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A AVENIDA PODIA SER DIFERENTE

por falcao, em 06.03.12

Há quase uma década o arquitecto norte-americano Frank Gehry foi convidado para fazer o projecto de transformação do Parque Mayer. Incluiria um Casino (que mais tarde foi parar à zona da Expo), salas de espectáculos, zonas de lazer, uma academia de formação de artes cénicas e também a reinstalação do Hot Clube.


 


Os desenhos do projecto, que eu conheci, tinham a marca inconfundível do célebre arquitecto norte-americano. Eram arrojados, integravam-se no local, respeitavam a envolvente do Jardim Botânico. Ofereciam soluções para as várias funcionalidades que se pretendiam. Os novos edifícios seriam certamente um pólo de atracção. O movimento que toda esta zona geraria – Casino, Teatros, auditóriois, restaurantes, teria tido um enorme impacto, positivo, na Avenida.


 


Lembrei-me disto quando há dias um amigo meu, que não vive em Portugal há muito, comentou como a cidade está mortiça à noite e como a Avenida da Liberdade, mesmo sendo a principal artéria da cidade, praticamente morre depois das 21h00. Falei-lhe neste projecto, abotado por razões mesquinhas e políticas. Hoje em dia é evidente que seria bem melhor ter o Parque Mayer já recuperado (nesta década que entretanto decorreu o projecto teria ficado pronto) e avenida dinamizada, viva e pulsante.


 


Puxei um bocadinho pela memória e lembrei-me de alguns factos curiosos: em primeiro lugar, o projecto era auto-sustentável e estava coberto pelas receitas das contrapartidas do próprio Casino; em segundo lugar existia um genuíno entusiasmo de diversas entidades ligadas à produção de epsectáculos; e em terceiro lugar recordei-me que tudo foi abortado por um veto presidencial directo ao diploma que viabilizava a montagem de toda a operação. Esse veto, lembrei o meu amigo nessa conversa, veio do Presidente de então – Jorge Sampaio. Mais um dos seus feitos que fica para a História.


 


(Publicado no diário Metro de 6 de Março)

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publicado às 10:56


2 comentários

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De Hugo Correia a 06.03.2012 às 16:27

Jorge Sampaio, de facto, acabou por ajudar a que o "circo" em redor do projecto de Frank Gehry chegasse à cidade, e contagiasse o país. Aquilo que podia ser a concretização de um bonito sonho, continuou, e ainda continua, como um pesadelo por resolver. Quantos é que gostam do Parque Mayer tal como está? É uma pena que este projecto não tenha vingado.
Agora, se me permite, deixo o testemunho, na primeira pessoa, de alguém que viveu ainda mais de perto todo este processo...

«[...]Existem vários tipos de património. Também o Parque Mayer, pelo que representa para os artistas e para a história da cidade, é património de Lisboa. Por isso o incluí na elaboração do Programa Eleitoral de 2001 e no trabalho que procurei desenvolver entre 2002 e 2005.
A ideia de ali ser construído um casino para financiar a reconstrução do Parque Mayer surgiu depois de ter encontrado, na gaveta do lado direito da minha secretária de presidente da Câmara de Lisboa, uma carta entre Mário Assis Ferreira e João Soares, a falar sobre a ideia do casino no Parque Mayer. Este projecto tinha sido ponderado em 1989 e não fazia parte do meu programa.
Não digo que essa carta - e uma outra de Xanana Gusmão - tenham sido deixadas ali de propósito. Não sei. Podem ter-se esquecido dela. Mas, enfim, a ideia do casino no Parque Mayer podia ter surgido de outra maneira, podia até ter sido minha ou através da leitura de jornais da época. Mas não foi. Foi dessa maneira, pela carta. E, de facto, era uma excelente ideia. O casino podia ser o pólo de animação nesta zona central da cidade, integrado no Parque Mayer. Não por estar na Avenida da Liberdade mas por ficar integrado numa zona de lazer e de teatro, penso que faria todo o sentido. Foi isso que propus ao XV Governo Constitucional e que o Executivo assumiu.
O primeiro-ministro, Durão Barroso e, principalmente, José Luís Arnaut, como ministro-adjunto, coordenaram o processo. Foi feito e aprovado em Conselho de Ministros o tal Decreto-Lei para licenciar o casino no Parque Mayer. Depois nasceu a polémica. Marcelo Rebelo de Sousa, entre outros, importava-se muito sobre o que aconteceria com os pobres desta zona se ali nascesse um casino. Com essas polémicas à portuguesa, o presidente Jorge Sampaio vetou o plano. Discordava da localização do casino no Parque Mayer. O Governo teve de fazer um novo Decreto-Lei. Entretanto, entre os dois diplomas, tomei a decisão de convidar o arquitecto Frank Gehry.
Não quero entrar em pormenores, mas tive uma conversa com o então presidente da República - que tinha sido meu antecessor como presidente da Câmara de Lisboa - e tive ocasião de dizer que iríamos tentar localizar o casino de outra maneira e que era o arquitecto Frank Gehry que ficaria responsável pelo projecto do Parque Mayer. Quando ouviu falar do nome do arquitecto canadiano, Jorge Sampaio ficou muito entusiasmado com a ideia e disse logo que assim era outra coisa, que havia uma perspectiva diferente, muito importante para Lisboa, e que, então, sim senhor, iria promulgar o Decreto-Lei para o casino em Lisboa.
O Governo apresentou o novo decreto, que foi promulgado. Este encontro que tive com o presidente da República nunca foi tornado público. Ficou entre nós. Já passaram anos suficientes para o poder referir sem pormenores e dizer, também, que o primeiro-ministro estava informado de que me tinha encontrado com Jorge Sampaio. Era presidente do meu partido do qual eu era vice-presidente. Era ainda o primeiro-ministro responsável pelo diploma que ia licenciar o casino e essa conversa com o chefe de Estado também o entusiasmou. Agradou-lhe a ideia da obra ser do arquitecto Frank Gehry.

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De Hugo Correia a 06.03.2012 às 16:28

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Pedi então à minha chefe de Gabinete, Ana Costa Almeida, e à Eduarda Napoleão, para irem a Los Angeles convidar Frank Gehry . Foram e levaram fotografias e plantas do Parque Mayer. Ele ficou entusiasmado e veio cá. Lembro-me que chegou numa sexta-feira à noite, já depois do jantar. Chovia muito. Apesar do número de horas de voo e de ter uma idade respeitável, quis ir directo do Aeroporto para o Parque Mayer.
Lá dentro, o cenário era feérico entre ruínas, a chuva e uma lanterna que permanecia acesa no fundo dos pátios. Corria a última sessão da revista, creio que tinha início às 22h. Entrámos. Uma actriz talentosa de idade madura fazia rir a assistência. Isto não pode morrer! disse-me Gehry , abismado. Estava lá o empresário Hélder Costa e ainda recordo a expressão da cara dele quando me viu, com o arquitecto canadiano, os dois sentados lá atrás.Gehry continuava espantado. Achava impressionante aquela realidade, no centro de uma cidade, capital de um país europeu, em que, ao virar da esquina da avenida principal se entrava na Alice do País das Maravilhas. Parecia mágico, escondido e à espera. Ficou perdidamente apaixonado. Não era só uma questão material, era uma paixão imediata. Os seus olhos brilhavam cada vez que falava do Parque Mayer. Afeiçoou-se muito a Lisboa. Conheceu outros arquitectos portugueses, artistas portugueses, ficou fã e amigo da Marisa.
Diria que é uma dor de alma o que foi feito contra a hipótese de ter o arquitecto Frank Gehry a trabalhar em Lisboa. Provavelmente o centro da capital ganharia muito em animação, em enriquecimento, em capacidade de atracção. Convidaria pessoas para ali morarem e novas lojas para a avenida. Foi uma atrocidade o que fizeram a este projecto. Mas é assim a vida.
Lembro-me de um dia em que Gehry tinha acabado de chegar e lhe disse: O António Pedro vai tomar posse como ministro das Obras Públicas. Quer ir lá a Belém? Ele disse que sim e fomos. Quando o presidente da República nos viu na sala, veio ter connosco, cumprimentou-o e convidou-nos a entrar depois no seu gabinete. Ficou todo contente de ter lá o arquitecto Frank Gehry .
O projecto do casino estava em desenvolvimento. Havia o estudo prévio, a maqueta, aquilo que tinha que ser feito num projecto deste tipo e que seria parcialmente pago pelos privados.
Quando tomámos posse em 2002, havia um projecto do arquitecto Norman Foster , para aquele espaço, com 70 mil metros quadrados de construção acima do solo e mais áreas de construção debaixo do solo onde ficariam os teatros. Em cima, haveria casas, escritórios, torres. Não quis. O que queríamos era os teatros à superfície. Mas, é evidente que, com 70 mil metros quadrados, os privados ganhariam muito mais.
Detenho-me com o Parque Mayer, porque também se trata de património. E por ser património não pode estar ao abandono, degradando-se. É memória da cidade, é memória das pessoas e do teatro. O teatro é um meio de instrução da língua portuguesa e, portanto, essa componente deve ser valorizada. Deve ser prioritária no trabalho de quem governa uma cidade ou de quem lidera a pasta da Cultura, no Governo.
Até o ar condicionado que, em 1991, conseguira que fosse cedido para o Teatro Maria Vitória, como secretário de Estado da Cultura, foi penhorado porque o empresário não tinha dinheiro para pagar as suas responsabilidades. E os actores trabalham sem ar condicionado, o que é extremamente cansativo, sobretudo ao fim-de-semana, com duas representações.
Portanto, é assim a Revista e, também, a Política à portuguesa.»

Pedro Santana Lopes - "A Cidade é de Todos" (2009)

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