Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O PROBLEMA DA REMODELAÇÃO TEM NOME

por falcao, em 04.10.12

PROBLEMA – Aqui há umas semanas alguns Ministros tinham-se tornado num problema potencial. Eram, na gíria corrente, remodeláveis. De repente aconteceu uma coisa extraordinária: o Primeiro Ministro tornou-se ele próprio num problema, maior que qualquer dos candidatos a remodelação. Isto coloca uma questão terrível que está, aliás, no centro da crise política clandestina – aquela que continua a existir, larvar, a desenvolver-se em surdina, sem ninguém a ver. Como remodelar o Primeiro Ministro? É este problema que está a minar o funcionamento do Governo e das instituições. As divergências públicas com o Primeiro Ministro são numerosas dentro do seu partido, são abundantes no seu parceiro de coligação e são naturalmente constantes na oposição. Por isso mesmo não falta quem defenda uma solução à italiana – arredar quem deixou de poder mandar e ir buscar alguém não eleito. É um caminho perigosíssimo, mas que vai ganhando peso até entre os mais insuspeitos. Ninguém quer eleições, ninguém vê a possibilidade de uma alternativa no actual espectro político-partidário, já poucos acreditam, inclusivamente, que Passos Coelho tenha capacidade de encontrar pessoal politico credível para uma remodelação. Basta ver a forma como os mais recentes dislates tiveram tão pouca gente, no núcleo duro do PSD e do Governo, disposta a defender a honra do convento.

A situação é agravada pelo falhanço objectivo das politicas seguidas – a despesa efectiva do Estado não foi reduzida, a receita fiscal diminuiu apesar dos aumentos de impostos, o défice não foi controlado e ultrapassou todas as previsões. As estimativas saíram furadas.  Objectivamente houve incompetência e desconhecimento da realidade, e aqui as culpas são da equipa de Vítor Gaspar.

Mas pior que isso, a actuação do Primeiro Ministro e dos seus mais próximos, que oscila entre a ocultação de factos e o insulto a quem deles discorda, minou a credibilidade do executivo. Passos Coelho começou a fazer, em matéria de ocultação, aquilo que há pouco mais de um ano criticava a Sócrates. Os dados agora conhecidos sobre a apresentação, esta semana, em Bruxelas, de um conjunto de medidas alternativas à TSU, mais uma vez baseadas no aumento da carga fiscal, veio repetir o desprezo pelo diálogo com os parceiros socais e  o líder da oposição. Ou seja, uma falta de respeito pelo país e pelas instituições. A confiança está abalada. Sabe-se que, antes do anúncio das medidas da TSU, o Primeiro Ministro falou com vários anteriores dirigentes do PSD que, maioritariamente, lhe fizeram ver os perigos do que ele preparava. Fez ouvidos de mercador e assim conseguiu que o seu Governo deixasse de ser respeitado, mesmo no seu próprio campo politico. Há Ministros e Secretários de Estado que deixaram de frequentar os seus restaurantes habituais para não serem mais hostilizados. Refugiam-se numa torre de marfim e perdem, ainda mais, o contacto com a realidade. Hoje em dia o Governo existe apenas por falta de alternativa, que é a pior das mortes lentas. No estado em que as coisas estão o Governo perdeu autoridade e resta-lhe o autoritarismo, que de resto, aqui e ali, ensaia aparecer.

 

SEMANADA – Desde Janeiro a economia portuguesa já destruíu 71 mil empregos, uma média de 858 por dia; o desemprego atingiu os15,9% e cresce quatro vezes mais rápido que na União Europeia;  a papa Nestum cresceu 7% de vendas no primeiros semestre, mais 140 toneladas; três mil advogados têm quotas em atraso à respectiva Ordem; criou-se um impasse na escolha do novo Procurador Geral da República; O Ministro das Finanças recusou mais uma vez ir ao Parlamento; o Ministro das Finanças informou a Comissão Europeia e o FMI sobre as medidas de austeridade alternativas à Taxa Social Única, antes de as comunicar a quem devia, em Portugal; Politicamente a semana que passou pode ser resumida numa frase postada no Facebook: “o novo porta-voz do Governo chama-se Durão Barroso”.

 

ARCO DA VELHA – Esta frase é de 15 de Março de 2011 e foi, nessa altura, proferida por Passos Coelho e nos últimos dias tem sido partilhada nas redes sociais: “O líder do PSD acusou hoje o Governo de «deslealdade e falta de respeito pelo país» por ter ocultado as medidas que estava a negociar com Bruxelas, considerando que isso põe em causa a confiança dos portugueses no executivo... Considero isso de uma deslealdade e de uma falta de respeito pelo país, pelos portugueses, pelas instituições, suficientemente grave para pôr em causa a confiança que o país tem em quem o governa”.

 

VER –Da nova série de exposições  que na semana passada abriu no edifício Transboavista (Rua da Boavista 84), destaco a colecção de desenhos “Roger Uttama” de Joana Rosa, os trabalhos de Hugo Barata na colectiva “DIG DIG: Digging For Culture in a Crashing Economy” e, sobretudo, as obras de Inez Teixeira, Lluis Hortalà, e Pauliana Pimentel na colectiva “O Sonho De Wagner”. Nos quatro espaços do edifício vai estar até 4 de Novembro um conjunto alargado de obras que, exposição após exposição, são como um manifesto do estado da nação em matéria da criação artística contemporânea. Polémicas às vezes, surpreendentes noutras, previsíveis em algumas, as exposições da Transboavista são no entanto incontornáveis no panorama das galerias lisboetas.

 

OUVIR – Cecilia Bartoli é um caso à parte no mundo da música. Os seus últimos discos têm sido trabalhos de investigação, sobre repertórios pouco conhecidos, em vez das habituais colectâneas de árias famosas ou interpretações das óperas mais clássicas e procuradas pelos melómanos. Assim, em 2007, editou “Maria”, uma homenagem a Maria Malibran, uma soprano célebre no século XIX que se destacou a interpretar Rossini. Depois, em 2009, editou “Sacrificium”, recolhendo árias propositadamente escritas para castrati. E agora lança “Mission”, um trabalho dedicado às óperas de Agostino Steffani, uma figura enigmática do século XVII que fez nome na igreja,  na politica e na música. Como nos anteriores trabalhos a pesquisa histórica é rigorosa, o cuidado na produção musical é exemplar e o disco é apenas uma das peças de um conjunto de edições, que incluem um livro e um documentário. Bartoli, além da excelência da interpretação, impõe-se a si própria um novo patamar, de produtor multimédia. E sempre com uma qualidade intocável – e ouvindo este “Mission”, adivinha-se, com um prazer e intensidade que a música barroca de Steffani tão bem exprime. (CD Decca/Universal)

 

FOLHEAR – Na “Vanity Fair” de Outubro destaco um excelente artigo sobre os 50 anos de 007 – na realidade , como a capa da revista diz, a história inédita de como a saga de James Bond nasceu e cresceu. Outros  motivos de interesse são uma reportagem sobre os bastidores da igreja da Cientologia , uma antevisão de quem serão as próximas estrelas da economia digital de Silicon Valley e, em época de presidenciais norte-americanas, uma entrevista/ reportagem sobre Obama na casa Branca, assinada por Michael Lewis.

 

PROVAR – O Rubro é um restaurante na Praça de Touros do Campo Pequeno, onde se pode ir petiscar com a certeza de sair bem servido. Gostei muito do pica-pau de entrecôte, do revuelto de ovos com farinheira, dos espargos verdes na chapa (mesmo no ponto) e dos indispensáveis pimentos padron. A imperial é bem tirada e a lista de vinhos é interessante – nas opções a copo e à garrafa. O funcionamento é em mesas compridas com bancos corridos de um lado e outro e o serviço é atento. Para a qualidade do que se picou o preço é razoável. Telefone             210 191 191      .

 

GOSTO – Título da semana: “Eu tenho uma vida fora do facebook, só não me lembro da password”.

 

NÃO GOSTO – Nos ultimos dez anos o concelho de Lisboa continuou a perder habitantes para os concelhos vizinhos e acentuou-se a desertificação de zonas do centro da cidade.

 

BACK TO BASICS –  Por mais entusiasmante e atraente que seja uma determinada estratégia, convém de vez em quando olhar para os resultados – Winston Churchill

 

(publicado no Jornal de Negócios de 4 de Outubro)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:41



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2003
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D