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COSTA, CULTURA, RTP e AZULEJOS

por falcao, em 29.02.08

INTERESSSANTE - António Costa está a experimentar o amargo sabor da legislação que fez enquanto Ministro da Administração Interna. Ele bem pode dizer que a lei foi mal interpretada, mas na realidade esta é a prova do que pode acontecer quando se utiliza a capacidade legislativa para fazer guerrilha política – na altura Costa legislou assim, em primeiro lugar, para condicionar alguns dos maiores municípios do país, que estavam na mão da oposição e em crônica situação de endividamento. Acontece que agora se voltou o feitiço contra o feiticeiro. É por isso que, em política e já agora no jornalismo, a memória é fundamental para analisar o que se passa. Baste ir ver o que se disse e quem disse aquando da elaboração por Costa da legislação de que ele próprio se queixa.


 


MAU – A questão não é só a RTP deixar de ter publicidade, é saber como isso se pode fazer. A questão do financiamento global do Grupo RTP merece um debate sério, sem as tiradas demagógicas de Arons de Carvalho nem as imitações apressadas de Sarkozy pelo líder da oposição. Basta observar o crescimento de receitas nos últimos quatro anos, entre aumento constante da indemnização compensatória e da cobrança da taxa do audiovisual, que foi entretanto alargada a consumidores que antes a não pagavam. E, claro, tem que se ter em conta este simples facto: a publicidade numa estação de televisão rende em função das audiências; para se fazerem bons números é inevitável que se perca em qualidade de serviço público. Aqui está uma questão que dava pano para mangas.


  


PÉSSIMO – A nova sede dos serviços secretos, no antigo forte da Ameixoeira, teve um custo de obras que ascendeu a 15 milhões de euros. A obra não resistiu às primeiras chuvas intensas. Tal como o resto do país, a secreta foi inundada e os jornais relatavam a surpresa dos espiões lusitanos quando viram água e lama entrarem de enxurrada pela porta principal do edifício.


 


EXPORTAÇÕES DA SEMANA – O grupo de rock Wray Gunn faz sucesso em França, com presença em revistas, elogios em jornais, discos a vender bem e canções escolhidas para as passagens da Paris Fashion Week; uma obra dos robots pintores criados pelo artista plástico Leonel Moura ilustra a capa da revista do MIT (Massachussets Institute of Technology) sob o tema «Artificial Life»; Paula Rego consolida a sua cotação depois de o quadro «Baying» ter atingido 740 000 euros num leilão promovido pela Sotheby’s em Londres. É com isto que se vai fazendo a imagem de um país – mas já agora convinha que o Governo tivesse isso em conta. Para quando a diminuição do IVA sobre produtos culturais. Irá o novo Ministro da Cultura convencer o jogger Sócrates que não é só aos ginásios que vale a pena dar benefícios fiscais?


 


ESTUDAR – Por falar em Ministro da Cultura, merece estudo atento a análise que Augusto M. Seabra faz na www.artecapital.net, na sua habitual coluna «O Estado da Arte». Excerto: « A pior coisa que pode acontecer ao ministro José António Pinto Ribeiro é ser um gestor de clientelas. O que se poderá desejar de alguém com o seu perfil público, e até do protagonismo político a que por certo não se regateará, é que corte rente com o dirigismo, abra espaço a iniciativas próprias e catalize esforços e parcerias, que saiba também fazer uma cultura da mediação. O que se passou durante os 34 meses da gestão Pires de Limas/Vieira de Carvalho foi também a negação de uma cultura democrática. O fundador do Fórum Justiça e Liberdade tem a obrigação elementar de ter presente esse dado e tirar as devidas consequências na sua acção política como Ministro da Cultura – que crie instrumentos legais e iniciativas em vez das cadeias de comando do servilismo burocrático.»


 


VER - A exposição e o álbum de fotografias «Ponto de Vista», feitos com base nas imagens recolhidas por António Barreto durante as filmagens da série «Portugal- Um Retrato Social». Boas fotografias a preto e branco, enquadramentos rigorosos e- o que é mais importante – um modo de ver que nos ajuda a descobrir. Afinal a fotografia é isso mesmo. Na FNAC do Colombo.


 


OUVIR – Um delicioso disco ao vivo , «The Oscar Peterson Trio Live in Newport». A edição surge integrada nas comemorações do 50º aniversário do Festival de Newport. A gravação foi feita na noite de 7 de Julho de 1957, Norman Granz, o lendário produtor da prestigiada etiqueta Verve, gravou a actuação de Oscar Peterson no piano, Herb Ellis na guitarra, Ray Brown no baixo, Roy Eldridge no trompete, Sonny Stitt no sax alto e Jo Jones na bateria. Aqui estão temas como «Will You Still Be Mine?», «Autumn In New York», «52nd Street Theme» e «Monitor Blues», entre outros. CD Universal.


 


DESCOBRIR – Uma nova forma de olhar para os azulejos, com as obras do japonês Jun Shirasu, na Galeria Ratton, Rua da Academia das Ciências 2C. A exposição chama-se «Regresso do Oriente» e mostra pequenos painéis e também azulejos individuais onde a contenção e um sentido lúdico de observação da natureza e do quotidiano são as marcas dominantes. Até 4 de Abril.



BACK TO BASICS - «As Finanças, em Portugal, foram já muito mais longe do que seria aceitável, ainda que em nome da eficiência da cobrança fiscal» - Pacheco Pereira

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publicado às 16:51

QUE FAZER NA CULTURA?

por falcao, em 28.02.08

(Publicado na edição de 27 de Fevereiro do diário «Meia Hora»)


Uma semana depois de terem surgido notícias sobre a degradação de peças importantes do património português, o director do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) reconheceu não ter verbas para todas as obras que são necessárias nos imóveis de interesse patrimonial, da propriedade do Estado.


Edifícios históricos, como por exemplo o Castelo de Amieira do Tejo, erguido pelo pai de D. Nuno Álvares Pereira, estão fechados há anos por falta de condições de segurança e por falta de pessoal que vigie o monumento. As relações entre as estruturas centrais e as autarquias – que podiam estar interessadas em garantir a possibilidade de visita destes equipamentos – são difíceis e muito burocratizadas. O resultado está à vista e não é bom de se ver.


O Estado que não tem dinheiro para fazer a preservação do património é o mesmo que não tem verbas para fazer funcionar os Museus Nacionais de forma normal, mas que não se importa de desperdiçar dinheiro em operações de propaganda de gosto duvidoso. Em declarações ontem prestadas à TSF, o presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses alertou para o facto de «as poucas verbas existentes» terem sido canalizadas para «projectos muito discutíveis, como é o caso da exposição com amostras de peças do Museu Hermitage».


A situação não é de agora, vem de longe, e costuma redundar num dilema: o dinheiro existente deve ir para a salvaguarda do património ou para o apoio à criatividade? Em boa parte esta é uma falsa questão porque, na realidade, a primeira questão, na área da Cultura, é rever o modelo de funcionamento e de financiamento existente, rever a captação de receitas e rever a forma como são gastas.


Na realidade aquilo que faz falta ao Ministério da Cultura não é mais um conjunto de prioridades de acção cultural ou ideias de génios iluminados, é a criação de instrumentos legais que reestruturem serviços, que facilitem articulação com autarquias, que autonomizem instituições, que fomentem a participação dos privados, que tornem o mecenato mais atractivo, que estabeleçam claros incentivos fiscais, que consigam fomentar parcerias em vez de servir clientelas, e que proporcionem o desenvolvimento de um mercado sem o qual falar de indústrias criativas é apenas um acto falhado. 

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publicado às 16:05

A ESQUINA NO SAPO

por falcao, em 25.02.08

Após três anos no Blogger, aqui fiquei rendido ao Sapo. A Esquina continua no Rio, agora com vista a partir dos blogs do Sapo.


Por aqui nos iremos encontrando.

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publicado às 19:25

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por falcao, em 23.02.08
MAU - Três anos após ter iniciado funções, a linha política oficial do Governo é agora definida por quatro palavras: «Sacudir água do capote». Foi esta a linha seguida, com humor negro, pelo Ministro do Ambiente a propósito das cheias; e foi esta a linha seguida pelo Primeiro Ministro durante a entrevista à SIC em que retratou um país cheio de maravilhas e um Governo cheio de eficácia.

PÉSSIMO - Uma empresa adquire um andar num prédio de escritórios, no centro de Lisboa. Na fachada do prédio existem já três anúncios luminosos de outras tantas empresas que lá estavam instaladas. A empresa que chega pede para instalar logotipo, de tamanho idêntico e em localização equivalente, no seu andar. Um organismo da Câmara Municipal de Lisboa, o Departamento de Gestão do Espaço Público, autoriza e diz que está tudo conforme à Lei e sublinha que o edifício não está localizado em zona especial de protecção. Uma obscura comissão de publicidade exterior (que me dizem perseguir o comércio e as actividades económicas da cidade), indeferiu o pedido alegando que prejudicaria o conceito arquitectónico da fachada (que ignora já lá existirem outros placards luminosos) e provocando um despacho desfavorável. Quem se entende numa terra destas? Será que António Costa acha bem este tipo de coisas? Quem integra e como é escolhida esta extraordinária Comissão? Será verdade que as suas respostas são sempre «chapa cinco» no sentido de indeferir? Existem estatísticas sobre as suas avaliações? É o seu trabalho fiscalizado por alguém?

O MUNDO AO CONTRÁRIO - No «Correio da Manhã» de terça-feira passada uma pequena notícia que retrata o estado a que chegou a defesa do património: um castelo, erguido pelo pai de D. Nuno Álvares Pereira, está encerrado há cerca de dois anos por falta de condições de segurança. O castelo de Amieira do Tejo, concelho de Nisa, foi erguido no século XIV e fazia parte da Linha do Tejo, uma linha de defesa da fronteira. Em declarações ao jornal o responsável pela Direcção Regional da Cultura do Alentejo reconheceu não dispor de verbas para as obras. Para que servem existir organismos e funcionários se depois não têm dinheiro para concretizar o objectivo da sua existência?

OBSERVAR – A nova rubrica, mensal, do programa «Imagens de Marca», da SIC Notícias, dedicado às marcas de Portugal e assegurado por Carlos Coelho. Se quiserem espreitem o primeiro, dedicado à Nazaré, em
http://imagensdemarca.sapo.pt/opinioes/detalhes.php?id=465 .

COMPRAR – Se precisa, à última da hora, de qualquer coisa para levar para casa dos amigos que o convidaram para jantar., tem um novo sítio em Lisboa: «República das Flores», onde Frederico Oliveira lhe propõe belos objectos, flores cuidadas, doces delicados como os rebuçados de Portalegre, várias marcas de champagne e os delicados produtos de cosmética da Abahna. E, se quiserem, ainda podem saber informações dos caterings possíveis de organizar quando decidir retribuir o jantar em sua própria casa. Rua do Alecrim 99.

VER – Quando temos alguém que nos conta as boas experiências que viveu, a coisa fica mais fácil. Já tinha ouvido falar da invulgar interpretação da soprano Anna Netrebko na sua estreia absoluta no Metropolitan, de Nova Iorque, em final de 2006, no papel de Elvira, na cena da loucura da ópera «I Puritani», de Bellini. Agora todos podem partilhar esse momento garças a um DVD da Deutsche Grammophon, feito em colaboração com o Met, e que regista essa estreia, dirigida pelo maestro Patrick Summers. Disponível na FNAC, distribuição Universal

OUVIR – Há uns anos, quando ficou difícil fazer publicidade a tabaco, a marca francesa de cigarros «Gitanes» resolveu lançar uma colecção de discos de jazz, grande parte dos quais compilações. Paris, já se sabe, atraiu uma multidão de músicos de jazz norte-americanos no pós guerra e muitos deles homenagearam a cidade com belas composições e inspiraram músicos franceses. A «Gitanes» decidiu agora escolher 50 temas que falam de Paris e organizou uma compilação sob a forma de triplo LP e que inclui pérolas de músicos como Michel Legrand, Quincy Jones, Sacha Distel, Max Roach, Memphis Slim, Miles Davis e Eddie Barclay, entre outros. É uma bela banda sonora para um serão tranquilo.

LER – Em matéria de leituras, um dos meus gostos recai em livros sobre História. E, destes, gosto dos que contam pequenos episódios, aparentemente marginais, de certa forma as pequenas histórias que fazem a História. João Amaral, jornalista e jurista, actual director editorial da Leya, passou anos a pesquisar a história das ligações entre o Governo de Salazar e o episódio do casamento, em plena II Grande Guerra, do Duque de Bragança com uma princesa brasileira. O resultado é um livro cativante, muito bem documentado, construído como uma aventura, cativante do princípio ao fim, cheio de revelações sobre os bastidores do poder de Salazar, sobre a sua forma de agir, sobre as conspirações e a pequena política da época. Uma história irresistível contada em 130 páginas. Edição Tribuna.

BACK TO BASICS – A História não é mais que uma sucessão de crimes e patifarias, Voltaire.

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publicado às 10:41

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por falcao, em 22.02.08
SERÁ BIPOLAR?
(Publicado no diário «Meia Hora» de Quarta 21)

No fim de semana o Secretário Geral do Partido Socialista enervou-se com uns manifestantes que o apuparam à porta da sede do PS no Largo do Rato, em Lisboa, exaltou-se e acusou-os de estarem instrumentalizados e de pertencerem a um partido da oposição, como se isso fosse pecado. Só faltou dizer que eram perigosos comunistas.
Na noite de segunda-feira, na SIC, o Primeiro-Ministro, desfez-se em sorrisos e simpatias para com dois entrevistadores que, nas palavras de Vasco Pulido Valente, «tentaram não incomodar».
Nos últimos tempos, cada vez com maior frequência, parecem existir dois Sócrates: um que diz que qualquer remodelação é especulação jornalística, e outro que convida Ministros a apresentarem carta de demissão; um que veste fatos Boss e calça sapatos Prada, e outro que desenha casas forradas a azulejos multicores; um que promete que não subirá impostos, e outro que os aumenta; um que se exalta e diz inconveniências, e outro que respira tranquilidade e transpira politicamente correcto. Os exemplos são numerosos.
A coisa é séria: um país não deve, em boa teoria, ser governado por alguém com características de ter um comportamento bipolar – gera instabilidade, que diabo!
Até mesmo nessa entrevista nasceu um novo fenómeno: Sócrates, que gosta de se afirmar determinado e sabedor do rumo que quer seguir, mostrou um laivo de enorme indecisão. Talvez inspirado no exemplo de Cavaco Silva, disse que ainda não sabia se concorreria às próximas legislativas. Mostrou-se indeciso, receoso, calculista porventura. É, talvez, mais um dado a ser tido em conta no diagnóstico.
Quando olho para o percurso do Engenheiro José Sócrates, para a forma como ele e a sua «entourage» próxima se comportam face à mais leve crítica, vem-me sempre à memória a mesma citação, do perspicaz Eça de Queiroz: «sob a nudez crua da verdade, o manto diáfano da fantasia».
De facto parece existir aqui um problema com este Governo e o seu Primeiro-Ministro: o país de que falam, não parece ser aquele onde vivemos. O Governo vê êxitos e maravilhas onde o comum cidadão vê dificuldades e desilusões. Em qualquer crítica o Governo vê um ataque. No jornalismo investigativo vê uma ameaça. Na insatisfação dos cidadãos descobre uma ingratidão. No fundo, é um Governo incompreendido, ao que parece dentro do próprio partido de onde é oriundo.

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publicado às 16:04

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por falcao, em 18.02.08
PESADELO – O estado a que chegou a administração da Justiça em Portugal é mais do que preocupante: os procuradores do norte estão em guerra com os do sul e com cidadãos que deviam defender; na Judiciária o caos tornou-se mera rotina; na Ordem dos Advogados impera a demagogia e a baixa política; Tudo isto se passa com os devidos atrasos, desleixos, incúrias, cumplicidades, manhosices. O sistema judicial tomou conta do país, ameaça tomar conta dos políticos e, a seguir, de quem ousar levantar-se contra a desordem jurídica vigente. Alberto Costa deixou chegar as coisas a um ponto muito complicado.


MAU – Um governo que enche a boca de inovação e depois dá uma machadada no ensino artístico não merece grande crédito. Qualquer leigo sabe que na escola poucas coisas estimulam tanto a criatividade como o ensino da música. Quando se ataca o ensino da música como prioridade da política educativa, é sinal de que se quer formar uma geração de mentes cinzentas e conformadas.


PÉSSIMO – Cada vez que um jornal revela alguma coisa sobre a vida pública, profissional, do Engenheiro José Sócrates, eis que o Primeiro Ministro e alguns dos seus próximos aparecem a gritar que se trata de uma campanha intolerável. Noutros tempos foram estes mesmos argumentos que serviram de base para se iniciarem ataques à liberdade de imprensa. Ninguém imagina que um político ambicioso chegue a Primeiro Ministro sendo um anjo e um exemplo de virtudes e boas maneiras – o problema está quando os próprios se convencem da sua santidade e intocabilidade.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Alguma coisa vai mal num partido em que a primeira figura se limita à retórica e em que o líder parlamentar anuncia que se vai pôr a viajar pelo país fora em autêntica pré-campanha.

LER – O scriptorium era uma pequena sala dos mosteiros medievais onde os monges copistas escreviam os seus manuscritos. Para o seu novo livro, o romancista norte-americano Paul Auster pegou no termo e fez dele o centro de uma história quase surreal, mas cativante da primeira à última linha. «Viagens no Scriptorium» (edição ASA), explora as palavras, trabalha a passagem do tempo, o efeito da memória e o mistério do pensamento. Não é por acaso que esta é das mais elogiadas obras de Paul Auster.

IR – O concerto do quarteto do trompetista polaco Tomasz Stanko promete ser um bom momento do jazz ao vivo. Baseada no repertório do seu último disco, «Lontano», a actuação terá lugar na próxima quarta-feira dia 20, pelas 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa. A revista norte-americana «Down Beat» considerou «Lontano» como um dos dez melhores discos do ano passado e o seu autor como um dos melhores trompetistas contemporâneos.


OUVIR – Os primeiros minutos do disco são surpresa no seu melhor: emoção pura, espanto pela força e clareza da voz.. Ao terceiro álbum a cantora negra norte-americana Liz Wright fez um trabalho verdadeiramente surpreendente que combina uma maioria de bons originais com algumas versões, entre as quais «I Idolize You» de Ike e Tina Turner e e «Thank You» dos Led Zeppelin. Arrebatador e inesperado «The Orchard» é um disco que merece ser descoberto. CD Verve/ Universal.


VER – Até 2 de Março ainda se pode ver, no Museu da Electricidade, em Lisboa a exposição «100 Fotos, Obras, Anos de Oscar Niemeyer » da autoria do arquitecto e fotógrafo Leonardo Finotti. Neste sábado, amanhã, dia 16, os arquitectos

Ricardo Carvalho e Ricardo Bak Gordon fazem uma visita guiada e comentada à exposição, a partir das 16h30.


PERGUNTANDO… Esta semana, num restaurante popular de Lisboa, daqueles onde ainda se comem petiscos, ouvi um arrebatado rapaz a explicar à sua encantada conviva estrangeira as qualidades da comida portuguesa e os perigos que a ASAE traz ao país. Face à incredulidade da rapariga, surgiu da boca do rapaz a inevitável e marcante pergunta: «You don’t know what ASAE is?». Se o Nunes sabe, a rapariga vai para um campo de reeducação.


PETISCAR – O «Tempero de Minas» é um simpático restaurante na esquina da Luís Bívar com a Pinheiro Chagas, ao Saldanha, em Lisboa. Ao almoço há buffet inspirado nos petiscos do estado brasileiro de Minas Gerais, à noite pode escolher de uma bem fornecida lista. Em qualquer dos casos não perca as entradas e os doces. E deixe a dieta para outro dia. Telefone 213555038, www.temperodeminas.com.


BACK TO BASICS – Se não existissem injustiças, ninguém saberia o que é de facto a justiça – Heraclitus.

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publicado às 17:38

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por falcao, em 18.02.08
UM OUTRO CANAL
Publicado na Revista «Atlântico» de Fevereiro de 2008

A história mais recente da evolução dos media mostra uma coisa muito interessante - coexistem duas tendências de certa forma antagónicas. Por um lado fortalecem-se os suportes generalistas mais agressivos, que se assumem como pólos globalizantes nos respectivos mercados, e, em simultâneo, começam-se a afirmar os veículos de informação e comunicação muito segmentados, dirigidos a públicos especiais.
Em Portugal continua a existir ainda medo pelo surgimento de novos suportes, pela proliferação de títulos. O reduzido crescimento do investimento publicitário nos últimos anos é argumento usado pelos suportes existentes para contrariar o inevitável alargamento do mercado. A questão, no entanto, não é essa. O verdadeiro problema, para os actuais grandes grupos de media, é como conseguirem manter a captação de investimento publicitário quando é certa a tendência para a procura de novos meios, novos suportes, que possibilitem uma afinidade e uma proximidade cada vez maior com os consumidores. E, quanto mais generalistas esse grupos procurarem ser, menos conseguirão captar os segmentos onde estarão os consumidores com maior poder de compra.
O rápido crescimento da internet – que dentro de alguns anos igualará a televisão na captação de publicidade nalguns mercados mais desenvolvidos, devia dar que pensar.
Na realidade é inevitável a convergência entre a televisão, tal como hoje a conhecemos, e a internet, num futuro que já não está assim tão distante.
Isto coloca aos operadores de televisão com maior experiência e capacidade um dilema: como conciliar a existência de canais generalistas fortes e com audiência massificada mas pouco qualificada, com a criação de novos canais, com outros conteúdos, eventualmente exportáveis para outras plataformas, que toquem os segmentos de publico que fogem dos canais tradicionais e que possibilitem captar investimentos publicitários que já não querem hoje em dia os canais generalistas de sinal aberto?
A resposta, no caso português, para já, pode estar no cabo. Tal como noutros mercados, será que aqui iremos assistir à criação de novos canais (ou à transformação dos existentes), por forma a captar o interesse dos consumidores com poder de compra, urbanos, profissionalmente activos? A SIC, que deu os primeiros passos na segmentação de canais há uns anos, tem hoje a esse nível uma oferta mal definida e provavelmente desajustada da realidade do mercado – e a existência de um novo canal de informação, da TVI, no final do ano, irá baralhar o jogo. E com uma SIC generalista agora tonificada, com Nuno Santos a disputar audiências com a TVI, fará ou não sentido alterar a definição dos canais de cabo existentes, criando um canal português assumidamente elitista, não exclusivamente noticioso, focado na realidade nacional mas cosmopolita, que seja veículo para os anunciantes que procuram outros públicos? Ou deixa-se esse mercado apenas para os canais internacionais de séries?



PENSAMENTOS OCIOSOS I
O Presidente francês Nicolas Sarkozy está a trabalhar no sentido de retirar completamente a publicidade dos canais de televisão do serviço público em França. O objectivo, relata a imprensa especializada, é promover uma programação de alta qualidade e, ao mesmo tempo, aumentar a produção local. A medida visa por um lado libertar o serviço público dos constrangimentos comerciais e, por outro, libertar uma fatia do mercado publicitário para fortalecer os operadores privados. Quererá Sócrates seguir o seu exemplo?
Recorda-se que em Portugal o Governo colecta uma percentagem do consumo da electricidade que se destina a pagar parte dos custos do serviço público de rádio e de televisão. Em França, Sarkozy, está a estudar o lançamento de uma taxa a pagar pelos operadores de telemóveis e Internet exactamente com o mesmo objectivo.
Até que ponto gosta Sócrates de Sarkozy?


PENSAMENTOS OCIOSOS II
Nos Estados Unidos a televisão de alta definição (TVHD) está muito mais implantada do que na Europa e isto deve-se, em primeiro lugar, ao facto de os norte-americanos terem optado pela distribuição das emissões de HD através do cabo, aproveitando a facilidade com que neste meio se obtém uma maior largura de banda. A mais recente cobertura do maior espectáculo desportivo do ano nos Estados Unidos, a Super Bowl, foi um festival: 47 câmaras simultâneas de alta definição mostraram todos os ângulos possíveis do jogo e da actuação, de meia hora, de Prince, que antecedeu a competição. Na Europa o território onde a TVHD está mais desenvolvida é na Grã Bretanha, em parte graças à rede de satélite da Sky – que usa muito a HD na Sky Sports.
Ora isto devia dar que pensar aos nossos queridos governantes: porquê reservar largura de banda na televisão digital terrestre para a alta definição se tudo indica que no futuro o seu melhor meio de distribuição está num dos sistemas de cabo ou de satélite? Claro que isto deixa outra questão em aberto – que fazer com as frequências que ficam libertas. Talvez mais canais…Dor de cabeça à vista, portanto.

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publicado às 17:33

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por falcao, em 14.02.08
IMAGENS INCÓMODAS
(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 13 de Fevereiro)

Os incidentes da semana passada na escadaria do Grémio Lisbonense podiam ter ficado praticamente ignorados, não fora o facto de uma estação de televisão ter divulgado imagens que mostraram a brutalidade dos polícias envolvidos. Nas imagens era bem visível o descontrolo desses agentes, era patente a sua raiva, traduzida em bastonadas indiscriminadas, nem eles próprios sabiam bem em quem.
Na origem da divulgação das imagens está a TV NET, uma estação de televisão que emite na Internet (www.tvnet.pt) há cerca de um ano, e que tem vindo a fazer um esforço notável de cobertura noticiosa e, sobretudo, no estabelecimento de uma relação de grande interactividade com os seus espectadores, que enviam imagens obtidas via telemóvel ou com pequenas câmaras de vídeo.
No dia dos incidentes um porta-voz da polícia dizia que os agentes teriam utilizado os meios proporcionais e necessários face à situação. Ora as imagens mostram precisamente o contrário: um abuso de meios, a completa desproporção da reacção policial e sobretudo a falta de capacidade dos agentes para manterem o controlo da situação. Além disso os agentes actuaram de forma ilegal quando agrediram um repórter fotográfico, em serviço e identificado, da agência Lusa.
A agressão ao repórter fotográfico tinha um objectivo claro: impedir a captação de imagens. Para mal dos pecados da polícia de insegurança pública, hoje todos podem captar – e difundir – imagens. Foi assim que elas chegaram à TV NET e, depois, a todas as outras estações de televisão.
No meio de tudo isto estranha-se o silêncio de Rui Pereira, o Ministro da Administração Interna. Esperava-se que face às imagens abrisse inquérito, promovesse exames psicológicos aos agentes que mostravam raiva e descontrolo, aproveitasse o caso para educar a polícia no respeito pelos cidadãos e pela informação, punisse o porta voz mentiroso. Nada disso. Mas, curiosamente um porta-voz da Câmara Municipal de Lisboa fez questão de se demarcar da forma de intervenção policial – e por acaso António Costa era o anterior Ministro da Administração Interna. Já me esquecia: esta simples carga de bastonada ocorreu no mesmo dia em que Sócrates apresentou mais 180 medidas do simplex…

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publicado às 15:09

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por falcao, em 12.02.08
BOM – A persistente atitude do CDS no Parlamento, a marcar a agenda, a obrigar à presença de quem o PS procura evitar que se explique perante os deputados. Praticamente a única oposição visível.


MAU – A machadada no ensino artístico que a actual Ministra da Educação pretende fazer no âmbito da reestruturação do sistema educativo português. Uma das faces já visíveis é o fim do ensino especializado da música.


O MUNDO AO CONTRÁRIO – Um agente da PSP, do Porto, fazia horas extraordinárias como segurança numa casa dedicada à prostituição. Depois admiram-se que a polícia crie desconfianças nos cidadãos…


PESADELO – A proliferação recente de «lounges», na generalidade sem pinta de graça, a maior parte com música fracota demasiado alta, e as mais das vezes muito fracos – mas mesmo muito – do ponto de vista do serviço e do ponto de vista da qualidade da comida servida. Não basta um arquitecto copista, uma imitação de DJ, umas roupas engraçadas e um ar antipático para fazer um local de atendimento público. Toda esta gente que anda a copiar «lounges» deveria estagiar um ano a lavar pratos em Nova Iorque para perceber como o sorriso, a simpatia e a qualidade do serviço são a única possibilidade de ter algum sucesso. Os «lounges» de agora são a versão contemporânea dos snack bares de balcão cromado dos anos 70, com a agravante de o serviço ser pior.


DESCOBRIR – O novo blog de Patrícia Reis. Short stories fantásticas, imagens bem escolhidas. A ver em www.vaocombate.blogspot.com.


PETISCAR – Os crackers e biscoitos dos Paladares de S. Sebastião, um misto entre padaria e restaurante a cair para o self service. Nas comidas destaque-surpresa para uma versão portuguesa (na envolvente e no recheio) do strudel – nesta caso um strudel de bacalhau num pão de mistura com o formato da chapata. Rua de São Sebastião da Pedreira 25 A. Não há reservas, senta-se quem chega primeiro. À saída compre um pacote de crackers ou de biscoitos.


VER – Natxo Checa é o curador da exposição «Abissologia» , de João Maria Gusmão e Pedro Paiva,, uma produção da galeria a Zé dos Bois no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, até 7 de Fevereiro.


LER – Neste tempo em que as revistas se segmentam cada vez mais, é curioso seguir a «L’Arte», uma muito bem elaborada revista sobre o mundo das artes plásticas. Polémica, incisiva, bem informada, a «L’Arte» é leitura indispensável para todos quantos gostam de seguir as exposições que as diversas galerias apresentam, de estar a par dos principais leilões e de perceber o valor relativo dos vários artistas no mercado.


OUVIR – Confesso que tenho uma recorrente paixão pela sonoridade de Philip Glass e admito com toda a facilidade que as palavras de Leonard Cohen sempre me emocionaram. Quando estes dois nomes se juntam para fazer música, o resultado merece ser ouvido. Estava algures entre o receio e a curiosidade quando coloquei a tocar «Book Of Longing», o registo de um espectáculo concebido por Glass e Cohen e estreado ao vivo no Festival de Spoleto, nos Estados Unidos. A ideia foi baseada num livro, com o mesmo título, com poemas e desenhos de Leonard Cohen, editado em meados de 2006. Trata-se da primeira recolha de poemas de Cohen em 20 anos, desde que tinha editado «Book Of Silence». Neste «Book Of Longing», Glass teve a ideia de partir das palavras de Cohen para criar uma obra musical, fazendo-se rodear de instrumentistas e cantores de géneros diversos (do rock à música clássica). A apresentação ao vivo, em estreia, ocorreu há cerca de um ano e estreou e no final do ano passado surgiu a edição em disco, acompanhada de um livrinho com os poemas e alguns dos desenhos de Cohen. Ao todo são 22 canções fantásticas - e algumas delas inesperadas. Cohen surge no disco declamando alguns dos seus poemas ou fazendo curtas introduções. Glass, ele próprio, toca teclas. Duplo CD, Edição Omm, comprada na Amazon.


PERGUNTANDO – O que é que Scolari anda a fazer? A tentar ser o seleccionador dos fiascos?


BACK TO BASICS – Estar na política é um pouco como ser treinador de futebol: tem que se ser suficientemente esperto para perceber o jogo e estúpido ao ponto de se achar que é uma actividade importante (Eugene McCarthy)

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publicado às 17:11

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por falcao, em 07.02.08
O OUTRO LADO DA POLÍTICA CULTURAL
(Publicado no «Jornal de Negócios» de dia 7 de Fevereiro de 2008)

Os promotores de um abaixo-assinado contra a anterior Ministra da Cultura reclamavam que o Primeiro-Ministro prosseguisse uma política cultural «como a que foi seguida por Manuel Maria Carrilho». O pragmático José Sócrates, em parte fruto das circunstâncias, em parte porque nunca se encantou por Carrilho, resolveu proporcionar-lhes uma política cultural do género Joe Berardo.
Na realidade Manuel Maria Carrilho é apenas um insinuante diletante que a única coisa que fez, enquanto Ministro da Cultura, foi a distribuição clientelar de subsídios. Carrilho é estimado porque, à falta de uma política cultural, procedeu à distribuição de fundos públicos por um grupo restrito – mas influente – de agentes artísticos de diversos sectores. A uns efectivamente subsidiou, a muitos outros apenas prometeu.
Passemos agora aos tempos que hoje vivemos. O actual assessor cultural do Primeiro-Ministro é Alexandre Melo, um bem informado crítico de artes plásticas que por acaso foi um dos conselheiros das aquisições do acervo de arte contemporânea da colecção Berardo; o novo Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, é um prestigiado advogado e reconhecido humanista, com boa reputação em direito comercial, por acaso até agora administrador da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo e pessoa próxima do Comendador.
Se existe uma linha Joe Berardo na área cultural, ela pode, resumidamente, descrever-se assim: Berardo é bom exemplo da utilização da cultura para criar uma imagem, obter aliados, abrir portas, ganhar legitimação e fazer negócio. O novo Ministro da Cultura e o Ministro da Economia têm aliás bastante a aprender com ele nesta matéria. O único problema é que o Comendador quis – e conseguiu – fazer com que o Estado alinhasse num discutível negócio sobre a manutenção da sua colecção de arte contemporânea em Portugal.
Do novo Ministro espera-se que não seja um novo Carrilho, que rompa com a inevitabilidade de se resumir a Cultura a uma política conjuntural de subsídios, e que tenha a coragem de implementar políticas e conseguir que o Governo encare a cultura de forma diferente. A arte e a cultura – isto é muitas vezes esquecido - são fundamentais não só para fomentar o estimulo dos sentidos e o prazer da mente, mas também para criar postos de trabalho e receitas, e ainda porque permitem a um país ganhar vantagem competitiva em relação a outros países e regiões.

AS CINCO ÁREAS SENSÍVEIS
1 - O primeiro dos trabalhos do novo Ministro da Cultura, por uma questão de independência de postura, devia ser o de resolver o imbróglio do enxerto do Museu Berardo no CCB, decisão precipitada que subverteu a vocação do Centro Cultural de Belém. Na realidade este Ministro da Cultura está numa boa posição para juntar as peças que antes foi impossível colar: do lado do Município de Lisboa a posse de um Pavilhão de Portugal que permanece desocupado e de duas colecções (de Moda e Design) sem local para onde irem, quando fazia todo o sentido colocá-las próximas ao Museu Berardo. Um Museu Contemporâneo instalado no Pavilhão de Portugal – aberto, dinâmico e polifacetado - seria um factor agregador e um elemento de dinamização turística de toda a cidade e do país. Enquanto figura com ligações ao Comendador Berardo e apoiante público do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, seria lógico que o novo Ministro se empenhasse em mostrar como se podem conciliar interesses para o bem comum – uma atitude cívica que aliás José António Pinto Ribeiro gosta de professar. Este entendimento com as autarquias – estimulando o que de bom existe e evitando guerras paroquiais – podia ser peça fundamental de uma política cultural inteligente.

2- O segundo trabalho que tem pela frente é o mais complicado de todos: convencer o Primeiro Ministro que, antes de aumentar o orçamento da Cultura, vale a pena pensar como ele pode ser estimulado, do exterior, pelos privados. Neste domínio há várias questões, a maior parte dependente das Finanças: diminuição do IVA sobre produtos culturais, incentivos fiscais para atrair investimento nas indústrias culturais (no sentido lato, de actividades criativas, que a Comunidade Europeia tem vindo a adoptar). Vou só dar um exemplo: Portugal continua a ser dos poucos países europeus a não ter uma Film Commission nacional – e porquê? Porque sem incentivos fiscais ninguém cá virá filmar por melhor que seja a luz e o clima: basta ver que nenhum produtor internacional aceitará um IVA como o que temos.
Neste capítulo tomemos o exemplo da música gravada: o IVA é de 21% (5% em Espanha), no entanto os maiores cartazes culturais de Portugal no estrangeiro vêm da área da música: Amália, Madredeus, Marisa. Não seria interessante, rever a carga fiscal no sector por forma a estimular o consumo e o surgimento de novos artistas?

3- No terceiro ponto da lista de preocupações vem a coordenação interministerial. Quais as áreas mais sensíveis? Para além das Finanças, já acima referidas, surge logo a Economia (que inclui o Turismo) e em que o Ministro Manuel Pinho – como se viu recentemente em Madrid com a bem sucedida operação centrada na escultura de Joana Vasconcelos - tem tentado desenvolver uma estratégia baseada na criação de uma imagem, em obter aliados, abrir portas e fazer negócio – tudo com base em produtos culturais. O pior que poderia acontecer seria termos dois Ministros em competição na área da Cultura: um a atribuir subsídios e outro a promover os criadores portugueses e a imagem do país.
Mas, depois, existe a área da Educação, existe a área da Comunicação (que domina o sensível e decisivo dossier do audiovisual, nomeadamente o serviço público de televisão), e existe a área dos Negócios Estrangeiros – a cultura de um país é, ou não, uma importante arma diplomática?

4- O quarto ponto, que se prende com o MNE, é a pedra de toque para o futuro: colocar Portugal como a plataforma da divulgação da criação dos estados de língua portuguesa, um centro de difusão multicultural único na Europa.

5- Finalmente, um outro ponto importante é a questão da salvaguarda do património mais recente. Que os Jerónimos ou o Mosteiro da Batalha merecem ser preservados, todos estão de acordo. Neste ano, em que se assinala o centenário de Maria Helena Vieira da Silva, fazia sentido que o Ministério da Cultura resolvesse a questão da integração definitiva das suas obras da colecção Jorge de Brito no espólio do Museu Arpad-Szènes-Vieira da Silva – e já agora que o Museu tivesse mais condições de funcionamento.

Esta questão remete-nos para um tema de fundo: sem dinheiro do orçamento de Estado como resolver tudo isto? Estude-se o exemplo britânico do Art Fund, uma organização, que, baseada num regime fiscal excepcional em relação às contribuições de privados, tem por objectivo principal assegurar a compra, para depósito em museus britânicos, de peças importantes.
E já que estamos no Reino Unido sugiro que se estude bem o funcionamento do Arts Council – o organismo responsável pelos financiamentos das artes e que entre 2008 e 2011 distribuirá 1,3 mil milhões de libras, proveniente do Orçamento de Estado mas também das contribuições do jogo e da lotaria. É um sistema baseado no desempenho, na capacidade de fazer chegar a criação artística aos públicos, de fomentar mecanismos de distribuição e de marketing.
Uma interessante iniciativa do Arts Council que merecia ser vista de perto é o «Own Art», um programa de financiamento sem juros, feito em parceria com determinados bancos patrocinadores, com o objectivo de incentivar as pessoas a comprarem arte – pintura, fotografia, escultura, artes decorativas. Podem ser compradas peças entre 150 e 3000 euros, pagáveis em dez prestações mensais sem juros. O objectivo é que as pessoas possam fazer das artes parte do seu quotidiano, mas também ajudar os artistas a viver daquilo que criam.

A grande questão que se coloca ao Ministério da Cultura é a de saber se quer gerir o status quo dos concursos de subsídios e de preservação do património histórico edificado ou se, verdadeiramente, quer desenvolver novas políticas. Ou, melhor, criar pela primeira vez nos últimos anos uma política cultural articulada que potencie os equipamentos existentes, estimule a criatividade e sirva para reposicionar a imagem de Portugal no mundo.

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