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SOBRE A CONTESTAÇÃO E A ACÇÃO

por falcao, em 17.08.12

CONTESTAÇÃO – A crise não entrou de férias, mas o pais está tão parado que nem os protestos funcionam. Querem ver? – a mais recente manifestação a exigir a demissão de Miguel Relvas reuniu escassas quatro dezenas de pessoas frente à Assembleia da República; no Algarve o protesto contra as portagens na Via do Infante, à porta da casa de férias de Passos Coelho, juntou sete activistas; e o buzinão ao pé do recinto onde decorria a Festa do Pontal, do PSD, tinha cerca de 50 viaturas. Se olharmos para as coisas por outro prisma também se sente a moleza estival – anunciada com pompa e circunstância pelos sindicatos, a greve dos sectores de transportes do passado dia 15 foi um fracasso – o Metro de Lisboa acabou por circular em pleno, na Carris a adesão à greve andou nos 30%, nos STCP mal se fez sentir e apenas na CP ela foi maioritariamente seguida. Se é verdade que o funcionamento dos partidos políticos deixa muito a desejar, está a ficar claro que mesmo aqueles que faziam das acções de rua, de protesto, a sua forma de intervenção politica preferida, estão manifestamente em dificuldades.


 


ACÇÃO – Inicialmente a Festa do Pontal era uma acção de mobilização das hostes laranja – uma romaria algarvia à qual os dirigentes partidários, de férias por aquelas paragens, compareciam em peso e onde se misturavam com os militantes. Agora é apenas uma acção de comunicação, calendarizada e forçada, uma coisa feita para os telejornais e que cria mais expectativa do que produz resultados. Este ano não foi excepção e o essencial do discurso de Pedro Passos Coelho, resume-se a uma ideia que tem repetido: “isto não vai voltar a ser como dantes”. Pois ainda bem que não vai – e embora alguns simpatizantes socialistas gostassem que o tempo voltasse para trás, o fracasso das acções de protesto também mostra que muita gente já percebeu que as coisas mudaram. Dito isto, valeria a pena a governação dizer o que isto vai ser daqui para a frente, independentemente das promessas de retoma e das garantias de prosperidade. Trocando por miúdos – que propõem para o futuro? Que vão fazer para dinamizar a economia? Que vão fazer para reformar o sistema fiscal? E, acima de tudo, que vão fazer para reformar o Estado? - o mesmo Estado que, quer-me parecer, ainda não sentiu verdadeiramente que “isto não vai voltar a ser como dantes”.


 


BICICLETAS - Alguns dos meus leitores irritam-se um bocado –e fazem-me chegar ecos disso - quando eu falo de bicicletas, normalmente criticando as ciclovias de Sá Fernandes em Lisboa. Nada me move contra as bicicletas, mas aborreço-me com aqueles que querem impingir a sua fé a todo o custo. Tenho pouco jeito para ouvir missionários e custa-me ver dinheiro público esbanjado em obras que são muito pouco utilizadas. Mas, acima de tudo, irrita-me a forma como cada vez mais ciclistas se comportam – andam lado a lado, a conversar, ocupando meia faixa de rodagem, não respeitam os sinais vermelhos, aproveitam as passadeiras para contornar o trânsito fazendo zigue –zague entre peões, enfim circulam à revelia de tudo o que o código da estrada indica. Acharão eles que as regras de circulação não se lhes aplicam?


 


SEMANADA – Segundo o “Correio da Manhã”, por alturas do início da Festa do Pontal, o Presidente da República arrumava a toalha e limpava os pés de areia à saída da praia das Belharucas; em contrapartida, mesmo de férias, Cavaco Silva enviou um recado via Facebook ao Banco Central Europeu; o número das pessoas sem emprego em Portugal está perto dos 1,3 milhões; o número dos inactivos que já não procuram trabalho está acima dos 90 mil; o número de pessoas que vivem de biscates e pequenos trabalhos atinge 260 mil; os licenciados sem trabalho já ultrapassam os cem mil; o emprego assalariado caiu 5% desde a assinatura do memorando com a troika; os salários em atraso cresceram 16% no primeiro semestre; a União Europeia tinha 25 milhões de desempregados no final de Junho, um aumento de 9,4% face ao mesmo mês do ano passado.


 


ARCO DA VELHA – No mês de Agosto, em Portugal, são comercializadas cerca de 77 mil embalagens de preservativos, mais 15 mil que a média dos restantes meses do ano e, também no mês de Agosto, são vendidas  23 mil embalagens de pílulas do dia seguinte, mais quatro mil que a média anual.


 


VER – Olhar para a situação social do presente e utilizá-lo como inspiração para a criação artística foi o método a que Susana Gaudêncio recorreu para criar a sua instalação no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado. O título é todo um programa: “Época de estranheza frente ao mundo”. Um vídeo de animação, uma mesa de pinho e zinco e um manifesto impresso em acrílico compõem a exposição, assim descrita por Maria João Gamito no texto de apresentação:Em frente ao ecrã (de frente para o mundo) uma mesa, idêntica às que nessas salas recebem os negociadores, tem o tampo coberto por uma chapa metálica polida, onde são visíveis os vestígios inscritos de aleatórios registos de uma reunião que nunca aconteceu. Do outro lado da mesa, em frente ao mundo, um manifesto, sem tempo, sem lugar e sem verbos, materializado na impressão (prova) à escala real do tampo da mesa, substitui, por sua vez, a imagem da paisagem que nessas mesmas salas é sempre idêntica”. Este trabalho estará exposto até dia 20 de Setembro. Ainda no Museu do Chiado aproveite para ver uma exposição sobre a Art Déco em Portugal.


 


OUVIR – Nestes dias quentes, ao fim da tarde, enquanto o sol se põe, gosto de ouvir guitarra clássica e há um disco que tem andado regular na minha playlist de férias – “Latino”, do guitarrista montenegrino Milos Karadaglic. Ele tem feito carreira com uma aproximação ligeira e popular à guitarra clássica, muito na linha do que tem sido a mais recente política editorial da Deutsche Grammophon, a etiqueta para onde grava. No ano passado descobri-o no CD “Mediterrâneo”, e agora  em “Latino”, ouço as suas interpretações de temas de Astor Piazzola (Libertango), de Villa-Lobos (Mazurka-Chôro), de Gardel (Por Una Cabeza), de Farrés (Quizás,Quizás,Quizás) ou de Matos Rodriguez (La Cumparsita), entre outros. Milos é um virtuoso, mas não se deixa fechar no tecnicismo e evidencia uma capacidade de interpretação que, verdadeiramente, é o que o torna tão interessante.


 


FOLHEAR –Já saíu a edição especial de verão da “Monocle”, a “Mediterrâneo”, em formato de jornal. Apesar de Portugal estar geograficamente fora do Mediterrâneo, lá aparecem umas notas – por exemplo um elogio ao trabalho dos arquitectos Aires Mateus ou um destaque para a cadeia de supermercados biológicos Brio. Outros pontos de interesse são reportagens sobre o renascer da actividade económica na Líbia e sobre o ressurgimento de Marselha, algumas sugestões de restaurantes e suas receitas (do Líbano a Itália), e um belíssimo texto sobre regras básicas de etiqueta a seguir na praia, escrito pelo editor da Monocle, Andrew Tuck – das tatuagens à conversa com o vizinho do lado no areal, ele fala de tudo com um notável humor. E claro que existe também um guia das melhores noites do mediterrâneo.


 


PROVAR – Um dos meus petiscos preferidos de fim de tarde é queijo da ilha, esse maravilhoso petisco feito na ilha de S. Jorge, nos Açores, desde o século XVI. Gosto do seu sabor e da sua consistência. Vai bem com um gin tónico a ver o pôr do sol, cortado em pedaços pequenos. Nem precisa de pão. Sabe bem por si só.


 


GOSTO –   “Bons Sons”, um festival inteiramente dedicado à música portuguesa na aldeia de Cem Soldos, perto de Tomar, a decorrer este fim de semana.


 


NÃO GOSTO – Da lentidão do Estado a pagar as suas dívidas a empresas privadas


 


BACK TO BASICS – Geralmente as soluções que os governos encontram para os problemas são tão más como os próprios problemas – Milton Friedman


 

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publicado às 18:26


1 comentário

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De Ricardo Gonçalves a 23.08.2012 às 02:29

Venho deste modo apresentar-lhe o meu novo projecto. Trata-se de um novo blog que pretende fazer uma análise clara e concisa sobre a actualidade nacional e internacional.
Este projecto surgiu no seguimento do término da minha licenciatura na Faculdade de Economia do Porto (FEP). Sempre me interessei bastante pelas questões macroeconómicas, mas entendi que só após a minha licenciatura estaria preparado para abordar estas questões com o rigor que se lhe exige. Gosto de fazer análises credíveis e baseadas sempre em estatísticas credíveis, como irá reparar ao visitar o blog.

PS: o link do blog é http://ecoseconomia.blogspot.pt/

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