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UMA SEMANA DE POLÍTICA NA SARJETA

por falcao, em 14.09.12

POLÍTICA – O que aconteceu nesta última semana foi o expoente daquilo que vinha sendo construído nos últimos meses, e que é uma subalternização da política. É curioso que esta subalternização venha de um Primeiro-Ministro que foi durante cinco anos dirigente de uma organização política de juventude (JSD) e que tem muito tempo de actividade partidária. Dá que pensar se o seu processo de aprendizagem política não terá sido essencialmente virado para dentro, para a movimentação no aparelho partidário e para a consequente intriga palaciana, tudo com o objectivo de conquistar o poder, primeiro na organização, e , depois, onde for possível. Quiseram as circunstâncias que o poder, no país, estivesse maduro para ser colhido. É um exercício de humor negro reler por estes dias o livro “Mudar”, uma espécie de manifesto que Pedro Passos Coelho lançou em Janeiro de 2010, como uma das peças da sua candidatura à liderança do PSD. Quem ler as propostas que estão no livro, ironicamente subtitulado “Passos para a Mudança”, dificilmente acreditará que o seu autor é o Primeiro Ministro actual. O que se passa é que, uma vez cumprido o objectivo de conquistar o poder, se torna evidente que não se sabe como exercê-lo, e sobretudo, se evidencia a anulação da actividade politica, entendida como um diálogo constante com a sociedade, uma gestão de expectativas e um exercício de construção de soluções. Pior que isso, existe uma insensibilidade politica e social, patente não só no tipo de medidas, mas que é também a verdadeira razão de ser daquilo a que alguns chamam “problemas de comunicação”. Esses problemas só existem porque o papel e a importância da actividade politica foram preteridos para o exercício cego do poder - que é a razão de ser do autismo, da substituição da negociação pela imposição e da ponderação pela experimentação. Um dia destes, no PSD, no meio das criticas internas cada vez mais ruidosas, alguém começará a falar da necessidade de um Congresso. O tempo da politica volta sempre – não se consegue exterminá-la.


 


SARJETA – Por um daqueles acasos do destino, no preciso momento em que António Costa mostrava à imprensa as maravilhas do novo Marquês do Pombal, um reformado da construção civil, de 74 anos, que ali passava, apontou a inexistência, na nova obra, de sarjetas - e vaticinou a inevitabilidade de ocorrência de inundações na zona em caso de chuvada. Graças a este homem, Luís Garcia, soube-se que foram feitos 750 mil euros de obras provisórias que não estavam a contar, neste inverno, com a drenagem das águas pluviais. António Costa, que assim gere os dinheiros da cidade, admitiu aliás que o investimento se destinava a experimentar algo que foi baseado em modelos teóricos e que pode até ser anulado – numa curiosa colagem ao método Vítor Gaspar. Dois dias depois da chamada de atenção do reformado começou a ser escavacado o asfalto recentemente colocado, agora para instalação de escoadouros. É uma variante do método tentativa e erro: constrói/destrói. É todo um programa politico para o futuro de Costa.


 


SEMANADA – Portugal está entre os dez países da Europa com as propinas mais altas no ensino superior; a dívida dos municípios à Águas de Portugal disparou 16% no primeiro semestre; o crédito malparado subiu de 10,3 para 15 mil milhões de euros nos primeiros sete meses de 2012, em comparação com igual período do ano passado; a venda de automóveis na China cresceu 8,3% em Agosto; Vítor Gaspar não disse uma única vez a palavra crescimento na conferência de imprensa desta semana;na mesma ocasião o Ministro considerou que não houve rotura do governo com o eleitorado e sublinhou que não lhe passaria pela cabeça fazer experiências com os portugueses; o representante do FMI assegurou que a alteração da TSU não foi uma exigência da troika; os dois últimos jogos da selecção foram antecedidos de anúncios de mais medidas de austeridade – o próximo jogo é dia 12 de Outubro; Miguel Relvas anunciou, no Brasil, que o caso RTP está resolvido mas não disse se pelo lado da privatização ou da concessão; António Barreto garantiu que existem cláusulas secretas nos contratos das PPP’s.


 


ARCO DA VELHA – Agentes da PSP identificaram e intimidaram um cidadão que fotografou um veículo da segurança do Ministro da Defesa, que estava parado em cima do passeio, obstruindo a circulação de peões, frente ao escritório de advocacia do Ministro, no Porto, num momento em que ele se encontrava no edifício.


 


VER – Eduardo Gageiro é um dos nomes incontornáveis do foto-jornalismo português. Começou a sua carreira em 1957 e as suas imagens iluminaram muitas vezes as páginas das publicações do “Século”. Nos últimos anos tem fotografado Lisboa e são essas imagens, a preto e branco, que agora foram recolhidas num livro e numa exposição, “Lisboa Amarga e Doce”. A exposição está na galeria dos Paços do Concelho até 9 de Outubro.


 


OUVIR – Um recente spot de publicidade televisiva evoca uma máquina do tempo. Podia  ter sido inspirado pelo disco evocativo dos 50 anos de  existência dos Beach Boys, “That’s Why God Made The Rádio”. Mal o disco começa a tocar somos transportados para as sonoridades que fizeram a imagem de marca da banda, nas praias da Califórnia, no início dos anos 60 – desde as melodias, aos coros, passando pelos temas sempre presentes – a praia, o sol, o amor, o tempo a passar e o desejo de solidão recorrente em Brian Wilson, no fundo o mentor desta reunião da banda – sim porque aqui estão de novo os verdadeiros Beach Boys com canções de encantar como a que dá título ao álbum , “That’s Why God Made The Rádio”, mas sobretudo verdadeiras pérolas (sem ironia e com apreço) como “Isn’t It Time”, “Pacific Coast Highway” ou a faixa que encerra o CD, inevitavelmente “Summer’s Gone”. Há 16 anos que não gravavam juntos, mas ainda conseguem fazer sorrir com canções tão inacreditavelmente nostálgicas que se tornam divertidas.


 


FOLHEAR – A edição norte-americana da revista Vogue deste mês de Setembro tem 916 páginas. Assinala os 120 anos da revista e, quando se abre a capa, vê-se logo uma outra capa de 1949 com uma fotografia de Irving Penn e, ao lado, a capa da primeira edição da Vogue, de 17 de Dezembro de 1892, baseada numa ilustração - custava então dez cêntimos, hoje está nas bancas por $5.99 e em 1949 ficava por apenas 50 cêntimos. É a economia, como dizia o outro. Por falar nisso, um bom sinal da retoma publicitária que já vai acontecendo nos Estados Unidos é visível por esta edição ter mais de metade das suas páginas - entre as quais as primeiras 200 - com publicidade. Claro que a publicidade da Vogue é especial - é um catálogo de tendências e novidades das grandes marcas e folhear esta publicidade com atenção faz parte do prazer visual que a revista proporciona. Na capa está Lady Gaga vestida por Marc Jacobs, numa evocação aliás do desenho da primeira capa da revista, de 1892. Há muito para ler e ver nesta fabulosa edição, sobretudo artigos evocativos de vários momentos da História, paralelos à própria história da Vogue.


 


PROVAR – Se um dia destes lhe apetecer uma pequena viagem a um café parisiense no centro de Lisboa, vá direito às avenidas novas e procure a cafetaria do Instituto Francês, na Avenida Luís Bívar 91. O Bistrot L’Escale par Praline, dirigido pela pasteleira Béatrice Dupasquier, gaba-se de ter o original croque-monsieur. Se nunca provou, vale a pena – e não caia na asneira de dizer que quer uma tosta mista. Não é bem a mesma coisa – a começar pelo queijo, que deve ser gruyére ou emmental, cortado fino. O presunto, também cortado fino, acompanha o queijo derretido no meio do pão. Resta dizer que o queijo derrete igualmente por cima da sanduíche, e, se descontarmos o molho, percebemos que existem algumas semelhanças com a francesinha portuense. O croque-monsieur (assim chamado por o pão ficar estaladiço quando se tosta), nasceu num café parisiense em 1910 e surgiu pela primeira vez na literatura pela mão de Marcel Proust, no segundo volume de “Em Busca Do Tempo Perdido”. Conversas à parte, o croque –monsieur do Bistrot L’Escale é recomendável. E no fim, para sobremesa, pode rematar, a acompanhar o café, com um canelé, um pequeno bolo originário da região de Bordeaux, caramelizado por fora e suave por dentro – pecaminoso, na verdade.


 


GOSTO – Da afirmação de Manuela Ferreira Leite: "Só por teimosia se insiste numa receita que não está a resultar, esta segunda dose de xarope já ninguém a consegue engolir”


 


NÃO GOSTO – Do estilo conta-gotas de ir anunciando cada vez mais impostos e novas medidas de austeridade, deixando sempre no ar novas veladas ameaças.


 


BACK TO BASICS – “A eternidade pode às vezes durar um ano. E ferir-nos, num grito calado, a vida inteira" – Manuel de Freitas, em "Marilyn Moore"


 

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