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(Texto de opinião escrito a pedido da Notícias TV numa série de artigos sobre "A RTP e o Futuro")

 

Depois dos acontecimentos desta semana, fica novamente em aberto o que vai acontecer à RTP – a mudança de Governo e de ciclo político trará provavelmente alterações aos planos traçados. Há alguns anos que me interesso pelo tema: em 2002 integrei uma Comissão criada pelo Ministro Morais Sarmento, que elaborou um Relatório sobre o Serviço Público de Televisão, cujos princípios gerais continuam justos. Algum tempo depois fui convidado para pôr de pé o projecto de um canal aberto à Sociedade Civil, que ficou conhecido como a 2:,  que dirigi durante quase três anos.  Antes, quando trabalhei na produção independente, nomeadamente na área dos documentários, na Valentim de Carvalho Televisão, testemunhei que era mais fácil vender documentários sobre a história contemporânea portuguesa à SIC, como aconteceu, do que à RTP. De há cerca de três anos a esta parte a estação pública tem perdido progressivamente relevância e, nos tempos mais recentes, as mudanças de tecnologia, de distribuição e de hábitos de consumo de programas foram enormes, afectaram-na de forma sensível,  e é absolutamente indispensável que as definições gerais de serviço público audiovisual sejam adaptadas à realidade da introdução da Televisão Digital Terrestre e que o papel da RTP seja repensado no novo universo tecnológico, nomeadamente enquanto motor de inovação e não enquanto bastião da tradição.

Costumo dizer que Gutenberg chegou à televisão com a entrada no mercado de câmaras digitais de alta definição de preço acessível e com sistemas de edição baseados em computadores que qualquer um de nós pode ter em casa. Mas a realidade é que este Gutenberg audiovisual ainda é pouco aproveitado pelo serviço público e que a RTP, para utilizar uma analogia com a imprensa, ainda trabalha com composição a chumbo numa época em que o offset já tem várias gerações e em que, por exemplo no MEO, é possível a cada um de nós criar um canal – bem sei que não é bem disso que estamos a falar, mas este exemplo serve para mostrar como a televisão deixou de ser uma tecnologia inacessível e isso tem inevitavelmente consequências no comportamento de todo o sistema.


A ALTERAÇÃO DO CONSUMO E A REESTRUTURAÇÃO DA RTP


Hoje em dia cerca de 77% dos lares portugueses consomem televisão que lhes chega por um dos sistemas de distribuição de cabo ou satélite. Quer isto dizer que estes lares têm uma oferta de pelo menos meia centena de canais, em vez dos quatro tradicionais (RTP 1 e 2, SIC e TVI) e do Canal Parlamento, que também está, vá-se lá perceber porquê, na Televisão Digital Terrestre.

Portanto, sem desprezo pelos 23% de lares restantes, a oferta e os hábitos de consumo de televisão em Portugal mudaram de forma substancial nos últimos cinco anos. Basta dizer que desde há mais de um ano o conjunto dos canais de cabo ultrapassa em share médio de audiência qualquer um dos canais de sinal aberto.

Ora estas alterações significativas na distribuição e no consumo dos canais de televisão tem inevitavelmente consequências no serviço público – sobretudo no que deve ser a sua definição hoje em dia. A questão do acesso universal e gratuito por exemplo, já não é a pedra de toque da definição. Por outro lado, os canais generalistas e comerciais privados fornecem informação pelo menos tão pluralista como a da RTP, entretenimento e produção nacional em maior quantidade que a RTP, e qualquer pessoa – com cabo ou sem cabo - pode aceder a eles em qualquer ponto do território para ver futebol ou transmissões diretas de acontecimentos importantes – já que todos o fazem.

 

Fruto de um posicionamento concorrencial face aos privados, a RTP é ainda hoje uma entidade despesista, com uma estrutura sobredimensionada e custos desproporcionados. Num modelo ideal a RTP devia possuir apenas os meios necessários à informação e à emissão e tornar-se, usando a terminologia anglo-saxónica, num “broadcaster” e não numa empresa de produção, que é hoje em dia. Ou seja, toda a área de conteúdos não informativos devia ser descontinuada e o investimento em programas de documentário, ficção, infantis e entretenimento devia ser aplicado na produção externa e na aquisição de programas. Este canalizar para a aquisição de conteúdos de parte importante das verbas actualmente gastas em funcionamento permitiria dinamizar a produção independente, desenvolvendo e consolidando uma industria audiovisual, necessária à manutenção do português enquanto língua viva. Recordo que a RTP é a empresa que menos tempo de emissão consagra à produção nacional não informativa, nomeadamente na ficção. No meu entender existe um papel importante a desempenhar pelo serviço público e que tem a ver com uma carteira de encomendas continuada, junto à produção independente, nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais.

De uma forma mais concreta, faria sentido que o serviço público de televisão investisse a maior fatia do seu orçamento de produção na encomenda e aquisição de programação de stock – aquela que se pode repetir ao longo do tempo e que não se esgota na primeira emissão, e a que se chama de fluxo. Para dar um exemplo uma série de ficção é stock e um concurso como o “Preço Certo” é fluxo. Faz mais sentido investir no que perdura do que naquilo que se evapora, certo? Já nem vou dizer que o aproveitamento da produção de stock nas emissões internacionais, em intercâmbios com outras televisões ou até na venda de direitos é uma realidade e que o fluxo é inaproveitável em tudo isto.

 

CRIATIVIDADE OU BOÇALIDADE?

 

Analisemos o tema de outra perspectiva, mesmo correndo o risco de alguma repetição: nos dias de hoje, num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?

Correndo mais uma vez o risco de me repetir, insisto em algumas perguntas: o serviço público deve fazer concorrência aos privados,  ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entretenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que já passam nos canais de cabo emitidos em Portugal?


Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas.

Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural na acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos.

 

OLHAR PARA O FUTURO E TOMAR DECISÕES

 

Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.

Para terminar e para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, com um único canal nacional, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal único nacional, na minha opinião,  não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, modalidades de desporto incluídas – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento. Existem pelo mundo diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos. Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. A presença do operador de serviço público no cabo deve ser repensada à mesma luz da não concorrência aos privados e protegendo a necessidade de maior participação das diversas regiões do país, aproveitando os recursos técnicos existentes para a informação. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África – compreendendo aliás que nos países lusófonos já existem operadores locais de televisão com os quais interessa mais fazer cooperação do que concorrência -  e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.

Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam, ou não, útil e necessário. O resto é uma questão de distribuição e de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado, da forma mais concreta que fôr possível.


Manuel Falcão


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publicado às 17:42



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