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AS ROTUNDAS - Há dias que ando a pensar nisto: aproveitando o facto de tanta gente ter uma máquina fotográfica no bolso, no smartphone, seria interessante que alguma edição digital de um título de informação desafiasse os seus leitores a fotografarem as rotundas das suas terras, nesta época de pré eleições e eleições, para fazer um levantamento dos cartazes de propaganda dos candidatos autárquicos. A propaganda política autárquica é um mundo fascinante, em termos da mensagem que aparece escrita, em termos das fotografias dos candidatos utilizadas nos cartazes, em termos de grafismo. Nesta altura as rotundas de cidades e vilas são um manancial de recolha de slogans, de percepção do estilo e da estética dos partidos e dos candidatos. O objectivo, meramente documental, repito, seria recolher o testemunho de um determinado ano, numa determinada conjuntura política, num determinado contexto local. As eleições autárquicas fascinam-me - desde logo porque são as únicas onde podem existir candidaturas independentes das organizações partidárias tradicionais - mas também porque são aquelas onde a imposição centralizada de normas de propaganda dos partidos se tornam mais difíceis de assegurar. Como em todas as coisas relacionadas com comunicação - e a propaganda política é uma forma de comunicação - haverá bons e maus exemplos. Basta aliás andar nas rotundas da capital para perceber isso: os dois maiores partidos, PS e PSD, têm exibido até agora em Lisboa conceitos de outdoor no mínimo polémicos e, para ser brando, duvidosos. A propaganda é uma actividade fundamental da acção política, por isso, para além da recolha de  colecções de material de campanha, como a equipa de voluntários de Pacheco Pereira vem realizando, era interessante promover a recolha das imagens das rotundas - o único local onde na maior parte das vezes as diversas candidaturas cruzam mensagens e as suas imagens se confrontam. As rotundas são o showroom da política portuguesa, não é?

 

SEMANADA - Portugal está entre os países europeus que menos investem na Cultura, sendo o quinto país que menor percentagem do produto aplica nestes domínios; só a Grécia, Itália, Reino Unido (todos com 0,7% do PIB) e Irlanda (0,6%) investem menos do que Portugal; o Tribunal de Contas considerou-se limitado na sua capacidade de controlar a execução orçamental da administração central porque os registos orçamentais não correspondem ao dinheiro reportado como tendo entrado e saído da conta do Tesouro; ao todo, há mais de 1,7 milhões de portugueses emigrados pela Europa;  cerca de 907 mil são emigrantes de primeira geração e outros 812 mil são de segunda geração;  segundo o INE existem duas gerações de emigrantes de primeira geração, a dos 25 aos 39 anos e a dos 55 aos 64 anos, e a proporção de emigrantes mais jovens com ensino superior é cerca de 10 vezes a dos emigrantes mais velhos; entre os mais velhos, a percentagem dos que têm ensino superior é de 2,7%; já entre os mais jovens, é de 26,3%; nos últimos 25 anos, o número de jovens entre os 15 e os 24 anos diminuiu em quase todos os concelhos; no total, o país perdeu 514 mil jovens entre os 15 e os 24 anos, passando de 1 milhão e 611 mil jovens  em 1991 para 1 milhão e 97 mil em 2016; apenas em 19 dos 308 concelhos do país este número de jovens é hoje superior ao observado em 1991; os concelhos mais rejuvenescidos do país são os das Regiões Autónomas; o investimento captado através dos Vistos Gold subiu 14,8%, nos sete primeiros meses do ano, face a igual período do ano passado, para 656 milhões de euros.

 

ARCO DA VELHA - A rede SIRESP colapsou praticamente todos os anos desde que foi criada em 2006 e desde 2010 teve falhas de funcionamento em todas as situações de emergência reportadas - apesar disso o Estado nunca avançou com nenhuma queixa ou processo judicial contra a empresa que opera a rede, cujo desempenho não é fiscalizado há sete anos.

 

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FOLHEAR - Uma das mais interessantes revistas de fotografia actuais é o British Journal Of Photography (BJP em abreviado). Cada edição é dominada por um tema - e recentemente estiveram em destaque nomes de novos fotógrafos a seguir com atenção, seja no campo comercial seja na expressão artística individual (Ones To Watch- The Talent Issue, edição de Junho),  trabalhos de narrativa fotográfica documental (Truth Or Fiction?, edição de Julho), um número especial dedicado às mais relevantes escolas e cursos europeus que se dedicam ao  ensino da fotografia (Look & Learn, edição de Agosto). Nesta edição de Setembro, sob o tema Invisible World, o BJP mostra ensaios fotográficos sobre realidades quase ignoradas, desde uma ilha no Pacífico onde um terço da população sofre de uma rara forma de cegueira que não permite distinguir as cores, passando por um documento sobre os conflitos étnicos na Índia Central até à degradação ambiental em vastos territórios da ex União Soviética. Além disso merece destaque um trabalho sobre os Rencontres d’Arles, além de uma agenda de 10 importantes festivais de fotografia que acontecem em Setembro - desde o novíssimo que se prepara em Oxford até aos Encontros da Imagem, de Braga. O número de Setembro do BJP inclui ainda uma conversa com o fotógrafo norte-americano Joel Meyorowitz sobre a forma como ele observa e se inspira, e ainda sobre as razões que o levaram a sair de Nova Iorque e a ir viver para a Toscânia. Meyerowitz é um dos fotógrafos em destaque na edição deste ano dos Rencontres d’Arles, que terminam a 27 de Agosto.

 

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VER - Com muitas das galerias encerradas em Agosto recomendo uma visita a duas exposições no Museu Nacional de Arte Antiga (Rua das Janelas Verdes), destacando duas exposições:  a primeira mostra uma peça extraordinária, a Custódia da Igreja de Santo Inácio de Bogotá (na imagem), um tesouro da arte barroca mundial, encomendada em 1700 pela Companhia de Jesus. A peça é  conhecida pelo nome de “La Lechuga” devido ao verde intenso que lhe é dado pelas 1486 esmeraldas que ostenta, além de um  topázio brasileiro, 62 pérolas de Curaçau, 168 ametistas da Índia, 28 diamantes africanos, 13 rubis de Ceilão (Sri Lanka) e uma safira do Reino de Sião (hoje, Tailândia); um total de 1759 pedras preciosas de altíssima qualidade, encastradas numa peça de ouro de 18 quilates. A peça está exposta até 3 de Setembro na Sala do Tecto Pintado, do piso 1 do Museu;  a outra exposição do MNAA é “Madonna - Tesouros dos Museus do Vaticano” e fica até 10 de Setembro na Galeria de Exposições temporárias. Esta mostra apresenta, pela primeira vez em Portugal, um conjunto de obras das famosas coleções dos Museus do Vaticano com pinturas de Primitivos italianos (Taddeo di Bartolo, Sano di Pietro, Fra Angelico), de grandes mestres do Renascimento e do Barroco (Rafael, Pinturichio, Salviati, Pietro da Cortona, Barocci), além de tapeçarias e códices iluminados do acervo da Biblioteca Apostólica Vaticana. Se no fim quiser um refresco aproveite a esplanada no jardim com vista para o Tejo. É uma pena fechar tão cedo, roubando os prazeres do fim da tarde.

 

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OUVIR - "Zaire 74 - The African Artists” é  um disco com uma história fantástica - trata-se da gravação do espectáculo montado em paralelo ao célebre combate de boxe entre Muhammad Ali (Cassius Clay) e George Foreman, realizado no dia 30 de Outubro de 1974, em Kinshasa. No oitavo round Ali arrumou Foreman com um KO, reconquistando o seu título de campeão do mundo. O festival de música que decorreu em paralelo, sob os auspícios do regime de Mobutu e de um promotor habilidoso, Don King, incluía músicos e artistas americanos populares à época e um naipe excepcional de artistas africanos. Este disco recolhe e divulga finalmente a actuação destes últimos, nomeadamente Miriam Makeba, Franco T.P.O.K. Jazz e o seu rival Tabu Ley Rochereau , Orchestre Stukas,  Abumba Masikini e a sua irmã Abebi , rainha do soukous. Trata-se de um duplo álbum que recorda actuações fantásticas, uma montra de afro-funk, secções de metais arrebatadoras e contagiantes ritmos de soul e rumba, cruzamentos de acid rock, heavy metal e música africana. É o retrato de uma época musical única numa circunstância especial. Uma descoberta. Disponível no Spotify

 

PROVAR -  Uma boa surpresa deste verão é a Casa Alegria, um restaurante aberto no primeiro trimestre deste ano na Aldeia do Meco por um casal de franceses: Karine Guichard dirige as operações na sala e o seu marido Olivier superintende na cozinha. A partir de um local que já teve várias utilizações ao longo dos últimos anos os novos proprietários criaram um ambiente informal, com vários espaços entre zonas de interior e exterior, aproveitando móveis antigos de várias proveniências. O serviço é descontraído, mas eficaz e simpático, a decoração é acolhedora, quase caseira, com vários recantos, e a clientela reflecte bem o ambiente do Meco. Para entrada provaram-se uns pastéis de bacalhau, bem feitos, mas estão disponíveis petiscos como bruschetta de sardinha ou brie no forno com oregãos frescos. A seguir vieram coisas mais sérias como um caril de gambas e um caril de legumes, ambos de inspiração tailandesa, um pato confitado honesto e um lombinho de porco com cebola caramelizada e molho de Porto apreciado pela comensal que o escolheu. A cozinha é correcta, com boa qualidade na matéria prima e cuidado na execução. Finalizou-se com uma boa mousse de chocolate negro sem açúcar e, do outro lado da mesa, com um cheesecake de frutos silvestres, que mereceu aplauso. Aberta para refeições, petiscos e aperitivos de fim de tarde, a Casa Alegria é bem diferente, no ambiente e ementa, dos restaurantes tradicionais do Meco: menos barulho, menos confusão. E é engraçado como um casal de franceses escolheu Casa Alegria para nome e propõe de entrada belos pastéis de bacalhau. Fecha às segundas. Casa Alegria, Rua do Comércio 18, Aldeia do Meco, telefones 214 051 343 ou 932 280 176.

 

DIXIT -  “As fusões e aquisições só são verdade no dia em que se anunciam. Até lá, são sempre uma mentira dos jornais” - António Costa, director do jornal online Eco.

 

GOSTO - Segundo a Marktest, 6,9 milhões de portugueses contactam com a imprensa, seja nas edições em papel, seja no meio digital - 80,2% dos residentes no Continente com 15 ou mais anos.

 

NÃO GOSTO - Registam-se mensalmente cerca de 100 ataques de cães perigosos a pessoas.

 

BACK TO BASICS - “Políticos, prédios feios e prostitutas tornam-se respeitáveis se se mantiverem durante bastante tempo” - John Houston no filme “Chinatown”, de Roman Polanski.

 

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publicado às 13:30

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AUTARQUIAS - Com a abstenção provavelmente perto dos 50% o país está dividido entre quem vota e quem não vota nas eleições deste ano, que são as autárquicas. Há muitas razões para o desinteresse no voto - a maneira como os partidos funcionam, a má fama que demasiados casos de corrupção criaram no seio de autarcas - de presidentes da junta a presidentes de câmaras importantes. Mas é forçoso reconhecer que, corrupções e compadrios à parte, o país, numa série de coisas, mudou para melhor com o trabalho de muitos autarcas dedicados às populações que os elegeram. Sou dos que partilha a opinião de que a participação cívica e política mais importante e com maior capacidade de concretização de transformações é a nível das autarquias. Isto acontece a vários níveis, desde a limpeza ao ordenamento do trânsito. Há presidentes de juntas de freguesia que, com poucos recursos, fazem milagres, que contactam diariamente com as populações, que pensam no interesse de quem ali vive e não das imposições dos presidentes de Câmara que são do mesmo partido - embora infelizmente ainda exista, sobretudo nas grandes cidades, muita submissão a interesses partidários em vez de aos interesses dos cidadãos. Há autarcas que sabem utilizar bem as novas formas de comunicação para ouvir reivindicações e protestos, a que depois respondem. Se todos os dias estamos mais perto uns dos outros nas redes sociais, como é que depois há autarcas que se fecham numa torre de marfim e não percebem a realidade? São esses que dão má fama à política, são esses que afastam as pessoas do voto. Cada nova eleição é um teste à forma de funcionamento da democracia. Quem está no poder - a nível nacional, municipal ou local, tem especiais responsabilidades na forma como os eleitores se vão comportar. Vai ser interessante estudar onde se verifica maior abstenção. Estas eleições são o melhor termómetro do estado da nação.

 

SEMANADA -  A Covilhã quer posicionar-se como o maior produtor de pêssegos do país; a Câmara de Cascais está a ser investigada por ter aprovado a transformação de terrenos agrícolas numa área urbana na zona de Birre; um estudo da Marktest quantifica em 2 milhões e 987 mil o número de portugueses que referem ter consumido vinho do Porto nos últimos 12 meses, o que representa 36.2% dos residentes no Continente com 18 e mais anos; em 2017 o volume de vinho produzido vai atingir  6,6 milhões de hectolitros, mais 10% que no ano passado e o maior potencial de subida está no Douro e no Dão, enquanto o Alentejo será batido pela região de Lisboa; o consumo de cerveja em Portugal no primeiro semestre aumentou 10% em termos homólogos, o que a manter-se este ritmo levará 2017 a ser "o ano com os maiores crescimentos da última década"; no último ano cerca de três milhões de lares consumiram cerveja em casa, o que representa 76% de aumento em relação ao período homólogo; o estudo Bareme Rádio da Marktest quantifica, no primeiro semestre de 2017, em 6 milhões e 646 mil o número de residentes no Continente que ouviram rádio numa base semanal, o que corresponde a 77.6% dos residentes no Continente com 15 e mais anos; em termos médios cada português ouviu, ao longo do semestre, 3 horas e 7 minutos de rádio por dia; o consumo médio de televisão anda nas cinco horas e 28 minutos por dia e por telespectador; na mesma semana deram grandes entrevistas Marcelo Rebelo de Sousa e Eduardo Lourenço - gostei mais desta última.

 

ARCO DA VELHA - Trump tomou posse há pouco mais de 190 dias e a Casa Branca já registou 17 baixas, entre despedimentos e pedidos de demissão. Anthony Scaramucci só ocupou o cargo durante 10 dias.

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FOLHEAR - Como tem acontecido, desde 2015, chega-se a esta altura do ano e a Monocle edita “The Escapist”, que se apresenta como “uma publicação sobre locais menos conhecidos”. Chega o Inverno e sairá “The Forecast”, que se dedica a adivinhar tendências futuras. “The Escapist” é mais hedonista, completamente dedicada aos prazeres estivais - é afinal o assumido guia anual proposto pela Monocle sobre os locais onde deve ir descansar, fazer compras, jantar e preguiçar enquanto estiver de férias.  Mas há uma novidade este ano - a “Monocle” junta a “The Escapist”, a partir da próxima semana, uma publicação em formato de jornal, com 48 páginas, “ The Monocle Summer Weekly” que irá ter quatro edições ao longo do mês de Agosto. Tyler Brulé mantém-se fiel à sua convicção de que nada substitui o papel impresso quando o produto é feito com qualidade, rigor e ambição. Nesta edição “The Escapist” propõe a descoberta dos tesouros da arquitectura modernista em Columbus, Indiana, nos Estados Unidos, um cruzeiro no Reno, uma visão optimista da capital romena, Bucareste ou locais mais recônditos como Tottori, no Japão, Canguu (no Bali), Broome (Austrália) ou ainda Semmering, um refúgio nas montanhas da Áustria, cheio de memórias do final do século XIX. E um destaque a Portugal - esta edição inclui a lista dos 100 melhores restaurantes, segundo a equipa da Monocle, e o primeiro lugar foi arrebatado pelo Bistro 100 Maneiras do chef Ljubomir Stanisic. O segundo lugar foi para um restaurante em Tóquio, o terceiro para um em Nova Iorque, enquanto o quarto lugar foi para o incontornável “The River Café” de Londres e o quinto para um em Melbourne, na Austrália. E o Porto também teve prémio - o “Taberna dos Mercadores”, na Ribeira, aparece na 41ª posição.

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VER - Com a maior parte das galerias em ritmo de Agosto, sem grandes exposições a abrir, o destaque vai para a nova mostra no British Bar, na série de pequenas exposições nas montras do local, organizadas por Pedro Cabrita Reis. Todas as últimas sextas feiras de cada mês renova-se a escolha e a que entrou na semana passada mostra obras de Francisco Queirós, Pedro Barateiro e Lourdes Castro - trata-se da quarta ronda de artistas convidados a expor no Cais do Sodré nesta iniciativa que conjuga um belíssimo bar com a arte contemporânea portuguesa - iniciativa única, gratuita e pública, numa cidade tão percorrida por turistas. Pedro Calapez expõe desde este fim de semana até final de Setembro um conjunto de obras recentes (na imagem) na Galeria Maior, em Polença, Mallorca, a maior ilha das Baleares. Outro destaque é a mostra de filmes de animação japoneses do célebre Studio Ghibli, que decorre entre 6 e 27 de Agosto, aos Domingos pelas 18h00 no Museu de Oriente. Se lá for aproveite para descobrir as exposições sobre a Ópera Chinesa ou a exposição de fotografia “Tanto Mundo”, de João Martins Pereira, que até 10 de Setembro mostra 50 retratos feitos na China, Nepal, Butão, Tanzânia, Senegal, Indonésia, Etiópia e Índia. Já agora, se estiverem em Lisboa, não percam no Cinema Ideal, ao Chiado, a partir de 17 de Agosto a exibição de “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” e “As Donzelas de Rochefort”, de Jacques Demy, em cópias digitais restauradas.

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OUVIR - Há qualquer coisa de final dos anos 80 no segundo disco a solo de Chris Baio, o baixista dos Vampire Weekend. “Man Of The World” é uma colecção de canções pop com uma grande utilização de electrónica e com a particularidade de constituírem um almanaque de observações sobre o evoluir da política dos dois lados do Atlântico, desde Trump ao Brexit, passando pelas alterações climatéricas. Tal como “Sunburn”, o seu primeiro EP a solo, de 2012, este “Man Of The World” avança pelo território das pistas de dança, mas é bem melhor que o álbum anterior, “The Names”. Agora Baio atingiu um equilíbrio entre o pop, o techno e as palavras que quer transmitir. “Philosophy”, a canção escolhida para single deste novo trabalho, aborda a falta de comunicação entre as pessoas. E embora todos os temas tenham uma mensagem qualquer que querem veicular, Chris Baio conseguiu fazer um disco que não é aborrecido nem pretensioso. É um disco pop, condimentado com observações sobre o que se passa à sua volta, como é tradição na melhor música pop. E, nesse sentido, é do melhor que tem sido feito em matéria pop nos tempos mais recentes. Disponível no Spotify.

 

PROVAR -  Para esquecer das agruras do atendimento algarvio, nada como revisitar alguns clássicos lisboetas. Hoje falo do regresso estival ao Salsa & Coentros, no 1º dia de Agosto - casa cheia nos dois pisos e na nova esplanada que abriu este ano, a simpatia de sempre do Sr. José Duarte e da sua equipa e uma surpresa: nos pratos do dia estava sopa de beldroegas. Ele há a época da lampreia e do sável, o mês das sardinhas, o tempo da caça. Mas uma das melhores alturas do ano fica a meio do verão, quando as beldroegas estão viçosas, com folhas carnudas e tenras. Agosto é o seu grande mês e encontrar em Lisboa uma sopa de beldroegas  bem feita não fácil - mas o Salsa & Coentros, com a sua dedicação alentejana, trata do assunto e segue à risca a receita recolhida por Maria de Lurdes Modesto: beldroegas frescas e tenras, azeite do melhor, louro, alho, queijo de ovelha ou de cabra, ovos e batatas. A beldroega nasce espontaneamente junto de ribeiras, é oriunda do médio oriente e em Portugal está presente no Alentejo e Algarve. O que se aproveita em termos culinários são as folhas e a parte de cima dos caules, que deve ser cortada em pequenos pedaços. O seu sabor é único. A sopa de beldroegas é originária do Baixo Alentejo e é por si só uma refeição - o queijo é cozido no caldo e o ovo é escalfado. Dizem os entendidos que as propriedade nutricionais da beldroega são extraordinárias - eu acho o seu sabor acima de extraordinário e agradeço ao Salsa & Coentros ter-me dado esta inesperada alegria. Rua Coronel Marques Leitão 12, em Alvalade, telefone 218 410 990 .

 

DIXIT -  É preciso que não estejamos sempre a viver um Ronaldo colectivo, um “nós somos o melhor do mundo” - Eduardo Lourenço, entrevistado por Isabel Lucas.

 

GOSTO - Ana Ventura Miranda vive em Nova Iorque e criou o Arte Institute que já organizou 300 eventos, onde participaram 650 artistas, em 20 países, com o objectivo de divulgar a cultura portuguesa e com uma ínfima parte do que algumas instituições oficiais gastam.

 

NÃO GOSTO - Muito má ideia a destruição do restaurante Gôndola, frente à Gulbenkian, fruto de um negócio de terrenos que envolveu a Câmara Municipal e um Banco.

 

BACK TO BASICS - “O amor é a única doença que nos faz sentir melhor” - Sam Shepard.

 

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publicado às 12:26

OS SEGREDOS DE ESTADO

por falcao, em 28.07.17

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OCULTAÇÕES - Durante uma semana o Estado escondeu informações e, ao contrário daquilo que o Primeiro Ministro afirmava, ainda há muito por esclarecer - basta ver a lista das perguntas feitas por jornalistas do Público a várias entidades, e que não tiveram qualquer resposta. E mais, de outros jornais, hão-de ter sido feitas e ficado sem resposta. Em abono da verdade quem começou o aproveitamento político dos incêndios foi quem condicionou o acesso à informação, quem usou a justiça para sonegar dados, quem evitou esclarecer e quem defendeu a legitimidade do secretismo como o inefável Ministro Santos Silva. Depois de tudo o que aconteceu discutir o número de mortes parece macabro - mas foram as autoridades e quem as comanda, e não a oposição, quem iniciou o jogo. A verdade é que não foi só no cenário da tragédia que o Estado falhou. Ao longo destas semanas tem-se visto que falhou na Comunicação atempada e no esclarecimento cabal da verdade, que qualquer Governo deve aos cidadãos. Há um desagradável manto de silêncio, à espera que o tempo faça esquecer as dúvidas e os erros cometidos. Infelizmente o incêndio de Mação levanta mais dúvidas e questões sobre a coordenação de meios pelas autoridades, a começar pela Proteção Civil. Cresce o somatório de indícios de uma mentalidade de disfarce bem visível na lei da rolha imposta aos bombeiros, factos que mostram como se querem esconder as falhas e os erros no combate às chamas. A Autoridade Nacional de Protecção Civil qualquer dia muda o nome para Autoridade Nacional da Mordaça. E não consigo deixar de pensar que tudo isto, todo este silêncio, tem a ver com nomeações feitas pelo Governo há poucos meses nesta área crítica em época de fogos. Como Luís Paixão Martins escreveu no Facebook, "Tantos Media, tanta informação, tantos diretos. E ainda não sabemos o que se passou no incêndio de Pedrógão nem no furto de Tancos. É a época da ilusão da Comunicação". Termino citando um texto ,admirável, um testemunho de Nádia Piazza, mãe de uma criança de cinco anos que morreu em Pedrógão Grande, que o Público divulgou Domingo:"Assim se vai governando Portugal. Sem pactos de regime e visão a longo prazo. Vão-se puxando o tapete uns aos outros, não se apercebendo que, por fim, só restam cacos, dor, e tristeza para governar (...) O Estado não protegeu a sua Nação. Não assegurou o seu território e com ele o seu Povo. Fomos vítimas desta ausência insuportável de Estado".

 

SEMANADA - O número de pedidos de novos cursos enviados por universidades e institutos politécnicos no último ano lectivo foi o mais baixo desde 2009; as esperas de mais de uma hora de turistas estrangeiros para entrar no aeroporto de Lisboa subiram 500% este ano; estão a vender-se mais 26 casas por dia do que em 2010, o ano que até agora registava o número mais elevado de transacções imobiliárias; dez deputados do PS e PSD estiveram o último ano sem abrir a boca nas sessões plenárias do Parlamento; o Governo prevê gastar 700 milhões de euros em armas e equipamentos para as Forças Armadas; pelo segundo ano consecutivo, o Bloco de Esquerda foi o partido com mais diplomas aprovados no Parlamento; nos últimos dez anos pelo menos 492 pessoas suicidaram-se em Portugal nas linhas de comboios; pastores da Serra da Estrela estão a preparar um calendário sexy para 2018; mais de 1.600 estrangeiros foram impedidos de entrar em Portugal no ano passado por não reunirem as condições legais, o que significa um aumento de quase 29% em relação a 2015, revela o SEF; ainda segundo o SEF no ano passado foram emitidos quase 45 mil novos títulos de residência a estrangeiros; a investigação de crimes de corrupção demora em média cerca de quatro anos; este ano estão a registar-se, em média, mais 34 crimes por dia do que em igual período do ano passado.

 

ARCO DA VELHA - A Secretária Geral do Sistema de Segurança Interna só tomou conhecimento do desaparecimento de material de guerra em Tancos através das notícias divulgadas pela comunicação social no dia seguinte ao assalto - "ler jornais é saber mais", como diz o Bartoon de Luís Afonso.

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FOLHEAR - "Lisboa Em Camisa" é um divertido livro, originalmente publicado em 1882, e que retrata as peripécias de uma família oriunda do Algarve, os Antunes, na Lisboa no final do século XIX. Antunes, o chefão da família, faz carreira no funcionalismo público, entre Conselheiros e Chefes de Repartição, tudo muito burocraticamente organizado, no meio de muitos salamaleques. A família vive na Rua dos Fanqueiros, a um passo do Terreiro do Paço, na época o indiscutível centro burocrático de Portugal. O autor, Gervásio Lobato, jornalista e romancista, tem um humor notável e é um certeiro observador de usos e costumes, sobre os quais ironiza com elegância. Ao ler o livro encontramos o retrato de uma Baixa que já não existe, de lojas que fizeram época, de mercearias a chapelarias, uma Lisboa ainda sem transportes públicos onde o precursor dos eléctricos, um veículo puxado a mulas e que dava pela designação de "americano", levava os lisboetas até à praia, a Pedrouços. O livro desenvolve-se à volta do baptizado de um filho do casal Antunes, um evento que terá repercussões, uma delas uma récita teatral. É impossível não ler este livro, e as suas muitas e divertidas cenas,  sem pensar que António Lopes Ribeiro e seu irmão Francisco Ribeiro, "Ribeirinho", se devem ter cruzado com estas leituras quando preparavam alguns dos seus filmes que fizeram uma época do cinema português. Imperdível leitura de verão para nos fazer rir sobre as origens da burocracia e dos costumes que ainda perduram. Edição Guerra & Paz.

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VER - Se quiser ver arte contemporânea fora de Lisboa pode, a partir de agora, dirigir-se a Abrantes onde, num antigo quartel de bombeiros recuperado, passou a estar exposta a coleção Figueiredo Ribeiro. O quARTel, assim se chama este equipamento , será no futuro o centro de arte que vai acolher o acervo desta coleção, composta por mais de um milhar de obras de arte abrangendo diversas áreas da criação artística, como o desenho (muito representativo), pintura, escultura, instalação e fotografia. Esta exposição inaugural, intitulada “Ponto de Partida" apresenta uma escolha de autores e obras muito representativos da arte contemporânea portuguesa como Carlos Correia, Cristina Ataíde (na imagem), Duarte Amaral Netto, Edgar Martins, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Rui Calçada Bastos, Rui Chafes, entre outros. Até 29 de Setembro, Rua de Santa Ana 10, Abrantes. Outra sugestão, mais urbana - o Lisboa Stone Crushers quer pôr em evidência a criação artística ligada ao universo do skate com exposições a ter lugar na Underdogs Public Art Store + Montana Lisboa e que reúne obras de diferentes artistas convidados a intervir em tábuas de skate.

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OUVIR - "Dança Ma Mi criola" foi o primeiro disco de Tito Paris, editado em 1995. Duas décadas depois, e após quase 15 anos sem publicar um disco de originais, ei-lo que regressa com "Mim Ê Bô". São treze temas, três dos quais gravados com Bana, Boss AC e Zeca Baleiro. "Mim ê bô" é uma expressão crioula que significa "eu sou tu". A música e os ritmos de Cabo Verde estão bem presentes nestes temas, que no entanto evocam também o cruzamento com os ritmos urbanos e europeus de Lisboa, onde Tito Paris reside habitualmente. Nascido no Mindelo em 1963, Aristides Paris de seu nome, começou a tocar cedo em Cabo Verde, primeiro bateria e violão, ao lado de Bana, com quem deu os primeiros passos em concertos e digressões. A morna "Resposta de segredo cu mar", de B. Leza, foi um dos primeiros temas que cantou, mas só agora o gravou. Tito Paris tem também produzido e feito arranjos para discos de outros músicos e isso explica o cuidado posto na produção deste seu novo álbum, o recurso a mais instrumentos de cordas, ao acordeão, e até a uma pequena orquestra como em "Kêl li ka tá fazedo", um funaná em que Tito Paris substituiu a gaita por orquestra. Em "Fado triste" o músico fala de Cabo Verde, da saudade da sua terra natal, dos objetos que tinha no seu quarto no Mindelo, mas fala também de Lisboa, cidade para onde veio viver com 19 anos, a convite de Bana. Para além do funaná, os ritmos da coladeira e da morna estão também patentes neste álbum em temas como "Mim ê bô, e "Mindel d´Novas". Disponível no Spotify.

 

PROVAR -  O Algarve de finais de Julho é outra coisa. Comparando com o que se passa em Agosto, há menos gente nas praia e, claro, nos restaurantes. Santa Luzia, perto de Tavira, é uma das praias da zona da Ria Formosa, conhecida como a capital do polvo. Na sua marginal existem numerosos restaurantes e vários especializados no octópode. Dois deles, lado a lado, reclamam para si o título do melhor na confecção do bicho. Em ocasião anterior tinha visitado a Casa do Polvo, de que gostei, e desta vez fui ao lado, ao Polvo & Companhia, e não me arrependi. A Casa do Polvo é mais tradicional no menu, o Polvo & Companhia é mais atrevido nas propostas. Para começar veio um carpaccio de polvo, muitíssimo bem cortado e temperado. E depois veio uma paella de polvo e marisco, muito bem servida e cozinhada. Farta e abundante em diversas espécies, os tentáculos do polvo estavam tenros e os nacos que polvilhavam a paella, ao lado de mexilhões, camarões e berbigão, estavam temperados de forma aprimorada. Cabe ainda dar muito boa nota ao serviço, sempre bem disposto e eficaz, mesmo já tarde na noite. Um contraste absoluto com um afamado restaurante de Cabanas de Tavira, Noélia e Jerónimo, onde a arrogância dos empregados, face à elevada procura do local, ultrapassa tudo o que já vi, chegando mesmo a destratar pessoas que só queriam saber se o nome estava na lista de candidatos a uma mesa. Local a evitar este Noélia e Jerónimo, não há cozinha que justifique más-criações. Um dia hão-de querer clientes e não os hão-de ter.

 

DIXIT -  “Gostamos dos idiotas porque não nos põem em causa” - António Lobo Antunes

 

GOSTO - Da recuperação do Pavilhão de Portugal, de Siza Vieira, para ser utilizado pela Universidade de Lisboa como pólo de difusão do conhecimento.

 

NÃO GOSTO - O SIRESP voltou a falhar nos incêndios da Sertã e Castelo Branco.

 

BACK TO BASICS - "Não há elegância na política moderna. É um inferno" - House of Cards, 5a temporada.

 

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publicado às 12:16

ABSTENÇÃO, ELEIÇÕES & LIBERDADE

por falcao, em 21.07.17

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ABSTENÇÃO - A pré-campanha das autárquicas está a ser um retrato do estado da nação. Em Lisboa a candidata do PSD fez um cartaz que só pode ser interpretado como um pedido de um cheque em branco; também em Lisboa a Câmara está a ser investigada por autorizações urbanísticas dadas por Manuel Salgado e Medina já se confessa desistente de manter a maioria absoluta; em Loures o candidato da coligação CDS - PSD fez afirmações polémicas sobre os ciganos e afirmava-se tranquilo sobre o apoio dos partidos que o indicaram - mas o CDS saíu da coligação, ficou o PSD sozinho com a polémica; no Porto, Manuel Pizarro, o iô-iô autárquico local do PS, faz promessas mirabolantes esbracejando pelas ruas, numa passeata ao lado de um António Costa tranquilo. A procissão eleitoral ainda vai no adro, mas percorrer as rotundas de cidades e vilas já proporciona um catálogo de tesourinhos deprimentes que parecem todos saídos de cartazes de uma empresa imobiliária, cada um com um slogan e promessas de bradar aos céus. Não admira que, como diz Manuel Villaverde Cabral, apesar “da enxurrada de demagogia feita à volta do chamado «poder local», a abstenção eleitoral tem sido mais alta ainda nas autárquicas do que nas legislativas”. Nas autárquicas de 2013 a abstenção foi de 47,4%, nas legislativas de 2015 foi de 44%, número apenas ultrapassado pelas presidenciais de 2016, com 51,3% de abstenção. Citando ainda Villaverde Cabral, “há muito tempo que Portugal se tornou no país da abstenção como o maior partido”. Este ano o cenário poderá ser ainda pior. Vai sendo tempo de o Presidente, os partidos e os autarcas tirarem lições de tudo isto - mas tal parece cada vez mais fora dos seus interesses e prioridades. O mesmo é dizer que a opinião dos cidadãos só interessa quando lhes dá jeito.

 

SEMANADA - As salas de cinema registaram mais de 7,9 milhões de espectadores no primeiro semestre, mais um milhão que no mesmo período do ano passado; “Velocidade Furiosa 8” foi o filme recordista com 786 mil espectadores e “Jacinta” foi o filme português mais visto, com 45 mil espectadores; Matosinhos é o concelho do país no qual as salas de cinema têm maior média de espectadores por sessão; desde 2011 têm sido desligadas 280 máquinas de multibanco por ano e entre 2011 e 2016 fecharam 1620 balcões de bancos; no segundo trimestre deste ano as compras realizadas com cartões de débito ou de crédito totalizaram mais mil milhões de euros que em igual período do ano passado; este ano o Turismo criou tanto emprego em Abril como em todo o ano passado; o SIRESP voltou a falhar no incêndio de Alijó; no espaço de um ano Portugal perdeu um terço dos bombeiros; o Governo deu instruções para que os comandantes dos bombeiros deixem de dar informações à imprensa; a administração central não divulga 85% das compras de produtos ou serviços que efectua, e o ajuste directo continua a ser principal opção de aquisição; os gastos do Estado com as parcerias público-privadas aumentaram 39 milhões de euros num ano; o conjunto de gastos com veículos automóveis, desde a compra à manutenção, passando pelos combustíveis, rende ao estado 23 milhões de euros por dia em impostos; na última década as famílias portuguesas cortaram em restaurantes, hotéis, cultura e lazer para equilibrar as subidas verificadas na habitação, luz, gás, água e ensino; o orçamento familiar é 232 euros mais caro em Lisboa que a média nacional.

 

ARCO DA VELHA - O fabrico de petardos cada vez mais pequenos, com poucos centímetros, tem permitido que cada vez mais adeptas dos principais clubes entrem com esses artefactos explosivos escondidos nas partes íntimas.

 

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FOLHEAR - Tenho seguido a existência da revista Elsewhere desde o seu número um, no primeiro semestre de 2015. Durante dois anos a Elsewhere publicou semestralmente, a partir de uma operação de crowdfunding que lhe deu vida durante essas primeiras quatro edições. O formato é 16x23, 82 páginas. Os textos são relativamente curtos, tem existido pelo menos um portfolio fotográfico por número e muitos dos artigos de viagem são acompanhados de magníficas ilustrações em desenho feitas expressamente para a ocasião. A Elsewhere nasceu em Berlim pela mão de Paul Scraton e Julia Stone, que são responsáveis por vários textos publicados ao longo da vida da revista . É assumidamente uma actividade extra em relação às actividades profissionais que ambos desenvolvem. A Elsewhere intitula-se “ A Journal of Place” - não é uma publicação sobre viagens no conceito habitual, é mais uma evocação de sentimentos e sensações que os lugares visitados deixam nos visitantes. Não esperem reportagens,  vão encontrar impressões. Nas primeiras quatro edições não havia um tema fixo orientador, a diversidade de  locais, como a Madeira, no número 4, era o lema. A partir deste número 5, que agora foi publicado, no início de Julho, passa a existir um tema por edição, e o primeiro é “Transition”. “A transição tem a ver com o movimento, com a natureza da viagem, e assim sendo com o conceito de casa, de origem e de identidade. De certa forma estes sempre foram os temas da Elsewhere e, de alguma maneira,  a ideia da transição moldou, pelo menos em parte, a revista desde o seu início” - escrevem Paul Scraton e Julia Stone no editoral. Locais: São Francisco, Cáceres, Tblisi, Melbourne, e Irlanda, entre outros. O ensaio fotográfico é sobre as ilhas Faroe. Se quiser saber mais consulte o blog, que é actualizado regularmente - www.elsewhere-journal.com/blog/

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VER - Até 15 de Setembro pode ver na Biblioteca Nacional uma deliciosa exposição intitulada “Jazz em Portugal: 100 anos de txim, txim, txim, pó,pó,pó,pó”, comissariada por João Moreira dos Santos, autor de sete livros sobre a história deste género musical em terras lusas. Os primeiros ecos de jazz terão chegado em 1916/17 e ganharam adeptos como Ferreira de Castro, Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Cottinelli Telmo, António Ferro, António Lopes Ribeiro e Fernando Curado Ribeiro. A imagem que aqui se reproduz evoca a primeira jam session pública de que há registo, realizada em Lisboa, em 1948 no Café Chave de Ouro. São exibidas várias fotografias inéditas (como a de Duke Ellington com Eusébio), exemplos da presença do jazz nas bandas sonoras de filmes portugueses dos anos 20 e 30, o primeiro disco de jazz gravado por músicos portugueses em 1957, entre muitos outros documentos como capas de revistas e publicações diversas. Imperdível. Outras sugestões: no Palácio Pimenta, e no âmbito da programação de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017, estão expostas máscaras e devoções mexicanas aob a designação “Do Carnaval À Luta Livre”; na Fundação Carmona e Costa, até 29 de Julho, ainda pode ver “Missão Fria”, de Pedro Casqueiro (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1, 6º); e a sul, no Centro Cultural de Lagos, de dia 22 até meados de Outubro, Sofia Areal expõe pintura, desenho, obra gráfica e tapeçarias.

 

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OUVIR - Quatro músicos de jazz, Jack DeJohnette (bateria), Larry Grenadier (baixo), John Medeski (teclas) e John Scofield (guitarra), juntaram-se para prestarem homenagem a uma paixão comum - o rock dos anos 60. Vai daí criaram o projecto Hudson, agora editado. O álbum inclui dois temas de Dylan (“Lay Lady Lay” e uma versão de nove minutos, fantástica, de “A Hard Rain’s Gonna Fall”), “Woodstock” de Joni Mitchell, “Wait Until Tomorrow” de Jimi Hendrix, “Up On Cripple Creek” de The Band e ainda diversos originais dos membros do grupo. O álbum arranca com “Hudson”, um original de 12 minutos de John Scofield, que faz lembrar a época de “Bitches Brew”, de Miles Davis - não por acaso Scofield integrou o grupo de Davis nessa época, o que também se nota no outro tema que assina, “Tony, Then Jack”. “Dirty Ground” é um tema de Jack DeJohnette, onde o baterista também canta num registo de blues. O que é mais curioso neste disco é a forma como quatro nomes do jazz, de diferentes gerações, se cruzam em torno da evocação de canções que se tornaram standards da música dos anos 60 e, nas composições próprias que apresentam, acabam por reflectir o espírito da época, como por exemplo em  “Song for World Forgiveness” e “Great Spirit Peace Chant”. Mas de facto o momento alto é mesmo a versão de “A Hard Rain’s Gonna Fall”, captando o espírito com que Dylan compôs e interpretou a canção, desafiando a noção clássica de canção e de ritmo.  Álbum disponível no Spotify.



PROVAR -   A espelta, também conhecida por trigo vermelho, é um cereal que durante anos caíu em desuso, mas a sua utilização cresceu nos últimos anos ligada às investigações sobre uma alimentação saudável. A espelta é rica em fibras e vitaminas do complexo de B e tem a presença de diversos minerais como cobre, magnésio, fósforo e, principalmente, ferro. É também conhecida por seu alto teor de proteínas. Além disso, por possuir pouca quantidade de glúten, o grão é de mais fácil digestão. Normalmente utilizo o pão de espelta fabricado pela Miolo, mas há pouco tempo descobri numa loja Celeiro o pão de espelta integral elaborado pela Pachamama (nome que evoca uma deusa Inca), num processo de fermentação lenta durante 24 horas e que, além da farinha leva apenas água filtrada e sal marinho. É mais leve que o da Miolo (que é mais denso), e igualmente saboroso - aparentemente o processo de fermentação lenta torna o pão mais digestivo e com menor indíce glicémico. Além da espelta integral simples existem as variedades com curcuma e pimenta preta, centeio integral, trigo duro e centeio integral.  

 

DIXIT -  “A direita tem um problema de liderança, de caras, de quadros, de ausência de ideias, de estratégia” - Nuno Garoupa.

 

GOSTO - Rita Red Shoes fez uma magnífica actuação ao vivo na abertura do EDP cooljazz, com uma banda e arranjos surpreendentes, até num clássico de Nina Simone.

 

NÃO GOSTO - Winnie the Pooh, o urso amarelo da banda desenhada, foi banido da internet chinesa por se parecer com o Presidente XiJinping.

 

BACK TO BASICS - “A liberdade é o direito de dizermos às pessoas aquilo que elas não querem ouvir” - George Orwell

 

 

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publicado às 13:31

ABSTENÇÃO, ELEIÇÕES & LIBERDADE

por falcao, em 21.07.17

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ABSTENÇÃO - A pré-campanha das autárquicas está a ser um retrato do estado da nação. Em Lisboa a candidata do PSD fez um cartaz que só pode ser interpretado como um pedido de um cheque em branco; também em Lisboa a Câmara está a ser investigada por autorizações urbanísticas dadas por Manuel Salgado e Medina já se confessa desistente de manter a maioria absoluta; em Loures o candidato da coligação CDS - PSD fez afirmações polémicas sobre os ciganos e afirmava-se tranquilo sobre o apoio dos partidos que o indicaram - mas o CDS saíu da coligação, ficou o PSD sozinho com a polémica; no Porto, Manuel Pizarro, o iô-iô autárquico local do PS, faz promessas mirabolantes esbracejando pelas ruas, numa passeata ao lado de um António Costa tranquilo. A procissão eleitoral ainda vai no adro, mas percorrer as rotundas de cidades e vilas já proporciona um catálogo de tesourinhos deprimentes que parecem todos saídos de cartazes de uma empresa imobiliária, cada um com um slogan e promessas de bradar aos céus. Não admira que, como diz Manuel Villaverde Cabral, apesar “da enxurrada de demagogia feita à volta do chamado «poder local», a abstenção eleitoral tem sido mais alta ainda nas autárquicas do que nas legislativas”. Nas autárquicas de 2013 a abstenção foi de 47,4%, nas legislativas de 2015 foi de 44%, número apenas ultrapassado pelas presidenciais de 2016, com 51,3% de abstenção. Citando ainda Villaverde Cabral, “há muito tempo que Portugal se tornou no país da abstenção como o maior partido”. Este ano o cenário poderá ser ainda pior. Vai sendo tempo de o Presidente, os partidos e os autarcas tirarem lições de tudo isto - mas tal parece cada vez mais fora dos seus interesses e prioridades. O mesmo é dizer que a opinião dos cidadãos só interessa quando lhes dá jeito.

 

SEMANADA - As salas de cinema registaram mais de 7,9 milhões de espectadores no primeiro semestre, mais um milhão que no mesmo período do ano passado; “Velocidade Furiosa 8” foi o filme recordista com 786 mil espectadores e “Jacinta” foi o filme português mais visto, com 45 mil espectadores; Matosinhos é o concelho do país no qual as salas de cinema têm maior média de espectadores por sessão; desde 2011 têm sido desligadas 280 máquinas de multibanco por ano e entre 2011 e 2016 fecharam 1620 balcões de bancos; no segundo trimestre deste ano as compras realizadas com cartões de débito ou de crédito totalizaram mais mil milhões de euros que em igual período do ano passado; este ano o Turismo criou tanto emprego em Abril como em todo o ano passado; o SIRESP voltou a falhar no incêndio de Alijó; no espaço de um ano Portugal perdeu um terço dos bombeiros; o Governo deu instruções para que os comandantes dos bombeiros deixem de dar informações à imprensa; a administração central não divulga 85% das compras de produtos ou serviços que efectua, e o ajuste directo continua a ser principal opção de aquisição; os gastos do Estado com as parcerias público-privadas aumentaram 39 milhões de euros num ano; o conjunto de gastos com veículos automóveis, desde a compra à manutenção, passando pelos combustíveis, rende ao estado 23 milhões de euros por dia em impostos; na última década as famílias portuguesas cortaram em restaurantes, hotéis, cultura e lazer para equilibrar as subidas verificadas na habitação, luz, gás, água e ensino; o orçamento familiar é 232 euros mais caro em Lisboa que a média nacional.

 

ARCO DA VELHA - O fabrico de petardos cada vez mais pequenos, com poucos centímetros, tem permitido que cada vez mais adeptas dos principais clubes entrem com esses artefactos explosivos escondidos nas partes íntimas.

 

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FOLHEAR - Tenho seguido a existência da revista Elsewhere desde o seu número um, no primeiro semestre de 2015. Durante dois anos a Elsewhere publicou semestralmente, a partir de uma operação de crowdfunding que lhe deu vida durante essas primeiras quatro edições. O formato é 16x23, 82 páginas. Os textos são relativamente curtos, tem existido pelo menos um portfolio fotográfico por número e muitos dos artigos de viagem são acompanhados de magníficas ilustrações em desenho feitas expressamente para a ocasião. A Elsewhere nasceu em Berlim pela mão de Paul Scraton e Julia Stone, que são responsáveis por vários textos publicados ao longo da vida da revista . É assumidamente uma actividade extra em relação às actividades profissionais que ambos desenvolvem. A Elsewhere intitula-se “ A Journal of Place” - não é uma publicação sobre viagens no conceito habitual, é mais uma evocação de sentimentos e sensações que os lugares visitados deixam nos visitantes. Não esperem reportagens,  vão encontrar impressões. Nas primeiras quatro edições não havia um tema fixo orientador, a diversidade de  locais, como a Madeira, no número 4, era o lema. A partir deste número 5, que agora foi publicado, no início de Julho, passa a existir um tema por edição, e o primeiro é “Transition”. “A transição tem a ver com o movimento, com a natureza da viagem, e assim sendo com o conceito de casa, de origem e de identidade. De certa forma estes sempre foram os temas da Elsewhere e, de alguma maneira,  a ideia da transição moldou, pelo menos em parte, a revista desde o seu início” - escrevem Paul Scraton e Julia Stone no editoral. Locais: São Francisco, Cáceres, Tblisi, Melbourne, e Irlanda, entre outros. O ensaio fotográfico é sobre as ilhas Faroe. Se quiser saber mais consulte o blog, que é actualizado regularmente - www.elsewhere-journal.com/blog/

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VER - Até 15 de Setembro pode ver na Biblioteca Nacional uma deliciosa exposição intitulada “Jazz em Portugal: 100 anos de txim, txim, txim, pó,pó,pó,pó”, comissariada por João Moreira dos Santos, autor de sete livros sobre a história deste género musical em terras lusas. Os primeiros ecos de jazz terão chegado em 1916/17 e ganharam adeptos como Ferreira de Castro, Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Cottinelli Telmo, António Ferro, António Lopes Ribeiro e Fernando Curado Ribeiro. A imagem que aqui se reproduz evoca a primeira jam session pública de que há registo, realizada em Lisboa, em 1948 no Café Chave de Ouro. São exibidas várias fotografias inéditas (como a de Duke Ellington com Eusébio), exemplos da presença do jazz nas bandas sonoras de filmes portugueses dos anos 20 e 30, o primeiro disco de jazz gravado por músicos portugueses em 1957, entre muitos outros documentos como capas de revistas e publicações diversas. Imperdível. Outras sugestões: no Palácio Pimenta, e no âmbito da programação de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017, estão expostas máscaras e devoções mexicanas aob a designação “Do Carnaval À Luta Livre”; na Fundação Carmona e Costa, até 29 de Julho, ainda pode ver “Missão Fria”, de Pedro Casqueiro (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1, 6º); e a sul, no Centro Cultural de Lagos, de dia 22 até meados de Outubro, Sofia Areal expõe pintura, desenho, obra gráfica e tapeçarias.

 

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OUVIR - Quatro músicos de jazz, Jack DeJohnette (bateria), Larry Grenadier (baixo), John Medeski (teclas) e John Scofield (guitarra), juntaram-se para prestarem homenagem a uma paixão comum - o rock dos anos 60. Vai daí criaram o projecto Hudson, agora editado. O álbum inclui dois temas de Dylan (“Lay Lady Lay” e uma versão de nove minutos, fantástica, de “A Hard Rain’s Gonna Fall”), “Woodstock” de Joni Mitchell, “Wait Until Tomorrow” de Jimi Hendrix, “Up On Cripple Creek” de The Band e ainda diversos originais dos membros do grupo. O álbum arranca com “Hudson”, um original de 12 minutos de John Scofield, que faz lembrar a época de “Bitches Brew”, de Miles Davis - não por acaso Scofield integrou o grupo de Davis nessa época, o que também se nota no outro tema que assina, “Tony, Then Jack”. “Dirty Ground” é um tema de Jack DeJohnette, onde o baterista também canta num registo de blues. O que é mais curioso neste disco é a forma como quatro nomes do jazz, de diferentes gerações, se cruzam em torno da evocação de canções que se tornaram standards da música dos anos 60 e, nas composições próprias que apresentam, acabam por reflectir o espírito da época, como por exemplo em  “Song for World Forgiveness” e “Great Spirit Peace Chant”. Mas de facto o momento alto é mesmo a versão de “A Hard Rain’s Gonna Fall”, captando o espírito com que Dylan compôs e interpretou a canção, desafiando a noção clássica de canção e de ritmo.  Álbum disponível no Spotify.



PROVAR -   A espelta, também conhecida por trigo vermelho, é um cereal que durante anos caíu em desuso, mas a sua utilização cresceu nos últimos anos ligada às investigações sobre uma alimentação saudável. A espelta é rica em fibras e vitaminas do complexo de B e tem a presença de diversos minerais como cobre, magnésio, fósforo e, principalmente, ferro. É também conhecida por seu alto teor de proteínas. Além disso, por possuir pouca quantidade de glúten, o grão é de mais fácil digestão. Normalmente utilizo o pão de espelta fabricado pela Miolo, mas há pouco tempo descobri numa loja Celeiro o pão de espelta integral elaborado pela Pachamama (nome que evoca uma deusa Inca), num processo de fermentação lenta durante 24 horas e que, além da farinha leva apenas água filtrada e sal marinho. É mais leve que o da Miolo (que é mais denso), e igualmente saboroso - aparentemente o processo de fermentação lenta torna o pão mais digestivo e com menor indíce glicémico. Além da espelta integral simples existem as variedades com curcuma e pimenta preta, centeio integral, trigo duro e centeio integral.  

 

DIXIT -  “A direita tem um problema de liderança, de caras, de quadros, de ausência de ideias, de estratégia” - Nuno Garoupa.

 

GOSTO - Rita Red Shoes fez uma magnífica actuação ao vivo na abertura do EDP cooljazz, com uma banda e arranjos surpreendentes, até num clássico de Nina Simone.

 

NÃO GOSTO - Winnie the Pooh, o urso amarelo da banda desenhada, foi banido da internet chinesa por se parecer com o Presidente XiJinping.

 

BACK TO BASICS - “A liberdade é o direito de dizermos às pessoas aquilo que elas não querem ouvir” - George Orwell

 

 

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publicado às 13:30

MILITÂNCIA, PARTIDOS & AUTÁRQUICAS

por falcao, em 14.07.17

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MILITÂNCIAS - As eleições locais eram supostas significar um momento de aproximação das pessoas com a política, nomeadamente através dos partidos, que são supostos serem a forma organizada de proporcionar a participação cívica dos cidadãos no governo da sociedade. Teoricamente os partidos reflectem as preocupações das pessoas, de acordo com o respectivo posicionamento ideológico analisam a realidade, propõem soluções e apresentam programas de acção que serão um guia para os seus eleitos. Agora digam-me lá: onde é que isto se passa? Onde é que estão escritas, em programa eleitoral, as profundas alterações a que Lisboa tem sido submetida nos últimos dois anos? Comportamentos partidários como os que assistimos - executar políticas não referendadas e abdicar de tomar posição - foram as duas linhas de acção das duas principais forças eleitas nas anteriores autárquicas, em Lisboa. Comportamentos assim são a semente do descrédito nos políticos e nos partidos e são um incentivo ao surgimento de candidaturas independentes. Mas, tudo indica que, ao contrário do que se passa no Porto, não existirá em Lisboa nenhum candidato independente. É pena porque com o desagrado de tantos votantes do PS e do PSD pelo comportamento dos candidatos destes partidos, Fernando Medina e Teresa Coelho, esta seria uma boa oportunidade para mudar de rumo. Lisboa vai continuar presa na teia dos aparelhos e interesses partidários, os seus habitantes relegados para segundo plano.

 

SEMANADA - O Presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia, António Ramos, diz que para manter a ordem pública é sempre necessário cometer excessos; este ano já foram detidos seis vezes mais incendiários que no ano passado; entre 2013 e 2016 morreram 89 pessoas na rede ferroviária e no ano passado registaram-se mais 31 por cento de acidentes mortais que em 2015; a polícia apreende seis armas de fogo por dia; o roubo de armas em Tancos proporcionou, segundo a Marktest, 152 notícias e 5 horas e meia de emissão nas estações de televisão; ainda segundo a Marktest, em Junho, António Costa, liderou o tempo de exposição televisiva, com 200 notícias que ocuparam 10 horas e 23 minutos;  Marcelo Rebelo de Sousa, foi segundo, com 188 notícias, num total de 9 horas e 49 minutos; na terceira posição ficou Constança Urbano de Sousa, com 53 notícias com o tempo total de 3 horas e 16 minutos; Pedro Passos Coelho foi quarto, tendo estado perante os ecrãs por 2 hora e 57 minutos, repartidos por 70 notícias;  Catarina Martins ocupou o quinto lugar, com 64 notícias de 2 horas e 30 minutos de duração; o tráfego nas auto-estradas regressou aos níveis pré-troika com uma média diária ponderada de 16.447 veículos a circular.

 

ARCO DA VELHA - O Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, Luis Montenegro, já invocou “trabalho político” em pelo menos duas ocasiões em que faltou à Assembleia da República e foi assistir a jogos da selecção portuguesa no estrangeiro.

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FOLHEAR - Volta e meia o tema do populismo na política portuguesa volta à baila - nomeadamente porque aqui, ao contrário do que aconteceu em Itália, França, Espanha, Venezuela ou Estados Unidos, o fenómeno é quase irrelevante. Há quem diga que a geringonça desarticulou os putativos populistas, há quem diga que os proverbiais brandos costumes lusitanos são terreno pouco fértil para tais aventuras. O fenómeno do populismo tem criado novas forças políticas, tem influenciado eleições, proporcionado votações inesperadas. Jan-Werner Muller é Professor de Política na Universidade de Princeton e tem-se dedicado a estudar a evolução das ideias políticas. “O Que É O Populismo” é a sua mais recente obra, um original de 2016, agora editado em Portugal pela Texto. “Todos os populistas contrapõem “o povo” a uma elite corrupta e interesseira” - escreve o autor no prefácio, sublinhando: “o que realmente distingue um populista é a sua reivindicação de que ele e só ele representa o verdadeiro povo”. Em cerca de 100 páginas Muller analisa o discurso dos populistas, estuda como se comportam quando no poder, especula sobre as melhores formas de lidar com o fenómeno e culmina com aquilo a que chama “sete teses sobre o populismo” que só por si valem o livro. Leitura recomendadíssima para os tempos que correm.

 

crédito_Fernando Guerra. Richter Dahl Rocha & Ass

VER - A fotografia de arquitectura pode ser um postal ilustrado, sem graça, ou uma mera ilustração passiva do trabalho de arquitectos; ou então pode ser um olhar agudo e criativo sobre a própria obra arquitectónica - e é isso que o trabalho do fotógrafo Fernando Guerra mostra de forma clara (na imagem). O espaço “Garagem Sul” do CCB acolhe até 7 de Outubro a exposição “Raio X de Uma Prática Fotográfica”  que percorre a carreira de Fernando Guerra, um arquitecto que abdicou do estirador e passou a usar a máquina fotográfica. A formação em arquitectura influencia claramente a sua forma de ver e de se aproximar dos edifícios e do território. Fernando Guerra fotografa em todo o mundo, é requisitado por arquitectos internacionais e tem uma relação especial com alguns dos grandes nomes da arquitectura portuguesa. Luis Santiago Batista, o curador da exposição, destaca a capacidade de Fernando Guerra em comunicar visualmente com as pessoas, mesmo os leigos em matéria arquitectónica. Outras sugestões: no MAAT, na sala dos geradores e no Jardim do Campus Fundação EDP,  o artista chinês Bai Ming apresenta até 4 de Setembro cerca de duas centenas de peças de cerâmica, desenho e pintura apresentadas sob a designação “Branco e Azul”. Bai Ming é considerado um dos artistas que mais tem trabalhado a renovação da criação artística chinesa no campo da cerâmica, numa evidente reciclagem de uma tradição ancestral; finalmente na Galeria Principal da Gulbenkian, inserido na programação “Jardim de Verão”, é apresentada a interpretação que sete realizadores fazem, em filme, de obras de escultura - “The Very Impress Of The Object”, a partir de obras de diversos museus, desde o Museu do Louvre até museus de Paris a Roma, seguindo até Atenas, com passagens por Berlim, Munique e Londres.

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OUVIR - Em 1974 David Bowie tinha 27 anos e fartou-se de Inglaterra. Rumou aos Estados Unidos, primeiro a Nova Iorque, depois para Los Angeles. No final de 73 e início de 74 tinha gravado o seu álbum glam-rock “Diamond Dogs”, onde as influências do funk e da soul music eram patentes. O álbum foi editado em Maio e a digressão baseada no disco atravessou os Estados Unidos ao longo de 1974 e prolongou-se por parte de  1975. No início de Setembro de 74, estava Portugal em brasa revolucionária, Bowie realizou uma série de concertos em Los Angeles, no Universal Amphiteatre e o concerto de dia 5 foi gravado e é agora publicado, 43 anos depois, sob o título “Cracked Actor”, o mesmo de um documentário da BBC, de 1975, sobre essa digressão. Os registos originais foram remisturados no final do ano passado por Tony Visconti, que tantas vezes trabalhou com Bowie. “Diamond Dogs” mostrava a visão de um mundo pós-apocalíptico e, aparentemente, o livro “1984”, de George Orwell, terá sido uma das inspirações desta fase da carreira de Bowie - o disco tem mesmo uma faixa com o nome do livro. A digressão de “Diamond Dogs” arrancou em Junho de 1984, teve uma produção inovadora e ambiciosa, nos cenários imponentes, no guarda roupa, no leque de músicos em palco. No duplo CD agora editado, “Cracked Actor”,  e que reproduz o concerto, é muito engraçado redescobrir a voz de Bowie, ao vivo,  ainda antes dos 30 anos. No primeiro CD está grande parte dos temas originais de “Diamond Dogs” e no segundo estão canções de referência da carreira de Bowie até aí, como”Space Oddity”, “The Jean Genie” ou “Rock’n’Roll Suicide” - além do tema título “Diamond Dogs”. O disco encerra com “John, I’m Only Dancing (Again)”, que só foi editado como single cinco anos depois destes concertos. Duplo CD distribuído em Portugal pela Warner.

 

PROVAR -   A ideia foi apresentada na edição portuguesa do programa de TV “Shark Tank” e um dos membros do júri, o empresário Marco Galinha, agarrou-a e está a ajudar os seus proponentes . A ideia baseia-se num dos produtos portugueses mais tradicionais, aqui apresentado de forma diferente:  solidificado em pasta para barrar - e que é verdadeiramente uma grande ideia. Sob o nome “Ideias & Requintes”, são apresentados azeite em spray, natural e temperado com alecrim, e embalagens de azeite solidificado para barrar, com sabor natural, com tomate e com oregãos. Se gosta de molhar o pão no azeite experimente barrar uma torrada com este azeite de barrar natural ou, noutros momentos, servir umas tapas com azeite com tomate ou com oregãos. Oriunda de Portalegre, a empresa tem os seus produtos no El Corte Ingles e ainda numa série de lojas gourmet, estando agora a negociar a sua presença em grandes superfícies. Pode ir acompanhando o seu trabalho através de facebook.com/ideiaserequintes. Todo o azeite utilizado pela marca Ideias & Requintes é Azeite Virgem Extra de categoria superior obtido unicamente por processos mecânicos, 100% natural sem qualquer aditivo. O Azeite Virgem Extra é obtido exclusivamente de azeitonas da variedade Galega proveniente de olivais tradicionais localizados no Parque Natural da Serra de São Mamede. Finalmente, e fora dos azeites, a empresa produz também chocolate negro com nozes e gengibre, com 71% de cacau. Todas as matérias primas utilizadas são obtidas através de métodos de produção biológicos.

 

DIXIT -  “O Governo fica tranquilo quando os chefes militares asseguram ao país a segurança das instalações militares” - António Costa, na sequência do roubo de armamento em Tancos.

 

GOSTO - A agência de publicidade portuguesa Partners, que tem trabalhado com a PT em Portugal, foi escolhida pela Altice para criar a campanha de lançamento da marca de telecomunicações nos Estados Unidos, protagonizada por Ronaldo.

 

NÃO GOSTO - O ano de 2017 apresenta, até ao dia 30 de junho, o quinto valor mais elevado em número de incêndios florestais e o valor mais elevado de área ardida desde 2007.

 

BACK TO BASICS -   “Mais vale ter menos, mas melhor” - Dieter Rams

 

 





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publicado às 13:30

UM ESTADO DILUÍDO NA POUCA VERGONHA

por falcao, em 07.07.17

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VERGONHA - Aquilo que as semanas recentes mostram é que, no Estado, se perdeu toda a vergonha. A seguir à catástrofe dos incêndios a prioridade cronológica foi  encomendar um estudo de focus group, para ver se a opinião pública não ficou muito desagradada com o Governo pelo sucedido. Logo depois soube-se que o exército deixa roubar as armas e munições que lhe estão confiadas e descobre-se que há quase mais chefes que índios na estrutura. Logo, com grande rapidez, o ministro substituto do Primeiro Ministro declarou estar certo que o Governo vai reaver o armamento roubado, com as autoridades a dizerem pouco depois que o armamento já estaria fora do país, num caso de semelhança, pelo absurdo, com a rapidez com que a polícia judiciária atribuíu, a um raio, o fatal incêndio de Pedrogão, que começou horas antes da ocorrência metereológica. O Estado diluíu-se num pantanal de descaramento e pouca vergonhice e dois pilares de qualquer Governo - na Administração Interna e na Defesa - comportam-se como zombies da série “Walking Dead”. A trapalhada é total e o Ministro da Defesa foi arrastado pelas orelhas, pelo Presidente da República, a ver o local do roubo das armas. Dou comigo a pensar que por bem menos o ex-Presidente da República Jorge Sampaio, em vez de puxar orelhas, resolveu invocar que havia trapalhadas,  demitir o Governo, dissolver o Parlamento e convocar eleições. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já Camões dizia; Marcelo conformou-se ao papel de  distribuir afetos num país que se vai transformando num cenário de papelão usado para filmes de série B.

 

SEMANADA - A Uber tem actualmente em Portugal três mil motoristas, nos últimos 12 meses transportou clientes de 80 nacionalidades, num total de 750 mil estrangeiros de visita a Lisboa ou Porto e 30% dos portugueses que vivem nestas cidades já experimentaram utilizar os seus serviços;  no primeiro semestre deste ano o número de mortos nas estradas portuguesas aumentou mais de 23% ; António Costa interrompeu o seu merecido repouso para dar uma palavrinha à nossa Selecção pelo 3º lugar na Taça das Confederações e deixou a Santos Silva o encargo de lidar com a trapalhada criada no Ministério da Defesa; em compensação a conversa futebolística da semana foi em torno da utilização de bruxedos na obtenção de resultados, o que mostra o elevado grau de bom senso dos dirigentes daquela área de negócio desportivo;  foi encontrado o principal segredo para os números do défice: houve um valor histórico de cativações, que chegou aos 942,7 milhões, mais do dobro que o governo tinha prometido à Comissão Europeia;  estatísticas divulgadas pela Anacom mostram que a maior proporção de acessos residenciais de Internet em banda larga se localiza no concelho de Cascais, ao contrário de Pedrógão Grande onde essa proporção é a mais baixa do país; nos tribunais reabertos por este Governo realizam-se menos de dois julgamentos por mês.

 

ARCO DA VELHA - Em Tancos não houve rondas de vigilância durante 20 horas, a videovigilância estava inoperacional há dois anos, os soldados que vigiavam os paióis tinham armas sem balas e nos últimos anos as Forças Armadas contrataram serviços a empresas privadas de segurança. Fica no ar a pergunta: antes de se inventar a videovigilância como se garantia a segurança dos paióis militares?

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FOLHEAR - Um interessante livro para ler neste período preparatório das próximas eleições autárquicas é “Manual de Crimes Urbanísticos - exemplos para compreender os negócios da especulação imobiliária”. O seu autor é Luis F. Rodrigues, um especialista em ordenamento do território e planeamento ambiental, que se dedica também ao estudo de temas religiosos e históricos. Entre as suas obras anteriores estão “A História do Ateísmo Em Portugal” e “A Ponte Inevitável”, que relata a história da primeira ponte sobre o Tejo. “Manual de Crimes Urbanísticos” foi originalmente editado em 2011 e teve agora uma segunda edição. Numa nota sobre esta nova edição, o autor sublinha: “analisados os relatórios do Provedor de Justiça à Assembleia da República de 2011 (ano da primeira edição) e 2015 (ano do relatório mais recente), verifica-se que as admissões de queixas relacionadas com urbanismo e habitação, ambiente e recursos naturais e ordenamento do território, totalizaram, em 2011, 482 processos, enquanto em 2015 esse número ascendeu a 678 processos - ou seja um acréscimo de 40%”. Já na primeira edição o autor fazia notar que os dados da corrupção permitem identificar o urbanismo como um sector de risco nas câmaras municipais. O livro tem prefácio de Gonçalo Ribeiro Telles que sublinha que os crimes urbanísticos reflectem a falta de uma visão integrada do território.

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 VER -  É uma das exposições mais marcadamente políticas e mais relevantes que me foi dado ver este ano em galerias de Lisboa - “Talk Tower for Ingrid Jonker, 2012”, de Ângela Ferreira, na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27). A exposição combina o som de um poema de Ingrid Jonker (The Child Is Not Dead) declamado pela própria, difundido através de uma escultura que evoca  uma torre de transmissão radiofónica (na imagem) e fotografias de Paul Grendon (feitas em colaboração com Ângela Ferreira), da praia da Cidade do Cabo onde Jonker caminhou pelo mar até se afogar. Jonker era uma activista anti-apartheid, o poema relata a morte de uma criança negra pelas autoridades e foi este o poema que Nelson Mandela recitou na sua intervenção inaugural do primeiro parlamento democrático da África do Sul, em 24 de maio de 1994. Passando para outra sugestão, as Galerias Baginski (de Lisboa) e a Kubikgallery (do Porto) organizaram na Baginski (Rua Capitão Leitão 51) uma exposição colectiva que reúne artistas representados pelas duas galerias, com curadoria de Miguel Mesquita, sob o título “Force, Strength, Power” e que decorre até 9 de Setembro. Destaque para os trabalhos de Hernâni Reis Baptista, Cecília Costa, Bruno Cidra, Rui Valério, Carlos Azeredo Mesquita e Valter Ventura. Destaque especial para os trabalhos de Raquel Melgue e Liliana Porter . No British Bar, ao Cais do Sodré, Pedro Cabrita Reis apresenta até dia 27 as suas terceiras escolhas para as montras do melhor sítio para beber uma Guiness em Lisboa - são  peças de Edgar Massul, Ana Vieira (magnífica) e Amanda Duarte. O destaque final vai para para a exposição dedicada à carreira de cenógrafo e figurinista António Lagarto, que decorre na Sala Polivalente da Escola D. António Costa, junto ao Teatro Municipal Joaquim Benite e integrada na edição deste ano do Festival de Almada.

 

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OUVIR - Há 33 anos, em Junho de 1984, Prince publicava o álbum “Purple Rain”, que foi um dos maiores e mais marcantes sucessos da sua carreira e que tem várias canções que fazem parte das suas melhores obras - disco que originalmente era a banda sonora de um filme com o mesmo nome, protagonizado pelo próprio, uma estratégia de cruzamento da música com a imagem em movimento que estava à frente do seu tempo. Assinalando o aniversário foi feita uma edição especial com quatro discos e um livro de 36 páginas com histórias que rodeiam essa época, relatando os concertos da digressão de “Purple Rain” e as suas gravações. O primeiro disco reproduz, remasterizado em 2015 ainda por Prince, o álbum original de Purple Rain; o segundo disco tem 11 gravações inéditas - ou de temas nunca antes editados ou de versões até agora desconhecidas e é uma prova das preciosidades que ainda estão por descobrir; o terceiro CD agrupa remixes editadas como singles ou como lados B desses discos; e finalmente o quarto disco é um DVD gravado a 30 de Março de 1985 e que reproduz o concerto então realizado  no Carrier Dome, de Syracusa, em Nova Iorque. Soberbo. Já disponível em Portugal, edição Warner.

 

PROVAR -   Nestes dias de verão há um paraíso escondido em Lisboa - o terraço do Hotel Olissipo Lapa Palace, antigo Hotel da Lapa. O terraço fica no prolongamento natural do restaurante, tem uma vista magnífica sobre o jardim, a encosta e o rio e, nesta altura do ano, ao almoço,  oferece um menu especial, à base de pratos ligeiros e saladas. Numa recente visita receberam boa nota uma salada Caesar muito bem guarnecida e uma salada de legumes mistos com presunto de parma e ovos de codorniz. Há também uma salada de gambas, um gaspacho e, para quem quiser outro género, uma boa sandwich club clássica ou um hamburguer Lapa Palace, que pode vir com ovo e bacon. A acompanhar as saladas provou-se um branco, a copo,  Encostas de Sonim reserva, de Trás os Montes, que recebeu boa nota. O terraço tem poucas mesas, a clientela inclui protagonistas que procuram um lugar discreto para conversas tranquilas, num sítio confortável e com estacionamento garantido. O restaurante é dirigido pelo chef Helder Santos e na sala e na sua carta normal propõe um menu degustação e uma lista onde se incluem diversas propostas inspiradas pela gastronomia portuguesa, quer nos peixes quer nas carnes, além de uma possibilidade de risottos e pastas frescas. Mas essas são outras conversas.

 

DIXIT -  "O Parlamento Europeu é ridículo, muito ridículo. Saúdo os que se deram ao trabalho de estar na sala. Mas o facto de haver só uma trintena de deputados presentes neste debate é suficientemente demonstrativo que este parlamento não é sério" - Jean Claude Juncker no discurso de encerramento da presidência rotativa da União Europeia, que esteve a cargo de Malta. O Parlamento Europeu tem 751 deputados.

 

GOSTO - O artista plástico português Vihls (Alexandre Farto) tem desde 30 de Junho e até 23 de Julho uma exposição em Pequim, de 70 retratos em baixo relevo, “Imprints”,  feita com o apoio da REN.

 

NÃO GOSTO - A praia do Portinho da Arrábida está reduzida a 37% do seu comprimento e a 40% da sua área em relação ao que era há cem anos.

 

BACK TO BASICS - A capacidade do comando vem do saber e da experiência e não das armas que se utilizam - William Shakespeare.

 

 



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publicado às 13:30

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A FALTA - Prometi a mim mesmo não falar das teorias e teses sobre os incêndios e o que se passou. Mas depois de já quase duas semanas de duelos florentinos, da erupção palavrosa de especialistas de meia tigela e de conspirações diversas, não consigo deixar de dizer uma coisa: fazer política partidária sobre o tema das mortes numa situação de catástrofe é de péssimo gosto, é um macabro exercício de oportunismo político. Nas últimas décadas todos os partidos que passaram pelo poder têm culpas no cartório da política florestal, da prevenção e da segurança. Por isso mesmo penso que o dever elementar de todos, do governo à oposição, seria terem pedido desculpa aos portugueses. Não fizeram tudo o que podiam, infelizmente as evidências provam-no. E ninguém apareceu nos primeiros dias a dizer o que era evidente: “Desculpem, os partidos, os líderes dos governos e dos partidos falharam!  Desculpem, o Estado falhou e não protegeu os cidadãos.” Era simples dizer isto e significava muito, mais que mil despachos e relatórios feitos a quente e à pressa. É claro que é fundamental vir a compreender as causas e as culpas, e sobretudo as soluções para o futuro, mais do que andar à procura de causadores e culpados da situação concreta do dia 17 de Junho - mas um pedido de desculpas ficou a faltar e era devido. A reacção da classe política à catástrofe mostra um regime que ardeu, que primeiro faliu e que agora está a matar. Aqueles que têm tido poder podiam perceber a dimensão da besta que deixaram crescer. Parece que o bom-senso, a humildade e a responsabilidade desapareceram da política. 

 

SEMANADA - A segurança social tem 21 mil pagamentos em atraso a grávidas e doentes; as despesas familiares com saúde cresceram para 438 euros por ano por pessoa um valor superior ao da maioria dos europeus; o Observatório da saúde indica que utentes com menores rendimentos têm mais dificuldade em aceder ao Serviço Nacional de Saúde;  Fernando Medina anunciou esta semana ser o candidato do PS à Câmara de Lisboa - é a primeira vez que lidera uma lista eleitoral; os outros candidatos andam em modo invisível;  apesar dos incentivos apenas 81 médicos se disponibilizaram a ir para zonas mais periféricas e do interior;  domingo é o dia da semana em que nascem menos bebés e um estudo recente aponta como causa possível o aumento da percentagem de cesarianas nos partos totais;  em todo o país, na rede do Estado, só há 41 examinadores para as provas da carta de condução e os candidatos estão meses à espera de realizarem o exame enquanto que no sistema privado o tempo médio de espera é de cinco dias; nos meses de férias a GNR regista 38 queixas por dia de casos de violência doméstica; o mecanismo que penaliza o SIRESP por eventuais falhas nunca foi accionado pelo Estado, que é o seu único cliente; durante o período crítico do incêndio em Pedrogão cinco estações do sistema estiveram em baixo e 22% das chamadas falharam; comentário da semana no facebook: “numa crise o sirep falha; desligado, funciona”.

 

ARCO DA VELHA -  Dois reclusos da cadeia de Matosinhos queriam organizar uma festa na véspera de São João e foram apanhados na prisão com três chouriços, três garrafas de alcool, uma barra de haxixe, dois balões de São João e três telemóveis, tudo recebido ilegalmente.

 

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FOLHEAR -  Todos os anos, na edição dupla de Verão, que cobre os meses de Julho e de Agosto, a revista “Monocle” faz um levantamento das 25 cidades que considera os locais ideais para se viver. Depois de anos a subir neste ranking, Lisboa este ano ficou com a mesma posição de 2016 - a 16ª. No ano passado a revista já tinha chamado a atenção para o trânsito caótico na cidade e este ano a “Monocle” deixa um recado directo: “A Câmara Municipal deve encontrar o equilíbrio entre atrair investidores e visitantes estrangeiros e corresponder às necessidades dos habitantes nacionais da cidade - salários baixos combinados com o aumento do custo de vida significa que os residentes mais antigos podem ser marginalizados”. A cidade vencedora foi Tóquio, seguida por Viena, Berlim (que recebeu um destaque graças aos espaços públicos), Munique e Copenhaga. Madrid aparece na 10ª posição, Barcelona na 17ª. Lisboa está ainda em destaque com um artigo sobre a nova sede da EDP e os seus vários espaços, sublinhando que o investimento em boa arquitectura se reflecte de forma positiva na cidade. Outros destaques desta edição: uma visita à cidade espanhola de Valencia, uma conversa sobre gastronomia peruana com o fotógrafo Mário Testino, uma entrevista com o mayor de Los Angeles. O portfolio fotográfico, fresco e delicioso, é dedicado aos gelados, em várias formas, feitios e circunstâncias…

 

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VER - O ponto ideal ao equilíbrio alcança-se quando a obra de um artista se identifica tanto com o local onde é exposta que parece ter chegado a casa. Foi essa a sensação que tive ao ver “Voltar De Vez Em Quando”, de Cristina Ataíde, que está na Ermida, uma pequena e atraente galeria em Belém, na Travessa do Marta Pinto. O espaço é o da Ermida de Nossa Senhora da Conceição, uma capela do século XVIII, muitos anos abandonada. Foi trazida para a sua nova função por um médico, Eduardo Fernandes, apaixonado pelas artes plásticas, que em 2008 recuperou o espaço e aí começou a promover exposições regulares com artistas contemporâneos. As peças de Cristina Ataíde, na imagem, mostram como a escultura continua a ser o seu território de eleição, numa demonstração de equilíbrio visual e espacial. Como é frequente na obra da artista a apresentação das peças principais conjuga-se com o cuidado posto na sua instalação e nas frases que circundam, manuscritas numa fita, as paredes do espaço, como este fragmento, que afinal conta quase tudo o que esta exposição revela: “volto a  voar para longe”. Até 19 de Agosto, com curadoria de Ana Cristina Cachola. Outros destaques - prossegue o projecto “A Arte Chegou ao Colombo” , desta vez com obras de Paula Rego até 27 de Setembro, na praça central do centro comercial; na Galeria Módulo, Calçada dos Mestres 34, Ana Mata mostra “Árvores” e n’a  Pequena Galeria está “f8 - do retrato ao infinito” uma mostra de fotografia com trabalhos de  Alice WR, Carvalho, Isabel Costa, Carlos Almeida, Jackson Távora, Jorge Coimbra André Ricardo e Joaquim Young.

 

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OUVIR -  Chuck Berry morreu em Março deste ano, com 90 anos. Até bem pouco tempo antes da morte andou a trabalhar num álbum de originais que recuperava material escrito entre 1991 e 2014, em muitos casos refazendo gravações - já que os originais foram destruídos num incêndio no seu estúdio pessoal. Há 38 anos que não havia um novo disco de Chuck Berry, o homem que criou êxitos como “Maybelline” ou “Come On” e que até aos 88 anos,  nos 21 anos anteriores, continuou a tocar uma vez por mês, ao vivo, num bar da sua cidade, St. Louis, o Blueberry Hill. “Chuck”, o novo disco, não é uma colectânea de êxitos passados - é de facto um somatório de novas canções, com algumas brincadeiras pelo meio - como uma versão de “Johnny B. Goode”, de 1955, refeita para ser “Lady B. Goode” ou ainda a transformação de “Havana Moon” em “Jamaica Moon”. “Chuck” não tem covers, nem duetos, nem produtores de luxo convidados como se tornou habitual nos discos de fim de carreira -  é fiel às origens de Berry nos blues, à sua paixão pela guitarra e à seu interminável dedicação ao rock’n’roll, como o segundo tema do CD, “Big Boys” bem demonstra. O disco abre com “Wonderful Woman”, uma declaração de amor a Themetta Berry, a sua mulher. Há outros momentos marcantes como “Darlin”, “She Still Loves You”, “Dutchman” ou “Eyes Of A Man”  -  no fundo um testamento de dois minutos com as opiniões de Chuck Berry sobre o sentido da vida. Ele, que poderia ter gravado um disco de despedida com os maiores nomes do rock (que para o efeito se teriam deslocado a correr a St. Louis), escolheu gravar com  a família - o filho e o neto nas guitarras e a filha Ingrid na voz. Foi uma boa despedida. Obrigado Chuck.  

 

PROVAR -  Quando o regresso a um restaurante, passados uns anos, corre ainda melhor que a estreia, é caso para bater palmas. Foi o que aconteceu com nova visita à Padaria, em Sesimbra. Embora ali haja peixe para grelhar da melhor qualidade e a grelha seja competente, é nos pratos mais elaborados que está a diferença desta Padaria em relação a muitos outros locais de Sesimbra. Mas sobre o peixe deixem dizer que aqui só há peixe do mar, pescado na região e só há bivalves quando são garantidamente bons - de maneira que não esperem encontrar pré-fabricados à bulhão pato. Por detrás das operações está José Rasteiro, homem da terra, apaixonado pelo que faz -  isso nota-se na forma como fala dos pratos que propõe. A localização do restaurante é numa das pequenas ruas que desce até à marginal. A esplanada tem vista sobre o mar e é protegida dos ventos - a visita anterior tinha sido no Inverno e não deu para aproveitar a boa localização. Passemos ao que interessa: o pão de Sesimbra fatiado fino vem acompanhado com azeitonas e azeite, saboroso e intenso. O amuse-bouche oferecido pelo Chef é um achado: requeijão texturizado e enformado como se fosse um pequeno mozarella, com cubos de tomate e pão de especiarias. Nas entradas provaram-se uns filetes de cavala fresca, enrolados, simpáticos, e um excepcional tártaro de atum com coco fresco e salicórnia. A seguir, de um lado da mesa ficou um filete de salmonete com puré de aipo e, do outro, espadarte rosa fumado a quente com ervas da serra da Arrábida, puré de couve flor e molho de caldeirada. Ambos estavam excepcionais na qualidade dos produtos e na preparação. A acompanhar esteve um vinho branco de Colares, feito nas vinhas da Fundação Oriente  a partir da casta  Malvasia. Excelente. A Padaria fica na Rua da Paz nº5, em Sesimbra, e tem o telefone 212 280 381.

 

DIXIT -  “Como é bom ler bom” - Ferreira Fernandes

 

GOSTO - O Centro Português de Fotografia completou 20 anos durante os quais realizou 500 exposições e guarda 575 mil imagens em arquivo.

 

NÃO GOSTO - Das explicações do SIRESP e da teia de contradições criadas.

 

BACK TO BASICS - O Presidente não é mais que um privilegiado relações públicas, que passa o seu tempo a elogiar, beijar e a abanar as pessoas para que elas façam aquilo que é a sua obrigação - Harry S. Truman

 

 

 

 

 

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publicado às 14:00

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REPORTAGEM - Olhando para os últimos dias verifico que os melhores trabalhos de reportagem sobre a catástrofe dos incêndios estiveram em jornais impressos ou em sites de informação, nomeadamente no Observador. Domingo de manhã apenas o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias tinham chamadas de capa em destaque evidenciando a dimensão do que estava a acontecer; a edição do Público desse dia era particularmente desajustada da actualidade - valeu-lhe o site que foi recuperando o que o papel falhou. No Observador encontrei as primeiras grandes reportagens, bem escritas, descritivas, com informação, com episódios das vidas das pessoas, com pequenas histórias que ajudavam a fazer o grande retrato do que se passou. Foi no Observador, e também no Público online, que vi as melhores fotografias destes dias - e devo dizer que neste caso a reportagem fotográfica fixou momentos de enorme intensidade e dramatismo, sem sensacionalismos, e ajudando a compreender o que se passou e como as mensagens oficiais se afastavam da realidade que as imagens acabaram por mostrar. O Correio da Manhã TV foi a estação que mais depressa começou a fornecer imagens e relatos e não foi por acaso que este foi o canal noticioso mais visto nesses dias. A RTP3 desta vez conseguiu bater pela sobriedade e rigor a SIC Notícias e a TVI24. A rádio acabou por ser o meio onde menos notei reportagens exemplares. Neste tempo do video, e apesar dos momentos já referidos, não deixa de ser curioso que as melhores reportagens, na minha opinião, tenham sido escritas e fotografadas - quer tivessem sido publicadas em papel ou online. É o triunfo da escrita numa ocasião terrível. E foi-o graças a um regresso à melhor forma de jornalismo - a reportagem. Do resto não falo.

 

SEMANADA - O plano contra incêndios não foi avaliado nos últimos quatro anos;  pelo menos 64 bombeiros morreram em serviço ao longo dos últimos 17 anos; Portugal é o país da europa do sul que registou maior número de fogos florestais entre 1980 e 2013;  até quarta-feira à noite o Governo ainda não tinha ordenado à Inspecção Geral da Administração Interna nenhum inquérito global aos fogos do passado fim de semana; na internet as menções aos acontecimentos de Pedrógão Grande provieram, em 34%, do Facebook, 32% foram observadas no Twitter e 31% em notícias online - indica um estudo da Marktest;  a fibra óptica já é a principal forma de acesso à internet em Portugal, tendo ultrapassado o cabo; a internet em banda larga móvel é utilizada por 6,5 milhões de pessoas; segundo a Marktest, entre Janeiro e Abril de 2017, os portugueses dedicaram 399 milhões de horas à Internet na navegação a partir de computadores de uso pessoal; a Europa recebeu 1,5 milhões de refugiados desde 2015; as compras de automóveis feitas por empresas de aluguer de carros cresceram 26% em função do boom do turismo; em Lisboa existem 2051 pessoas referenciadas como sem-abrigo; o exame de português realizado segunda-feira corre o risco de ser anulado por ter circulado no whatsapp uma gravação que revelava a matéria que iria sair - e que acertou em cheio, citando como fonte uma explicadora, dirigente sindical, que teria passado a informação a uma explicanda sua.

 

ARCO DA VELHA - Um homem invadiu uma casa no Intendente para tentar roubar e violar uma mulher de 85 anos que se defendeu mordendo os orgãos genitais do assaltante, levando-o a fugir - o relato foi feito pela própria às autoridades.

 

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FOLHEAR - A revista que vos trago esta semana é o exemplo da convivência entre o digital e o papel. Neste caso essa convivência existe não nos canais de distribuição de conteúdos, mas sim na equipa que a faz. Grande parte dos elementos com responsabilidades editoriais trabalham simultaneamente neste projecto e em plataformas digitais de última geração como o Quartz e o Medium. Editada duas vezes por ano, a  “Anxy" dedicou a sua primeira edição à raiva - “The Anger Issue”. A revista é um mix cuidado de belos textos, portfolios fotográficos invulgares e um grafismo surpreendente. É editada duas vezes por ano e apresenta-se como uma publicação dedicada a apresentar narrativas pessoais sobre emoções, abordando temas como a ansiedade, a depressão, o medo, a raiva, o trauma e a vergonha, numa incursão que pretende abordar a saúde mental de uma forma diferente, através de exemplos de vulnerabililidade. Nesta edição inaugural a entrevista é com a escritora Margaret Atwood, a autora de “The Handmade’s Tale”; há uma série de ensaios e narrativas de pessoas que lidam diariamente com a raiva e o desespero de outros, desde criados de mesa, a vendedores de lojas de roupa ou cosmética ou, ainda, de agentes de execução que vão penhorar bens em nome de bancos; a grande reportagem é dedicada à instabilidade política na Turquia e aos problemas emocionais que ela fomenta no país; e finalmente há três portfolios fotográficos absolutamente excepcionais. Destaco o de Matt Eich, um dos grandes fotógrafos norte-americanos actuais (procure a conta dele no Instagram), numa visão pessoal do seu próprio universo familiar - um dos melhores ensaios fotográficos que vi nos últimos tempos; dois outro merecem destaque : Melissa Spitz mostra a relação tensa que tem com a sua própria mãe e Brian Frank visita o universo das prisões. São três momentos imperdíveis. Pode comprar a Anxy no site da revista - www.anxymag.com .

 

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VER - A mais recente aventura de Pedro Cabrita Reis é um livro de autor, em que o artista mostra desenhos inspirados pelo poema “Cântico Negro”, de José Régio, que é reproduzido na edição (na foto). Este trabalho começou a ser idealizado há três anos, depois de uma exposição do artista no Rio de Janeiro, o plano editorial e a direção gráfica são da responsabilidade de Cabrita Reis com Lucia Bertazzo e Leonel Kaz, de UQ! Editions, editora brasileira, que tem produzido  livros de artista, sempre com originais. As encadernações da caixa e do grande estojo são obra do Atelier Dreieck, em Paris, que se serviu de um tecido de linho e algodão de um laranja intenso. A tiragem é de 70 exemplares, dos quais 20 estão disponíveis na Galeria João Esteves de Oliveira. Cada caixa inclui um desenho original de Pedro Cabrita Reis, em acetona e pigmentos, trabalhados em folhas de 200x126 cms. Os 20 originais correspondentes a outra tantas caixas estão expostos na Galeria (Rua Ivens 38). Outros destaques: no MAAT inaugurou uma exposição de Fernanda Fragateiro , “Dos arquivos, à Matéria, à construção” e uma outra exposição com os trabalhos dos seis finalistas à edição do prémio EDP Novos Artistas deste ano, escolhidos entre mais de 600 candidaturas.

 

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OUVIR - No final de Maio de 1967 foi lançado o oitavo disco de originais dos Beatles - Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Foi um êxito, na crítica e nas vendas, e esteve durante 27 semanas em primeiro lugar do top britânico de álbuns. Inclui alguns temas famosos como “With A Little Help From My Friends”, “Lucy In The Sky With Diamonds”, “When I’m Sixty Four”, “She’s Leaving Home” e “A Day In The Life”. A ideia do disco foi criar um alter ego dos Beatles, a Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que se pudesse aventurar por territórios diferentes. As gravações começaram no final de 1966, depois de os Beatles terem decidido parar definitivamente com os concertos e as digressões. O facto de estarem a trabalhar num disco que não seria tocado ao vivo proporcionou a oportunidade de experimentarem técnicas novas de gravação e manipulação de som e de incluírem uma orquestra de 40 elementos. Nas numerosas sessões de gravação nos estúdios da EMI, em Abbey Road, dois dos primeiros temas a serem gravados foram “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”, que não estão incluídos no álbum original porque a EMI forçou a banda a editá-los como single no Natal desse ano. A capa, que foi concebida por Peter Blake e Jann Haworth, dois artistas plásticos britânicos da então nascente pop art, teve um custo de 3000 libras, contra as 100 que eram usualmente o orçamento para o trabalho gráfico de um LP. A EMI concordou que a pagaria, unicamente se o disco vendesse mais de um milhão de exemplares mundialmente - senão a conta seria assumida pelos Beatles. Como hoje se sabe a conta acabou por não ser paga por eles. A edição especial que agora foi lançada para assinalar os 50 anos do lançamento original, inclui um pequeno livrinho de 60 páginas onde esta e outras histórias são contadas, além de detalhes e fotos das sessões de gravação. A edição tem dois CD’s - um que corresponde ao disco original, com uma nova mistura estereo, e outro que mostra 18 misturas inéditas das sessões de gravação, entre as quais algumas de “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”. (Edição especial Universal Records, distribuída em Portugal).

 

PROVAR -   Então este é um daqueles dias em que tudo correu mal e a raiva é tanta que nem a fome aparece? Narda Lepes, uma chef argentina, diz que tem uma receita infalível para dias assim: arroz com um ovo estrelado por cima. A coisa é simples: coze-se o arroz, escorre-se bem e mistura-se com meia colher de sopa de manteiga numa tigela. À parte faz-se um ovo estrelado em azeite. Narda recomenda que não se salgue o ovo enquanto ele está na frigideira, para que a clara fique bem cozida, estaladiça, e a gema fique crua. Coloca-se o ovo por cima do arroz e o petisco está pronto quando o amarelo da gema começa a inundar o arroz. Tudo bem misturado é um remédio certo anti-ansiedade, diz convicta a chef argentina na divertida secção de gastronomia da revista “Anxy”, uma nova publicação referida noutro ponto destas páginas. Já Jimena Agois, uma food blogger peruana, prefere massa com pesto è genovesa, tudo preparado na ocasião. Cá por mim, nesses dias, o ideal é uma dose dupla de iogurte natural, misturada com fruta da época cortada aos pedaços, alguns frutos silvestres e um pouco de frutos secos. Se por acaso fôr acompanhada com uma flûte de espumante Murganheira Reserva Bruto, ainda melhor.

 

DIXIT -  “Isto foi um furacão de fogo, veio para nos matar” - habitante na zona de Pedrogão

 

GOSTO - Da eficácia e contenção na comunicação de Jorge Gomes, o secretário de Estado da Administração Interna, que no local acompanhou os incêndios.

 

NÃO GOSTO - A Câmara de Lisboa ignorou a  assembleia municipal e vai aprovar a alteração de um edificio  dos anos 70,decorado com azulejos de António Vasconcelos Lapa, para autorizar um hotel a imitar traça pombalina.

 

BACK TO BASICS - “A arte de agradar muitas vezes encobre a arte de enganar” - máxima hassídica, em textos judaicos

 

 

 

 

 

 

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TAMANHO  - Tenho andado a reparar que, nas obras recentes promovidas pela autarquia, os projectistas da Câmara Municipal de Lisboa têm  vindo a encolher os lugares de estacionamento para viaturas. Ao princípio achei que se tratava de um corolário natural da perseguição ao automóvel que se tornou na linha política de Medina & Salgado, mas depois percebi que é certamente fruto de insuficiente informação de quem desenha e projecta. No Largo do Casal Vistoso, ao Areeiro, foi feita uma recente intervenção camarária que, como noutros locais, se caracteriza por deixar obras inacabadas durante semanas, provocando desconforto a quem anda a pé nos passeios. Mas ali há também bons exemplos da forma como se desenham os estacionamentos por forma a tornar o dia a dia das pessoas uma gincana. Noutros locais, como nas laterais da Avenida da República, e nalgumas artérias de Campolide, é a mesma coisa: os lugares antigos foram reformulados e agora são mais acanhados. Depois de muito pensar, acho que encontrei uma explicação: como os projectistas da Câmara desenham tudo sem sair dos gabinetes e ir estudar os locais, e sem ter em conta a evolução das máquinas, fizeram lugares mais pequenos. Porquê?  Alguém lhe deu como norma o tamanho dos Fiat 500 clássicos. E os projectistas e quem os superintende não repararam que até os Fiat 500 cresceram, nomeadamente quando a viatura tomou os célebres comprimidos azuis e ificou mais volumoso, como um bem conseguido spot publicitário da marca italiana mostrou há alguns anos.

 

SEMANADA - As reservas de férias no estrangeiro cresceram 10% este ano; 75% das multas por falta de bilhete em transportes públicos foram perdoadas pelo Governo; em Portugal são apreendidos 1262 medicamentos falsificados por dia; Portugal é o segundo maior exportador de vinho para o Brasil, logo a seguir ao Chile; as exportações de vinho cresceram 8% no primeiro trimestre deste ano, em boa parte devido à recuperação de vendas para Angola; Portugal é o país da União Europeia que mais bicicletas exporta, 15% do total ou 1,6 milhões de velocípedes em números redondos; as exportações de cerâmica subiram 20% em quatro anos; Portugal tem um consumo efetivo por habitante de 82%, abaixo da média da União Europeia (UE 100%), estando o Luxemburgo no topo da lista (132%) e a Bulgária no fundo (53%); um estudo divulgado esta semana indica que a maioria dos jovens começam a ter telemóvel aos dez anos de idade e a partir dos 13/14 anos os dispositivos são praticamente regra entre os adolescentes; jovens entre 15 e 18 anos chegam a enviar 200 mensagens por dia; o número de mulheres reclusas está a crescer há oito anos e actualmente existem 869 detidas, existindo 37 crianças que vivem com as mães em estabelecimentos prisionais.

 

ARCO DA VELHA - Donald Trump cancelou uma anunciada visita oficial ao Reino Unido, a convite de Theresa May, até sentir mais apoio do público e por considerar previsível que tenha protestos de rua em Londres.

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FOLHEAR - Editado em França no final do ano passado, com o provocador título de “O negacionismo económico - e como combatê-lo” , este livro criou enorme polémica em torno dos seus autores, os economistas Pierre Cahuc e André Zylberberg. Os dois autores acusam uma parte importante dos seus confrades de fomentarem o obscurantismo e de se recusarem a analisar a realidade económica com base em dados científicos. Para os autores a economia tornou-se uma ciência experimental e existem métodos de análise para saber se a desregulação financeira favorece o crescimento, se o custo do trabalho tem consequências no emprego, se a despesa pública relança a actividade económica ou se a subida de impostos a diminui. Os autores  defendem que a posição dos que se recusam a analisar cientificamente o que acontece no mundo da economia está  a fomentar um negacionismo que, dizem, corrói todas a disciplinas - a história, a biologia, a física ou a climatologia. E dizem que a economia “é sem dúvida a disciplina que se vê confrontada com o negacionismo mais virulento”. O livro foi acusado de partir de uma visão ideológica, de querer aplicar o método experimental em circunstâncias em que não deve ser usado. A polémica foi grande, ainda dura e os dois autores de “O negacionsmo económico” defendem que “ a abordagem científica é indispensável para contrariar qualquer tentativa de transformação de uma mentira em verdade” . Terminam o livro enumerando exemplos do que consideram “efeitos nefastos dos negacionistas - desde a semana de 32 horas ao encerramento de fronteiras e a cessação da emigração, passando pela descida dos impostos ou o aumento da despesa pública”. O livro foi editado em Portugal pela Guerra & Paz e promete criar por cá também uma boa dose de polémica.

 

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VER - A obra que aqui está reproduzida chama-se “L’Homme Qui Marche” e foi feita pelo escultor suiço Albert Giacometti em 1960, numa série de seis exemplares. Foi a primeira escultura a ultrapassar a fasquia dos cem milhões de dólares num leilão, em 2010 e Giacometti foi um dos primeiros escultores a atingir valores próximos de quadros de pintores célebres. Até 10 de Setembro a Tate Modern, de Londres, apresenta uma retrospectiva da sua obra. Curiosamente Giacometti que esteve presente na Bienal de Veneza em 1956, é este ano o artista homenageado no pavilhão da Suíça na mesma bienal. E, mais para o fim do ano, em Paris,  abrirá ao público o Institut Giacometti, obra da sua Fundação, que tem preservado e gerido o legado do artista. Cinco décadas depois da morte de Giacometti, ele volta a estar na ribalta - graças à exposição da Tate (que no próximo ano irá para o Guggenheim de Nova Iorque), ao trabalho desenvolvido pela fundação, aos leilões onde proximamente vão aparecer peças suas e ao filme “The Final Portrait”, de Stanley Tucci, que estreia em Basel. Já que estamos a falar de exposições por esse mundo vale a pena deixar aqui nota que no MoMA de nova Iorque, até 1 de Outubro, está uma retrospectiva dos arquivos do arquitecto Frank Lloyd Wright, para assinalar 150 anos do seu nascimento. Finalmente, e para regressarmos ao nosso pequeno rectângulo, até 1 de Outubro, nos jardins do Museu Nacional de Arte Antiga, está ”O Jardim das Tentações”, uma curiosa mostra do trabalho da ceramista portuguesa Bela Silva, que se inspirou em diversas obras do acervo do museu.

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OUVIR - Nas minhas explorações pelo Spotify, encontrei este disco, editado no Outono do ano passado,  “Country For Old Men”, do guitarrista John Scofield. Ao contrário daquilo que o nome indica não é uma lamechice para idosos, trata-se de uma brincadeira de Scofield em cima do filme “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen. John Scofield tocou ao lado de nomes como Miles Davis,  Charlie Mingus, Pat Metheny e Bill Frisell, para citar só alguns. Agora com 65 anos revisita temas clássicos daquilo que são os seus géneros preferidos - blues, country e folk. A seu lado estão o baixista Steve Swallow, o baterista Bill Stewart e o teclista Larry Goldings - e vale a pena dizer que este é um disco invulgarmente conseguido do ponto de vista da qualidade da execução e da gravação. A primeira grande surpresa acontece na segunda faixa com uma versão, totalmente inesperada, de “I Am So Lonesome I Could Cry”, um original de Hank Williams, aqui completamente subvertido pelos solos de guitarra. “Bartender Blues”, de James Taylor é tocado como uma balada, de forma delicada e sentida. Entre as 12 canções do disco outros destaques vão para “Mama Tried” de Merle Haggard, para os tradicionais “Wayfairing Stranger” e “Red River Valley”, para as versões de “Jolene”, uma das grandes canções de Dolly Parton, e “You’re Still The One” de Shania Twain. E o disco termina com a brevíssima despedida, tocada em ukelele, de um segmento de “I’m An Old Cowhand”, de Johnny Mercer. CD Impulse, no Spotify.

 

PROVAR -  De repente, um jantar para cozinhar. Que fazer? Quer-se uma coisa leve, mas saborosa, tenra mas sem ser insípida. O que me veio logo à cabeça é fazer uns peitos de frango no forno, bem temperados, acompanhados de arroz solto e eventualmente uma salada - nesta época desejavelmente de agrião com rabanetes. O segredo para o tempero reside em farinha de mostarda, vinho branco e mel. A Colman’s é uma marca inglesa com mais de 200 anos, que se dedica a fazer farinha de mostarda, deliciosa, obviamente picante, e que se pode encontrar no El Corte Ingles ou na Amazon. Teoricamente deve pegar-se numa quantidade de farinha de mostarda e misturar com igual quantidade de água para obter uma pasta de mostarda que é melhor que qualquer um dos preparados já feitos que se podem encontrar por aí. Mas para esta receita proponho uma variante: misturar duas colheres e meia de sopa de farinha de mostarda Colman’s com dois decilitros de vinho branco seco e fazer o molho que acompanhará os peitos de frango ao forno. Os ditos peitos de frango não devem ser daqueles enormes, é preferível escolher os de tamanho médio, temperá-los bem, de ambos os lados, com limão, um pouco de alho e sal. No fim colocam-se na travessa onde antes já se deitou o molho de mostarda. E, para finalizar, deita-se em cada um dos peitos de frango uma colher de sopa de mel e, por cima, polvilha-se com um pouco de Colman’s em pó, espalhada sobre o mel. Vai ao forno a 180ºdurante cerca de 20 minutos e no fim liga-se o grill cinco minutos só para tostar um pouco. E pronto.

 

DIXIT - “A verdadeira obra de arte do primeiro-ministro foi ter conseguido desvincular-se, ele e os seus ministros, do governo de Sócrates” - António Barreto

 

GOSTO - Da nova série de “Twin Peaks”, de David Lynch

 

NÃO GOSTO - Edificaçoes de uma cidade romana do século II, à beira da Ria Formosa, foram reduzidas a cacos para construir uma casa particular com o beneplácito da Câmara de Tavira.

 

BACK TO BASICS - “Os verdadeiros líderes vivem vidas paradoxais, em que se veêm obrigados a quebrar regras para as poderem manter” - Beau Willimon, argumentista de “House Of Cards”.

 

 

 

 

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