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REALIDADE – Costuma dizer-se que só percebemos que a situação está má quando ela nos começa a cercar. Nos últimos meses vários dos meus amigos, mais ligados a actividades criativas, tipicamente a trabalharem enquanto prestadores de serviços, a recibos verdes, começaram a dizer-me que sentiam uma diminuição de procura, de encomendas. Nas últimas semanas vários disseram-me que as avenças que tinham foram rescindidas. Pessoas com experiência, capacidade de execução e coordenação de projectos, de repente encontram-se sem trabalho e ouvem dizer que são qualificadas demais para o que existe para fazer. Não contam para as estatísticas do desemprego, mas existem. O mundo – este nosso mundo – está a ficar perigoso: a experiência é penalizada e a inexperiência explorada. O resultado não pode ser bom.

 

MATEMÁTICA – As primeiras notícias diziam que Sócrates havia sido reeleito secretário-geral do PS quase por unanimidade. As segundas notícias já diziam que afinal só 1/3 do universo eleitoral dos militantes socialistas havia participado nas eleições. A unanimidade de Sócrates é afinal de cerca de 30% - também depois das diatribes de Santos Silva contra a oposição interna outra coisa não era de esperar.

 

PROMESSAS - Em tempo eleitoral todas as promessas são permitidas. Mas já que Sócrates e seus amigos tantas promessas estão a fazer, e tanto se comprometem com a classe média, convém aqui recordar que depois do enorme rol de promessas de emprego, de não subida de impostos e de maravilhas diversas, a realidade é a que se vê: logo a seguir às eleições os impostos subiram e muito e os tais milhares de empregos nunca foram criados, mesmo antes de a crise se instalar. Ele há alturas em que vale a pena puxar pela memória e ver como correram as promessas…

 

MEMÓRIA – Gosto muito do You Tube – lá se podem encontrar curiosos fragmentos do passado. Se tiverem paciência digitem esta entrada: http://www.youtube.com/watch?v=ga4JFtrOx1Y.

Aqui poderão ver um líder de oposição aguerrido a dirigir-se ao Primeiro Ministro a queixar-se dos maus números da economia, a acusá-lo de não criar condições para aumentar as exportações, a criticar o excessivo optimismo, a apontar o que o Governo não faz, a prometer resistir e impedir o controlo da comunicação social. O curioso, como poderão ver, se inserirem o link acima publicado, é que quem fez estas afirmações foi o Deputado José Sócrates, contra o Governo PSD da altura. O vídeo é adequadamente intitulado «Falar Para O Espelho».

 

COMUNICAÇÃO – Para a semana nasce um novo canal de televisão, essencialmente informativo, o TVI 24, em preparação há vários anos – as razões dos atrasos que sofreu são um case study do que corre mal em Portugal neste sector, a variadíssimos níveis, desde o licenciamento à distribuição, sendo que a culpa não foi da TVI, que pacientemente esperou pelas autorizações. Estou convencido que o TVI 24 manterá a independência editorial que é a imagem de marca da informação da estação-mãe, e que felizmente se afirmou, mesmo apesar dos momentos mais governamentalizados da direcção da Prisa em Portugal. Que contraste existe entre esta informação e a do Rádio Clube Português, também da Prisa, sobretudo desde que João Adelino Faria bateu com a porta – infelizmente o RCP é hoje uma estação cujos noticiários parecem mais preocupados em não ser incómodos do que em relatar a realidade.

 

OUVIR – As coisas simples são invariavelmente as melhores. Em 1968, pouco depois do fim dos Buffalo Springfield, Neil Young, então com 22 anos, tocou, sozinho com a sua guitarra, na Canterbury House, intercalando pequenas introduções entre as canções, aqui em inesperadas, frescas e belíssimas interpretações. Trata-se da edição, em CD e DVD, de mais um fragmento dos arquivos pessoais de Young, este com 40 anos de idade: será que daqui a 40 anos descobriremos registos inéditos e tão surpreendentes como este dos artistas contemporâneos? CD e DVD «Sugar Mountain» , Reprise.

 

VER- Raúl Perez é um artista plástico português cujas influências vêm do surrealismo. Na sua obra predomina o desenho, a tinta da china ou carvão, com algumas passagens por desenhos aguarelados e por elaborados trabalhos a óleo. O Museu Colecção Berardo juntou desenhos e pinturas de Perez feitos entre 1963 e 2008, numa mostra surpreendente para quem tem um primeiro contacto com o artista. Todas as obras são de uma enorme minúcia e revelam uma disciplina de trabalho apertada. A exposição estará patente até 12 de Abril.

 

LER – No dia 6 de Junho de 1926 a «Revista de Comércio e Contabilidade» publicava um interessante e didáctico artigo intitulado «Os Preceitos Práticos Em Geral E Os De Henry Ford Em Particular». O autor do artigo era Fernando Pessoa e o texto é absolutamente notável. Ocupa 16 páginas de uma bela edição da colecção Centauro, criada pela renovada Guimarães Editores em finais do ano passado. Transcrevo um dos princípios enunciados: «O negócio não pertence ao patrão ou aos empregados, mas ao público».

 

PROVAR – Takashi Yoshitake fez mais pelo conhecimento dos usos e costumes do Japão em Portugal nos últimos anos que todas as iniciativas diplomáticas oficiais. Mestre Takashi Yoshitake, que morreu há poucas semanas em Portugal, foi o fundador do restaurante Aya, que ao longo dos anos se foi expandindo até ter criado, há pouco tempo, o AYA de Carnaxide, num edifício autónomo, com um espaço fantástico que conjuga um salão com compartimentos privados de uma sobriedade exemplar. A qualidade dos ingredientes e da preparação do peixe são notáveis e valem a deslocação. Rua Anibal Bettencourt nº71, tel. 214181684, Carnaxide.

 

BACK TO BASICS – Não é a espécie mais forte, nem a mais inteligente, aquela que consegue sobreviver – é a que tiver maior capacidade de adaptação, Charles Darwin.

 

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publicado às 16:40

(Publicado no diário «Meia Hora» de 17 de Fevereiro)


 


Quando Costa ganhou as eleições autárquicas intercalares em Lisboa – provocadas por uma gestão política suicidária de Marques Mendes – alguns inocentes pensaram que a cidade iria conhecer tempos de paz, progresso e respeito pelos seus habitantes.

A realidade é bem diferente. A cidade está pior, os seus melhores espaços tornaram-se palco de aventuras comerciais – desde patrocínios de marcas a alugueres para apresentações de produtos, passando por passeios de fórmula um na Avenida da Liberdade. O espaço público é desrespeitado, tirado aos cidadãos que cá vivem, que cá pagam impostos e taxas e a quem a Câmara retira a possibilidade de viverem bem na sua cidade, precisamente quando ela está mais vazia pelo êxodo das invasões suburbanas – ao fim de semana.

Um plano sem nexo nem conteúdo varreu há meses a Praça do Comércio dos itinerários possíveis durante o fim de semana; agora o mesmo espaço foi transformado num estaleiro de obras e, já se sabe, estes quatro meses de enormes buracos no coração da cidade, irão tentar ser utilizados para fazer permanecer o louco projecto de impedir o trânsito, gizado por Manuel Salgado – cuja actividade em termos de urbanismo tem sido invisível, mas em termo de desconforto para os residentes tem sido bem patente.

Lisboa, no Verão passado cheirava mal e tinha pequenos buracos no pavimento, no asfalto, que não foram reparados; os pequenos buracos, com o Inverno chuvoso que ocorreu, tornaram-se em crateras. Tudo indica que Lisboa, mal aumente a temperatura, vai continuar a cheirar mal, mas com buracos ainda maiores. A gestão da equipa de António Costa caracteriza-se por estes dois vectores – falta de limpeza, falta de manutenção dos pavimentos – desinteresse pela qualidade de vida e conforto dos cidadãos contribuintes. Bem pode o Presidente da Câmara dizer que procura melhor ambiente – na realidade persegue moinhos de vento em vez de resolver problemas concretos – que, já se sabe, são sempre mais trabalhosos. Lisboa, hoje, é um buraco.

As eleições, nunca é demais recordá-lo, servem não para votar em programas mas para avaliar experiências. António Costa pode aparecer com mil promessas, mas a experiência destes dois anos não é para repetir – nunca a cidade caiu tanto, nunca foi tão descurada, nunca os seus residentes foram tão descriminados e maltratados. Costa, na prática, é um buraco.

 

 

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publicado às 17:15

INSPIRAÇÕES - O Primeiro Ministro abriu a época eleitoral com uma campanha alinhada à esquerda e virada para o interior do PS. Levanta esse velho desígnio da esquerda que é castigar a riqueza e penalizar o sucesso e fez passar a mensagem de que encarna o espírito de Robin Hood, mas como Fernando Sobral bem recordou neste jornal, Robin tinha por missão recuperar o dinheiro da excessiva cobrança de impostos que o xerife de Nottingham exercia contra o povo…Sócrates, se é parecido com alguém nesta história, é com o explorador de impostos e não com o justiceiro. Adiante: na realidade o Primeiro Ministro foi recuperar um curioso slogan datado de 1975 e que era a palavra de ordem programática da UDP nesse ano: «Os Ricos Que Paguem A Crise». A origem e modernidade ideológica da moção de Sócrates ao Congresso socialista está pois localizada. 

 


 


PRÉMIO «VAI CHATEAR OUTRO» – Atribuído por unanimidade a Mário Lino, o Ministro que mais perguntas de deputados deixa por responder. O homem continua a aplicar «jamais» - neste caso ás respostas. Talvez seja mais fácil aproveitar um dos seus descontraídos momentos de final de almoço no Solar dos Presuntos para lhe fazer umas perguntas… 

 


 


GERAÇÃO NULA - Estes meses têm mostrado uma coisa – muitos dos grandes bancos mundiais estão em péssima situação, cheios de activos tóxicos, muitas empresas financeiras que pareciam donas do Universo esboroaram-se que nem neve em dia de sol, grande número de consultores enganaram-se nas contas, nas previsões, nas estimativas e nos modelos de negócio. É caso para dizer que uma geração de gestores implacáveis, a repletos de MBA’s e de arrogância caiu à primeira dificuldade, depois de esbarrar nos acontecimentos e mostrou que não sabia aplicar conhecimentos nem trabalhar no mundo real.  

 


 


ABSURDO - Nunca hei-de conseguir perceber as circunstâncias muito particulares em que se movimentam as empresas de futebol, antigamente chamadas clubes. No mundo real quem trabalha mal e falha resultados é despedido com justa causa – no mundo do futebol é dispensado com grandes indemnizações, fruto de contratos feitos por gestores que acreditam em milagres, na sorte, no carisma e noutros subjectivismos diversos. Em qualquer outro ramo de actividade seriam crucificados, no futebol são levados em ombros. O caso de Scolari é paradigmático: o vendedor de ilusões pode continuar a rir-se: a equipa que era suposta treinar não tem bons resultados, ele confirmou ser fraco líder, mas mesmo assim fez um belo encaixe financeiro. 

 


 


DÉFICIT - A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, anunciou uma iniciativa aberta a independentes, intitulada «Fórum Portugal», e que abordará uma larga série de temáticas. Mais uma vez a Cultura fica de fora do leque de preocupações, o que é um aborrecido deficit recorrente na política portuguesa e pode vir a ser um grande disparate. Na semana passada já tive oportunidade de lembrar que foi nos anos entre 1929 e 1939, a seguir à Grande Depressão, e graças a programas massivos de apoios, que o talento criativo nos Estados Unidos floresceu como em nenhuma outra época do século passado e ajudou o país a ganhar outro impulso. Já agora recordo, a este propósito, um artigo que Guta Moura Guedes escreveu no «Público» do passado dia 7, intitulado «Da importância da cultura em tempos de crise». Faço minhas as palavras da autora e, sobretudo este pedaço: «enquanto as prioridades não se centrarem nos conteúdos e nos recursos humanos, deixando para segundo lugar as construções mais visíveis, estaremos longe de fazer o necessário nesta área». 

 


 


VER –A «Casa da Cerca, Centro de Arte Contemporânea», fica em Almada e está situada no alto da parte velha da cidade, tem jardins magníficos e uma vista espantosa sobre Lisboa.  Até 17 de Maio apresenta uma bela exposição baseada na colecção de gravuras do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian (com obras de Almada, Mário Botas, Lourdes Castro, Man Ray, Matisse e Moore entre muitos outros) e duas exposições de fotografia - «Wall», de Rita Barros, e «De Passagem», de Graça Sarsfield, esta, de ambas, a mais interessante. Todos os dias menos segundas até às 18h00. 

 


 


PROVAR - Na zona das Avenidas Novas lá vão abrindo alguns novos restaurantes como o  «La Finestra», uma casa de comida italiana localizado onde em tempos foi o «Café Creme». As pizzas são a especialidade da casa – massa fina, pouco tomate, queijo QB sem abundâncias desnecessárias e boas combinações de outros ingredientes. Preços acessíveis, decoração luminosa e colorida, mesas confortáveis. Em matéria de pizzas fica no top 5 lisboeta. La Finestra – Av Conde de Valbom 52-A, tel 217 613 580. 

 


 


LER – Num ano em que o país convidado da Arco de Madrid é a Índia vem a calhar ler o magnífico «Uma Ideia da Índia», um conjunto de crónicas de viagem de Alberto Morávia escritas no início da década de 60 para o «Corriere della Será». A descrição dos locais, do funcionamento da sociedade indiana e da filosofia oriental são muito bem feitas, muito bem observadas. O livro, agora reeditado entre nós, está incluído numa nova colecção da editora «Tinta da China», dedicada a viagens, bem organizada e seleccionada por Carlos Vaz Marques. Boas capas, bom papel, bom grafismo – um exemplo raro nos dias de hoje. 

 


 


OUVIR - Benny Golson é um dos mais importatntes saxofonistas da fase do bepop e tocou com alguns dos maiores músicos da sua época. «The Best of Benny Golson» agrupa gravações feitas entre 1957 e 2004 e é uma compilação verdadeiramente preciosa para descobrir o talento de Golson, aqui ao lado de nomes como Art Blakey, Paul Chambers ou Art Farmer e Tommy Flannagan, entre outros.  

 


 


BACK TO BASICS - A sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrências intermitentes – Fernando Pessoa 

 

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publicado às 11:52

O DÉSPOTA ACIDENTAL

por falcao, em 11.02.09

(Publicado no diário «Meia Hora» de 10 de Fevereiro)

 


O Ministro Santos Silva é um daqueles acidentes da democracia – um regime masoquista que frequentemente permite a existência nos governos de inimigos confessos do debate de ideias e do pluralismo. Uma análise das principais intervenções conhecidas de Santos Silva mostra – logo desde o período pré-eleitoral que levou José Sócrates ao poder – uma forte marca de controlo e combate às diferenças, de desejo de interferência política nos media e um permanente abuso de poder em relação à oposição.

Teoricamente Ministro dos Assuntos Parlamentares, Santos Silva vive o cargo no exercício de uma maioria absoluta – se estivesse perante uma maioria relativa no Parlamento rapidamente se perceberia a sua inabilidade e a sua falta de capacidade de concretização de obra. Ele só consegue fazer o que não tem oposição possível. Quando se debate com oposição mostra uma total incapacidade de concretizar o que quer que seja.

Isto não é novidade na sua actuação – o personagem Santos Silva fez o tirocínio governamental nos governos Guterres de má memória. Aí foi um apagadíssimo e inútil Secretário de Estado na Educação, mais tarde Ministro da Educação, num cinzento mandato sem obra feita. Logo a seguir transitou para Ministro da Cultura, com a missão de resolver o caos em que o seu antecessor, José Sasportes, tinha deixado o Ministério – tarefa que não cumpriu, tendo a sua fugaz passagem ficado marcada pela paralisia da instituição. E isto, note-se, na área de especialização académica de Augusto Santos Silva.

Na sua actual função desde cedo mostrou o espírito arruaceiro, que agora o PS descobriu quando se insurgiu contra as divergências de Edmundo Pedro e Manuel Alegre e prometeu malhar nas diversas oposições à esquerda e à direita.

O principal traço da sua personalidade é uma prosápia e violências verbais que contrastam o ar apagado e de olhos no chão num diálogo cara a cara, a forma arruaceira como gosta de argumentar e a maneira como sacrifica qualquer diferença ao dogma do poder.

Deste homem, de quem não se conhece obra construída na vida real, à parte a sua actividade académica há muito interrompida, depende boa parte do controlo de informação sobre a rádio e televisão pública e a agência noticiosa. Na realidade ele é efectivamente o Ministro da Propaganda, um homem que só vive em regime de poder absoluto e que encara quem dele discorda como alvos a abater. É gente assim que está ao lado de Sócrates nas eleições internas do PS.

 

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publicado às 11:55

 


DO OUTRO MUNDO – Parece que a política de Comunicação do Ministro Mário Lino tem um refinamento que mais nenhum outro Ministério ainda conseguiu: os escolhidos em concurso público ficam a saber que do Caderno de Encargos cosnta uma festa encenada para a cerimónia de adjudicação, com presença garantida de José Sócrates e filmes, internet, publicidade e acompanhamento de imprensa, mais comes e bebes, tudo de formato fixo, fornecedores fixos e preço fixo: 500.000 euros. João Cravinho, que gostava - e bem - de se insurgir contra sinais de corrupção, e que foi Ministro das Obras Públicas, que dirá deste sofisticado método de financiamento de campanhas de propaganda? (Resta dizer que todos os preços vindos a lume são mais caros que os preços de mercado normalmente praticados….quem ganha com a diferença?)

 

MUNDO REAL - Imaginem um autarca do partido do Governo que pressiona um ministro do ambiente a encarar a alteração de uma decisão e o leva a sentar se, à mesma mesa, com um empresário disposto a tudo para avançar com o seu projecto. OK,  isto parece uma sinopse de um filme de cordel passado numa república das bananas, mas é apenas um resumo, real, do que até agora se sabe do caso Freeport – intrigas de família à parte.

 

OUTRO MUNDO – A política passou a ser feita não de ideologias mas de campanhas de informação e contra-informação. Uma análise da imprensa dos últimos oito meses em Portugal mostra um somatório de manobras que passam pela área dos negócios, pela Banca, pelos jornais e, obviamente pela justiça – que é o bem mais raro e escasso em Portugal.

 

VENTOS DE LESTE – O Governo chinês anunciou esta semana que 20 milhões de trabalhadores originários de zonas rurais, que estavam em zonas industriais de grandes cidades nos últimos anos, perderam o emprego nos meses mais recentes em virtude da crise internacional e da diminuição de encomendas para exportação. São 20 milhões que assim regressaram às suas terras de origem com muito pouco nas mãos. O «Financial Times», que tinha esta notícia, estimava que mais de 12 milhões de desempregados recentes permaneciam ainda nas cidades à procura de trabalho e , citando autoridades chinesas, alertava para a possibilidade de perturbações sociais graves no país.

 

LER – A edição de Fevereiro da «Vanity Fair» traz três artigos imperdíveis: uma descrição, detalhada e surpreendente, de como funcionava a Casa Branca no tempo de Bush, a história do romance entre a Princesa Margarida de Inglaterra e o fotógrafo Tony Armstrong Jones no início dos anos 60, e uma visita à faceta teatral de Cate Blanchett. A propósito dos tempos que vivemos, o editor da revista, Graydon Carter recorda que foi nos anos entre 1929 e 1939, a seguir à Grande Depressão, que o talento criativo nos Estados Unidos floresceu como em nenhuma outra época do século passado.

 

UM BOM CASO – Na quinta-feira da semana passada o nº 84 da Rua da Boavista, em Lisboa, registou uma enchente rara nos tempos que correm, quando se fala de inaugurações de exposições em Lisboa. É ali que fica o Art Edifício Transboavista, que agrupa a VPF Cream Art Gallery, a Rock Gallery e a Plataforma Revólver. Cada um destes espaços encerra propostas e objectivos diferentes e o resultado é uma junção de diversos públicos, mas com a característica comum de procurarem um espaço que é cada vez mais sinónimo de território de exploração de novos rumos, ao mesmo tempo que se assume como um palco para provocações estéticas e montra de experimentalismos. A animação, a vontade de ver e de estar era genuína, a alegria dos presentes contrastava com o discurso sobre a crise e tudo isto se passava numa noite de mau tempo. Victor Pinto da Fonseca conseguiu em pouco tempo tornar este espaço (que brevemente contará com mais uma galeria), num local incontornável no roteiro da arte contemporânea em Lisboa. Destaque, na nova série de exposições, para a instalação de Gustavo Sumpta que liga a entrada do edifício até ao topo, na Plataforma Revólver (onde está a colectiva Convite Cordial), e para o trabalho de Pascal Ferreira, «Vice-Versa», na VPF Creamarte, verdadeiramente a desafiar os limites físicos do espaço. Nas salas reservadas ao acervo da galeria uma inesperada novidade: um excelente trabalho a grafite de Nuno de Campos, um artista português que tem vivido em Nova York e que para o ano terá neste espaço uma exposição.

 

OUVIR – O novo disco de Bruce Springsteen, «Working On A Dream» é de longe o seu melhor trabalho dos últimos anos. Excelentes composições, textos adequados ao tempo, os músicos da E Street Band em grande forma e uma produção absolutamente irrepreensível de Brendan O’Brien fazem deste trabalho um marco na carreira do músico – que aqui abraça em interpretações pessoais diversos géneros da música popular norte-americana, com curiosas evocações da country nalguns momentos.

 

COMIDA – Não chega um arquitecto capaz e boa vontade para fazer um bom restaurante. O Sommer (Rua da Moeda, ao Cais do Sodré) é um espaço agradável, fruto daquele género de inspiração que leva umas pessoas, com jeito para a cozinha, a meterem-se numa aventura complicada. Eu sinceramente espero que a cozinha melhore, que o serviço melhore e que o ambiente geral melhore. É que, tal como está, o Sommer é apenas um espaço simpático, sem onda nem grande comida. (Rua da Moeda 1K, tel 213 905 558).

 

BACK TO BASICS - Quando chove, é certo e sabido que não há operações Stop - Vítor Raínho.

 

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publicado às 12:57

UMA NOVA AMBIçÃO

por falcao, em 06.02.09

Muito bom o artigo de Pedro Passos Coelho publicado hoje no Jornal de Negócios - uma análise aberta e realista da crise, das medidas que têm sido tomadas e de alguns caminhos que deveriam ser seguidos. Espreitem http://tinyurl.com/b8z2hs

 

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publicado às 12:55

COSTA CONTRA OS ALFACINHAS

por falcao, em 04.02.09

 


(Publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Fevereiro)

 

O PS e o Bloco de Esquerda pretendem fazer alterações significativas no trânsito na zona da Baixa e na zona ribeirinha de Lisboa. Os argumentos são os do costume: devolver a cidade aos peões, tentar criar faixas para bicicletas, demagogia barata para consumo eleiçoeiro – como se as cidade contemporâneas não convivessem com os automóveis.

Fernando Nunes da Silva, um Professor do Instituto Superior Técnico, já veio alertar para o facto de os desvios previstos irem provocar engarrafamentos consideráveis noutros locais – nomeadamente no Chiado – aumentando a circulação, a poluição e diminuindo a qualidade de vida nessas zonas que agora irão ser castigadas.

Os comerciantes que ainda sobrevivem na Baixa lisboeta alertam para o facto de as limitações propostas irem ameaçar ainda mais o já reduzido movimento comercial, alertando para a possibilidade de muitos estabelecimentos comerciais terem que encerrar, criando assim mais desemprego e desertificando ainda mais a Baixa.

Olhando com atenção para as soluções apresentadas salta logo à vista que o movimento entre a zona de Alcântara e a zona da Expo ficaria fortemente condicionado – paradoxal depois do investimento realizado na recuperação daquela área. A este nível este plano é quase uma segregação da Expo, relegada para arrabalde com penalizações de entrada no centro da cidade. Não deixa de ser curioso que um dos autores do estudo agora apresentado seja um dos responsáveis pela planificação (má, como hoje já se percebeu) da Expo – o vereador Manuel Salgado - «um poeta que vive numa auréola de esquerda, sendo um homem de direita», nas acertadas palavras do Presidente do Automóvel Clube de Portugal, Carlos Barbosa.

E é ainda Carlos Barbosa quem recorda, a propósito deste plano, apresentado por António Costa, que o actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi «o pior Ministro (da Administração Interna) no que diz respeito à mobilidade e a tudo o que tem a ver com a segurança rodoviária».

As medidas agora previstas, a serem tomadas, prejudicarão sobretudo os lisboetas que vivem e trabalham dentro da cidade, os mesmos que este ano serão chamados a eleições para uma Câmara Municipal que lhes suga dinheiro em taxas e impostos, que usa a EMEL como arma terrorista e os castiga por quererem continuar a viver nesta cidade. Eu gostava de continuar a viver numa cidade que me quer, em vez de uma que me persegue.

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publicado às 10:20

CURIOSIDADE – Gostava de ver um estudo que avaliasse, em termos económicos, o impacto negativo que Lisboa sofrerá se o alargamento do terminal de contentores fôr para a frente e se, em consequência disso, diminuírem brutalmente o número de cruzeiros que escolhem Lisboa como porto de passagem. É que as cidades que apostam num porto de carga invariavelmente deixam de ser porto de turismo e os muros de contentores fazem perder muitos cruzeiros – muitos milhares de turistas por ano que deixarão de entrar em Lisboa, fazer compras, visitar museus e dinamizar a economia da cidade. Será que tudo isto foi avaliado?  

 


 


PERGUNTAS QUE ME OCORREM - Como é que PS, PSD e PP se conseguem abster numa proposta do BE e do PCP que visa geminar Lisboa com a cidade de Gaza no meio de considerandos pró-palestinianos e de condenação a Israel? O que é que o Ministro das Finanças terá dito em Londres numa reunião com a Standard & Poor’s para esta instituição baixar o rating de Portugal dias depois? Como é que se encaixa a entrega de parte da colecção Berardo como garantia colateral da dívida do empresário aos Bancos com o contrato existente com o Estado sobre aquelas obras de Arte? 

 


 


QUINTO CANAL – O novo canal de televisão, o célebre quinto canal, se vier a existir, tem que contribuir para a diversidade da paisagem audiovisual e, necessariamente, terá que dinamizar a produção independente, encomendando produção no mercado português – cumprindo aliás directivas europeias e leis nacionais, o que quer dizer que não pode ser uma estrutura auto-suficiente que não dinamiza a economia do sector. Espero que quem decide tenha bem presente este lado da questão e analise a viabilidade das propostas com os pés assentes na terra. 

 


 


VER – Vale a pena ir a Elvas descobrir o Museu de Arte Contemporânea local (MACE), que alberga a colecção de António Cachola. Há dias o Museu abriu uma extensão destinada a exposição temporárias, no Paiol de Nossa Senhora da Conceição, inaugurado com a exposição «(Im)permanências» de Cristina Ataíde, e que ficará no local até ao Verão. É uma instalação que junta escultura com fotografia e o resultado surpreende. 

 


 


OUVIR – Jóias e raridades do arquivo da Tamla Motown numa edição disponível apenas com a revista britânica de música «Mojo». O CD que acompanha a edição de Fevereiro da revista inclui alguns singles históricos de nomes como Martha & The Vandellas, Supremes, Marvin Gaye, Four Tops, The Miracles, Temptations ou Gladys Knight & The Pips.  A mesma edição da revista traz um belo conjunto de artigos sobre a história da Motown e uma lista das cem melhores faixas que ela editou, escolhidas por vários músicos. A publicação com o CD incluído como oferta custa cerca de oito euros e está disponível nas boas lojas de revistas. 

 


 


LER – A mais recente edição da «Monocle», de Fevereiro,  é dedicada à crise actual e, depois, de forma mais particular, à forma como ela atingiu a Islândia e o que o país está a fazer para tentar salvar-se. Mas para além disto esta edição tem numerosos pontos de interesse na área do design, dos negócios, da cultura e da actualidade. Começa a ser repetitivo dizer isto, mas de facto a «Monocle» é mesmo uma revista a não perder. 

 


 


CRISE – Começa a notar-se que a crise afecta os restaurantes – embora também se veja que não afecta todos por igual. De qualquer forma os restaurantes com preços mais elevados começam a ter menos reservas e mais mesas disponíveis. No actual clima económico é compreensível que assim seja e a situação cria um desafio para que os bons restaurantes consigam sobreviver a um período de possível diminuição de receitas. A espiral de pânico que se instalou leva a que as pessoas pensem duas vezes antes de gastar dinheiro e faz com que, nas empresas, haja maior cuidado na escolha de locais para almoços ou jantares de negócios. Tudo isto vai obrigar os restauradores a terem muita imaginação e a refazerem bem as contas, para verem como podem ter uma oferta mais competitiva e que não afaste a clientela habitual. Duas refeições ao almoço por 70/80 euros pode ser aceitável, duas refeições por 120 euros pode começar a ser questionável. Basta ir a dois ou três locais de Lisboa à hora de almoço e sentir a deslocação de uns locais para outros, vendo os mais caros um pouco desertos e os de preços médios mais cheios e com novos clientes. Também neste sector as mudanças vão ser inevitáveis. 

 


 


PROVAR – Situado no alto do Parque Eduardo VII o restaurante Eleven partiu de uma aposta ousada: um edifício de restaurante construído de raiz, projecto do arquitecto João Correia, com a sala de refeições orientada para o parque, a Avenida da Liberdade e o Tejo, ladeado pelas colinas, Alfama e o Castelo de um lado, o Bairro Alto do outro. Esta é provavelmente a melhor vista disponível nos restaurantes lisboetas e como os olhos também comem fora do prato o trunfo é considerável. Mas o «Eleven», para ser justo, tem a sua principal vantagem na qualidade da cozinha, na criatividade dos seus pratos e no serviço, que é verdadeiramente exemplar. Dirigido pelo chefe Joachim Koerper, um alemão convertido aos sabores mediterrânicos, o «Eleven» propõe menus de almoço de negócios a preços mais reduzidos que o menu habitual, com a particularidade de incluir vinhos muito criteriosamente escolhidos para os pratos propostos e que vão variando. Telefone 213862211. 

 


 


BACK TO BASICS – Nunca pode existir total confiança num poder que parece excessivo – Cornelius Tacitus 

 

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publicado às 12:26


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