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FICÇÃO  – Começo por avisar que qualquer semelhança entre esta história e a realidade só pode ser considerada pura coincidência – é este o aviso que costuma acompanhar alguns filmes, séries e romances. Pois deixado o alerta, vou começar a ficcionar: era uma vez um país em que o supremo chefe já tinha passado dos 70 anos de idade, depois de uma vida de trabalho intensa. Uma carreira política inesperada, agitada, polémica e cheia, repleta de cargos de responsabilidade, em momentos difíceis - tal podia ser o resumo rápido da actividade desse homem nas últimas três décadas. Franzino, nervoso, repentista, o chefe supremo já tinha sido aconselhado por alguns dos seus mais próximos a abrandar o ritmo de trabalho, os mais afoitos sugerindo até que  estava chegada a hora de ele mudar de vida, para evitar que algum problema surgisse no desempenho das suas altas funções. Teimoso e orgulhoso, ele não quis dar ouvidos nem parte de fraco e continuou a fazer o que queria, como queria. Aos poucos aqueles que o observavam mais de perto foram notando umas pequenas falhas aqui, outras ali, alguns desabafos inesperados, que alguns diriam inapropriados das funções. Todos os dias havia indicadores de que o povo já não o aclamava como antes e mesmo o seu círculo mais próximo olhava preocupado para o que se passava. Alguém lembrou que, tal como as estrelas,  era mais importante saber sair de cena no auge, do que viver a decadência. Já havia quem estudasse a situação e traçasse planos: como preparar a paragem, como organizar a saída, como escolher as datas ideais. Os conselheiros sucederam-se e as suas conversas começaram a ser faladas na praça pública. Não demorou muito para que se percebesse que nalguns círculos se preparava a sucessão. O país, atónito, assistia embasbacado a um inédito reboliço – de repente surgiam imensos candidatos ao lugar de chefe supremo. Sentado num cadeirão, um velho sábio olhava para o horizonte e pensava: não há fumo sem fogo.



MOEDA
 - Ontem houve greve. Mais do que uma acção sindical esta foi uma manifestação política do poder do novo líder da CGTP e da forma como ele pretende governar a sua central. Desde 25 de Abril de 1974 até 24 de Novembro do ano passado só tinham sido realizadas em Portugal seis greves gerais. E, de repente, surgem duas, assim de enfiada, no espaço de quatro meses. Ao contrário da anterior, que teve o apoio da UGT, esta foi apenas convocada pela CGTP. Como muita gente já disse esta é uma banalização da greve geral, uma estranha opção de qualquer líder sindical.  Olhando com atenção, e na inexistência de objectivos concretos declarados, percebe-se que o motor desta greve foi propagandístico - toda a acção foi montada para permitir que houvesse o condicionamento de uma maioria por uma minoria, que procurou parar sectores fundamentais como os transportes. Assim, mesmo com um mau resultado em termos de adesão global, com fraquíssima repercussão fora do sector público, cria-se a imagem da ilusão. Olhando friamente para o assunto, esta greve parece-me tão despropositada como as declarações de António Borges, no início da semana, sobre o clima laboral em Portugal. São duas caras de uma mesma moeda – e não é desta moeda, nem destas caras, que precisamos.


 


SEMANADA -  O Observatório da Segurança tem novos dirigentes, eleitos esta semana, incluindo diversos elementos da maçonaria, vários espiões e o Sr. Nunes da ASAE; depois de derrotado nas eleições presidenciais timorenses, Ramos Horta disse que não estava muito motivado; a primavera começou mas o Sporting nem quer ver Paixão; apesar dos aumentos registados o IVA começou a cair em Fevereiro, o que não acontecia desde 2009; impostos sofrem derrapagem de cinco milhões por dia; desemprego atinge 293 pessoas por dia; desempregados inscritos no IEFP aproxima-se dos 650 mil, mais 19,6% que em Fevereiro do ano passado.


 


ARCO DA VELHA – Passos Coelho manifestou preocupação pelo aumento do preço dos combustíveis mas sublinhou que o Governo não podia fazer nada sobre o assunto.


 


OUVIR – Etta James, que morreu a 20 de Janeiro deste ano, deixou atrás de si uma carreira que teve início ainda na década de 50 – embora o seu primeiro disco seja de 1960. Ao longo de cinco décadas percorreu os caminhos do jazz, do gospel, dos blues e da soul music. Era carinhosamente tratada por Miss Peaches e gravou duas dezenas de álbuns de originais. A colectânea que agora a Universal lançou, «The Best Of Etta James», inclui 25 clássicos do seu repertório, entre os quais «I Just Want To Make Love To You», «You Can Leave Your Hat On», «Stormy Weather», «I Got You Babe», «Spoonful», «Light My Fire» ou «These Follish Things». É uma bela forma de recordar Etta James – e de apreciar o seu talento de intérprete.


 


VER  – Esta semana tive uma má notícia, a do fim do Centro Cultural de Almancil – uma iniciativa privada, de um casal franco-alemão, Marie e Volker Uber, que em 1981 abriu as portas. O casal adquiriu uma série de casas na rua da Igreja de S. Lourenço, abriu ligações entre elas pelo interior e transformou os velhos pátios numa área contínua de jardim – entre casas e jardins são quase 4500 m2. No interior, para além da residência do casal, no resto da área de construção, decorriam exposições, conferências, pequenos concertos. No exterior peças de escultura habitavam o jardim que acolhia os visitantes. Era rara a vez em que ía ao Algarve e não queria passar por lá, para ver o que havia. O local era um misto de casa habitada e galeria de artes e encantos, uma espécie de tertúlia permanente onde se podia ficar um par de horas a descobrir o que por ali havia. Lá comprei algumas peças, vi muitas que gostaria de poder ter comprado. Os preços não eram especulativos, muitos artistas em princípio de carreira puderam ali ter as suas obras ao lado de nomes consagrados, alguns deles de artistas portugueses que ao longo dos anos se foram radicando no Algarve. O Centro tornou-se um exemplo de uma iniciativa privada ligada à divulgação das artes. Volker Uber, o alemão que imaginou e criou este Centro, morreu há oito anos. Agora, Marie, decidiu pôr ponto final na aventura. Vai vender o conjunto de casas do Centro e fazer, no dia 7 de Abril, uma festa de despedida, que contará com muitos dos artistas que ao longo dos anos ali expuseram. No dia da festa cada um dos visitantes poderá, mediante o pagamento de 100 euros, ter direito ao sorteio de uma peça das centenas de obras do acervo do Centro – desenhos, gravuras, esculturas, cerâmicas. É pena que ninguém tenha querido continuar a obra de Volker e Marie, mas é bonito acabar com uma festa. E até lá podem sempre ver este local único.


 


LER – A “Monocle” de Abril, acabada de chegar aos escaparates, vem carregada de motivos de interesse. Para além de algumas incursões em extravagâncias arquitectónicas e de regime em África, há uma curiosa elocubração sobre o tema do que deveria ser um parlamento ideal. A seguir, depois de umas páginas sobre o melhor de Espanha, que de facto são parte de uma bem imaginada série de artigos de publicidade redigida, há bons artigos sobre a recuperação do centro de Toronto, outro muito engraçado sobre o que é ser jornalista desportivo e ainda uma boa apresentação do trabalho do arquitecto Richard Neutra. Portugal aparece com o café e restaurante Aia, no Porto, e com uma bela reportagem sobre os nossos gloriosos sabonetes Ach Brito. A terminar, a “Monocle” entusiasma-se, com razão, com a apresentação daquilo que a etnia Sami conseguiu fazer, em termos comunitários, na Finlândia. É a volta ao mundo em 180 páginas.


 


PROVAR – Imagine que foi ao CCB e não teve tempo de jantar. No fim do espectáculo dá-lhe um ratinho no estômago e apetece-lhe algo, talvez um bifinho. Pois está em bom sítio – a escassas centenas de metros do CCB fica a Nune’s Real Marisqueira, uma cervejaria onde, além do marisco a escolher ainda vivo, se pode comer um muito apreciável bife especial à Nune’s (que, em querendo, pode ser apenas meio bife), feito como todo o preceito, a preço sensato, e acompanhado de uma bela cerveja – que pode ser servida a copo ou numa caneca metálica fresquíssima que é um dos emblemas da casa. Encerra às quartas e fica na Rua Bartolomeu Dias 120, telefone 21 301 98 99      .


 


BACK TO BASICS – O discernimento consiste em saber até onde se pode ir – Jean Cocteau


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Março)

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publicado às 12:05



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