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A FALTA - Prometi a mim mesmo não falar das teorias e teses sobre os incêndios e o que se passou. Mas depois de já quase duas semanas de duelos florentinos, da erupção palavrosa de especialistas de meia tigela e de conspirações diversas, não consigo deixar de dizer uma coisa: fazer política partidária sobre o tema das mortes numa situação de catástrofe é de péssimo gosto, é um macabro exercício de oportunismo político. Nas últimas décadas todos os partidos que passaram pelo poder têm culpas no cartório da política florestal, da prevenção e da segurança. Por isso mesmo penso que o dever elementar de todos, do governo à oposição, seria terem pedido desculpa aos portugueses. Não fizeram tudo o que podiam, infelizmente as evidências provam-no. E ninguém apareceu nos primeiros dias a dizer o que era evidente: “Desculpem, os partidos, os líderes dos governos e dos partidos falharam!  Desculpem, o Estado falhou e não protegeu os cidadãos.” Era simples dizer isto e significava muito, mais que mil despachos e relatórios feitos a quente e à pressa. É claro que é fundamental vir a compreender as causas e as culpas, e sobretudo as soluções para o futuro, mais do que andar à procura de causadores e culpados da situação concreta do dia 17 de Junho - mas um pedido de desculpas ficou a faltar e era devido. A reacção da classe política à catástrofe mostra um regime que ardeu, que primeiro faliu e que agora está a matar. Aqueles que têm tido poder podiam perceber a dimensão da besta que deixaram crescer. Parece que o bom-senso, a humildade e a responsabilidade desapareceram da política. 

 

SEMANADA - A segurança social tem 21 mil pagamentos em atraso a grávidas e doentes; as despesas familiares com saúde cresceram para 438 euros por ano por pessoa um valor superior ao da maioria dos europeus; o Observatório da saúde indica que utentes com menores rendimentos têm mais dificuldade em aceder ao Serviço Nacional de Saúde;  Fernando Medina anunciou esta semana ser o candidato do PS à Câmara de Lisboa - é a primeira vez que lidera uma lista eleitoral; os outros candidatos andam em modo invisível;  apesar dos incentivos apenas 81 médicos se disponibilizaram a ir para zonas mais periféricas e do interior;  domingo é o dia da semana em que nascem menos bebés e um estudo recente aponta como causa possível o aumento da percentagem de cesarianas nos partos totais;  em todo o país, na rede do Estado, só há 41 examinadores para as provas da carta de condução e os candidatos estão meses à espera de realizarem o exame enquanto que no sistema privado o tempo médio de espera é de cinco dias; nos meses de férias a GNR regista 38 queixas por dia de casos de violência doméstica; o mecanismo que penaliza o SIRESP por eventuais falhas nunca foi accionado pelo Estado, que é o seu único cliente; durante o período crítico do incêndio em Pedrogão cinco estações do sistema estiveram em baixo e 22% das chamadas falharam; comentário da semana no facebook: “numa crise o sirep falha; desligado, funciona”.

 

ARCO DA VELHA -  Dois reclusos da cadeia de Matosinhos queriam organizar uma festa na véspera de São João e foram apanhados na prisão com três chouriços, três garrafas de alcool, uma barra de haxixe, dois balões de São João e três telemóveis, tudo recebido ilegalmente.

 

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FOLHEAR -  Todos os anos, na edição dupla de Verão, que cobre os meses de Julho e de Agosto, a revista “Monocle” faz um levantamento das 25 cidades que considera os locais ideais para se viver. Depois de anos a subir neste ranking, Lisboa este ano ficou com a mesma posição de 2016 - a 16ª. No ano passado a revista já tinha chamado a atenção para o trânsito caótico na cidade e este ano a “Monocle” deixa um recado directo: “A Câmara Municipal deve encontrar o equilíbrio entre atrair investidores e visitantes estrangeiros e corresponder às necessidades dos habitantes nacionais da cidade - salários baixos combinados com o aumento do custo de vida significa que os residentes mais antigos podem ser marginalizados”. A cidade vencedora foi Tóquio, seguida por Viena, Berlim (que recebeu um destaque graças aos espaços públicos), Munique e Copenhaga. Madrid aparece na 10ª posição, Barcelona na 17ª. Lisboa está ainda em destaque com um artigo sobre a nova sede da EDP e os seus vários espaços, sublinhando que o investimento em boa arquitectura se reflecte de forma positiva na cidade. Outros destaques desta edição: uma visita à cidade espanhola de Valencia, uma conversa sobre gastronomia peruana com o fotógrafo Mário Testino, uma entrevista com o mayor de Los Angeles. O portfolio fotográfico, fresco e delicioso, é dedicado aos gelados, em várias formas, feitios e circunstâncias…

 

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VER - O ponto ideal ao equilíbrio alcança-se quando a obra de um artista se identifica tanto com o local onde é exposta que parece ter chegado a casa. Foi essa a sensação que tive ao ver “Voltar De Vez Em Quando”, de Cristina Ataíde, que está na Ermida, uma pequena e atraente galeria em Belém, na Travessa do Marta Pinto. O espaço é o da Ermida de Nossa Senhora da Conceição, uma capela do século XVIII, muitos anos abandonada. Foi trazida para a sua nova função por um médico, Eduardo Fernandes, apaixonado pelas artes plásticas, que em 2008 recuperou o espaço e aí começou a promover exposições regulares com artistas contemporâneos. As peças de Cristina Ataíde, na imagem, mostram como a escultura continua a ser o seu território de eleição, numa demonstração de equilíbrio visual e espacial. Como é frequente na obra da artista a apresentação das peças principais conjuga-se com o cuidado posto na sua instalação e nas frases que circundam, manuscritas numa fita, as paredes do espaço, como este fragmento, que afinal conta quase tudo o que esta exposição revela: “volto a  voar para longe”. Até 19 de Agosto, com curadoria de Ana Cristina Cachola. Outros destaques - prossegue o projecto “A Arte Chegou ao Colombo” , desta vez com obras de Paula Rego até 27 de Setembro, na praça central do centro comercial; na Galeria Módulo, Calçada dos Mestres 34, Ana Mata mostra “Árvores” e n’a  Pequena Galeria está “f8 - do retrato ao infinito” uma mostra de fotografia com trabalhos de  Alice WR, Carvalho, Isabel Costa, Carlos Almeida, Jackson Távora, Jorge Coimbra André Ricardo e Joaquim Young.

 

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OUVIR -  Chuck Berry morreu em Março deste ano, com 90 anos. Até bem pouco tempo antes da morte andou a trabalhar num álbum de originais que recuperava material escrito entre 1991 e 2014, em muitos casos refazendo gravações - já que os originais foram destruídos num incêndio no seu estúdio pessoal. Há 38 anos que não havia um novo disco de Chuck Berry, o homem que criou êxitos como “Maybelline” ou “Come On” e que até aos 88 anos,  nos 21 anos anteriores, continuou a tocar uma vez por mês, ao vivo, num bar da sua cidade, St. Louis, o Blueberry Hill. “Chuck”, o novo disco, não é uma colectânea de êxitos passados - é de facto um somatório de novas canções, com algumas brincadeiras pelo meio - como uma versão de “Johnny B. Goode”, de 1955, refeita para ser “Lady B. Goode” ou ainda a transformação de “Havana Moon” em “Jamaica Moon”. “Chuck” não tem covers, nem duetos, nem produtores de luxo convidados como se tornou habitual nos discos de fim de carreira -  é fiel às origens de Berry nos blues, à sua paixão pela guitarra e à seu interminável dedicação ao rock’n’roll, como o segundo tema do CD, “Big Boys” bem demonstra. O disco abre com “Wonderful Woman”, uma declaração de amor a Themetta Berry, a sua mulher. Há outros momentos marcantes como “Darlin”, “She Still Loves You”, “Dutchman” ou “Eyes Of A Man”  -  no fundo um testamento de dois minutos com as opiniões de Chuck Berry sobre o sentido da vida. Ele, que poderia ter gravado um disco de despedida com os maiores nomes do rock (que para o efeito se teriam deslocado a correr a St. Louis), escolheu gravar com  a família - o filho e o neto nas guitarras e a filha Ingrid na voz. Foi uma boa despedida. Obrigado Chuck.  

 

PROVAR -  Quando o regresso a um restaurante, passados uns anos, corre ainda melhor que a estreia, é caso para bater palmas. Foi o que aconteceu com nova visita à Padaria, em Sesimbra. Embora ali haja peixe para grelhar da melhor qualidade e a grelha seja competente, é nos pratos mais elaborados que está a diferença desta Padaria em relação a muitos outros locais de Sesimbra. Mas sobre o peixe deixem dizer que aqui só há peixe do mar, pescado na região e só há bivalves quando são garantidamente bons - de maneira que não esperem encontrar pré-fabricados à bulhão pato. Por detrás das operações está José Rasteiro, homem da terra, apaixonado pelo que faz -  isso nota-se na forma como fala dos pratos que propõe. A localização do restaurante é numa das pequenas ruas que desce até à marginal. A esplanada tem vista sobre o mar e é protegida dos ventos - a visita anterior tinha sido no Inverno e não deu para aproveitar a boa localização. Passemos ao que interessa: o pão de Sesimbra fatiado fino vem acompanhado com azeitonas e azeite, saboroso e intenso. O amuse-bouche oferecido pelo Chef é um achado: requeijão texturizado e enformado como se fosse um pequeno mozarella, com cubos de tomate e pão de especiarias. Nas entradas provaram-se uns filetes de cavala fresca, enrolados, simpáticos, e um excepcional tártaro de atum com coco fresco e salicórnia. A seguir, de um lado da mesa ficou um filete de salmonete com puré de aipo e, do outro, espadarte rosa fumado a quente com ervas da serra da Arrábida, puré de couve flor e molho de caldeirada. Ambos estavam excepcionais na qualidade dos produtos e na preparação. A acompanhar esteve um vinho branco de Colares, feito nas vinhas da Fundação Oriente  a partir da casta  Malvasia. Excelente. A Padaria fica na Rua da Paz nº5, em Sesimbra, e tem o telefone 212 280 381.

 

DIXIT -  “Como é bom ler bom” - Ferreira Fernandes

 

GOSTO - O Centro Português de Fotografia completou 20 anos durante os quais realizou 500 exposições e guarda 575 mil imagens em arquivo.

 

NÃO GOSTO - Das explicações do SIRESP e da teia de contradições criadas.

 

BACK TO BASICS - O Presidente não é mais que um privilegiado relações públicas, que passa o seu tempo a elogiar, beijar e a abanar as pessoas para que elas façam aquilo que é a sua obrigação - Harry S. Truman

 

 

 

 

 

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publicado às 14:00

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REPORTAGEM - Olhando para os últimos dias verifico que os melhores trabalhos de reportagem sobre a catástrofe dos incêndios estiveram em jornais impressos ou em sites de informação, nomeadamente no Observador. Domingo de manhã apenas o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias tinham chamadas de capa em destaque evidenciando a dimensão do que estava a acontecer; a edição do Público desse dia era particularmente desajustada da actualidade - valeu-lhe o site que foi recuperando o que o papel falhou. No Observador encontrei as primeiras grandes reportagens, bem escritas, descritivas, com informação, com episódios das vidas das pessoas, com pequenas histórias que ajudavam a fazer o grande retrato do que se passou. Foi no Observador, e também no Público online, que vi as melhores fotografias destes dias - e devo dizer que neste caso a reportagem fotográfica fixou momentos de enorme intensidade e dramatismo, sem sensacionalismos, e ajudando a compreender o que se passou e como as mensagens oficiais se afastavam da realidade que as imagens acabaram por mostrar. O Correio da Manhã TV foi a estação que mais depressa começou a fornecer imagens e relatos e não foi por acaso que este foi o canal noticioso mais visto nesses dias. A RTP3 desta vez conseguiu bater pela sobriedade e rigor a SIC Notícias e a TVI24. A rádio acabou por ser o meio onde menos notei reportagens exemplares. Neste tempo do video, e apesar dos momentos já referidos, não deixa de ser curioso que as melhores reportagens, na minha opinião, tenham sido escritas e fotografadas - quer tivessem sido publicadas em papel ou online. É o triunfo da escrita numa ocasião terrível. E foi-o graças a um regresso à melhor forma de jornalismo - a reportagem. Do resto não falo.

 

SEMANADA - O plano contra incêndios não foi avaliado nos últimos quatro anos;  pelo menos 64 bombeiros morreram em serviço ao longo dos últimos 17 anos; Portugal é o país da europa do sul que registou maior número de fogos florestais entre 1980 e 2013;  até quarta-feira à noite o Governo ainda não tinha ordenado à Inspecção Geral da Administração Interna nenhum inquérito global aos fogos do passado fim de semana; na internet as menções aos acontecimentos de Pedrógão Grande provieram, em 34%, do Facebook, 32% foram observadas no Twitter e 31% em notícias online - indica um estudo da Marktest;  a fibra óptica já é a principal forma de acesso à internet em Portugal, tendo ultrapassado o cabo; a internet em banda larga móvel é utilizada por 6,5 milhões de pessoas; segundo a Marktest, entre Janeiro e Abril de 2017, os portugueses dedicaram 399 milhões de horas à Internet na navegação a partir de computadores de uso pessoal; a Europa recebeu 1,5 milhões de refugiados desde 2015; as compras de automóveis feitas por empresas de aluguer de carros cresceram 26% em função do boom do turismo; em Lisboa existem 2051 pessoas referenciadas como sem-abrigo; o exame de português realizado segunda-feira corre o risco de ser anulado por ter circulado no whatsapp uma gravação que revelava a matéria que iria sair - e que acertou em cheio, citando como fonte uma explicadora, dirigente sindical, que teria passado a informação a uma explicanda sua.

 

ARCO DA VELHA - Um homem invadiu uma casa no Intendente para tentar roubar e violar uma mulher de 85 anos que se defendeu mordendo os orgãos genitais do assaltante, levando-o a fugir - o relato foi feito pela própria às autoridades.

 

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FOLHEAR - A revista que vos trago esta semana é o exemplo da convivência entre o digital e o papel. Neste caso essa convivência existe não nos canais de distribuição de conteúdos, mas sim na equipa que a faz. Grande parte dos elementos com responsabilidades editoriais trabalham simultaneamente neste projecto e em plataformas digitais de última geração como o Quartz e o Medium. Editada duas vezes por ano, a  “Anxy" dedicou a sua primeira edição à raiva - “The Anger Issue”. A revista é um mix cuidado de belos textos, portfolios fotográficos invulgares e um grafismo surpreendente. É editada duas vezes por ano e apresenta-se como uma publicação dedicada a apresentar narrativas pessoais sobre emoções, abordando temas como a ansiedade, a depressão, o medo, a raiva, o trauma e a vergonha, numa incursão que pretende abordar a saúde mental de uma forma diferente, através de exemplos de vulnerabililidade. Nesta edição inaugural a entrevista é com a escritora Margaret Atwood, a autora de “The Handmade’s Tale”; há uma série de ensaios e narrativas de pessoas que lidam diariamente com a raiva e o desespero de outros, desde criados de mesa, a vendedores de lojas de roupa ou cosmética ou, ainda, de agentes de execução que vão penhorar bens em nome de bancos; a grande reportagem é dedicada à instabilidade política na Turquia e aos problemas emocionais que ela fomenta no país; e finalmente há três portfolios fotográficos absolutamente excepcionais. Destaco o de Matt Eich, um dos grandes fotógrafos norte-americanos actuais (procure a conta dele no Instagram), numa visão pessoal do seu próprio universo familiar - um dos melhores ensaios fotográficos que vi nos últimos tempos; dois outro merecem destaque : Melissa Spitz mostra a relação tensa que tem com a sua própria mãe e Brian Frank visita o universo das prisões. São três momentos imperdíveis. Pode comprar a Anxy no site da revista - www.anxymag.com .

 

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VER - A mais recente aventura de Pedro Cabrita Reis é um livro de autor, em que o artista mostra desenhos inspirados pelo poema “Cântico Negro”, de José Régio, que é reproduzido na edição (na foto). Este trabalho começou a ser idealizado há três anos, depois de uma exposição do artista no Rio de Janeiro, o plano editorial e a direção gráfica são da responsabilidade de Cabrita Reis com Lucia Bertazzo e Leonel Kaz, de UQ! Editions, editora brasileira, que tem produzido  livros de artista, sempre com originais. As encadernações da caixa e do grande estojo são obra do Atelier Dreieck, em Paris, que se serviu de um tecido de linho e algodão de um laranja intenso. A tiragem é de 70 exemplares, dos quais 20 estão disponíveis na Galeria João Esteves de Oliveira. Cada caixa inclui um desenho original de Pedro Cabrita Reis, em acetona e pigmentos, trabalhados em folhas de 200x126 cms. Os 20 originais correspondentes a outra tantas caixas estão expostos na Galeria (Rua Ivens 38). Outros destaques: no MAAT inaugurou uma exposição de Fernanda Fragateiro , “Dos arquivos, à Matéria, à construção” e uma outra exposição com os trabalhos dos seis finalistas à edição do prémio EDP Novos Artistas deste ano, escolhidos entre mais de 600 candidaturas.

 

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OUVIR - No final de Maio de 1967 foi lançado o oitavo disco de originais dos Beatles - Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Foi um êxito, na crítica e nas vendas, e esteve durante 27 semanas em primeiro lugar do top britânico de álbuns. Inclui alguns temas famosos como “With A Little Help From My Friends”, “Lucy In The Sky With Diamonds”, “When I’m Sixty Four”, “She’s Leaving Home” e “A Day In The Life”. A ideia do disco foi criar um alter ego dos Beatles, a Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que se pudesse aventurar por territórios diferentes. As gravações começaram no final de 1966, depois de os Beatles terem decidido parar definitivamente com os concertos e as digressões. O facto de estarem a trabalhar num disco que não seria tocado ao vivo proporcionou a oportunidade de experimentarem técnicas novas de gravação e manipulação de som e de incluírem uma orquestra de 40 elementos. Nas numerosas sessões de gravação nos estúdios da EMI, em Abbey Road, dois dos primeiros temas a serem gravados foram “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”, que não estão incluídos no álbum original porque a EMI forçou a banda a editá-los como single no Natal desse ano. A capa, que foi concebida por Peter Blake e Jann Haworth, dois artistas plásticos britânicos da então nascente pop art, teve um custo de 3000 libras, contra as 100 que eram usualmente o orçamento para o trabalho gráfico de um LP. A EMI concordou que a pagaria, unicamente se o disco vendesse mais de um milhão de exemplares mundialmente - senão a conta seria assumida pelos Beatles. Como hoje se sabe a conta acabou por não ser paga por eles. A edição especial que agora foi lançada para assinalar os 50 anos do lançamento original, inclui um pequeno livrinho de 60 páginas onde esta e outras histórias são contadas, além de detalhes e fotos das sessões de gravação. A edição tem dois CD’s - um que corresponde ao disco original, com uma nova mistura estereo, e outro que mostra 18 misturas inéditas das sessões de gravação, entre as quais algumas de “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”. (Edição especial Universal Records, distribuída em Portugal).

 

PROVAR -   Então este é um daqueles dias em que tudo correu mal e a raiva é tanta que nem a fome aparece? Narda Lepes, uma chef argentina, diz que tem uma receita infalível para dias assim: arroz com um ovo estrelado por cima. A coisa é simples: coze-se o arroz, escorre-se bem e mistura-se com meia colher de sopa de manteiga numa tigela. À parte faz-se um ovo estrelado em azeite. Narda recomenda que não se salgue o ovo enquanto ele está na frigideira, para que a clara fique bem cozida, estaladiça, e a gema fique crua. Coloca-se o ovo por cima do arroz e o petisco está pronto quando o amarelo da gema começa a inundar o arroz. Tudo bem misturado é um remédio certo anti-ansiedade, diz convicta a chef argentina na divertida secção de gastronomia da revista “Anxy”, uma nova publicação referida noutro ponto destas páginas. Já Jimena Agois, uma food blogger peruana, prefere massa com pesto è genovesa, tudo preparado na ocasião. Cá por mim, nesses dias, o ideal é uma dose dupla de iogurte natural, misturada com fruta da época cortada aos pedaços, alguns frutos silvestres e um pouco de frutos secos. Se por acaso fôr acompanhada com uma flûte de espumante Murganheira Reserva Bruto, ainda melhor.

 

DIXIT -  “Isto foi um furacão de fogo, veio para nos matar” - habitante na zona de Pedrogão

 

GOSTO - Da eficácia e contenção na comunicação de Jorge Gomes, o secretário de Estado da Administração Interna, que no local acompanhou os incêndios.

 

NÃO GOSTO - A Câmara de Lisboa ignorou a  assembleia municipal e vai aprovar a alteração de um edificio  dos anos 70,decorado com azulejos de António Vasconcelos Lapa, para autorizar um hotel a imitar traça pombalina.

 

BACK TO BASICS - “A arte de agradar muitas vezes encobre a arte de enganar” - máxima hassídica, em textos judaicos

 

 

 

 

 

 

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TAMANHO  - Tenho andado a reparar que, nas obras recentes promovidas pela autarquia, os projectistas da Câmara Municipal de Lisboa têm  vindo a encolher os lugares de estacionamento para viaturas. Ao princípio achei que se tratava de um corolário natural da perseguição ao automóvel que se tornou na linha política de Medina & Salgado, mas depois percebi que é certamente fruto de insuficiente informação de quem desenha e projecta. No Largo do Casal Vistoso, ao Areeiro, foi feita uma recente intervenção camarária que, como noutros locais, se caracteriza por deixar obras inacabadas durante semanas, provocando desconforto a quem anda a pé nos passeios. Mas ali há também bons exemplos da forma como se desenham os estacionamentos por forma a tornar o dia a dia das pessoas uma gincana. Noutros locais, como nas laterais da Avenida da República, e nalgumas artérias de Campolide, é a mesma coisa: os lugares antigos foram reformulados e agora são mais acanhados. Depois de muito pensar, acho que encontrei uma explicação: como os projectistas da Câmara desenham tudo sem sair dos gabinetes e ir estudar os locais, e sem ter em conta a evolução das máquinas, fizeram lugares mais pequenos. Porquê?  Alguém lhe deu como norma o tamanho dos Fiat 500 clássicos. E os projectistas e quem os superintende não repararam que até os Fiat 500 cresceram, nomeadamente quando a viatura tomou os célebres comprimidos azuis e ificou mais volumoso, como um bem conseguido spot publicitário da marca italiana mostrou há alguns anos.

 

SEMANADA - As reservas de férias no estrangeiro cresceram 10% este ano; 75% das multas por falta de bilhete em transportes públicos foram perdoadas pelo Governo; em Portugal são apreendidos 1262 medicamentos falsificados por dia; Portugal é o segundo maior exportador de vinho para o Brasil, logo a seguir ao Chile; as exportações de vinho cresceram 8% no primeiro trimestre deste ano, em boa parte devido à recuperação de vendas para Angola; Portugal é o país da União Europeia que mais bicicletas exporta, 15% do total ou 1,6 milhões de velocípedes em números redondos; as exportações de cerâmica subiram 20% em quatro anos; Portugal tem um consumo efetivo por habitante de 82%, abaixo da média da União Europeia (UE 100%), estando o Luxemburgo no topo da lista (132%) e a Bulgária no fundo (53%); um estudo divulgado esta semana indica que a maioria dos jovens começam a ter telemóvel aos dez anos de idade e a partir dos 13/14 anos os dispositivos são praticamente regra entre os adolescentes; jovens entre 15 e 18 anos chegam a enviar 200 mensagens por dia; o número de mulheres reclusas está a crescer há oito anos e actualmente existem 869 detidas, existindo 37 crianças que vivem com as mães em estabelecimentos prisionais.

 

ARCO DA VELHA - Donald Trump cancelou uma anunciada visita oficial ao Reino Unido, a convite de Theresa May, até sentir mais apoio do público e por considerar previsível que tenha protestos de rua em Londres.

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FOLHEAR - Editado em França no final do ano passado, com o provocador título de “O negacionismo económico - e como combatê-lo” , este livro criou enorme polémica em torno dos seus autores, os economistas Pierre Cahuc e André Zylberberg. Os dois autores acusam uma parte importante dos seus confrades de fomentarem o obscurantismo e de se recusarem a analisar a realidade económica com base em dados científicos. Para os autores a economia tornou-se uma ciência experimental e existem métodos de análise para saber se a desregulação financeira favorece o crescimento, se o custo do trabalho tem consequências no emprego, se a despesa pública relança a actividade económica ou se a subida de impostos a diminui. Os autores  defendem que a posição dos que se recusam a analisar cientificamente o que acontece no mundo da economia está  a fomentar um negacionismo que, dizem, corrói todas a disciplinas - a história, a biologia, a física ou a climatologia. E dizem que a economia “é sem dúvida a disciplina que se vê confrontada com o negacionismo mais virulento”. O livro foi acusado de partir de uma visão ideológica, de querer aplicar o método experimental em circunstâncias em que não deve ser usado. A polémica foi grande, ainda dura e os dois autores de “O negacionsmo económico” defendem que “ a abordagem científica é indispensável para contrariar qualquer tentativa de transformação de uma mentira em verdade” . Terminam o livro enumerando exemplos do que consideram “efeitos nefastos dos negacionistas - desde a semana de 32 horas ao encerramento de fronteiras e a cessação da emigração, passando pela descida dos impostos ou o aumento da despesa pública”. O livro foi editado em Portugal pela Guerra & Paz e promete criar por cá também uma boa dose de polémica.

 

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VER - A obra que aqui está reproduzida chama-se “L’Homme Qui Marche” e foi feita pelo escultor suiço Albert Giacometti em 1960, numa série de seis exemplares. Foi a primeira escultura a ultrapassar a fasquia dos cem milhões de dólares num leilão, em 2010 e Giacometti foi um dos primeiros escultores a atingir valores próximos de quadros de pintores célebres. Até 10 de Setembro a Tate Modern, de Londres, apresenta uma retrospectiva da sua obra. Curiosamente Giacometti que esteve presente na Bienal de Veneza em 1956, é este ano o artista homenageado no pavilhão da Suíça na mesma bienal. E, mais para o fim do ano, em Paris,  abrirá ao público o Institut Giacometti, obra da sua Fundação, que tem preservado e gerido o legado do artista. Cinco décadas depois da morte de Giacometti, ele volta a estar na ribalta - graças à exposição da Tate (que no próximo ano irá para o Guggenheim de Nova Iorque), ao trabalho desenvolvido pela fundação, aos leilões onde proximamente vão aparecer peças suas e ao filme “The Final Portrait”, de Stanley Tucci, que estreia em Basel. Já que estamos a falar de exposições por esse mundo vale a pena deixar aqui nota que no MoMA de nova Iorque, até 1 de Outubro, está uma retrospectiva dos arquivos do arquitecto Frank Lloyd Wright, para assinalar 150 anos do seu nascimento. Finalmente, e para regressarmos ao nosso pequeno rectângulo, até 1 de Outubro, nos jardins do Museu Nacional de Arte Antiga, está ”O Jardim das Tentações”, uma curiosa mostra do trabalho da ceramista portuguesa Bela Silva, que se inspirou em diversas obras do acervo do museu.

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OUVIR - Nas minhas explorações pelo Spotify, encontrei este disco, editado no Outono do ano passado,  “Country For Old Men”, do guitarrista John Scofield. Ao contrário daquilo que o nome indica não é uma lamechice para idosos, trata-se de uma brincadeira de Scofield em cima do filme “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen. John Scofield tocou ao lado de nomes como Miles Davis,  Charlie Mingus, Pat Metheny e Bill Frisell, para citar só alguns. Agora com 65 anos revisita temas clássicos daquilo que são os seus géneros preferidos - blues, country e folk. A seu lado estão o baixista Steve Swallow, o baterista Bill Stewart e o teclista Larry Goldings - e vale a pena dizer que este é um disco invulgarmente conseguido do ponto de vista da qualidade da execução e da gravação. A primeira grande surpresa acontece na segunda faixa com uma versão, totalmente inesperada, de “I Am So Lonesome I Could Cry”, um original de Hank Williams, aqui completamente subvertido pelos solos de guitarra. “Bartender Blues”, de James Taylor é tocado como uma balada, de forma delicada e sentida. Entre as 12 canções do disco outros destaques vão para “Mama Tried” de Merle Haggard, para os tradicionais “Wayfairing Stranger” e “Red River Valley”, para as versões de “Jolene”, uma das grandes canções de Dolly Parton, e “You’re Still The One” de Shania Twain. E o disco termina com a brevíssima despedida, tocada em ukelele, de um segmento de “I’m An Old Cowhand”, de Johnny Mercer. CD Impulse, no Spotify.

 

PROVAR -  De repente, um jantar para cozinhar. Que fazer? Quer-se uma coisa leve, mas saborosa, tenra mas sem ser insípida. O que me veio logo à cabeça é fazer uns peitos de frango no forno, bem temperados, acompanhados de arroz solto e eventualmente uma salada - nesta época desejavelmente de agrião com rabanetes. O segredo para o tempero reside em farinha de mostarda, vinho branco e mel. A Colman’s é uma marca inglesa com mais de 200 anos, que se dedica a fazer farinha de mostarda, deliciosa, obviamente picante, e que se pode encontrar no El Corte Ingles ou na Amazon. Teoricamente deve pegar-se numa quantidade de farinha de mostarda e misturar com igual quantidade de água para obter uma pasta de mostarda que é melhor que qualquer um dos preparados já feitos que se podem encontrar por aí. Mas para esta receita proponho uma variante: misturar duas colheres e meia de sopa de farinha de mostarda Colman’s com dois decilitros de vinho branco seco e fazer o molho que acompanhará os peitos de frango ao forno. Os ditos peitos de frango não devem ser daqueles enormes, é preferível escolher os de tamanho médio, temperá-los bem, de ambos os lados, com limão, um pouco de alho e sal. No fim colocam-se na travessa onde antes já se deitou o molho de mostarda. E, para finalizar, deita-se em cada um dos peitos de frango uma colher de sopa de mel e, por cima, polvilha-se com um pouco de Colman’s em pó, espalhada sobre o mel. Vai ao forno a 180ºdurante cerca de 20 minutos e no fim liga-se o grill cinco minutos só para tostar um pouco. E pronto.

 

DIXIT - “A verdadeira obra de arte do primeiro-ministro foi ter conseguido desvincular-se, ele e os seus ministros, do governo de Sócrates” - António Barreto

 

GOSTO - Da nova série de “Twin Peaks”, de David Lynch

 

NÃO GOSTO - Edificaçoes de uma cidade romana do século II, à beira da Ria Formosa, foram reduzidas a cacos para construir uma casa particular com o beneplácito da Câmara de Tavira.

 

BACK TO BASICS - “Os verdadeiros líderes vivem vidas paradoxais, em que se veêm obrigados a quebrar regras para as poderem manter” - Beau Willimon, argumentista de “House Of Cards”.

 

 

 

 

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publicado às 13:30

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ÉPOCA - Este ano é com o Verão à porta que regressam as greves, depois de muitos meses de acalmia. Um amigo com quem almocei esta semana tem uma explicação, que me pareceu plausível, para a nova sazonalidade destas movimentações sindicais de peças fundamentais da administração pública, como o ensino e a justiça: o orçamento está em fase de preparação nos próximos meses e o objectivo dos parceiros do Governo é encontrarem mais dinheiro para a máquina do Estado. Estas greves são um sinal a António Costa e uma chamada de atenção a Centeno. Depois do cheque branco que o PCP e Bloco entregaram ao PS pós eleições de 2015, começam agora a vir as faturas. A grande incógnita está em saber o que a habilidade política de Costa conseguirá, estando os seus parceiros notoriamente nervosos e a quererem todos os dias mais uma fatia do bolo da recuperação das contas públicas. É tão engraçado ver como o estado de hibernação foi suspenso aos primeiros calores e como agora as coisas se vão agitando. O jogo tem permissas simples: Costa precisa de uma legislatura completa e com resultados visíveis em termos de cumprimento das regras europeias para tentar a maioria absoluta, ou um resultado que o deixe menos nas mãos do Bloco e do PCP. E os “compagnons de route” temem pelo seu eleitorado que começa a ficar irrequieto e acham que já é tempo de receberem o prémio de bom comportamento. Os próximos meses, até á entrega do Orçamento de Estado, vão ser muito curiosos de seguir.

 

SEMANADA - As mortes por overdose de drogas aumentaram na Europa pelo terceiro ano consecutivo e em 2015 atingiram 8400 pessoas; um estudo divulgado esta semana indica que o mercado das drogas ilícitas na União Europeia movimenta cerca de 24 mil milhões de euros por ano;  o laboratorio de polícia científica da Judiciária identificou em Portugal o aparecimento de 80 novas drogas em seis anos; em 2016, pela primeira vez em quatro anos, o Partido Socialista conseguiu um saldo financeiro positivo de 250 mil euros; a venda de casas penhoradas pelo fisco está a cair mais de 40% em comparação com o ano passado; entre 2007 e 2016 Portugal ganhou uma média de 40 mil novos cidadãos por ano, segundo um estudo do Observatório das Migrações que salienta que a maioria tem origem em países onde se fala português; o consumo de refrigerantes caíu com a nova taxa sobre produtos com açúcar e, no caso das bebidas mais açucaradas, a quebra foi de 72%; segundo a Marktest durante o mês de Abril  foram visitadas 298 milhões de páginas de sites de informação nacionais e o tempo total de navegação nestes sites superou as 4,8 milhões de horas, uma média de 1 hora e 28 minutos por utilizador, o que significa um aumento de 5.6% no número total de horas e de 12.8% no número de horas por utilizador, quando comparados com o mês homólogo do ano anterior; verificaram-se oito acidentes mortais com tratores em 15 dias.

 

ARCO DA VELHA -  Os professores marcaram greve para o dia em que se realizam exames de matérias que andaram a ensinar aos seus alunos.

 

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FOLHEAR - Carlos Quevedo é o mais português dos argentinos. Nasceu em Buenos Aires em 1952 e, em 1978, renasceu em Lisboa depois de ter andado  por diversas paragens. E por cá ficou, a fazer teatro (encenou peças de Beckett, Ibsen e Pinter), dedicou-se à escrita, teve responsabilidades em “O Independente” e na “Kapa”, viu televisão para a “Visão” e de há alguns anos para cá apaixonou-se pela rádio - desde 2015 é o autor e produtor do programa “E Deus Criou O Mundo”, na Antena 1, onde procura fomentar o debate inter-religioso. Vai daí, pegou no conceito e no nome do programa e fez este livro, que aborda três das religiões historicamente mais representativas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. O livro tem uma abordagem histórica das origens destas religiões, a partir de um tronco comum, com origem em Abraão. Como Carlos Quevedo escreve, “só com o diálogo inter-religioso podemos conhecer o mundo diverso e semelhante dos homens de fé”. E sublinha: “Ter o mesmo Deus é o que os une, mas fazer a sua vontade na Terra parece ser a grande divergência”. O livro está organizado em quatro partes : as duas primeiras abordam o enquadramento das religiões, e a terceira mostra as posições que as três religiões têm sobre a vida dos crentes, na família, no casamento e no divórcio e, finalmente, como o judaísmo, o catolicismo e o islão encaram a morte. Este é um livro que permite descobrir os pontos comuns - e as diferenças - entre estas três religiões. “Conhecer os credos é conhecer a humanidade”, como Carlos Quevedo escreve já no final do livro.

 

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VER - A recomendação da semana vai para o novo encontro proposto na Fundação Julio Pomar. Desta vez é entre o próprio Pomar e Pedro Cabrita Reis, que se encontram sob o título “das pequenas coisas”, numa exposição que ficará até 8 de Outubro no atelier-museu na Rua do Vale 7, no Bairro Alto. Esta série de encontros tem por objectivo cruzar a obra de Júlio Pomar com outros artistas por forma “a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade” - o convidado anterior foi Julião Sarmento. “das pequenas coisas” recorre a objectos, esculturas e assemblages, em materiais variados. Pedro Cabrita Reis mostra uma série de esculturas e objectos feitos com materiais de várias proveniências, nomeadamente materiais encontrados na rua e na praia, ocupando todos os espaços do atelier-museu, incluindo o caminho de acesso do edificio recuperado por Álvaro Siza, que até aqui não tinha sido ainda utilizado como área expositiva. A informação da exposição salienta que “foi também na praia, durante um período de quatro meses de férias e trabalho no Algarve, no Verão de 1967, em Manta Rota, que Júlio Pomar começou a produzir assemblages de objectos e materiais aí encontrados, corroídos e desgastados pelo sal, pelo sol, pelo tempo”. A curadoria é de Sara António Matos, que é a directora do atelier-museu desde 2012. Outras sugestões: na Galeria Ratton - Helena Lapas expõe até final de Julho “Matéria do Tempo” (Rua da Academia das Ciências 2C); e até dia 18 ainda pode ver “Pai”, de Paulo Brighenti, na Ermida de Nossa Senhora da Conceição, Travessa do Marta Pinto, por detrás dos Pastéis de Belém.

 

E finalmente, num registo diferente, este sábado, às 16h00 mais uma sessão do ciclo “Grandes Clássicos no Grande Écran do Grande Auditório do CCB “ - no ecrã vai passar “Cleópatra”, o filme de Jospeh L. Mankiewicz com Elizabeth Taylor, de 1963, em nova versão digital restaurada.

 

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OUVIR - João Gil tornou-se conhecido quando, em 1976, fundou os Trovante com Luis Represas, Manuel Faria e João Nuno Represas. Os Trovante fizeram canções que marcam a história da música popular portuguesa e João Gil compôs muita da sua música. Mais tarde criou os Moby Dick, compôs a Ala dos Namorados, esteve no projecto Rio Grande, Cabeças no Ar, Filarmónica Gil, depois os Baile Popular e o Quinteto Lisboa, entre outros. Grande parte da sua obra mais conhecida vem do tempo dos Trovante e da Ala dos Namorados. Luis Represas, João Monge, Carlos Tê são alguns dos co-autores das suas mais célebres composições. “João Gil Por…”, um duplo CD agora editado, recolhe 26 canções assinadas por João Gil, aqui interpretadas por outros nomes - 32 convidados para ser exacto. Permito-me destacar a maneira como Carlão e Lúcia Moniz reinventam a “125 Azul”, como “Tatanka” faz redescobrir “Fim do Mundo”, como Luísa Sobral dá a volta a “Postal dos Correios” ou Héber Marques canta “Solta-se o Beijo”. Destaque ainda para a simplicidade de Miguel Araújo em “Senta-te Aí”, para Jorge Palma em “Dezembro”, para Celina da Piedade (com o próprio João Gil) em “Timor”, e para João Pedro Pais e Márcia, respectivamente em “Providência Cautelar” e “Memórias de um Beijo”. Os discos de versões podem ser um exercício perigoso. Este correu muito bem. CD Warner.

 

PROVAR - Quando era miúdo não gostava nada de côco. Os bolos de côco enjoavam-me, o côco ralado fazia-me impressão. Foi graças ao caril que me reconciliei, através do leite de côco, fundamental para que o belo molho resulte. Aos poucos comecei a usar leite de côco em alguns pratos, como alternativa à nata. Esta semana, por exemplo, fiz lombos de salmão no forno com funcho e courgette cortada em esparguete, tudo embebido em leite de côco. Com os ingredientes previamente temperados com limão, gengibre, cebolinho fresco, pimenta e um salpico de vinho branco ficou uma maravilha ao fim de 25 minutos no forno, já com o leite de côco adicionado. A minha rendição ao côco estende-se ao óleo do dito. Experimentem estrelar um ovo em óleo de côco ou usá-lo para untar a placa das panquecas e não quererão outra coisa. Ainda por cima é uma gordura saudável com benefícios provados. E o melhor de tudo é que dá bom sabor aos alimentos que nele são cozinhados, o que nem sempre acontece com alguns bruxedos apresentados como saudáveis.

 

DIXIT -  “Tenho martelo e vou usá-lo com fartura” - Rui Moreira, a propósito dos festejos de S. João, no Porto.

 

GOSTO - Do discurso de aceitação do Nobel, de Bob Dylan, que ele divulgou esta semana e cuja gravação se encontra disponível na internet.

 

NÃO GOSTO - De um sistema judicial que promove investigações com base em denúncias anónimas e em cima do prazo de prescrição.

 

BACK TO BASICS - “Estou convencido que no sótão do Ministério dos Negócios Estrangeiros há uma pequena sala esconsa onde os candidatos a diplomatas são ensinados a gaguejar” - Peter Ustinov

 

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TURISMO - O facto de termos tantos turistas a visitar-nos, não só em Lisboa mas um pouco por todo o país, pode ser incómodo para alguns mas é algo de muito positivo. Faz parte da desconstrução do “orgulhosamente sós”. É certo que nunca gostámos de ser invadidos e sempre expulsámos os invasores - mas a realidade é que os turistas não são as tropas napoleónicas nem os exércitos de Castela. O aumento do número de turistas representa o êxito de esforços desenvolvidos (nalguns casos ao longo de décadas, como em Lisboa, através da ATL), tem o efeito económico que se conhece e permite-nos, sobretudo uma maior convivência e troca de culturas com outros povos. Tudo isto ajuda a estarmos menos isolados e, é claro, mais expostos. Como acontece sempre em situações destas a procura de um ponto de equilíbrio é uma questão delicada e que demora tempo a ser conseguida. Doug Lanski, um escritor de livros e guias de viagem esteve recentemente em Lisboa e sintetizou o problema de forma exemplar: “A cidade pode ter turistas, mas os turistas não devem ter a cidade”. Se os turistas dominarem a cidade ela transforma-se num zoológico em que as pessoas se tornam animais de cativeiro e espécies em via de extinção. Este é agora o problema de quem manda nas cidades - estimulem os visitantes mas acarinhem os habitantes sem ser só com flores e obras. Tudo cresceu muito depressa - sobretudo desde que os voos das low cost tornaram destinos periféricos (em relação à Europa central)  como Lisboa, o Porto, os Açores e a Madeira em destinos acessíveis. A mina de ouro foi descoberta e a corrida às pepitas está em pleno. O ponto principal é evitar que se esgote o filão. Essa, creio, é a próxima etapa - que há-de passar por conseguirmos ter uma oferta cultural, nomeadamente expositiva, mais variada e atraente.

 

SEMANADA - A venda de automóveis aumentou 15,8% no ano passado; no primeiro ano em vigor das novas regras da carta por pontos nenhum condutor foi punido com formação e nenhum ficou sem carta, apesar de quase duas dezenas terem condições para isso; um estudo da Direcção Geral do território mostra que no último quarto de século 1,1 milhões de hectares mudaram de ocupação e que o país está mais urbano, mais florestal e menos agrícola; segundo dados divulgados esta semana 19 dos 20 maiores projectos apoiados pelo Portugal 20/20 são de natureza pública e apenas um é privado; na maior parte dos casos analisados num estudo agora divulgado, um presidente de Câmara impedido de  voltar a concorrer pela lei de limitação de mandatos gasta menos no último ano da sua gestão do município; dados divulgados esta semana indicam que 20 idosos são agredidos semanalmente quer em roubos quer no contexto de violência doméstica e só no ano passado mais de 1000 idosos foram violentamente agredidos; nos últimos seis anos 427 pessoas pediram para mudar de sexo e de nome no registo civil e deste total há 28 homens com mais de 50 anos que fizeram operações para mudar de sexo e quatro mulheres foram operadas com o mesmo objectivo; segundo o estudo netScope da marktest em Abril 55% do tráfego de internet foi gerado por PC’s (desktop ou portáteis e 45% por equipamentos móveis (39% de smartphones e 9% de tablets).

 

ARCO DA VELHA - Um homem de 22 anos, detido por violação, dedicava-se a vender estimulantes sexuais pela internet a partir da cadeia da Carregueira, onde está preso, e fornecia outros detidos.

 

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FOLHEAR - António Pinto Ribeiro tem desenvolvido nos últimos 25 anos uma actividade significativa no estudo de questões relacionadas com políticas culturais e com a divulgação de diversas formas de arte contemporânea, nomeadamente de África e da América Latina. O seu trabalho na Gulbenkian, em torno do projecto “Próximo Futuro” e a programação de Lisboa enquanto Capital Ibero-Americana da Cultura, que está a decorrer, são o mais evidente sinal dessa actividade. Nos últimos quatro anos dedicou-se a analisar África a partir da representação literária dos seus quatro grandes rios - o Niger, o Zambeze, o Nilo e o Congo. O objectivo foi estudar como a literatura de viagens dos  séculos XVIII e XIX olhou para as geografias dessa época e, depois ( e fundamentalmente) como no final do século XX e início do século XXI quatro escritores olharam para esse mesmo espaço - Ryszard Kapuscinski, Gianni Celati, Pedro Rosa Mendes e Paul Theroux, que escreveram entre 1958 e 2002. António Pinto Ribeiro recorda no primeiro capítulo que ao longo do século XX África deixou de ser um continente maioritariamente sob domínio colonial de nações europeias, passando a ser composto por 54 países independentes, num processo complexo, por vezes violento. Mostra como a partir da década de 70, em África nasceu e desenvolveu-se uma produção cultural contemporânea que aos poucos começou a ser reconhecida fora do continente. O livro enquadra a História recente com o trabalho dos autores evocados, mostrando ainda excertos do que escreveram. “África - Os Quatro Rios” tem uma capa soberba feita a partir de uma fotografia de Pieter Hugo, um notável fotógrafo sul-africano que foi exposto em Portugal pela primeira vez precisamente numa das edições de “Próximo Futuro”. Edição Afrontamento.

 

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VER - O British Bar existe há mais de 100 anos junto ao Cais do Sodré, à época terra de marinheiros, numa zona onde há meio século abundavam os escritórios de transportadores marítimos, despachantes e  transitários e de representações de empresas estrangeiras. Quando a cerveja Guinness era quase desconhecida em Portugal já ali existia, bem tirada, com o sabor acre único que ela tem. Pedro Cabrita Reis habituou-se a frequentar o local quando era aluno de Belas Artes e não mais o largou, lugar de eleição para aperitivo, dois dedos de conversa ou contemplação pura e simples. Deve ter sido num desses momentos de contemplação que se lembrou de propôr aos proprietários do espaço que as três pequenas montras verticais, nos lados e centro da fachada do estabelecimento, pudessem ser aproveitadas para expôr obras de artistas que o próprio Cabrita Reis iria escolher e convidar. Assim nasceu a ideia do britishbar#, com novidades anunciadas para a última sexta feira de cada mês, até Dezembro. Na semana passada foi a segunda mostra e lá entraram duas esculturas, de Vasco Costa e Ana Jotta, e uma estante de Álvaro Siza Vieira. São de Pedro Cabrita Reis estas palavras, que explicam o que está a fazer: “Os espaços convencionais não me interessam. O que quero é fazer coisas fora da caixa, capazes de apanhar as pessoas que gostam de arte e, neste caso, as que só querem beber um copo ou ver um jogo.”

 

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OUVIR -   Tenho para mim que Miguel Araújo é o melhor compositor-intérprete da sua geração. É um contador de histórias - porque cada canção há-de ser um episódio. Escreve com humor, fala de coisas de sempre e de coisas actuais, e ainda por cima escreve muitíssimo bem em português - sabendo-se que escrever português para ser cantado é um exercício bem difícil. Miguel Araújo domina a técnica e mostra o sentimento. “Giesta”, agora lançado, é o terceiro disco a solo deste ex-Azeitonas e atrevo-me a dizer que é o melhor conjunto de canções de Miguel Araújo - talvez por ser, como ele próprio reconhece, o mais autobiográfico dos seus trabalhos. Para além dos Azeitonas, Miguel Araújo é parceiro habitual de António Zambujo, com quem recentemente fez uma série de concertos que foram um sucesso de público. Mas voltemos a este “Giesta” - cujo nome evoca a zona da Maia onde passou a infância. O disco é cheio de memórias, como a faixa “Axl Rose” que conta como Araújo viu, à distãncia do relato da irmã, a aparatosa queda do guitarrista dos Gun’n’Roses no concerto do estádio José Alvalade. As minhas canções favoritas são “Sangemil”, “Lurdes Valsa Lenta” , “Maria da Glória” e “1987”, que inclui um dueto com Catarina Salinas (dos Best Youth). Giesta, CD Warner, disponível no Spotify.

 

PROVAR -  Um dia destes um amigo perguntava-me porque é que eu andava a falar mais de petiscos, de receitas, de produtos e ingredientes do que de restaurantes. A resposta é que ando desanimado com a necessidade de falar dos novos restaurantes que vão abrindo. Penso que muitos desses novos restaurantes estão a posicionar-se, voluntária ou involuntariamente, como exercícios de comunicação efémeros, com um prazo de validade limitado, muitas vezes com uma rápida degradação da qualidade, e que vivem mais de cenários do que de consistência. Por isso volta e meia regresso a alguns dos meus clássicos, onde a qualidade se mantém e onde o serviço é sempre simpático. Alguns deles até são relativamente recentes, como a “Casa de Pasto”, no Cais do Sodré, onde em boa hora voltei esta semana. Confesso que nem é sítio onde vá com uma frequência desmedida, mas cada visita que fiz correu bem. É comida bem confeccionada, frequentemente com um toque de saborosa imaginação. O chef é Hugo Dias de Castro e notam-se as suas origens nortenhas na comida caseira e no tempero e evita os jogos florais do empratamento minimalista que dão cabo de muitos locais. Gosto do ambiente, da decoração que nos faz pensar estar numa sala de jantar familiar, da simpatia da equipa. Nesta visita provou-se uns secretos invulgarmente bem confeccionados, acompanhados por batata frita na hora às rodelas finas (excelentes) e um polvo com picadinho de legumes acompanhado de legumes no forno. Era terça-feira e penso que seríamos os únicos portugueses na sala. E tudo correu bem. Rua de S. Paulo 20-1º, telefone 963739979

 

DIXIT -  “Quem cá mora tem de ter um regime de protecção, porque são moradores da cidade, porque pagam aqui os seus impostos” - Luis Natal Marques, Presidente da EMEL, sobre a utilização de automóveis particulares em Lisboa.

 

GOSTO - Da edição em DVD, já disponível nas bancas de jornais, de “Paula Rego- Histórias & Segredos”, o belo filme de Nick Willing que estreou recentemente.

 

NÃO GOSTO - O consumo de tabaco gera 32 mortes por  dia em Portugal,segundo a Fundação Portuguesa do Pulmão.

 

BACK TO BASICS - “A arte do compromisso é conseguir partir um bolo de forma a que toda a gente fique com a sensação de ter a maior fatia” - Ludwig Ehrard

 

 

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