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SOBRE A IMPORTÂNCIA DA CURIOSIDADE

por falcao, em 17.11.17

 

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PARTIDOS  - Soube-se esta semana que dos 210.907 militantes do PSD apenas 28.739 (13,6%) têm as quotas em dia - condição necessária para poderem votar nas eleições directas de 13 de Janeiro. Estamos a falar de 12 euros por ano. No primeiro mês após o início da campanha interna para escolher, em eleições directas, quem será o líder, cerca de cinco mil militantes pagaram as suas quotas em atraso e a data limite para pôr as quotas em dia e poder votar nas Directas de Janeiro é dia 15 de Dezembro. A situação é um retrato do funcionamento dos partidos, mesmo quando têm um teórico número apreciável de militantes: a maioria está arredada da vida dos respectivos partidos, a participação política reduz-se a um pequeno núcleo central. Se fizermos bem as contas a quem está na Assembleia da República, em autarquias a diversos níveis e em orgãos internos, veremos que o total é uma parte significativa daqueles que têm as quotas em dia. Temos portanto duas figuras de relevo da política portuguesa a percorrer o país de lés a lés numa campanha eleitoral que tem um universo de votantes reduzido - e mesmo que, por milagre do destino e ajudas de duvidosa generosidade que se tornaram habituais nos aparelhos partidários, o número de militantes com capacidade eleitoral duplique em relação aos actuais, estaremos a falar de meia centena de milhar de pessoas. É a elas que caberá decidir quem será o líder da oposição. Quando as coisas chegam a este ponto alguma coisa está muito mal no sistema político e partidário - no fundo é um espelho do que se passa no país. O sistema que temos, a nível nacional e a nível partidário, levou a este paradoxo: é uma minoria que decide o futuro da maioria.

 

SEMANADA - Em Portugal estão em construção mais 80 hotéis, anunciou o Ministro da Economia; na via navegável do Douro há 60 operadores com 147 barcos, dos quais 20 são barcos-hotel; a zona do Douro espera atingir até ao final do ano o número recorde de um milhão de turistas;  as receitas do sector hoteleiro subiram 14% durante a época alta (Junho a Setembro), equivalente a 200 milhões, chegando aos 1688 milhões de euros; em Portugal são detectados mais de 200 novos casos de diabetes por dia; o Bastonário da Ordem dos Médicos afirmou que grande parte dos equipamentos e materiais do Serviço Nacional de Saúde está fora do prazo de validade; em Portugal 800 mil pessoas tomam calmantes todos os dias; segundo a Marktest um em cada dez portugueses utiliza regularmente anúncios on line; o Ministério Público recebeu entre 1 de Setembro de 2016 e 31 de Agosto deste ano 5965 denúncias de operações suspeitas de lavagem de dinheiro, um aumento de 22% face ao período anterior; este ano os bancos portugueses estão a emprestar uma média de 21,8 milhões de euros por dia para compra de habitação, um aumento de 42,7% em relação ao ano passado; na função público o salário médio está 500 euros acima do sector privado;  a União Europeia alertou Portugal para a “elevada proporção de empregos criados em setores com baixas qualificações e salários abaixo da média”.

 

ARCO DA VELHA - Uma técnica de acção educativa de Vila do Conde andava a abastecer detidos da cadeia de Paços de Ferreira com haxixe a 200 euros a grama, e cocaina e heroina a 500 euros a grama.

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FOLHEAR - O fascínio pelo Oriente continua a dominar as obras de Fernando Sobral, como aconteceu em “ Os segredos do Hidroavião “ ou em “ As jóias de Goa”. Agora, com “O Silêncio dos Céus” continua a escrever sobre mistérios, mas de forma mais introspectiva. Esta é uma história passada em Macau, em meados do século XIX, o relato de uma conspiração urdida por personagens locais de proveniências diversas e passados distintos. Muitas vezes Fernando Sobral coloca no discurso dos conspiradores frases que vão mostrando as suas próprias reflexões. Por exemplo, logo no início, recorda que “a vida não pertence a nada, excepto ao vento,  porque a nossa alma é o ar”. Um pouco mais à frente afirma que “a maior interrogação com que se defrontam os seres humanos é a existência do mal” e defende noutro passo que “para encontrar as grandes verdades da vida temos de passar pelo silêncio”. “A curiosidade é a minha estrela polar”, disse Fernando Sobral esta semana na apresentação do livro, em Lisboa. Ao ler qualquer dos seus livros percebe-se o cuidado colocado na investigação sobre os locais, seus usos e costumes. Aqui vai mais além e coloca-se dentro das questões que norteiam desde há muitos séculos o pensamento filosófico oriental. Partindo de uma história de conspiração, “O Silêncio dos Céus” depressa se torna numa viagem pelas tradições do oriente, onde a aventura faz parte da vida e se mistura com a luta pelo poder. “Alguém dizia que quando olhas demasiado para um abismo, este também olha para ti” - descubram porquê em “O Silêncio dos Céus”, de Fernando Sobral, edição Livros do Oriente.

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VER - O destaque desta semana vai para a exposição colectiva que assinala os 25 anos de existência da Galeria Fernando Santos, no Porto, em boa parte responsável por se ter criado um pólo de arte na Rua Miguel Bombarda. Para assinalar o aniversário o galerista Fernando Santos mostra obras inéditas a  Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez (na imagem), João Louro, Priscilla Fernandes, Jorge Galindo, Nikias Skapinakis, Gerardo Burmester, António Olaio, além de obras pouco conhecidas de artistas como Alberto Carneiro e Álvaro Lapa. Até 5 de Janeiro. Em Coimbra não perca a sua bienal de arte contemporânea, “Ano Zero”, que com curadoria de Delfim Sardo apresenta obras de 34 artistas, 17 das quais feitas propositadamente para esta mostra e que estão em diversos locais da cidade. Outras sugestões: na Galeria Pedro Alfacinha (Rua de S. Mamede 25), “America”, um conjunto de seis novos trabalhos fotográficos de António Júlio Duarte. Na Galeria 111, Campo Grande, “História da Vida Privada”, um projeto de  Pedro Valdez Cardoso concebido, ao longo de um ano, especificamente para a esta galeria, reunindo um conjunto de mais de 100 obras, com peças inéditas, peças recentes e um conjunto de peças do arquivo do artista, as quais foram sendo realizadas ao longo de mais de 15 anos e nunca expostas, na sua grande maioria, anteriormente. Finalmente, no CCB Garagem Sul, um espaço dedicado à arquitectura, abriu esta semana “Neighbourhood”, sobre os pontos de encontro entre a arquitectura de Álvaro Siza e a de Aldo Rossi na forma de pensar a cidade.

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OUVIR - Basta ouvir “Conto de Fadas”, logo no início deste CD, para perceber como Aldina Duarte gosta de escrever, cantar e, fazendo as duas coisas, provocar e surpreender. Cantar um fado assim, o tradicional “”Fado Santa Luzia”,  acompanhada por uma caixinha de música é usar a heresia e viver o risco que faltam a tantas tentativas de fadistas de moda que andam por aí. Esta é a melhor coisa que se poderia fazer neste tempo de tradições copiadas e de falsas almas que fazem que cantam. Aldina Duarte chamou a este seu novo disco “Quando Se Ama Loucamente” e cada uma das letras que para ele escreveu é uma peça da explicação do que é o Amor. Aldina Duarte escreve como poucos outros fadistas e canta como muito poucas mulheres hoje em dia, em Portugal. Ouvi-la é uma lição de poesia. É muito curiosa a forma como  pegou em fados tradicionais e os recriou com novas letras - um desafio arriscado mas que funcionou bem como nestes versos: “Somos dois da mesma dança/ enlaçados na lembrança/ e perdidos no coração” . O disco assume-se como uma homenagem a Maria Gabriela Llansol, evocada num belíssimo texto de Hélia Correia que surge, no disco, ao lado de uma reprodução de um quadro de Pedro Cabrita Reis. E recordada, no final, pela voz de João Barrento, que diz as suas palavras. Este é um dos grandes discos portugueses do ano. CD Sony Music.


PROVAR - Situado nas Avenidas Novas, “O Funil” tem uma longa tradição que vem desde 1971. Há poucos anos, em 2014, foi totalmente remodelado e após um período inicial que se distinguiu, deixou cair a qualidade e o serviço. Há poucos meses passou para as mão de António Diogo, um profissional com vasta experiência na restauração e com um cuidado claro no serviço aos clientes. O bacalhau à Braz é um clássico que se tem mantido e que continua a ser uma referência segura e outra boa escolha são os filetes de peixe espada com arroz de lima. Os pratos do dia são normalmente abaixo dos 10 euros e os pratos da carta normal andam entre os 10 e 14 euros - e aí podemos encontrar alguns arrozes dignos de nota - nomeadamente o de vitela e cogumelos, o de polvo e o de garoupa e gambas. Nos petiscos da casa destaque para os pastéis de bacalhau. Na nova lista está por vezes uma novidade, trazida por António Diogo de aventuras anteriores, é o spaghetti a la forma - em que a massa acabada de cozer vai para dentro de um parmesão onde é envolvida, a quente, no queijo, ganhando todo o seu sabor. O vinho da casa é o Intensus, alentejano, que cumpre bem, sobretudo o tinto, e é servido a copo ou pequenos jarros Nas sobremesas o destaque vai para as farófias, bem feitas, à moda antiga, irresistíveis.  O restaurante destaca-se pela arte de bem receber, pela atenção dada aos clientes e tem como único ponto menos positivo o facto de por  vezes existir alguma demora. Av. Elias Garcia 82-A, tel. 210 968 912.

 

DIXIT - “Depois da centena de mortos, um país ardido, décadas de medidas políticas, dezenas de ministros, várias reformas estruturais, grupos de trabalho independentes e missões de estrutura, chegámos enfim à solução: caramba, o que nos faltava era uma empresa pública para a floresta” - Paulo Ferreira, no Facebook.

 

GOSTO - Marcelo Rebelo de Sousa voltou a sublinhar que os relatórios sobre o apuramento de responsabilidades nos casos da legionella e de Tancos devem ser tornados públicos.

 

NÃO GOSTO - Do esquema de corrupção nas messes da Força Aérea, que há uma década envolve 86 oficiais e empresários num esquema de sobrefacturação de fornecimentos.

 

BACK TO BASICS - “A melhor forma de prejudicar uma causa é defendê-la deliberadamente com argumentos falsos” - Friederich Nietzsche



 

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publicado às 13:30

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O SURURU - Vai para aí um grande sururu por causa da Web Summit. As redes sociais, um dos pilares da expressão pública da nova sociedade, foram o centro das críticas, remoques e ataques à iniciativa que delas em boa parte nasceu. Esclareço que para mim a Web Summit não é a santa milagreira que vai resolver o problema das start ups portuguesas, nem uma escola de casos de sucesso. Mas é uma boa feira, uma enorme feira de um sector específico que está no centro da nova economia, uma forma de proporcionar pontos de encontro, fomentar debates e às vezes criar notícia internacionalmente - como aconteceu com as revelações sobre a campanha de Trump feitas por um dos seus protagonistas. Eu cá prefiro que tudo isto suceda em Lisboa do que noutra capital qualquer- ajuda a pôr-nos no mapa e traz-nos mundo. Mas, é bom ter isto presente, também reforça a necessidade de que quem manda na cidade reflicta com cuidado como quer tratar e posicionar o turismo, como quer posicionar a cidade em termo de recuperação urbanística e atracção de empresas. E sobretudo, obriga necessariamemte o Governo a ver as assimetrias que existem dentro de um país que é capaz de acolher com sucesso um evento desta complexidade e, ao mesmo tempo, deixar arder vastas porções de território, permitir a morte de uma centena de pessoas nos fogos, não conseguir garantir a segurança nem nos incêndios nem nos hospitais como agora se percebeu. É este o paradoxo do Portugal contemporâneo e a Web Summit também tem essa utilidade - agudiza a comparação e mostra como o Estado tem comportamentos diferentes. É bom termos a Web Summit, é bom aprendermos, é bom que o Sr Cosgrove ganhe dinheiro com o assunto porque assim também nós ganhamos: este é o caso de uma win-win situation. Mas o êxito da sua realização, a eficácia da produção do evento, a correcção de erros do ano passado, traz a responsabilidade de o Estado não se restringir a eventos de propaganda e começar a preocupar-se com os cidadãos. O sentido da Web Summit é esse: de nada serve a inteligência artificial se as pessoas forem destruídas.

 

SEMANADA - Na semana da Web Summit o alojamento local em Lisboa teve uma ocupação de 80%; há 120 grupo de participantes na web summit que têm por objectivo visitar os bares do Bairro Alto e proximidades; foi uma falha de software no sistema de informação de autópsias que levou a PSP a interromper os velórios de vítimas de legionela, colocando os cadáveres dentro de sacos de plástico à frente dos familiares; na sequência dos incidentes na discoteca Urban a PSP informou que não prevê reforçar o patrulhamento à noite em Lisboa; os processos existentes em Tribunal sobre violência exercida por seguranças não suspendem a sua licença de actividade, nem lhes retiram o cartão profissional; a verba prevista no Orçamento de Estado para o Serviço Nacional de Saúde não chega para cobrir as suas despesas e a dívida a fornecedores continua a crescer e já ultrapassa os mil milhões de euros; em sete anos um em cada três empregos podem ser substituídos por sistemas de tecnologia inteligente; segundo um estudo da Marktest a utilização da Internet através do telemóvel quase quadruplicou nos últimos 5 anos; o futebol vale 43% do total de apostas do jogo online; a Amazon vai passar a fazer entregas gratuitas em Portugal a partir da sua filial espanhola.

 

ARCO DA VELHA - O Ministério da Administração Interna comprou há dois anos um software para monitorizar o SIRESP que nunca usou;  depois de Pedrógão, a Protecção Civil requereu a utilização dessa aplicação que no entanto permaneceu inoperacional nos incêndios de 15 de Outubro.

 

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FOLHEAR - Hanna Arendt foi uma das mais influentes pensadoras do século XX. Alemã, de origem judaica, foi perseguida pelos nazis. A situação na Alemanha levou-a a emigrar para os Estados Unidos ainda antes da segunda grande guerra, onde consolidou a sua reputação na área da filosofia política, ou teoria política - como ela preferia chamar-lhe. Na Universidade de Marburg, onde estudou em 1924, um dos seus professores foi Martin Heidegger, 17 anos mais velho que ela, casado,  e um dos mais reputados filósofos da época. A relação entre o professor de 36 anos e a aluna de 19 evoluíu da atracção intelectual e tornaram-se amantes, clandestinos, uma relação escondida, que a levou a partir para outra universidade sem nunca esquecer a relação. Depois de concluir os seus estudos em filosofia, Arendt começou progressivamente a interessar-se por teoria política, nomeadamente o papel das mulheres na sociedade e a questão judaica. Heidegger, pelo seu lado, era dos nomes mais importantes da Filosofia alemã da época e a sua obra desenvolveu-se em torno do sentido do ser. Em 1933 aderiu ao partido nacional-socialista, precisamente o ano em que Hitler ascendeu ao poder e em que Hanna Arendt esteve presa pelos nazis, antes de emigrar. Heidegger havia de afirmar que o romance com Arendt foi “o mais excitante, mais orientado e mais rico” período da sua vida e que essa criatividade se refletiu na sua obra mais importante - “”Ser e Tempo”. Agora, pela primeira vez, surge reunida num único volume a correspondência trocada entre Hanna Arendt e Martin Heidegger entre 1925 e 1975, o ano em que ela morreu. É um diálogo feito com base na paixão e admiração recíprocas que se manteve ao longo dos anos, contrariando a distância geográfica e as diferenças ideológicas, mas é sobretudo um constante diálogo entre duas das mais importantes vozes filosóficas do século XX. Hoje em dia se calhar isto tudo é incorrecto e seria um escândalo que levaria ao despedimento de ambos - mas se não tivesse acontecido não tínhamos “Arendt-Heidegger, Cartas 1925-1975”, que foi traduzido do alemão por Marco Casanova e editado pela Guerra & Paz.

 

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VER - O MAAT tem muito para ver por estes dias. Começo por “Electronic Superhighway”, uma exposição produzida pela Galeria Whitechapel de Londres, em 1916, e que reúne mais de 100 peças que mostram o impacto das novas tecnologias e da internet nos artistas de meados da década de 60 até ao presente. A exposição inclui obras multimedia, filmes, pintura, escultura, fotografia e desenho de mais de 70 artistas, entre eles Nam June Paik, Judith Barry, Douglas Copland, JODI, Richard Serra, Thomas Ruff e Amalia Ulman, entre outros. Está no edifício da Central Tejo até Março do próximo ano. Ainda no edifício da Central Tejo recomenda-se “Quote/unquote, entre apropriação e diálogo”, uma selecção de obras da Fundação EDP subordinada ao tema da apropriação na arte contemporânea. A exposição estará patente até Fevereiro do próximo ano e inclui obras de artistas como Pedro Calapez, Eduardo Batarda, Luis Campos, Nuno Cera, José Pedro Croft, Ângelo de Sousa, e Fernando Calhau, entre outros. A completar este ciclo de exposições do MAAT está “Bónus”, uma projecto de Ana Jotta que sai dos edifícios do MAAT para um espaço no número 30 da Rua do Embaixador, em Belém e que inclui gravuras e peças de bronze em tiragem única. Esta exposição nasce da relação entre a artista e o museu, relação que parte da atribuição do Grande Prémio Fundação EDP a Ana Jotta em 2013. “Bónus”, o título escolhido pela artista, reflecte o desejo de levar para um espaço de características não museológicas, numa rua de grande circulação e comércio da freguesia de Belém, um conjunto de trabalhos recentes e inéditos levando-os para mais perto da comunidade local envolvente do MAAT.

 

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OUVIR - A prestigiada etiqueta de jazz Blue Note teve a ideia de pegar em seis dos mais destacados músicos que gravam para a editora, cada um dirigindo o seu próprio grupo, e juntou-os. É uma ideia explosiva que pode correr mal ou correr muito bem. Correu muito bem. Para culminar resolveram chamar ao duplo CD resultante desta junção “Our Point Of View”, um título ele próprio provocatório. No caso juntaram-se os talentos de Robert Glasper no piano, Marcus Strickland no saxofone, Lionel Loueke na guitarra, Derrick Hodge no baixo eléctrico, Kendrick Scott na bateria e Ambrose Akinmusire no trompete. Como se isto não chegasse Wayne Shorter e Herbie Hancock aparecem a dar ar da sua graça no primeiro tema do segundo disco em “Masquelero”, um original do próprio Shorter. À excepção deste e de “Witch Hunt”, também de Wayne Shorter, todos os outros nove temas do duplo CD são da autoria de membros deste sexteto de luxo, quase todos versões de composições que gravaram a solo nos seus discos. Gostava de realçar “Bayinah”, no segundo disco, um original do guitarrista Lionel Loueke e que mostra de forma exemplar o prazer de tocar em conjunto e em romper barreiras e conceitos estabelecidos - afinal é essa a essência do próprio jazz. Nesse sentido este disco é uma introdução perfeita ao que de melhor se faz no jazz contemporâneo. Blue Note All - Stars, “Our Point Of View”, duplo CD distribuído em Portugal pela Universal.

 

PROVAR - Estamos no Verão de S. Martinho - embora o Outono ande tímido e a chuva arredia para mal dos nossos pecados. Esta é a época do ano em que se comem castanhas assadas, acompanhadas de água-pé, uma bebida tradicional que celebra o fim das vindimas e o vinho novo e que as normas comunitárias arredaram das prateleiras, norma que a ASAE se apressou a implementar com o desvelo que aplica às tradições. A água-pé é uma bebida tradicional de Portugal, com baixo teor de álcool, normalmente à volta de oito graus, resultante da fermentação da adição de água ao bagaço da uva e é em geral confeccionada para consumo nos magustos e outras festividades tradicionais do Outono. Tem a tonalidade de um clarete, um sabor suave, bebe-se à temperatura ambiente, mais fresca do que morna e pode ter um leve gasoso. A sua comercialização está proibida - legalmente só pode ser utilizada para consumo familiar do produtor de vinho. Quer isto dizer que ou arranjamos familiares que façam vinho ou teremos que ir à procura de almas caridosas que a dispensem, correndo o risco da ilegalidade. Esta é daquelas situações ridículas - a produção de água-pé não é proibida, a sua comercialização é que é. Assim se dá cabo de uma tradição por obra e graça de uns rapazes em Bruxelas, aos quais o destemido Mário Centeno se quer agora juntar. Eu por mim espero comer castanhas e beber água pé neste verão de S. Martinho. E sei onde a posso encontrar.

 

DIXIT - “É tempo de a China ocupar o seu lugar no centro do palco mundial” - Xi Jiping, Presidente da República Popular da China.

 

GOSTO - A exportação de frutas portuguesas aumentou 40% nos primeiros oito meses deste ano.

 

NÃO GOSTO - Os prazos dos tribunais e da Justiça em Portugal continuam na cauda da Europa.

 

BACK TO BASICS - Mesmo no trono mais sumptuoso a verdade é que apenas estamos sentados no nosso próprio  rabo - Michel de Montaigne

 

 

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publicado às 13:00

Nos resultados das audiências de televisão há uma área que tem vindo a obter importância crescente nos últimos anos – e que está sob a designação genérica de “Outros”. E o que está dentro destes “Outros” ? – desde o Netflix ao You Tube, passando por jogos online e a recepção da AppleTv ou do Chromecast e outros equipamentos do género que começam a ser abundantes no mercado português e que permitem ver um conjunto alargado de conteúdos e canais torneando os operadores tradicionais comno a Nos, a Meo, a Vodafone ou a Nowo. Desde que haja internet de razoável qualidade as propostas de TV destes operadores já não são a forma exclusiva de poder ver TV. Para termos uma ideia na semana passada, este “Outros” valeu em média 10% do total da audiência de TV. No sábado atingiu os 15,1%, bem à frente da RTP1, quase a alcançar a SIC, que nesse dia fez 15,6% de share de audiência. E estes números analisam apenas o que se passa nos aparelhos de televisão, não incluem os dispositivos móveis e laptops onde cada vez mais pessoas vêem conteúdos audiovisuais. Na realidade o consumo de televisão está a mudar de forma drástica. Entre as  poucas coisas que conseguem contrariar esta tendência estão as transmissões directas nomeadamente de futebol. Foi o que aconteceu: o programa mais visto em todos os canais foi o jogo Manchester Unbited – Benfgica, transmitido pela RTP1 e que foi visto por mais de milhão e meio de espectadores.

 

texto publicado originalmente na revista Correio da Manhã, Sexta TV& Lazer

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publicado às 12:10

CRÓNICA DE UM MÊS INESPERADO

por falcao, em 03.11.17

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MUDANÇAS - No espaço de um mês azedou a relação entre Belém e S.Bento, o PCP entupiu um dos motores da geringonça, Francisco Louçã voltou à actividade política oferecendo-se para mecânico da avaria registada e, no PSD, aquilo que prometia poder ser uma passeata cómoda para Rui Rio está a transformar-se numa sucessão de gaffes , que lhe têm saltado da boca mal teve oposição pela frente e que vão mostrando a verdadeira natureza deste Rio - um caudal que não é agradável à vista nem ao ouvido. No final do primeiro semestre deste ano nada indicava que se chegaria a uma situação destas e há muitas razões para isso: as catástrofes ocorridas nos incêndios florestais, a forma como o Governo não encarou a gravidade do problema, a insensibilidade de António Costa e a sua recusa da realidade, os descalabros nas eleições autárquicas - que fizeram despertar o PCP e o PSD do estado em que andavam. O que se vai sabendo do orçamento (e do seu anexo incontornável que são as cativações) mostra que o estado de austeridade continua e se agravou, embora mascarado, como se isto fosse um Halloween permanente. Mário Centeno é o aprendiz de ilusionista de falinhas mansas - desloca moedas de um bolso para outro e no percurso perdem-se umas e surripiam-se outras: perdem-se as das cativações e surripiam-se as que estão em taxas e taxinhas. Se a oposição ficar séria e eficaz Costa vai ter um 2018 menos tranquilo do que esperaria.

 

SEMANADA - Na lista do material roubado de Tancos e que apareceu na Chamusca figura uma caixa de petardos que não estava na relação inicial de items furtados; os Açores e a Madeira são as regiões com números mais elevados de violência doméstica; entre Janeiro e Agosto foram vendidos menos 34488 jornais e revistas por dia nas bancas; a taxa de desemprego de jovens abaixo dos 24 anos subiu para 25,7% - a média na zona euro é de 20,3%; o próprio Estado não cumpre uma lei de 2010 que estabelece uma quota de emprego para deficientes na administração central e local; foi agora revelado que a Força Aérea tem equipamento que permite detectar incêndios e reacendimentos na sua fase inicial mas ele não foi utilizado nos períodos em que ocorreram os incêndios mais graves; a protecção civil dispensou militares de patrulhas nocturnas de vigilância, precisamente a altura em que surgiam mais fogos; o PCP acusou o Governo de ter subestimado os perigos reais dos fogos; os bombeiros do Seixal estão à beira da falência; por cada cem euros de rendimento as famílias portuguesas só amealham cinco e a poupança está em mínimos históricos; a DECO recebeu pedidos de ajuda de 26.080 famílias sobre-endividadas até 25 de Outubro, mais de oitenta pedidos por dia; em 2016 foram registados em Portugal mais de nove mil crimes informáticos; dirigindo-se aos deputados do PSD, Rui Rio afirmou que em matéria de política financeira “faria igual a Maria Luís, ou pior”.

 

ARCO DA VELHA - O líder catalão Carlos Puigdemont proclamou a república em Barcelona e no dia seguinte fugiu para uma monarquia na Bélgica.

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FOLHEAR - Jonathan Swift foi um escritor anglo-irlandês, nascido na segunda metade  do século XVII e que se tornou conhecido pela sua prosa repleta de ironia, pelos panfletos políticos que escreveu para trabalhistas e conservadores e, sobretudo pelo seu clássico “As Viagens de Gulliver” - que em muitos pontos tem abundante sátira política. A obra relata as aventuras de um viajante destemido,  um médico inglês, que depois de um naufrágio descobre civilizações fantásticas onde a excentricidade existe aliada à cupidez e a inveja naturalmente à intriga. Mas este livro extraordinário é também povoado de utopias, desde ilhas voadoras habitadas por intelectuais, gente que nunca morre, marinheiros, piratas e até um capitão de origem portuguesa. Editado originalmente em 1726, sem ser assinado pelo autor, as Viagens de Gulliver rapidamente se tornaram num êxito. George Orwell disse que “se tivesse de fazer uma lista de seis livros a serem preservados, quando os demais fossem destruídos, poria certamente “As Viagens de Gulliver” nessa lista.”  E Jorge de Sena escreveu que por esta obra perpassava “ o espírito da medonha sátira contra a humanidade e a vida”. O título original do livro era  “Viagens a Diversas Nações Remotas do Mundo, em Quatro Partes, Por Lemuel Gulliver, primeiro como cirurgião, depois como capitão de vários navios”. Assim Gulliver visita Lilipute onde é um gigante, Brobdingnag onde parece um anão, até aos territórios da terceira viagem que desemboca no Japão e na quarta viagem que o leva a um mundo onde há cavalos dotados de razão.  Editado pela Guerra & Paz na colecção Clássicos.

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VER - Há 15 anos João Esteves de Oliveira fundou a sua Galeria, no Chiado, depois de uma carreira na banca. Posicionou-a como um espaço de exposição para obras em papel, uma declaração de princípios a favor da rigorosa arte do desenho. O papel, o seu suporte de escolha na arte que apresentou e na sua relação com artistas, fez a sua diferença enquanto galerista. Foi uma opção que manteve ao longo dos anos e que lhe permitiu apoiar o trabalho de jovens artistas, como tem feito anualmente, mas também das mais de seis dezenas de nomes incontornáveis da arte contemporânea portuguesa que lá expuseram. Há um lado de mercado nesta opção - para quem quer uma boa obra de arte, o suporte em papel é mais acessível. Ocasionalmente expôs esculturas, pintura que invadiu o papel e, uma vez ou outra, suportes diferentes. Assinalando década e meia da sua galeria João Esteves de Oliveira, chamou pela segunda vez para o seu espaço trabalhos de Manuel Caldeira, neste caso guaches sobre papel, com o nome genérico de “Spettacolo”. João Esteves de Oliveira, Galeria de Arte Moderna e Contemporânea, Rua Ivens 38. Outras sugestões: No Atelier Museu Júlio Pomar (Rua do Vale 7, Bairro Alto), e integrado no programa “O Passado e o Presente” no âmbito de Lisboa Capital Ibero Americana da Cultura 2017, abriu a colectiva TAWAPAYERA, com curadoria de Alexandre Melo, que inclui trabalhos de Júlio Pomar, Tiago Alexandre, Igor Jesus e Dealmeida e Silva. Por fim a iniciativa British Bar, organizada por Pedro Cabrita Reis, inaugurou a sua sétima apresentação e nas montras estão até final do mês obras de Diogo Seixas Lopes, João Pedro Vale e Júlio Pomar.

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OUVIR - No ano de 1982 Manchester era uma cidade assolada pelo encerramento de muitas indústrias que a tinham tornado uma das mais prósperas zonas de Inglaterra A cidade estava em crise mas da crise nascia um importante pólo criativo, em torno da Universidade local, do clube The Haçienda e da ousadia criativa de Tony Wilson, que havia fundado a Factory Records ( a casa dos Joy Division, Durutti Column ou A Certain Ratio, entre tantos outros). Foi em 1982 que quatro rapazes, Steven Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce fundaram The Smiths, recusados pela Factory Records, mas que rapidamente se tornaram notados - graças ao génio de Morrissey e Marr e a uma outra editora independente, a Rough Trade. O primeiro álbum foi editado em 1984, chamava-se simplesmente “The Smiths” e incluía temas como "Reel Around the Fountain" e "The Hand That Rocks the Cradle". Quatro anos depois saíu o seu terceiro disco, por muitos considerado a sua obra-prima, “The Queen is Dead”, gravado no final de 1985 e editado em 1986. Na realidade The Smiths eram mais uma ideia, um estado de espírito musical, do que uma banda - e a esse nível a sua influência na música britânica estendeu-se ao longo das décadas seguintes. The Smiths era um estilo, uma maneira de escolher palavras (escritas e cantadas por Morrissey), sobre ideias musicais muitas vezes surpreendentes de Marr.“The Queen Is Dead” é talvez o disco que mais mostra essa faceta do seu trabalho. Agora, 30 anos depois, sai esta edição especial, que recupera o alinhamento original do álbum, numa nova masterização, junta-os a versões alternativas, gravações demo, lados B de singles, além da gravação de um concerto realizado em Boston em Agosto desse ano e ainda um DVD com um filme realizado por Derek Jarman e que é uma evocação de “The Queen Is Dead”. Caixa The Queen Is Dead, edição Warner, disponível na FNAC e El Corte Ingles.

 

PROVAR - Gosto de fruta da época e esta é a altura do ano em que os sabores explodem - das castanhas aos dióspiros, passando pelos marmelos, essa matéria prima excelente de tantos prazeres. Sem brejeirice, gosto de marmelos de quase qualquer maneira - como acompanhamento, cortados ou em puré, como sobremesa, cozidos em calda ou assados no forno. Mas, sobretudo, esta é a altura ideal para se confeccionar e comer as várias variadas de doçaria marmeleira. A geleia de marmelo, por exemplo, só é boa fresca - se fôr com nozes - outro fruto da época - melhor ainda. Umas panquecas com geleia de marmelo fresca por cima batem aos pontos qualquer outra combinação possível. Mas o melhor de tudo é comer marmelada fresca, sozinha, no pão ou, melhor que tudo, a acompanhar um queijo - pode ser um flamengo açoriano de boa qualidade, um queijo de S. Jorge (ainda melhor) ou um queijo de Serpa bem curado. O marmelo é um fruto duro e trabalhoso, demora horas a preparar e a cozinhar. Se não tiver paciência para isso, há uma solução em Lisboa no que toca a marmelada e geleia - a Confeitaria Cistér, na Rua da Escola Politécnica 101, frente à faculdade de Ciências e que foi fundada em 1838 sob o nome Confeitaria Portuguesa. Aí encontra aquela que os seus produtores dizem ser a melhor marmelada do mundo e uma geleia de marmelo que não lhe fica atrás. Divirtam-se com o Outono, ele é cheio de coisas boas.

  

GOSTO - Manuel Maria Carrilho, ex-Ministro da Cultura de Guterres,  foi condenado a quatro anos e meio de prisão por crime de violência doméstica contra Bárbara Guimarães.

 

NÃO GOSTO - Mário Centeno bloqueou a utilização da verba, dada em 2015 pelo então Ministro da Saúde, necessária para ampliar a capacidade do bloco operatório do Instituto Português de Oncologia em Lisboa

 

BACK TO BASICS - “A utopia está sempre dois passos à minha frente. Eu dou dois passos e ela afasta-se. Então serve para quê? Para eu continuar a andar”  - Eduardo Galeano.

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publicado às 09:32

 

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O ESTADO DAS TVs - Até agora, este ano, oito dos dez programas de televisão mais vistos foram emitidos pela RTP1 e têm em comum o facto de serem transmissões de jogos de futebol, quer da seleção nacional, quer de equipas portuguesas em provas internacionais. Os outros dois programas deste top-ten televisivo foram da TVI: um deles é também a transmissão de um desafio de futebol, no caso um jogo de preparação da seleção nacional, e o outro é “Pesadelo na Cozinha”. A SIC tem até agora apenas um programa no Top 15, a novela “Amor Maior”, na 14ª posição. Na média anual a RTP1 tem 12,3% de share, a SIC regista 16,4% e a TVI lidera com 20,4% . A RTP2, pelo seu lado, regista uma média de 1,5%. No cabo o líder é o CMTV com uma média de share este ano de 2,2%, seguido da SIC Notícias com 2% e a TVI24 com 1,5%. Mas estes dados devem também ser interpretados de um outro ponto de vista: como está a evolução do comportamento dos espectadores de televisão? No global, este ano em Portugal, cada espectador está a ver cerca de menos 25 minutos de televisão por dia do que acontecia no ano passado. E se os canais generalistas são os mais atingidos (RTP, SIC e TVI), a verdade é que também os canais de cabo não crescem ao ritmo da perda dos generalistas - o que está a aumentar é o consumo de outras formas de visionamento, nomeadamente as emissões na internet, em streaming, como a Netflix e outros - sobretudo o YouTube que em Portugal tem 4,8 milhões de utilizadores regulares e que algumas estimativas indicam ser a principal forma de visionamento de vídeos utilizado pelo segmento entre os 15 e os 24 anos. Como se vê pelos números do início desta nota são as transmissões em directo, nomeadamente as desportivas, que conseguem captar maior audiência. O resto, que pode ser visto em diferido em qualquer momento, vai gradualmente passando para segundo plano. É esta a realidade: a forma de ver TV está a mudar mais depressa do que se pensava vir a acontecer.


SEMANADA - Portugal lidera os rankings europeus de área ardida e é dos países que menos gasta no combate aos incêndios, metade da média da zona euro; segundo uma contabilização feita pelas autarquias nos recentes incêndios arderam 1400 casas e 510 fábricas, 1034 veículos e 1755 construções de diversa natureza; um milhão de bicas de resinas de pinheiros foram destruídas nos fogos deste ano, um número que representa 20% da área resinada em Portugal, e há  200 postos de trabalho em risco; os assaltos a caixas multibanco triplicaram nos seis primeiros meses do ano, em comparação com igual período do ano passado; o aeródromo municipal de Viseu registou no ano passado 9119 movimentos de aviões, em comparação com os 800 movimentos registados no aeroporto de Beja nos últimos seis anos; no ano passado registaram-se em Portugal, por dia, 61 divórcios e 89 casamentos; desde o início do ano os portugueses gastaram 97 milhões de euros por dia em compras com cartões multibanco; um estudo do Instituto Português de Administração e Marketing indica que Cristiano Ronaldo é o jogador mais valioso do mundo e também a marca mais valiosa - a marca Ronaldo cresceu quase 50% em relação ao ano anterior e já vale 102 milhões de euros; na campanha para as directas do PSD Rui Rio rejeitou a proposta do seu adversário, Pedro Santana Lopes, para que se realizem debates a dois em todas as distritais do partido; o Supremo Tribunal de Justiça reduziu as penas de prisão aplicadas a um casal que escravizou uma rapariga romena, durante mais de quatro anos, depois de a Relação as ter agravado.


ARCO DA VELHA - Um recente acórdão da Relação do Porto desculpa a violência doméstica em caso de adultério e os juízes escreveram preto no branco que  “se vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”.

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FOLHEAR - Cem anos passados sobre a revolução de Outubro já se consegue olhar de forma fria para tudo o que se passou. “Revolução de Outubro – Cronologia, Utopia e Crime”, de Manuel S. Fonseca, é uma cronologia dos factos políticos ou sociais reveladores do que se passou nomeadamente durante os meses que vão de Fevereiro a Outubro de 1917. O livro acompanha a revolução no dia a dia, do enforcamento do irmão de Lenine à morte do dirigente da revolução e entrada do seu corpo no mausoléo. Esta não é uma cronologia indiferente ou neutra: o autor arriscou ir buscar ao «lixo da História», para onde Trotski os quis lançar, o pensamento e os esforços dos revolucionários que queriam «toda a democracia» e recorda que Outubro pôs fim ao pluralismo da esquerda e à democracia participativa que a Revolução de Fevereiro criara na Rússia. Como pôde um partido minoritário e extremista tomar o poder no maior país do mundo? de acordo com Manuel S. Fonseca, sem a I Grande Guerra, não teria havido revolução, sem Lenine, a Revolução não teria sido em Outubro, sem o Terror Vermelho, o povo teria apeado os bolcheviques do poder. E sublinha: “Talvez a revolução tenha sido, afinal, uma contra-revolução, com tudo o que as contra revoluções trazem: ditadura, prisão, tortura, fome e morte”. A cronologia é acompanhada de extensa documentação fotográfica, o livro tem um surpreendente grafismo de Ilídio Vasco e ajuda, cem anos depois, a compreender aquele tempo e como foi possível em nome de um ideal que parecia nobre, criar o monstro - a tomada de poder, escreve-se nas conclusões, vem instilada pelo virus totalitário . Edição Guerra & Paz.

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VER - Os espelhos são objetos muito interessantes devido à sua capacidade de nos transportar a outras dimensões, permitindo-nos ver o que parecemos ser - selfies antes de existirem smartphones. Ao longo da História, o artistas recorreram aos espelhos com diferentes propósitos, ora para revelar ora para disfarçar aspetos das cenas que representam. “Do Outro Lado do Espelho”, título que remete intencionalmente para o mundo de Alice Liddell, a heroína de Lewis Carroll, é uma nova exposição no Museu Gulbenkian, constituída por 69 obras e está dividida em cinco núcleos temáticos, precedidos por três figuras introdutórias: uma escultura que funciona como convite à visita, uma pintura que introduz o tema da mostra e um espelho-objeto. Com curadoria de Maria Rosa Figueiredo, é uma exposição temática, que tem o espelho como foco principal e que pretende demonstrar a sua presença na arte europeia, sobretudo na pintura, mas também em obras com outros suportes, como escultura, arte do livro, fotografia e cinema, com obras de Eduardo Luiz, Cecília Costa, Noé Sendas (o autor da imagem aqui reproduzida) , Paula Rego, Richard Hamilton e Daniel Blaufuks, entre outros. Se fôr à Gulbenkian aproveite para descobrir “Ana Hatherly e o Barroco”, com curadoria Paulo Pires do Vale e que permite entender como a investigação e experimentação de Ana Hatherly revalorizou o período histórico do Barroco. Destaque ainda para a exposição que assinala os 30 anos da Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2), com um mural colectivo, em azulejo, o suporte que é o foco de trabalho da Galeria fundada por Ana Viegas. Este mural evoca a Carta de Lisboa, uma iniciativa cívica do Fórum Cidadania e que gerou uma obra que contou com a participação de Lourdes Castro, Manuel Vieira, Pedro Proença, Jorge Martins, Andreas Stocklein e Sofia Areal, entre outros.

 

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OUVIR - Para assinalar o centenário do nascimento de Ella Fitzgerald foi lançado um disco que é o perfeito exemplo do que a manipulação tecnológica permite fazer. Com base em gravações de Ella Fitzgerald feitas entre 1950 e 1961,  a London Symphony Orchestra adicionou novas orquestrações que substituíram os arranjos originais onde na maior parte dos casos predominava o piano. Além da orquestra, a voz de Ella Fitzgerald, remasterizada digitalmente, ganhou novo acompanhante num dos temas, com Gregory Porter. As gravações originais, feitas em mono, deram um suporte precioso para esta manipulação, polémica, mas que em muitos momentos faz destacar a voz da grande senhora. O repertório escolhido percorre vários temas de Cole Porter, como “Misty," "Bewitched," "These Foolish Things (Remind Me Of You) e " "I Get A Kick Out of You”, assim como duetos com Louis Armstrong em "Let's Call The Whole Thing Off" e "They Can't Take Away From Me”. A última faixa, “With A Song In My Heart”, é um magnífico exemplo da extraordinária forma vocal de Ella na época das gravações originais, ao lado do pianista Elli Larkin. Ella Fitzgerald, with the London Symphony Orchestra - Someone To Watch Over Me, CD já disponível em Portugal.


PROVAR - Os doces e compotas portugueses têm melhorado muito nos últimos anos e cito aqui apenas o exemplo da produção da Quinta da Prisca. No entanto há ainda uma coisa que falta - um bom doce de laranja amarga, algo melhor que o da Casa de Mateus, que é, mesmo assim, o mais sofrível. O que é preciso é que alguém consiga igualar a qualidade dos doces feitos desde 1938 na Escócia pela empresa familiar Mackays - sobretudo a Dundee orange marmalade. As laranjas vêm da região de Sevilha e os potes de cobre, aquecidos a vapor, são feitos por artesãos locais. Como começou este doce de laranja de Sevilha no meio da Escócia ? No meio de uma tempestade um navio espanhol abrigou-se no porto de Dundee no século XVIII e o carregamento de laranjas de Sevilha foi comprado por um comerciante local que descobriu que as laranjas eram amargas. A mulher resolveu fervê-las com açúcar e assim nasceu o doce de laranja de Dundee. A mesma empresa produz também a Mackays vintage dundee marmalade, mais espessa, com casca em corte grosso, boa consiste para barrar torradas. À venda nos bons supermercados e na magnífica loja Ayur, na avenida Visconde Valmor 34, onde existem quase todas as variedades produzidas pela Mackays ( também vale a pena provar a de gengibre com especiarias).


DIXIT - “Convém que as escolhas de um primeiro-ministro não coincidam com as fotografias do livro de curso da sua classe de Direito de 1982 sempre que é preciso remodelar”- João Miguel Tavares.


GOSTO - Ricardo Araújo Pereira vai fazer vários espectáculos pelo país e doar a receita às famílias das vítimas dos incêndios.

NÃO GOSTO - De um sistema judicial que permite que juízes citem passagens bíblicas para justificar o injustificável.


BACK TO BASICS - Devemos estudar o passado se quisermos definir o futuro -  Confúcio

 

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 28 de Outubro)

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publicado às 15:28

OS INCENDIÁRIOS DA HISTÓRIA

por falcao, em 20.10.17

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OS INCENDIÁRIOS DA HISTÓRIA - É uma terrível coincidência que dias depois de o Governo tentar fazer esquecer e subalternizar o relatório sobre o incêndio de Pedrógão Grande uma nova catástrofe tenha colocado ainda mais a nu o que então tinha corrido mal, e que agora se repetiu. Os spin doctors que na semana passada andaram a tentar colocar o relatório debaixo de resmas de assuntos saíram-se agora com uma teoria de conspiração terrorista que atribui à direita a autoria dos incêndios, como estratégia para enfraquecer o Governo da esquerda. Da Roma antiga à ascensão nazi na Alemanha a História está cheia de manobras destas e sabe-se o que elas provocaram. A conspiração que existiu foi a que mudou em Abril a maioria da estrutura de comando da Protecção Civil, trocando quadros experientes por boys inexperientes, da direcção nacional aos comandantes distritais, como o relatório que se queria esquecer diz claramente; a conspiração que existiu foi a de quem, contra as previsões metereológicas e conselhos de especialistas, desmobilizou a 1 de Outubro o dispositivo de combate a incêndios retirando operacionais e meios pesados, reduzindo praticamente a metade a capacidade antes existente. Nesta matéria Centeno e Costa têm responsabilidades - o primeiro porque com as sua austeridade camuflada apertou os ministérios e forçou poupanças perigosas e o segundo porque não resistiu ao apelo de umas nomeações de favor que uma governante incapaz executou com mais desvelo do que a sua missão principal, que é a de proteger os cidadãos. Os erros do passado, de várias décadas, contam a nivel estratégico (florestas, ordenamento, etc) mas os erros tácticos e conjunturais contam muito - e este ano foram múltiplos, com o desgraçado resultado que se conhece. Há o nível do ordenamento florestal, há o nível do combate aos incêndios e há o nível da proteção das vidas humanas. O Estado falhou em todos os níveis. O único terrorismo que aqui vislumbro é o terrorismo de Estado. Não podemos mudar o passado, mas podemos melhorar o futuro.

 

SEMANADA - Este ano já morreram mais pessoas em incêndios florestais que no conjunto dos últimos 15 anos; no orçamento de Estado de 2017, em vigor, o governo fez um corte de 12% nas verbas para meios de prevenção e combate a fogos florestais, em relação ao que estava no Orçamento de 2016; a Rede Nacional dos 236  Postos de Vigia à floresta foi desactivada a 1 de Outubro por fim do contrato a prazo dos elementos que os integravam; na mesma data o Governo reduziu para metade os meios de combate a incêndios, apesar das previsões metereológicas desfavoráveis; os gastos de gabinetes governamentais estimados no orçamento para 2018 estão acima dos verificados nos governos de Sócrates, que eram superiores aos verificados no governo de Passos Coelho; as novas despesas do Estado somam quase 500 milhões de euros em 2018; o corte no défice de 1% é todo feito pela via da receita, ou seja, mais impostos, taxas e taxinhas; o orçamento prevê um aumento de 2,6% nas receitas com taxas e multas, que atingirão 3 mil milhões de euros; aumento do orçamento do Ministério do Ambiente: 75,8%; aumento do orçamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros: 10,9%; aumento do orçamento do Ministério das Finanças: 18,7%; aumento do orçamento do Ministério do Planeamento: 20,1%; aumento do orçamento do Ministério da Cultura: 11,3%; aumento do orçamento do Ministério da Administração Interna: 5,9% aumento do orçamento o Ministério da Saúde: 2,4%; diminuição do orçamento do Ministério da Educação: 2,9%.

 

ARCO DA VELHA - Segundo o Tribunal de Contas a Administração central do Sistema de Saúde falseou tempos de espera a consultas e cirurgias nos hospitais e entre 2014 e 2016 mais de 27 mil doentes ficaram em lista de espera por uma cirurgia, dos quais 2600 morreram antes de serem operados.

 

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FOLHEAR - Em Portugal, como em muitos países com História e tradições, há variações idiomáticas regionais, que vão da pronúncia até à existência de  palavras e expressões que só se usam localmente - é o que acontece por exemplo em Trás-Os-Montes onde uma capilota é uma sova, um farsolento é um vaidoso, uma novilheira é uma pessoa que tem sempre novidades ou unguento pode querer dizer dinheiro. Por isso mesmo Cidália Martins, José Pires e Mário Sacramento compilaram o  “Dicionário de Palavras Soltas do Povo Transmontano”.  Com mais de 10 200 palavras e expressões típicas de Trás-os-Montes, desde o vocabulário em vias de extinção, passando pelo calão, pela gíria, até às palavras e expressões castiças reinventadas pela nova gente transmontana, este dicionário surge como  um valioso instrumento para dar a conhecer o vasto património da língua portuguesa cuja grande riqueza reside na sua diversidade. No prefácio, o Professor Adriano Moreira classifica este dicionário como “uma obra prática, leve e lúdica” e recorda que “ a língua é uma essencial expressão da identidade dos povos”, sublinhando que “o nosso idioma global também vive e renasce no singular, no que é específico de determinadas localidades, regiões, aldeias”. Edição Guerra & Paz.

 

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VER - Na Culturgest estão duas exposições notáveis, ambas com curadoria de Delfim Sardo, ambas exemplos da diversidade criativa norte-americana do final da década de 60 e década de 70 do século passado. Começo por “Splitting, cutting, writing, drawing, eating...Gordon Matta Clark”, que mostra o percurso de um dos mais marcantes artistas norte-americanos da sua geração - morreu em 1978 com 35 anos. Arquitecto de formação, Matta-Clark fez desenho, escultura, interviu em edifícios devolutos desconstruindo a sua estrutura e fez performance em espaços públicos - de que é bom exemplo o restaurante Food, um ponto de encontro de artistas, aqui recordado num filme de Matta-Clark e de Robert Frank (o fotógrafo da obra The Americans). A outra exposição, “Time Capsule”,  é dedicada à revista “Aspen”, um projecto fascinante criado em 1965 e que durou até 1971, publicando dez números, na época disponíveis apenas por assinatura. A publicação foi concebida como uma caixa dentro da qual vinham diversos materiais, uns impressos, outros gravados, como discos, e até filme em bobine. Cada número tinha um editor e  designer diferente e a Aspen tornou-se num espelho de novas tendências. A exposição mostra todos os números da revista a partir da colecção de António Neto Alves, que demorou cerca de uma dezena de anos a conseguir obter todas as edições. Para além dos exemplares da Aspen, a exposição contextualiza cada número com o auxílio de diverso material complementar. É sobretudo empolgante pensar como a “Aspen” foi criada a partir de um suporte tradicional em papel, que em diversas ocasiões juntou registos de som e de imagem, quase de forma premonitória em relação ao que hoje é possível fazer em publicações de suporte digital e distribuição na internet.  Imperdível, até 7 de janeiro.

 

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OUVIR - Miles Davis começou a gravar para a etiqueta Prestige em 1951 e em 1955, depois do êxito obtido no Festival de Newport, foi para estúdio com o seu quinteto e gravou, em três extensas sessões, realizadas no final de 1955 e em 1956, uma série de discos hoje considerados o ponto de viragem decisivo da sua música. “The Legendary Prestige Quintet Sessions” é uma caixa de quatro CD’s, originalmente editada em 2006, agora reeditada e disponível no mercado nacional. O disco 1 recolhe gravações editadas no LP “The New Miles Davis Quintet”, que incluía John Coltrane no saxofone, Red Garland no piano, Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria, além de Miles no trompete. O disco 2 recolhe temas gravados nos LP’s “Relaxin’ With The Miles Davis Quintet” e “Steamin’ With The Miles Davis Quartet”. O disco 3 recolhe gravações dos LP’s “Miles Davis and the Modern Jazz Giants”, “Workin’ with the Miles Davis Quintet” e “Cookin’ With The Miles Davis Quintet”. O disco 4 recolhe gravações feitas em programas de rádio e televisão, que aqui tiveram a sua primeira edição em disco e também alguns solos de Davis registados durante as sessões de estúdio. As gravações foram remasterizadas a partir das fitas originais e a caixa inclui um livro de 52 páginas com um texto de Bob Blumenthal que permite enquadrar a forma como tudo se passou. Disponível na FNAC e El Corte Ingles.


PROVAR - A chef Luísa Fernandes ganhou fama em Nova Iorque, para onde foi aos 49 anos, depois de ter sido paraquedista e enfermeira: começou como pasteleira num restaurante português, o Alfama, e , depois de ter estado no Galitos, Park Blue e Nomad, terminou como Chef num dos mais prestigiados restaurantes nova-iorquinos, o Robert. Há menos de um ano regressou a Portugal e há poucos meses abriu junto à Avenida da Liberdade o seu próprio restaurante, “Peixe na Avenida”. Focado no tema do mar tem uma decoração sóbria e confortável. Ao almoço há uma proposta de menu executivo por 14 euros (entrada, um prato à escolha entre três propostas, sobremesa, bebida e café). À noite há uma carta com uma boa diversidade de propostas, que contempla incursões em, ceviche, sushi e sashimi, todos com um toque português. Numa recente visita a mesa provou atum braseado com escabeche de uvas e cebola roxa, ceviche de atum rabilho dos açores, sushi de atum com tempura de batata doce, pargo selvagem com batata vitelote e peixinhos da horta, bacalhau asiático com couve bok choi e arroz de bambu selvagem e ainda um bacalhau mais português, escalfado em azeite com esmagada de batata e nabiças. O destaque vai para o ceviche, o atum braseado e para o bacalhau asiático. A sobremesa foi uma tarte tartin de maçã servida com um surpreendente gelado de violeta. O vinho da casa é Quinta da Pacheca e revelou-se uma boa companhia. O Peixe na Avenida fica ao fundo da rua Conceição da Glória, no número  2, na esquina com a Avenida da Liberdade. Encerra à segunda, sábado e domingo aberto ao jantar. Telefone 309765939

 

DIXIT - “Como se estão a criar muitos compromissos futuros assentes numa economia de redistribuição, e não numa economia de investimento, temo que no futuro fiquemos na maré vazia e sem calções, como já sucedeu” - João Duque, professor do ISEG, sobre o Orçamento de Estado

 

GOSTO -  Da frontalidade da comunicação ao país de Marcelo Rebelo de Sousa na noite de terça-feira

 

NÃO GOSTO - Do cinismo da comunicação ao país de António Costa na noite de segunda-feira

 

BACK TO BASICS - «O Estado é o mais frio de todos os monstros. Ele mente friamente.  Da sua boca sai esta mentira: “Eu, o Estado, sou o povo.”» - Nietzsche.

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publicado às 12:00

O DESTINO MARCA A HORA

por falcao, em 13.10.17

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TIC-TAC - O relógio da política, que estava parado há uns tempos, voltou a andar, as autárquicas deram mesmo um abanão ao estado das coisas. O PSD tem uma oportunidade de voltar a fazer oposição e o PCP já começou a mostrar que reactivou a política de rua - está visto que vamos ter mais greves nos próximos tempos. Cada um destes dois partidos procura recuperar a sua identidade, perdida no caso do PSD por uma incompreensão do que tinha mudado no país e, no do PCP, pelos travões que lhe foram impostos pela geringonça. No PSD a luta interna vai ser dura entre a ala de Rio, apoiado pela previsível velha guarda do partido e Pedro Santana Lopes, que quer uma renovação de pessoas e de ideias. Qualquer dos dois não está no Parlamento nem nos habituais poisos do regime - o que coloca em vantagem Santana Lopes, mais experiente a fazer comunicação fora do círculo institucional. Para além das pessoas o que está em causa tem a ver com o funcionamento dos partidos e do sistema político: quem quer dar mais voz aos cidadãos? Quem vai conseguir envolver e cativar simpatizantes, apoiantes, independentes, fazendo o partido crescer para além do seu aparelho? No fim do dia quem quer mesmo afirmar a diferença? Já se percebeu que de um lado está um candidato que prefere não aceitar perguntas de jornalistas, como Rio fez na apresentação da sua candidatura e, do outro, alguém que aprecia uma boa polémica e gosta de correr riscos, como Santana Lopes. Entre a pressão do PCP e o reviver do PSD António Costa vai ter um fim de legislatura mais agitado que esperava. Imaginou, talvez, que poderia ensaiar uns passos de dança com Rui Rio, pode ser que em vez disso lhe reste continuar a dançar o tango com Catarina Martins.

 

SEMANADA - O investimento público previsto no Orçamento de Estado de 2018 será inferior ao do último ano do governo de Passos Coelho e equivale a menos de 2% do PIB, que é o valor mais baixo da Europa; em 2016 o Estado concedeu cerca de 2500 milhões de euros em benefícios fiscais a entidades sujeitas a IRC; cem mil famílias não vão ter descida no IRS; nos últimos dois meses e meio verificaram se 29 assaltos à bomba a caixas multibanco; desde 2015 já ocorreram 215 insolvências de farmácias; a marca Elefante Branco, registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial,  está à venda por um valor base de  cinco mil euros; em Portugal realizaram-se 850 transplantes de coração em 30 anos, e o país está no 12º lugar europeu neste tipo de cirurgias; há 1672 obesos à espera de cirurgia adequada, mais 10% que no ano passado; a entidade reguladora da saúde recebeu 49 mil queixas nos primeiros oito meses do ano; em Portugal a penetração das redes sociais aumentou quase três vezes e meia entre 2008 e 2017, passando de 17.1% para 59.1%, segundo a Marktest; um milhão e 807 mil os portugueses costumam jogar online, segundo os resultados do estudo Bareme Internet 2017; o número de alunos cresce há quatro anos seguidos nas universidades privadas que este ano registaram 20 600 novas entradas; temos 140 reclusos por cada 100 mil habitantes e a idade média dos detidos é de 39,7 anos; a nova lei de estrangeiros já legalizou cadastrados violentos em Portugal.

 

ARCO DA VELHA- A concessionária dos cacilheiros, Soflusa, reagiu aos protesto dos utentes sobre os enormes atrasos devido à greve que afecta os seus barcos, pedindo paciência aos passageiros que se deslocam para o trabalho e sugerindo que evitem as horas de ponta.

 

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FOLHEAR - O futebol não é coisa que me excite - não acho grande graça ao assunto. Mas fico sempre fascinado pelo entusiasmo que suscita, pela paixão que se sente, e pelas conversas infindáveis que proporciona. O que se passa nalguns canais de televisão do cabo é sintomático - há uns rapazes que analisam a bola como se estivessem a analisar um tratado filosófico, outros que se insultam como se estivessem ébrios numa taberna e outros ainda que vibram como se estivessem num Indiana Jones. Reconheço que o futebol é bom motivo de conversas -  mas há há muito que recomendei ao meu barbeiro que não me falasse de futebol e se um taxista tenta começar num relato sobre o Jesus ou o Vitória desato a falar da uber e lá me vou safando. Mas sei que o futebol é uma paixão - que vem de miúdo quando se joga na rua, numa praceta, em qualquer lugar. “Houve um tempo em que o futebol era um prazer barato que se jogava ao domingo. Não era difícil que alguém se apaixonasse por aquele jogo de regras simples, com artistas que fintavam os adversários e marcavam golos” - esta descrição está em “Futebol, o estádio global”, uma nova edição dos Ensaios da Fundação Francisco Manuel Dos Santos, escrita por Fernando Sobral (declaração de interesse: meu amigo e companheiro de muitas páginas). Fernando Sobral fala da evolução do jogo, com o saber de um conhecedor e a distância fleumática de um atento observador que o caracteriza - e que lhe permite falar das relações entre futebol, marcas, economia, mídia, poder e política, sempre com uma frase de fundo: “para os adeptos o futebol é quase tudo”. Até eu fiquei mais interessado pelo futebol depois de ler este livro. “O futebol não tem fronteiras, acaba com elas”, como diz Fernando Sobral.

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OUVIR - Alfredo Rodrigo Duarte, Alfredo Marceneiro para toda a vida, nasceu em 1891. Marceneiro de profissão, tornou-se fadista por vocação e assim ficou conhecido. Tive a felicidade de o ouvir cantar e até, eu miúdo ainda, de o ouvir a falar à volta de uma mesa. Era um homem fascinante, uma voz impressionante e, sobretudo, um sentir especial que transmitia a cantar o seu fado. Até hoje nunca tinha percebido as semelhanças que existem, de facto, entre Camané e Marceneiro - tão distantes no tempo um do outro. Mas ao fazer um disco de homenagem a Alfredo Marceneiro, Camané expôs essa semelhança. E o maior ponto dessa semelhança é na alma, no tal sentir do que se canta. Logo na faixa de entrada, “Cabaré”, Camané canta ao que vem - não é a um despique, é a uma homenagem feita com a voz que faz ouvir o coração. Sou dos que considera Camané o grande fadista português surgido na segunda metade do século XX - para mim não há outro como ele na intensidade, na capacidade de interpretação, na comunicação que estabelece - na emoção que transmite - será isto o Fado? Ouvir estas versões de “Olhos Fatais”, “Ironia”, “Empate Dois a Dois”, “Despedida”, “Lembro-me de Ti” e, sobretudo “O Remorso” é  uma experiência extraordinária. Simples mas intenso, criativo mas respeitador, inesperado mas tradicional, Camané fez desta homenagem a Marceneiro o grande disco de Fado dos últimos anos. Destaque ainda para  a produção exemplar de José Mário Branco, para a guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o extraordinário trabalho de baixo de Carlos Bica. “Camané Canta Marceneiro”, CD Warner, disponível numa edição especial com CD e DVD ou apenas CD.

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VER - Lu Nan, fotógrafo chinês e correspondente da agência fotográfica Magnum mostra no Museu Berardo uma longa marcha, a preto e branco: "Trilogia - Fotografias (1989-2004)" inaugurou esta semana (na imagem) e é uma mostra parcial de um trabalho que Lu Nan realizou ao longo de 15 anos por toda a China. Dividida em três partes a exposição mostra a realidade dos hospitais psiquiátricos da China, segue depois a estrada da fé católica e termina com o dia a dia dos camponeses tibetanos. O curador desta exposição, João Miguel Barros, advogado português apaixonado pela fotografia (e pelos fotógrafos chineses em particular) escreveu que o inferno, o purgatório e o paraíso da "Divina Comédia" de Dante Alighieri não andam muito longe daqui."Lu Nan, Trilogia - Fotografias (1989-2004)" fica no Museu Coleção Berardo, CCB, em Lisboa, até 14 de janeiro, onde podem também ser comprados os três livros que compõem esta Trilogia: The Forgotten People: The Condition of China’s Psychiatric Patients; On The Road: The Catholic Faith in China e Four Seasons: Everyday Life of Tibetan Peasants. Passando para outra sugestão, ainda na fotografia, até 29 de Dezembro pode ser vista na Casa da América Latina uma exposição do trabalho de Daniel Mordzinski  que retratou dezenas de escritores ao longo da sua vida. Para mudar de registo o MAAT propõe uma exposição sonora - uma instalação áudio de Bill Fontana, “Shadow Surroundings”, baseada em gravações feitas no ambiente da ponte 25 de Abril.

 

PROVAR - Nesta altura do ano um fim de semana alargado no Douro é uma coisa verdadeiramente única. Há o Douro, as vinhas  de Outono que estão a mudar de côr, as quintas muito bem arranjadas, o acolhimento sempre simpático e descontraído em qualquer lugar. O norte, nessa matéria, é outro campeonato. Um pequeno exemplo: em Tonda, uma freguesia de Tondela, íamos à procura de um restaurante que nos tinham aconselhado, mas, por engano tínhamos antes entrado num pequeno café-restaurante a perguntar se era ali o local que procurávamos - que não, mas sorridentes disseram que este, simples, era melhor. Fugindo da recomendação fomos para o que o acaso nos tinha dado e encontrámos um espaço alegre e familiar onde nos serviram uma vitelinha de Lafões digna de nota - tudo isto se passou n’O Samarras,  Rua de Santo Amaro, Tonda. Mas o melhor dos dias estava para vir com a localização, em cima do rio Douro, da Quinta da Ermida, em Baião. Além do alojamento e dos fins de tarde à conversa em torno de um bom verde branco produzido na quinta, os jantares eram de cozinha antiga portuguesa - merece destaque a bôla servida como petisco de entrada, uns belos rissóis de carne , além de um frango do campo com batatas e arroz a trazer memórias de infância. Ali perto, também, ficou na memória A Casa do Almocreve, em Portela do Gôve, que proporcionou  um anho extraordinário de tempero e boa confecção. E mal ficaria se não evocasse aqui a prova de vinhos, tão bem explicada, na Quinta de Covela, em S. Tomé de Covelas. Destaque para o Rosé, para o Branco Escolha, e para a descoberta de um branco da casta local avesso, além dos tintos da Quinta das Tecedeiras. Se  a tudo isto somarmos uma noite de lua cheia reflectida no Douro ficam com uma boa ideia do que é um belo fim de semana.

 

DIXIT - “Neste momento os partidos têm todo o poder e os cidadãos nenhum” - Marina Costa Lobo

 

GOSTO - Segundo um estudo da ACEPI, mais de 91% da população portuguesa vai estar a utilizar a internet até 2025 e 59% farão compras online.

 

NÃO GOSTO - O consumo de antidepressivos em Portugal duplicou nos últimos quatro anos.

 

BACK TO BASICS - “Uma boa oportunidade é falhada pela maior parte das pessoas porque aparece vestida de fato macaco e é confundida com trabalho” - Thomas Edison.

(Publicado no Jornal de Negócios, Weekend, de 13 de Outubro de 2017)

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/manuel-falcao/detalhe/20171013_1021_a-esquina-do-rio?ref=Opini%C3%A3o_grupo1

 

 

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publicado às 11:25

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(esta imagem é um pormenor da obra "Interdito" da artista plástica Marilá Dardot)

 

AGORA? - Não tenho a certeza se a avaria política detectada no Domingo passado se resolve com uma simples reparação de motor, recauchutagem de pneu ou mudança de mecânico e condutor. O que aconteceu nestas autárquicas foi o sinal da crise que percorre o sistema político e partidário desenhado em 1974, entretanto desactualizado mas nunca adequadamente ajustado. A avaria maior foi detectada no lado direito do espectro partidário, com o PSD, mas teve também sinais fortes do lado esquerdo, com o PCP. A minha convicção é que este foi o sinal de um problema estrutural irreversível se se mantiver o quadro actual. Soluções antigas dificilmente resolvem problemas novos - como apresentar propostas diferentes de acordo com as questões contemporâneas, de adequar o discurso às novas formas de comunicação, conseguir atrair os eleitores mais jovens. Duvido que formas de organização antigas possam ajudar a solucionar o problema. Se quer sobreviver e ser relevante o PSD necessita urgentemente de criar um novo enquadramento, de analisar como se distanciou do eleitorado, qual a razão que o leva a ser  incapaz de mobilizar vontades, cativar independentes e criar propostas fora dos aparelhos partidários. Precisa sobretudo de uma clara definição ideológica e de um posicionamento político que seja mobilizador. Veja-se o que aconteceu em Lisboa: Assunção Cristas conseguiu falar para fora do seu partido, o PSD ficou a falar para dentro (na realidade nem para dentro conseguiu falar) e deixou muitos dos seus eleitores tradicionais fugir. O PSD tem o desafio de voltar a conseguir inserir-se na sociedade, a quem virou costas nos últimos anos. Importa mais saber o que se diz para fora de forma coerente e consistente do que entrar no jogo das habilidades tácticas conjunturais e exercícios de conspirações palacianas. O CDS deu um exemplo de mudança. Será o PSD capaz de fazer o mesmo?

 

SEMANADA - Em Lisboa  Fernando Medina perdeu 3 vereadores e a maioria absoluta; no Porto Rui Moreira obteve maioria absoluta; o PCP perdeu dez câmaras, entre as quais Almada, Barreiro e Beja; a análise dos fluxos de eleitores mostra que os votos das câmaras perdidas pela CDU foram para o PS; a CDU (PCP e PEV) ficou pela primeira vez abaixo do meio milhão de votos em todo o território; nestas autárquicas houve 17 movimentos independentes que ganharam câmaras, contra 13 em 2013; Tino de Rans obteve 6,22% de votos em Penafiel; em 2013 o PAN teve 16 mil votos, Domingo passado chegou praticamente aos 56 mil; 47 câmaras mudaram de côr nestas autárquicas - 16 passaram do PSD para o PS, 12 passaram do PS para o PSD, 9 passaram da CDU para o PS e 2 passaram do PSD para independentes; o PSD, sozinho ou em coligação, nunca tinha obtido tão poucas presidências de câmara desde o início das autárquicas, em 1976; o PS ficou com 159 câmaras, o PSD vai liderar 98; há mais de 40 anos que o PSD não tinha tão poucos votos; Passos Coelho anunciou que não se recandidatará à liderança do PSD; segundo a Marktest, a freguesia de Lamosa (concelho de Sernancelhe, distrito de Viseu) foi a mais participativa neste acto eleitoral pois 90.15% dos 203 inscritos apresentaram-se nas urnas; pelo contrário, a freguesia de Parada do Monte e Cubalhão foi a que registou maior abstenção, tendo votado apenas 29.89% dos 977 inscritos nesta freguesia.

 

ARCO DA VELHA - O candidato do PCTP/MRPP à Câmara da Moita, Leonel Coelho, prometia uma ruptura com o passado apesar de ter 82 anos - teve 667 votos, mais sete do que há quatro anos.

 

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FOLHEAR - A colecção Livros Amarelos, da editora Guerra & Paz, permite fazer uma leitura paralela de textos de dois autores que por alguma razão têm uma ligação entre si. O novo volume reúne, sob a orientação de Jerónimo Pizarro, a “Saudação a Walt Whitman” de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e o “Canto A Mim Mesmo” de Walt Whitman. Pizarro escreveu para esta edição curtas biografias de Fernando Pessoa e de Walt Whitman e ainda um ensaio, “Negação e Saudação”, que permite perceber o porquê de juntar os dois textos. Nele Jerónimo Pizarro recorda que o crítico literário norte-americano Harold Bloom escreveu que Fernando Pessoa foi considerado o maior herdeiro português de Whitman e é sugerido que o heterónimo Álvaro de Campos pode ter nascido desse fascínio que Pessoa tinha pela poesia de Walt Whitman e que ”toda a sua produção de 1914-e 1916, e não só, torna-se mais compreensível se a aproximarmos de Whitman”. Os dois poemas que esta edição reúne reforçam a comunhão poética entre os dois autores, e, como Jerónimo Pizarro diz, “vem precisamente convidar-nos a uma leitura dupla, permitindo neste caso revisitar Whitman para reler Pessoa”.

 

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VER - Prossegue o ciclo “British Bar”, uma ideia de Pedro Cabrita Reis que encontra nas três montras do estabelecimento do Cais de Sodré o seu ponto de exposição - peças de artistas plásticos que encaixam nas dimensões das três estreitas montras verticais, obras escolhidas pelo próprio Cabrita Reis - que está sempre presente no animado fim de tarde de apresentação de cada um destes projectos, que depois durante um mês ali estão expostos. Desde esta segunda-feira ali estão peças de Maria José Oliveira (“Macaco Miguel”, na imagem) e dois trabalhos de artistas mais novos - uma peça sem título de João Ferro Martins na montra da esquerda e outra da Fernão Cruz, “Apologizing studio#1”, na montra da direita. Trago mais duas sugestões e ambas partilham de uma mesma nota prévia: apresentadas em galerias privadas, são obras de inegável valor que parecem destinadas apenas a serem compradas por instituições, que as possam albergar nos seus acervos e esporadicamente mostrar. Começo pelo trabalho de Ana Jotta, que está na galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Intitulado “fala-só”, trata-se de um trabalho de grandes dimensões, em que o suporte é um rolo de tela que ao ser desenrolado vai mostrando movimentos de figuras humanas traçadas em esboço, que podem ser lidos como  momentos da evolução da espécie, evocando quase um storyboard cinematográfico através do desenho afirmativo e forte de Ana Jotta. A outra exposição, que manifestamente só vive de todas as peças e ambientes em conjunto, é da brasileira Marilá Dardot, está na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80) e é uma instalação que evoca a censura sobre a criação literária, a partir de uma lista de 900 livros censurados, proibidos ou apreendidos entre 1933 e 1974 em que uma representação tridimensional do objecto livro convive com a justificação dos censores para as suas proibições.

 

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OUVIR - O trio clássico de jazz - contrabaixo. bateria e piano - é uma das minhas formações preferidas. Para a coisa funcionar é preciso que os intervenientes sejam grandes músicos e, sobretudo, que consigam dialogar entre si e conjugar as suas experiências e vivências musicais. Depois de 30 anos a tocar com Keith Jarrett, com quem gravou duas dezenas de discos no Standards Trio (que incluía o baterista Jack DeJohnette), Gary Peacock decidiu em 2014 criar o seu próprio trio e escolheu o pianista Marc Copland e o baterista Joey Baron. O seu primeiro disco, dessa altura, foi “Now This” e agora saíu novo álbum, “Tangents”. Gary Peacock, agora com 82 anos, tem uma carreira de mais de seis décadas e nos anos 60 tocou com nomes da vanguarda dessa época, como Albert Ayler e Paul Bley. Depois dos anos com Jarrett, Gary Peacock retoma nesta sua nova formação as influências das diversas fases da sua carreira e sente-se que as suas experiências com Ayler deixaram marca que perdurou ao longo de todos estes anos. O novo disco, “Tangents”, tem onze temas: cinco deles são do próprio Gary Peacock, dois de  Baron, um de Copland, um outro uma improvisação assinada pelos três músicos e duas versões, ambas fantásticas - “Spartacus” de Alex North e “Blue In Greens” de Miles Davis e Bill Evans. O tema improvisado, “Open Forest”, é um dos momentos altos do disco, assim como a faixa título, “Tangents”, “December Greenwings”, a envolvente faixa de abertura “Contact” ou a energia que passa em “Tempei Tempo”. Este CD é um perfeito exemplo de um trabalho em que os músicos deixam espaço uns para os outros, com longos solos, permitindo que os temas se desenvolvam de forma natural - a experiência de todos os envolvidos subtilmente deixa a música ir para onde ela quer. CD "Tangents", Gary Peacock Trio, edição ECM, na FNAC.

 

PROVAR -  Há já muito tempo que João Portugal Ramos se dedicou a vinhos fora do Alentejo que lhe deu fama. Primeiro, em 2004, chegou à região do Tejo, com o Quinta do Vimioso, depois, em 2007, foi o Douro, com o Duorom e uma parceria com José Maria Soares Franco; no entretanto tinha começado a trabalhar as vinhas da Quinta da Foz do Arouce, na Lousã; e, mais recentemente, entrou no mundo dos vinhos verdes, da região de Monção e Melgaço. É nestes vinhos verdes que me vou focar. O primeiro Alvarinho acompanhado por João Portugal Ramos foi de 2012 e no ano seguinte saíu um Loureiro. Agora, a sua equipa, que inclui a enóloga Antonina Barbosa, apresentou duas novas propostas. A primeira é um Alvarinho Espumante Reserva Bruto Natural, de 2014, o primeiro espumante da sub-região apresentado como um Bruto Natural. Tem bolha fina e persistente e um longo final, marcado pela mineralidade do Alvarinho. A outra novidade é o Alvarinho Reserva 2015 que mantém a mineralidade, pontuado por um toque de madeira e notas frutadas, com um longo final - um vinho branco surpreendente. Aproveitem estes dias quentes, convidativos para um fim de tarde na companhia de qualquer destes vinhos.

 

DIXIT - “Não gostei da vitória esmagadora de Fernando Medina. Os lisboetas, como eu, sabem que não merecia. “Alindar” a cidade não é o que se pede ao Presidente da CML – e sentindo que todos os dias mais lisboetas são literalmente expulsos da cidade para os subúrbios, e que a cidade vive um caos que resulta das (erradas) prioridades da Câmara, esperava uma vitória ligeira, que lhe reconhecesse algum talento mas o obrigasse a ouvir quem vive na capital.” - Pedro Rolo Duarte

 

GOSTO - O MAAT teve mais de meio milhão de visitantes no primeiro ano de existência, que se completou esta semana.

 

NÃO GOSTO - A dívida pública ultrapassou os 250 mil milhões de euros.

 

BACK TO BASICS - “Um fanático é alguém que não muda de opinião, nem muda de assunto” - Winston Churchill.

 




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DECLARAÇÃO DE VOTO: NOSSA LISBOA!

por falcao, em 29.09.17

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CLUBISMOS - Os partidos têm marcas - melhor , são eles próprios marcas. Os mais antigos, que vieram de antes de 74 ou os que nasceram logo nessa altura, têm décadas de consolidação da respectiva marca. Por isso muitas vezes este efeito de marca passa por cima da análise racional das propostas e programas e do perfil dos candidatos. A coisa ainda se complica mais quando a afinidade a uma marca partidária se confunde com clubismo acrítico. Como se tem visto em anos anteriores, as autárquicas são um dos raros momentos onde esta lógica da fidelidade à marca pode ser abalada. A importância do perfil dos candidatos é importante, a experiência existente na equipa é relevante. E, depois, nas autárquicas há a possibilidade de escolher uma lista para a vereação, outra para a Assembleia Municipal, outra para a freguesia. O efeito clubista pode esbater-se na proximidade. Eu confio que isto possa acontecer em Lisboa - que os votantes habituais do PS olhem para Medina e vejam como ele privilegiou criar uma cidade bonitinha mas incaracterística e disfuncional, como preferiu agradar mais aos visitantes do que aos habitantes e como criou uma acção política baseada em deitar cimento em cima de cimento. Às vezes penso que no seu gabinete Medina olha para os lisboetas, para as queixas que ouve de quem não compreende as suas obras e, tal como na peça do dramaturgo Karl Valentim, interroga-se: “E não se pode exterminá-los?”. Esse é mais ou menos o programa de Medina para os que insistem em querer viver em Lisboa sem serem visitantes ocasionais. Bem sei que qualquer obra gera congestionamentos, mas também sei que aquilo que não é suposto é que os congestionamentos fiquem piores depois da obra terminada. Essa é a pedra de toque do medinismo: criar incómodo para quem vive em Lisboa. A finalizar, deixo uma declaração de interesse: para a Câmara Municipal vou votar em Assunção Cristas, que está mais preocupada com a vida de quem cá vive do que com o prazer de quem está de passagem. E é quem o faz de forma mais estruturada.

 

SEMANADA - Um estudo da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil indica que 65% das crianças portuguesas não comem a dose diária de fruta e legumes recomendada pela Organização Mundial de Saúde; um estudo da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro revela que os recintos escolares (incluindo vários renovados pela Parque Escolar) não têm espaço, equipamento e zonas verdes suficientes, existindo um défice de 80% em relação ao cenário ideal; segundo a Marktest  46%  dos portugueses segue figuras públicas nas redes sociais e Cristiano Ronaldo é quem tem maior número de seguidores, com Cristina Ferreira e Manuel Luis Goucha nas posições seguintes; os livros de actividades para meninos e meninas da Porto Editora voltaram a ser postos à venda; no espaço de um ano os portugueses gastaram 108 milhões de euros em jogo online; os diversos impostos pagos pelos contribuintes rendem cerca de 109 milhões de euros por dia ao Estado; o IMT, que incide na compra de imóveis, teve um aumento de receita de 24% até Agosto deste ano; os aeroportos portugueses receberam 16 milhões de passageiros entre Junho e Agosto; a investigação ao roubo de 57 pistolas Glock do quartel-general da PSP está parada; o Estado está a demorar, em média, 95 dias a pagar as facturas a fornecedores, um aumento de 25% em relação ao ano passado; um estudo da própria Câmara revela que a maioria das ciclovias criadas nos últimos anos em Lisboa, e que têm sido pouco usadas, já estão a precisar de obras.

 

ARCO DA VELHA - A decisão do ajuste directo, alegando “urgência imperiosa”, que a Câmara Municipal de Lisboa fez das obras de S. Pedro de Alcântara, por cinco milhões de euros à Teixeira Duarte, foi tomada antes de o LNEC ter emitido o parecer que lhe havia sido solicitado e que não aponta qualquer perigo iminente.

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FOLHEAR - Apesar do título este não é um livro sobre religião ou sobre o sentimento de culpa e o castigo. “Piedade Para Os Pecadores” é um romance sobre uma vida agitada no mundo empresarial e dos mercados financeiros, com diversas intrigas amorosas pelo meio. O seu autor é Manuel Lemos Macedo, um português que depois do 25 de Abril e da nacionalização da firma familiar foi para a Irlanda, onde estudou no University College de Dublin e, depois, nos Estados Unidos, na Columbia Business School. Posteriormente trabalhou em Paris e Madrid na banca de investimento e depois, em conjunto com a família Rothschild, criou em Lisboa uma sociedade financeira, da qual foi gerente. Em 1997 deixou os negócios, recolheu-se no campo (é natural de Tomar) e, segundo o próprio, dedicou-se à leitura, ao convívio com amigos e à escrita. Em 2004 publicou “A Vida É Um Sonho” e, agora, este “Piedade Para os Pecadores”. O primeiro livro abordava o impacto que as mudanças estruturais em Portugal na década de 70 tiveram na sociedade  - é uma obra sobre a natureza humana e a decadência. Este “Piedade Para Os Pecadores” conta a história de um filho-família que dirigia uma firma com 3000 funcionários e que, depois do 25 de Abril, decide mudar de vida, indo para Paris com a intenção de se “pôr à prova”. Entra nos mercados financeiros e as aventuras na bolsa misturam-se com as aventuras românticas - poderia ser uma autobiografia, atendendo à vida do autor, mas Manuel Lemos Macedo diz que qualquer semelhança do livro com a realidade é pura coincidência. E mais uma vez é uma história que oscila entre a rebeldia, a descoberta, o diletantismo e algumas lições de moral avulsas, no fundo numa escrita datada. Edição Guerra & Paz.

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VER - Andrea Baginski é uma galerista que tem apostado na divulgação de artistas portugueses contemporâneos, mas também em trazer a Lisboa a obra de artistas sul-americanos - nomeadamente do Brasil, o seu país de origem. Na semana passada abriu a sua galeria ao Chile, com a apresentação de “La Mano Invisible”, de Patrick Hamilton (na foto), um chileno com ascendentes irlandeses.  É uma exposição assumidamente política, a começar pelo nome, que evoca o conceito desenvolvido por Adam Smith sobre a capacidade autorreguladora do mercado livre. As relações entre o trabalho e a economia e o seu cruzamento com a história são os pontos de partida do artista. Visualmente impactante, repleta de metáforas visuais, usando técnicas que remetem para o mundo do trabalho manual e para o dia a dia das sociedades contemporâneas, “La Mano Invisible” é uma das mais interessantes exposições deste ano. Até 4 de Novembro na Galeria Baginski, Rua Capitão Leitão 51. Outras sugestões: na Quadrado Azul “Provas de Contacto 1972-1980”, que mostra como Ernesto de Sousa, nesses anos, utilizou a fotografia como meio de expandir a sua criação artística (Rua Reinaldo Ferreira 20A até 16 de Novembro); destaque também para a nova mostra de trabalhos de pintura de  João Queiroz na Galeria Vera Cortês, até 11 de Novembro (Rua João Saraiva 16, Lisboa); na Fundação Carmona e Costa até 4 de Novembro desenhos de Jorge Pinheiro (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1- 6º); e finalmente n’A Pequena Galeria uma exposição sobre fotografia de moda, com trabalhos de Carlos Ramos, Ana Trindade e Nuno Beja, comissariada por Luísa Ferreira sob o título “3 na Moda” (até 14 de Outubro, Av 24 de Julho 4C).

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OUVIR - Filipe Monteiro deu nas vistas há uns anos nos Atomic Bees, a banda onde também estava Rita Redshoes. Devoto da guitarra, mas também praticante do piano, deixou-se depois apaixonar pelo video e durante uma série de anos trabalhou com nomes como os Da Weasel, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia, entre outros. Com eles produziu videoclips, dvd’s e documentários. Ao mesmo tempo fazia o gosto à música como convidado em estúdio ou em palco, fez arranjos e produziu “Golden Era” e “Lights & Darks” de Rita Red Shoes. Agora finalmente Filipe Monteiro regressa em nome próprio aos discos - aliás sob a designação Tomara e o título genérico “Favourite Ghost”. É um disco de ambientes, surpreendente pelos arranjos inesperados, pelos contrastes sonoros, pelo equilíbrio entre as partes instrumentais e as vocalizadas, no fundo um exercício de bom gosto. “Coffee And Toast”, a primeira canção, é a narrativa de um dia que é o guião de uma vida. “Favourite Ghost”, a faixa que dá o nome ao álbum, é uma deliciosa canção de amor e romance e em “For No Reason” percebe-se porque é que a guitarra é o instrumento de eleição de Filipe Monteiro e um cartão de visita das suas qualidades como compositor. Finalmente “House”, cantada por Márcia, é uma espécie de regresso às origens, um fim que parece anunciar um novo princípio. Disponível em CD e no Spotify.

 

PROVAR -  Conseguir conciliar conforto, bom serviço, uma vista magnífica, produtos frescos e boa confecção é uma coisa cada vez mais rara em Lisboa. Junto ao rio, na zona da Doca de Belém, tudo isto se junta no restaurante do Clube Naval. Em baixo está a esplanada e em cima fica uma sala confortável e um terraço, fechado, de onde se avista o Tejo e a margem sul, em frente a Belém. Ainda no primeiro piso existe a chamada Sala dos Sócios, que alberga a colecção de troféus do Clube e uma ampla mesa que pode receber até umas vinte pessoas - disponível apenas por reserva, com preço à parte. Por falar em reservas a esplanada de rua não aceita reservas mas o restaurante do primeiro piso sim, e vale a pena fazê-lo, sobretudo ao fim de semana. Duas recentes visitas permitiram provar, nas entradas, um carpaccio de novilho que estava bom e uma salada de polvo muito boa. Dos pratos principais provaram-se uns filetes de peixe galo com arroz de lingueirão, uns filetes de polvo com migas de batata doce, ambos acima das expectativas, e um robalo grelhado, fresquíssimo e de boa confecção, acompanhado de legumes abundantes (podiam estar um bocadinho menos cozidos…). O caril de lavagante com gambas tem boa fama, mas não foi provado. Os preços são honestos, tendo em conta a localização e o bom serviço. Avenida de Brasília, Doca Seca de Belém, Edifício do Clube Naval, Belém, telefone 308 803 749.

 

DIXIT - Tancos é o novo fenómeno do Entroncamento - João Miguel Tavares

 

GOSTO - Dois cientistas portugueses descobriram o mecanismo que ajuda a perceber a razão das alterações no cérebro dos doentes com Parkinson

 

NÃO GOSTO - Este Verão houve 25 incêndios causados por foguetes

 

BACK TO BASICS - “No passado a censura funcionava porque bloqueava o fluxo de informação; no século XXI funciona inundando as pessoas com informação irrelevante” - Yuval Harari

 




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publicado às 13:04

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CAMPANHA - E pronto, começou a campanha eleitoral. O Governo entrou nela a pés juntos com promessas de redução da carga fiscal, os autarcas em exercício com inaugurações e, nalguns casos, como o de Medina, com promessas por cumprir e muitas obras por acabar, além dos engarrafamentos que vão aumentando. Os eleitores começam a estar fartos destas aldrabices. Querem ver? - Desde 1976 realizaram-se em Portugal 11 eleições autárquicas e nestes 41 anos, a taxa de participação eleitoral foi descendo depois dos primeiros entusiasmos, o que diz alguma coisa sobre o relacionamento de eleitos com eleitores.  Na primeira eleição a participação foi de  64.55% dos inscritos, na eleição seguinte, em 1979, esse valor subiu para 73.77% e ainda se manteve acima dos 70% nas eleições de 1982. A partir dessa data a participação foi diminuindo com o valor mais baixo de sempre a registar-se  nas últimas eleições, de Setembro de 2013, onde  participação andou pelos 52,6%, com 6,8% de votos brancos e nulos. Ou seja a maioria dos eleitores não votou em nenhum candidato. Há uma minoria que elege e a maioria da classe política não se incomoda com o assunto porque a abstenção é a garantia de que não há sobressaltos nem alteração do status quo partidário vigente. Os incumbentes preferem que a abstenção continue o seu caminho e lhes garanta o lugar por arrasto. Por isso Medina não se importa que haja menos habitantes e menos eleitores em Lisboa. Até lhe dá jeito.

 

SEMANADA - Segundo o INE, o número de pessoas entre os 20 e 34 anos que habitam em Lisboa passou de 95.830 em 2011 para 67.916 em 2016, uma diminuição de 29%, sendo assim o concelho onde o número de jovens adultos mais diminuiu; o número de licenciados do ensino privado caiu 41% em dez anos; Azeredo Lopes não esclareceu na Assembleia da República se houve ou não assalto aos paióis de Tancos; o Bloco de Esquerda propôs que jovens com mais de 16 anos possam processar os pais que não aceitem a sua vontade de mudarem de sexo; Mário Centeno apressou-se a explicar que afinal o prometido alívio fiscal no IRS , que ele próprio tinha anunciado, não se destina a todos os contribuintes; o primeiro ministro admitiu que Portugal pode apresentar uma candidatura à presidência do Eurogrupo; na primeira semana de entrada em vigor de nova legislação sobre imigração deram entrada 4000 pedidos de autorização de residência de estrangeiros em Portugal; o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não recebeu informação sobre os suspeitos do processo brasileiro Lava-Jato e alguns deles pediram vistos Gold; as receitas do IMI cresceram 150% depois da avaliação arbitrária e unilateral dos imóveis pelo Estado; em ano de eleições autárquicas as Câmaras Municipais já arrecadaram mais 100 milhões de impostos até Julho do que em igual período de 2016; “proibir os jogos de futebol nos dias em que há eleições é mais uma boa ideia para levar os portugueses à abstenção” -  escreveu Miguel Esteves Cardoso.

 

ARCO DA VELHA - Dos 21 relatórios encomendados pelo Governo sobre o incêndio de Pedrogão nenhum atribui culpas a quem quer que seja sobre o ocorrido nas mais diversas áreas, das comunicações ao comando das operações, passando pela actuação das forças de segurança ou dos organismos de coordenação e prevenção.

 

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FOLHEAR - A revista Wallpaper foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, que a dirigiu até 2002 e desde o início a publicação convida nomes conhecidos das artes, da arquitectura, do design ou da moda para editar o número de Outubro. Este ano, para assinalar o 21º aniversário da Wallpaper, revisitam-se os 21 convidados, entre os quais Karl Lagerfeld, Philippe Starck, David Lynch, Louise Bourgeois, Robert Wilson, os Kraftwerk, Lang Lang, Frank Gehry, Jean Nouvel, Jeff Koons Hedi Slimane e Dieter Rams, entre outros. E a todos os possíveis foi pedida uma ideia nova para esta edição. A capa , aqui reproduzida, foi concebida pelo atelier Zaha Hadid a partir de um modelo gráfico gerado em computador. É um prazer ver que neste tempo de crise da imprensa e das dificuldades em obter publicidade para muitas revistas, as 44 páginas iniciais desta edição da Wallpaper são publicidade de algumas das maiores marcas mundiais de moda e design - e ao longo das 420 páginas muitas são de publicidade. Destaco nesta edição na área da arquitectura (a transformação de um silo de armazenagem em museu na Cidade do Cabo para acolher arte africana contemporânea), das artes plásticas (Miguel Barceló e o japonês Takashi Murakami) ou do design (o nonagésimo aniversário da prestigiada marca italiana de mobiliário Cassina). À margem, um dos artigos mais curiosos é sobre o design das embalagens de medicamentos e produtos farmacêuticos, desde as primeiras embalagens de Aspirina aos logotipos de alguns laboratórios ao longo dos tempos. Outro artigo curioso mostra uma vinha e uma adega no Japão, uma experiência pioneira naquele país. Para rematar há um destaque português, dedicado aos sabonetes Claus, do Porto.

 

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VER - André Gomes usa a fotografia como instrumento de construção de ficções que traduz em imagens. Durante anos trabalhou a partir de polaroids e nos tempos mais recentes passou a utilizar imagens fotográficas digitais que usa depois como base para manipulação, muitas vezes criando colagens electrónicas. Esta semana apresentou os seus dois mais recentes trabalhos, o pequeno ensaio “Numa Noite Igual” e, sobretudo,  “Casa da Estrada” - um projecto que conta uma história imaginada, ocorrida entre os kms 35 e 36 da Estrada Nacional 332, no distrito da Guarda. A “Casa da Estrada”  evoca uma narrativa mística, inspirada por citações dos evangelhos , cruzada com imagens aparentemente banais mas com um grau de construção assinalável, criando uma sucessão de ambientes e situações onde o real e o artificial se misturam. Não deixa de ser curioso pensar que André Gomes, com uma carreira no teatro a interpretar personagens imaginadas, transpõe para um suporte aparentemente tão reprodutor da realidade, como é a fotografia, a ideia da fantasia através da encenação da imagem.  Até 21 de Outubro na Galeria Diferença, Rua São Filipe Nery 42. Outras sugestões: em primeiro lugar, no Porto, na Galeria Quadrado Azul, Paulo Nozolino expõe até 16 de Novembro “Loaded Shine”  que reúne 20 fotografias feitas entre 2008 a 2013 em locais tão diferentes como Nova Iorque, Paris, Berlim e Lisboa, mas também lugares no interior de França e de Portugal; depois, em Lisboa, na Plataforma Revólver, “Lights, Camera, Action”, do francês Renaud Monfury, mostra uma série de fotografias que retratam o mundo do cinema; e finalmente, no Centro Cultural de Cascais, “Em Plena Luz”, uma centena de fotografias do norte-americano Herb Ritts, essencialmente sobre estrelas do cinema, da música e da moda, em exposição até 21 de Janeiro.

 

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OUVIR - Nos últimos tempos tem-se assistido a um renascer das edições de discos em vinil, muitas vezes a partir de originais remasterizados, com prensagens de alta qualidade que utilizam vinil virgem de grande densidade. Para dar resposta a este público crescente - basta ver o aumento do tamanho das prateleiras de vinil nas lojas de discos como a FNAC e El Corte Ingles - a Warner lançou seis títulos que são clássicos da música portuguesa dos últimos 30 anos. Cinco deles são editados pela primeira vez em vinil - três são de Madredeus e três de Mariza.” O Espírito da Paz”, primeiro disco de Madredeus, foi originalmente publicado em 1994 e, na altura, teve uma tiragem em vinil limitada a 500 cópias e ressurge agora remasterizado. Dois outros títulos de Madredeus agora lançados surgem pela primeira vez em vinil: o álbum de remisturas “Electrónico”,  de 2002, onde a música do grupo foi revista por produtores como Craig Armstrong, Manitoba ou Telepopmusik e a recolha de êxitos “Antologia”, lançada em 2000. Quanto a Mariza, três dos seus álbuns vêem agora primeira edição em vinil: “Fado Em Mim” , de 2001, que foi a estreia da cantora ( e que inclui “Ó Gente da Minha Terra”), “Mundo”,  de 2015, que é o seu mais recente trabalho de estúdio, e o “Best Of” de 2014, que junta três inéditos a 17 êxitos da carreira de Mariza. Acreditem que quando ouvirem qualquer destes LP’s numa boa aparelhagem vão descobrir nestes discos de vinil  uma sonoridade diferente.

 

PROVAR -   Como alguns leitores já terão notado um dos passatempos que me ajuda a descontrair é cozinhar e ir descobrindo possibilidades na combinação de sabores. Ora para cozinhar não são precisas muitas coisas além de boa matéria prima, mas há meia dúzia de utensílios que ajudam muito o trabalho de amadores como eu, que gostam de estar sozinhos na cozinha. Confesso que sou fascinado por gadgets de cozinha - desde tábuas de cortar a mandolinas, passando por pinças até peças sérias como as panelas de ferro da Creuset para lume e forno, as frigideiras De Buyer, ou as assadeiras redondas de ferro fundido, fantásticas para levar ao forno o que se começou a preparar na chama do fogão, ou mesmo simples panelas de bambu para cozer a vapor. Não é fácil encontrar tudo isto num só lugar mas, há pouco tempo, descobri na Avenida 5 de Outubro, junto ao cinema Nimas, a filial lisboeta da casa César Castro, originalmente do Porto, e que se dedica a ter todos os utensílios possíveis e imaginários para utilizar na cozinha, com pessoal competente para esclarecer dúvidas. Não poucas vezes, depois de ler uma receita no site www.epicurious.com ,  é lá que me dirijo para procurar alguma coisa que me faz falta para garantir que o preparo sai bem feito. Claro que esta mania coleccionista gera problemas de falta de espaço na cozinha doméstica, mas com jeitinho e paciência tudo se consegue. E com o material adequado o resultado final do cozinhado é bem melhor. www.cesar-castro.pt .

 

DIXIT - “Entrar aqui um grupo de políticos ou de turistas é a mesma coisa: nunca nenhum me comprou um peixe” - Cristina Jesus, peixeira em Matosinhos, sobre as incursões de caravanas partidárias no Mercado durante as campanhas eleitorais.

 

GOSTO -  Da presença de artistas portugueses fora de portas: José Barrias expõe “collezionista de echi” na Nuova Galleria Morone em Milão, Cristina Ataíde está em Madrid na Estampa 2017, na Galeria Magda Bellotti, e Pedro Calapez está em Palma de Maiorca com “”El Límite Ubiquo”na Galeria Maior.

 

NÃO GOSTO - Segundo a Anacom, desde Abril de 2011 que os preços das telecomunicações crescem mais em Portugal do que na União Europeia.

 

BACK TO BASICS - “Aqueles que vos fazem acreditar em coisas absurdas são os mesmos que depois cometem atrocidades” - Voltaire

 

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