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DESCARAMENTO - A afirmação mais extraordinária desta semana vem do Sr. Seguro: diz ele que o Sr. Coelho tem que pedir desculpa pelo que anda a fazer. Gostaria de ter ouvido o Sr. Seguro dizer o mesmo ao Sr. Sócrates - ou pelo menos não ter a desfaçatez de exigir desculpas sem antes ter reconhecido os erros. A súbita determinação do Sr. Seguro surge na semana em que a oposição se junta para se manifestar contra as medidas que o PS subscreveu quando chamou a Troika. Eu não gosto especialmente de muito do que este Governo tem feito - e admito que até me desagrada mais a forma que o conteúdo. Mas desagrada-me ainda mais aqueles que não querem mudar a situação que nos trouxe até aqui e não fazem uma só proposta concreta. O Sr. Seguro só me faz pensar que são verdadeiras as minhas piores suspeitas sobre a falta de decoro dos políticos. A amnésia. na política, é o veneno que mata a democracia. Por falar nisso registemos, para memória futura, o que o Sr. Sócrates anda a fazer na sua nova vida profissional, como facilitador de compras de medicamentos por estados sul-americanos.


CAVALAR - Pelo andar que as coisas levam, qualquer dia arriscamo-nos a que comece a ser retirada do mercado carne de cavalo devidamente identificada por nela terem sido encontrados vestígios da carne de burro. Este episódio da mistela de carnes é uma bom retrato da Europa da Política Agrícola Comum - talvez fosse melhor chamar-lhe da máxima aldrabice comum. Há duas certezas nisto: os sistemas de regulação não funcionam e os fabricantes e vendedores não se preocupam em ter a certeza daquilo que utilizam e vendem. Acessoriamente percebe-se que nunca foi tão verdade o princípio de vender gato por lebre, garantindo a utilização de matéria prima mais barata, aldrabando os consumidores sobre a sua origem. Por cá o extraordinário Sr. Nunes da ASAE, que durante meses perseguiu as colheres de pau e as chouriças, acordou pressuroso a levantar autos que são a confirmação de que antes não fez o trabalho de casa nem se preocupou. Preferiu sempre o mais fácil e espalhafatoso, ao mais necessário. Por isso mesmo é que estamos a comer almondegas de cavalo em lojas de mobiliário. É um sinal dos tempos e uma boa descrição da Europa.  

SEMANADA - Em dois anos Portugal foi o país da Europa que mais cortou na despesa social, tendo feito uma redução de 3,7 mil milhões de euros; a massa salarial do Estado deve cair 2,4% no próximo ano, a maior redução na Europa; as previsões da Comissão Europeia sobre o défice orçamental português são maiores que aquelas que o Governo assume; em 2012 o custo dos juros da dívida do Estado vai ser de 732 euros por cada cidadão português; em 2012 a nacionalidade portuguesa foi atribuída a 84 mil pessoas; 24% da população lisboeta tem mais de 65 anos de idade;  a capital tem a população mais idosa do país; 16% do parque habitacional de Lisboa está vazio; Lisboa tem hoje menos de um terço dos habitantes que tinha em 1960; 90 por cento do corpo de segurança especial da PSP passou a estar destacado para proteger membros do Governo e Presidente da República; 58 agentes da GNR e PSP foram expulsos por corrupção (a maioria), violência doméstica e até homicídio; antigos para-quedistas vão entregar uma providência cautelar para suspender um concurso de compra de 11 mil boinas verdes para a GNR, considerando que a escolha da cor pela GNR é uma ofensa à sua honra.

ARCO DA VELHA - Portugal é o único país em que quase se abre uma crise política em torno de uma diferença numa letra escrita numa Lei.  Saber se essa Lei se refere a “de” ou a “da” seria cómico, se não fosse trágico. Espantosamente a descoberta da diferença na letra veio do Presidente da República, mas todos os partidos ficaram insensíveis à novidade.

VER - A nova exposição de Inez Teixeira propõe uma viagem pelo mundo do fantástico, com referências pop e à banda desenhada. A definição pode parecer simplista, mas revela o que senti. E senti-me muito bem a ver estes trabalhos, feitos de um imenso pormenor e da exploração dos limites da  imaginação, desafiando a realidade. No trabalho de Inez Teixeira fascina-me esse pormenor, o detalhe, o sentido insinuado da fantasia que surge para além das aparências. Se puderem não a percam, nas salas Cinzeiro 8 do Museu da Electricidade até 26 de Maio.

DESCOBRIR - Manuel João Vieira pegou na sua casa e levou-a para a Cordoaria. Não estou a exagerar - levou o recheio do seu apartamento e replicou o seu espaço doméstico, encenando-o com um a teia complexa de paredes simuladas por carpintaria, onde agora reside o que tinha na sua casa num pacato bairro lisboeta. Levou tudo - as guitarras, os bandolins, os amplificadores, o piano. Levou a cama, o fogão e o frigorífico. Levou os discos, os livros, as roupas e os chinelos. Levou-se também a ele próprio, que agora lá vive, à vista de todos. Os visitantes passeiam-se nesta exposição como na sua casa - quer dizer, visitam a sua vida. É uma instalação radical, de íntima e exposta que fica.  Há muito que não via uma imaginação assim em movimento, provocadora, estimulante. Exposição mais interactiva que esta, não há.

OUVIR- Ben Harper tem feito os seus melhores discos sempre na companhia de alguém. Agora chamou para o seu lado Charlie Musselwhite, um lendário bluesman, que acompanhou com a sua harmónica nomes como John Lee Hooker. A BBC chamou a este novo disco de Ben Harper, “Get Up!”, um exemplo de blues do século XXI. A coisa pode parecer exagero mas na realidade há muito que não sentia os blues assim tocados. O dueto entre a harmónica de Musselwhite e a voz e guitarra de Ben Harper é um exemplo de entusiasmo e do melhor que se pode fazer na música popular quando o tema é reinterpretar a tradição, inovando-a - algo que se tem tornado a especialidade de Ben Harper ao longo das duas décadas que já leva de carreira.

FOLHEAR -  A edição especial de Março da revista norte-americana “Vanity Fair” é sempre dedicada a Hollywood, tendo por pretexto a atribuição anual dos Oscars. Não interessa aqui quem ganhou - o objectivo é dar uma outra visão de tudo o que rodeia o mundo do cinema norte-americano, que culmina naquela cerimónia de prémios. Na capa estão Ben Affleck, Emma Stone e Bradley Cooper, fotografados por Bruce Weber, que assina o portfolio desta edição especial. Destaque também para a história da vida de Merv Adelson, um dos grandes produtores de televisão (Dallas por exemplo) e da forma como esteve ligado à Mafia - curiosa reportagem numa edição dedicada a Hollywood. Para além do cinema, destaque para um perfil de Rahm Emanuel, que de braço direito do Presidente passou para mayor de Chicago e se posiciona como um dos mais importantes políticos americanos.Robert de Niro responde ao tradiciopnal questionário de Proust que encerra a revista e o desenhador português André Carrilho tem honras de convidado especial para desenhar quem é quem hoje em dia em Hollywood.

PROVAR - Durante meses tentei, sem sucesso, ir jantar ao Cantinho do Avilez, no Chiado - esbarrei sempre na exigência irritante dos dois turnos - um às oito, cedo demais, outro às dez, demasiado tarde. Por um golpe de sorte, um dia destes, passava no local à hora de almoço num fim de semana e havia mesa para dois. Valeu bem a pena - logo no começo, desde as azeitonas (tão bem temperadas), às tostas finíssimas, quase rendilhadas, até ao creme de tomate com azeite e alho que também vem no couvert. Na mesa ao lado havia uns peixinhos da horta que faziam água na boca, mas ajuizadamente ficámos por uma vieiras na frigideira com batata doce (que me disseram estar soberbas) e eu por um bife à portuguesa com batata frita - tudo honestíssimo - do tempero à qualidade da carne, passando pela impecável fritura das batatas. Fritar bem é coisa rara e este Cantinho sabe do que fala. A escolha dos vinhos a copo é ampla e o tinto de José Avilez em parceria com Bento dos Santos, que surge como a recomendação da casa, tem uma excelente relação de qualidade-preço. O serviço é simpático e atento, e na mesa ao lado um americano bonacheirão deliciava-se com petiscos, bem explicados em inglês pelos empregados.Enquanto o americano se espantava com o preço módico do copo de vinho, eu finalizava em beleza com um sorvete de limão com mangericão. O Cantinho do Avilez fica na Rua dos Duques de Bragança nº7 e tem o telefone  211 992 369. Hei-de lá voltar, se tiver a sorte de arranjar lugar.

GOSTO - Mais de 500 mil visitantes chegam anualmente ao Porto de Lisboa em cruzeiros turísticos.

NÂO GOSTO - De ver militares, oficiais e generais, em jantares de pressão política.

BACK TO BASICS - O maior medo que se pode ter na vida é temer constantemente que se possa errar - Elbert Hubbard


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 1 de Março)

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publicado às 16:30



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