Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Fazer para só alguns verem

por falcao, em 03.02.12

COMUNICAR CULTURA - A presidência da União Europeia cabe agora à Dinamarca. É muito interessante seguir o esforço de divulgação da cultura e da criatividade dinamarqueses, com um programa de 150 eventos, centrados em torno do cinema e do património mas com uma forte componente de ligação industrial em torno do design. É muito interessante ver como a Dinamarca aproveita uma circunstância política, a presidência da União Europeia, para fazer uma demonstração de pujança criativa. Mais interessante ainda é a forma como a promoção de toda esta actividade está a ser feita. De facto, o sentido do programa criado é chamar a atenção do exterior sobre a cultura Dinamarquesa e não um mero acto interno de celebração. Eu acho que é assim que as coisas devem ser: comunicar, trazer mais gente. Quem acompanha os preparativos de Londres para os Olímpicos, vê a preocupação em fornecer motivos de interesse para além dos Jogos a quem queira visitar a cidade este ano. Vem tudo isto a propósito da forma como em Portugal uma série de acontecimentos são executados. Tomemos o caso de Guimarães Capital da Cultura. Tem uma programação interessante, mas tem uma divulgação completamente virada para dentro – em vez de aproveitar a circunstância de ser a Capital Europeia da Cultura e procurar divulgar internacionalmente a imagem de uma cidade, de uma região e de um país, fecha-se no conforto de satisfazer os públicos locais. É importante, certamente, mas não é tudo. Esta falta de aposta na divulgação internacional é um já antigo pecado das instituições portuguesas ligadas à Cultura. Numa época de informação instantânea e global, é confrangedor como se dá tão pouca importância a este aspecto fundamental. Sem uma política de comunicação e divulgação eficaz muito do esforço financeiro realizado não tem sentido, não é reprodutivo nem para a cidade, nem para a região, nem para o país. Fazia sentido que, apesar das contingências que todos conhecemos, se guardasse uma parte dos orçamentos para a divulgação - senão estamos sempre a trabalhar em círculo fechado para os mesmos públicos, e esto é um dos grandes desperdícios do investimento do Estado nesta área, seja em iniciativas pontuais seja em instituições oficiais.


 


APAGÃO – Até ao fim do mês de Fevereiro grande parte da população portuguesa ficará sem o tradicional sinal hertziano de televisão – é o apagão que traz a Televisão Digital Terrestre, que em Portugal é um saco de promessas inteiramente vazio. No final deste processo vai ser interessante analisar o aumento de clientes nos fornecedores de televisão por assinatura, nomeadamente o MEO e a ZON. Em muitas regiões estão a registar-se novas adesões a estes operadores a um ritmo invulgar – o que se explica por ofertas promocionais de baixo custo e que, essas sim, proporcionam uma diversidade e variedade que a TDT devia oferecer e não oferece. Recordo que hoje em dia, na oferta básica do Cabo, existem, para além das televisões generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI) mais oito canais nacionais de acesso geral e gratuito  (SIC Notícias, SIC Mulher, SIC Radical, RTP N, RTP África, RTP Memória, TVI 24 e Económico TV), para além de uma série de outros canais programados para Portugal, desde o Panda ao Hollywood, passando pela MTV, os canais Fox, o AXN, o National Geographic, o História o Biography, etc. E já nem falo de canais com preço extra, como os da Sport TV. Acontece que estimativas modestas apontam para um aumento considerável do número de espectadores que, no final deste processo (vamos dizer no final do primeiro semestre, quando as coisas estabilizarem), deverão estar entre os 65 a 75% do total do universo de telespectadores. Ora isto quer dizer que centenas de milhar de pessoas passam rapidamente de uma escolha entre quatro canais para uma escolha para pelo menos meia centena de programas diferentes, apenas por decidirem aderir à TV por subscrição em vez de usarem a TDT. O efeito prático disto é que inevitavelmente as audiências dos quatro canais generalistas vão cair mais depressa do que se pensava – e o país vai andar a duas velocidades dramaticamente diferentes. Eu aposto que quando o processo estiver estabilizado e o novo sistema de medição de audiências estiver a funcionar (se conseguir funcionar, mas isso é outra história…) teremos, no universo dos utilizadores de TV por subscrição, o canal líder nos 20% de audiência e a RTP por volta dos 15%. É um mundo novo, que há-de ter consequências…


 


SEMANADA – Com uma assustadora frequência  um político profissional arranja maneira de nos fazer desconfiar mais ainda da política – desta vez foi José Lello, o deputado e ex-governante que admitiu candidamente ignorar que devia declarar todas as suas posses (nomeadamente um deposito de mais de meio milhão de euros) e não apenas algumas; é muito significativo que a justiça tenha sido o sector em que o Governo pediu à troika um adiamento do prazo para a implementação das medidas da reforma; é o mesmo sector em que uma lamentável cerimónia de abertura do ano judicial foi o retrato perfeito de um sistema que não funciona e está mais entretido com guerrinhas internas do que em garantir um serviço público eficaz; a Câmara Municipal de Lisboa quer construir um estacionamento de três andares junto do Largo do Corpo Santo, ao Cais do Sodré, com um custo previsto de 4,5 milhões de euros.


 


ARCO DA VELHA – O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça avisou que os cortes orçamentais podem conduzir a um novo PREC. Não se sabe se antes desta afirmação combinou alguma coisa com Otelo Saraiva de Carvalho.


 


PALAVRAS - «Planificar, separar o essencial do acessório e racionar. Três coisas que não podemos evitar fazer no Serviço Nacional de Saúde para o conseguirmos manter» - Manuel Sobrinho Simões, numa entrevista ao “Público”.



LER – Na edição de Fevereiro da Vanity Fair a capa é uma fotografia, feita por Annie Leibowitz, de um trio de arromba: George Clooney, Matt Damon e Daniel Craig. Lá dentro, retratos de cada um, ao lado das respectivas respostas ao questionário de Proust. Outros pontos altos desta edição: um excelente artigo sobre os últimos tempos da vida do pintor Lucian Freud nos últimos tempos, uma investigação sobre a vida de Rebekah Brooks, a ex directora do “News Of The World” e braço direito de Rupert Murdoch e uma curiosa análise do perfil político do candidato Mitt Romney e da sua relação com o Partido Republicano.


 


VER- Em «J.Edgar», o filme que retrata a vida do homem que durante dezenas de anos comandou o FBI, Clint Eastwood, que produziu e realizou o filme, vai ainda mais longe na sua observação da história recente dos Estados Unidos. O tema é o jogo de mentiras entre os políticos e a sociedade, a troca de favores entre poderes e aquela enraizada atitude de não olhar a meios para atingir determinados fins. É um olhar frio, cortante, que sem chavões diz mais do que vários documentários propagandísticos que estiveram em moda nos últimos anos. Leonardo di Caprio tem um desempenho extraordinário no papel de J. Edgar Hoover – longe vai o tempo do “Titanic”. O filme é um exemplo do que é o cinema no seu melhor e mais simples: um argumento solidamente escrito, interpretações e direcção de actores irrepreensíveis,  uma história bem contada.


 


PROVAR – Só para dizer que já há lampreia. E da boa.


 


OUVIR- O pianista Hank Jones tinha 91 anos quando, em 2010, efectuou a sua última gravação, com o contrabaixista Charlie Haden. «Come Sunday», o CD que resultou desta sessão de gravação, é uma colecção de espirituais, todos eles clássicos. Já em 1995 este duo se tinha juntado para fazer «Steal Away», também marcado pelos hinos gospel. É curioso notar que o passado de Haden inclui colaborações com nomes como Ornette Coleman, muitas em terrenos experimentais – mas nestas gravações com Hank Jones existe um sentimento de emoção e reverência que marca a interpretação destas faixas de uma forma tão simples e elegante que permite redescobri-las, nomeadamente em temas como “Give Me That Old Time Religion” , “Going Home” , “God Rest Ye Merry Gentlemen” e “It Came Upon a Midnight Clear” mostram todo o talento destes músicos. (CD Emarcy/Universal).


 


 


BACK TO BASICS – É melhor falhar na originalidade do que ter êxito na imitação – Herman Melville.


 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:15



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2003
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D