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REGIME, FALHAS, SUGESTÕES E INDÚSTRIA

por falcao, em 30.04.12

SISTEMA– Este ano a habitual sessão solene comemorativa do 25 de Abril, na Assembleia da República foi marcada, dentro e fora de S. Bento, pela convicção de que existem falhas sérias no regime. Numa situação de crise económica e financeira as coisas ainda pioram. Há 38 anos criou-se a ideia de que o exercício da liberdade conduziria à prosperidade e a uma igualdade de condições para todos. Se tivesse existido cuidado a estudar a História ter-se-ia visto que a liberdade politica não anda de mão dada com a prosperidade e que a igualdade de oportunidades não significa sucesso igual para todos. É em parte a descoberta de que afinal as coisas não são como se pensaram que criou as desilusões que alguns sentem. As desilusões, por outro lado, foram agudizadas porque uma geração de políticos prometeu o oásis e camuflou o deserto, prometeu que os europeus seriam todos iguais e, quando se descobriu que as diferenças continuavam enormes, quis tapar o sol com a peneira das obras públicas, de investimentos e de subsídios e apoios muito superiores às posses do país. Durante décadas os partidos compraram votos nas eleições com promessas muito acima das possibilidades. Durante décadas houve falta de coragem para assumir que, para mantermos a liberdade, teríamos que rever as contas de casa. Assunção Esteves foi certeira, quando, na sessão solene comemorativa do 38º aniversário do 25 de Abril, disse que “a actual crise económica é também uma crise politica, uma crise de sistema.” A realidade é que há 38 anos que o sistema cai nos mesmos erros, que a classe politica se isola cada vez mais do eleitorado, que a abstenção aumenta, que são cada vez mais uma minoria aqueles que efectivamente decidem. A participação cívica é cada vez menor e isso nota-se, não só na politica, mas sobretudo na fraqueza da sociedade civil. Num quadro destes cria-se o desânimo – sobretudo quando o caminho das dificuldades é evidente mas o caminho para sair delas continua sem se vislumbrar. A obrigação dos políticos é indicar esse caminho, explicá-lo, fazer com que todos se empenhem em conseguir concretizá-lo. Gostava de poder dizer que vejo quem esteja a fazer isto.


 


INFLAÇÃO – A inflação de que quero falar hoje tem a ver com as audiências de televisão. Desde que o sistema de medição da GFK entrou em funcionamento, a 1 de Março, criou-se a ideia de que a nova medição comprovava que existia um maior consumo de televisão que nas medições anteriores. Esta era uma boa notícia para os operadores de televisão, que assim se viam com mais ratings e, por consequência, com maiores receitas publicitárias – já que o valor de venda das campanhas publicitárias em televisão é estabelecido em função dos ratings (em termos genéricos, do número de espectadores). Algumas agências de meios chamaram a atenção, desde o início, para o facto de esse aumento de consumo de televisão poder ser ilusório, já que tudo indicava que não estavam a ser devidamente aplicadas as regras de validação de rejeição de “constant viewing” excessivo, nomeadamente a rejeição de indivíduos com consumo seguido de 12 horas de televisão e de visionamentos de um único canal por um período seguido de mais de 8 horas. Ao fim de um mês, e depois de confrontados com uma série de dados concretos, os responsáveis técnicos da CAEM acabaram por reconhecer que existiam problemas nesta área. Uma comparação atenta entre os dois sistemas de medição mostra que se fossem aplicadas pela GFK as regras de “constant viewing” os números relativos ao consumo de televisão entre o sistema da GFK e o da Marktest seriam praticamente iguais. Mas no Cabo existe, de facto, uma diferença assinalável – porquê? - uma análise atenta dos dados permite perceber que existem muitos lares no painel da GFK que não têm televisão por subscrição mas que, de alguma forma, vêem canais cabo, o que certamente inflaciona artificialmente o consumo de cabo. Ou seja, os números do cabo estão também distorcidos. Em resumo, o tal consumo de televisão, afinal não é tão grande como parece. O outro lado desta moeda é que, ao apresentar maior consumo, e em consequência mais ratings, a medição da GFK coloca os anunciantes perante uma inflação real no custo das suas campanhas e, por outro lado, entre os canais de televisão, distorce a realidade e cria expectativas que não se cumprirão. Planear uma campanha de televisão não é um exercício cabalístico e precisa de dados seguros para que exista uma boa relação entre os anunciantes e os meios, ou seja entre os clientes e os fornecedores. É por isso que esta situação é tão incómoda para quem trabalha neste sector – o que se tem passado não é uma guerrilha caprichosa contra uma entidade, mas apenas uma chamada de atenção para o que não está bem e para o que prejudica o mercado publicitário mais ainda do que ele já está.


 


SEMANADA –  Portugal passou a comprar muito menos carros do que aqueles que produz; as consultas nos hospitais psiquiátricos de Lisboa e Porto aumentaram cerca de 15%; Luciana Abreu disse que estava a ser vítima de bruxaria; traduzida por miúdos a dívida do Estado significa que cada português deve 18 mil euros; 7549 casais portugueses têm ambos os cônjuges no desemprego; os resgates dos certificados de aforro no primeiro trimestre atingiram 679 milhões de euros, quase metade daquilo que o Governo previa para todo o ano; a bolsa de Lisboa está nos valores mais baixos dos últimos dez anos;.


 


ARCO DA VELHA – O jantar solene oferecido por Cavaco Silva ao Presidente da República da Polónia teve que mudar de local a poucas horas de se realizar, na quinta feira da semana passada, quando a ASAE interditou a cozinha do Palácio Nacional da Ajuda, obrigando a uma súbita mudança para o Palácio Nacional de Queluz.


 


VER – Experimentem ir a pictify.com, um site construído a partir de reproduções de obras de arte lá colocadas pelos seus próprios utilizadores. É uma variante de  uma rede social para devotos das artes plásticas, mas, em vez de escreverem, os utilizadores vão colocando imagens das mais diversas obras de vários autores, uns conhecidos outros nem tanto. É uma espécie de galeria em que o acervo está em permanente rotação. Fascinante.


 


OUVIR – A série “Unplugged” da MTV começou no final dos anos 80, mas entretanto as versões acústicas tornaram-se banais. Quando uma cantora tão intensa em palco como Florence Walsh aceita fazer uma gravação tão contida como esta, o “Unplugged” volta a ser inesperado e supreendente. Destaque para o dueto com Josh Homme na versão de “Jackson”, para a delicadeza de “Only For A Night” ou “Shake It Out” ou para a intensidade  de uma curiosa versão de “Try A Little Tenderness”. Bem engraçado este MTV Unplugged de Florence And The Machine (CD Island /Universal).


 


FOLHEAR – A revista “The Economist” é sempre uma boa leitura, mas a sua edição de 21 de Abril tem por tema a terceira revolução industrial. Volta e meia a revista edita um “special report” – é o caso deste, que em 14 páginas observa as principais alterações que estão a ocorrer na indústria a nível mundial, desde a proliferação de impressoras 3D que podem fabricar objectos, peças, componentes, até à investigação sobre novos materiais, passando pelo ressurgir da actividade fabril, em novos moldes, nas sociedades mais avançadas. É um relatório muito bem feito, uma leitura apaixonante e com dados e ideias que é fundamental conhecer . Está disponível on line em economist.com na secção “print edition – special report”.


 


PROVAR – Se há petisco que me agrada é uma boa conserva de anchovas. De entre as que são mais fáceis de obter nos supermercados, a minha preferência vai para os filetes enrolados de anchova com alcaparras, conservados em azeite, da marca Minerva – uma inconfundível embalagem com uma dominante amarela e letras encarnadas, elaborada na Póvoa do Varzim pela fábrica de conservas A Poveira. É óptima a solo ou então misturada numa salada, com salmão fumado cortado aos bocadinhos.


 


GOSTO – Da ideia de criar um portal que permita aos alunos universitários saber as saídas profissionais e vencimentos à saída dos cursos.


 


NÃO GOSTO – Da forma como alguns ex-militares se apresentaram como donos do 25 de Abril.


 


BACK TO BASICS – “Não precisamos de visitar um manicómio para encontrarmos doidos” - Goethe


 

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