Sou um devoto dos trios de jazz na sua formação mais clássica – piano, baixo e bateria. Aqui há uns anos Brad Mehldau recuperou, e bem, o género e algumas novas formações foram ganhando público. Stefano Bollani é um pianista italiano muito versátil que tem interpretado desde temas clássicos até versões pop-rock – mas é no jazz que se tem destacado. Há cerca de seis anos encontrou dois músicos dinamarqueses com quem tem vindo a trabalhar – Jesper Boldisen no baixo e Morten Lund na bateria. «Stone In The Water» é o mais recente disco do trio – que na semana passada esteve em Lisboa na Culturgest. Este «Stone In The Water» é um trabalho verdadeiramente surpreendente, na escolha de repertório (dois temas de Boldisen, quatro de Bollani, um de Caetano Veloso, um de Tom Carlos Jobim e um de François Poulenc), mas sobretudo pela enorme elegância, contenção e fluidez do trabalho dos músicos – aqui está um trio pouco exibicionista mas muito eficaz. Estou em crer que grande parte do encanto vem da forma muito especial com que o baixo de Jesper Bodilsen dialoga com o piano de Bollani. Este é verdadeiramente um trabalho de um grupo de músicos apaixonados pelo que estão a fazer. Vai sendo raro. Edição ECM. 
 

EXPERIMENTAR – O «Sessenta» é um restaurante despretencioso com um conceito engraçado – ao almoço concilia rapidez com qualidade e ao jantar tem propostas mais elaboradas. Ao almoço há pratos do dia que vão de frango panado com farinheira (segundas) até favinhas com entrcosto e chouriço (quartas), passando por caril de camarão (terças), lulinhas guisadas com arroz branco (quinta) ou lombo de perca com broa e legumes (sexta). A qualidade é acima da média, o serviço é simpático e o espaço é divertido. À noite a carta apresenta outras propostas, a maior parte baseadas na tradição portuguesa com alguns toques de criatividade não exagerados. A lista de vinhos é razoável e os preços são honestos. O restaurante tem ainda serviço de take-away e um site invulgarmente informativo e exacto dentro do género – www.sessenta.pt. Resta dizer que O Sessenta fica na Rua Tomás Ribeiro nº60, esquina com a Luís Bívar, e o telefone é 213526060. 
 

BACK TO BASICS – A escola certa para se aprender não é a vida, é a arte – Oscar Wilde 
 



publicado por MF às 19:41
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Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 8 de Janeiro)

CULTURA - Por muito que me esforce não consigo compreender a razão de ser dos gastos em torno da comemoração do Centenário da República. Em Lisboa, o pretexto já serviu para dar cabo de meia Baixa e pelo país multiplicam-se as propostas loucas como a de um mastro para a bandeira com 100 metros de altura que custará um milhão de euros. Esta semana a Ministra da Cultura decidiu tristemente fazer a sua primeira grande intervenção em termos de anúncios de actividade espalhando dez milhões de euros aos quatro ventos num conjunto de mais de 50 actividades desconexas, avulsas, clientelares na maioria. Nada do que anunciou é estruturante, nada vai deixar marcas, tudo é efémero – mero foguetório em prol de um saudosismo ideológico – o do mito republicano – que poucos compreenderão hoje em dia. Não vou entrar nas comparações entre regimes – mas dez milhões de forrobodó é um contrasenso total numa área – a Cultura – que tem cronicamente falta de investimento. A Ministra dá a cara por umas Comemorações esbanjadoras que deitam à rua o equivalente e cerca de 5% do seu Orçamento anual. Não me parece bem. Parece-me um escândalo. 
 

 

PSD - Vejo com alguma perplexidade o que se passa no PSD, assisto a uma guerra entre as eleições directas para a liderança e o congresso. Por mais que me esforce vejo maioritariamente a discussão de questões internas e não encontro nada sobre propostas para ajudar o país a sair da grave crise em que está. Vejo um PSD gordo, anafado e estático, sempre centrado no umbigo, a discutir os mesmos assuntos internos, e sem perceber que há um mundo à sua volta. O PSD precisa de encontrar objectivos, criar uma estratégia, desenhar uma nova identidade. Como qualquer organização precisa de um líder que tenha um projecto, que consiga galvanizar as suas hostes com esse projecto, que consiga criar uma equipa para a acção e que consiga criar unidade interna. Não vejo nada disto, vejo apenas malabarismos tácticos, jogos de influências, alianças de conveniência, meras coligações de interesses conjunturais. Assim as directas não vão resolver nada – vão apenas servir para queimar mais um dirigente partidário que no dia a seguir a ser eleito se vai ver forçado a gastar mais tempo a contrariar a oposição interna do que a fazer oposição construtiva e a criar uma alternativa política. 
 

 

PAÍS – O Presidente da República prega no deserto e nenhum partido o quer ouvir: o PS porque não tem a mesma agenda; o PSD porque não tem agenda alguma; os outros porque fazem depender as respectivas agentes de acordos parlamentares que consigam estabelecer para ganharem mais algumas vantagens próprias. Mas Cavaco Silva teve razão na sua última mensagem e pôs o dedo na ferida: o país está a ser governado levianamente. Qualquer candidato às próximas presidenciais tem agora uma fasquia que pode ajudar a separar as águas. 
 

 

TELEVISÕES – Segundo dados divulgados recentemente cerca de um milhão de lares, equipados com caixas digitais do Meo, Zon, Clix e outros operadores, não estão a ser analisados no âmbito do estudo de audiências de TV. Estes lares, cerca de 30% do total, abrangem um grupo sócio-demográfico com poder de compra, urbano, com acesso simultâneo a TV e a internet de banda larga e profissionalmente activo. Acresce que os detentores de televisores digitais, plasmas e outros formatos e tecnologias recentes, também já não são auditados. É lícito dizer-se que quase metade do universo de lares portugueses já não é estudado em termos de audiências de televisão. Isto não são boas notícias para quem quer investir em publicidade na televisão – a realidade do mercado está demasiado afastada dos resultados divulgados. 
 

 

PROVAR – O sumo de maçãs frescas Copa, produzido em Alcobaça pela cooeprativa Frubaça. Está disponível na generalidade das lojas Go Natural e é produzido a partir de maçãs que não foram submetidas a tratamento com pesticidas. 
 

 

 

USAR – Este ano vou deixar de usar cadernos da Moleskine e passar a utilizar os cadernos das Papelarias Emílio Braga – são mais cool, mais variados, com belas e resistentes capas e têm bons formatos e bom papel. www.emiliobraga.com – os meus preferidos são os modelos 2001 A6 liso com 100 folhas (seis euros) e o modelo 2005 A5 liso também com 100 folhas (9,60 euros). 
 

 

LER – A mais recente edição da «Intelligent Life» , uma publicação trimestral lançada por «The Economist» tem, entre numerosas páginas interessantes, três artigos a reter. No primeiro, num dossier sobre a Terra e o Ambiente, Robert Butler chama a atenção para a importância do estudo da Geografia nos dias que correm, levantando a hipótese de ela ser actualmente mais importante que a História; no segundo Brian Cathcart aborda a evolução do jornalismo de uma forma muito acutilante; no terceiro Bee Wilson faz comparações entre o universo dos Simpsons e da Disney. Referência ainda a uma curiosa análise da evolução da avaliação do que é profissionalismo, em diversas áreas, por Ed Smith – que inclusivamente cita Scolari. Para terminar um belo porfolio fotográfico de Peter Kindersley sobre Londres fora da luz do dia – muito apropriado para estes tempos da estreia de «Sherlock Holmes».  
 

 

VER – A não perder a exposição «segunda Escolha» do fotojornalista António Pedro Ferreira na Kamera Photo, Rua da Vinha 43 A, ao Bairro Alto. 
 

 

OUVIR – Richard Bona é um músico originário dos Camarões que fez uma assinalável carreira como baixista nos Estados Unidos, embora na realidade seja um homem dos sete instrumentos. No seu novo disco, «The Ten Shades Of Blues», ele multiplica-se entre a voz, a guitarra, teclados, percussão, bateria, bandolim e.claro, o baixo. O disco é uma viagem pelas sonoridades da World Music, obviamente com a África presente, mas também com incursões na Índia e nos territórios da música popular norte-americana. «The Tem Shades Of Blue» é um trabalho que mostra a dedicação e o encanto de Bona pela música – é um exemplo de um disco feito com paixão com o objectivo de ser divertido. Nos tempos que correm não há muitos que se possam gabar disto. 
 

 

BACK TO BASICS – Aqueles que tentam liderar o povo, só o atingem porque seguem a multidão (Oscar Wilde) 
 



publicado por MF às 12:04
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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 31 de Dezembro)

MEDIA - No mundo dos Media, em Portugal, olhamos para trás e vemos um ano agitado: ataques do Primeiro Ministro a órgãos que lhe foram críticos, pressões variadas, mudança de responsáveis editoriais, novos jornais, mudança de propriedade de alguns, vários encerramentos de títulos, o afastamento de Manuela Moura Guedes do ecrã, o concurso do quinto canal numa trapalhada, a televisão digital terrestre ainda indefinida, uma ERC cuja utilidade e funcionalidade continua a ser um mistério, o panorama dos incentivos à produção audiovisual nacional cada vez mais obscuro, uma retracção do mercado publicitário em mais de cem milhões de euros. Só por curiosidade – aqui ao lado, em Espanha, dia 1 de Janeiro desaparece a publicidade paga na televisão pública espanhola, o que quer dizer que as televisões privadas poderão recuperar investimento. Destas decisões de Zapatero é que Sócrates não fala muito… 
 

 

FITAS - Do outro lado do Atlântico, Hollywood teve o melhor fim de semana alargado de Natal de sempre – com receitas de bilheteira nos três dias a ultrapassarem os 278 milhões de dólares. «Avatar» e «Sherlock Holmes», por esta ordem, foram os grandes responsáveis por estes números.«Avatar», o filme de James Cameron que levou 15 anos a preparar e a concluir, deve atingir os 300 milhões de dólares de receitas no final do ano, e a dúvida está em saber se, no mercado americano, conseguirá atingir o recorde de bilheteira, também pertencente a Cameron, com Titanic – 600 milhões. O ano em geral foi bom para o cinema nos Estados Unidos – as receitas anuais de bilheteira ultrapassaram pela primeira vez o patamar dos mil milhões de dólares. 
 

 

MUDANÇA - Este ano, no Natal, a Amazon vendeu mais livros em formato digital do que em papel. O seu leitor Kindle esteve entre os produtos mais vendidos (e cobiçados como prenda). O «New York Times» continua a desenvolver sistemas que possibilitem acesso pago, via digital, à edição integral actualmente existente em papel. As estimativas apontam para que daqui a dez anos, em 2020, existam cerca de 50 mil milhões de aparelhos portáteis capazes de aceder à net e aos seus conteúdos a partir de qualquer ponto. Na próxima década começam a entrar no mercado de trabalho os jovens que já cresceram, estudaram e vivem em ambiete digital. 
 

 

FUTUROLOGIA - Não é preciso ser bruxo para perceber que 2010 vai ser um ano infernal em matéria de política interna: o PSD anda à procura de um rumo e de nova liderança; o PS começa a dar sinais de uma crise interna que alastra, contestando Sócrates; Governo e Presidência da República estão em permanente rota de colisão; paira o espectro das eleições antecipadas e a certeza das presidenciais. O mais certo é o Governo não governar, o mais certo é o Governo não cortar na despesa pública, o mais certo é o Governo deixar o endividamento externo e o défice crescerem ainda mais. O ano não vai ser fácil – os sinais de recuperação económica a nível global vão ser confrontados com as evidências de uma instabilidade interna, que não vai ajudar a resolver os problemas – instabilidade que crescerá na proporção da insensibilidade de Sócrates a uma realidade política diferente que o devia levar a compromissos e negociações. 
 

 

IMPORT-EXPORT -Neste fim de semana encontrei um dos amigos da minha filha mais velha, licenciado, mestrado feito, boas notas, que perante a dificuldade de encontrar trabalho em Portugal arriscou Londres e está contente – tem trabalho, conhece outro mundo, é apreciado e estimulado. Contou-me que. dos seus amigos mais próximos, cerca de uma dezena estão no estrangeiro a trabalhar, a investigar ou a terminar doutoramentos. E resumia-me assim a situação da sua geração: «agora exportamos matéria cinzenta e importamos músculos – que vai ser de nós?»

 
 

HOT CLUBE - Infelizmente o Hot Clube foi vítima de um incêndio no prédio onde estava – o Hot é uma tradição de Lisboa e um dos poucos sítios onde se pode ouvir bom jazz ao vivo – além de que ao longo dos anos desenvolveu uma escola por onde têm sido formados alguns dos nossos melhores músicos de jazz. Se o Hot fica demasiado tempo parado, sem local, corre o risco de a tradição ser vencida pela inacção – não é situação única; por isso, enquanto o prédio não é recuperado é importante encontrar uma alternativa, de preferência em zonas históricas da cidade. Sugiro à Câmara Municipal que veja as áreas que tem livres – talvez no Convento das Bernardas, perto do Museu das Marionetas, exista algum espaço que possa ser usado; talvez as extensas áreas de serviço do Teatro Taborda e a própria sala possam ser divididas com o Hot (e esta seria a melhor de todas as soluções, inclusivamente para a Escola do Hot); talvez até na antiga área da Companhia de Dança de Lisboa no Palácio dos Marqueses de Tancos; talvez – e esta é uma possibilidade real - até no edifício ao lado do Cinema S. Jorge, desocupado há anos, e com pelo menos dois pisos disponíveis. O que eu sei é que para resolver isto é preciso imaginação e boa vontade – e sobretudo alguma rapidez. Se ficar tudo sentado a pensar, nada vai acontecer a não ser o Hot morrer aos poucos por falta de actividade. 
 

 

VER E OUVIR – Para passar o ano em beleza, o CD e DVD dos Pink Martini, «Splendor In The Grass» com magníficas e improváveis versões de velhos temas. Absolutamente a banda sonora perfeita para o dia 1 de Janeiro de 2010.

 
 

 

BACK TO BASICS – Uma pessoa deve ser pelo menos um pouco improvável – Oscar Wilde. 
 



publicado por MF às 18:49
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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
O HOT CLUBE

 

Infelizmente o Hot Clube foi vítima de um incêndio no prédio onde estava – o Hot é uma tradição de Lisboa e um dos poucos sítios onde se pode ouvir bom jazz ao vivo – além de que ao longo dos anos desenvolveu uma escola por onde têm sido formados alguns dos nossos melhores músicos de jazz. Se o Hot fica demasiado tempo parado, sem local, corre o risco de a tradição ser vencida pela inacção – não é situação única; por isso, enquanto o prédio não é recuperado é importante encontrar uma alternativa, de preferência em zonas históricas da cidade. Sugiro à Câmara Municipal que veja as áreas que tem livres – talvez no Convento das Bernardas, perto do Museu das Marionetas, exista algum espaço que possa ser usado; talvez as extensas áreas de serviço do Teatro Taborda e a própria sala possam ser divididas com o Hot (e esta seria a melhor de todas as soluções, inclusivamente para a Escola do Hot); talvez até na antiga área da Companhia de Dança de Lisboa no Palácio dos Marqueses de Tancos; talvez até no edifício ao lado do Cinema S. Jorge, desocupado há anos, e com pelo menos dois pisos disponíevis. O que eu sei é que para resolver isto é preciso imaginação e boa vontade – e sobretudo alguma rapidez. Se ficar tudo sentado a pensar, nada vai acontecer a não ser o Hot morrer aos poucos por falta de actividade.

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publicado por MF às 17:22
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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
CABAZ DE PRENDAS ( No Jornal de Negócios de 24 de Dezembro)

 

Este não tem sido um ano fácil – daqui a alguns anos se poderá ver como 2009 foi um ano horribilis, para os portugueses, para a economia portuguesa, para a política portuguesa, para a justiça portuguesa. A degradação do país é acentuada, precipitada por actores políticos inconsequentes, por um sistema partidário desfasado da realidade, por um sistema parlamentar em descrédito, por uma justiça absolutamente vergonhosa. A grave e preocupante situação económica a que chegámos – muito mais preocupante que a tradicional bonomia lusitana consegue encarar – coloca-nos à beira do abismo e compromete o futuro. Sucessivas políticas improvisadas destruíram a produção nacional, que reconvertem por temporadas em obras públicas gigantescas de importância, prioridade e necessidade mais que discutíveis.

Talvez alguns leitores se indignem por eu nomear, na lista de prémios e prendas abaixo publicada, tantos nomes do PS. Faço-o não por embirração especial mas porque é  o PS que tem estado maioritariamente à frente do Governo desde 1995, com um breve intervalo de três anos do PSD – que, verdade seja dita, também não correu bem. No entanto, nos 15 anos mais recentes, em 12 os  Governos do PS desperdiçaram todas as oportunidades, aumentaram a despesa pública, e na maior parte do tempo governaram com maioria absoluta ou com apoio parlamentar maioritário. E nem quero apontar os escândalos, os casos, as corrupções, as perseguições, os compadrios que, nos últimos anos, com Sócrates no poder se tornaram o pão nosso de cada dia.

Portugal piorou nestes últimos quinze anos. Os políticos no activo estão a destruir o capital de confiança na democracia. Os principais partidos políticos ou estão no poder e dividem lugares ou estão na oposição e entram em auto-destruição. Sinceramente gostava de não ter que dar prendas assim – mas a realidade que vejo á minha frente é mesmo esta. 
 

Marcelo Rebelo de Sousa – Prémio «Agora Ainda Não», ao conseguir mais uma vez fintar tudo e todos nas questões do PSD – tivesse a selecção portuguesa de futebol jogadores com esta capacidade de finta e o Mundial da África do Sul poderia ser um passeio tranquilo. 
 

Teixeira dos Santos – Prémio «Não me Agarras» por se ter tornado no Ministro das Finanças mais rápido a fazer aumentar o défice do Estado – actualmente ao ritmo de 39 milhões de euros por dia; o prémio também recompensa a bonito aumento da despesa pública conseguido entre Novembro do ano passado e Novembro deste ano – um recorde de 4,6%. Recebe também um exemplar de «Economics», de Paul Samuelson, para ver se ainda consegue aprender alguma coisa. 
 

Manuel Alegre – Prémio «O Eterno Candidato», pela sua dedicação aos jantares de apoiantes, à carne assada e aos grandes discursos tão redondos, tão redondos, que ninguém consegue perceber o que lhe vai na cabeça. 
 

José  Sócrates - Prémio «Aumentador do Ano», por ter conseguido mais défice, mais desemprego, maior endividamento externo e maior instabilidade política. Ainda não foi desta que ganhou uma medalha na maratona da política. 
 

António Costa - Prémio «Viva o Prozac», pela bonomia com que assiste ao degradar de Lisboa, aos desmandos de José Sá Fernandes e às tropelias de Helena Roseta, enquanto espera placidamente sentado a queda de Sócrates. 
 

Noronha do Nascimento – Prémio «O grande Censor» por no seu discurso de posse, depois de reeleito para o Supremo Tribunal de Justiça ter defendido a criação de um órgão especial para julgar jornalistas «composto paritariamente por representantes das próprias classes profissionais e da estrutura política do Estado». 
 

Pinto Monteiro – Um frasco de «speed» e uma lata de Red Bull para ver se a Procuradoria Geral da República consegue funcionar a um ritmo decente . 
 

Sérgio Sousa Pinto – Prémio «Laxante Cerebral», pela diarreia mental que tem espalhado à sua volta desde que regressou de Bruxelas – um típico caso dos efeitos da burocracia comunitária em políticos imberbes. Esteve quase para dividir o prémio com Ricardo Rodrigues, o rotweiller político do PS. 
 

PSD – Um vale de 20 sessões com o Professor Karamba a ver se afasta o bruxedo e consegue sobreviver. 
 

Augusto Santos Silva – um manual do World Of Warcraft, a ver se faz menos asneira como Ministro da Defesa do que no cargo anterior. 
 

Aguiar Branco – Um frasco de vitaminas a ver se consegue ser mais enérgico e mostrar alguma convicção. 
 

Isabel dos Santos – Prémio «Portugal É Nosso» e «Compre Português», pela continuada e activa actividade de compras que tem desenvolvido em Portugal – garantindo recordes de investimento estrangeiro à margem de qualquer organismo oficial especializado no assunto. 
 

BACK TO BASICS – Se não fosse o jornalismo, Portugal era um sítio isento de corrupção, de crimes violentos e de abusos sexuais» - Fernando Sobral. 



publicado por MF às 11:27
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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 16 de Dezembro)

PORTUGAL – É certo que governar em maioria absoluta é mais fácil, mas também é certo que governar em maioria simples é a situação mais normal por esse mundo fora. Sócrates, que dentro e fora do seu partido gosta de mandar com maioria absoluta, não gosta de compromissos e o seu apregoado talento de negociador só tem expressão prática fora de portas. Melhor seria que utilizasse dentro de fronteiras a paciência e o espírito conciliador que o levou a conseguir o acordo sobre o Tratado de Lisboa. O absolutismo de que Sócrates gosta é um sinal de menoridade política, é um sinal de desprezo pelas opiniões alheias. O exercício do Governo em maioria relativa pressupõe acordos transparentes, um parlamento vivo e actuante - é o que melhor podia acontecer não só ao país, mas também aos partidos, eles próprios habituados a funcionar em regime interno de absolutismo. O triste balanço dos anos de maioria absoluta de Sócrates resume-se a isto: temos mais corrupção, mais desemprego, maior défice, maior endividamento, menos confiança e menos esperança. 
 

 

MASTRO – O disparate da semana é o mastro de cem metros de altura que a Câmara Municipal de Paredes quer construir, com um custo estimado de um milhão de euros, para pôr a ondular uma bandeira nacional, numa iniciativa comemorativa do centenário desta muito pouco útil República. 
 

 

LISBOA I  – O espaço público degrada-se, as ruas continuam sujas, os estaleiros de obras particulares permanecem a empatar ruas mesmo depois de obras terminadas, os estaleiros do Metro na zona do Saldanha continuam a ser um pesadelo quase seis meses depois de abertas as novas estações, ainda não foi desta que a Duque de Ávila voltou a ter trânsito. 
 

 

LISBOA II – O que está em causa no jardim do Princípe Real não é uma operação fito-sanitária para tratar de plantas e árvores; o que está a ser feito e não foi discutido nem mostrado à população, é um novo arranjo de todo o antigo Jardim do Princípe Real – que vai ficar irreconhecível. 
 

 

LISBOA III – Um tribunal arbitral condenou a Câmara Municipal de Lisboa a pagar uma indemnização de 18,5 milhões de euros ao empreiteiro da obra do túnel do marquês, devido à interrupção dos trabalhos causada pela providência cautelar interposta por José Sá Fernandes, antes de ocupar o seu actual ligar na vereação camarária. 
 

 

RESUMO – As áreas delegadas em Sá Fernandes, espaço público, ambiente urbano e espaços verdes estão cada vez piores – a sua acção como vereador é criticada de forma quase unânime e arrisco dizer que é consensual a sua incapacidade para manter a cidade confortável e agradável. Pior, a sua acção de propaganda política, que contribuíu para o seu actual estatuto (a guerra desencadeada contra o projecto do Túnel do Marquês) saldou-se num enorme prejuízo directo para a autarquia, pago por todos os munícipes por via dos impostos – e isto apesar de hoje em dia todos, excepto o próprio, reconhecerem que o túnel melhorou o ambiente urbano na zona e contribuíu para a qualidade de vida de quem reside naquelas ruas. Face a uma situação destas, em que a incompetência se alia à irresponsabilidade, seria da mais elementar decência que José Sá Fernandes renunciasse ao cargo, que manifestamente não é capaz de desempenhar em condições, e sobretudo porque agora se confirma que ele foi o causador directo de prejuízos avultados. Mas, já que ele não tem a decência de reconhecer os seus erros, seria natural que António Costa, face à sua acção como vereador, e aos efeitos nefastos da sua actividade anterior nas finanças da Câmara, lhe retirasse a confiança política. Nada disto se passa – e é tempo para quem votou em António Costa pense no resultado prático dos seus votos. 
 

 

OUVIR – Fora de Espanha Luz Casal tornou-se conhecida pela sua interpretação do clássico sul-americano «Piensa En Mi», incluída  na banda sonora do filme «Tacones Lejanos», de filmes de Pedro. Este ano Luz Casal voltou a pegar na tradição da melhor música latino-americana, interpretendo 12 clássicos, de «Alma Mia» até«Que Quieres Tu de Mi», passando por « Mar Y Cielo», «Cenizas» ou «no, No y No», entre outras. Os arranjos, de uma elegância notável, são do brasileiro Eumir Deodato, que tem uma longa carreira musical feita nos Estados Unidos desde os anos 70. CD «La Pasión», EMI. 
 

 

LER I – Muito bem o livro  “Xutos & Pontapés - As melhores canções para crescer”, que reúne as letras de 16 temas do grupo, com óptimas ilustrações de Miguel Gabriel para temas como  "Contentores”, “N´América”, “Vida Malvada”, “Desemprego”, “Prisão em si”, “Remar, Remar”, “Chuva Dissolvente” e “Homem do leme”, entre outros.  
 

 

LER II - «As melhores fotografias de Lisboa Desaparecida», uma selecção de imagens raras, organizada por Marina Tavares dias, na sequência da sua série de álbuns sobre a história de Lisboa. A selecção de imagens é muito boa e sugiro um exercício: pegue no livro e leve o seu filho a um dos locais emblemáticos da cidade ali mostrados, ponha-se no mesmo ângulo da imagem e veja as diferenças com o que, no mesmo local, se pode ver hoje. 
 

 

PETISCAR - Nestes dias pré-natalícios é bom um restaurante de comida portuguesa, ambiente acolhedor, boa garrafeira, preços sensatos. Esta semana regressei a uma casa onde as coisas tem tendência a correr bem. Para aguçar o apetite direi que umas empadinhas de galinha e um queijo de serpa, acompanhado por finas fatias de pão alentejano, serviram para preparar o paladar. O vinho, que entretanto chegou, é o belíssimo Valado tinto 2007, que fez muito boa figura a acompanhar a escolha de perdiz com couve lombarda, que estava superior. A rematar, requeijão com doce de abóbora. Resta dizer que José Duarte, o homem ao leme deste «Salsa & Coentros», continua em boa forma. Para lá ir deve fazer uma reserva pelo telefone 21 8410990. O restaurante fica em Alvalade, na rua Coronel Marques Leitão, que começa frente ao quartel de Bombeiros da Avenida Rio de Janeiro. 
 

 

BACK TO BASICS - «Dado o character do jornalismo actual, a profissão de espião deixou de fazer sentido» - Oscar Wilde 
 



publicado por MF às 09:54
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