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O CANAL DOS DEPUTADOS

por falcao, em 24.08.12

O TAL CANAL – Os deputados portugueses estão convencidos da sua importância para além daquilo que o bom senso recomenda. Pior: julgam que a populaça se interessa pela sua actividade e arrogam-se a pretensão de poderem educar as massas pelo seu exemplo. Vai daí decidiram estar acima das regras e decretaram que devem ter acesso privilegiado a um canal nesse aborto lusitano em que se transformou a TDT – situação a que se chegou, aliás, muito por culpa da inoperância, ignorância e desfasamento do Parlamento em relação à realidade das coisas no universo audiovisual. Querem que o povo que não tem acesso à televisão por cabo os possa seguir, em directo e diferido, nas diatribes em que passam os dias (hoje em dia aqueles que não têm acesso aos canais de cabo deverão ser menos de 30% do total de telespectadores). A populaça já é suficientemente castigada pelos políticos em funções para ter que gramar com tal frete – mas o pior é a mentalidade que isto revela: totalitária, de uns a decidirem por todos acima das leis, sem se submeterem a concurso ou escrutínio, a usarem um espaço de comunicação a que outros não têm acesso. Se fosse dado um canal na TDT, por atribuição directa, sem concurso nem avaliação, a um qualquer grupo de media dos que até têm meios e experiência para tal empreendimento, não haviam de faltar ilustres deputados a clamar pelo crime de lesa-majestade. Mas quando são eles os protagonistas do abuso, ei-los seguros de quererem ser estrelas da TV, convencidos que o povo irá deixar de ver “Dancin’ Days” para seguir os arrufos de bancadas rivais ou a verborreia de muitos debates parlamentares, mais as piadas de caserna abundantes nas respectivas Comissões especializadas. O Parlamento dá frequentemente triste imagem de si próprio, mas este é um case study de cabotinismo político.


 


O TAL PARTIDO – Francisco Louçã lá decidiu quebrar o tabu que andou a alimentar sobre a sua continuação na liderança do Bloco. Não se contentou em dizer que considerava chegado o momento de sair – o que é um direito que lhe assiste, sobretudo numa altura em que o Bloco está notoriamente em má fase e em que não consegue ter capacidade de resposta face à crise instalada – não aponta alternativas, deixou de ser oposição e nem protesto tem conseguido ser. Mas Louçã não se limitou a sair, quis delinear a sua sucessão, na forma e no conteúdo. Indicou nomes e escolheu um homem e uma mulher, justificando o dueto pela forma natural como a sociedade se organiza – uma posição um pouco homofóbica para um partido que gosta tanto de causas fracturantes. Mas incongruências à parte, o que mais assusta é a evocação dos métodos sucessórios de regimes como da Coreia do Norte, em que o grande líder decide por si só como se irá perpetuar o seu pensamento uma vez que saia de cena.


 


SEMANADA – O número de casais com ambos os cônjuges desempregados quase duplicou em Julho face a igual mês de 2011 e já atinge os 8807 casais, o valor mais alto desde que esta informação é divulgada; o número de portugueses com salários inferiores a 310 euros por mês aumentou 9,4% face a 2011; o endividamento das empresas atingiu em Junho um novo máximo histórico de 182,5% do PIB; 100 a 120 empresas de construção estão em risco de lay off; prevê-se o encerramento de mais de um milhar de empresas de construção até final do ano; 84 mil homens e 54 mil mulheres entraram no desemprego desde o início de 2011; em 2050 haverá em Portugal um trabalhador por cada reformado; quase cinco mil advogados têm em atraso as quotas devidas à sua ordem profissional; os festivais de música perderam 90 mil espectadores neste verão; os preços da gasolina e do gasóleo em Portugal, antes de impostos, são dos mais altos em toda a Europa; a diocese do Porto lançou uma aplicação iPad gratuita, com os horários das missas.


 


ARCO DA VELHA – Abundam os protestos contra a extradição de Julien Assange para ser julgado na Suécia sob a acusação de tentativa de assédio e violação a duas mulheres em Estocolmo – mas rareiam os protestos e manifestações contra a forma como decorreu o julgamento e a sentença decretada no caso do grupo punk russo Pussy Riot, que havia parodiado Putin.


 


VER – Se gostam de fotografia não deixem de visitar o site da histórica agência Magnum(www.magnumphotos.com). Por estes dias vejam a homenagem que a agência colocou on line a uma das suas fundadoras, a fotógrafa Martine Franck, que morreu na semana passada com 74 anos. Aí podem ver uma selecção das suas imagens. A revista online norte-americana Slate também se associou à homenagem com um excelente artigo que evoca a carreira da fotógrafa e mostra igualmente outras fotografias suas.




OUVIR – Nas editoras discográficas há uma categoria de discos de alto risco que geralmente resultam em enormes pepineiras e que são os projectos especiais, tratados pelos departamentos de A&R (artistas e repertório), e que andam à volta de um tema ou de um artista. O objectivo é ampliar a facturação sob a capa da homenagem ou evocação de determinado artistas ou de determinada causa. “A Tribute to Caetano Veloso” tinha tudo à partida para ser uma coisa enfadonha, uma amálgama de boas intenções sem nada mais para celebrar o 70º aniversário do cantor. Felizmente não é isso que se passa e nomes como Chrissie Hynde, os Mutantes,, Beck, Devendra Banhart, Momo, Miguel Poveda, Seu Jorge ou Ana Moura, entre outros, dão boa conta do recado, difícil que era fazerem qualquer coisa de diferente e com qualidade na reinterpretação de 16 temas marcantes da carreira de Caetano Veloso. Conseguiram, e isso não é coisa pouca.  (CD Universal)




FOLHEAR – A edição da revista Time de 27 de Agosto tem um dos melhores trabalhos que já li sobre as mudanças que a proliferação do wireless trouxe ao dia a dia das pessoas. A revista mostra as dez principais formas como a tecnologia wireless, aplicada aos smartphones, tem na nossa vida -  da política (e, neste caso, das eleições americanas) às formas der pagamento (acautelem-se os cartões de crédito), passando pelo entretenimento, o ensino ou a saúde. É um trabalho absolutamente excepcional, que vale a pena aguardar. Os estrategas das campanhas políticas digitais cá do burgo farão bem em ler as páginas sobre o que está a suceder nas eleições americanas. E de uma forma geral todos ganham em ver que todas as fotografias que ilustram estas três dezenas de páginas da revista foram feitas com smartphones – inluindo a capa que resulta de um mosaico de imagens construído a partir de 30 mil fotografias enviadas por leitores à revista via Instagram.


 


PROVAR – Agora que no fim de Agosto as enchentes já são mais pequenas, aventure-se a ter uma refeição estival que não seja de peixe grelhado e, se estiver em Lisboa, dirija-se ao Meco, direito ao restaurante Celmar e peça o arroz de lingueirão. Aguente estoicamente os 20 minutos que a iguaria demora a preparar e depois sorria quando ele chegar. Arroz no ponto, bem temperado de coentros, sem ser espapaçado, com suficientes lingueirões em boa forma (não são daqueles que têm a textura de bocados de borracha de câmara de ar). Se gostar de verde peça uma garrafa de Muralhas para acompanhar – vinho que nunca engana e sempre satisfaz. A casa tem o bom senso de usar frappés de gelo abundante e água e não as mangas raquíticas que em dias de caloraça de nada servem. Rua Central do Meco, telefone             212 683 704      . Fecha às segundas.


 


GOSTO –   Dois jovens portugueses, Andrea Luis e Telmo Moutinho, formados na Escola de Hotelaria e Turismo de Óbidos, obtêm sucesso como pasteleiros em Paris.


 


NÃO GOSTO – 50% dos jovens portugueses apenas conseguem encontrar trabalho temporário.


 


BACK TO BASICS – Um jovem promissor faz bem em ir para a política: assim pode continuar a fazer promessas durante o resto da sua vida – Robert Byrne.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Agosto)

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publicado às 17:29



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