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Esquina 397 - Jornal de negócios

por falcao, em 25.02.11

ERC – Vai por aí um grande desassossego à volta da designação dos novos membros da ERC, Entidade Reguladora da Comunicação. Eu, por mim, acho muito bem que se faça um balanço, sério, do que se passou neste primeiro mandato desse organismo. Muita coisa correu mal, a ERC agiu muitas vezes de forma desastrada, actuou quando não era necessário e esteve silenciosa quando se justificava fazer-se ouvir. É  legítimo considerar que, em diversas ocasiões, serviu de cobertura política ao Governo e esteve longe de fazer um mandato independente – e este ponto é certamente o mais grave de todos. A falta de independência e a tendência servilista em relação ao poder político derivam da forma da sua designação – por negociata parlamentar. Na altura em que a ERC foi lançada houve quem chamasse a atenção para o monstro que estava ser criado. Pode dizer-se hoje que o monstro foi amamentado a biberon parlamentar, e que está um perfeito monstrinho. Reconheço que há um trabalho de recolha de informação e sistematização de dados que é importante, e que não era feito com a mesma sistematização na anterior Alta Autoridade para a Comunicação Social - mas tenho as maiores dúvidas sobre a forma de regulamentação permitida a esta entidade e sobre a maneira como ela agiu.



Existem outros pontos quentes neste dossier – para além da forma de escolha dos seus membros – e que vão desde as suas competências e esfera de acção até ao próprio sistema de financiamento do organismo, que levantou justificados protestos dos meios. Estas questões, básicas, deviam ser analisadas e corrigidas para o futuro – mas não ouço ninguém a falar delas.


 


E, depois, existe outra questão, mais grave, que tem a ver com a forma como a ERC interferiu no normal desenvolvimento dos meios. O caso da televisão digital terrestre é o mais gritante de todos. É certo que aqui a culpa não é só da ERC, a Anacom também tem um vasto rol de culpas na forma como todo este processo se arrastou até ao ponto, que é o actual, em que a realidade tecnológica ultrapassou as regulamentações e a previsão dos legisladores – sem que até agora tenham aceite fazer as correcções necessárias.


 


Resumindo: os operadores que distribuem televisão por subscrição são hoje capazes de fornecer serviços (alta definição, 3D,  vídeo on demand, etc), para além da própria emissão digital de televisão, que superam em muito o que sobre esta matéria estava previsto no Concurso da TDT. E isto, mesmo sem que já exista fibra óptica em todo o país. Quando existir, com os programas intensivos de cablagem agora em curso, o anacronismo da solução aprovada para a TDT ainda vai ser maior.


 


Portanto temos um paradoxo: as normas da Televisão Digital Terrestre são mais arcaicas que o serviço que os operadores de cabo conseguem já hoje fornecer. Ou alguém pega nisto de forma racional ou então a factura do disparate será enorme. E a ERC que até agora existiu tem uma quota parte razoável deste disparate.


 


ARCO DA VELHA- O estado a que isto chegou: acabaram com os comboios para Beja, mas abriram lá um aeroporto onde quase só as moscas aterram. O progresso do Portugal contemporâneo é assim: quer ir a Beja? – vá de avião, que já pode aterrar.


 


SEMANADA – Francisco Louçã confessou, numa entrevista, que tem «uma paciência evangélica para Sócrates»; Francisco Louçã disse, numa entrevista, que «se o FMI entrar deve haver eleições».; Francisco Louçã considerou, numa entrevista, que «o Governo de Sócrates é o Governo do PSD»; Francisco Louçã afirmou, numa entrevista, que o Bloco de Esquerda «sairá muito reforçado» da moção de censura ao Governo; Francisco Louçã revelou, em entrevista, acreditar que nas recentes eleições presidenciais «grande parte do PS votou em Cavaco»; Francisco Louçã anunciou, em entrevista, «que o BE é hoje diferente do que era».


 


PERGUNTA – Porque é que ninguém no Governo explica como é que a despesa pública subiu 0,9% em Janeiro?


 


LER – Todos os anos a revista norte-americana «Vanity Fair» faz, no mês de Março, uma edição especial alusiva aos Oscares de Hollywood. É, digamos, uma edição clássica, de colecção, para guardar. Na deste ano, que já está à venda em Portugal, há sobejas razões para ir devorando este número. A primeira é a produção fotográfica da capa, fantástica, um tríptico desdobrável com 15 dos novos actores nomeados este ano. Depois, lá dentro uma recolha de alguns dos mais célebres romances entre actores e actrizes, acompanhado por fotografias históricas (como a de Spencer Tracy com Katherine Hepburn). Ainda em matéria fotográfica destaque para um portfolio de mulheres fatais de Hollywood, de Ava Gardner a Marilyn, passando por Kim Basinger e Elisabeth Taylor. E, para completar o ramalhete, uma fabulosa entrevista com Lauren Bacall, em que ela recorda a sua vida com Humprhey Bogart, o seu namoro com Sinatra e a sua vida no cinema. Imperdível.


 


OUVIR – Return To Forever foi um projecto marcante no jazz desenvolvido por Chick Corea e que, entre 1972 e 1977, agrupou e revelou uma série de músicos e foi uma das referências da época do jazz de fusão. Em 2008 Corea decidiu voltar a pôr de pé o conceito, desta vez sob a designação «Forever». Fez uma longa digressão mundial (agora está a começar outra) e em 2009 foi para estúdio gravar versões acústicas baseadas no trabalho desenvolvido na digressão, que incluía clássicos do jazz, um original e temas da fase Return to Forever. Ao seu lado, em estúdio, estavam o baixista Stanley Clarke e o baterista Lenny White. O resultado é surpreendente – temas conhecidos ganham aqui uma nova vida e o equilíbrio, energia e criatividade destes arranjos acústicos é uma boa surpresa. O resultado é o duplo CD «Corea, Clarke & White – FOREVER». O segundo disco é uma surpresa ainda maior e  regista a gravação de um ensaio da digressão, onde também participaram o violinista Jean Luc Ponty, a cantora Chaka Kahn e o guitarrista Bill Connors. Este disco 2 termina com o registo ao vivo do clássico «500 Miles High», no festival de Jazz de Monterey, em 2009. Uma perfeita delícia.


 


VER  – Na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, e até 12 de Junho, está patente a exposição  «My Choice», uma escolha feita pela própria Paula Rego que inclui 120 obras da colecção do British Council, nomeadamente pinturas, gravuras, fotografia e desenho. Esta colecção inclui 8500 obras dos séculos XX e XXI e esta escolha permite ver alguns significativos artistas britânicos pouco conhecidos em Portugal –  além, claro, de proporcionar a oportunidade de ver o célebre «Naked Girl With Egg» de Lucian Freund e a série de dez gravuras de David Hockney para os Contos dos Irmãos Grimm. Esta exposição é acompanhada por uma outra que mostra quadros de Paula Rego feitos à época da sua obra «Proles Wall», de 1984, considerada como um dos pontos de viragem na carreira da artista.


 


PROVAR – Às vezes há quem pense que uma pequena vivenda ao fundo da Avenida de Berna, quase a chegar à Praça de Espanha, não passa de uma casa particular. Na porta está escrito «La Gondola». Na realidade trata-se de uma referência entre os restaurantes de Lisboa, uma casa que mistura algumas incursões pela cozinha italiana com boa cozinha portuguesa. As influências italianas vêm da origem do restaurante, nos anos 30 do século passado, fundado por uma família italiana que pretendia servir a cozinha do seu país aos compatriotas radicados em Lisboa. Hoje a história é diferente e embora existam alguns pratos italianos o essencial passa-se na tradição portuguesa. Quando lá vou o meu petisco favorito é o bacalhau à Braz, que continuo a achar um dos melhores de Lisboa, levíssimo. As alheiras são reputadas e os grelos que, a pedido, podem acompanhar, são elogiados pelo seu sabor. Para os gulosos, a rematar, aconselho uma trouxa de maçã. Resta dizer, nesta semana solarenga, que o La Gondola dispõe de uma esplanada que é dos locais mais parazíveis de Lisboa. Telefone 217 970 426.


 


BACK TO BASICS – O ódio é a vingança do cobarde – Bernard Shaw

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publicado às 10:57

PUNIR A MENTIRA NA POLÍTICA

por falcao, em 22.02.11

(Publicado no diário Metro de dia 22 de Fevereiro)


 


Todas as campanhas eleitorais são férteis em promessas. O bom senso e a lógica mandariam que algumas nem chegassem a ser feitas - mas são, e surgem voluntariamente. Os políticos habituaram-se a fazer as promessas que lhes vinham à cabeça e a viver com o seu incumprimento na maior impunidade. As promessas não cumpridas tornaram-se no dia-a-dia de partidos e candidatos e são uma das causas do descrédito da política e do afastamento dos cidadãos em relação ao voto.


 


Por isso, lanço aqui hoje uma ideia: devia ser criado um mecanismo legal que analisasse as principais promessas não cumpridas e promovesse a responsabilização efectiva daqueles que violam o que prometeram. O Presidente da República devia ter especial e constante intervenção nesta matéria, sendo o garante da verificação das principais promessas feitas.


 


Um caso:  quem ao fim de um mandato não consegue cumprir, por margem significativa, metas que prometeu, por exemplo na criação de emprego, deve ser interditado de se recandidatar a próximas eleições. O Presidente da República devia analisar o mandato e verificar quais as promessas que foram completamente desprezadas e que foram apenas engodo eleitoral. E quem mentiu para caçar votos devia ser proibido de ir a novas eleições.


 


Outro caso:  quem promete não aumentar impostos e o faz dois ou três meses a seguir às eleições devia ser destituído de imediato e o Presidente da República devia ter a obrigação de o fazer,  criando um mecanismo de substituição do Governo. Além disso o partido que caucionou estas propostas devia ser penalizado com a perca de lugares no Parlamento e outras condicionantes de actuação.


 


Estas minhas ideias podem parecer estranhas – mas é preciso encontrar uma forma de responsabilizar os responsáveis por cargos políticos pelas mentiras que utilizam com o único propósito de conseguirem ter poder.


 


Se o Presidente da República se tornasse num fiscal, que persegue e castiga a mentira, o nosso sistema político melhoraria, e muito.

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publicado às 13:43

LISBOA - Leio, e nem acredito: «Os deputados municipais do PS e do PSD em Lisboa recusaram terça-feira, na assembleia municipal, enviar para discussão pública propostas de reorganização das freguesias, alternativas àquela negociada por socialistas e sociais-democratas». Aquilo que podia ser uma boa coisa – a diminuição do número de freguesias e uma reordenação da cidade – tornou-se num case study de manobrismo político. Este é o retrato do pior que existe na traficância de interesses partidários, é o retrato da arrogância e soberba das lideranças dos partidos do bloco central na assembleia municipal de Lisboa. Fui eleito, como independente, mas na lista do PSD, em 2009, para a Assembleia Municipal de Lisboa e depois das primeiras reuniões deixei de participar nos trabalhos, solicitando a substituição, em cada reunião, há mais de um ano. Sobre o assunto tenho mantido silêncio, mas há muito que  discordo da actuação da liderança do PSD na Assembleia, discordo da sua relação com a equipa de vereadores social-democratas, e discordo da forma como tem sido conivente com um funcionamento perfeitamente inútil da Assembleia Municipal. A minha curtíssima experiência autárquica faz-me desconfiar da utilidade deste órgão – um mini parlamento para auto satisfação oratória de alguns funcionários políticos, que  promovem reuniões atrás de reuniões, na generalidade vazias e muitas delas inúteis, para justificar umas senhas de presença e dar uma ilusão de debate. Só que, como se vê, quando o debate público é preciso, ele é abafado. A Assembleia devia ser o garante da relação com os Munícipes, e não um obstáculo. Com esta decisão a Assembleia Municipal de Lisboa ergueu à sua volta um muro que a separa da cidade. PS e PSD foram os obreiros desta obra, um tratado de Tordesilhas da capital, negociado directa e exclusivamente entre as estruturas distritais dos dois partidos, com a benção de António Costa. Assim sendo não se percebe para que serve a Assembleia Municipal – é uma mera figura de corpo presente. Esta semana entreguei a minha renúncia ao mandato de deputado municipal. No estado em que as coisas estão, não alimento a menor esperança que mudem.


 


ARCO DA VELHA – O Tribunal Central de Instrução Criminal, que tem em mãos alguns dos mais mediáticos processos judiciais, é o retrato do país real: uma máquina muito usada de fotocópias, ausência de scanner, falta de armários para guardar os processos, um fax com 11 anos; este é o lado da moeda, inverso ao deslumbre tecnológico de Sócrates. De um lado cenário e fantasia; de outro a crua realidade. No meio, a ineficácia da justiça. Portugal no seu melhor.


 


SEMANADA – O Ministro Silva Pereira foi ao Parlamento dizer que a culpa das falhas nas eleições presidenciais foi do Ministério da Administração Interna, mas zurziu a oposição por pedir a demissão do respectivo Ministro; o Bloco de Esquerda transformou um instrumento político, a moção de censura, numa espécie de bóia salva-vidas para o Governo – que vai sair do assunto a rir-se da oposição; no fundo, Louçã teve uma ideia um bocado parva, para utilizar uma expressão muito em voga.


 


PERGUNTA – Que dirá José Sócrates de Angela Merkel? E que dirá Angela Merkel de José Sócrates?


 


LER - «Prova de Vida» é o novo livro de Filipe Pinhal, ex-presidente do BCP que há três anos foi protagonista de uma história ainda muito mal contada. Neste seu segundo livro sobre o BCP (o primeiro foi «Em Defesa do Bom Nome», de 2009), já com o recuo que o tempo proporciona, Filipe Pinhal relata o que aconteceu, em detalhe, designando pessoas e chamando as coisas pelo nome. É um relato impressionante, muito bem resumido por Miguel Cadilhe, na apresentação pública do livro: «A Caixa Geral de Depósitos financiou o assalto ao BCP, com luz verde do Governo, e apadrinhada pelo Banco de Portugal, CMVM e pelo Ministro das Finanças». Os detalhes e peripécias deste processo que «levou o BCP a mudar de mãos sem que quem o adquiriu pagasse prémio aos accionistas», provocou a governamentalização, politização e desvalorização do Banco – defende Pinhal. Este é um retrato de uma época , a da fase inicial do regime Sócrates, da tomada de posições em vários sectores, numa utilização abusiva do Estado como ainda não se tinha visto de 1974 para cá.


 


VER – A galeria Pente 10 é uma das poucas que em Lisboa se dedica à fotografia – e tem feito um bom trabalho, embora os preços apontados sejam um pouco desproporcionados . Até dia 2 de Abril exibe uma nova série de fotografias de Luisa Ferreira, agrupadas na exposição «Nós». São imagens construídas, situações onde a natureza se cruza com a encenação da presença de pessoas, familiares e amigos da autora. Em boa parte funciona como um regresso às origens, num percurso muito pessoal. Com um cuidado extremo no enquadramento e na abordagem quase gráfica da natureza ( a série dos bosques, por exemplo), «Nós» retoma  a vontade de Luisa Ferreira em mostrar que a sua fotografia vai para além da observação da realidade, preferindo construir momentos. Intervenção na paisagem, como diz Luisa Ferreira.


 


OUVIR – A pianista japonesa Mitsuko Uchida regressa pela segunda vez ao registo dos concertos para piano nº20 e nº 27 de Mozart, duas das peças mais populares do compositor. O registo original foi feito há já algumas décadas, com a English Chamber Orchestra. Aqui Uchida trabalhou com a Orquestra de Cleveland, que surge em grande forma, e com quem a pianista conseguiu estabelecer uma relação perfeita, dirigindo-a a partir do paino, como acontecia na época em que Mozart compôs. Mas o fundamental continua a ser  a precisão, a leveza do fraseado e o sentimento colocado por Uchida nestas peças.


 


AGENDA – Tesouros escondidos por detrás da aparência exterior: assim se pode descrever «BloomArt», a exposição de esculturas murais que Anamar & Telma apresentam na Cordoaria Nacional, até 17 de Março. Cada peça mistura cores com formas, palavras e frases com música e um ponto comum entre todas: no interior, guardado está um anel. E um anel, como escreve João Pinharanda sobre  a exposição, «deve ser um objecto mágico (….) teremos de ser nós a gerir o bem e o mal que ele possui». 


 


PROVAR – O Hotel Inspira Santa Marta é um bom exemplo de recuperação de um prédio antigo. Em vez de uma ruína temos agora um prédio vivido, recuperado com bom gosto e funcional. No seu piso de entrada funciona a Open Brasserie Mediterrãnica – o espaço é amplo, luminoso, infelizmente com clientela não muito abundante. E, no entanto, a cozinha é simpática e baseada em produtos como o peixe espada preto (bons filetes), um saboroso frango do campo recheado ou uma posta de boa carne barrosã, grelhada. Os acompanhamentos tem uma preocupação de agricultura biológica e o restaurante serve água da torneira filtrada. O serviço é simpático, a confecção é boa, a arquitectura é convidativa. Pena não ter mais gente, porque a merecia. Ao almoço e jantar há menus especiais mas em qualquer caso mantém-se a lista. Os vinhos disponíveis não são muitos mas são bem escolhidos e a preço razoável.  Rua de Santa Marta 48, telefone 210440900.


 


BACK TO BASICS – A política tem a sua fonte na perversidade e não na grandeza do espírito humano (Voltaire)

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publicado às 13:41

UMA ASSEMBLEIA MUNICIPAL APODRECIDA

por falcao, em 18.02.11

Apresentei hoje a renúncia ao mandato de Deputado Municipal. As razões são as que estão neste texto, publicado hoje em «A Esquina do Rio», no Jornal de Negócios. Não fazia sentido continuar com um mandato que deixei de exercer, quando, há um ano, ficou claro que a agenda da Direcção do Grupo do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa, e da respectiva Distrital, era diferente da luta por uma Lisboa melhor e com sentido, que os vereadores eleitos da lista a que pertenci se esforçavam por desenvolver.


 


Custava-me caucionar, pelo silêncio, posições que muito me desagradavam. Esta semana, com a evidência de uma negociata política entre as Distritais do PSD e PS, com o objectivo de calar posições divergentes, achei que já não fazia sentido continuar numa Assembleia que privilegia evitar o debate aberto sem rédeas partidárias, erguendo um muro à sua volta, voltando costas à cidade.



Manopras partiodárias destas, como as protagonizadas pela Direcção da bancada do PSD e respectiva Distrital, de facto contribuem para denegrir a imagem da actividade política. Mas são um espelho fiel da realidade partidária.


Aqui está o texto em que explico as minhas razões:
 
«Leio, e nem acredito: «Os deputados municipais do PS e do PSD em Lisboa recusaram terça-feira, na assembleia municipal, enviar para discussão pública propostas de reorganização das freguesias, alternativas àquela negociada por socialistas e sociais-democratas». Aquilo que podia ser uma boa coisa – a diminuição do número de freguesias e uma reordenação da cidade – tornou-se num case study de manobrismo político.


 


Este é o retrato do pior que existe na traficância de interesses partidários, é o retrato da arrogância e soberba das lideranças dos partidos do bloco central na assembleia municipal de Lisboa. Fui eleito, como independente, mas na lista do PSD, em 2009, para a Assembleia Municipal de Lisboa e depois das primeiras reuniões deixei de participar nos trabalhos, solicitando a substituição, em cada reunião, há mais de um ano.


 


Sobre o assunto tenho mantido silêncio, mas há muito que  discordo da actuação da liderança do PSD na Assembleia, discordo da sua relação com a equipa de vereadores social-democratas, e discordo da forma como tem sido conivente com um funcionamento perfeitamente inútil da Assembleia Municipal. A minha curtíssima experiência autárquica faz-me desconfiar da utilidade deste órgão – um mini parlamento para auto satisfação oratória de alguns funcionários políticos, que  promovem reuniões atrás de reuniões, na generalidade vazias e muitas delas inúteis, para justificar umas senhas de presença e dar uma ilusão de debate. Só que, como se vê, quando o debate público é preciso, ele é abafado.


 


A Assembleia devia ser o garante da relação com os Munícipes, e não um obstáculo. Com esta decisão a Assembleia Municipal de Lisboa ergueu à sua volta um muro que a separa da cidade. PS e PSD foram os obreiros desta obra, um tratado de Tordesilhas da capital, negociado directa e exclusivamente entre as estruturas distritais dos dois partidos, com a benção de António Costa. Assim sendo não se percebe para que serve a Assembleia Municipal – é uma mera figura de corpo presente. Esta semana entreguei a minha renúncia ao mandato de deputado municipal. No estado em que as coisas estão, não alimento a menor esperança que mudem.»

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publicado às 09:46

SOBRE A PREPOTÊNCIA

por falcao, em 15.02.11

Publicado no Metro de 15 de Fevereiro)


 


Como é que as Finanças podem leiloar um andar sem terem a certeza da situação e do estado da pessoa que foi penhorada e executada? Como é possível que haja quem autorize uma penhora a uma pessoa falecida? Que perversos mecanismos foram criados que levam a estas faltas de humanidade?


 


O lamentável caso conhecido na semana passada vem chamar a atenção sobre a forma de actuar das Finanças. Percebe-se que vigora a lei do menor esforço e, sempre, a presunção de que o contribuinte é culpado. O caso do leilão do andar penhorado com o cadáver da dona lá dentro, morta há oito anos, mostra uma única coisa – a prepotência do Estado e a irracionalidade do funcionamento da máquina fiscal.


 


O caso não é único. Todos infelizmente testemunhamos que, mesmo quando após o falecimento de um familiar são tomadas todas as providências (declaração do óbito às finanças, habilitação de herdeiros, etc), durante anos o falecido continua a receber cartas, algumas contendo ameaças de penhora sem que seja explícita a razão – muito menos quando é suposto que o Fisco saiba quem são os herdeiros e não os contacta, preferindo executar quem já não pode contactar a verificar quem devia, de facto, avisar.


 


Todo este caso é uma sucessão de mau funcionamento do Estado – das polícias que não ligaram ao que vizinhos e familiares diziam, dos tribunais que descartaram as investigações, do Fisco que não cuidou em sequer tentar perceber o que se passava. E tudo culminou nesse supremo requinte de insanidade e crueldade que foi leiloar um imóvel sem sequer haver o cuidado de antes o abrir e verificar.


 


Burocrata, arrogante, insensível, descuidado, prepotente – este é o retrato do Estado, um Estado para quem , cada vez mais, os cidadãos não têm direitos e são apenas devedores, culpados,  incumpridores. A obsessão da receita fiscal mais fácil – cobrada aos mais fracos  - dá nisto. E neste caso seria muito bom que se soubesse quem foi culpado de tudo o que aconteceu, nas várias etapas do caso.

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publicado às 14:44

SPORTING – Fico a olhar para o frenesim eleitoral que vai pelo Sporting e espanto-me com o facto de os candidatos já anunciados terem enveredado por um rol de promessas e contactos (jogadores, treinadores, agentes futebolísticos), sem antes apresentarem o trabalho de casa: como resolvem a situação financeira do clube, que está praticamente falido, e como mobilizam os sportinguistas que, depois de todos os dislates recentes, estão para o seu clube como os eleitores portugueses para os políticos: descrentes e desconfiados de tanta promessa sem substância. Na situação em que o Sporting está quer-me  parecer que nenhum dos candidatos em liça neste momento (escrevo quarta ao fim do dia) mostrou até agora ideias, recursos e equipa.


O futebol português continua refém de um sistema que se habituou a viver acima das posses e com recurso demasiado frequente a expedientes. Apesar do nevoeiro dos últimos dias isto não vai lá com sebastianismos nem desejos voluntariosos: sem capacidade efectiva de mobilização de capital, sem capacidade agregadora de equipas e de competências, o Sporting só vai piorar.


O ex-jogador, e sportinguista, Carlos Xavier fez uma síntese brilhante da situação e da forma de a resolver: «O Sporting precisa de alguém que traga ovos para fazer omeletes».


 


 


RESPONSABILIDADE - Tenho alguma curiosidade em saber o que o Ministro da Administração Interna vai dizer sexta-feira no Parlamento. Já se sabe que recebeu o relatório preliminar da Universidade do Minho, sobre o qual nada adiantou. Mas logo depois de o ter recebido decidiu aceitar a demissão  do Director Geral da Administração Interna e a manter em funções o director geral da Administração Eleitoral. Presume-se pois que o problema esteve no Ministério, e, se assim foi, não se percebe porque é que o Ministro não assume também, ele próprio, as responsabilidades pelo facto de ter havido cidadãos que não puderam votar. E, já agora, porque é que o Ministro da Presidência, que tutela o cartão do cidadão, tem estado tão caladinho? Também ele tem responsabilidades no que se passou.


 


 


SEMANADA – O PSD anunciou uma espécie de Estados Gerais e mostrou-se disponível para votar uma moção de censura ao Governo; José Sócrates arrancou numa autêntica campanha eleitoral junto dos empresários – começou pelas exportações e nas próximas semanas tem a agenda carregada; o PSD olhou para os passeios e sugeriu que o executivo deixasse de andar à deriva e pediu que o Governo, governe;  e  Cavaco Silva vetou um diploma do Governo, chamou o Ministro Santos Silva a Belém e deixou correr nos jornais que lhe tinha dado um puxão de orelhas; Mário Soares, no seu artigo semanal do «Diário de Notícias» destacou os Deolinda e a canção «Parva Que Sou», citando parte da letra e mostrando assim que continua atento aos sinais de degradação do sistema político.


 


 


ARCO DA VELHA – A igreja católica dos Estados Unidos desenvolveu uma aplicação que se chama «Confession» e que mediante o custo inicial de 1,47 dolares, permitirá aos fiéis confessarem os seus pecados através do iPhone.


 


LER – Com a proliferação de edições que existe às vezes esquecemo-nos como um livro pode ser um objecto único. Recordamo-nos da importância da edição quando nos surge uma obra como «Almocreve das Palavras», uma recolha de poemas de Henrique Segurado, escritos ao longo de 20 anos, entre 1969 e 1989, acompanhados por desenhos de Rui Sanches. A poesia de Henrique Segurado, com quem tive a felicidade de trabalhar e de aprender, é como ele: sensível, criativa, sentida, emocional. São 200 poemas, muitos escritos em viagem, alguns pessoalíssimos, que falam de coisas comuns – como um cozido à portuguesa, ou das fantásticas aventuras de Emilio Salgari, mas também um belíssimo «Papel Moeda», que evoca Fernando Pessoa. Desde que tenho este livro, há quase duas semanas, volto a ele com frequência e sempre com gosto – a descobrir pormenores nas palavras, nos desenhos ou na cuidada edição (a capa, a tipografia, a entrelinha, o papel), fruto dos cuidados de Joana Morais Varela e Vasco Rosa.


 


 


VER – Na Plataforma Revólver (Rua da Boavista 84-1’, Lisboa) está uma nova exposição colectiva, criada por Victor Pinto da Fonseca, o dinamizador de todo o edifício Transboavista. A verdade é que as inaugurações nos vários espaços de exposição deste local têm uma animação única em Lisboa nestes dias que correr. Ainda por cima as exposições mostram frequentemente obras surpreendentes – e nesta cabe destacar o desenho minucioso, quase obsessivo de Inez Teixeira, a colecção de insectos de Sofia Aguiar ou as peças de Rosa Carvalho, Sofia Leitão e Fabrizio Mato. A exposição decorre até 10 de Março e as obras são todas recentes, algumas aqui mostradas pela primeira vez. Aliciante e, nalguns casos, deliciosamente perturbador.


 


 


OUVIR – A partir dos primeiros segundos de «Rider To The Sea», a faixa de abertura do disco estreia de Anna Calvi, percebe-se que ali está qualquer coisa inovadora – diferente e excepcional. Nos últimos três anos Calvi compôs e pensou as canções deste disco e andou a apresentá-las ao vivo e a ganhar uma legião de seguidores, que inclui Brian Eno. Quem já a ouviu ao vivo diz que ela evoca Patti Smith (é a opinião de Eno) e P.J. Harvey – que por acaso trabalha com o mesmo produtor de Calvi, Rob Ellis., As similitudes não são de estranhar: a chave do impacto de Anna Calvi está na forma como conjuga a guitarra eléctrica com a voz. Diga-se que usa a guitarra de forma exemplar e que a sua sonoridade é crua, emotiva e com uma energia simples e eficaz. Brian Eno surge em duas das faixas do disco (um raro empenho, diga-se), e depois de se ouvir «The Devil», a sexta faixa, percebe-se que este é uma caso especial de talento. O disco roda há duas semanas no meu carro e não vai de lá sair tão cedo. Há poucos CDs que produzam sensações como este consegue.


 


 


AGENDA – A ideia é muito engraçada e deve ficar em agenda ao longo do ano: para assinalar o 15º aniversário da XN Brand Dynamics, a sua fundadora e responsável, Xana Nunes, vai promover uma série de iniciativas, entre as quais diversas exposições no espaço do escritório da empresa, na Rua das Chagas 20 r/c. Até 15 de Março, e de segunda a sexta entre as 10 e as 13H e as 15 e as 18H quem quiser pode ir vber as fotografias da série «Woman Nature», da autoria de Luis de Barros, Mário Princípe, Carlos Ramos, Ricardo Quaresma e Rui Aguiar.


 


 


PROVAR - Volta e meia gosto de regressar a pequenos restaurantes onde me sinto bem, mesmo que lá vá raramente. O La Moneda é um desses sítios. Bom ambiente, boa luz, obras sempre diferentes nas paredes, frequência simpática. E, claro, comida muito bem preparada – quer dizer, boa matéria prima, bom tempero, boa confecção, boa apresentação – tudo saído do chefe Leo Guzman, um chileno há vários anos residente em Lisboa e dirigindo aquele local. Se na lista tiverem o bife de atum grelhado ou a espetada mista de atum, tamboril e camarão, não hesitem. Mas têm muito mais por onde ensaiar, das entradas aos doces – e nesta última secção deixo-vos a sugestão do bolo de tâmaras. O vinho branco da casa é um arinto muito digno que acompanha bem a refeição. O preço final é sensato e o local é movimentado ao almoço e ao jantar. Eu por mim, cada vez que vou para os lados do Cais do Sodré ponho logo o La Moneda na lista de boas hipóteses. Rua da Moeda 1C, telefone 213908012.


 


 


BACK TO BASICS – Tudo quanto sei, com maior certeza, sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol – Albert Camus.

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publicado às 14:38

PUBLICIDADE - No ano passado o investimento publicitário no mercado português desceu mais uma vez e as estimativas mais conservadoras apontam para uma queda em  valores próximos dos 2,5% por cento – isto depois de em 2009 a diminuição ter sido mais violenta, de 15%. Em dois anos desapareceram do mercado cerca de 120 milhões de euros de investimento.


Já é possível perceber que a imprensa, sobretudo a diária, foi o sector mais prejudicado e em 2010 a coisa foi de tal forma que os investimentos publicitários captados directamente pelos jornais diários já ficaram, em termos de valores líquidos, atrás da rádio, da televisão por cabo e também da internet (se contabilizarmos a estimativa de publicidade colocada em motores de busca).  Na realidade a imprensa diária teve uma queda de cerca de 15% e a não diária conseguiu suster a queda próximo dos 6%. Na média geral a imprensa desceu cerca de 9%, a maior queda do sector


 


A grande surpresa de 2010 foi o significativo aumento do investimento em canais de cabo. Enquanto os canais generalistas tiveram uma quebra ligeiramente inferior a 4%, o conjunto dos canais de cabo teve um crescimento de quase 19 por cento, o segundo maior crescimento do mercado, logo a seguir à internet, que cresceu mais de 25%. Este resultado conjunto dos canais de cabo e dos canais em sinal aberto fez com que o investimento global em televisão caísse apenas cerca de 2%, contra uma queda superior a 13% no ano anterior.


O bom desempenho do Cabo tem uma razão evidente: a segmentação dos públicos de televisão é cada vez mais evidente e os anunciantes descobriram que canais como a SIC Notícias, a SIC Mulher, o AXN, a FOX e FOX Life, a RTP N e TVI 24 e, claro, a Sport TV, já tinham conquistado audiências consideráveis e que lhes garantiam eficácia a bom preço. O crescimento do mercado de televisão por subscrição, verificado nos últimos dois anos, desde que o MEO entrou em cena, ajudou a tornar os números de audiência bem mais interessantes – e os departamentos comerciais dos vários operadores reagiram com rapidez a isto.


 


Neste contexto não é preciso ser bruxo para especular que a tendência para a dispersão do investimento publicitário em televisão  pelos canais de cabo vai continuar a crescer – quando o novo sistema de audiometria estiver a funcionar os canais de cabo serão certamente os mais beneficiados pela correcção da amostra e pela nova tecnologia utilizada. Não me admiro se durante este ano surgirem novos canais de cabo de produção local, explorando a vontade de o público ter alternativas. Na televisão vai dar-se uma fragmentação semelhante à que há uns anos aconteceu na imprensa. E inevitavelmente neste ano, na imprensa,  vamos assistir a um movimento de encerramento de títulos e de concentração, que aliás já se iniciou.


Mas o digital é o sector que se adivinha mais curioso de seguir. A proliferação dos tablet terá um efeito multiplicador em termos de audiência e frequência de utilização. As possibilidades de segmentação e do contacto tendencialmente individualizado, nas redes sociais e em outras plataformas mais tradicionais, vão constituir um chamariz de investimento. É um mercado em que o sofisticação técnica e de instrumentos de análise e controlo terá cada vez maior importância. Mas é também um mercado em que a qualidade dos conteúdos e o valor das marcas informativas ou de lazer terá peso e capacidade de atracção de utilizadores. A convergência entre a media tradicional e a media digital vai acelerar de forma inevitável e a utilização de dispositivos móveis vai ser a grande impulsionadora de mudança nos próximos anos.


 


 


ARCO DA VELHA – O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha Nascimento, considera que as conversas telefónicas de José Sócrates com Armando Vara sobre a eventual compra da TVI são exclusiva e estritamente pessoais e do foro das respectivas vidas privadas. O facto de as duas pessoas serem da direcção do PS e uma delas ser Primeiro-Ministro, e ambos estarem a ver como poderiam tornar a TVI menos incómoda para o Governo, é obviamente, também, uma questão pessoalíssima.


 


 


VER – A fotografia está em alta por estes dias. No museu Arpad Szenes-Vieira da Silva (Jardim das Amoreiras), sob a designação «Retratos de Mulheres», estão expostas imagens de Man Ray, Jorge Martins e Julião Sarmento. De Man Ray, o único cuja criação foi essencialmente fotográfica, está exposta a célebre série «The Fifty Faces Of Juliet», feita entre 1941 e 1955. Jorge Martins mostra uma série, «Eros Cromático», feita entre 1964 e 1973, com as imagens fotográficas coloridas a lápis de cera e algumas outras, mais recentes, com uma técnica que mistura fotografia e iulustração e que tem muitas semelhanças com a célebre aplicação «Brushes» para iPhone – é uma mostra inédita desta faceta do pintor. Finalmente Julião Sarmento apresenta 62 fotografias de 31 mulheres, realizadas ao longo de 42 anos, numa escolha de Sérgio Mah, todas elas entre o registo da intimidade e o instantâneo proporcionado pela luz ou a circunstância- e a fotografia é assídua na obra de Julião Sarmento.. O museu está aberto de segunda a domingo entre as 10h00 e as 18h00 e é uma boa ocasião para ver como a fotografia, para ser criativa, não precisa de ampliações em formatos gigantes, como infelizmente se tem tornado hábito. O tamanho não é tudo, na realidade – a esse propósito a exposição «Ópera» fotografias de Augusto Alves da Silva, no Museu da Electricidade, esconde na dimensão a sua vulgaridade.


 


 


LER – A edição de Fevereiro da revista Monocle tem por tema central uma série de reportagens sobre casos de mudança – em países e em cidades – que correram de forma especialmente positiva nestes conturbados tempos de crise.  Por coincidência um dos entrevistados desta edição é Mohammed ElBaradei, o homem que depois de ter estado 12 anos à frente da Agência Internacional da Energia Atómica e de ter ganho um Nobel da Paz (em 2005), decidiu voltar ao seu Egipto e dinamizar a democratização do país. A entrevista foi feita muito antes dos actuais protestos e é oportuníssima – até porque enla ElBaradei estabelece praticamente um plano de acção.


 


 


OUVIR – Jason Beck é um pianista, de formação clássica e prática rock, com incursões no rap e na lounge music. É conhecido sob o nome de Gonzales, Chilly Gonzales, e actua em Lisboa neste sábado à noite, em duas sessões, no Space, em Alcântara. A sua obra mais conhecida data de 2005 e é «Solo Piano», agora reeditado entre nós numa edição especial que é uma tentação. Ao disco original foi acrescentado um DVD em que Gonzales se propõe dar uma série de aulas de piano. O vídeo é mais divertido do que eficaz, mas mostra a capacidade de entertainer que o músico também tem. Para além das “lições” o DVD inclui diversas actuações e vídeos e é um bom complemento ao disco original. De qualquer foama o CD com as 16 composições de «Solo Piano» merece, só por si, ser escutado com atenção. Gonzales inspirou-se claramente nas «Gymnopédies» de Erik Satie e o resultado é uma bela surpresa.


 


 


AGENDA – «A Cena do Ódio» é um novo programa de rádio, aos domingos, na Antena Um, entre as 11 e o meio-dia. É um daqueles programas de rádio como já não havia, um programa pensado, músicas escolhidas em redor de um tema, textos cuidados, uma realização minuciosa. No comando do programa está David Ferreira, que todas as semanas propõe um tema – e esta semana é, muito adequadamente à situação geral, «a revolta».


 


 


BACK TO BASICS – A publicidade é a vida do negócio – Calvin Coolidge

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publicado às 14:36

DAY AFTER – No seu discurso de vitória Cavaco Silva falou mais do passado que do futuro e, de uma forma inesperada, e em termos práticos, sugeriu estar interessado em ajustar contas com quem se lhe atravessou no percurso antes destas eleições. É um discurso virado para problemas pessoais, mais do que para a situação do país. E é um péssimo sinal sobre o que poderá ser o seu segundo mandato. De uma assentada perdeu iniciativa política e criou um ruído desnecessário.


Na noite eleitoral foi claro que Sócrates só apareceu no Altis para cumprir um ritual e dar por encerrado um assunto incómodo, que foi a desagradável candidatura de Manuel Alegre, para a qual os socialistas foram empurrados pelo Bloco de Esquerda. Como se percebeu logo de imediato a núcleo duro da direcção do PS reagiu rapidamente – convocando eleições internas (em que Sócrates se recandidata), anunciando novas iniciativas viradas para fora do partido, e dando a entender que controlará o timing de uma remodelação governamental. O PS, que foi o grande derrotado das eleições, tinha o contra-ataque preparado.


De uma forma muito clara José Sócrates aproveitou a fase passadista do reeleito Presidente para aparecer ele a marcar a agenda e a preparar o contra-ataque político. Quer legitimar-se internamente, eliminar o espaço daqueles que o contestam dentro do PS e, preferencialmente, conseguir novos aliados que o ajudem a levar até ao fim o ciclo político. Na sua cabeça está certamente posicionar-se para futuras eleições legislativas – as notícias da sua morte política são, como se vê, largamente exageradas. Sócrates vai à luta e tem a estratégia montada, que como se sabe pelas notícias vindas a público, passa por existir um grupo de media impulsionado por figuras que lhe são próximas e o têm defendido. Não é a primeira vez que isto acontece na história política portuguesa: Marcelo Rebelo de Sousa criou o «Semanário» para criar maior diversidade política na comunicação, o PS já tentou fazer isso com a Emaudio há uns anos atrás e o diagnóstico actual é que a influência dos socialistas nos media é reduzida. Vamos portanto ter pela frente um Sócrates determinado, provavelmente com legitimidade acrescida dentro do PS e a tentar ser ele a marcar a agenda política.


O trabalho da oposição não vai ser fácil. Passos Coelho sabe disso e fez um discurso prudente – e provavelmente estará a pensar que lhe vai ser mais difícil chegar ao Governo do que, a certa altura, se imaginava. Pelo seu lado Paulo Portas iniciou um movimento de reorganização do PP que lhe vai dar maior agilidade para se colocar, a ele próprio, na primeira linha da oposição – é também evidente que o grande rival de Sócrates na marcação da agenda política vai ser Paulo Portas, até porque ao PP interessa colocar-se na posição mais vantajosa para, quando for altura, negociar um acordo eleitoral com o PSD.


 


 


VOTAR – A lógica manda que votar deva ser uma operação fácil, confortável para os cidadãos e que não crie angústias, dúvidas ou perturbações. O que aconteceu no Domingo passado é exactamente o contrário disto. O Estado atribuiu novos números de eleitores a uma série de cidadãos, mas não os avisou do facto – nem mesmo quando levantaram o documento de identificação que serviu de justificação técnica para alteração do número anterior. Pior, em muitos casos, colocou os eleitores a votarem longe do local habitual, e também não tomou nenhuma medida para os avisar. A campanha de apelo à participação eleitoral foi má, não esclareceu sobre estes pontos, criou oportunidade para todas as complicações que aconteceram. Seria bom que o Governo, como acontece em muitos países,  proporcione a cada eleitor a possibilidade de escolher o local onde pretende exercer o direito ao voto. Era uma forma simples de combater a abstenção.


 


 


RESUMO DA SEMANA – Houve eleições, o resultado não teve surpresas; Cavaco ganhou, mas com a sua menor votação em candidatura presidencial e fez um mau discurso; Alegre teve uma derrota estrondosa com menos de 10% do total de recenseados; a abstenção e os votos brancos atingiram os maiores valores de sempre; Mário Soares escreveu a explicar que Alegre não devia ter sido o candidato do PS; logo a seguir à eleição os juros da dívida voltaram a subir; e o PS começou a mexer-se, agora que já está livre do Bloco de Esquerda.


 


 


ARCO DA VELHA - A operação em torno das novas declarações do célebre Bibi, a propósito do processo Casa Pia, é um acabado exemplo de como em Portugal, em matéria de Justiça, vale tudo menos a sua aplicação.


 


 


VER – Ligada à agência Kameraphoto, a K Galeria, no Bairro Alto, apresenta ainda hoje (ultimo dia) a exposição «Retratos com História», de Eduardo Gageiro, um dos mais importantes fotojornalistas portugueses das décadas de 70 e 80. Estes retratos, que vão de Amália a Zeca Afonso, passando por Sophia de Mello Breyner, Spínola ou Orson Welles, permitem perceber a importância de Gageiro na fotografia portuguesa. Se puderem, não percam – Rua da Vinha 43 A, das 10 às 18h00. Podem também ter uma ideia das imagens em www.kameraphoto.com


 


 


LER –  Na edição de Fevereiro da Vanity Fair há um belíssimo artigo sobre os bastidores da tomada de posse de Kennedy, ocorrida há 50 anos. Desde os prepartivos para a cerimónia, ao grande baile inaugural , passando pelos discursos e os problemas com os convites, até ao portfolio de fotografias da época, tudo contribui para um retrato desses primeiros momentos do curto mandato de John Kennedy. Outro curioso artigo desta edição conta a história da polémica aliança entre o circunspecto diário britânico The Guardain e Julian Assange, o fundador do Wikileaks. Na capa, Justin Bieber – 17 milhões de fãs no Facebook, 100 milhões de dólares facturados no ano passado e o vídeo mais visto de sempre do YouTube.


 


 


OUVIR – O mais recente álbum de Brian Ferry, «Olympia», é polémico, inesperado, nalguns momentos surpreendente – como na versão de «Song To The Siren», de Tim Bucley, que conta com participações de nomes como Phil Manzanera, Nile Rodgers, David Gilmour e Johnny Greenwood nas guitarras e Brian Eno (que está presente também em várias outras faixas) nas teclas. A sonoridade evoca por vezes o álbum «Manifesto», dos Roxy Music (1979) e atinge o ponto alto em temas como «Me Oh My», «Reason Or Rhyme» ou «Tender Is The Night», esta talvez a melhor interpretação de Brian Ferry desde há muitos anos.


 


 


PROVAR – Há dias dei comigo num simpático restaurante, perto do convento do  Beato, em direcção a Braço de Prata. Chama-se Entra e é um bom exemplo de um local onde a cozinha é honesta, os preços recheados de bom senso e o serviço eficaz e simpático. O Entra tem duas salas, uma de entrada, com vista para a rua e a cozinha, e outra, no interior, ideal para juntar um grupo de amigos. A decoração é simples mas imaginativa – por exemplo os candeeiros são feitos de garrafas sem fundo, as mesas e as cadeiras são de boa dimensão e confortáveis.


Os menus de almoço incluem sugestões como osso bucco com linguini, filete de peixe espada sobre legumes ou arroz de polvo, e vão variando durante a semana. O vinho da casa é um generoso vinho novo da zona de Azeitão e, na mesa, existem fatias de quaijo da ilha e de queijo de ovelha da serra da Gardunha. Nas sobremesas há uma mousse de requeijão com abóbora que se revelou uma boa surpresa.


Ao jantar o serviço é à lista e, desde os ovos mexidos com farinheira nas entradas, ao lombo de porco com molho de amêijoas e coentros acompanhado de grão e grelos salteados com chouriço, ao pregado frito com espinafres salteados com puré de batata e aipo, a escolha é variada. A lista de vinhos não é ambiciosa mas tem boas propostas a bom preço. Resumindo: uma boa casa. Rua do Açucar 80, telefone 212 417 014.


 


 


BACK TO BASICS – Os vencedores adquirem, imediatamente, os vícios dos vencidos – Roger Gard 

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publicado às 14:35

A CRISE NA CULTURA

por falcao, em 08.02.11

(Publicado no Metro de 8 de Fevereiro)


 


Bem sei que falar de investimentos em Cultura no meio da crise em que estamos é uma coisa um bocado complicada e , eventualmente, pouco popular. Mas esta é, também a altura certa para falarmos do que deve ser o papel do Estado na Cultura, e qual a estratégia a seguir.  Até porque, de facto, a Cultura está em crise – sem rumo, sem estratégia e com muitas queixas. A questão principal é estudar a forma como o Estado deve apostar neste sector, por forma a gerar um efeito reprodutor aos investimentos efectuados.


 


Esta é uma questão delicada: os agentes do sector habituaram-se a viver com subsídios, ou de subsídios do Estado. Descuraram, na maior parte dos casos, ir buscar receitas a outros lados e muitas vezes usaram argumentos distorcidos para não se submeterem às receitas de bilheteira – ou seja, ao financiamento captado a partir dos públicos.


 


O Estado também não tornou aliciante a acção mecenática. A Lei existente é desadequada para as circunstâncias actuais, a fiscalidade dos produtos culturais merecia ser repensada, existe ainda um território extenso para optimizar recursos em toda esta área. Por outro lado os passos na articulação entre o Turismo e a Cultura foram insuficientes e nesta matéria, mais uma vez, muitos investimentos foram subsídios disfarçados para satisfação de clientelas políticas diversas. Há coisas estruturantes por fazer – desde a existência de uma Film Commission, até um plano articulado entre o Governo e as autarquias para desenvolvimento e descentralização  da actividade artística.


 


Acredito que se pode fazer melhor com o dinheiro que existe. O esforço de racionalização no sector tem sido quase nulo. As despesas com estrutura e pessoal ocupam uma fatia desproporcionada em relação ao investimento em actividades – seja no património, seja na encomenda de novas obras, seja na aposta na criatividade. Nos últimos anos a estagnação e a deterioração das actividades culturais têm sido a norma. Espero que a crise não faça esquecer  aquilo que é preciso fazer em todo este sector.


 

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publicado às 14:42

CIDADE FANTASMA

por falcao, em 01.02.11

(Publicado no Metro de 1 de Fevereiro)


 


No último fim de semana o New York Times publicou na sua secção de viagens um guia para um fim de semana em Lisboa – de sexta a domingo. É um belo roteiro rápido da cidade. O ponto principal , repetido várias vezes no texto, é que somos uma cidade baratucha e onde se consegue comer a preços razoáveis e visitar museus gratuitos (perante o espanto do autor do artigo, diga-se).


 


Todos nós que vivemos em Lisboa ficamos muito contentes quando surgem estes artigos. Mas depois, no dia a dia da cidade, ficamos mais pesarosos. Nos últimos anos assiste-se a um esvaziamento da cidade, cada vez com menos residentes, e a um envelhecimento da sua população. Já nem falo da baixa, votada praticamente ao abandono. Mas basta ir para Alvalade, da Avenida de Roma à Avenida da Igreja, para perceber como uma zona que há trinta anos estava cheia de gente, com uma população jovem considerável, com cafés e esplanadas abertos à noite, se converteu progressivamente num deserto que fecha por volta das nove da noite. Depois disso é raro encontrar alguma coisa aberta e não é frequente encontrar pessoas na rua. O contraste com cidades como Madrid é enorme .


 


Os governantes da cidade não ajudam a reverter esta situação – Lisboa é uma cidade que trata mal quem cá persiste em viver: mais taxas, maiores dificuldades logísticas, penalização dos residentes com viatura por força da extraordinária EMEL, falta de incentivos para rejuvenescimento da população residente.


 


Aqui há uns anos dizia-se que era o centro histórico da cidade que estava a ficar deserto. Agora são os bairros mais recentes que começam a sofrer do mesmo mal. Mesmo que os turistas gostem muito de nos visitar, a verdade é que cada vez menos pessoas cá gostam de viver – ou cá conseguem viver em condições. Por este andar qualquer dia Lisboa vai ser uma cidade fantasma – com muitos turistas mas poucos residentes.


 


Faz-me muita impressão assistir a este definhamento de Lisboa, faz-me uma impressão sentir que a cidade é governada para ser vista e não vivida. Este é o maior crime de quem governa a cidade.

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publicado às 14:41


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