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ELEIÇÕES, JUSTIÇA E VISTORIAS

por falcao, em 27.05.09

 


(Publicado no diário Meia Hora de 26 de Maio)

 

Começou oficialmente esta semana o período de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu. É o início de um ciclo de três eleições que se arrastam durante cinco meses e que prometem marcar o dia-a-dia do país. Em cada um dos três actos eleitorais os partidos serão aferidos pelo que têm andado a fazer – o que muito provavelmente penalizará o PS. Há quatro anos atrás Sócrates estava confiante de que conseguiria diminuir o desemprego e resolver alguns problemas estruturais do país. Em vez disso o desemprego cresceu violentamente, a situação económica deteriorou-se muito e as reformas que quis fazer foram perdendo velocidade. A repetição da maioria absoluta parece um objectivo muito difícil de alcançar – até porque o eleitorado parece ter-se cansado do estilo absolutista de Governo que o núcleo duro de Sócrates imprimiu.

 

Nestas eleições para o Parlamento Europeu uma coisa que me espanta é que ninguém põe em causa a Europa, tal como Bruxelas a desenha actualmente, as vozes contra o Tratado de Lisboa são fracas. O unanimismo na questão europeia, em Portugal, sempre me pareceu interesseiro: ninguém se quer pôr contra a Europa porque os fundos comunitários dão muito jeito – mesmo que a sua execução seja miserável e mesmo que aquilo a que eles obrigam, em termos nacionais, seja um preço muito alto. Eu gostava de ter uma posição anti-europeia ou pelo menos uma forte voz crítica – essa teria o meu voto.

 

A justiça portuguesa é extraordinária e, infelizmente, caricata: o Tribunal de Faro considerou provadas as agressões a Leonor Cipriano dentro de um edifício da PJ mas nenhum dos agentes envolvidos no caso foi condenado pela prática de tortura, apesar de o Juiz considerar que ela existiu. O polémico ex-inspector Gonçalo Amaral foi condenado por falso depoimento, outro inspector, António Cardoso, foi condenado por falsificação de documento e os outros três membros da PJ presentes no interrogatório , Leonel Marques. Paulo Pereira Cristóvão (o que quer ser dirigente do Sporting…) e Paulo Marques Bom foram – pasme-se - todos absolvidos. Na altura a Judiciária dizia que as marcas no corpo de Leonor Cipriano se deviam a uma queda – agora o Tribunal confirmou tortura, mas afinal todos os envolvidos no caso estão inocentes. Há qualquer coisa nisto tudo que anda muito mal.

 

O acidente no carrossel em Matosinhos vem chamar a atenção para a necessidade de vistorias e certificações competentes. Quando há um acidente destes ninguém assume culpas de haver fiscalizações mal feitas e licenças emitidas de ânimo leve.

 

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publicado às 16:29

 


 


 


MUDE – O Museu do Design e da Moda abriu ontem com grande propaganda. Acontece que o que foi inaugurado é uma mostra provisória da colecção, que ficará estrategicamente exposta apenas até Outubro, coincidindo portanto com o período eleitoral. O edifício da Rua Augusta que vai acolher a colecção ainda não teve obras, há-de ter depois, e o Museu propriamente dito é apenas uma intenção por enquanto – mas já se percebeu que as coisas foram feitas tão à pressa que não está seguro qual será o programa de utilização total do edifício, ex-BNU, e da sua divisão por várias entidades – na realidade até já vieram a lume umas disputas. A exposição esta semana inaugurada foi apenas um pretexto de propaganda eleitoral de António Costa que, na realidade, não teve nenhum papel na aquisição das colecções Capelo, mas de cujo usufruto mediático rapidamente se apropriou. Os festejos incluíram a edição de uma revista de 266 páginas, distribuída em banca, e com uma tiragem de 25.000 exemplares, e que em tudo surge como umas edição essencialmente propagandística e eleiçoeira. Adiante se saberá quanto custou esta acção e quantos exemplares se venderam – que é para depois se medir o efeito prático, comunicacional, efectivo, da acção. A publicação resume-se a um catálogo das colecções marcado por dois textos – um auto-propagandístico de António Costa e outro panegírico em relação ao mesmo Costa, escrito por Francisco Capelo, o próprio. Ambos deixam de lado um pormenor histórico – que foi o de esta colecção pertencer agora à cidade de Lisboa porque em 2003 houve uma decisão nesse sentido por parte do Presidente da Câmara da época, Pedro Santana Lopes, que não aparece citado em lado algum. Recordo que ele tomou essa decisão – polémica na época -  perante a intenção manifestada por Capelo de querer levar a colecção para fora do país. Reescrever a história, apagando nomes e factos, é uma atitude pouco digna e nada séria. 




PARLAMENTO – Para memória futura: no espaço de apenas uma semana o PS quis impedir que o Parlamento ouvisse declarações do polémico Presidente do Eurojust, Lopes da Mota, e de Francisco Marcelino, o ilusionista que dirige o Instituto de Emprego e Formação Profissional e que tem artes de fazer diminuir o número de empregados graças a oportunos lapsos informáticos e metodológicos.
 

 


 


SINTOMÁTICO – Num panorama destes, Manuel Alegre decidiu reformar-se do Parlamento e desistiu de ir a votos, não integrando as próximas listas do PS. Todos aqueles que diziam que ele vale um milhão de votos ficarão agora na dúvida do peso eleitoral que ele possa de facto ter – fora da tribuna parlamentar onde durante décadas se baseou para a sua acção política, Manuel Alegre fica reduzido a bem pouco. A dúvida está em saber se saiu das listas do PS para intensificar tomadas de posição críticas, ou se perde palco e protagonismo.  

 


 


POPULAR – O fim do Museu de Arte Popular, decidido na semana passada em Conselho de Ministros, mostra como o Estado subalterniza a produção artística e artesanal de origem popular, subalternizando o seu estatuto cultural. Além da colecção e do edifício, perde-se a oportunidade de ter junto ao rio um pólo de atracção turística, que será substituído por um «Museu da Língua» que ninguém sabe bem o que será, mas que é copiado de uma instituição que alguns governantes de Sócrates viram no Brasil e acharam tecnologicamente muito interessante. Para assegurar que a delapidação do património avance chamou-se, como vem sendo hábito quando se trata de estragar a cidade, a Sociedade da Frente Ribeirinha do Tejo, igualmente incumbida por este Governo dos desmandos do Museu dos Coches e da Praça do Comércio. Disto – que afecta, e bastante, Lisboa – nada diz António Costa.  

 


 


FOTOGRAFIA – Semana rica em exposições de boa fotografia: Inês Gonçalves e Kiluange Liberdade mostram S. Tomé e Príncipe na Galeria Pente 10 (Travessa da Fábrica dos Pentes, às Amoreiras) e uma visão diferente de Luanda, esta na Plataforma Revólver (Rua da Boavista 84-3º); na P4Photography (Rua dos Navegantes 16), o moçambicano José Cabral merece ser descoberto com a inesperada exposição «Urban Angels»; e por fim, num outro registo, Pedro Tropa, na Quadrado Azul (Largo Stephens 4) mostra os seus desenhos e fotografias sob a designação «Cahier de Cent Dessins» numa instalação intimista. 

 


 


LER – Tanta fotografia – e tanta polémica em torno da fotografia e dos critérios do prémio BES – tornam muito oportuno ler a reedição de «A Câmara Clara», de Roland Barthes, agora feita pelas edições 70. É obviamente um texto datado mas as reflexões de Barthes sobre a imagem fotográfica continuam oportunas, certeiras e sagazes – muito mais quando hoje assistimos a alguma estética baseada em verdadeiras mistificações, que ele bem localizou. 

 


 


VER – A instalação de Fernanda Fragateiro «Construir É Destruir É Construir», no Museu da Electricidade, em Lisboa é baseada em três momentos diversos, todos evocando formas de sentir paisagens, sintetizadas na frase-manifesto pintado em mural no exterior - «A Paisagem Não Tem Dono». 

 


 


PETISCAR – A Loja dos Açores abriu recentemente em Lisboa, na Avenida Elias Garcia  57, e, além de alguns produtos de artesanato oferece a possibilidade de se fazer uma petisqueira só com produtos do arquipélago – desde queijos a enchidos (como as reputadas morcelas) ou fumados, passando por doces (como o doce de Capuchos), até à carne dos afamados bovinos locais, os licores florais e até biscoitos.  

 


 


 


 


OUVIR – O novo disco da cabo-verdeana Lura, «Eclipse», mistura uma produção mais ao gosto internacional com repertório tradicional e contemporâneo de Cabo Verde, composições de B.Leza , Toy Vieira ou Orlando Pantera. Menos tropical que discos anteriores, inesperadamente surpreendente como em «Tabanka» ou «Canta um Tango», este «Eclipse» surge como um curioso ponto de redefinição na direcção da carreira de Lura. (CD Lusafrica) 

 


 


BACK TO BASICS -  As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam, Almada Negreiros   

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publicado às 15:29

A ARTE POPULAR

por falcao, em 19.05.09

(Publicado no diário «Meia Hora» de 19 de Maio

 


O Museu de Arte Popular, em Belém, está encerrado há cerca de três anos e o seu espólio foi transportado em caixotes para o Museu de Etnologia, onde permanece fechado em caixotes e inacessível do público. O edifício original, o único que restou da Exposição do Mundo Português, está agora ameaçado por um projecto de adaptação que o ameaça tornar irreconhecível. Inaugurado em Julho de 1948, foi projectado por Jorge Segurado e no seu interior e nas suas paredes tinha frescos e obras de nomes como Manuel Lapa, Tom, Eduardo Anahory, Carlos Botelho, Estrela Faria e Paulo Ferreira. Durante anos reuniu uma colecção única de artesanato e arte popular que inspirou gerações de artistas e que atraía milhares de pessoas.


Apesar de tudo isto, na semana passada o Conselho de Ministros aprovou naquele local a instalação do Museu da Língua e o processo de concretização desta transformação foi entregue à Sociedade Frente do Tejo SA, uma entidade que parece estar destinada a ficar para a História como coveira de Lisboa – veja-se o caso dos contentores, da renovação da Praça do Comércio, do estapafúrdio novo Museu dos Coches e agora da destruição do Museu de Arte Popular.


A ideia do Museu da Língua, que é uma espécie de bandeira da muito coxa política cultural deste Governo, não é uma criação original – na realidade trata-se de uma cópia de um museu, muito tecnológico, com o mesmo nome que uns membros do actual governo português viram há tempos em S.Paulo e acharam muito engraçado. O facto resume uma maneira de pensar política e cultura: para fazer obra nova copia-se alguma coisa que se viu lá fora e destrói-se algo de original e nacional e que era único. Na dinamização do Museu de Arte Popular não se quis investir, mas na sua destruição e na construção do novo Museu da Língua o Estado vai colocar 2,5 milhões de euros. Isto diz tudo.


A atitude do Governo espelha o entendimento dominante dos políticos sobre a Cultura: o que é popular na origem e consegue ter público não tem estatuto. Esta forma de estar contamina tudo e prejudica o desenvolvimento de formas de expressão contemporâneas e populares. Em Portugal, ao contrário de muitos outros locais com uma criação artística florescente, a cultura popular é considerada menor. Infelizmente, a relação do Estado com a cultura popular está exemplarmente demonstrada nesta liquidação do Museu de Arte Popular. Melhor seria que quem nos governa admitisse o erro e voltasse atrás neste disparate. Para mais informações e formas de protesto vejam o blog www.museuartepopular.blogspot.com . 

 

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publicado às 12:33

 


PROPAGANDA - Esta semana soube-se que uma empresa que se apresentava como sendo da área das energias alternativas, e que por isso era apoiada pelo Governo, afinal não cumpria os requisitos do sector. O problema não está no engano, está na pressa em arranjar pretextos de propaganda, sem cuidar exactamente do que são. O que o caso prova é que o Governo nem na propaganda estuda bem os dossiers e que, afinal, liga pouca importância à qualidade dos fornecedores de energias alternativas que escolhe como exemplos. Nisto tudo há uma novidade: começa a haver algum desgoverno na propaganda do Governo.

 

INAUGURAÇÕES - António Costa é verdadeiramente bom a inaugurar iniciativas ou obras que foram imaginadas pelos seus antecessores. Mas em dois anos de mandato ainda não apareceu com uma ideia verdadeiramente nova que esteja em andamento e que os seus sucessores possam inaugurar. Para a semana, com pompa e circunstância, António Costa inaugurará o Museu do Design e da Moda, mostrando finalmente uma colecção garantida para a cidade no tempo de Santana Lopes. Ainda bem que ela agora vê a luz do dia, ainda mal que Costa se aproveite do trabalho dos outros para fazer uma campanha na área cultural, em que a sua governação tem sido particularmente desastrosa.



DESNECESSÁRIO - Ao fim destes dois anos de mandato o tal Zé que o Bloco de Esquerda dizia que fazia falta revelou-se, politicamente, uma barriga de aluguer. A sempre errática actuação de José Sá Fernandes oscila entre ceder praças da cidade para serem montras publicitárias e proibir os partidos de aí colocarem cartazes políticos. Na realidade ele tornou-se no exemplo acabado do género de troca tintas que não fazem falta nenhuma na política.

 

PENSAMENTO OCIOSO  - Depois de a Farinha Maizena ter este mês recebido uma inesperada boleia publicitária do Ministro da Economia, Manuel Pinho, a grande dúvida é saber quais são os políticos que obtiveram os cargos que têm na Farinha Amparo. Decididamente, em tempo de crise, as farinhas estão na mó de cima. 

  

OBSERVAÇÃO ACIDENTAL- Esta semana dei comigo a pensar que o número de manchetes de jornais e revistas, com base em declarações de responsáveis judiciais, é inversamente proporcional à eficácia da justiça.  

 

LIVRO - «Luz Indecisa», um livro de poemas de José Mário Silva, é das boas novidades editoriais do ano. Com uma sensibilidade invulgar e uma utilização da escrita que tem em conta o ritmo das palavras, José Mário Silva consegue, neste seu segundo livro de poesia, tornar encantador o quotidiano com relatos de instantes e observações fugazes do que nos rodeia. Com um raro sentido de economia na utilização das palavras, sente-se que cada poema escrito é depurado na procura da simplicidade – e é a simplicidade que mais atrai neste livro. Edição «Oceanos»

 

 

OUVIR – Os Oquestrada existem há algum tempo e fizeram carreiras entre bares, festas arraiais e muitos palcos percorridos ao longo de sete anos. A receita não é muito vulgar: inspirações ciganas, um toque de fado vadio, concertina dos grupos de baile, ritmos dos Balcãs, melodias da Córsega, ventos árabes. De tudo isto se fez a música de festa dos Oquestrada, aqui retratada pela primeira vez num disco, «Tasca Beat – O Sonho Português». Quem os conhece de ouvir cantar por esse país fora ou das gravações que iam circulando, trauteia-lhes as cantigas de cor, com alegria. Nas noites de verão é bom ouvir este disco, creio que propositadamente imperfeito, com o pé a bater o compasso e o calor a invadir-nos pela energia da música. A voz podia ser melhor, a técnica mais apurada, os pastiches menos evidentes – mas é isso que faz a espontaneidade de um grupo de baile com um fundo deliciosamente cabotino. CD Sony Music.

 

PROVAR – Andei uns tempos a evitar lá ir, sabendo eu que não faço parte do clube de fãs de Luís Baena. Mas agora lá fui, levado, ao Terraço do Tivoli, que desde que reabriu é dirigido por este «chef» . A ida passou-se ao almoço e as coisas não correram bem. O buffet pode ser exótico mas é um pouco descuidado – e algo desconexo - para o espaço nobre de restauração do Hotel e, francamente, o resultado da escolha feita na lista estava muito longe do ideal, em parte graças a uma confecção pouco atenta que deixou o peixe seco, embora montado de forma muito arquitectónica no meio do prato, sobre o acompanhamento. Confirmei as minhas impressões anteriores: Baena é melhor para a vista que para o paladar. O serviço continua exemplar , a garrafeira é de eleição e a vista é fantástica. Mas isso já era assim antes das obras. No Tivoli, magnífico hotel da Avenida da Liberdade, fico-me pela Brasserie e pelos encantos renovados do seu bar de entrada, nestes fins de tarde.

 

FOLHEAR – A propósito do lançamento do novo filme sobre a saga Star Treck, a edição norte-americana da revista «Wired» fez um número especial dedicado ao fantástico, ao misterioso, ao oculto. Em destaque cientistas loucos e histórias bizarras, lugares estranhos no planeta, truques de carta, cultos e bizarrias. A direcção editorial deste número especial foi de J.J. Abrams, o realizador e /ou criador de «Lost», «Alias», «Fringe», «Missão Impossível 3» e, claro, do novo «Star Trek». O próprio Adams assina um texto inspirador, «A Magia do Mistério», que é toda uma revelação sobre a forma como ele está no mundo. Os fanáticos de David Lynch (eu sou, reconheço), apreciarão uma foto assinada por ele na página 111, e que o próprio se encarregou de divulgar no twitter. A capa da revista, «The Mistery Issue», é toda ela um programa…

 

BACK TO BASICS – Mesmo nesta idade de imediatismos poucas coisas são melhores do que descobrir e descodificar as alegrias escondidas que a vida nos proporciona – JJ Abrams.

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publicado às 18:22

O COSTA DA CULTURA

por falcao, em 13.05.09

(Publicado no diário Meia Hora de 12 de Maio)


Esta semana li, algo surpreendido, um texto de propaganda sobre o que seria a política cultural da Câmara Municipal de Lisboa, protagonizada por António Costa. Publicada no sábado no «Público», a reportagem mostra um António Costa – pela primeira vez no seu mandato – preocupado com as questões da política cultural.


Presidente de uma vereação onde a Cultura é actividade acessória, confinada a estudos estratégicos de programa pré-definido e universo estreito, António Costa pouco mais fez do que mostrar como é presa de preconceitos e de lugares comuns, evitando falar de coisas concretas.


A estratégia de António Costa nesta matéria é curiosa: em vez de fazer uma política para a cidade, fez uma política e desenvolveu uma estratégia para querer seduzir pessoas, organizações e instituições ligadas às actividades culturais, dentro de um círculo razoavelmente restrito e com elevada dose de fidelidade política – na prática desprezou os públicos. O resultado é que a cidade perdeu aura, embora algumas pessoas tenham ganho ocupação subsidiada.


As iniciativas populares e o entretenimento – áreas marcantes da cultura popular contemporânea – têm-lhe merecido desprezo, substituídas por apoios avulsos a iniciativas muito especializadas e demasiado sectoriais. Mesmo num dos seus cavalos de batalha – a multiculturalidade, o seu mandato fica marcado pela extinção do África Festival, substituído por uma África.cont. que ainda ninguém sabe bem o que será e que, a bem dizer, não existe além do papel.


Mas o pior do curto mandato de António Costa em Lisboa tem sido a sua submissão ao Governo: foi assim com a Colecção Berardo, em que a Câmara devia ter imposto a solução do pavilhão de Portugal, na Expo, como equipamento receptor; foi assim no caso do inconcebível projecto do Museu dos Coches; foi assim na discutível transformação do Pavilhão dos Desportos num Museu do Desporto que ninguém sabe bem o que será e para que servirá.


O facto de em Lisboa conviverem instituições culturais nacionais com locais faz com que a Câmara deva ter voz activa nos equipamentos que estão na cidade. Mas como António Costa se demitiu desse assunto para não afrontar o Governo, Lisboa está no marasmo em que se encontra – à procura da fonte milagreira de onde brote o elixir que num instante transforme Lisboa numa cidade criativa – difícil quando se quer regulamentar e planificar a criatividade em vez de a deixar fluir. 

 

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publicado às 12:44

 


BERLIM - No último fim-de-semana estive em Berlim, onde já não ía há uns 18 anos, pouco tempo depois da queda do Muro, portanto. A minha primeira ida a Berlim tinha sido ainda no tempo da divisão e a parte ocidental da cidade tinha então uma vida fantástica e um ambiente especial, comparada com o ar macambúzio da parte oriental. Uns anos mais tarde, já sem Muro, Berlim era uma cidade confusa, atípica, sem nenhuma da graça nem da aura que antes tinha. Agora, renasceu. Este ano completam-se 20 anos da queda do Muro e a transformação é total. A parte oriental é a mais animada, com melhor arquitectura contemporânea, cheia de vida e movimento e no entanto sossegada nas pequenas ruas por detrás das grandes avenidas. É uma cidade acolhedora, simpática e onde – apesar da barreira do idioma – qualquer turista se sente bem. Faz muita impressão pensar em como Lisboa era há 20 anos e é agora – está pior; e uma cidade que há 20 anos estava dividida e destroçada, cheias de zonas áridas, é agora um verdadeiro paraíso urbano. Alguém por cá devia aprender com o que se fez em Berlim.

 

BURACOS - Quando penso na Avenida da República e nas Avenidas Novas, no que eram e no que são agora, é impossível não me revoltar contra os sucessivos poderes autárquicos que parecem conjugados em destruir Lisboa, em favorecer demolições e construções novas em vez de recuperações, numa Câmara apostada em proteger especuladores imobiliários e em desprezar os habitantes da Cidade. Boa prova desse desprezo está no caos de toda a zona do Saldanha, esventrada por obras do Metro que há anos se atrasam no prazo de conclusão sem que ninguém seja responsabilizado, de novo adiadas para o fim do ano.

 

INCÚRIA - Mesmo ao pé do meu local de trabalho está há umas semanas em demolição um prédio de gaveto, daqueles que foi deixado apodrecer ao longo dos anos para não ter recuperação possível e permitir a construção de algum novo edifício. Esta semana, à hora de almoço, aconteceu um acidente – caiu no meio da rua parte da fachada, por incúria de quem estava a fazer a demolição. Quem dá alvarás a empresas de demolição? Quem as fiscaliza? Quem vai punir este acidente? – Só por acaso os escombros não atingiram alguém.

 

LER - Dois artigos magníficos na «Vanity Fair» de Maio. O primeiro, sobre o roubo da «Mona Lisa» do Louvre, ocorrido em 1911 – ao que parece o roubo terá servido para uma quadrilha de falsificadores venderem a coleccionadores norte-americanos com poucos escrúpulos pelo menos seis cópias perfeitas do quadro de Da Vinci, obviamente cada um convencido de que estava a comprar a obra roubada. O original acabou por ser localizado ano e meio mais tarde, já todo o negócio estava feito e a intenção dos ladrões nunca foi vendê-lo, mas sim aproveitar o momento – muito mais lucrativo vender seis que apenas um… O outro artigo é sobre a crise que começa a assolar o «New York Times», tido como um exemplo do bom jornalismo e um case study de uma boa transição para o on line. O artigo, magnífico, devia ser dado a todos os gestores de empresas jornalísticas, para que percebam quais as questões fundamentais do negócio onde estão envolvidos.

 

PROIBIR - Parece que a cadeia de supermercados «Jumbo» se recusou a vender a reedição da obra «A Casa dos Budas Ditosos» de João Ubaldo Ribeiro (autor brasileiro que ganhou o Prémio Camões em 2008), por considerar a obra pornográfica. É um bocadinho assustador que um qualquer responsável de compras de uma mercearia gigante se arme em censor e guardião dos bons costumes, mas a verdade é que um dia destes, ao entrar no Jumbo das Amoreiras com um livro que andava a ler debaixo do braço, um dos seguranças de serviço me queria colocar um autocolante por cima da capa do livro, estragando-o. Quando os funcionários tratam assim os livros não é de admirar que outros se armem em censores. No meio disto li uma ridícula declaração de alguém do «Jumbo» sobre o livro censurado que é um perfeito manual de incompetência em matéria de relações públicas e comunicação.



 

RECORDAR – A minha geração foi a primeira que cresceu a ouvir os Xutos – eu tinha vinte e poucos anos quando os vi pela primeira vez e foi com muita alegria que há uns 17 anos li «Conta-me Histórias», um livro sobre a vida da banda escrito por Ana Critina Ferrão. Esse livro – o relato de um encantamento, como escrevi na altura - foi agora reeditado, revisto e aumentado, numa magnífica nova edição, mais uma vez com a chancela da Assírio e Alvim. É uma bela e indispensável peça na celebração dos 30 anos dos Xutos.

 

OUVIR – O disco que me acompanha nestes dias é o novo de Bob Dylan, «Together Through Life». As suas dez canções (nove escritas por Dylan e pelo ex-Grateful Dead Robert Hunter), são retratos cáusticos destes tempos que correm, com uma instrumentação dura mas simples, com laivos de blues e bayou, misturando acordeão com banjo e bandolim, tudo produzido de forma crua e eficaz pelo próprio Dylan sob o seu habitual pseudónimo musical de Jack Frost. Cito um dos temas mais marcantes, «Forgetful Heart»: "All night long/I lay awake and listen to the sound of pain/The door has closed forevermore/If indeed there ever was a door." E termino com outra canção arrebatadora, «It’s All Good»: "Big politician telling lies/Restaurant kitchen, all full of flies/Don't make a bit of difference".

 

PROVAR – Se de repente estiver com vontade de experimentar boa comida oriental descubra um restaurante tailandês chamado «Sete Pecados» - boa qualidade de produtos, muito boa confecção, tempero adequado, serviço amigável e familiar. Os petisquinhos do couvert são deliciosos e se gosta de cerveja experimente a tailandesa «Singha», de sabor invulgar mas muito interessante. Av. Luís Bívar 7ª, telefone 213160529.

 

BACK TO BASICS – Uma notícia é aquilo que alguém desejaria que não fosse publicado; publicidade é todo o resto do conteúdo dos jornais - William Randolph Hearst2008)

 

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publicado às 11:39

UMA OUTRA FRENTE

por falcao, em 07.05.09

(Publicado no diário Meia Hora de 5 de Maio)


 


O que eu gostava para Lisboa era que fosse constituída uma Frente Para a Qualidade de Vida dos lisboetas. O que eu gostava para Lisboa era que a autarquia se empenhasse em manter o que está bem, recuperar o que precisa de obras e preservar o que merece ser estimado. O que eu gostava era de ver menos prédios derrubados, mais prédios recuperados, menos fúria de nova construção. E gostava muito de ver ruas limpas, bem tratadas, com árvores, passeios largos, esplanadas – o que se vê em outras cidades de pior clima e em Lisboa é uma raridade.

A Avenida da República e as avenidas novas são um exemplo do mal que foi feito à cidade ao longo dos anos. Belos edifícios foram demolidos só para que novos e geralmente desinteressantes prédios fossem erguidos. Em Portugal privilegia-se infelizmente a demolição e a construção em vez da preservação. Ao lado do local onde trabalho, um centenário e elegante edifício de gaveto foi apodrecido para ser demolido. Perdeu-se a mercearia que fornecia produtos rurais de boa qualidade e a alternativa única de compra está nos supermercados, todos iguais. Tudo isto vais descaracterizando a cidade, tornando-a mais incómoda para quem nela vive, tudo isto diminui a qualidade de vida, a possibilidade de escolha e, também, a diversidade das actividades económicas.

Outro exemplo? - Quem manda em Lisboa não se preocupa em resolver os incómodos, só isso explica que as obras do Metropolitano, que esventram toda a área do Saldanha, tenham sucessivos prazos de conclusão, cada vez mais longos. Estes atrasos não são penalizados? Quem manda no Metro?

Em ano de eleições lá aparece a recuperação dos quiosques – o que é uma boa medida, por sinal entregue e alguém que tem cuidado da tradição dos produtos portugueses – Catarina Portas. Mas mesmo a maneira como a Câmara tratou do assunto cheira mais a propaganda do que a estratégia, e o contraste com o abandono a que outros espaços são votados e à falta de medidas integradas (a Avenida da Liberdade é o exemplo mais gritante), provoca a maior desconfiança.

O que eu gostava era que espaços como o jardim do Campo Grande fossem bem cuidados, não fossem deixados quase ao abandono, que tivessem bons locais de encontro, esplanadas simpáticas e bom serviço. O estado em que o Campo Grande está é uma ofensa à cidade – simbolicamente em frente a um edifício onde estão alojados muitos dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa.

 

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publicado às 16:30

 


PRIORIDADES - Leio com atenção o artigo de Mário Soares no «Diário de Notícias» sobre o 25 de Abril e uma estratégia para Portugal. Soares fala em quatro quintos do artigo sobre memórias do tempo em que foi protagonista e diz que o país está à beira de uma nova era «política, financeira, económica, ambiental, energética e, sobretudo, de valores». Muito sintomaticamente não fala da maior crise da sociedade portuguesa – que é o não funcionamento da justiça, com o que ela traz – o implícito benefício de quem não a cumpre e o não reconhecimento de quem faz as coisas como deve. Uma geração de políticos, mairotariamente advogados e juristas, como Mário Soares, deixaram como legado um país onde a Justiça não funciona. E fazer com que funcione é um imperativo estratégico – senão, não há nem economia, nem valores que resistam. O artigo acaba por ser a confissão de que, para os políticos, a justiça não é uma prioridade.

 

LISBOA - Cá para mim António Costa pode bem ser o mentor escondido da Frente de Esquerda. É ele quem tem a ganhar politicamente se a Frente surgir, a acção em si é típica de políticos à antiga como ele (que evocam com saudade a época do frentismo e gostam da táctica da unidade para expurgarem o campo em que se movem), e claramente esvaziaria de sentido as aventuras de Helena Roseta e deixaria o Bloco encurralado – sendo que com o PCP, como antes já aconteceu, pode sempre fazer-se um acordozito. Acho que a coisa já esteve mais longe de poder acontecer do que está na realidade e a pressão sobre quem ficar de fora vai ser enorme – de cisionistas a aliados da reacção vão ouvir de tudo. Com o inefável José Sá Fernandes na primeira linha do combate frentista, aposto.

 

CAPILÉ - Na terça feira de manhã escrevi isto no Twitter e no Facebook: «Tanta conversa sobre os quiosques de refrescos já aborrece - fazem mais falta esplanadas decentes na Av. da Liberdade que hinos ao capilé». Esta afirmação desencadeou uma guerra de opiniões, coisa boa e que é aliás o que me anima a lançar frases fortes – que de qualquer maneira correspondem ao que eu sinto, quando há uma desproporção entre a promoção e o seu objecto – como é o caso.

 

LER – Eis um bom exemplo de como um livro de ensaios, e para mais sobre cultura contemporânea, pode ser um estimulante exercício para o pensamento – mesmo quando se percebe que o autor, como é compreensível, valoriza o seu ponto de vista e subalterniza o dos outros – o que proporciona aliás alguns momentos divertidos, por serem tão assertivos. Mas, divertimentos à parte, «À Procura de Escala», de António Pinto Ribeiro (não, não é o Ministro, que esse não pensa nem age sobre Cultura) é um conjunto de cinco textos que faz bem o ponto de situação de uma determinada lógica de pensar a política e a actividade cultural no sentido da criação de um gosto – desse ponto de vista é talvez o mais sólido resumo do que foi o verdadeiro fundamento da política a que Carrilho quis chamar de sua. («À Procura da Escala», de António Ponto Ribeiro, Livros Cotovia).

 

VER - Uma sugestão para todos os que gostaram de ver e ouvir o maestro venezuelano Gustavo Dudamel no Coliseu de Lisboa no passado fim de semana: existe no mercado português um óptimo DVD onde Dudamel dirige a Orquestra Juvenil Simon Bolívar, gravado em 2007. O repertório é bem diferente do que ele aqui interpretou e inclui a «Eroica» de Beethoven, a «Danza Final» do argentino Alberto Ginastera e «Huapango» do mexicano José Pablo Moncayo. Atractivo suplementar, um documentário sobre como foi criada e funciona esta orquestra que impressiona tanta gente. DVD Deutsche Grammophon, distribuído pela Universal.

 

OUVIR – J.P. Simões é um dos mais interessantes e polifacetados músicos contemporâneos portugueses. Ao longo da sua carreira esteve com os Pop Dell Arte, fundou os Bellechase Hotel e criou o Quinteto Tati antes de iniciar a sua carreira a solo, que já leva dois discos editados. Pelo meio escreveu em jornais, fez bandas sonoras para filmes, escreveu um livro de contos, e tem dado concertos um pouco por onde calha, muitas vezes sozinho em palco com a sua viola. Admirador confesso de Chico Buarque, de quem as influências até na forma de cantar se notam, J.P. Simões é um compositor de invulgar talento e um intérprete notável. Eu acho que não é exagero considerá-lo o melhor da sua geração e o novo disco, acabado de editar e gravado maioritariamente ao vivo, «Boato», é prova disso mesmo. Não são só as canções, é o ambiente, a forma de tocar, o que está escrito e como é cantado – tudo tem aquele raro toque de génio que volta e meia nos faz parar a corrida para ouvir o que se passa à nossa volta.

 

DESCOBRIR - Nesta época de crise da imprensa é bom ver como no sector das revistas há alguma coisa diferente. O grupo editorial norte-americano Condé Nast decidiu acabar com a sua revista de economia e negócios, «Portfolio», mas ao mesmo tempo decidiu lançar a «Wired» no Reino Unido. Neste número inaugural da edição europeia surgiram novos temas e novas formas de abordagem relativamente à americana, com o futuro como tema de capa.

 

PETISCAR – Podia ser uma barra espanhola bem fornecida, como o Luciano em Ayamonte, mas é uma boa taberna portuguesa em Setúbal. Chama-se Taberna Grande, fica na Rua das Fontainhas 30 e apresenta um conjunto de propostas para petiscar com fartura e qualidade, de pataniscas a torresmos, passando por polvo à galega, presunto, requeijão e doce de abóbora a condizer. Recomenda-se apenas maior atenção na fritura – por vezes imperfeita e pesada. A garrafeira tem boas propostas regionais e o espaço é confortável, mesmo quando está cheio. Telefone 309847226.

 

BACK TO BASICS – A justiça deve ser mantida viva pelo espírito e não pela forma da Lei – Earl Warren

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