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PREPOTÊNCIA - Já se sabe que os portugueses adoram ser treinadores de bancada e dar palpites. De certa forma esta é uma tradição que vem das conversas de café, onde à volta de uma mesa encontramos sábios para todos os gostos. Esta propensão para o palpite e para meter a foice em seara alheia é na maior parte das vezes um divertimento inocente e um escape para frustrações diversas, mas volta e meia ultrapassa os limites do ridículo, sobretudo quando é feito em instituições que deviam ser sérias. Os deputados da Assembleia da República, é conhecido, têm problemas de imagem - os eleitores acham, com razão, que o que se passa no Parlamento é muitas vezes absurdo e duvidam da eficácia do voto que levou os senhores ao hemiciclo. Há pouco tempo os deputados já tinham mostrado a sua apetência para se meterem nos meandros do audiovisual quando decretaram, em benefício próprio, um canal, não regulamentado, que à revelia dos processos instituídos se forçou na emissão da televisão digital terrestre. Não contentes com isso, resolveram brincar, na semana passada, a directores de programa de um canal generalista. Vai daí deliberaram a criação de um programa, a emitir pela RTP, dedicado à agricultura e que retome o espírito do antigo TV Rural. Isto tudo podia ser só cómico e absurdo, mas infelizmente é um retrato da prepotência que leva os deputados a imiscuírem-se onde não deviam interferir. Ontem um canal próprio, hoje um programa decretado - amanhã, o quê?

EUROPA - Esta semana li que Bruxelas está francamente preocupada com o bem estar dos suínos em Portugal - e não estou a falar do episódio do GNR a pontapear um porco no meio da estrada. Parece que as criações de suínos não obedecem a algumas normas de bem estar animal e, por via disso, uma série delas terão de ser desmanteladas e muitas, eventualmente, encerradas - mais ou menos o que aconteceu há uns meses com as galinhas poedeiras. Eu acho muito interessante que Bruxelas se preocupe desta maneira com as galinhas e com os porcos. Mas confesso que ficaria mais feliz se Bruxelas também se preocupasse, de facto, com o bem estar das pessoas, nomeadamente com os efeitos do encerramento de explorações pecuárias, fábricas e empresas no bem estar da população. Mas vejo imensas regulamentações sobre o conforto dos animais e vejo muito pouca coisa feita para garantir uma vida decente a quem perdeu o emprego e não consegue encontrar trabalho. Esta Europa, pelos vistos, está boa para os animais mas fraca para as pessoas.


SEMANADA - O número de licenciados desempregados já iguala o número de desempregados com apenas quatro anos de escolaridade; Durão Barroso fez-se fotografar, fazendo músculo e cara durona, ao lado de Arnold Schwarzenegger em Viena, numa iniciativa sobre política ambiental; encerrou a fábrica Steiff, em Oleiros, com 103 trabalhadores, que produzia mais de cem mil ursinhos de peluche por ano; a inovação em Portugal cai para níveis de 2010; um em cada três portugueses nunca usou a internet; a dívida das estradas de Portugal agravou-se em 320 milhões de euros em 2012; a previsão de receitas de portagens da Estradas de Portugal em 2012 era de 516 milhões de euros, mas só atingiu cerca de 270 milhões; a receita fiscal em 2012 ficou 670 milhões abaixo do previsto pelo Ministério das Finanças; a comissão parlamentar sobre a reforma do estado não conseguiu iniciar trabalhos; a PSP tem cinco mil processos disciplinares a correr contra agentes; o líder da UGT, João Proença, fez uma síntese terrível do balanço da concertação na área económica: “Álvaro não tem competências, Gaspar não está interessado e Passos não tem tempo”.

ARCO DA VELHA - A Lei que proibia mulheres de usarem calças em França, em vigor há dois séculos, foi abolida esta semana. A Ministra francesa dos Direitos da Mulher, Najat Vallaud-Belkacem, disse que legislação não era compatível com valores atuais do país. O absurdo é uma constante da Europa.

VER - A Bloco 103 é uma galeria recente, dirigida por Miguel Justino Alves, que fica na Rua Rodrigo da Fonseca 103, em frente da entrada principal do Hotel Ritz. É um espaço pequeno mas muito bem aproveitado e que tem mostrado obras e artistas interessantes. Há dias inaugurou uma exposição de duas artistas da nova geração, Ana Velez e Inês Norton, bem diferentes entre si. Ana Velez utiliza a pintura para explorar formas e mostrar volumes e Inês Norton serve-se da fotografia como matéria prima para estimular a imaginação. A exposição das duas vai estar até 8 de Março.

OUVIR- O novo disco de Brian Eno, o seu primeiro desde 2005, é um conjunto de sonoridades à base de teclados e cordas, dividido em quatro partes, muito semelhantes umas às outras,. A base deste trabalho foi uma instalação sonora que Eno fez para uma galeria de arte em Turim. O “The Guardian” dizia que este trabalho bem se podia chamar “Música Para Galerias”, evocando o título de uma clássica obra de Eno, “Música para Aeroportos”, de 1978. Já houve quem dissesse que este disco era o equivalente musical do movimento “slow food” - algo que se deve saborear num estado de quietude e fora do stress das corridas do dia-a-dia. Reconheço que tudo é feito com uma elegância suprema, que as poucas variações de ritmo ou intensidade são colocadas de forma rigorosa. Brian Eno, por estes dias, dedica-se a fazer aplicações para iPad que permitem aos seus utilizadores desenhar ambientes sonoros num estilo próximo do próprio Eno. Se Hockney baseou a sua última exposição em obras desenhadas com recurso so iPad, porque não imaginar que a máquina serve também para fazer esta música do novo tempo?. CD “Lux”, Brian Eno, Opal, na Amazon.


FOLHEAR - A edição de Fevereiro da revista “Vanity Fair” tem um artigo perfeitamente maravilhoso sobre os Chefs dedicados a menus de degustação que podem durar uma tarde inteira a serem percorridos. Adequadamente, o título do artigo sobre estes chefs sádicos é “Tirania - Este é o menu do jantar”.  Corby Kummer, um aclamado crítico gastronómico da revista “Atlantic” escreve na Vanity Fair uma das mais brilhantes descrições do exagero dos cozinheiros e dos menus degustação, sintetizando a coisa assim: há chefs que não têm qualquer interesse em cozinhar o que o cliente quer comer numa agradável refeição e que, em vez disso, fazem carreira a impôr os seus gostos aos outros. Eu, que não gosto de menus degustação e os acho insuportáveis, deliciei-me a ler esta meia dúzia de páginas.  Há outros temas de interesse nesta edição da Vanity Fair - por exemplo um a bela peça sobre as mulheres que, com a sua amizade e influência marcaram a vida de Gore Vidal. E, finalmente, uma muito oportuna e interessante nota de Hillary Clinton a evocar o que tem sido a importância da arte e dos artistas americanos na diplomacia dos Estados Unidos - uma boa lição para a Europa, por acaso.

PROVAR - Linda-A-Velha fica mesmo às portas de Lisboa e vale a pena ir lá, à Rua Rangel de Lima nº 2, para descobrir o restaurante Jacó. À frente dos destinos da casa, uma antiga taberna muito bem recuperada há uma dezena de anos, está um italiano, Cesare, e a sua mulher, Carla, angolana, que dirige a cozinha - bem portuguesa, aqui e ali com uns toques de tempero africano. Nos pratos do dia há sempre boas inspirações, como por exemplo ossos com couve lombarda, sopa da pedra, arrozada de ameijoas ou açorda de bacalhau, por exemplo. A ementa vai variando mas no site www.restaurantejaco.com pode ter uma ideia do que o espera em cada semana. Na ementa fixa tem propostas como caril de caranguejo á indiana ou umas tiras de novilho com batata da grelha que são deliciosas. A carta de vinhos é generosa e vale a pena reservar pelo telefone 21 419 52 98.

GOSTO - Da série de humor “Odisseia” na RTP 1, noites de domingo.

NÃO GOSTO - Da rede de apostas ilegais, que envolveu o futebol europeu ao mais alto nível.

BACK TO BASICS - Quase todas as pessoas conseguem enfrentar a adversidade, mas, se quiserem verdadeiramente testar o carácter de um homem, dêem-lhe poder - Lincoln


(Publicado no Jornalk de Negócios de  8 de Fevereiro)

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