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ESCOLHA - Numa edição recente da revista do “Expresso” o sociólogo Pedro Magalhães fez uma das mais interessantes propostas que tenho visto nos últimos tempos. O que ele preconiza é que os eleitores possam escolher os deputados em que votam - ou seja, que depois de escolherem o partido em que querem votar, possam ordenar os deputados da respectiva lista pela sua ordem de preferência e não pela ordem decidida pelo aparelho partidário. Ora quer-me parecer que isto acabava com aquela triste cena das guerrinhas nos aparelhos partidários pelos lugares elegíveis, guerrinha que já se está a ver a ferver por causa das próximas eleições europeias - e ainda a procissão vai no adro. A mim agrada-me a ideia de não ter que votar em candidatos de que não gosto e escolher apenas aqueles com que mais me identifico - assim acabavam-se os deputados mudos, que passam uma legislatura sem abrirem o bico e que conseguem ir a votos sem que ninguém saiba o que pensam. Por exemplo, assim, mesmo que votasse no PSD, poderia não votar no deputado referendário Hugo Soares.. Talvez esta simples medida - que aliás já está em prática em alguns países - nos poupasse a espectáculos tristes.

 

SEMANADA - As mortes por pneumonia subiram 25% no espaço de um ano; as queixas de negligência médica quintuplicaram desde 2001; em Coimbra uma cozinheira do estabelecimento prisional levava substãncias ilícitas para distribuir dentro da cadeia; na cadeia de Custóias um guarda prisional cobrava aos detidos 200 euros por cada placa de 250 gramas de haxixe; os processos de falência, insolvência e recuperação de empresas cresceram 426,3% em seis anos; o crédito malparado das empresas triplicou entre o final de 2010 e o final de 2013; a Inspecção Geral de Finanças identificou 225,9 mil euros pagos indevidamente em subsídios para bilhetes aéreos a residentes nos Açores; a fiscalização a escolas de condução, centros de exame e centros de inspecção automóvel está quase parada por falta de carros de serviço para as deslocações; em Janeiro os 49 vistos “gold” renderam 27 milhões de euros de investimento; Passos Coelho foi reeleito líder do PSD com metade dos votos que tinha obtido em 2010 e também menos que os obtidos em 2012; “nesta fase do campeonato ficar-se pelos preliminares é de facto muito pouco” - disse Miguel Cadilhe sobre a Reforma do Estado;

no último ano os portugueses pagaram mais impostos sobre o tabaco do que sobre os combustíveis.

 

ARCO DA VELHA - “Nunca houve praxes violentas. Correu aliás sempre tudo muito bem nas brincadeiras que fizeram” - Manuel Damásio, administrador da Lusófona, em declarações feitas esta semana

 

FOLHEAR - Continuo a gostar de esperar todos os meses pela “Monocle”. Gosto de a folhear, ver o que tem a sugerir, ir descobrindo as suas páginas. Mesmo sabendo que muitas das matérias são fruto de iniciativas comerciais (que os nossos vizinhos espanhóis sabem bem explorar) e são uma espécie sofisticada de publicidade redigida, gosto do critério, da escolha, do alinhamento. Nesta edição, de Fevereiro Lisboa aparece bem representada e fala-se da Mouraria, do Martim Moniz, do reviver de toda aquela zona da cidade. É engraçado porque um estrangeiro consegue descobrir na nossa cidade encantos que nós menosprezamos e para os quais nem olhamos bem. Ao ver estas três páginas dedicadas à Mouraria, fico contente. Este número tem por tema a descoberta do mundo, sobretudo daqueles locais que são menos evidentes, ou mais arredados das rotas turísticas. Aquilo que gosto mais de ler, edição após edição desta revista, são as histórias de pessoas que mudam de vida para criarem alguma coisa de novo e pessoal, histórias de pequenas empresas baseadas em ideias simples e que permitem tornar-nos a todos mais humanos e mais próximos uns dos outros. Só por isso vale a pena seguir a “Monocle”.

 

VER - Gosto de visitar galerias, gosto de ver o esforço dos galeristas em descobrir e apresentar novos artistas, às vezes em os misturarem com nomes firmados. As galerias são locais onde se pode desfrutar arte sem nada pagar - a menos que possamos e queiramos comprar uma das obras expostas. São um verdadeiro serviço público, há muito mal tratado pelo Estado - que aliás prefere ir subsidiando autarquicamente uns festivais e feiras a apoiar uma actividade continuada. Já aqui ao lado, em Espanha, o IVA das transacções de obras de artes plásticas desceu para metade, ficando abaixo do português. Uma das coisas que me dá prazer é ver uma galeria a crescer -  gosto do ambiente das noites inaugurais, quando os artistas se cruzam com os seus coleccionadores, gosto dos fins de tarde a olhar para o que de novo se faz. Uma das mais recentes galerias de Lisboa - abriu há um ano - é a Belo-Galsterer, na Rua Castilho 71, r/c esq. Por estes dias podem lá ver a exposição “paperworks”, que junta trabalhos de Ana Jotta, Carolina Almeida, Cristina Ataíde (é dela o desenho na foto), Friederike Just, Juliane Solmsdorf, Marcelo Costa, Mário Macilau, Mel O'Callaghan, Miguel Branco, Pedro Calapez, Pedro Proença, Pedro Sousa Vieira, Rui Sanches e Susana Anágua. Nos próximos sábados decorrem encontros com artistas, sempre às 17h00 - amanhã, dia 1 com Miguel Branco, dia 8 com Cristina Ataíde, dia 15 com Pedro Proença e dia 1 com Ana Jotta e Rui Sanches.

 

OUVIR - O novo álbum dos Capitão Fausto, “Pesar o Sol”, revela uma assinalável evolução e maturidade face ao disco anterior, de estreia. Instrumentalmente mais coesos, sob um pano de fundo assumidamente rock, com evocações não saudosistas da pop portuguesa dos anos 70 e 80 (sentem-se momentos da Filarmónica Fraude e até mesmo, pontualmente, do Quarteto 1111), os Capitão Fausto são uma das poucas bandas que nos últimos anos conseguiram entrar no circuito dos festivais a cantar português, procurando uma sonoridade própria e fugindo aos estereotipos das modas internacionais. Só por isso merecem ser ouvidos. E este álbum, “Pesar o Sol”, tem boas canções como “Nunca Faço Nem Metade”, “Litoral” e sobretudo “Lameira”.

 

(DESA)PROVAR - Mal influenciado pelo blogue Mesa Marcada fui experimentar o Aron Sushi, a São Sebastião da Pedreira. Foi uma má decisão, em má hora tomada. O corte do peixe é rudimentar, a tempura é desinteressante e o arroz - critério decisivo neste género de casas - é absolutamente sensaborão. Acresce que o serviço, embora simpático, é distraído - e a lentidão da cozinha, mesmo com sala apenas meia cheia,  está na proporção inversa da qualidade e interesse do que de lá sai. Na realidade a coisa revelou-se msnos interessante que os sushis abrasileirados que por aí vão proliferando. É uma experiência que não irei repetir e que vivamente não aconselho. Mas, também, quem me manda acreditar num blogue que continua a elogiar o trabalho de Vitor Sobral na Cervejaria da Esquina?

 

DIXIT - “Neste momento, esperava-se uma estratégia concreta para atacar os grandes desafios da RTP (...) em vez disso optou-se pela criação de um Conselho Geral, uma nova estrutura que assumirá quase todas as competências da tutela, diluindo a responsabilização e tornando confusa a linha de comando. Só por sorte este orgão (...) contribuirá para um melhor serviço público” - Gonçalo Reis

 

GOSTO - O fotógrafo português João Pina viu o seu trabalho sobre as ditaduras sul americanas, “Operation Condor”, ser elogiado pelo blog de fotografia do New York Times e pelo ICP - International Center Of Photography.

 

NÃO GOSTO - O PSD anunciou que vai insistir no referendo que propôs sobre a adopção e coadopção mesmo que o Tribunal Constitucional o chumbe.

 

BACK TO BASICS - É muito importante sermos capazes de falar com pessoas com as quais discordamos, nem toda a gente tem que ser capaz de cantar a mesma melodia - Pete Seeger

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publicado às 16:34

DRAMATURGIA - No espaço de uma semana Pedro Passos Coelho conseguiu que acontecessem duas coisas inesperadas: primeiro, com a inabilidade com que tratou da proposta senil de um referendo sobre a co-adopção, levou a que uma sua fiel apoiante, Teresa Leal Coelho, se visse obrigada a demarcar-se da forma como os deputados foram obrigados a disciplina de voto - a deputada manteve a coerência, demitiu-se de vice presidente da bancada social-democrata e o PSD mostrou o seu lado mais oportunista; e, em segundo lugar, com as considerações que o líder do PSD fez sobre as características que no seu entender deve ter um candidato presidencial, deu a Marcelo Rebelo de Sousa a oportunidade de encenar o seu momento irrevogável, abriu campo para que ele fique a controlar o tabuleiro do xadrez político e precipitou um debate interno sobre os candidatos presidenciais quando ainda nem os europeus se conhecem. A dúvida está em saber se tudo isto são sinais de desorientação ou apenas o regresso da arrogância do poder. Sob o signo do unanimismo, da obediência cega e de guiões preparados com definições de personagens muito fechadas, o próximo congressos do PSD promete ter o contexto dramático de uma farsa. Quando os políticos preferem fazer teatro a discutir ideias abrem o caminho para o desinteresse dos que não precisam dos partidos para viverem. Ficam com a plateia cheia dos que são pagos para bater palmas.

 

SEMANADA - O Tribunal Constitucional aceitou que nos Açores, em nome da insularidade, os funcionários públicos recebam subsídios do Governo Regional que compensam os cortes orçamentais; depois de Lisboa, a Câmara Municipal de Sintra decidiu manter o horário de 35 horas semanais para todos os funcionários municipais; as exportações portuguesas para Espanha subiram 9,8% nos primeiros 11 meses de 2013; a dívida pública espanhola caíu para 93,12% do PIB; segundo as previsões do Eurostat a dívida pública portuguesa rondará os 128% do PIB; o número de desempregados no final de Dezembro era de 690.535, menos 2,8% que no final de 2012; o número de licenciados no desemprego é de 93 mil, mais 5,3% que há um ano; os hipermercados extinguiram em dois anos mais de seis mil empregos; o investimento de portugueses em produtos de poupança do Estado ficou 813 milhões de euros acima do previsto; a Inspecção Geral da Administração Interna acusou escola de oficiais da PSP de más práticas de gestão; os colégios  do grupo GPS, suspeitos de uso ilegal de dinheiro do Estado, estavam ligados a responsáveis da área da educação de governos PS e PSD e receberam financiamentos públicos no valor de 81 milhões de euros em 2012 e 2013; o ex-bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho e Pinto, é candidato às eleições europeias pelo Partido da Terra, que no anterior acto eleitoral obteve 0,66% dos votos.

 

ARCO DA VELHA - A Casa Fernando Pessoa e a Egeac, a empresa municipal que a gere, adjudicaram vários serviços por ajuste directo, desde o final de 2012, a uma empresa que está sedeada em casa da sua directora, a escritora Inês Pedrosa.

 

FOLHEAR - Chama-se “Fragmentos - Poemas, Cartas e Notas Íntimas de Marilyn Monroe” e são 270 páginas de memórias de Marilyn. O livro já foi editado há algum tempo mas só agora me chegou às mãos. A direcção de edição é de Stanley Buchtal e Bernard Comment e foi editado pela Objectiva. O prefácio desta edição, intitulado “O Pó da Borboleta” foi escrito por António Tabucchi e ele salienta: “A imagem que Marilyn Monroe deixou no mundo das imagens esconde uma alma de que poucos suspeitavam (...) Este livro, com os documentos inéditos que contém, revela a complexidade que está por detrás da imagem”. O livro termina com o elogio fúnebre de Lee Strasberg na morte de Marilyn, onde ele diz: “Ela tinha uma qualidade lumninosa, uma combinação de melancolia, de esplendor e de desejo, que a colocava numa categoria à parte e, no entanto, dava a todos o desejo de participar, de partilhar esta ingenuidade infantil ao mesmo tempo tão tímida e tão vibrante. Esta qualidade era ainda mais evidente quando estava no palco (...) Não há dúvida de que se tornaria numa das maiores actrizes do teatro”.

O livro inclui reproduções de páginas dos cadernos pessoais de Marilyn - as suas notas mas também os seus desabafos, poemas que foi escrevendo, sobretudo nos anos 50, referências às leituras que ía fazendo, algumas inesperadas para muitos. Tem também relatos que ela foi escrevendo de episódios da sua vida, numerosas fotografias, descrições do quotidiano. No fim, o que nos fica é uma imagem de sensibilidade, para além do mito do desejo.

 

VER - A partir desta semana e até 15 de Março a Galeria Baginski (Rua Capitão Leitão 51-53, ao Beato) acolhe duas exposições bem diversas. De um lado está Cecília Costa, na sua quarta mostra individual na Galeria, desta vez constituída exclusivamente por fotografia, e que ilustra esta nota. São imagens trabalhadas em torno da luz, a luz que marca o instante em que foram feitas. São olhares intímos sobre momentos apenas aparentemente banais, sempre a deixar alguma coisa subentendida para além da imagem evidente - como aliás acontece também nos seus desenhos. Do outro lado da Baginski está "A Viagem da Sala 53", um projecto com curadoria de João Silvério onde se destaca a peça de Ana Vidigal, mais uma vez construída de frases banais mas certeiras e intencionais, elas próprias fragmentos de memórias, colocadas sobre documentações que evocam tempos reais e já passados, numa dimensão impositiva, tanto quanto permite a rotina de folhas seguidas de um livro de registos tiradas do seu contexto e forma.

 

OUVIR -  Leyla McCalla tem formação clássica como violoncelista e foi criada em Nova Iorque numa família de origem haitiana. Nesta sua estreia em disco a solo pegou em poemas de Langston Hughes, um dos mais influentes representantes de uma movimento dos anos 20 do século passado que ficou conhecido como Harlem Rennaissance - poeta, dramaturgo, novelista, colunista, Hughes desenvolveu nos seus poemas, feitos a pensar no jazz, um estilo lacónico e sincopado. E é a partir dos seus poemas que McCalla trabalhou e compôs, para os interpretar de forma inesperada. Como ela agora vive em Nova Orleães escolheu também cinco canções creoulas tradicionais que funcionam como contraponto às de Hughes. O resultado, muito graças ao estilo vocal de McCalla, desprendido, simples, mas quente e aveludado, é surpreendente - tal como os arranjos: ela dedilha o violoncelo, usa um pouco de banjo e de baixo e umas percussões ocasionais. Procurem o video de uma das melhores canções do disco, “Heart Of Gold” no YouTube e, se gostarem, encomendem o CD na Amazon, que por cá dificilmente o encontram. Uma curiosidade, o álbum chama-se “Vari-Colored Songs: a Tribute to Langston Hughes” e foi fruto de um processo de crowd funding, pela plataforma kickstarter, que angariou cerca de 20 mil dolares e que permitiu a Leyla concretizar o projecto.

 

PROVAR - Localizado no Cais do Sodré, onde durante anos funcionou o Bar do Rio, o novo Station combina um restaurante no piso térreo com um bar de música no primeiro andar - um palco para DJ’s, ou não fosse Tó Ricciardi um dos promotores desta casa. O restaurante, dirigido pela chef Leonor Manita baseia-se em sabores asiáticos, principalmente o tailandês e o vietnamita. Comecemos pela sala - confortável e espaçosa, o serviço é simpático e as empregadas de mesa usam uns originais aventais da G Star Raw. A lista de vinhos é comedida na variedade e honesta nos preços. Provou-se, de entrada, uma sopa tailandesa com camarão, citronela e coentros, que excedeu as expectativas, e umas espetadas de camarão grelhado com molho teriaki, que estavam um pouco secas. Nos pratos principais muito boa nota para o caril vermelho de gambas, vieiras e lulas, uma receita tailandesa, e também para uma phad thai, uma massa com frango e gambas que estava bem no ponto. Para rematar, o gelado de manjericão - que era o gelado do dia - ganhou aplauso. A banda sonora foi soul music em bom nível e a vista, magnífica, do Tejo esteve em pano de fundo. Era uma quinta feira à noite e o restaurante estava praticamente cheio. Aqui está um local onde voltarei com prazer. Reservas pelo telefone 210 116 546 ou o mailreservas@station-club.com .

 

DIXIT - “Teremos uma campanha populista como poucas vezes se viu em Portugal” - Francisco Louçã, na SIC Notícias, sobre as próximas eleições europeias.

 

GOSTO - Da vivacidade com que o novo ano começa em termos de novos projectos de informação, com o sector digital particularmente animado.

 

NÃO GOSTO - De praxes académicas, da mesma forma que nāo gosto de praxes em geral, e da mesma forma que nāo entendo como podem as universidades tolerar a humilhaçāo como uma rotina.

 

BACK TO BASICS - Os políticos deviam ler ficção científica em vez de cobóiadas, histórias de aventuras e romances policiais - Arthur C. Clarke

 

(Publicado n'A Esquina do Rio, caderno Weekend, Jornal de Negócios de 24 de Janeiro)

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publicado às 14:48

SOBRE A DIVERSÃO EUROPEIA

por falcao, em 10.01.14

KÊÊÊÊ ? - Este ano, lá para Maio, acontecem as eleições para o Parlamento Europeu, uma instituição à espera que se descubra para que serve e qual o contributo que proporciona aos europeus, para além de garantir uma sinecura àquele pessoal político que os partidos querem recompensar ou exilar para Bruxelas, dois verbos que no europês têm tendência a confundirem-se. Uma coisa que a crise em curso fez evidenciar é a inutilidade do Parlamento Europeu face às instâncias não eleitas, das troikas aos bancários centralistas como o nosso estimado Constâncio que, por cá, no Banco de Portugal, foi suficientemente míope para não ver o elefante em loja de porcelana que se desenhava no BPN. No Parlamento Europeu pouco se faz além de preparar conspirações, como a que o prezado Rui Tavares urdiu em relação ao Bloco. O resultado da inutilidade deste orgão flutuante entre Bruxelas e Estrasburgo e a alegada importância do seu simbolismo político (que costuma ser o argumento dos seus defensores) vão cair redondos por terra quando a maioria dos seus novos deputados fôr de uma direita pouco ortodoxa e completamente fora dos cânones dos poderes vigentes, como provavelmente se verá nos idos de Maio. Não é a primeira vez que a Europa faz de coveira de si própria, mas desta feita a coisa arrisca-se a ser mais ruidosa porque a menina Le Pen não é rapariga para fica descansadinha a um canto sem se fazer ouvir - sobretudo quando se sentir muito acompanhada e aconchegada. O nosso calendário é este: uma aflição em Maio nas eleições europeias, uma incógnita em Junho com a saída da troika e uma festa permanente em Julho com o Mundial de Futebol. Uma animação…

 

SEMANADA - Um dos efeitos colaterais da troika foi tornar a palavra “recalibrar” uma dos termos mais usadas no início de 2014; numa reunião com membros do Parlamento Europeu sobre a avaliação da intervenção da troika  José Sócrates recusou-se a assumir erros na definição das metas propostas no memorando que então assinou; na mesma reunião Sócrates excluiu Teixeira dos Santos da delegação de ministros do seu Governo que estiveram ligados ao pedido de resgate; em 2012 quase metade dos proprietários de lojas de rua em Lisboa foi vítima de furto, injúrias ou vandalismo; as compras com multibanco no Natal aumentaram 4,6%; em 2013 foram constituídas 35.296 empresas, o que representa um crescimento de 12,8% face a 2012; 2013 foi o primeiro ano desde 2009 em que se verificou uma descida do numero de insolvências face ao ano anterior; numa escola de Lisboa um erro informático deixou 30 crianças sem almoço; uma empregada de limpeza roubou 30 telemóveis nas instalações da Polícia Judiciária; os sindicatos dos trabalhadores do Município de Lisboa e da Administração Local fizeram um balanço positivo da greve à recolha de lixo e admitem novas formas de luta.

 

ARCO DA VELHA - Um relógio de contagem decrescente, que aponta os dias até à saída da troika, inaugurado por Paulo Portas, apareceu errado e dava aos credores mais um mês de permanência em Portugal.

 

FOLHEAR - Julian Barnes é um dos escritores de que gosto.  Escreveu recentemente “Os Níveis da Vida”, “Levels of Life” no original e, com ele,  ganhou o Man Booker Prize. O prémio é absolutamente merecido porque se trata de um dos mais apaixonantes livros de amor que li nos últimos anos e bons livros de amor, uma coisa rara,  ultrapassam qualquer prémio. Algumas pessoas podem pensar que é um livro sobre a morte, da mulher de Barnes, Pat Kavanagh, que foi a sua agente literária.  Mas não - esta é uma obra sobre o amor e o vazio, que é outro lado do amor. Não me lembro de ter lido livro tão duro e tão apaixonante como este nos últimos tempos. É curto, lê.se numa noite e fica toda a vida, marcado entre os devaneios sobre as aventuras  dos balões que atravessam o canal da Mancha e as fotografias de Nadar que preparam o terreno para esta coisa tão simples - e tão rara - que é gostar perdidamente de alguém, gostar ao ponto de todos os minutos serem uma aventura vivida.

 

VER - Estava para escrever sobre umas exposições que vão abrir, depois sobre o Salão de Inverno d’A Pequena Galeria (fotografia, Avenida 24 de Julho 4C), mas no fim desisti porque não encontrei nada que me seduzisse e porque gosto pouco das fotografias recentes de Augusto Alves da Silva, que aparece a abrir o respectivo site. Como hoje em dia gosto de ver exposições virtuais e digitais (deve ser efeito da crise…) fico-me assim  por um site e uma aplicação para iPhone intitulada Artsy (aqui mostrada em imagem), que nos dá acesso a galerias de todo o mundo e a obras que lá estão expostas. Podemos escolher locais, géneros,  e também percorrer as sugestões apresentadas, ver uma selecção de obras, da fotografia à escultura, que estão á venda e ter uma ideia do seu preço. É como ter uma galeria no bolso ou no ecrã do computador. Por estes dias o patrocinador da aplicação é o museu de Arte de Singapura e a sua Bienal. Percorrendo a aplicação vemos obras que estão à venda em galerias em todo o mundo e podemos ter uma ideia melhor do que se vai passando por esse mundo fora.

 

OUVIR - Não gostava geralmente de discos pop portugueses cantados em inglês. Pareciam-me uma incongruência, mas estou disposto a achar que nesta segunda década deste século é um bocado absurdo ter os pruridos dos anos 80 do século passado. Já tinha gostado do disco anterior de uma banda portuguesa chamada You Can’t Win Charlie Brown, mas o seu novo trabalho, “Diffraction”, supera as minhas expectativas e reconcilia-me com o pop português. Nem sei se a banda acha graça a que eu lhe  chame pop - mas na minha cabeça, e com muito elogio incorporado, é isso mesmo que eles são - fazem canções que podem ser bem populares, bem construídas sem serem foleiras, atraentes sem serem corriqueiras. Ouve-se “Post Summer Silence” e apetece sentir o sabor dos tempos que vivemos. Ouve-se “Heartt” e sente-se a pele. Ouve-se “Under” e sente-se o corpo. Gosto desta banda, gosto deste disco. Vão tocar proximamente no CCB. Estejam atentos

 

PROVAR - Isto hoje é uma receita, simples, aliás. Foi executada horas antes destas páginas ficarem escritas. Começo por explicar que gosto de massas, sobretudo de penne, aqueles pequenos cilindros que absorvem bem paladares. Estes eram da marca Barilla e, na embalagem, requerem 11 minutos de cozedura que eu geralmente reduzo a 9. Foram cozidos em água com azeite, sal e piri piri. A água tinha antes servido para cozinhar pequenos camarões congelados, que foram extraídos antes de a massa entrar na água já em ebulição. Ao mesmo tempo que uma tigela de penne, atirei para  a água meia dúzia de tomates cherry maduros cortados ao meio. No entretanto abri e escorri uma lata dos magníficos mexilhões fumados da marca Tricana. Coloquei esses mexilhões e  os camarões num escorredor, para onde, no fim, deixei cair a massa e a sua água. Sem deixar escorrer demais voltei a colocar tudo na panela, ainda quente, remexendo com um pouco de bom azeite. Servi a seguir e acompanhei com um branco do Dão, que já me tinha feito companhia na preparação. Regalei-me. E no fim comi duas belas e nacionais clementinas. Alea jacta est, como diria um romano. Ao café ainda trinquei uma raiva - o lusitano biscoito, escusam de ficar com maus pensamentos.



DIXIT - “No primeiro semestre Passos Coelho encontrará um sapo muito  feio a quem dará um beijo de amor. E o anfíbio transformar-se-à num lindo superavit da balança comercial” - Ricardo Araújo Pereira, na Visão.

 

GOSTO - Da proposta do sociólogo Pedro Magalhães que preconiza um sistema já existente em alguns países,  em que os eleitores, quando escolhem o "seu" partido, podem ordenar os candidatos a deputados pela sua preferência e não pela ordem imposta pelas listas partidárias.

 

NÃO GOSTO - Que o antigo Cinema Londres passe a ser uma loja de roupas e de outras importações da China.

 

BACK TO BASICS - Há muito a reter daquele conhecimento que é aparentemente inútil - Bertrand Russell

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publicado às 14:00

COSTISMO - Nos últimos dias de 2013 Lisboa assistiu à demonstração do que é o Costismo: mais uma vez medidas tomadas sem acautelar como podem ser cumpridas - no caso a transferência de obrigações da Câmara Municipal para as Juntas de Freguesia. Não houve cuidado na preparação, não houve cuidado na negociação com as partes interessadas, não houve cuidado na criação de mecanismos sustentáveis que permitissem uma mudança de competências sem atribulações. António Costa é o exemplo do improviso - na decisão e na execução. E, depois, no laxismo na resoluçāo dos problemas criados. O estado a que Lisboa chegou nestes dias deixa antever o que poderia acontecer ao país se Costa assumir outras responsabilidades. Para os lisboetas Costa é sinónimo de caos no trânsito, de lixo nas ruas, da "política do quero, posso e mando"; é também quem deixou as ruas da cidade cheias de folhas e detritos que entupiram as sargetas, perpetetuamente por limpar, e provocaram inundações às primeiras chuvas. É quem piorou o trânsito na Avenida da Liberdade, onde agora há ainda mais engarrafamentos nos acessos das laterais, mais engarrafamentos nas faixas centrais, mais carros estacionados em segunda fila - tudo isto com um custo de centenas de milhar de euros para obras que apenas satisfizeram as vaidades do poder autárquico e nos transformaram a todos em cobaias. Cada vez que ouço que Costa é o putativo protagonista escolhido pelo PS para o próximo ciclo de poder no país fico a temer o que se passará: se ele não é capaz de governar uma cidade, o que sucederá se lhe cabe o país na rifa das eleições? É certo que discutir política não é discutir pessoas - mas as políticas avaliam-se com as acçōes feitas e as acções políticas de António Costa fazem um mau currículo de poder.

 

SEMANADA - No início de 2014 a despesa pública continua excessiva e a reforma do Estado continua por fazer; os preços da electricidade e do gás subiram dia 1 de Janeiro; o Presidente da República promulgou o orçamento de Estado e fez mais uma intervençāo vazia; o orçamento de Estado deixou de destinar verbas à RTP;  para compensar, o Ministro Maduro transferiu despesa do Estado para os cidadãos, aumentando a contribuição obrigatória para a RTP que todos pagam na fatura da electricidade; só restam cinco dos 16 secretários de estado independentes do primeiro Governo de Passos Coelho; registaram-se nove alterações na composição do Governo desde Junho de 2011; cinco secretarias de estado já mudaram três vezes de detentor; em 2013 realizaram-se 81 greves nas empresas de transportes e comunicações; o Metropolitano de Lisboa fez 13 paralisações e a CP realizou 12;  em dez anos a Beira Interior perdeu dez mil habtitantes; 170 idosos foram dados como desaparecidos nos últimos 12 meses;  em 2013 verificaram-se 67 ataques a caixas multibanco; em três meses verificaram-se 29 roubos a carrinhas de transporte de tabaco; o tribunal da relação do Porto recusou classificar de jogo ilegal de fortuna e azar os casinos onde se joga mahjong; Portugal já atribuíu 471 vistos “gold”, dos quais 295 a chineses, cerca de três quartos do total; já no ano passado um Tribunal de Guimarães havia decidido que a “lerpa” não é um jogo de fortuna e azar.

 

ARCO DA VELHA - Graças a malabarismos estatísticos por cada euro a menos no défice a dívida pública sobe 1,1 euros porque o Governo e a troika optaram por meter na díviuda o que não querem mostrar no défice.

 

FOLHEAR - Neste começo de ano destaco uma frase impressa, em jeito de manifesto, na primeira página da edição especial de inverno da Monocle, em formato jornal: “A Monocle acredita no poder da imprensa impressa e do papel que se folheia”. Por muito que goste do digital e o use, sei que encontro refúgio seguro no papel quando quero ler alguma coisa mais profunda - algum dossier de investigação, um portfolio de fotografias, uma reportagem. A internet trouxe-nos a informação imediata, mas a reflexão e a descoberta ainda nos chegam pelo papel - e é no equilíbrio entre as duas coisas que reside o futuro da comunicação escrita. Por isso as grandes marcas da informação - as que ganharam prestígio e reputação, as que apostam na qualidade e diversidade dos conteúdos, são as que estão melhor posicionadas para conseguirem estabelecer um bom modelo de negócio nos anos mais próximos. A importância crescente dos dispositivos móveis no consumo imediato de informação, provoca o aumento de utilização de aplicações agregadoras de conteúdos como o Zte ou o Pulse - que vivem da citação de conteúdos de marcas informativas de prestígio. Hoje lê-se mais que se lia há uns anos - e essa é uma realidade. Mas só se lê, aquilo que tiver interesse e qualidade. Sem bons conteúdos o ciclo inverte-se. É a história mais velha do mundo, a seguir à outra que todos conhecemos.

 

VER - Estes são os últimos dias, até 5 de Janeiro, para ver no Museu Berardo uma exposição que reúne, sob o mote das relações entre a fotografia e o arquivo nas práticas artísticas contemporâneas, o trabalho de cerca de vinte artistas, de várias épocas e localizações geográficas, como Helena Almeida, Daniel Blaufuks, Christian Boltanski, Marcel Duchamp, Tracy Moffatt, Umrao Singh Sher-Gil, Hiroshi Sugimoto, Vivan Sundaram, Jemima Stehli, Robert Wilson ou Francesca Woodman. Se lá fôr aproveite para  visitar a  exposição “O Consumo Feliz -  Publicidade e sociedade no século XX”, que apresenta uma seleção de mais de 350 obras da Coleção Berardo de Arte Publicitária, que no total reúne um conjunto de cerca de 1500 itens. Este acervo reúne exclusivamente originais de publicidade pintados à mão, As duas exposições, bem diferentes entre si, são um belo pretexto para passar pela área de exposições do Centro Cultural de Belém.

 

OUVIR -  Acho sempre curioso quando um disco de que gosto especialmente falha na lista das edições do ano do venerando “Atual” do Expresso. Acho isso ainda mais interessante quando o disco em causa provém de um país de cuja música se fala pouco - no caso a Dinamarca. E ainda acho a coisa mais engraçada quando o disco não foi alvo de promoção especial e portanto os críticos não o recebram na caixa de correio - tiveram que o comprar, em formato físico, em digital ou então ouvi-lo em streaming. O pretexto para esta conversa é “Aventine”, da dinamarquesa Agnes Obel - cuja educação clássica como pianista foge aos cânones da pop contemporânea. Neste seu segundo disco, onde é maioritariamente acompanhada por um violoncelo, esporadicamante por violino, guitarra e harpa, retoma a criação de ambientes sonoros inesperados, pouco convencionais e onde a inquietação e a procura andam de mãos dadas - neste caso num cruzamento de rara

sensibilidade entre a palavra, a forma de cantar e os arranjos musicais. CD Play It Again Sam, na Amazon.

 

PROVAR - Se gostam da tradição culinária japonesa devem conhecer o Tomo, em Algés. Digo de propósito tradição culinária porque no Tomo a oferta não se reduz ao sushi, ao sashimi ou à tempura - tudo aliás excelente. Ali há tembém pratos cozinhados, na tradição de Quioto, de acordo com o que está disponível no dia. O menu kaiseki reflecte isso mesmo e deve ser encomendado com antecedência. Atrás do balcão está Tomoaki Kanazawa (na imagem) que, há década e meia em Portugal, decidiu há uns anos arriscar no seu próprio restaurante, depois de ter sido chef na Embaixada do Japão em Lisboa e mais tarde ter trabalhado no Aya original, da Rua das Trinas. O restaurante é despretencioso, não alinha em modas de sushi-fusão, é austero na decoração e exuberante na qualidade. Para os apreciadores da comida japonesa, o Tomo é o que resta de mais fiel às tradições deixadas por mestre Yoshitaki, o fundador do Aya. É na simplicidade das coisas que se vê e sente a diferença - é o que se passa no Tomo onde os caldos, a sopa e o arroz são diferentes do que geralmente se encontra por aí - na consistência, no sabor, na intensidade, na subtileza. Se tiver dúvidas face à lista peça conselho a Saif, o chefe de sala, de origem paquistanesa, que lhe dará sugestões. No fim aceite o que ele recomendar de sobremesa - é que o Tomo é o único restaurante japonês que se pode gabar de ter uma especialista em doçaria tradicional japonesa, Kayo Iwasaki,  O Restaurante Tomo fica na Avenida dos Bombeiros Voluntários 44, em Algés, o telefone é o 213 010  705 e encerra aos Domingos.

 

DIXIT - Citação elegante do ano:  “Não aceito lições de quem nunca fez a ponta de um corno” - Carlos Silva, secretário geral da UGT, sobre Pedro Passos Coelho.

 

GOSTO - As IPSS (Instituições Privadas de Solideriedade Social) criaram 1400 novos equipamentos sociais, incluindo creches e lares de idosos, entre 2000 e 2012.

 

NÃO GOSTO - Quase metade dos desempregados de longa duração irão ficar sem trabalho para o resto da vida

 

BACK TO BASICS - A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo - Alan Kay

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