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ABUSO - Em 25 de Abril de 1974 o fotojornalista Alfredo Cunha, então no início da sua carreira, fez uma imagem do capitão Salgueiro Maia que ficou para a História, e que se tornou numa das suas fotografias mais conhecidas. Este ano a Juventude Popular pegou na imagem, alterou o seu enquadramento, manipulou-a digitalmente e utilizou-a num cartaz - fez tudo isto sem pedir autorização ao autor da fotografia. Manda o bom senso e a ética, para além da Lei,  que não se utilizem em propaganda e em publicidade fotografias, textos ou ilustrações sem a expressa autorização dos seus autores. A Juventude Popular achou por bem ignorar o Direito de Autor e fez com a imagem de Alfredo Cunha aquilo que quis. Alfredo Cunha anunciou que irá processar a organização por utilização indevida da sua obra. Francisco Rodrigues dos Santos, presidente da Juventude Popular, em resposta, manifestou-se revoltado com a posição do autor e afirmou que “43 anos mais tarde parece que nos querem subtrair aquilo que naquele dia nos deram”,  sugerindo que aquela fotografia “pertence ao património imaterial do país”. Insinua ainda que na base de decisão de Alfredo Cunha estarão motivações políticas. Ora acontece que a propaganda política é a publicidade dos partidos e é lamentável que um dirigente partidário não saiba que os autores têm o direito de recusar que as suas obras sejam associadas a organizações políticas nas quais não se revêem. Estamos pois perante o caso de um dirigente político que defende o abuso do direito de autor - o que neste universo contemporâneo é uma questão na ordem do dia em qualquer área criativa. Pior ainda é que os dirigentes mais velhos e experientes do seu partido não venham explicar ao senhor que a política se faz com respeito pelos outros e não abusando deles. A começar por não violentar a consciência e as opções políticas de quem quer que seja.  

 

SEMANADA - Em 2015 os acidentes em contexto laboral provocaram mais de dois milhões de dias de trabalho perdidos; mais de 10% dos alunos da universidade de Coimbra são brasileiros; já há mais sul-coreanos a pernoitar em Fátima do que brasileiros; em 2016 foram elaborados 1.112 autos a proprietários de cães de raças potencialmente perigosas; segundo a GNR cães considerados perigosos fizeram pelo menos 355 vítimas em 15 meses; em média a ASAE multa 2700 estabelecimentos de restauração por ano e encerra um restaurante por dia; a quantidade de peixe transacionada em lota diminuíu 18% desde 2010 e o preço médio do pescado por quilo subiu 31%; um estudo britânico indica que as crianças que usam tablets e smartphones dormem menos e pior; os dados do Netpanel da Marktest mostram um aumento de 10% no número de horas de navegação em sites de informação durante o mês de Março; um estudo do Eurostat indica que 49% dos portugueses usam a internet para fazer um auto-diagnóstico médico a partir de pesquisas no Google; 90% dos maiores de 50 anos não estão vacinados contra a pneumonia; Portugal tem a terceira maior dívida da União Europeia em percentagem do PIB, logo atrás da Grécia e Itália; Portugal tem a quarta maior taxa de abandono escolar na Europa, a seguir a Malta, Espanha e Roménia.

 

ARCO DA VELHA - Enquanto o Comissário Europeu da Saúde considera que algumas vacinas, como a do sarampo, devem ser obrigatórias, o nosso Ministro da Saúde descartou a possibilidade de de o governo propor a obrigatoriedade da vacinação; o Director-Geral da Saúde, Francisco George, condenou a “moda bizarra” de não vacinar as crianças.

 

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FOLHEAR - São quase 700 páginas a relatar o grande desafio do homem contra a natureza, personificada na grande Baleia Branca, a Moby Dick. É uma escrita que parece às vezes uma reportagem e noutros momentos se revela uma sucessão de recomendações, pensamentos, opiniões.  “Moby Dick” é um dos grandes livros da história da literatura e, no entanto, em vida do autor, Herman Melville, vendeu apenas cerca de 3000 exemplares. Melville navegou em barcos de carga e em baleeiros no Pacífico e no meio das suas viagens foi capturado por canibais na Polinésia, tendo conseguido fugir. Em tudo o que viveu encontrou material para escrever. Fez da vida que viu, da vida que ouviu e da que imaginou a matéria prima das suas histórias. É de William Faulkner esta frase: “ penso que o livro sobre o qual poderia dizer incondicionalmente quem me dera ter escrito isto é o Moby Dick”. Trata-se da história de um capitão de Marinha enlouquecido que, depois de ter sido mutilado por uma baleia, procura vingar-se. O capitão chama-se Ahab e a baleia é Moby Dick, o terror dos baleeiros. No interior do barco de Ahab, o Pequod, gera-se um micro-cosmos onde o ressentimento e o ódio alimentam o confronto e o conflito. “Moby Dick” é o relato do desafio entre o homem e a natureza e das rivalidades e disputas entre os homens. Foi agora editado pela Guerra & Paz na sua colecção de clássicos.

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VER - Ana Vidigal gosta de mostrar as suas memórias - umas vezes pessoais, familiares, outras vezes memórias de tempos vividos, às vezes mapas que desenham o imperfeito mundo em que vivemos. “Eu encontro coisas e guardo-as. Junto-as. Penso que não as perco” - escreve Ana Vidigal a propósito desta sua nova exposição, a quarta individual que faz na Galeria Baginski. Assumidamente, como a artista escreve, “este é um tempo político” e é isso mesmo que estas imagens da memória nos mostram, evocando geografias e momentos. Na fotografia aqui reproduzida Vidigal está junto a “Há manhãs que cantam” - o título da obra em fundo e que remete para a China da Revolução Cultural. Outras, das oito obras aqui expostas, têm títulos como”Morrer na praia”, “Só a a poesia nos pode salvar. Há lugar para mim?(Bambi a fugir de lá)” ou “o fim está no meio”. A exposição está na Baginski até 9 de Junho (Rua Capitão Leitão 51, ao Beato). Mudando de registo e passando para a fotografia, a Barbado Gallery expõe obras recentes do fotógrafo brasileiro Claudio Erdinger que, depois de uma carrreira de duas décadas como fotojornalista nos Estados Unidos, regressou a S. Paulo, de onde trabalha na sua visão das urbes e das alterações de paisagem. A Barbado fica na Rua Ferreira Borges 109. Finalmente, na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27), o artista galego Misha Bies Golas expõe até 11 de Maio “Recordo”, uma co-produção com o DIDAC, uma instituição de Santiago de Compostela, em que o artista mostra como a reutilização de materiais pode ser matéria prima para a criatividade.

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OUVIR -  Ralph Towner é um dos guitarristas de jazz que mais aprecio e discos exclusivamente de guitarra fazem parte das minhas preferências. “My Foolish Heart”, agora editado, é o primeiro disco de Towner a solo desde “Time Line”, de 2006, e neste novo registo ele passa pelos seus territórios preferidos que evocam influências da música clássica, da folk, da música espanhola para guitarra e, claro, dos standards de jazz, como o nome do álbum, “My Foolish Heart” indica. O original de “My Foolish Heart”, uma composição de Victor Young e Ned Washington, surgiu na banda sonora do filme com o mesmo nome, em 1949. Mas este “My Foolish Heart” de Ralph Towner é bem diferente do original e, no caso deste seu novo álbum, é mesmo o único tema que não foi composto por ele - e o guitarrista já afirmou que começou a ouvir esta canção de outra maneira quando ouviu a versão que dela fez Bill Evans, ao piano. No disco Towner toca guitarra de seis e 12 cordas e alguns dos seus temas que incluíu neste álbum são novas versões de composições que fez no início da carreira, como “Shard” e “Rewind”. Um dos novos temas é uma homenagem ao seu amigo Paul Bley, desaparecido há cerca de um ano, duas semanas antes deste disco ter sido gravado - “Blue As In Bley”. Editado pela ECM, “My Foolish Heart” de Ralph Towner foi publicado em Fevereiro deste ano. Como outras edições da ECM não está disponível no Spotify.

 

PROVAR - Mário Ribeiro e Francisco Bessone largaram o Sushic de Almada em meados do ano passado e instalaram-se nas Avenidas Novas, no Nómada. Reformularam o espaço, criaram uma esplanada coberta e fizeram um menu que mostra a forma como encaram a cozinha japonesa, incorporando influências ocidentais e propondo também pratos de gastronomia portuguesa. Em primeiro lugar deve dizer-se que um dos segredos do local é a qualidade dos ingredientes utilizados, a forma como são combinados e, finalmente, o serviço exemplar. Já agora, aqui encontra-se uma garrafeira com uma diversidade e qualidade que é raro encontrar em restaurantes de inspiração japonesa, e a preços decentes. O nome escolhido, Nómada, é afinal o descritivo de uma cozinha que derruba fronteiras e não vive de preconceitos, aberta a experiências e combinações inesperadas.  Nas entradas destaco  o Asian Ebi, em que uma base de arroz envolto em sésamo torrado é temperado com maionese japonesa e finalizado com tempura de camarão com caril. Também merecem destaque as gyosas de legumes e frango, os cones crocantes recheados de atum e cebola em vinho do Porto e sobretudo as vieiras seladas em óleo de sésamo com puré de castanhas, gengibre e manga. Outra belíssima experiência foi o carpaccio de lírio dos Açores cortado em tiras finas regado com molho ponzu e azeite de alho, acompanhado de chips de raiz de aipo. Tenho ouvido elogiar o vongole - pampo cortado em tiras finas com camarão, mexilhão e berbigão à bolhão pato japonês. Ainda no domínio oriental há uma boa oferta de combinados de sushi e sashimi. Se alguém quiser algo menos oriental pode escolher pratos tradicionais que vão do prego de atum com chips de batata doce a um mil folhas de salmão com legumes em manteiga de alho ou uma perna de pato confitada com puré de castanhas e legumes. A escolha de vinho foi um branco, a copo, da Quinta do Penedo, que se revelou muito apropriado. Nos doces destaque para o gelado sobre crumble de maçã e o fofo de chá verde com gelado de melão e gengibre. Nómada, Avenida Visconde de Valmor 40A, telefone  917 779 737. É melhor marcar.

 

DIXIT -  “Não tenho vontade nenhuma de sair do Porto” - Rui Moreira

 

GOSTO - De todo o processo de pesquisa e criativo que o realizador João Canijo e as actrizes seguiram para fazer “Fátima”, um filme fora de série.

 

NÃO GOSTO - Do futebol como pretexto para violência entre adeptos, instigada por dirigentes das claques que se tornam figuras de prôa nas eleições dos clubes e que são toleradas pelos dirigentes.

 

BACK TO BASICS - “Se o objectivo é falar verdade, deixem as preocupações sobre a elegância ao alfaiate” - Albert Einstein.

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publicado às 13:30

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ALCÁCER-QUIBIR  - Em 1578 D.Sebastião foi derrotado, em Marrocos, na Batalha de Alcácer-Quibir, terminando aí o período da expansão portuguesa iniciado com a vitória na Batalha de Aljubarrota. A Dinastia de Avis findou, Portugal perdeu a independência durante 60 anos. Quando olho para o que vivemos agora é impossível não encontrar paralelos. Depois das desgraças ocorridas na política, nas empresas e no sistema financeiro desde o início do século temo chegar à conclusão que estamos perante um novo Alcácer-Quibir, onde os exércitos dos xeques marroquinos foram substituídos pela corrupção e as manigâncias que venceram e nos afundaram. Da mesma forma que aconteceu há mais de quatro séculos, estamos a ser transformados numa mera região de Espanha, agora pelas empresas internacionais, pela Banca europeia e pelo conluio urdido em Bruxelas com perseverança e afinco. Corremos o risco de ficar irrelevantes, o início do século marcou novo fim da ilusão e regressámos à geografia do pequeno rectângulo, que agora estamos a despachar em retalhos de paisagem e de sol - devemos ser dos poucos a desejar que o aquecimento global nos continue a dar calor a rodos. Os recursos naturais da paisagem são o nosso nicho de negócio e vendemos o território a patacas, afastando os locais e dando a primazia  aos forasteiros. Tratamos o presente como um aviário de galinhas poedeiras de ovos de ouro, que vamos servindo de cabidela sem cuidar do dia de amanhã.

 

SEMANADA - Segundo a Direcção Geral da Saúde cerca de 95 mil jovens não estão vacinados contra o sarampo; na sequência da exoneração do responsável pelo departamento que investiga acidentes aéreos (por ter criticado a falta de meios de que dispunha), o Governo nomeou para esse lugar um especialista em incidentes ferroviários; há apenas dois técnicos especialistas em aeronaves nesse departamento, mais um do que em comboios; os portugueses descarregam uma média de 18 aplicações por mês para os seus smartphones e tablets; 78,2% dos portugueses consideram que os dados mais insubstituíveis que têm nos seus telemóveis são as fotografias, elas são aquilo que mais temem perder; segundo a Marktest, em Março, cerca de metade dos acessos aos sites mais relevantes são feitos através de dispositivos móveis; no que toca a consumo de vinho Portugal está no topo da lista, com um consumo de 54 litros por pessoa e por ano, seguindo-se França (51,8 litros), Itália (41,5 litros) Suécia (41 litros), Suíça (40,3 litros), Bélgica e Argentina (31,6 litros em cada país), Alemanha (29,3 litros) e Austrália (27 litros); há 500 mil analfabetos em Portugal; o número de patentes de invenções registadas anualmente por portugueses passou de 200 para mais de mil no espaço de uma década; 12% da dívida directa do Estado está nas mãos das famílias que apostaram nos Certificados do Tesouro Poupança Mais; dois terços das pessoas que mudaram de sexo no Registo Civil em 2016 tinham entre 18 e 29 anos; Mário Nogueira voltou a organizar uma manifestação de rua dos professores; o viaduto de Alcântara continua encerrado ao trânsito e Manuel Salgado continua à procura do camião fantasma.

 

ARCO DA VELHA - O Metropolitano de Lisboa retirou  parte de um painel de azulejos da pintora Gracinda Candeias na estação do Martim Moniz,sem comunicação prévia à autora nem a sua autorização, e a administração da empresa afirma também desconhecer a situação.

 

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FOLHEAR - Desde pequeno que me dedico a fazer colecções. Já passei por várias, de selos a filmes de James Bond, borboletas (ai o PAN…) ou construções de Legos. Ao fim destes anos há duas que permanecem galopantes: discos e livros. A coisa causa-me alguns problemas de espaço mas há um apelo irresistível quando uma editora decide lançar uma nova colecção de livros, ainda por cima com um toque de novidade. A questão da novidade para mim não se coloca tanto nos textos mas na forma como eles são passados a papel. O caso desta semana refere-se a um obra clássica - “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, a versão possível de um Indiana Jones de 1719, que foi a sua data de edição original. A ideia de Manuel S. Fonseca e da sua editora  “Guerra & Paz nesta nova colecção é adaptar, em versões resumidas e de escrita contemporânea, os grandes romances clássicos, versões feitas para um público dos 9 aos 14 anos. Muito acertadamente a colecção intitula-se “Os Livros Estão Loucos” e, para além de “Robinson Crusoé”, irá ainda atrever-se este ano no “Romeu e Julieta” de Shakespeare, na “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll e no aventureiro “Os Três Mosqueteiros” de Alexandre Dumas. Num livro o aspecto gráfico é determinante e Ilídio Vasco faz mais uma vez maravilhas entre os tipos utilizados, a intromissão de destaques ou de ilustrações. A adaptação do texto vive de um intercalado diálogo imaginário entre dois leitores, irmãos, que se deslumbram com o evoluir da história e das aventuras. Delicioso. E, parece-me, eficaz para conseguir que haja mais gente a ler estes clássicos. Cá para mim o tal plano nacional de leitura devia ter disto.

 

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VER - Durante nove anos o fotojornalista português João Pina (na imagem) trabalhou em “Operação Condor”, o ensaio fotográfico e correspondente exposição que desde 20 de Abril e até 18 de Julho é mostrado pela primeira vez em Portugal, no Torreão Poente do Terreiro do Paço. Inicialmente mostrada em São Paulo, em 2014, esta exposição sobre a repressão nas ditaduras sul-americanas foi financiada por um processo de crowdfunding que recebeu contribuições de pessoas de 20 países diferentes. João Pina, que continua a dividir o seu tempo entre a América do Sul e Portugal, venceu este ano o prémio Estação Imagem, com a reportagem “Rio de Janeiro – Preço pelos Eventos Desportivos”, através da qual tenta mostrar as consequências que os Jogos Olímpicos de 2016 e o Mundial de Futebol de 2014 tiveram naquela cidade. Publicado em jornais e revistas de referência por todo o mundo, João Pina é um dos nomes incontornáveis da fotografia portuguesa contemporânea.

 

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OUVIR -  Em 1963 Astrud Gilberto foi para os Estados Unidos com João Gilberto e tornou-se conhecida no mundo do jazz com o agora clássico álbum Getz/Gilberto, onde cantou pela primeira vez canções do seu marido com arranjos de Tom Jobim. A sua versão de “The Girl From Ipanema” tornou-se num clássico instantâneo e criou o bossa-jazz. Avancemos agora duas décadas: Eliane Elias, que tinha três anos quando Astrud foi para os Estados Unidos, decidiu viver o sonho americano e lá gravou um disco menor em 1983. Mas não desistiu. Ao longo do tempo foi percebendo que ser brasileira era uma vantagem e, na companhia dos músicos norte-americanos com quem conviveu e trabalhou, foi evoluindo até “Made In Brazil”, o disco que ganhou o Grammy de Latin Jazz de 2016. O novo “Dance Of Time”, agora editado, prossegue esse trilho, misturando temas clássicos brasileiros com composições inéditas e standards de jazz. Em abono da verdade deve dizer-se que Eliane Elias tem a seu favor a forma como toca piano, e que é uma das suas grandes mais valias. É uma canção de João Gilberto, “O Pato”, que abre de forma irresistível este disco, mas é justo elogiar “Little Paradise”, um brilhante original de Eliane, assim como a sua versão, inesperada, de “Speak Low”, um tema de Kurt Weil. O disco termina com um dueto com Toquinho em “Pra Não Chorar/ Not To Cry”, um tema que ele compôs para Eliane, tinha ela 18 aninhos. E, finalmente, também gosto do “Na Batucada da Vida”, de Ary Barroso e Luiz Peixoto, uma bela canção de fim de noite. CD Concord, já disponível em Portugal.

 

PROVAR - A focaccia é uma especialidade italiana, um pão achatado que ao ir ao forno é salpicado com rosmaninho ou alecrim, sal grosso e azeite. A farinha usada na sua confecção tem bastante gluten e dá-lhe uma consistência forte. A focaccia pode ser servida para acompanhar uma refeição ou para aperitivos, com azeite, carnes frias ou legumes salteados. Finalmente também pode servir para fazer uma bela sanduíche com um sabor muito próprio e uma textura rica. Não é muito fácil encontrar uma boa focaccia em Lisboa e um restaurante de um food corner de um centro comercial parece o mais improvável local para isso acontecer. E no entanto a focaccia servida no Focca, do Centro Comercial Picoas Plaza, é uma das melhores que ultimamente me foi dado provar. A casa usa a receita tradicional, faz as suas fornadas diárias e propõe uma série de sanduíches de focaccia. Numa visita recente provei uma de mortadela trufada, com cebola confitada, alface e molho de mostarda. Ao lado um cliente deliciava-se com uma de carne de vitela assada com mozarella e outro ainda com uma de presunto de parma, figo e mel. Na lista existe também uma de pernil assado e outra de legumes grelhados, marinados em ervas aromáticas. Eu achei a minha de mortadela trufada uma delícia, que acompanhei com um copo de vinho tinto Gláudio. As sanduiches de focaccia oscilam entre os 5,30€ e os 6.10€. Cabe dizer que o serviço é muito simpático, que existem várias saladas e ao fim da tarde o local proporciona uns petiscos e aperitivos com pedaços de focaccia, queijo, enchidos e várias propostas de vinho a copo. O lema da casa é “una buona focaccia è como un abbracio forte”. Mais informações na página da Focca no Facebook ou em www.focca.pt . Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro 65, 912 756 414.

 

DIXIT -  “Ninguém pode fingir que Portugal é um oásis sem corrupção, sem gestão danosa, sem tráfico de influências e sem grande criminalidade de colarinho branco” - Nuno Garoupa, num artigo intitulado “Falar de corrupção em Portugal é cada vez mais complicado”

 

GOSTO - A Cinemateca Júnior celebra dez anos de atividade, a funcionar no Palácio Foz, com em ateliers, oficinas de cinema e imagem em movimento, e, claro, sessões de cinema.

 

NÃO GOSTO - Do desprezo pelas recomendações de vacinação a crianças.

 

BACK TO BASICS - "Numa época de mentiras generalizadas, dizer a verdade é um acto revolucionário." - George Orwell

 

 






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publicado às 16:28

 

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CARNIDE - No meio das celebrações nacionais dos êxitos da geringonça, em Lisboa, Fernando Medina resolveu eleger como seu inimigo principal uma junta de freguesia que é um dos maiores redutos eleitorais do PCP, Carnide. O episódio dos parquímetros não é um fait-divers, é uma demonstração de poder. António Costa não hostilizaria os seus aliados no Governo, mas Medina teve prazer em humilhar os eleitores de Carnide, mostrando que não se verga. Vai ser curioso ver o reflexo que esta utilização da EMEL tem no desenrolar da campanha autárquica. Eu aposto que vai deixar algumas marcas - até porque a maioria dos lisboetas odeiam a EMEL, a forma como os seus agentes funcionam e a prepotência que a própria empresa simboliza. A EMEL a tratar os lisboetas parece a United Airlines a tratar os seus passageiros. O episódio de Carnide é um sinal da maneira que Medina tem de estar na política e que Lisboa tem conhecido: “quero, posso e mando, faço o que me apetece”. Medina julga-se auto-suficiente e à sua volta alimenta clones de si próprio, É um presidente em regime de substituição que adia anunciar-se candidato para poder fazer campanha todos os dias no exercício das funções. Tenho, para Medina, uma sugestão: proponho que anuncie a sua candidatura à Câmara no jardim de Carnide, junto aos parquímetros que ali impôs - seria um curioso momento, a photo-opportunity ideal para dar sal à desenxabida campanha que se avizinha

 

SEMANADA - A dívida dos hospitais públicos às empresas farmacêuticas cresce ao ritmo de um milhão de euros por dia; 400 mil portugueses entre os 18 e 65 anos sofrem de depressão; a venda de antidepressivos cresceu 32% em cinco anos; mais de 44 mil doentes foram mais de quatro vezes às urgências hospitalares no espaço de um ano; o PS arrisca processos crime por irregularidades nas primárias do partido e António Costa e António José Seguro podem ser constituídos arguidos por financiamento proibido; o propagandeado défice mais pequeno da democracia, 2%, esconde a maior dívida da democracia, de 130% do PIB, que é também a segunda maior da União Europeia e ainda a segunda que mais cresceu na Europa em 2016;  em Fevereiro, face ao mesmo mês do ano passado,  as exportações aumentaram 9% e as importações aumentaram 8,9%, enquanto o défice da balança comercial agravou para 746 milhões de euros; segundo a OCDE a atividade económica em Portugal arrisca uma inversão negativa nos próximos 6 a 9 meses; na resolução das queixas dos consumidores Portugal tem uma demora de cerca de dois anos que não tem par em nenhum outro país europeu; o programa de televisão mais visto na semana passada é o “Pesadelo na Cozinha”, do chef Ljubomir Stanisic, um jugoslavo que veio há anos para Portugal e criou alguns restaurantes de sucesso; segundo o estudo TGI da Marktest em 2016 existiam 4,5 milhões de pessoas que declaravam ter animais de estimação em casa

 

ARCO DA VELHA - Domingo passado a RTP2 emitiu um bom documentário sobre a arte Indonésia, com o título original "For Arts Sake", e que foi traduzido por "A Arte do Saké".

 

 

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FOLHEAR - Fèlix Cucurull, romancista, poeta, ensaísta e tradutor catalão viveu em Portugal, com uma bolsa da Fundação Gulbenkian, entre 1963 e 1965, tendo colaborado em jornais como o Diário de Notícias e o Diário de Lisboa. Traduziu também diversos autores portugueses para catalão e foi sempre um embaixador e grande defensor da cultura da sua Catalunha. Em 1967, já em Barcelona,  editou uma série de ensaios que escreveu sobre a relação entre Portugal e a Catalunha. Só sete anos depois, em 1974, foi feita a primeira edição em língua portuguesa desta obra, “Dois Povos Ibéricos”. Fèlix Cucurull aborda o que une e separa portugueses e catalães numa série de reflexões em torno das identidades regionais e nacionais. É muito curioso o capítulo dedicado à comparação entre a saudade portuguesa e a enyorança catalã, evocando a propósito o pensamento poético de Teixeira de Pascoais. Na obra Cucurull debruça-se sobre a relação de autores catalães com Portugal, sobre a edição catalã de Os Lusíadas e sobre o sebastianismo e a sua influência no pensamento português. A presente edição da Guerra e Paz reproduz a versão portuguesa de 1975, que inclui o texto “Anotações sobre Portugal”, escrito já depois de 1974 e que traça um retrato sobre Portugal, as suas regiões, cidades, tradições e gentes. É um texto que só por si justifica esta reedição de “Dois Povos Ibéricos”.

 

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VER - Alexandre Conefrey é um artista discreto que deixa a marca do seu talento em desenhos nos quais conjuga uma enorme minúcia com um impacto visual impressionante. Depois de ter estudado no ARCO, em Lisboa, foi bolseiro no Royal College of Arts, em Londres, e o seu trabalho está presente em diversas colecções particulares  e de várias empresas e instituições. As suas obras organizam-se como peças de um puzzle: “uma imagem de nuvens vistas do espaço deu origem a esculturas de pequenas dimensões e estas. por sua vez, passaram a ser os desenhos que constituem a exposição” - escreve Carlos Correia no texto do catálogo de “Peso”, a mostra de novos trabalhos de Conefrey que está na Galeria Belo Galsterer até 25 de Julho e de que aqui se mostra um exemplo (a galeria fica na Rua Castilho 71 r/c). Na Fundação Portuguesa das Comunicações, a Fundação Carmona e Costa apresenta “Terra Incógnita”, a nova exposição de Inez Teixeira, com curadoria de João Silvério. A mostra combina o desenho com a pintura, em três momentos distintos - um de pequenos e inquietantes desenhos de crânios, outra de 23 pinturas de pequenas dimensões sobre papel e uma outra série, de pinturas maiores, também sobre papel, série que dá aliás o título à exposição e revela a artista a explorar uma nova dimensão, porventura mais sombria, do seu trabalho. Até 13 de Maio, na Rua do Instituto Industrial 16.

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OUVIR - “Triplicate”: como o nome indica, é uma dose tripla de música. Trata-se da maior edição de Bob Dylan na sua já longa carreira: um álbum de 3 CD’s, com 30 canções, mais uma vez  amostras do cancioneiro popular norte-americano, revisitações do repertório de Frank Sinatra, saídas do talento de nomes como Irving Berlin, Jerome Kern, Hoagy Carmichael, Richard Rodgers ou Oscar Hammerstein. Depois de “Shadows In The Night” (2015) e de “Fallen Angles” (2016), este “Triplicate” consolida a maior série de edições da carreira de Dylan dedicadas a um mesmo género musical. Se Woody Guthrie foi o inspirador de Dylan quando ele se tornou conhecido, podemos dizer que Sinatra é a referência desta fase da carreira após meio século de música.Não deixa de ser paradoxal que no mesmo ano em que Dylan foi galardoado com o Nobel pelas canções que escreveu, o disco que ele lança, o mais extenso da sua carreira, tenha apenas versões de clássicos que outros escreveram. Como Dylan afirma numa entrevista disponível no seu site, nenhuma destas canções foi alguma vez gravada pelos seus autores originais - um dado que contrasta com aquilo que tornou Dylan conhecido, as suas próprias composições. Enquanto Sinatra trabalhou com arranjos grandiosos e orquestras com uma secção de cordas avassaladora, Dylan ataca todo este repertório com um quinteto onde as cordas da guitarra elétrica de Donnie Herron e o baixo de Tony Garnier se destacam, conseguindo obter a força das orquestrações de Sinatra, como se pode ouvir sobretudo em “September of My Years”. A selecção do repertório de Sinatra é cuidadosa e vai da faixa de abertura “I Guess I’ll Have To Change My Plans” para clássicos como “I Could Have Told You”, “Here’s That Rainy Day” ou ainda “Once Upon A Time”, “Stormy Weather”, “As Time Goes By”, “Sentimental Journey”, “It Gets Lonely Early” e a faixa que escolhe para terminar este triplo CD,  "Why Was I Born," escrita por Kern and Hammerstein in 1929 e que volta  a um tema que nos últimos anos se tornou central para Dylan:  "Why was I born?/Why am I living?/What do I get?/What am I giving?".

 

PROVAR -  Passeando entre as prateleiras de legumes do supermercado do El Corte Inglês descobri salicórnias da Ria Formosa, em pequenas embalagens. A salicórnia, conhecida por sal verde ou espargo do mar, fica muito bem quando é aplicada em saladas ou mesmo sozinha, como aperitivo ou então por cima de fatias de queijo fresco de ovelha acabado de fazer. Confesso que até ao ano passado, quando as descobri e provei pela primeira vez, na Bretanha, ignorava este sabor. A salicórnia nasce e cresce espontaneamente em sapais e salinas e em Portugal pode ser encontrada nos canais da Ria de Aveiro e na Ria Formosa, no Algarve. Dá um toque especial a saladas de tomate ou de alface. Experimentei misturá-la numa salada de alface e dióspiro duro e o resultado foi uma variedade de sabores contrastantes. A salada acompanhou uns estaladiços e saborosos Pastéis de Chaves. Como é Páscoa terminei com uma fatia de folar alentejano, uma massa bem temperada de canela e erva doce, feita em Alcáçovas sob a marca A Padaria do Ernesto e que está à venda na loja Prazeres da Terra, na Praça da Estefânia, de onde são também os Pastéis de Chaves.

 

DIXIT - “É complicado que esta seja uma cidade em que vivem pessoas com ideias fantásticas, e outras com enorme poder, todos a olhar enquanto Olisipo arde e uma paródia dela própria renasce das cinzas” - Lucy Pepper

 

GOSTO - Na comarca do Porto está em teste a substituição de juízes por psicólogos na audição de crianças vítimas de abusos.

 

NÃO GOSTO - A justiça portuguesa está entre as mais lentas da União Europeia e demora em média 710 dias para resolver processos cíveis, comerciais e administrativos nos tribunais de primeira instância.

 

BACK TO BASICS - Olhamos para o presente através de um espelho retrovisor, e assim vamos de marcha-atrás para o futuro - Marshall McLuhan

 

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publicado às 13:30

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MEMÓRIAS  - É uma coincidência notável que na mesma semana estreie o filme sobre Paula Rego e seja editada uma nova pérola do arquivo de Amália Rodrigues, desta vez sobre a sua carreira em Itália. A partir de pontos de partida e de carreiras artísticas completamente diferentes estas duas mulheres são  exemplos da criatividade portuguesa para um mundo que nos achava desinteressantes, passada que foi a época das Descobertas, em que fomos pioneiros da globalização. A partir de Londres, onde estudou, Paula Rego desenvolveu uma carreira incontornável, ganhando o reconhecimento internacional, em termos de crítica e de mercado de arte. Forçando paralelismos, Amália conseguiu fora de fronteiras, desde cedo, um sucesso maior que aquele que aqui obtinha - sendo reconhecida e aplaudida em todo o mundo. Serve toda esta introdução para falar da importância da preservação da memória audiovisual dos nossos criadores. O filme, magnífico, sobre Paula Rego foi uma encomenda da BBC ao seu filho, que é um cineasta com méritos reconhecidos; Amália foi filmada por Augusto Cabrita, para um documentário nunca finalizado. Este é o retrato do nosso subdesenvolvimento audiovisual. Não preservamos a nossa memória. O operador de serviço público de televisão, a RTP, desperdiça recursos em séries grotescas, em concursos serôdios e em transmissões de futebol mas é incapaz de ter uma linha de produção de documentários, continuada e coerente,  que preserve a memória do talento português contemporâneo  para as próximas gerações.

 

SEMANADA - As viagens de finalistas que se realizam nas férias da Páscoa estão esgotadas há quatro meses e só uma agência, das várias que actuam nesta área,  vai levar 8000 jovens para o sul de Espanha; ainda há 154 milhões de escudos, em notas antigas, nas mãos dos portugueses e  no ano passado foram trocadas notas da antiga moeda no valor de 1,1 milhões de euros; há mais de cinco mil idosos que vivem isolados, dos quais 3500 que vivem sozinhos; Portugal fabricou e exportou 96 milhões de euros em notas de 50 euros para outros países comunitários; em 2016 os hospitais públicos sinalizaram 708 doentes, na maioria idosos, que ficaram nos hospitais para além do período normal de internamento porque os familiares não os queriam de lá tirar; as ajudas concedidas aos bancos e sector financeiro já custaram 13 mil milhões de euros aos portugueses; Portugal foi o sexto país da União Europeia que mais pagou em ajudas financeiras à Banca; tudo somado, e se a operação de resgate do Novo Banco não correr bem, o antigo BES poderá custar ao sistema financeiro, aos obrigacionistas e aos contribuintes 11,2 mil milhões de euros; mais de 118 milhões de pessoas vivem em risco de pobreza ou exclusão social na União Europeia; de acordo com os resultados do estudo TGI da Marktest, 33.4% dos portugueses têm consola de jogos em casa.

 

ARCO DA VELHA - O pároco da paróquia de Olhão mandou decapar a jactos de água a igreja matriz da cidade, construída no século XVI, para retirar a tradicional cal e, em sua substituição, mandou pintar o templo com tinta plástica.

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FOLHEAR - “Lodestars Anthology” é uma revista independente, editada no Reino Unido desde 2014. Destina-se a viajantes  - não é bem a quem gosta de viagens turísticas organizadas, mas sim a quem tem curiosidade em conhecer as gentes, costumes e características dos países que visita. Cada edição é exclusivamente dedicada a um país e a mais recente tem por tema o Japão. É um número magnífico, como sempre muito bem fotografado e ilustrado, com 160 páginas, ao longo das quais visitamos a cultura, a arte, a tradição, a religião, pequenos paraísos escondidos, ou a gastronomia. Conjuga crónica com reportagem e entrevista, mostra a natureza mas também o efeito que a arquitectura nela pode exercer. Na realidade  a Lodestar sai dos roteiros turísticos e descobre o pormenor, do florir das cerejeiras até aos locais onde perduram as tradições, maravilhas escondidas como um laboratório botânico ou, noutro campo, a vida das mulheres mergulhadoras que, numa zona do país,  desde há séculos capturam marisco entre as rochas. No fundo, a Lodestar Anthology é sobre criatividade, descoberta e viagem. Já fez edições sobre Inglaterra, Canadá, Escócia, Itália, Austrália, Suécia - o Japão é o sétimo país - e os próximos são Nova Zelândia e França, ainda este ano. Podem seguir as actividades no site, no Facebook, ou comprar a revista online ou na Undercover, em Lisboa, na Rua Marquês Sá da Bandeira.

 

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VER - Estreou esta semana o filme “ Paula Rego, Histórias & Segredos” e sexta-feira dia 7 inaugura a exposição com o mesmo título na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. O filme fica em cartaz em Lisboa, Porto e Cascais e neste fim de semana é assinalado o dia Paula Rego, com exibições especiais em 12 cidades, por todo o país. Mais tarde o filme será editado em DVD e exibido na RTP. Todos podem ter oportunidade de o ver. Trata-se de uma produção encomendada pela BBC e realizada por Nick Willing, um cineasta que é filho de Paula Rego e que, na estreia, fez questão de dizer que este é “o  filme que fiz com a minha mãe e não sobre a minha mãe” . O filme baseia-se em conversas com a artista e em imenso material de arquivo, de fotografias a filmes familiares em super 8 e que são particularmente importantes para mostrar a vida de Paula Rego e de Victor Willing, o seu marido, durante os anos em que viveram em Portugal, na Ericeira. Este documentário  mostra de forma exemplar  o processo criativo de Paula Rego - o que ela faz, porque o faz e como o faz e a esse nível é de uma riqueza impressionante no detalhe e naquilo que nos transmite. Nick Willling, apesar de ser filho, consegue um olhar simultaneamente próximo e distante, mas sempre íntimo, no entanto sem pudores nem complacências. Como Paula Rego diz a certa altura do filme ela pinta continuamente para não falar - é a pintura que a alimenta: “a vida é o trabalho”, desabafa, evocando as muitas dificuldades a que a sua opção artística esteve associada até surgir o sucesso. “Paula Rego, Histórias & Segredos” é ainda uma viagem ao país que Portugal era nos anos 60. Temas como a presença da religião, do sexo ou do medo não são evitados, com incursões entre as influências de Dante e de Disney na obra da pintora.  A edição e montagem são exemplares, a sonoplastia é certeira. E o filme termina com Amália, a cantar a “Gaivota”, de Alexandre O’Neill, recordando o amor num perfeito coração, a mesma Amália que é citada em diversos momentos destas Histórias & Segredos.

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OUVIR -  Regressemos a 1970, há quase meio século. Nesse ano Amália celebrava os seus 50 anos e fez “Com Que Voz”, o seu disco mais premiado. Já conquistara público no Japão e na URSS mas em 1970, logo em Janeiro, deslumbrou os italianos, em Roma. Esse foi o início de uma série de digressões por toda a Itália. Já antes, desde 1950, Amália tivera actuações pontuais em palcos italianos e na RAI. Mas digressões a sério, face a face com o público, aconteceram de 70 para a frente - quase 200 recitais em toda a Itália até 1994 - os anos mais intensos foram de 70 a 78. Logo no recital de Janeiro de 1970 na assistência estava Orson Welles, que se confessava à imprensa italiana grande fã da fadista : “O Fado é um dos géneros mais complicados e é excepcional assistir a um concerto da grande Amália”. É deste tempo que datam filmagens e fotografias de Augusto Cabrita, que acompanhou Amália com o objectivo de fazer um documentário nunca terminado, “O Mundo de Amália”. Graças ao persistente e exemplar trabalho que Frederico Santiago tem feito no arquivo da Valentim de Carvalho, foi agora editado um triplo CD, Amália em Itália, que agrupa gravações de alguns dos recitais e também temas de edições discográficas feitas para o mercado italiano. “Amália em Itália - a una terra che amo” é uma edição incontornável para os apreciadores do trabalho de Amália Rodrigues. É uma edição de coleccionador, cheia de raridades.

 

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PROVAR -  Gosto de cozinhar - ao fim do dia descontrai-me e ajuda-me a organizar as ideias. Gosto de imaginar refeições simples a partir de conservas - e não exclusivamente saladas primaveris ou veraneantes. Muitas conservas ligam bem com uma boa massa ou com arroz. Durante uns tempos experimentei o que a seguir vou relatar com arroz carolino enxuto. Ultimamente tenho usado massa, os cappelletti da marca Garofalo, que existe nomeadamente no Pingo Doce. Os cappelletti têm a vantagem de ganhar bem o sabor daquilo que com eles se cozinha, mais que outras massas. Neste caso resolvi misturá-los com mexilhões de escabeche, de conserva. Os portugueses, da Pitéu, são bons mas têm o escabeche um bocadinho puxado e demasiado presente. No El Corte Ingles encontrei uns mexilhões em escabeche das rias galegas, da marca Atlantic, que são menos intensos no tempero e mais leves - e que se misturam de forma ideal com os cappelletti. Normalmente, e foi o caso, incluo no final da cozedura da massa (e deixo-a sempre um pouco menos tempo que o recomendado), meia dúzia de tomates cherry cortados grosseiramente em oitavos e umas ervas aromáticas próprias para massas. Só depois de escorrer adiciono o conteúdo da conserva, mexo bem e tapo durante uns dois minutos, para misturar os sabores. A acompanhar provei o Marquês de Borba branco de 2016, feito por João Portugal Ramos a partir das castas Arinto, Antão Vaz e Viognier. É fresco, sabores citrinos, colheita cuidada, tem 12,5% e um preço no limiar dos cinco euros. Descontrai e proporciona boa conversa. Bom apetite.

 

DIXIT -  “Lisboa não pode ser uma estância turística sem lisboetas lá dentro” - Henrique Raposo.

 

GOSTO - O Indie Lisboa vai apresentar três centenas de filmes entre 3 e 14 de Maio, dos quais 45 são portugueses.

 

NÃO GOSTO - O Comandante da Escola Prática da GNR foi exonerado por se queixar da demora na abertura de um curso de formação de 450 militares.

 

BACK TO BASICS -”Deixar ao Governo a incumbência de proteger a nossa privacidade é como contratar um mirone para instalar persianas em casa” - John Perry Barlow.

 

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