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A CULTURA SÓ PARA ALGUNS

por falcao, em 27.07.12

COSTUMES - Um texto intitulado “É a falta de cultura, estúpido”, de Clara Ferreira Alves, publicado na edição de sábado passado da Revista do Expresso, agitou as redes sociais. No texto a autora defende a tese de que Portugal tem hoje apenas uma pequena elite que consome a cultura, e lamenta-se de essa elite ser velha e não ter sucessores. É um raciocínio antigo, e muito paroquial., baseado numa noção de cultura ela própria elitista e basicamente reaccionária. É este raciocínio que tem sustentado a existência de iniciativas, instituições, fundações e individualidades que pensam apenas no seu umbigo e nos umbigos dos que lhe são próximos. Noutros pontos do texto a autora insurge-se contra a cultura popular contemporânea, com a sobranceria própria das elites: já há uns anos o Maestro Vitorino de Almeida pregava contra a música pop e apelidava-a com diversos mimos e, hoje em dia, saltita nas ruas de aldeias do norte a dirigir uma população rural que consegue cantar o “All Together Now” dos Beatles num belo spot publicitário da Optimus. Mas a essência do texto de CFA relata somente a percepção, que ela tem, de ser uma parte de um núcleo que se fechou em torno de si mesmo e que foi incapaz de encontrar seguidores e sucessores. O seu texto é o retrato do falhanço de uma geração bem pensante que não conseguiu agir, preocupada que estava em se ver ao espelho. A história da criação artística está ligada à capacidade de comunicar, encontrar públicos e financiamentos, para não ir mais longe, pelo menos desde a Renascença. Os artistas sempre procuraram mercado, no sentido de procurarem quem lhes comprasse – ou pagasse - as obras. Não há que ter medo da popularização da criação artística nem da procura do mercado. Pelo contrário, eu defendo que há é que ter medo dos artistas que não querem ter público e do público que quer ser pequeno e ter acesso exclusivo. Isso é que me preocupa. Nos últimos anos, ou nas últimas décadas, um dos problemas das instituições que apresentam produções culturais, clássicas ou vanguardistas, é a comunicação da sua actividade. A maioria das grandes instituições, ditas de referência, peca por se dirigir sempre aos mesmos iluminados e por não procurar cativar novos públicos. Uma análise primária da comunicação dessas instituições mostra isso mesmo. Não estou só a falar da comunicação jornalística, mas também da comunicação publicitária, que todas fazem, mas que as mais das vezes é executada sem critério, sem qualquer base técnica, acabando por impactar sempre os mesmos, em círculo fechado – os tais que não conseguiram reproduzir-se. Agir assim é como pregar a missa aos convertidos e desistir de encontrar novos fiéis – um curioso paralelo entre a ala mais retrógrada da igreja e as instituições que se gabam da sua presença no mundo da criação artística, clássica ou contemporânea. Se forem ver bem o que nos últimos anos tem sido feito pelas grandes instituições, públicas ou privadas,  nesta área do marketing cultural, perceberão que na maioria dos casos não estudam alvos de público, fazem compras directas de espaço publicitário aos media, muitas vezes sem cuidar nem da eficácia nem do preço, com um sibilino (e incorrecto) racional por trás que é o de, assim, estabelecendo uma relação comercial directa, poderem talvez influenciar positivamente o conteúdo editorial. Não estou a falar de cor quando digo isto, na minha vida profissional já me deparei várias vezes com o assunto. Mas tudo vai dar ao mesmo ponto: não basta escolher e programar em abstracto – é preciso saber que públicos se querem conquistar ou que públicos se querem perder. Quem não consegue renovar públicos deve interrogar-se sobre o que está a fazer mal. Talvez se pensarem, em vez de repetirem chavões, consigam ultrapassar o diletantismo típico das infecundas elites portuguesas.


 


 


  


SEMANADA – No primeiro semestre foram extintas mais 33% de empresas que no mesmo período do ano passado; os manuais escolares do 12º ano custam 200 euros e continuam a ser distribuídos em papel; 50% dos portugueses vêem televisão e navegam na internet em simultâneo; o número real de desempregados já ultrapassa o milhão e, destes, cerca de 300.000 não recebem qualquer subsidio;


quase metade das empresas municipais arrisca fechar por não cumprirem os requisitos da lei; apesar da subida de impostos a receita fiscal diminuiu 3,1% no primeiro semestre; há 374 médicos a ganhar duas vezes num mesmo hospital; a dívida do Estado as empresas  de construção aumentou 147 milhões de euros no primeiro semestre e anda agora nos 1,5 mil milhões de euros.


  


ARCO DA VELHA – Apesar dos aumentos, a receita do IVA caiu 119 milhões de euros no primeiro semestre.


 


VER – Três sugestões de exposições. Em Lisboa, na Galeria Valbom (Av Conde Valbom 89), até final deste mês e no início de Setembro, uma exposição de Nádia Duvall, a vencedora do prémio Banif Revelação de 2008. Intitulada “Árvores Que Caem”, mostra mais uma vez a peculiar técnica de pintura da artista, desta vez  sobre um suporte de organza. O resultado é inesperado e mostra mais uma vez o experimentalismo da artista. A exposição inclui ainda uma série de pequenos desenhos, que têm a cera como uma das matérias primas, e que dão uma outra visão do trabalho de Nádia Duvall. Dando um salto até Algés vale a pena ver a renovada exposição do acervo do Centro de Arte Manuel de Brito e uma retrospectiva de Manuel Baptista. Se está no Algarve vá redescobrir a nova fase da vida do Centro Cultural São Lourenço, em Almancil, desta vez com a gestão a cargo da Galeria São Mamede, de Lisboa, que para lá levou obras do seu acervo,  numa colectiva de pintura e escultura.


 


OUVIR – O meu disco de Verão está encontrado: trata-se de “The Bravest Man In The Universe”, de Bobby Womack, uma lenda do soul (foi guitarrista de Sam Cooke) que reaparece após muitos anos. Amigo de Jimi Hendrix, admirado pelos Rolling Stones (que cantaram a sua “It’s All Over Now”), Bobby Womack reaparece depois de uma descida aos infernos pela mão do produtor Damon Albarn – a voz do velho soulman está em grande forma, o registo é soul incontornável e vale a pena ouvir os duetos com Lana Del Rey em “Dayglo Reflection” e em “Nothing Can Save Ya”, com Fatoumata Diawara, a brilhante cantora do Mali que esteve esta semana em Portugal no Festival Músicas do Mundo em Sines. “The Bravest Man In The Universe” tem 11 canções que povoam estes dias.


 


FOLHEAR – Mais uma sugestão de férias – neste ano de crise, em que dar uma escapadela é mais difícil, “A Arte da Viagem” é uma recolha bem escolhida de textos de Paul Theroux, onde ele conta histórias dos seus 50 anos de viagens, mas também intercalado por citações que reproduz de textos de outros grandes viajantes, como Mark Twain, Bruce Chatwin, Hemingway ou Samuel Johnson, entre outros. Fiquei fã de “As regras de viagem de Murphy” e das “Regras de Reportagem de Rosenblum”. Edição Quetzal.


 


PROVAR – Como a crise provoca uma diminuição do trânsito automóvel na cidade, agora há lugar para estacionar no pequeno largo, junto do Museu Nacional de Arte Antiga, onde fica “Le Chat”, uma bar-restaurante com o melhor entardecer de Lisboa. Experimente a tábua de queijos, escolha um vinho, e deixe-se ficar a conversar e a ver o sol a partir. Jardim 9 de Abril, às Janelas Verdes, telefone 966 537 387, fecha às segundas.


 


GOSTO –  Da exposição que assinala os 45 anos de Corto Maltese em Évora, que inclui cinco dezenas de desenhos originais de Hugo Pratt.


 


NÃO GOSTO – De Vítor Gaspar ter imposto para assessorar as privatizações da EDP e REN uma empresa dirigida por um amigo seu, contra a opinião de elementos da administração da CGD.


 


BACK TO BASICS -  “Na Arte só têm importância os que criam almas, e não os que reproduzem costumes” – Eça de Queiroz. 


 


 (Publicado no Jornal de Negócios de 27 de Julho)

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publicado às 23:32



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