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RTP - Não me apetecia voltar a este tema, mas tem de ser. Não sei se os leitores sabem mas o departamento jurídico da RTP tem um rol de falhanços em tribunal verdadeiramente assinalável. Os inquéritos internos que promove, e que são muitas vezes pretexto para processos disciplinares,  são frequentes espelhos de encomendas, rumores, invejas e guerrilhas internas e, assim, falham na justiça. Talvez consciente disso mesmo o Presidente da RTP apressou-se a dizer que, embora o inquérito instaurado a Nuno Santos o desse como culpado exactamente daquilo que um comunicado inusitadamente violento do Conselho de Administração insinuara dias antes, não iria ser feito nenhum procedimento disciplinar. É a admissão, implícita, das precipitações verificadas neste caso. Desde o início a gestão da RTP ouviu, permitiu e construíu uma narrativa onde se apontavam culpados antes de julgamento. Em nenhum momento ouvi a administração da RTP criticar a PSP, por ter feito, na sua opinião, pedidos de legalidade duvidosa; em nenhum momento a ouvi queixar-se do sucedido ao Ministro da Administração Interna ou à sua tutela; em vez disso utilizou a sua energia e os seus recursos e hierarquias não na defesa da empresa face a abusos do exterior, mas numa ofensiva interna que deu um resultado que, coincidência das coincidências, produziu o conveniente resultado de substituir a Direcção de Informação. De repente percebi: quando se espreita a folha, deixa de se ver a árvore.


VOTO - Nas últimas eleições votei conscientemente no PP, para que fosse um elemento de diferença, para que tivesse mais peso político na coligação, para que se batesse pelos cidadãos, contra o peso do Estado e o assalto aos contribuintes, pela moderação da deriva neo-liberal e pela responsabilidade política. A entrevista do Primeiro Ministro e o Orçamento de Estado mostram que o PP é encarado como pouco mais que um ornamento parlamentar. Um dos problemas mais graves que temos no funcionamento do sistema político das nossas sociedades tem a ver com a deturpação da comunicação e relação entre eleitores e eleitos nos períodos entre actos eleitorais. A regra tem sido que, a partir do dia das eleições, começa um ciclo pouco virtuoso de alteração das promessas efectuadas e de construção de uma nova irrealidade, teoricamente legitimada pelo voto obtido com base nessas promessas. É isto que faz desacreditar na política.


SEMANADA - O esforço fiscal relativo dos portugueses situa-se, em 2012, em média, cerca de 15% acima da média europeia; o esforço fiscal relativo subirá para 20% acima da média europeia no próximo ano e será o quinto mais elevado de entre os 27 países da União Europeia; em Outubro havia 10495 casais em que ambos estavam desempregados, o dobro do registado em Outubro de 2011 e quase sete vezes mais do que em Outubro de 2010; apenas um quinto dos funcionários públicos fez greve no passado dia 14; a dívida pública está a subir 61 milhões de euros por dia ao longo deste ano; em Portugal as empresas demoram em média 275 horas para conseguir processar todos os impostos e a média europeia é de 184 horas; a crise atingiu a Coca Cola que teve uma quebra de vendas de 10% em Portugal; segundo o novo relatório trimestral da Anacom, 78,8 em cada 100 famílias utiliza os serviços de televisão por subscrição e mais de metade tem acesso a mais de 80 canais; Cavaco Silva, enquanto primeiro ministro, deixou cair a agricultura e a pesca e esta semana, como Presidente da República, defendeu que nos devemos virar para a terra e o mar.

ARCO DA VELHA - Empresas de transportes estão a ter um aumento significativo das receitas graças ao aluguer de autocarros para deslocação de manifestantes, por encomenda de sindicatos.

VER - A Arte Lisboa, que costumava decorrer na FIL por esta altura do ano, foi cancelada. Em vez disso a Associação de Galerias de Arte propõe as Noites de Arte Contemporânea - galerias abertas até às dez da noite hoje sexta e amanhã, sábado. Destaque para os desenhos de Souto Moura na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38), as fotografias de David Infante na Módulo (Calçada dos Mestres 34), José Luis Neto na Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Espantoso é que na conjuntura actual abra mais uma galeria, como aconteceu esta semana, com a Galeria Belo-Galsterer que inaugurou com exposições de Miguel Branco & Mel O'Callaghana (Rua Castilho 71).

FOLHEAR - Como é costume, a edição da “Monocle” que sai por esta altura refere-se aos meses de Dezembro e Janeiro. O tema central da edição de 270 páginas é o levantamento de novos talentos em várias áreas de actividade, desde designers a politicos, passando por especialistas em urbanismo, agricultura, transportes - são 20 pessoas que podem fazer a diferença. O mote é fornecer ideias frescas para aplicar ao longo de 2013 - nomeadamente reforçar a colaboração entre talentos, esquecer o passado, sair de casa e descobrir coisas novas, manter o raciocínio simples.  Esta edição inclui uma lista de países que influenciam os outros, com o Reino Unido à cabeça, seguido dos Estados Unidos, Alemanha, França, Suécia, Japão, Dinamarca, Suiça, Austrália e Canadá, para só citar os dez primeiros. Espanha está na 16ª posição e o Brasil na 17ª, enquanto Portugal aparece na 23ª, logo atrás da China e antes da Irlanda. Há um artigo muito interessante sobre o renascimento de Madrid, a partir das iniciativas de jovens empreendedores que retomam tradições e profissões antigas, várias mesas redondas ( relações internacionais, o futuro da imprensa, design, tendências da culinária...), um roteiro do turismo australiano e um Guia de viagem da Turquia, a par com sugestões de Helsínquia e de Viena, completam a edição. Já agora - para as peças de colecção da Monocle entrou um pequeno móvel de madeira, arquivador de revistas, fabricado em Portugal e desenhado por Hugo Passos.

OUVIR - Para assinalar os 50 anos de existência, os Rolling Stones patrocinaram a edição de uma colectânea, de três discos, simbolicamente com 50 faixas, e que agrupa a maioria das grandes canções do grupo, incluindo raridades relativas como o primeiro single, “Come On”. Os dois primeiros discos mostram o trabalho dos 16 primeiros anos dos Rolling Stones e as 17 faixas do terceiro são o que existe dos restantes 34 anos de vida - incluindo os dois últimos temas, feitos expressamente para este disco, “Doom And Gloom” e “One More Shot”. De um modo geral podemos dizer que o primeiro disco cobre a primeira fase de êxitos da banda,  com temas que vão de “Satisfaction” a “Ruby Tuesday” ou “Let’s Spend The Night Together”. No segundo disco está a fase que eu considero mais criativa da banda, do final dos anos 60 até ao início dos anos 70, a fase em que arrisco dizer que se tornaram no melhor grupo rock do mundo, senhores de pérolas como “Street Fighting Man”, “She’s A Rainbow”, “Sympathy For The Devil” ou “Wild Horses”. O terceiro disco mostra a época de “Beast Of Burden”, “Undercover Of The Night”, “Harlem Shuffle” ou “Anybody Seen My Baby”.É fastidioso elencar todos os temas, e alguns acharão que existem omissões - mas na realidade esta é uma colectânea que retrata bem a evolução musical dos Rolling Stones através da sua carreira, incluindo praticamente todos os seus pontos altos. E é uma bela demonstração das melhores razões que os fazem ficar na História. (triplo CD Universal).

PROVAR - O restaurante Salsa & Coentros é uma escolha regular destas notas, já desde 2005, quando abriu portas. Esta semana volta à ribalta graças à sua recente empada de cozido - que consegue reproduzir os aromas e paladares do cozido à portuguesa dentro de uma empada de tamanho comedido, leve e muito saborosa. Fiquei freguês. É servida sozinha e na realidade não precisa de acompanhamento, o seu recheio tem todos os principais ingredientes do cozido, cortados aos pedaços. Não está sempre na lista, tive a sorte de a apanhar a uma sexta-feira. Foi uma bela surpresa, a rivalizar com outras especialidades da casa como o arroz de lebre, a perdiz de escabeche ou o arroz de míscaros. A casa continua a ter uma excelente relação de preço/qualidade e um serviço exemplar sob o comando atento de José Duarte. Fica em Alvalade, na Rua Coronel Marques Leitão 12, telefone  218 410 990.

GOSTO - A Fundação EDP ofereceu duas obras de Pedro Cabrita Reis à Tate Modern, de Londres, com o objectivo de apoiar a internacionalização de artistas portugueses.

NÃO GOSTO - Lisboa quer gastar 250  mil euros em iluminações de Natal, mais 100 mil que no ano passado.

 

BACK TO BASICS - Cada vez que estou muito alinhado com a maioria das pessoas sinto que é tempo para parar e refletir - Mark Twain.


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 30 de Outubro)


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publicado às 18:47

RTP: TEORIA DO DANO COLATERAL

por falcao, em 27.11.12

Na passada semana o Ministro Miguel Relvas, no que foi entendido como uma reprimenda publica ao Conselho de Administração, avisou preferir que a RTP fizesse notícias em vez de ser, ela própria, notícia. Pois passadas 48 horas eis que a RTP se tornou notícia devido à forma como Nuno Santos foi levado a apresentar o seu pedido de demissão de Diretor de Informação, tendo por pano de fundo um comunicado da Administração no mínimo inusitado. Para quem está de fora, a aparência é que na televisão pública se passou mais um golpe palaciano, uma sucessão de conspirações e jogos de corredor que evidenciaram a tentação do abismo em que tantas vezes a RTP se deixa cair. 

 

Para quem tem falta de memória aqui deixo a indicação de que Nuno Santos esteve na fundação de estações de rádio, na fundação da SIC Notícias, e que tem obtido bons resultados nos projetos em que se tem envolvido. Quando há cerca de dois anos foi convidado a dirigir a informação da RTP, substituindo José Alberto Carvalho que tinha ido para a TVI, a ideia foi mal acolhida na RTP por Luis Marinho, um ex-Director de Informação da estação  que foi o único elemento da administração da RTP que se pronunciou contra esse convite. Na sequência da sua posição acabou por sair do Conselho de Administração e foi para Diretor Geral, um cargo que não estava previsto na estrutura da estação de serviço público. Os relatos surgidos mostram que Luis Marinho foi uma peça chave no processo que agora levou ao afastamento de Nuno Santos.

 

Gostava de perceber a razão de fundo que levou a que Nuno Santos fosse levado a demitir-se. Um mau trabalho na informação não foi. Mas havia quem, no Governo, se queixasse de falta de protagonismo nos telejornais. Chama-se, ao sucedido, efeito colateral de uma reprimenda. Ou, como tapar o sol com uma peneira.


(Publicado no diário Metro de hoje)

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publicado às 10:54

POLÍTICA - Um artigo recente da revista norte-americana “The Atlantic”, escrito por Barry Schwartz,  defende que, como uma grande parte da acção governativa envolve prever qual será o comportamento das pessoas face a determinadas medidas, ou como levar as pessoas a alterar os seus comportamentos, os advogados  e economistas que geralmente são maioritários nos elencos governativos teriam um bom contributo se ao seu lado se sentassem psicólogos. Ele defende que, tal como existem conselheiros económicos do governo, também deviam existir conselheiros psicológicos, que ajudassem a formular políticas de saúde, de educação e até económicas, tudo com o objectivo de colocar no centro das decisões especialistas em comportamento humano. Schwartz afirma que o bem estar e a realização pessoal são mais importantes para o desenvolvimento de um país que a evolução do PIB e propõe que a acção política se centre nesses aspetos. Aqui está matéria que dá que pensar - se o nosso governo ouvisse alguns conselheiros como Schartz teria feito tudo como até aqui?

 

FANTASIA - Os incidentes ocorridos na zona de S. Bento, no dia da greve dos serviços públicos, desencadearam uma onda de informações contraditórias a propósito da intervenção da polícia e do comportamento de alguns manifestantes. O ponto sobre o qual acho importante reflectir tem a ver com a forma como actualmente se passa opinião por informação e, sobretudo, pela forma como se fornecem dados e relatam situações cuja veracidade não é avaliada nem questionada. Quase nada do que li nas redes sociais passaria no velho crivo de verificar os factos. O que se passou, nos actos e relatos, não foi um incentivo a quem quer intervir na acção política. O que se passou cria apenas uma fantasia.

 

SEMANADA –  Alberto da Ponte, presidente da RTP, manifestou a convicção de que a estação pública manterá os dois canais generalistas de TV e os três de rádio; Miguel Relvas garantiu que o Governo ainda não tomou uma decisão sobre a RTP e preconizou que a empresa devia fazer notícias em vez de ser notícia; Nuno Santos demitiu-se do cargo de Director de Informação da RTP; a crise do Euro já contagiou de alguma forma sete dos 17 países da zona euro; a retoma em 2014 será três vezes inferior à previsão inicial da troika; a quebra de encomendas vai fechar a Auto-Europa um mês; Portugal está entre os dez países da União Europeia em que mais pessoas trabalham para além dos 65 anos; salários em atraso mais que duplicaram até Setembro; a taxa de desemprego juvenil em Portugal chegou aos 39%; os desempregados de longa duração já atingem 56% do total; o desemprego atinge 1.120 milhões de pessoas; a população desempregada aumentou nos últimos 12 meses a uma média  diária de 540 pessoas; quase metade das urgências podiam ser transferidas para centros de saúde; perto de 20.000 viaturas circulam sem seguro, mais 4,3% que no ano passado; Lisboa e Castelo Branco são as capitais de distrito com maior percentagem de idosos, 24%; no novo censo, a idade média dos portugueses subiu 3 anos, para 41,8 anos, em relação ao censo anterior; 19% dos portugueses têm mais de 65 anos.

ARCO DA VELHA – O aeroporto de Beja, que Sócrates mandou construir e custou 35 milhões de euros, pode vir a ser utilizado como central de sucata aeronáutica, uma base para desmantelar e reciclar aviões em fim de vida .

OUVIR-  Nos dias que correm não é muito confortável a rótulo de promessa do fado. E, no entanto, é esse rótulo que persegue Ana Moura desde o início da sua carreira. Para contrariar mais uma vez as coisas ela chamou um produtor norte-americano, Larry Klein, que gravou com Joni Mitchell, Herbie Hancock, Madeleine Peyroux ou Luciana Souza, e que conseguiu perceber que, além de fadista, Ana Moura é uma grande cantora e uma grande intérprete. Como os artistas que não vivem de rótulos, ela gosta de arriscar. Felizmente, como os melhores antes dela,  não vê o fado como uma coisa imóvel, sempre com os mesmos arranjos. Experimenta outros instrumentos, ensaia outros ritmos. O resultado, em “Desfados”, o seu novo disco, é arrebatador. Grandes canções, grandes fados inesperados, grandes surpresas como o arranjo de “A Case Of You”, de Joni Mitchell ou a heresia das palavras e do tempo rápido do tema título, “Desfado”. E  o “Havemos de Acordar” de Pedro Silva Martins, e o “Fado Alado” de Pedro Abrunhosa, e a musicalidade de “Como Nunca Mais” de Tó Zé Brito, ou a força de “Dream Of Fire” da própria Ana Moura. Há quem não goste deste disco e lhe chame nomes. Eu, por mim, limito-me a ouvir. Com o prazer e a alegria da descoberta que se tem quando se ouve música assim.

VER – Esta semana a Galeria Baginski assinalou o seu 10º aniversário - desde que começou perto da faculdade de Ciências, num rés de chão de um prédio antigo da Rua da Imprensa Nacional, com enfoque na fotografia e no desenho. As atuais instalações, num armazem bem recuperado no Beato, têm proporcionado um série de exposições de referência, algumas arriscadas. Ao mesmo tempo Andrea Baginski, que dirige a galeria, tem apostado na divulgação internacional dos artistas portugueses que representa e tem trazido a Lisboa a obra de alguns nomes estrangeiros, sobretudo da América Latina, e em especial do Brasil, que é o seu país de origem. Para assinalar estes dez anos apresenta uma exposição de Lúcia Prancha e Sara Nunes Fernandes, com Sérgio Carronha, três artistas portugueses que vivem em S:paulo, Londres e Lisboa, contemporâneos no estudo em Belas Artes, uma instalação de sensibilidades e formas diferentes. Na outra sala está uma intrigante e atraente exposição do peruano Jose Carlos Martinat, uma experiência sobre materiais e superfícies que dá que pensar. E ao fundo, na sala do acervo, como uma pequena oferta especial, extra-exposição, está um conjunto de obras - tentadoras - com a marca do humor cáustico e observador de Ana Vidigal. Rua Capitão Leitão 51 a 53 (www.baginski.pt

FOLHEAR –  Desde 2011 a Fundação Francisco Manuel Dos Santos edita todos os anos a revista “XXI Ter Opinião”. É um espaço editorial único, onde se confrontam ideias, se publicam opiniões mas também pequenos ensaios e investigações. O editor é António Barreto e o director é José Manuel Fernandes. Nesta nova edição, agora em distribuição (livrarias e bons quiosques de jornais, 6,5 €), destaco os artigos “Como Recuperar A Liberdade Perdida” de José Manuel Félix Ribeiro e “O Custo de Uma Utopia” de João Ferreira do Amaral. Há mais bons motivos, claro, como um apanhado do censo de 2011, um portfolio de fotografas de Praga em 1967, de Gerard Castello Lopes, apresentado por José Calado, ou ainda uma reflexão sobre a nova emigração e a Alemanha contemporânea. Num país onde hoje em dia se publica pouco debate de ideias e onde em geral se procura o consenso e os panos quentes em vez de uma discussão franca e de umas pedradas no charco, esta revista sabe bem. Noto com agrado que o tamanho da edição deste ano está mais cómodo para o leitor, mas lamento que nalguns aspectos gráficos (a começar pela capa) e temáticos a revista seja tão século XX  - uma contradição com o seu próprio título.

PROVAR – Um cozido à portuguesa quer-se rico de legumes e de carnes. Quer-se caldoso, no ponto sem ser espapaçado, saboroso e diversificado. A qualidade dos enchidos é decisiva para a coisa correr bem, mas admito que para mim as couves são também um bom argumento. Por estes dias tenho visitado a Cozinha Real, que fica no Hotel Real Parque. É um espaço remodelado há poucos anos (o hotel data de 1994), e embora fique numa cave, é bem iluminado, é amplo, confortável, com alguns recantos tranquilos. A cozinha é de inspiração tradicional portuguesa e hoje em dia é um dos bons sítios para almoçar nas avenidas novas. Às terças-feiras aparece o tal cozido - bons enchidos, boas carnes, abundante, saboroso. Devo dizer que o cozido da Cozinha Real é dos melhores que tenho provado nos últimos tempos. De tal maneira que sempre que posso lá vou à terça. E já percebi que nesse dia vou vendo que há mais gente a ficar fã. Avenida Luis Bivar 67, telefone 213 199 000.

GOSTO –  Do exemplo dos mil voluntários que se organizaram em Silves,  após o tornado, para em apenas um dia conseguirem limpar a sua terra dos destroços.

NÃO GOSTO – Os gastos com material militar em Portugal estão acima da média europeia.

BACK TO BASICS – "O castigo por não participares na politica é acabares a ser governado por quem te é

inferior." Platão


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 23 de Novembro)

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publicado às 13:00

35 MILHÕES PARA A SUCATA

por falcao, em 20.11.12

Nunca hei-de perceber bem a história do aeroporto de Beja – inaugurado há cerca de um ano e meio, e que basicamente tem estado vazio – cerca de centena e meia de voos registados nesse tempo e cerca de 2000 passageiros no total. O aeroporto custou mais de 35 milhões de euros, dispõe de todas as infra-estruturas necessárias, acontece é que não tem procura. Entre Julho a Setembro deste ano nem um só passageiro lá desembarcou.

 

É para mim um mistério porque é que alguém se lembrou de construir tal coisa no meio de Beja, zona que, para além de ter certamente muitos encantos, não é propriamente um destino turístico procurados por palettes ou resmas de estrangeiros, de qualquer nacionalidade. As estimativas que basearam a decisão da construção apontavam para um milhão de passageiros nos primeiros 4 anos de funcionamento.Quer-me parecer que alguém se enganou de forma muito grosseira para legitimar a decisão da construção, tomada no primeiro governo de Sócrates.

 

Claro que nestas coisas alguém ganha – quem fez o estudo ganhou alguma coisa, os construtores deverão também ter ganho alguma coisa, quem vendeu equipamentos também terá tido o seu lucro (e nem quero pensar que quem tomou a decisão possa ter tido também uns incentivos…) – mas na realidade todos nós contribuintes só temos prejuízo a registar.

 

Para todos os efeitos Beja é um aeroporto com muito poucos aviões – ou pelo menos tem sido. Digo isto porque um dos planos para rentabilizar o aeroporto passa por o transformar numa estrutura destinada a desmantelamento e reciclagem de aeronaves em fim de vida. Dito por outras palavras, um aeroporto moderno, construído e equipado para receber turistas, vai ser utilizado como central de sucata – sucata sofisticada, mas sucata à mesma. Não me parece nada normal.

 

(Publicado no Metro de 20 de Novembro)

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publicado às 10:59

CURIOSIDADE I – É muito interessante seguir o pingue-pongue entre Santos Pereira e Vítor Gaspar. Quando Santos Pereira defende uma fiscalidade mais competitiva que possa atrair investimento para a economia, Vítor Gaspar aplica uma fiscalidade mais apertada. É rara a semana em que não se sentem divergências públicas entre a Economia e as Finanças e a imagem que fica é a de um duelo em que Santos Pereira quer sobretudo preparar o futuro e Vítor Gaspar quer só resolver o passado. Mas é também curioso observar como, além de Santos Pereira, ministros como Nuno Crato e Paulo Macedo actuam a pensar no que está para a frente e fazem efectivas reformas. Começa a ser evidente que no Governo existem duas linhas, que seguem rumos diferentes. Uma história a seguir.

 

CURIOSIDADE II – Esta semana António Costa deu o tiro de partida para o seu reposicionamento: ao propor uma redução de 2% no IRS dos contribuintes residentes em Lisboa mostra uma iniciativa e uma capacidade politicas que o colocam a milhas de António José Seguro. Com este sinal iniciou a campanha para a sua recandidatura em Lisboa, que já se percebeu irá ser baseada em causas sociais, usando o poder de que dispõe; e ao mesmo tempo torna-se num pólo de atracção dos socialistas e surge como uma alternativa clara se o seu partido quiser mudar de rumo. Foi um autêntico xeque mate duplo: à oposição em Lisboa (que continua sem candidato visível) e aos seus opositores no PS.

 

CURIOSIDADE III - Alberto da Ponte, que antes de ser Presidente da RTP foi durante anos um dos mais importantes anunciantes, bem informado sobre o sector, e com uma enorme experiência no marketing, solicitou a intervenção da ERC no processo de audimetria, considerando que “o mercado das audiências não está a funcionar”.

 

SEMANADA – A igreja congelou o preço das missas, casamentos e baptizados até final de 2013; pneumonia mata 16 portugueses por dia; portos de Lisboa e Setúbal perdem 38% das cargas com a greve de estivadores; há 79 queixas diárias por violência doméstica; 33 mil empresas foram notificadas para pagar a TSU dos recibos verdes; em 2010 apenas 17% das empresas com menos de 10 trabalhadores tinham uma página na internet; O Ministério das Finanças diz que a recessão em 2013 vai ser inferior a 1% e o Banco de Portugal prevê que atinja 1,6%; a arrecadação da receita fiscal em 2013 caíu 4,9% até Setembro deste ano, em comparação com o período homólogo do ano passado, e isto apesar do aumento dos impostos; o Banco de Portugal prevê que para o ano desaparecerão mais 82 mil postos de trabalho; entre julho e setembro, o INE contabilizou 870,9 mil desempregados, o que representa um acréscimo trimestral de 5,3%; taxa de natalidade deve cair 20% este ano; poder de compra cairá em 2013 para nível mais baixo desde 1999; No terceiro trimestre o PIB voltou a cair, e aprofunda uma recessão que já dura há sete trimestres consecutivos.

 

ARCO DA VELHA – O investimento líquido da Alemanha em Portugal recuou 112% este ano e a presença alemã na economia portuguesa atingiu o mínimo de duas décadas.

 

OUVIR- Uma coisa engraçada que está a acontecer com os músicos rock é que a sua criatividade e energia prolongam-se no tempo muito além daquilo que se esperaria no final dos anos 60 do século passado. O primeiro disco de Neil Young, na altura com os Buffalo Springfield, data de 1966, tinha ele 21 anos. Quem diria que agora, aos 67 anos de idade, ele editaria num só ano dois discos – um que revisita clássicos da música popular dos Estados Unidos (“Americana”) e outro, só com temas inéditos , “Psychedelic Pill”, surpreendente, enérgico, arrebatador, contemporâneo . Em ambos Neil Young está com os Crazy Horse, músicos que muito contribuem para a riqueza dos dois registos. Mas como se isto não chegasse, no início de Outubro foi publicada a sua autobiografia, “Waging Heavy Peace: A Hippy Dream”. Mas regressemos ao novo disco. A faixa de abertura, “Drifting Back”, tem 27 minutos, e é marcada por solos de guitarra como há muito não ouvia e por uma letra que revisita de forma dura a música que hoje se faz e o estilo que ela inspira. É um contraste bem marcado com “Twisted Road”, onde Neil Young evoca a primeira vez que ouviu “Like A Rolling Stone” de Bob Dylan e a forma como o som dos Grateful Dead o marcou. Mas há outros temas a reter, como “Ramada Inn”, “She’s Alaways Dancing” ou o impressionante “Walk Like A Giant”.Eu confesso que há muito tempo não ouvia um disco que me marcasse e impressionasse tanto como este.  E não deixa de ser curioso que alguns dos discos mais notáveis deste ano são de nomes como Bob Dylan, Rolling Stones, Leonard Cohen, Beach Boys e este Neil Young. É como se estivéssemos perante um acesso de criatividade incontinente dos mais velhos, dos pioneiros, em resposta a alguma monotonia e conformismo de alguns dos mais novos. Duplo CD adquirido no iTunes.


VER – Em vez de uma exposição, sugiro que vejam a edição “Commemorative US Election Special” da revista “Time” que tem a data de 19 de Novembro na capa. Custa 4,50 euros e é um exemplo de uma grande edição – desde o trabalho de selecção das fotografias, maravilhosas imagens da campanha a preto e branco, a brilhante ideia dos 100 objectos que marcaram todas as candidaturas, as imagens do momento da vitória e do momento da derrota, as infografias exemplares, as boas e más ideias dos dois candidatos, um repositório de gaffes politicas e sobretudo a investigação “How He Did It”, que retrata a forma como Obama conseguiu ganhar, com destaque para uma visita aos bastidores da zona nevrálgica da campanha: os centros de dados dos democratas que permitiram estudar, segmentar, focar e finalmente conseguir os votos decisivos para a vitória, num exercício de marketing politico absolutamente extraordinário. E, claro, um balanço do grande protagonista desta campanha – a televisão, cuja morte anunciada foi mais uma vez negada pelas evidências e que, na cobertura em directo, nos debates e como veículo publicitário se revelou um meio absolutamente incontornável na estratégia dos dois candidatos.


FOLHEAR –  Os livros/álbuns costumam ser grandes, pesados, previsíveis, graficamente monótonos e destinados apenas a servirem de tabuleiro para chávenas de café. Por alguma razão se chamam álbuns de mesa. “LX 60 – A Vida em Lisboa Nunca Mais Foi a Mesma” não é nada disso: tem um formato mais pequeno, pode ler-se na cama sem se ter a sensação de que se está a fazer halteres. E, sobretudo, está muito bem feito. Joana Stichini Vilela investigou, ouviu dezenas de pessoas, fez reviver a memória do que era a vida em Lisboa na década de 60, nos bairros, nos cafés, mas também nos teatros, na política, na geração de criadores que nascia no cinema, na música, na literatura, em todo o lado. Cita números, mostra dados, exemplifica situações. E tudo é ricamente ilustrado com imagens de época num trabalho gráfico invulgar de Nick Mrozowski, o norte-americano que veio fazer o grafismo do diário “i” e que se apaixonou por Lisboa. É um livro especial, este agora editado pela D. Quixote, mas também um trabalho meticuloso e raro. Exemplar.

PROVAR –  Esta semana fui finalmente ao remoçado Belcanto, e a experiência correu muito bem. O chef José Avillez está agora a comandar as operações, mantendo um sábio equilíbrio entre as receitas tradicionais da casa e a forma contemporânea que gosta de imprimir à sua cozinha. O interior do restaurante foi modernizado, mas sem estragar o ar intemporal das salas do Belcanto – à entrada não fumadores, ao fundo, fumadores – pelo meio uma cozinha aberta para o corredor onde a azáfama é bem visível. Começo por destacar, no couvert, uma delícia absolutamente viciante que é um pão com azeitonas, mesmo sendo salgado mais perto dos caracóis de pastelaria que da focaccia tradicional.; a broa de milho também é respeitável. A entrada foi uma cavala marinada que esteve acima das expectativas e o prato foi um bacalhau à Braz levíssimo e irrepreensível. A acompanhar esteve um vinho do chef, bem servido a copo. O final foi também inesperado – um sorvete de tangerina, aromático, a revelar todo o sabor da fruta e com uma consistência e temperatura perfeitas. Largo de S. Carlos 10, tel. 213 420 607


GOSTO – Do Codebits, uma iniciativa do Sapo e da PT destinada a fomentar a criatividade dos programadores portugueses, sobretudo dos mais jovens, e que este fim de semana acontece mais uma vez – onde vai estar exposta uma impressora 3D e com um belíssimo painel de convidados para as conferências.

NÃO GOSTO – Dos erros que Vítor Gaspar continua a fazer nas previsões.


BACK TO BASICS – Um escândalo nada mais é que é intriga tornada fastidiosa pela moralidade – Óscar Wilde

 

(Publicado no Jornal de Negócios de dia 16 de Novembro)

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publicado às 16:14

O TRABALHO EXEMPLAR DO BANCO ALIMENTAR

por falcao, em 13.11.12

A melhor forma de resumir o caso criado em torno das declarações de Isabel Jonet numa estação de televisão foi feita por Pedro Rolo Duarte, no seu blogue. Com a devida vénia aqui vai uma citação: “Aqueles minutos de televisão são gotas de água no oceano de solidariedade que o Banco Alimentar Contra a Fome tem constituído. E também são gotas de água nos anos de entrega e empenho que Isabel Jonet tem dedicado a quem efectivamente  precisa de apoio e ajuda. Destruir o nome da pessoa, e da instituição, por causa de um momento infeliz de televisão, é admitir que o circo mediático tem mais poder do que a causa, o trabalho, e o valor, que os anos foram demonstrando, provando, e mais do que isso: fazendo. Fazer ainda vale mais do que só falar, digo eu. Deixemos o Banco Alimentar fazer, com a Isabel Jonet, e admitamos que errar quando se fala é bem menos grave do que errar porque nada se faz.”.

 

No essencial Isabel Jonet disse que o país tem vivido acima das suas possibilidades. Isto não é uma novidade – o endividamento particular e do Estado mostra isto mesmo: gastámos mais do que podíamos e devíamos durante tempo demais. Dizê-lo, agora, é ajudar a perceber aquilo que nos está a acontecer mas, sobretudo, é procurar evitar que no futuro se repita. Pode custar ouvir que não soubemos fazer contas, mas é a mais pura das verdades.

 

O Banco Alimentar é das poucas expressões da sociedade civil em Portugal. É um exemplo de rigor e de organização e mobiliza gente de todas as opiniões e de todas as idades. Dentro de dias vai haver nova recolha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar e essa é uma boa ocasião para todos mostrarmos como somos capazes de nos ajudarmos uns aos outros e como sabemos distinguir o fundamental do acessório.

 

(Publicado no Metro de dia 13 de Novembro)

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publicado às 12:47

SILÊNCIO – Uma das coisas mais fascinantes na nossa atividade politica tem a ver com a gestão do silêncio de algumas figuras do Estado que têm por função mediar conflitos, encontrar pontos comuns, descobrir soluções, aconselhar uns e dar uma palavra de estímulo a quase todos nestes difíceis momentos. Estou a falar do Presidente da República – e deste singular fenómeno que é o facto de vários órgãos de comunicação, quando de repente ele fala, optarem por dizer “Cavaco rompeu o silêncio”, antes de explicarem o que ele disse. É a prova de que este Presidente da República criou uma nova forma de posicionamento - que é o seu silêncio – que se torna a notícia principal quando é rompido. É a subversão da ordem lógica das coisas mas é , também, o sinal mais preocupante, do declínio de um regime construído de tabus e conspirações. Quando um dia se fizer a crónica destes dias muito haverá para contar sobre a utilização dos silêncios como arma politica.

 

CAMPANHA – Na noite das eleições presidenciais norte-americanas o site do New York Times afirmava que estava para começar o mais fantástico programa de televisão dos últimos anos. Acertou – e o que aconteceu foi o culminar de uma campanha que se caracterizou por ser a mais cara de sempre.  O Center For Responsive Politics calcula que cerca de seis mil milhões de dólares tenham sido gastos em publicidade, nos vários media, nesta campanha presidencial em 2012. É certo que este valor é manos do que a industria automóvel norte-americana gasta em publicidade de televisão num único ano. Mas mesmo assim foi um valor enorme. Os canais de Cabo da Time Warner tiveram que deixar de fazer auto-promoções dos seus programas alguns dias antes das eleições para poderem acomodar no seu espaço de emissão os spots publicitários que as campanhas políticas queriam colocar no ar – houve nalguns casos mais procura que oferta. Mas voltando às televisões, a NBC foi a primeira a prever – e anunciar – a vitória de Obama. A Fox seguiu-se-lhe, criando alguma tensão interna entre os convidados republicanos que estavam no estúdio da estação. A CNN foi a mais cautelosa, mas a que criou a imagem mais fantástica – uma iluminação especial no Empire State Building, que reflectia o avanço dos resultados eleitorais através de colunas de luz azul (democratas) e vermelha (republicanos). Mas a estrela da noite não estava nas televisões, e sim no New York Times, escrevendo o seu blog “Five Thirty Eight”. Nate Silver, um economista que desenvolveu um algoritmo que lhe permitiu fazer previsões certeiras desde os primeiros momentos do dia da eleição, chegou ao fim da maratona eleitoral com mais de 360.000  seguidores no seu twitter e tornou-se no oráculo da politica norte-americana.

 

 

SEMANADA – Tribunais têm 1,7 milhões de processos parados; comércio, construção e imobiliário lideram os sectores empresariais nos pedidos de insolvência; este ano 5322 empresas já foram declaradas insolventes, mais 45,33% que em 2011; o número de desempregados que anulou a inscrição nos centros de emprego para emigrar entre Janeiro e Setembro disparou 45,4% face a igual período do ano passado; dívida publica cresceu 20 vezes desde1974 e assim cada português deve em média 20 mil euros; o Plano de Emergência Alimentar já está a fornecer 34 mil refeições por dia; a lista negra de devedores envolve mais de 31 mil pessoas e empresas e os valores em dívida ao Estado atingem 434 milhões; as vendas de automóveis caíram 41% até outubro; o dinheiro gasto na campanha presidencial norte americana resolvia o deficit português; já foram feitas apreensões de cocaína este ano no valor de 95 milhões de euros.

 

 

ARCO DA VELHA –Os cemitérios também pagam taxa audiovisual na fatura de eletricidade, assim como os semáforos e os postes de iluminação pública.

 

OUVIR- Kurt Elling é considerado um dos melhores vocalistas de jazz contemporâneos e sábado dia 10 actuará no Grande Auditório do CCB. Natural de Chicago, o seu primeiro disco data de 1995. Na sua carreira já ganhou um Grammy e os leitores e cíticos da revista norte-americana Down Beat consideraram-no como o melhor vocalista de jazz de 2012. No CCB irá basear a sua actuação no seu novo álbum,  “1619 Broadway – The Brill Building Project”. O disco é uma homenagem àquele que é considerado como o berço de muitas das melhores canções. O Brill Building é um edifício de escritórios onde estão empresas ligadas à actividade musical e alguns estúdios de som e de ensaio. Em tempos foi descrito como “o mais importante gerador de canções populares no mundo ocidental” e fica exactamente no número 1619 da Broadway. Neste disco estão grandes clássicos como “On Broadway”, “Come Fly With Me”, “I’m Satisfied” , “American Tune” ou “So Far Away”, e outras de nomes que vão de Paul Simon a Carole King, passando por Sam Cooke ou Burt Bacharach. Em comum todas têm alguma ligação ao Brill Building e Elling interpreta-as com a sua forma muito própria, brincando com o ritmo e o fraseado das canções. Se não for ao CCB, compre o disco e não se irá arrepender.

 

 

VER – O panóptico do Hospital Miguel Bombarda é uma construção arquitectónica invulgar que tinha por finalidade providenciar a detenção para doentes mentais considerados perigosos. Não é um sítio agradável e imagina-se o que seria viver dentro das suas pequenas celas, dispostas de forma circular, sobre um amplo relvado central. As celas, hoje vazias, são a memória que resta da construção criada pelo arquitecto José Maria Nepomuceno e que se manteve em funcionamento até 2000. Em 2001 foi classificado como imóvel de interesse público e transformado em museu hospitalar. Luís Campos, um médico que tem desenvolvido assinalável trabalho na fotografia, teve a ideia de convidar uma série de outros fotógrafos para uma exposição integrada nas actividades do 4º Congresso Internacional dos Hospitais. Dos 24 convidados destaco os trabalhos de Augusto Brázio, Valter Vinagre, Inês d’Orey, Catarina Botelho, Augusto Alves da Silva, João Paulo Serafim, Luís Ferreira, Pedro Letria, José Maçãs de Carvalho e do próprio Luís Campos. É um local que vale a pena descobrir e uma exposição que vale a pena conhecer. Pode ser visitada de terça a Sábado, das 12 às 18, até final de Janeiro.

 

FOLHEAR – José Manuel Fernandes, jornalista, ex-director do “Público”, meteu ombros a uma tarefa não muito popular, mas corajosa, que é reflectir sobre a sua actividade politica na juventude, entre os 15 e os 23 anos, que coincidiu com os anos antes e imediatamente seguintes ao 25 de Abril de 1974. Com o sugestivo título “Era Uma Vez... A Revolução”, José Manuel Fernandes conta episódios que viveu de perto, relata sem floreados os primeiros tempos da UDP e como se formou como jornalista na “Voz do Povo”, onde aliás nos conhecemos e trabalhámos juntos, onde vivemos ilusões e onde descobrimos desilusões. E é sobre a forma como, dentro de uma organização radical, se vai ganhando consciência do que não está bem e daquilo que surge em contradição com os idealismos, que o livro se desenvolve – e é esta viagem à percepção da “fatal ilusão”, como o autor lhe chama, referindo-se à  “ ratoeira ideológica do merxismo e dessa sua declinação extrema, o maoísmo”, que torna o livro simultaneamente incómodo para alguns e exemplar para outros. Escrito como um relato de memórias, “Era Uma Vez... A Revolução”, nunca é acrítico nem distanciado, é muitas vezes empolgante e é certamente muito pouco saudosista. O que é aliás a sua principal qualidade.

 

 

PROVAR – Nesta época do ano há uma fruta que me tira do sério – os dióspiros. O nome tem origem grega e quer dizer a fruta dos deuses. É um nome bem posto. Confesso que foi para mim uma descoberta tardia, mas hoje em dia suspiro que chegue o Outono e que, com ele, venham os dióspiros, bem maduros. Abro-os com uma colher, a polpa quase líquida, que gosto de polvilhar com canela, com umas nozes ao lado. Se puder acompanhar com um moscatel roxo da casa agrícola Horácio Simões, da Quinta do Anjo, Palmela, ainda melhor. É uma combinação perfeita, uma sobremesa absolutamente excepcional.

 

 

GOSTO –  60% dos portugueses já acede à internet e um em cada cinco utilizadores acede a partir do telemóvel

 

NÃO GOSTO – O sporting tem as piores classificações, pontuação e quantidade de golos marcados de sempre depois de oito jogos na Liga.

 

BACK TO BASICS – Não é de admirar que entre os cidadãos cresça uma descrença na política, quando em todas as eleições ouvem os políticos fazer promessas que não cumprem nem nunca tencionaram cumprir. Fantasias de campanha eleitoral servem para ganhar eleições mas não melhoram a vida de ninguém – Bill Clinton


(Publicado dia 9 de Novembro no Jornal de Negócios)

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publicado às 17:53

BOM SENSO E AUSÊNCIAS

por falcao, em 06.11.12

O país anda suspenso da palavra “refundação”. Há políticos que discutem o seu significado, há líderes da oposição que se opõem à palavra – mas até hoje ninguém explicou o que ela quer dizer de facto - como muito bem notou o Professor Adriano Moreira,  que sugeriu que fosse Passos Coelho a dizer o que entende ser a tal “refundação”. De uma forma simples, Adriano Moreira veio chamar atenção para o ridículo da situação – um Primeiro Ministro que proclama um objetivo que não detalha e uma classe política que não faz o óbvio, que é perguntar-lhe o que quer dizer. O episódio da refundação teve dois efeitos colaterais: acentuou o silêncio de Cavaco Silva e mostrou que o líder da oposição é do contra por princípio, mesmo sem saber, como nesta caso, aquilo que está a contrariar. Temos portanto o caldo entornado porque a refundação evidenciou que o PS deixou de querer fazer parte da solução e colocou-se do lado do problema, que aliás ajudou substancialmente a criar.

 

No meio disto, há uma pergunta que se repete com persistência: onde anda Cavaco? No Facebook, um dos seus locais de eleição, anda desaparecido desde o dia 13 do mês passado,  o dia em que invocou o estudo do FMI sobre os efeitos das medidas de austeridade. No resto, não se sente nem se ouve, num momento em que o PS diz que se vai embora do sistema, em que o estado de paz podre da coligação faz aumentar os sinais de crise política, em que o orçamento é o que se sabe, e, finalmente, num tempo em que as eleições autárquicas e o romance dos candidatos que transitam de círculo eleitoral são matéria que promete. Entre um governo que criou a imagem de ser uma correia de transmissão da senhora Merkel e  uma oposição suicida seria desejável existir um árbitro, alguém com bom senso. O bom senso que Adriano Moreira tem e que falta tanto noutras paragens.

 

(Publicado no Diário Metro de 6 de Novembro)

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publicado às 12:08

PALAVRAS – Em política as palavras são como símbolos. Utilizam-se sem ninguém se preocupar com o seu verdadeiro conteúdo, mas apenas porque podem ser úteis para gerar movimentos e provocar reações. Há poucos dias o léxico político indígena ganhou uma nova palavra – “refundação”. Ninguém sabe verdadeiramente o que isto quer dizer: se é uma mudança, será em que sentido? se é uma reforma, será em que áreas? se é uma redefinição, parte de onde? Em tudo isto não existe um ponto de partida claro mas, pior ainda, não existe um objetivo evidente enunciado, não se sabe onde se quer chegar. No estado em que as coisas estão a refundação é uma tática que não serve nenhuma estratégia, a não ser manter a ilusão de que é o Governo, e não a troika, quem governa. A tal “refundação” é a maior declaração de incapacidade política de que tenho memória. É uma espécie de bandeira branca que se levanta a meio da batalha, pedindo tréguas e cessar-fogo. O Governo tem agido à vista – num enredo de enganos de previsões, de medidas que se anunciam e se anulam, sem rumo nem destino.  Ao fim de um ano e meio chegou-se aqui sem que de facto tenha sido feita uma reforma que se veja, apesar de o PSD ter sido eleito por dizer que iria fazer reformas. Não existem nem se vislumbram onde eram necessárias, como na justiça ou no peso do Estado. Mas existem onde é mais fácil – nos aumentos de taxas e impostos. Assim sendo a palavra “reforma” esgotou o seu sentido e houve que ir buscar outra – apareceu a “refundação”. Para se refundar alguma coisa era preciso que, antes, se tivesse fundado algo. Do rol de atividades deste Governo não consta que tal tenha sucedido. É pena – porque as promessas eleitorais eram outras e mais uma vez quem votou foi enganado. O persistente uso do bibe na idade adulta e o à vontade no manejar da folha de excel não são os principais atributos desejáveis num político. O que precisamos é de pessoas sensatas que sejam capazes de argumentar e negociar com a rapaziada que por essa Europa fora vive fechada no universo das folhas de cálculo. Vivemos na época digital mas temos instituições, partidos e políticos analógicos. O resultado está à vista.

           

SEMANADA – Desemprego subiu 40% na construção e já atinge cerca de 100 mil pessoas; quase 60% das grandes empresas foram alvo de ações judiciais nos últimos 12 meses; Portugal gasta mais em defesa e educação que a média dos países da zona euro e, também em média, gasta menos em saúde e prestações sociais que os outros países; a administração fiscal penhora mais de 2800 contribuintes por dia; num inquérito da Associação de Comércio de Lisboa os responsáveis de 3000 empresas queixam-se mais da Justiça do que da falta de crédito; o indicador de confiança dos consumidores atingiu, em Outubro, um novo mínimo histórico desde o início da série do INE em 1997 e as perspetivas das famílias sobre a economia e a sua própria situação financeira são as piores de sempre; Passos Coelho admitiu no Parlamento que em 2013 pode haver quebra da receita fiscal apesar do aumento de impostos – e que o orçamento pode não ser cumprido; o orçamento comunitário para o período de 2014 a 2020 vai reduzir em cerca de 10% e para Portugal a quebra será de pelo menos 2500 milhões de euros.

 

ARCO DA VELHA – O Autódromo do Algarve pediu o perdão de 40 milhões de euros de dívidas e o Estado vai demorar mais de dez anos a receber mais de 600 mil euros que a empresa lhe deve. O Autódromo foi inaugurado há quatro anos pelo então ministro Manuel Pinho que, na cerimónia, afirmou: "Todos os equipamentos que aqui vão crescer são uma mais-valia para evitar que o autódromo se transforme num elefante branco".

 

 

VER – Várias sugestões de fotografia. Começo por Coimbra, duas exposições, ambas promovidas pelo Centro de Artes Visuais. A primeira é de Daniel Malhão e mostra um conjunto de obras selecionadas do autor; a segunda é intitulada “O Amor de Alcibíades”, de Eduardo Guerra. Ambas estão nas instalações do CAV, no Pátio da Inquisição.

A segunda sugestão, bem diferente: até 9 de Novembro podem ser vistas as 20 melhores fotografias do II Prémio de Arte Grünenthal, subordinado ao tema “Que a Dor não seja mais do que uma recordação”. Estão na sede do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Avenida da Liberdade, 270. O prémio foi ganho pelo espanhol Miguel Ángel Tornero com o trabalho “Pain Killers”.

A terceira sugestão: Neil Lochery, que escreveu um belo livro sobre Lisboa no tempo da guerra, procurou imagens dessa época, mostrando a cidade entre 1939 e 1945, em diversos arquivos internacionais e nacionais. Muitas destas imagens eram inéditas até agora. Até dia 9 de Novembro nos Paços do Concelho.

 

 

OUVIR E VER – Nada como recordar os sons que uma cidade como New York evoca através da gravação de um concerto de Paul Simon no Webster Hall, em 6 de Junho de 2011. Paul Simon é acompanhado por oito músicos de exceção e percorre diversas fases da sua carreira, desde “The Sounds Of Silence” até “Diamonds On The Soles Of Her Shoes”, passando por “50 Ways To Leave Your Lover ou “Still Crazy After All These Years”. Ao todo são 20 temas, num belo DVD realizado por Martyn Atkins. Algumas destas canções há muito não eram tocadas ao vivo por Paul Simon, que agora vai nos seus 70 anos – como “Mother And Chilkd Reunion” ou “Kodachrome”, mas elas estão talvez entre os melhores momentos do registo.O que gostei mais neste DVD foi o ar de concerto intimista, de uma atuação para amigos. Por vezes, quando o DVD está a tocar, até se tem a sensação que ele está ali, a tocar só para nós.

 

FOLHEAR –  A edição de Novembro da Monocle vem tocar um tema que está na ordem do dia em todo o mundo e que é a qualidade da assistência de saúde que cada país pode proporcionar aos seus cidadãos. O trabalho tem a diversidade e o inesperado que são a imagem de marca da Monocle – e pelo meio surgem muitas informações curiosas. As reportagens incluem uma viagem ao serviço Royal Flying Doctor da Austrália, uma espécie de 112 aéreo, um balanço da atividade das principais editoras de publicações médicas ou arquitectura de instalações hospitalares. Neste tempo de eleições há um belo artigo sobre os negócios à volta das presidenciais norte-americanas, desde pesquisas de opinião até eventos de angariação de fundos - boas ideias para os nossos assessores políticos. Nas viagens fiquei com vontade de conhecer Lucca, na Toscânia e umas comidas peruanas, em Lima. Enfim, nestes dias de crise a Monocle é cada vez mais preciosa – dá-nos a ilusão de conhecer o mundo sem sair de casa. E então se ouvirmos a sua webradio Monocle24 isso é ainda mais acentuado. Eu, estou fã das web rádios e desta da Monocle em particular.

 

PROVAR –Se gostam de comida japonesa podem ter um contacto próximo com os seus ingredientes e com alguns produtos preparados nas lojas Goyo-Ya. Existe uma em Cascais (no Centro Comercial Orion, Rua D. Francisco Avilez) e outra em Lisboa, às Picoas  (na Rua Filipe Folque nº30). Para além de utensílios culinários poderá lá encontrar produtos naturais, diversos ingredientes, molhos mas também congelados, como umas maravilhosas gyosas de camarão e outras de vegetais. Na loja são todos muito prestáveis e dispostos a esclarecer as dúvidas dos ocidentais.

 

GOSTO –   Que “Desfado”, o novo CD de Ana Moura, tenho sido o primeiro disco português a ter uma masterização de som própria para o iTunes.

 

NÃO GOSTO – Que o Sporting esteja há seis jogos seguidos sem ganhar e que vá já no oitavo treinador em três anos.

 

BACK TO BASICS – Quando me fazem uma pergunta, a minha resposta não tem por objectivo agradar a quem a fez – William Shakespeare

 

(Publicado no Jornal de Negócios de 2 de Novembro)

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publicado às 14:52


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