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CONTEÚDOS – Durante alguns anos trabalhei directa e indirectamente com a música e a indústria discográfica e, por dever de ofício, estudei o desenvolvimento dessa indústria, que era considerada, até finais dos anos 80, como um exemplo perfeito da combinação da criatividade com um modelo de negócios eficaz. Como toda a área dos conteúdos, cada nova obra tem uma componente, digamos, de protótipo - por mais estudos de mercado que se façam nunca se tem a certeza absoluta da possibilidade de êxito e popularidade de determinada obra até o público se confrontar com ela. A história da música popular, sobretudo no pós-guerra, está cheia de exemplos de rupturas totais com o saber instituído, as quais se revelaram marcantes do ponto de vista do impacte criativo e da rentabilidade da sua edição. Mesmo alguns artistas e obras que não tiveram sucesso imediato, conseguiram, décadas depois do lançamento de determinado disco, obter um sucesso e uma persistência de vendas que acabou por tornar muito rentável um projecto que parecia condenado ao fracasso. Isto aconteceu porque nessa época as grandes editoras, mesmo as multinacionais, eram dirigidas por gente que reconhecia o talento, que tinha sensibilidade para os conteúdos e que apostava em opções arriscadas – algo que hoje em dia se encontra quase limitado às operações independentes. Quando num processo de consolidação, que ocorreu ao longo dos anos 90, as multinacionais de conteúdos musicais foram tomadas por financeiros e os gestores de conteúdos foram afastados – literalmente removidos nalguns casos - começaram os grandes problemas que levaram a indústria discográfica à crise em que hoje está mergulhada: insensibilidade a novos formatos, resistência à inovação (como no caso da internet), fim de apostas arriscadas, persistência em produtos de êxito fácil e imediato mas com reduzido retorno futuro (como hoje se constata), diminuição da procura de novos talentos. Foi assim, por exemplo, que a EMI, a casa-mãe dos Beatles e de tantos outros, se afundou no meio de disputas entre fundos, bancos e gestores sem rasgo, para chegar a uma situação terrível no início desta década. Esta história vem a propósito da gestão dos conteúdos e do cuidado que deve existir no seu desenvolvimento, sob pena de a cura matar o paciente. Uma discussão que um dia destes por certo ocorrerá por estas bandas.


 


SEMANADA – O PSD desistiu de fazer nova lei eleitoral autárquica; a empresa que vendeu blindados à PSP foi proibida de negociar armas; o mercado de venda de automóveis novos está a cair 40,4% desde Janeiro; entre Janeiro e Junho venderam-se menos 29.500 jornais por dia; vendas de telemóveis caíram 21% no segundo trimestre; em 2011 encerraram 152 agências bancárias; em dois dias desta semana ardeu o equivalente aos concelhos de Lisboa e Odivelas; prejuízos das empresas públicas duplicaram no segundo trimestre do ano e chegam aos 700 milhões; empresas públicas devem 30 mil milhões de euros; o Estado já emprestou 1,7 mil milhões de euros às empresas públicas desde o início do ano; a troika disse que os resultados do programa de ajustamento são da responsabilidade do Governo;  a balança de pagamentos esta semana teve evolução positiva graças às compras efectuadas em Portugal pelos russos do Zenit; o novo co-líder do Bloco deu a primeira entrevista para dizer que “o problema da esquerda é o PS estar poluído por concepções neoliberais”.


  


ARCO DA VELHA – As empresas do sector empresarial do Estado realizaram um conjunto de contratos de derivados financeiros avaliados em 16 mil milhões de euros, os quais em Junho registavam perdas potenciais de 2,5 mil milhões de euros – um buraco superior à derrapagem que se conhece do défice público.


 


 


VER – A exposição “Os Comedores de Batatas” da pintora Maria Beatriz inaugura um mês cheio de exposições interessantes. Na Holanda, terra de acolhimento da artista quando saíu de Portugal, em 1962, nasceu uma obra que tem muitas referências a Van Gogh – e esta série de trabalhos é precisamente inspirada por uma das obras do pintor holandês, “Os Comedores  de Batatas”. Fica até 25 de Novembro no Museu da Electrcidade, na Central Tejo. Para a semana, dia 13, no espaço BES Arte e Finança, na devastada praça Marquês do Pombal, inaugura uma exposição dedicada ao centenário de John Cage e dia 20, no mesmo local, é inaugurada a exposição “Usura”, que agrupa trípticos de Paulo Nozolino. Finalmente no fim do mês na Galeria João Esteves de Oliveira, no Chiado, Pedro Cabrita Reis apresentará novos trabalhos em papel.


 


OUVIR – Austríacos, os Sofa Surfers fazem canções envolventes, onde palavra, ritmo e música integram um todo trabalhado como uma peça de filigrana sonora, feita com cuidado, devoção e electronica comedida. Melodias subtis, ritmos persistentes e as vozes da nigeriana Many Obeya e do vienense Jonny Sass cruzam-se no oitavo album deste grupo, “Superluminal”, editado pela Rough Trade e já disponível em Portugal.  Destaque para os temas “World In a Matchbox”, “In Vain”, “Superluminal” e para o tema de abertura, “Out, Damn Light” que cria desde o início as sonoridades que marcam este disco.


 


FOLHEAR – Mais cedo ou mais tarde tinha que acontecer: a Monocle já tem oficialmente uma imitação. Trata-se de uma publicação francesa intitulada “The Good Life” e que se apresenta, cito, como “Le premier magazine masculine hybride”. Estranho? Se folhearem a coisa vão ficar ainda mais perplexes. Os curiosos de revistas, como eu, recordar-se-ão de uma revista francesa dos anos 70, chamada “Lui”. Isto é, do ponto de vista de conceito editorial e conteúdos, salvaguardadas as distâncias e as diferenças, uma espécie de “Lui”, para pior, mais confusa e com uns toques fingidos de modernidade. As semelhanças com a Monocle esgotam-se na cópia do grafismo, porque editorialmente aqui falta o rasgo que permite à revista de Tyler Brulé dedicar – com graça e saber - uma edição inteira a forças militares por esse mundo fora, como a última que está nas bancas, e aqui referida na semana passada. Um outro paradoxo desta auto-intitulada revista híbrida é o facto de em França custar cinco euros e em Portugal se vender por dez – o câmbio dentro da zona euro anda pela hora da morte.


 


PROVAR – Neste rectângulo à beira-mar plantado temos a tradição de nos queixarmos de que há poucas esplanadas e, quando existem, queixamo-nos do vento – nós e as nossas circunstâncias, como diria um filósofo; por acaso hoje em dia as esplanadas já vão existindo, algumas bem simpáticas. Uma delas é a “Portas do Sol”, no Largo com o mesmo nome, um pouco acima da Sé de Lisboa e perto do Castelo de S.Jorge. Instalada no terraço por cima do parque de estacionamento ali construído há uns anos, com uma vista magnífica sobre o Tejo e o casario de Alfama,  a “Portas do Sol” tem uma sala para os dias mais invernosos, mas é o terraço ao ar livre que verdadeiramente chama a atenção. De um lado está reservado para serviço de restaurante e do outro, o maior, funciona ao longo de todo o dia um serviço de bar onde as mesas alternam com sofás confortáveis. O restaurante é uma boa opção a considerar nestes dias de fim de verão, com as noites a boa temperatura. As propostas são variadas e muito honestas. Não se pode dizer que o local seja um templo da gastronomia, mas está várias estrelas acima da média e justifica bem uma noite bem passada com uma vista de arrasar: por exemplo o caril de frango recomenda-se e o bacalhau à Brás com gambas é uma boa surpresa. A lista de vinhos tem preços razoáveis e o serviço é simpático. Telefone             218 851 299      .


 


GOSTO – Dos resultados dos atletas paraolímpicos portugueses, infelizmente na mesma altura em que foi conhecida a intenção do Governo em retirar benefícios fiscais a cidadãos com capacidades diminuídas.


  


NÃO GOSTO – Da irresponsabilidade do Vereador do Trânsito em Lisboa, Nunes da Silva, que diz que a circulação no Marquês não está “assim tão caótica”.


 


BACK TO BASICS – A televisão possibilita termos a sala invadida por pessoas que em nenhuma circunstância quereríamos ter em nossa casa – David Frost




(Publicado no Jornal de Negócios de7 de Setembro)

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publicado às 12:52



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