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RTP - Esta semana a RTP comemorou os seus 60 anos e houve dois factos relevantes: o Presidente da República defendeu a não privatização do operador de serviço público e a empresa decidiu disponibilizar online o seu arquivo, que vinha sendo digitalizado desde há uma dezena de anos. Comecemos por aqui - o arquivo é a maior base de imagens portuguesa e mostra o percurso do país ao longo dos 60 anos da empresa, foi pago com o dinheiro dos contribuintes e é-lhes agora devolvido. Tornar livre o seu acesso público foi a melhor decisão que Gonçalo Reis tomou desde que é presidente da RTP. O segundo tema, o da privatização da RTP, é um fantasma político que tem surgido recorrentemente. Marcelo Rebelo de Sousa, como o próprio recordou esta semana, já defendeu essa privatização e agora declarou ter mudado de posição. Fez bem. Há pouco mais de uma década a polémica sobre o tema estava no auge e Morais Sarmento, então ministro da tutela, tomou a decisão de proteger o serviço público, reestruturá-lo e congelar uma privatização anunciada e desejada por vários sectores do seu partido. Vale a pena referir que foi essa reestruturação que salvou a empresa, que estava falida e consumida em guerrilhas internas. O Conselho de Administração de então, liderado por Almerindo Marques, merece ser evocado porque sem a sua acção provavelmente as coisas seriam diferentes, para pior, hoje em dia. E chegamos ao momento presente. Na minha opinião, do ponto de vista da coordenação de conteúdos - programação e informação - a RTP está sem rei nem roque, ao sabor de decisões contraditórias, com demasiadas suspeitas de favorecimento, amiguismo  e de falta de transparência. Sou dos que entende que a RTP não deve ser privatizada e que deve ser um operador de serviço público focado na entrega de conteúdos em défice no panorama audiovisual português, que os privados não produzem por falta de rentabilidade comercial dos mesmos. E sou dos que acha que a RTP, no mercado, não deve fazer concorrência aos privados na compra de conteúdos como jogos de futebol, com a possível excepção da Selecção Nacional. Quanto ao resto sou o primeiro a reconhecer que os conceitos de serviço público do século passado devem ser reapreciados, que a evolução do consumo de mídia se alterou radicalmente com a evolução do universo digital e que a alteração da forma de consumo de televisão ainda está apenas a começar. A RTP é uma das maiores marcas portuguesas de comunicação e se o seu trabalho for bem feito pode ser um factor de coesão nacional e territorial, em vez da arma de arremesso político, da feira de vaidades pessoais e do albergue de negócios com amigos em que se transformou demasiadas vezes.

 

SEMANADA - Portugal é o país da União Europeia com a taxa de fertilidade mais baixa e aquele onde mais diminuíu o número de nascimentos nos últimos 15 anos; em Portugal, em média, seis adolescentes por dia dão à luz; em 2015 houve mais 915 casamentos do que em 2014, dos quais 350 foram entre pessoas do mesmo sexo; desde o início da época verificaram-se 35 agressões a árbitros; por mês há 28 queixas de idosos vítimas de agressões, a maior parte de familiares; só 1,4% dos magistrados têm avaliação negativa; no caso das offshores, 18 das 20 declarações ocultas já são do tempo do actual Governo;  o número de queixas dos consumidores registadas em livros de reclamações aumentou 7% no ano passado; o Presidente da República apareceu todos os dias nas notícias no primeiro ano do seu mandato e, só na televisão, Marcelo teve direito a 1.060 horas de emissão, o dobro de Cavaco Silva. Segundo a Marktest, ao longo do ano 2016, cada português passou uma média de 11 horas em sites de informação, consultados diariamente por cerca de 900 000 pessoas; a universidade de Harvard vai fazer um simpósio com académicos e políticos sobre a geringonça portuguesa; a Associação 25 de Abril convidou Jaime Nogueira Pinto a realizar nas suas instalações a conferência sobre “Populismo ou Democracia”, que foi proibida pela Universidade Nova.

 

ARCO DA VELHA -Esta semana os debates parlamentares transformaram a Assembleia da República uma arena de insultos e má criações, num triste retrato da classe política, quer no Governo, quer na oposição.

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FOLHEAR - Gosto de História e gosto das histórias que fazem a grande História. Essa é uma das razões porque o livro “Os Dias Em Que Portugal Foi Feliz” me conquistou. Elizabete Godinho, a sua autora, pegou em mais de 100 momentos - do desporto à política, passando pela economia e a cultura - e elaborou um calendário em que ao longo dos doze meses do ano se vão mostrando os momentos marcantes da nossa História em cada um deles. O mais recente data de Janeiro deste ano, quando Guterres passou a ser Secretário Geral da ONU e o mais antiga é de Junho de 1128, quando D. Afonso Henriques venceu a batalha de S. Mamede. Ao longo das 300 páginas estão momentos como o primeiro concerto dos Xutos & Pontapés em 1979, a abolição da escravatura em 1869, a criação da Universidade de Coimbra em 1290, a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral em 1500, a primeira vitória de Portugal no Europeu de Futebol em 2016, a medalha de Ouro de Carlos Lopes em 1984, a derrota do exércicto invasor francês na Batalha do Buçaco em 1810, o dia de 2013 em que Sara Sampaio se tornou um ano da Victoria’s Secret ou, em 1640, a restauração da Independência de Portugal. Cada data é acompanhada de um texto que a enquadra, de forma sintética e informativa, criando uma enciclopédia dos nossos motivos de orgulho.  Edição Guerra & Paz.

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VER - “Os Anos do Exílio no Brasil” é o título da exposição patente até 7 de Maio na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, no Jardim das Amoreiras, em Lisboa. Trata-se de uma recolha de obras de pintura e desenho que o casal fez entre 1940 e 1947, quando esteve exilado no Brasil. Integrada na programação de Lisboa Capital Ibero Americana da Cultura, a exposição mostra o que Vieira da Silva e Arpad fizeram quando, nos anos da guerra, fugiram da França em vésperas da invasão alemã e viram a sua entrada recusada em Portugal. Nessa altura foi o Brasil que os acolheu ao longo de sete anos e o conjunto de retratos que nessa época Arpad fez de Helena são talvez um dos pontos mais interessantes desta exposição. Também na Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva, na casa que foi o antigo atelier do casal, igualmente no jardim das Amoreiras, Ana Vidigal apresenta “Mas Ao Brasil Jamais Voltaria”, evocando uma frase da própria Vieira da Silva. Vidigal intervém sobre móveis da casa e apresentando um conjunto de peças que são uma revisitação de memórias imaginadas. Finalmente, também na Fundação, e igualmente integrada na programação da Capital Ibero-Americana da Cultura está uma exposição do fotógrafo português Armindo Cardoso, que viveu no chile entre 1969 e 1973 e que mostra a evolução do país naquele período, até à queda de Allende. Outras sugestões: Catarina Pinto Leite mostra “Sótão” na Galeria Giefarte (Rua da Arrábida 54) e Teresa Dias Coelho mostra “Interiores”, na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101).

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OUVIR -  Esta semana fui ver, ao Cinema Ideal, um dos melhores filmes a que assisti nos últimos tempos - “Hell Or High Water” (“A Qualquer Custo”, em português). Realizado por David Mackenzie, tem soberbas interpretações de Chris Pine, Jeff Bridges e Ben Foster. É um western contemporâneo, com roubos a bancos, índios que agora são polícias e o inevitável petróleo do Texas. Cabe aqui dizer que o Cinema Ideal é a sala ideal para ouvir filmes com boas bandas sonoras - não há barulhos de pipocas mastigadas nem de coca colas aspiradas - por isso é que gosto de lá ir. Numa outra sala talvez esta banda sonora, composta por Nick Cave e por Warren Ellis causasse menos efeito, mas nesta sobressai. Algumas bandas sonoras não vivem fora dos filmes, ou vivem mal; outras são um repositório de canções adequadas a cenas de beijos,  de cama ou de pancadaria, mas não passam de uma miscelânia. Esta entrou na alma do filme e tornou-se minha companhia regular no Spotify. Warren Ellis foi um dos Bad Seeds, a banda que acompanhava Nick Cave, e os dois já fizeram uma dúzia de bandas sonoras - desde para a representação teatral de “Woyzeck”, passando por vários westerns como este, ou pela série “Mars”, da National Geographic que recentemente foi exibida em Portugal. A banda sonora de “Hell Or High Water” tem nove temas originais compostos por Cave e Ellis, e permito-me destacar “Robbery”, “Lord Of The Plains”, “Casino “ e “Comancheria”. Depois há meia dúzia de canções muito bem escolhidas de nomes como Townes Van Zandt, Ray Wylie Hubbard, Waylon Jennings, Colter Wall e Christopher Stapleton, entre outros.

 

PROVAR -  Vou começar pelo fim. Nestes dias mais temperados, apetece um gelado. Num destes dias em que o sol regressou, foi o que  finalizou o almoço: um gelado de eucalipto. Eucalipto? Sim, cheira a eucalipto, sabe a eucalipto, há-de vir do eucalipto. Soube muito bem depois do café. Antes, porém, encontrei uma sanduíche club surpreendentemente bem feita, com tudo a que tem direito, as três fatias de pão, fresco mas levemente torrado, com recheio variado e abundante entre elas. Uma boa sanduíche club não é coisa fácil de encontrar em Lisboa e esta estava bem acima da média. Hesitei na lista com uma sanduíche aberta de salmão fumado com alcaparras e rúcula e percebi que um folhado de queijo de cabra com salada era dos pratos mais requisitados. As empadas de galinha tinham uma massa leve e um recheio generoso e saboroso. Na lista há chás variados e infusões e chocolate quente. A orientação geral das operações é do chef Bertílio Gomes (do Chapitô) e de Maria Santos, que são os obreiros dos gelados artesanais ali servidos e que são um dos atractivos do local. E de que estamos a falar? Do Ice Gourmet, uma cafetaria situada no Jardim da Gulbenkian, próximo da entrada pela Rua Marquês Sá da Bandeira, mesmo frente à loja de revistas “Under Cover”. Sugestão - vão lá buscar boa leitura e depois sentem-se na esplanada a gozar o momento e a petiscar uma refeição leve e um bom gelado. O jardim fecha às seis, quando os dias forem mais longos é uma pena não poder fazer lá os fins de tarde.

 

DIXIT -  “Na Europa, estamos todos em negação e a tentar sobreviver e lutar contra as mudanças que a tecnologia vai trazer “ - Cristina Fonseca, da Taldesk, na apresentação do livro “Indústrias do Futuro”

 

GOSTO - De Salvador Sobral e da sua canção “Amar pelos dois”, composta pela  irmã, Luisa Sobral. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, “que atinja o publico internacional que merece - se for assim o festival da canção serviu para alguma coisa”.

 

NÃO GOSTO - Da proibição da conferência de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova.

 

BACK TO BASICS - “Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres” - Evellyn Beatrice Hall

 

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OFFSHORES - As audições parlamentares do anterior e do actual Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais vieram mostrar uma coisa interessantíssima sobre o caso das transferências para offshores: quando se trata de rastrear e combater a grande evasão fiscal, o Estado fecha os olhos, em contraste absoluto com o que faz com os pequenos contribuintes e os que trabalham por conta de outros. Confirmou-se agora que mais facilmente a máquina fiscal detecta um atraso num pagamento de pequena monta do que se dispõe a investigar a tentativa de escapar com muitos milhões. Rocha Andrade, o actual Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, que aceitou convites para o Europeu de Futebol de uma empresa que estava em contencioso com o Fisco, disse preto no branco que “terá sido uma falha informática a impedir o controlo inspetivo sobre os 10.000 milhões de euros transferidos para ‘offshore' entre 2010 e 2014”, confirmando o que o seu antecessor, Paulo Núncio, já tinha dito. Este caso é o exemplo de que o Fisco tem dois pesos e duas medidas e que o seu comportamento padrão convive da mesma forma em governos à direita ou à esquerda. É um Estado dentro do Estado, cujos abusos e lapsos atravessam intocados os regimes. Desculpem lá mas é chato que os erros informáticos aconteçam sempre para esconder milhões e que os sistemas andem na pirisca e na ponta da unha atrás de tostões. Alguma coisa vai muito mal no fisco, na forma como funciona e nas prioridades que os governantes lhe estabelecem.

 

SEMANADA - Desde 2012 até hoje a percentagem de consumidores portugueses com acesso a um smartphone passou dos 18% para os 59%; as principais figuras do estado português comunicam entre si com telemóveis e computadores sem medidas especiais de protecção;  na sequência da fuga de Caxias há cerca de duas semanas, o diretor geral dos serviço prisionais criou um manual de instruções para lidar com situações de fuga - que ou não existia ou estava desactualizado; o mesmo diretor geral declarou não perceber a razão de “tanto alarido” em torno da referida fuga, que classificou de “histeria completa”;  quase um terço das empresas criadas em 2016 em Portugal são de alojamento e restauração, imobiliárias ou ligadas à indústria da construção; a grande maioria das duas centenas de prédios militares que o Ministério da Defesa colocou à venda desde 2008 continuam por alienar; em 2016 as forças policiais detiveram nove mil pessoas que conduziam sem carta; uma advogada foi detida a levar droga para um cliente preso em Paços de Ferreira; a fusão de freguesias originada pela reforma administrativa de 2013 fez crescer a despesa em vez de a diminuir, como era a ideia original; o indicador de confiança dos consumidores portugueses aumentou entre setembro do ano passado e fevereiro deste ano, tendo atingido o valor mais alto desde março de 2000; o jornal britânico The Independent classificou o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, como o Donald Trump do futebol.

 

ARCO DA VELHA - Vitor Constâncio, que foi o responsável pela supervisão dos bancos em Portugal no período em que o sector foi acumulando problemas que, depois de 2010, explodiram nas mãos dos contribuintes, continua, no BCE, como o segundo responsável mais bem pago de toda a supervisão financeira da União Europeia.

 

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FOLHEAR - Ao fim de dez anos e 100 edições a revista “Monocle” tocou levemente no seu grafismo e mais acentuadamente no alinhamento editorial. O formato é o mesmo mas o novo grafismo de capa faz a revista parecer um pouco maior. O resultado graficamente é bom e gosto do alinhamento editorial novo, que define melhor algumas secções, cria novas áreas na revista e dá um ritmo de leitura mais claro. Além disso permite que alguns assuntos se destaquem, naturalmente de forma mais clara, como a bela peça sobre a estação norte-americana de serviço público de televisão, a PBS, ou uma outra dedicada aos critérios de quem define as encomendas e produção de séries da Netflix. A edição 101 tem 300 páginas entre as quais 32 páginas que retratam o nascer e crescer da “Monocle”, que é o mais interessante projecto de imprensa, na área das revistas, destas primeiras décadas do século XXI. A “Monocle” mostrou que havia espaço para uma novo género de publicação e hoje em dia há dezenas de revistas mensais, trimestrais ou semestrais que existem porque acreditaram no caminho aberto por Tyler Brulé, o fundador deste projecto. E, finalmente, ao fim destes dez anos, um grupo de empresas e entidades portuguesas conseguiu juntar-se para que a revista publicasse um especial sobre Portugal. Vários anunciantes portugueses, entre empresas (com destaque para a EDP), associações privadas e instituições públicas, viabilizaram que se mostrasse uma nova imagem de Portugal no survey de 64 páginas dedicado ao país e que felizmente vai além do habitual very typical.

 

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VER - É enorme esta exposição: cinco centenas de fotografias que mostram como Alfredo Cunha, um dos mais importantes fotojornalistas portugueses, foi vendo Portugal e o Mundo ao longo de quase 50 anos, de 1970 até agora. Há imagens anteriores a 1974 e há imagens do dia 25 de Abril, como os tanques de Salgueiro Maia, ou meses depois, os caixotes e contentores chegados das colónias e que eram descarregados perto do Padrão dos Descobrimentos. Do Mundo há fotos da queda de Ceauşescu, na Roménia (em 1989) ao Iraque (desde 2003). Cunha, filho e neto de fotógrafos, nasceu em Celorico da Beira,  foi editor de fotografia em agências, jornais e revistas e, nos últimos anos, dedicou-se a projectos pessoais, como freelancer, muito envolvido em ONG’s - nomeadamente no grande projeto comemorativo dos 30 anos da AMI “Três Décadas de Esperança”, que o levou a percorrer países como a Niger, a Roménia, o Bangladesh, a Índia, o Haiti, o Sri Lanka, a Guiné Bissau e o Nepal, e de que resultou o seu último livro: “Toda a esperança do mundo”. Esta exposição abre ao público a partir deste sábado e fica até 25 de Abril no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, na Avenida da Índia, e está aberta de terça a sexta entre as 10h00 e as 18h00, e ao sábado e domingo das 14h às 18h.

 

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OUVIR -  Bing & Ruth é o nome de um colectivo de músicos liderado pelo pianista David Moore e que tem três discos no activo - o primeiro de 2010 (City Lake), o segundo de 2014 (Tomorrow Was The Golden Age) e, agora, “No Home Of The Mind”, o primeiro trabalho a ser lançado na editora 4AD. Claramente sofrendo influências do trabalho de nomes como Philip Glass, Harold Budd ou Max Richter, Moore tem conseguido criar um caminho próprio de que este novo “No Home Of Mind” é o melhor exemplo. O ensemble Bing & Ruth agrupa cinco músicos, é originário de Brooklin e Moore estudou na New School For Jazz. Claramente é Moore quem lidera o espaço musical do grupo, definindo os percursos sonoros que vão sendo percorridos, e balizando-os com as suas teclas. No Spotify podem descobrir os seus três álbuns e claramente entenderão a evolução verificada até se chegar a este novo trabalho, que é o mais conseguido de todos. O disco, desde o início cruza as sonoridades do piano, com o clarinete, acentuadas por uma presença do baixo, persistente, sobre um fundo sonoro proporcionada por efeitos electrónicos. Por vezes parece que estamos num estranho cruzamento entre o barroco e a música minimalista da última metade do século XX, sem envolvimentos no desvio new age, mas incorporando subtilmente os ritmos que os movimentos de uma cidade evocam.

 

PROVAR -   Não costumo ir ao restaurante Nobre com frequência e já lá não ía há uns anos. Continua a comer-se bem mas o processo, como dizer, industrializou-se e não tenho a certeza que tenha ganho com a mudança. Hoje em dia é um daqueles locais onde se pode ver um presidente de um banco a almoçar com um ex Ministro das Finanças, noutra mesa responsáveis da RTP com um realizador de cinema e, espalhadas pela sala, caras conhecidas do mundo empresarial, desde a indústria aos mídia. Devo dizer que mesas carregadas de entradas forçadas não fazem o meu género - prefiro couverts simples. Neste caso, no Nobre, havia um presunto mediano, um queijo atabafado genuíno, uma salada de polvo infeliz e uma salada de favinhas tradicional. O pão era desinteressante. Nada disto me parece lógico. Para compensar as quatro dezenas de euros que o couvert standard completo implica, a casa propõe meias doses, mais que suficientes - desde a sopa de santola na casca da dita que é um ex libris da casa (mas que já foi mais aprimorada), até aos rolinhos de linguado (outro clássico), mas que estavam um pouco insípidos, e umas lasquinhas de cherne panadas sobre açorda do mesmo, que tinham a melhor aparência do conjunto. A casa estava cheia e naquela dimensão isso repercute-se no aprimorado da cozinha e no sentimento de que há alguma passagem para o pronto a comer. Nesta visita soube que em breve O Nobre vai regressar às suas origens, de há uns 30 anos, na Ajuda, onde irá abrir um novo espaço, mais pequeno, sem deixar este do Campo Pequeno, onde ultimamente tem funcionado (Avenida Sacadura Cabral 53B).

 

DIXIT -  “Creio que este Governador demonstrou uma impreparação técnica, uma vulnerabilidade e pressões externas e uma incapacidade de consolidar o sistema bancário com o sistema de confiança”  - Francisco Louçã sobre Carlos Costa, em Fevereiro de 2016, um ano antes de ser nomeado pelo Governo para o Conselho Consultivo do Banco de Portugal.

 

GOSTO - O New York Times não poupou elogios à actuação de Gisela João no NY Fado Festival, no sábado passado, no Schimmel Center.

 

NÃO GOSTO - Segundo o Presidente do Tribunal Constitucional a instituição tem falta de meios para fiscalizar as contas dos partidos e das campanhas nas próximas eleições autárquicas.

 

BACK TO BASICS - Sempre achei que um político deve ser julgado pela animosidade que provoca nos seus opositores - Sir Winston Churchill

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publicado às 14:00

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por falcao, em 24.02.17

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PAPEL - A imprensa continua a descer de circulação. As vendas em banca vão caindo na maioria dos títulos. Mas continuam a ser os jornais e as revistas de informação, nas suas edições impressas, que fazem a agenda das televisões e das rádios com as entrevistas e a opinião que publicam e as reportagens e investigações que realizam. Não é só uma questão do poder das respectivas marcas como referências da informação. O que acontece é que os conteúdos de jornais e de revistas acabam por ser divulgados e consumidos, muitas vezes através de outros mídia, num sentido contrário às vendas em banca. Acredito que a causa da decadência das vendas está num conceito editorial baseado na concorrência com a actualidade global em vez da procura do interesse local. Os jornais e as revistas hoje não podem viver de notícias globais num mundo permanentemente conectado. Dizer que aconteceu alguma coisa só interessa se fôr algo que não está no twitter nem no facebook.  Não é por acaso que os dois jornais diários portugueses com maior circulação - Correio da Manhã e Jornal de Notícias - têm uma forte componente de noticiário local que lhes dá conteúdos exclusivos. Isto não é nada de novo: todos os estudos sobre imprensa diária apontam para a necessidade da ligação local e, nos Estados Unidos, os jornais que se salvaram estão a fazer esse caminho. Sem ligação às comunidades onde estão inseridos os jornais perdem razão de ser. Alguns iluminados pensam que é paroquianismo reportar sobre o que se passa nas cidades ou regiões onde estão e que é pecado dar-lhe mais destaque do que sobre factos globais. Creio ser um engano terrível. Qualquer grande notícia internacional é consumida e esgotada quase instantaneamente; o que se passa por cá em S. Bento e as tricas político-partidárias são exploradas à exaustão na net e na televisão. Mas o noticiário local, que cimenta as comunidades que constituem um país, é muitas vezes subalternizado. Se houvesse mais noticiário local e regional os jornais seriam ainda mais citados. E, talvez, com uma gestão inteligente do que está online e do que não está, o papel impresso se possa salvar. As pessoas continuam a ler, como o consumo de livros mostra. Não querem é ler o que já sabem.

 

SEMANADA - Um acordão do Supremo Tribunal Administrativo condenou o Fisco a pagar juros indemnizatórios e juros de mora em dobro por atraso na execução de uma sentença que obrigava a devolver impostos a um contribuinte; segundo advogados fiscalistas o Fisco, apesar de levar tudo até às últimas instâncias e usar todos os expedientes para adiar pagamentos, continua a perder entre 60 a 70% das causas julgadas; em contrapartida com esta dureza, entre 2011 e 2014, o Fisco deixou sair 10 mil milhões para offshores sem vigiar transferências; novas regras para offshores estão paradas há oito meses no Parlamento; o Estado tem 8577 prédios, 1322 andares e 1441 casas; apenas 35% dos titulares de conta bancária são utilizadores de internet banking e o seu número está estagnado desde 2014; o número de estrangeiros a quem foi concedido o estatuto de residente não habitual aumentou 44% em 2016, o que lhes permite pagar uma taxa reduzida de IRS; em Portugal a base de dados genética só abrange 15% dos condenados por crime violento; Portugal conta com mais de dois milhões de idosos; a subnutrição nos lares é o dobro do que é em casa; o número de condutores com mais de 75 anos a morrer em acidentes aumentou e 42% dos peões mortos em atropelamentos tinham mais que 70 anos; em 2016 a dívida pública subiu para o valor recorde de 130,6% do PIB, mas as famílias e empresas registaram os níveis de endividamento mais baixos da última década; António Saraiva, Presidente da CIP, defendeu a reestruturação da dívida.

 

ARCO DA VELHA - O alerta da prisão de Caxias a outras forças policiais sobre a fuga de três detidos no fim de semana passado, só foi formalizado cinco horas depois de ter sido detectada.

 

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FOLHEAR - Sábado passado fui à Gulbenkian ver a exemplar exposição de Almada Negreiros e, por via das dúvidas, resolvi trazê-la para casa. Explico desde já que não roubei nenhuma obra, limitei-me a trazer o magnífico catálogo de “Uma Maneira de Ser Moderno”. São 420 páginas de informação, ensaios e, claro, boas reproduções das obras expostas. Gostei muito de “Uma Maneira de Ser Moderno”, de Mariana Pinto dos Santos (uma das curadoras da exposição), que enquadra de forma exemplar o trabalho de Almada na sua época. Destaque também poara “A coreografia das palavras”, de Fernando Cabral Martins e também “As viagens de Almada” de Sara Afonso Ferrreira. Ana Vascobcelos (a outra curadora) aborda o trabalho de encomenda que Almada foi fazendo ao longo do tempo e que proporcionou algumas das suas obras mais marcantes e conhecidas. E, finalmente, o imperdível “A forma de Almada:o século XX de Almada Negreiros”, de Luis Trindade, que sumariza uma época. A organização da reprodução das obras é exemplar, permitimndo compreender a evolução da criatividade, assim como a forma como Almada se entregou a diversos géneros e os interesses, fora das artes plásticas, que procurou acompanhar. Pelo meio há textos que contam pequenas histórias de algumas das obras, ou das circunstâncias em que foram feitas. É um catálogo imperdível e estou muito contente por ter assim trazido a exposição,  para agora a ir podendo ver com calma em casa. A cronologia que encerra o livro, de Luis Miguel Gaspar, é uma visita à História de uma época, entre 1893 e 1970.

 

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VER - Num daqueles passeios de sábado de manhã ía a descer a pé a Rua Rodrigo da Fonseca quando, no nº 35, dou por uma oficina de relojoaria que dá pelo nome de Pêndulo Real, aberta há cerca de um ano mas que eu nunca tinha olhado com atenção. Lá dentro estão magníficos relógios de caixa alta, de parede, de mesa e até um relógio de sol do século XVI. De um lado está o balcão e o atendimento, do outro uma sala onde se mostram exemplares fantásticos dos séculos XVII, XVIII e XIX, já restaurados, com máquinas, caixas e acabamentos de um pormenor impressionante. Luis Couto Soares, na fotografia com uma rara peça de mesa, um relógio feito para a Companhia de Jesus, é o proprietário do Pêndulo Real, um apaixonado pelos relógios e pela sua história, ele próprio um coleccionador. Tem prazer em falar do que tem na sua galeria do tempo, enquadra cada exemplar na sua época e sobre vários conta episódios que vão das guerras peninsulares ao percurso das peças ao longo dos séculos, desde que foram feitas, algumas por encomenda real. É fascinante visitar o espaço e mais ainda falar - ouvir - Luis Couto Soares. Outra sugestão, bem diferente: proponho que visitem a exposição “Cadernetas de Cromos”, na Biblioteca Nacional até 29 de Abril - ali estão cadernetas e cromos de futebol, cinema ou aventuras ao longo de um século. Como sou fascinado por cromos passei lá um bom bocado, a recordar memórias e a descobrir muita coisa que desconhecia.

 

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OUVIR -  Ainda estou perplexo com “Bowie 70”, o muito publicitado álbum produzido por David Fonseca, promovido numa colagem de mau gosto ao aniversário da morte do músico. Já ouvi o disco uma boa dezena de vezes e em rigor não entendo como alguém pode sequer pensar que isto é uma homenagem - quanto a mim é, na realidade, um insulto. Tenho alguma dificuldade em dizer o que é pior - se os tiques fadistóides de Ana Moura em “The Man Who Sold The World”, com requebros de arrepiar sem ser pelas boas razões, se “Starman”, por Aurea, outro momento penoso, assim como “Blue Jean” por Catarina Salinas, e sobretudo “Let’s Dance”, por Afonso Rodrigues, aqui transformado num hino ao imobilismo. Rui Reininho bem podia ter ficado calado em vez de fazer esta versão de “Where We Are Now” - e o mesmo se aplica a ”This Is Not America” por Marcia, “Heroes” (num fraco momento de  Rita Redshoes) ou “Life On Mars” por um António Zambujo cheio de tiques, na senda, infelizmente da sua mais recente produção. Salvam-se, à tangente, as duas primeiras faixas, ali colocadas não certamente por acaso, para engodo dos incautos: “Absolute Beginners” por Tiago Bettencourt e sobretudo “Modern Love”, por Manuela Azevedo - apesar dos arranjos desinspirados e de uma produção rasteira que Bowie de todo não merecia.

 

PROVAR - Volta e meia dou com mais um restaurante de comida portuguesa que resolve remodelar-se e mudar de posicionamento. Nos últimos tempos têm sido vários. Agora soube que um dos que gostava, e onde ía com alguma frequência, vai mudar para mais uma italianada. Eu percebo: está próximo de hotéis com muitos turistas, e certamente uma pizza ou um risotto poderão ser mais apetecíveis que feijão manteiga com ameijoas ou pica-pau. Mas assim vai ser apenas mais um italiano numa zona onde há mais meia dúzia de restaurantes dessa inspiração, que servem desde pizzas pré fabricadas a várias gamas de massas de  preços e qualidades diversas. Fico com muitas dúvidas se será uma boa ideia mudar a bandeira. Bem sei que a cozinha italiana foi a primeira a globalizar-se e quem viaja acha sempre que onde há pizza ou uma putanesca a coisa está segura. Mas mesmo assim fico com pena. Na zona onde falo, as avenidas novas, só abrem restaurantes de inspiração internacional - desde  nepaleses até quase uma dúzia de japoneses e outros tantos italianos, passando por um tailandês e obviamente vários chineses. Há dias, no entanto, abriu um, portuguesíssimo, que serve bucho. Ainda lá não fui mas está na calha para uma próxima oportunidade.   

 

DIXIT -  “Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum” - Dulce Garcia, título do seu romance editado por estes dias.

 

GOSTO - Assunção Cristas é a favor do fim da taxa de protecção civil criada na fúria de cobranças pela Câmara Municipal de Lisboa costista .

 

NÃO GOSTO - Os magistrados do Ministério Público demoram em média um ano para deduzir uma acusação, mais quatro meses que o prazo previsto na Lei.

 

BACK TO BASICS - “A simplicidade, na arte, não é um fim em si mesmo; mas geralmente chegamos à simplicidade quando nos aproximamos do verdadeiro sentido das coisas” - Constantin Brancusi.

 

 



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publicado às 13:45

INSENSIBILIDADE E FALTA DE BOM SENSO

por falcao, em 17.02.17

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BOM-SENSO - A semana que passou foi exemplar: se havia gente que tinha dúvidas sobre a seriedade dos políticos, a diversos níveis, eis que as dúvidas passaram a certezas no que ao uso da mentira respeita. Com episódios como aqueles a que assistimos nos últimos dias não é de admirar que as pessoas se desinteressem de votar, desrespeitem o parlamento, duvidem das instituições do regime e dos partidos. Mais do que isso, o espectáculo dado na praça pública afasta qualquer cidadão minimamente decente dos mecanismos existentes de intervenção política - e o côro de vozes que diz “deixem lá isso e esqueçam o assunto” mostra o grau zero da decência a que se chegou, a todos os níveis. Não há-de ser por acaso que existe um gap geracional hoje em dia na política portuguesa. A maioria dos chamados “millennials”, nascidos entre 1982 e 2002, não votam, não acreditam e, pior do que isso, não querem participar. Aqueles que ainda acreditam ser possível mudar alguma coisa preferem trabalhar em organizações não governamentais do que nos partidos e seus apêndices. Duvidam das eleições e das verdadeiras intenções de quem vai a votos. E todos os episódios recentes lhes dão razão. É uma mera questão de bom senso.


SEMANADA - Foi anunciado um novo sinónimo para pós-verdade: erro de percepção mútuo; PS, PCP e BE adoptaram uma curiosa actuação parlamentar que é sonegar informação relevante do escrutínio dos deputados e da opinião pública; a geringonça decidiu reescrever a História querendo apagar o que não lhe interessa que se saiba; como era de esperar as verdades escondidas começaram a aparecer publicamente logo a seguir; a fantasia do parlamento foi ultrapassado pelos factos; Costa e Centeno quiseram esconder factos ao Presidente da República;  segundo um estudo da PSP, que traça a realidade das relações de 5500 jovens, com uma média de idades de 15 anos, um em cada quatro considera normais ou aceitáveis violência de género e violência doméstica; partilhar fotos íntimas é normal para 24% dos jovens, tal como insultar o companheiro(a) através das redes sociais; 14% do jovens legitima a violência psicológica, havendo 19% de jovens que já foi vítima deste último tipo de violência; em 2016 a PSP registou 1787 casos de violência no namoro entre jovens alunos de escolas portuguesas; em Janeiro, 33% das páginas dos sites auditados pela Marktest foram acedidas através de smartphones; segundo um estudo da Comissão Europeia os salários dos portugueses devem voltar a perder poder de compra nos próximos dois anos; os rendimentos dos licenciados baixaram 20% desde 1998; entre 1999 e 2016 o número de funcionários do Banco de Portugal diminuíu 0,9%, quando no total dos bancos centrais da zona euro caíu 21,6%; contrariando as promessas de Centeno e do Governo, em 2016 o emprego no sector público subiu 0,7%,, aumento que se traduz traduz-se em mais 4.843 postos de trabalho.


ARCO DA VELHA - Mais de 1500 leis aprovadas entre 1974 e 1978 estão obsoletas mas continuam em vigor - revela um estudo de uma equipa de juristas do Governo.

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FOLHEAR - Muita gente tem o desejo de escrever um livro e quase todos hesitam em fazê-lo porque invocam ter falta de jeito. Ora acontece que escrever - e sobretudo escrever um livro - não é uma questão de falta de jeito. Se pusermos de lado a questão de um conhecimento básico da gramática da lingua portuguesa, o acto de escrever é uma questão de técnica e não de jeito. Noutros países existem muitas obras dedicadas a ensinar técnicas de escrita, mas em Portugal essa é uma realidade de pequena dimensão. José Couto Nogueira é jornalista, escritor e tradutor. E, de há uns anos a esta parte, dedica-se precisamente a dar Cursos de Escrita Criativa no El Corte Inglés, de Lisboa - e desde 2006 já vai nas três dezenas desses cursos. A partir das notas que utilizou nesses cursos e dos materiais distribuídos aos participantes, Couto Nogueira fez “Apontamentos de escrita criativa”, um livro com noções básicas e exercícios que podem ajudar quem queira preocupar-se com a técnica em vez do jeito. As ideias são boas, os exercícios são eficazes e esta edição da Arranha Céus é um belo manual de instruções que bem merecia ser lido e absorvido por algumas almas que por aí andam penando com a mania que são escritores. O livro termina com duas listas que são fundamentais conhecer: “Os Dez Mandamentos do Escritor”, de que destaco “escrever sobre o que se conhece”; e “os sete pecados capitais do escritor”, de que destaco “dizer o que não precisa de ser dito”, um mal demasiado comum.


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VER - Uma das mais interessantes colecções particulares de arte contemporânea pertence à Fundação PLMJ, uma instituição criada em 2001 pelo escritório de advogados com o mesmo nome. Muitas dessas obras estão habitualmente no prédio da Avenida da Liberdade que aloja a PLMJ (frente ao passeio público da Avenida onde está uma escultura de Rui Chafes que a instituição ofereceu à cidade). Na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36) até dia 4 de Março está patente uma exposição que sinaliza os 15 anos da fundação e os 50 anos de actividade da sociedade PLMJ. Esta exposição, “Linhas Cruzadas”, foi comissariada por João Silvério, que fez um exemplar trabalho de montagem, e inclui trabalhos de quase quatro dezenas de artistas, todos do núcleo da Lusofonia, que a Fundação formalizou em 2010. Entre eles estão nomes como António Sena, Mário Macilau, Fernando Lemos, Jorge Molder, Julião Sarmento, João Tabarra, Paulo Brighenti ou Albano da Silva Pereira, entre outros. Mais sugestões: nas Carpintarias de São Lázaro ( Rua de São Lázaro 72) está a partir deste fim de semana a primeira grande exposição no âmbito do programa “Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017” . Na galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea (Rua Joly Braga Santos Lote F r/c), Susana Gaudêncio expõe “Objectos de Companhia para um Mundo Aparentemente Contínuo” e na Galeria Vera Cortês (rua João Saraiva 16-1º), até 11 de Março, pode ver “Other plans”, de John Wood and Paul Harrison uma instalação que evoca formas imaginárias de ver uma cidade e a sua arquitectura.

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OUVIR -  Agora que os dias começam a ficar mais longos e que a temperatura começou a subir ligeiramente, pode ser boa altura para uma bebida de fim de tarde. Esta ideia de um copo de “happy hour” faz-me sempre lembrar um bar de hotel, com um pianista, ao canto, que vai tocando versões instrumentais de temas conhecidos. Na impossibilidade de ter um piano de meia cauda em casa e ainda menos de contratar um pianista, há agora uma boa solução: “Piano Portraits”, o disco onde Rick Wakeman reuniu as suas versões para piano, de 15 temas que vão do pop aos blues, passando pela música clássica. Wakeman teve aliás formação clássica no Royal College Of Music, antes de se tornar músico de estúdio, tendo nessa qualidade tocado em discos de nomes como Elton John, David Bowie ou Lou Reed, entre outros. Mas foi como teclista dos Yes que ele ganhou verdadeiramente fama, que depois expandiu a partir da primeira metade dos anos 70, numa carreira a solo de que este é o centésimo álbum. Neste “Piano Portraits” Wakemanbinterpreta temas do Beatles como “Help” ou “Eleanor Rigby”, de Bowie (“Life On Mars”), de Gershwin (“Summertime”) ou dos Led Zeppelin (“Stairway To Heaven”), além de tradicionais como “Amazing Grace” ou “Morning Has Broken” e clássicos como “O Lado dos Cisnes” de Tchaikovski. É um repertório garantido para um bar de fim de tarde. CD Universal, já disponível em Portugal.


PROVAR -  O nepalês Tanka Sakpota é muito simpático e tornou-se um especialista em comunicar que é chef, na acepção gastronómica do termo. Comunica exemplarmente a actividade que tem como empreendedor de uma série de restaurantes, que procura colocar rapidamente na moda com o auxílio de guias, roteiros e um grupo de fãs que vai cultivando. Pega num conceito, utiliza o pretexto da tradição culinária italiana, que aliás conhece bem, e constrói uma imagem. Ultimamente tem segmentado a sua oferta pelos diversos espaços que gere e onde faz questão de estar presente: os elementos fortes da tradição italiana ficam no Come Prima; no Forno d’Oro construíu uma narrativa de pizzas encantadas e algumas inesperadas;  e, agora, em Il Mercato teve a ideia de uma trattoria com um balcão de venda de produtos italianos logo à entrada.  A média da sua actividade é positiva, mas não é surpreendente. Das suas casas, o Forno D’Oro é a mais pretensiosa e a menos conseguida - e este novo Il Mercato, se não se corrigir rapidamente, segue-lhe os passos. Ao almoço há um menu que varia todos os dias e que propõe um antipasti de carnes frias italianas medianas, uma focaccia sem grande história e uma degustação de massas frescas com molhos adequados a cada variedade, que são a melhor parte - embora as massas estivessem ligeiramente cozidas acima do ponto ideal. O serviço é esforçado mas confuso e, se no final optar por comer ainda alguma coisa, não peça queijo porque a demora é grande e vem servido demasiado frio, a perder o sabor devido à temperatura - o que é uma pena porque a lista de queijos italianos é boa e atraente. À noite os preços são mais caros, porventura caros demais para a qualidade, mas em linha com o estatuto de moda que se pretende. Há que dar tempo ao tempo, a ver se a coisa se consegue emendar. Il Mercato, Páteo Bagatela, Rua Artilharia Um, 51, telefone 211 930 941.


DIXIT -  “A imagem em movimento continua a ser o meio mais poderoso para enganar as pessoas” - José Pacheco Pereira, historiador, colunista de imprensa e comentador televisivo.


GOSTO - A partir do início de Março, no Torreão da Cordoaria, o fotojornalista Alfredo Cunha vai mostrar meia centena das imagens marcantes que foi fazendo ao longo dos anos.


NÃO GOSTO - Os tempos de  atendimento do INEM são mais do dobro do recomendado.


BACK TO BASICS - “Há imensas mentiras espalhadas por aí e o pior de tudo é que mais de metade delas são verdade” - Sir Winston Churchill

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publicado às 16:51

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TANGA - Na quarta feira foi divulgada correspondência de António Domingues a Mário Centeno, onde se afirma que o Ministério das Finanças se compromete a criar uma excepção para que a então nova administração da Caixa Geral de Depósitos não tivesse de entregar a declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional. A divulgação da carta veio confirmar o que há muito se dizia, que havia documentos comprovando uma aceitação de Centeno às exigências de Domingues para constituir equipa e aceitar o lugar. Nesse mesmo dia houve debate no Parlamento, Centeno não compareceu, mas o Primeiro Ministro lá esteve sorridente. António Costa garantiu que Centeno não mente. Mas não disse que Domingues mentia. Centeno nada disse, visto não ter aparecido. Por mais que Costa grite que o Rei Centeno não vai nu, a verdade é que, se ele aparecesse no plenário, provavelmente apareceria de tanguinha, talvez mesmo de fio dental. Ora acontece que, embora se saiba que os políticos e a verdade não combinam bem, um Ministro não pode ser publicamente suspeito de mentir, ocultar, distorcer. E desde quarta feira passada Centeno é suspeito disso mesmo.

 

SEMANADA - 40 meses é o prazo médio de realização de julgamentos para cobrança de dívidas; o acordo ortográfico, que nasceu há 27 anos envolto em polémica,  nunca foi integralmente adoptado pela totalidade dos países de língua oficial portuguesa, entre os quais Angola e Moçambique que não chegaram a assiná-lo; Manuel Alegre considerou “arrogante e autoritária” a posição do Ministro dos Negócios Estrangeiros português, que é contra a revisão do Acordo Ortográfico; em 2016 aumentou o abandono escolar precoce; a compra de dívida portuguesa pelos Banco Central Europeu atingiu em Janeiro o valor mais baixo de sempre; o tratado de Maastricht, que lançou as bases para a  moeda única, foi assinado há 25 anos; a banca portuguesa apresentava em setembro passado os rácios mais baixos da União Europeia e o terceiro nível de crédito malparado mais pesado; o facebook fez 13 anos e em Portugal cresceu 49% nos últimos cinco anos; os dados do estudo Bareme Rádio da Marktest indicam que, ao longo de 2016, os portugueses registaram um consumo de rádio um pouco acima de 3 horas diárias; um ano após terem sido aprovados os fundos de apoio à Comunicação Social para 2016 as respectivas verbas ainda não foram libertadas pelo Governo.

 

ARCO DA VELHA - 50% da frota automóvel da PSP está parada devido a avarias e falta de verba para as respectivas reparações.

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FOLHEAR - Neste mundo em que o papel tem tendência a ser ultrapassado pelo digital não deixa de ser irónico que a edição para tablet da revista Tate Etc., dedicada a David Hockney, um dos primeiro e mais destacados artistas plásticos a utilizar o iPad, seja a derradeira neste formato, existindo a partir daqui apenas em papel. Sugiro que façam o ainda possível download da aplicação na AppStore da Apple e comprem este número avulso, para guardar - até porque Hockney merece. Nos últimos tempos tem-se assistido a um desinvestimento em aplicações e a um regresso aos sites e até aos blogues, de que o sucesso do Medium é um bom exemplo. Mas voltemos à Tate Etc. O destaque claro que vai para a retrospectiva de Hockney que estará na Tate Britain até Maio, mas há bom material sobre Robert Rauschenberg ( exposição que está na Tate Modern), para novas fotografias de Wolfgang Tillmans e um belo ensaio sobre as visões que os artistas têm daquilo que vêem das janelas das suas casas. No editorial escreve-se que um recente inquérito a 200 recém formados de engenharia da Universidade de Bath mostrou que aqueles que tiveram cadeiras de arte e design ofereciam uma vantagem assinalável sobre os outros que não tinham estudado estas matérias. Cada vez mais se associa o estudo de disciplinas artísticas ao desenvolvimento da criatividade. “A mensagem é clara - escreve o editor - a arte realmente muda as pessoas, seja o que fôr que venham a fazer na vida. Por favor digam isso a todos os vossos amigos que dizem não se interessar por arte”.

 

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 VER -  Destaque para duas novas exposições no espaço Central Tejo do MAAT. No espaço Cinzeiro 8, no piso de entrada, José Maçãs de Carvalho volta a mostrar o Oriente através das imagens que foi fazendo ao longo de uma década. “Arquivo e Democracia”,  assim se chama esta exposição, é mais uma peça da série de viagens ao arquivo pessoal de Maçãs de Carvalho, nesta caso centrado em Hong Kong. Os trabalhos apresentados combinam fotografias com video, numa montagem que consegue reconstituir o processo de observação e criativo  numa sequência lógica. É um documento sobre um quotidiano, mulheres filipinas que trabalham como empregadas domésticas em Hong Kong, e que se juntam aos domingos, seu dia de folga, junto à zona central da cidade onde estão as lojas das grandes marcas. A montagem da exposição, a passagem da imagem fixa das fotografias à imagem em movimento do video é feita de uma forma muito conseguida, mostrando afinal como a fotografia se pode prolongar no tempo. No espaço remodelado do primeiro andar, “Central 1”, está a exposição “Dimensões Variáveis”, construída a partir de um conceito importado da publicação “Artistas e Arquitectura”, editada em Paris em 2015. A mostra propõe confrontar a relação entre a arquitectura e as artes plásticas e apresenta trabalhos históricos e actuais de artistas de diversas gerações, nacionais e internacionais, entre os quais Bruce Nauman, Gordon Matta-Clark, John Baldessari, Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, Rui Toscano, Liam Gillick e Ed Ruscha. “Arquivo e Democracia” fica no MAAT até 24 de Abril e “Dimensões Variáveis” até 22 de Maio.

 

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OUVIR - Durante muitos anos a formação clássica do trio de jazz (piano, baixo, bateria) foi a imagem de marca de Brad Mehldau, que explora agora o dueto. Após o disco de final do ano passado com o saxofonista Joshua Redman, juntou-se ao bandolinista e vocalista country Chris Thile, com quem deu uma série de concertos, de onde saíu o disco agora editado. Thile e Mehldau são dois músicos muito diferentes: Brad Mehldau é o melhor pianista de jazz da sua geração e Chris Thile é um virtuoso do bandolim e um vocalista com fama feita na country music., nos blues e interpretações de Bach. Neste disco, há dois temas de Thile, outros dois de Mehldau e um belíssimo original de ambos, a faixa de abertura, “The Old Shade Tree”, proporcionando desde o início uma amostra das capacidades vocais de Thile. E há também algumas versões surpreendentes de originais de outros compositores onde Thile canta com a sua voz de falsete e toca o seu bandolim numa inesperada combinação com as sonoridades do piano. No clássico de Nashville “Scarlett Town”, um tema da dupla David Rawlings e Gillian Welch, Mehldau faz côro ao lado da voz de Thile e o resultado é arrebatador. Destaque para as  versões de canções como  “Don’t Think Twice, It’s All Right” de Bob Dylan, do clássico “I Cover The Waterfront”, um original de Johnny Green imortalizado por Billie Holiday, de “Marcie” de Joni Mitchell ou, ainda, ”Independence Day” de Elliott Smith, aqui numa versão apenas instrumental. “Chris Thile & Brad Mehldau” está disponível em duplo CD, em duplo LP de vinyl (com um tema extra,  “Fast As You Can”, de Fiona Apple) e também no Spotify.

 

PROVAR -  Uma sanduíche pode ser uma coisa fantástica e pode ser uma coisa medonha. Infelizmente a maior parte das sanduíches nos cafés portugueses são medonhas - mesmo as mais básicas. Por exemplo a mais tradicional de todas, a sandes de fiambre, é maioritariamente fornecida sob a forma de uma carcaça amolecida, com textura semelhante a borracha, acidentalmente barrada de manteiga mal espalhada (já nem falo das que levam margarina, que as há), com fiambre em reduzida quantidade, mau corte e qualidade inferior. Na maior parte dos casos o corte é grosso, em vez das fatias finas que têm mais sabor. Se sugerirmos que coloquem uma folha de alface olham-nos como se estivéssemos a pedir para substituir a manteiga por caviar. Se usarmos a variante queijo somos brindados com uma fatia acidental de queijo flamengo sensaborão. Tudo isto piora se passarmos ao presunto, que tem grandes probabilidades de aparecer sob a forma de lascas grossas e algo ressequidas que são um teste à integridade de qualquer dentadura. Nem as organizações modernaças como a Padaria do Bairro ou a Padaria Portuguesa conseguem ultrapassar esta mediocridade sanduicheira básica. O meu conselho é que frequentem sempre o mesmo local, de preferência um café tradicional, que partilhem pacientemente com os empregados da casa como querem a sanduíche, que peçam fiambre “do bom e reforçado” e que ganhem a estima de quem está atrás do balcão. Nestes cafés tradicionais, que gostam de ter clientes regulares e não apenas de passagem, os empregados mantêm-se além das estações e vão conhecendo as manias dos clientes. Felizmente tenho locais assim, como a Confeitaria Valbom, onde me fazem uma magnífica sandes de fiambre onde nada de mal se passa.

DIXIT -  “Hoje não há direita” - Vasco Pulido Valente

 

GOSTO - Da edição, pela Gulbenkian, em três volumes, dos ensaios e artigos de imprensa escritos por Agustina Bessa-Luís entre 1951 e 2007.

 

NÃO GOSTO - Da ausência dos membros do Governo da área da Cultura na apresentação realizada em Lisboa, na Gulbenkian, da recolha de ensaios e artigos de Agustina.

 

BACK TO BASICS - A mudança é o processo pelo qual o futuro invade a nossas vidas - Alvin Toffler

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publicado às 14:00

AUTÁRQUICAS - É TUDO DEMASIADO MAU

por falcao, em 03.02.17

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ELEIÇÕES - Olho para o panorama daquilo que já se conhece e do que se adivinha das próximas eleições autárquicas e só me sai uma frase: é tudo demasiado mau. De norte a sul os partidos sofrem crises e deserções, mostram hesitações, vivem ilusões, entram em contradições. Em Lisboa, sobretudo, portam-se de forma inconsciente e abdicaram de combater um autarca substituto que transformou o centro de Lisboa num recreio pessoal.  Medina, estimulado por Salgado e embalado por Sá Fernandes, deixa marcas profundas na cidade, contra os lisboetas e a favor de uma noção de cidade-cenário bonitinha mas desconfortável - o poder vigente cuidou de embelezar o que está à vista, mantendo em ruínas o que está escondido. Tem uma noção antiga de cidade, saudosista e reaccionária, que mascara e usa na propaganda. Lisboa continua a perder habitantes, a sua população continua a envelhecer, está a deixar de ser um local agradável com tantas complicações que são postas no dia a dia a quem nela decidiu viver e trabalhar. Não admira o que sucedeu ao PSD na capital: quem nunca conseguiu ser oposição não vai ser alternativa. As eleições autárquicas deviam ser um exemplo de propostas de proximidade e de empenho político na melhoria efectiva da qualidade de vida. O pior de tudo é que nestas autárquicas, um pouco por todo o país, aquilo a que se assiste é ver os partidos a procurar a sua satisfação própria, distribuindo empreitadas e delapidando dinheiro em obras sem sentido, em vez de cuidarem do bem público. E como se preocupam mais com o umbigo do que com os objectivos, nem alianças conseguem fazer. E, nalguns casos, nem encontram quem queira ser candidato, com ideias e credibilidade.

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SEMANADA - Nem um único dos titulares de cargos políticos e públicos abrangidos pelo Código de Conduta aprovado pelo Governo em setembro passado  emitiu qualquer comunicação de conflito de interesses; um engenheiro da Associação Regional de Saúde do Norte confessou que desde há 20 anos exige luvas para aprovar as obras que superintende; os três principais corruptores livraram-se de ser acusados pelo Ministério Público por fazerem donativos de cerca de 2000 euros a instituições de solidariedade e prestarem depoimentos contra o principal acusado, que deles recebeu perto de meio milhão de euros para facilitar negócios; o mercado imobiliário em Portugal cresceu 50% nos últimos dois anos; o valor das pensões do Estado caíu 27% desde a troika; a dívida pública portuguesa atingiu no final de 2016 os 241,1 mil milhões de euros, o que representa um aumento de 9,5 mil milhões face a 2015: a PSP e a GNR arrecadaram 78,3 milhões de euros em multas de trânsito em 2016, menos 11,6 milhões que em 2015; o tabaco está 18% mais caro que em 2011 mas a venda de cigarros aumentou 14% no ano passado; o Observatório da Justiça elaborou um estudo sobre a actuação dos tribunais em casos de violência doméstica e concluíu que há decisões de sentido contrário em situações semelhantes; guardas prisionais denunciaram que as famílias de alguns detidos estão a ser chantageadas por outros detidos que exigem pagamentos para que os familiares presos não sejam espancados nas cadeias; em Tomar foi descoberto um lar ilegal que tinha dez idosos a dormir numa garagem.

 

ARCO DA VELHA - Oito pessoas perderam a vida em Janeiro e 45 ficaram  desalojadas devido a incêndios que ocorreram quando tentavam aquecer a casa.

 

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FOLHEAR - Hoje o livro de que vou falar pode ouvir-se em casa e ver-se em palco. “Mão Verde”, assim se chama o projecto, foi encomendado pelo Teatro Municipal de S.Luiz, onde estreou ainda em 2015, e coexiste sob a forma de um livro ilustrado, de um disco que vem com o livro e onde são cantados alguns dos poemas do livro e, finalmente, um espectáculo que domingo, dia 5, voltará a ser apresentado pelas 17h00 na Casa da Música, no Porto. A autoria do projecto é da rapper e socióloga Capicua (Ana Matos Fernandes) e do músico Pedro Geraldes (na composição, guitarra, programações e teclados). Aos dois autores juntam-se agora em palco,já que anteriormente era apenas o duo de autores que aparecia ao vivo, Francisca Cortesão no baixo e António Serginho nas percussões. A edição de “Mão Verde” reúne o livro e o disco num só objecto com magníficas ilustrações de Maria Herreros. As canções e os textos falam da natureza - das plantas e animais que constituem o mundo mágico que todos podem descobrir - sobretudo os mais novos. Arrisco dizer que é como um mapa musical de um jardim. Como escreve Capicua, “ as árvores quando morrem viram livros e os livros guardam as histórias e as memórias dos antigos. Das folhas das árvores para as folhas dos livros passa a poesia que nos ensina a ser livres”.

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VER -  A exposição “José de Almada Negreiros - Uma maneira de ser moderno”, que inaugurou esta semana na Fundação Gulbenkian, é uma retrospectiva da obra do autor que engloba mais de 400 trabalhos, alguns deles inéditos, e ocupa até 5 de Junho as duas grandes salas de Exposições Temporárias da Fundação, na Avenida de Berna, em Lisboa. Na Galeria Principal mostram-se a pintura e o desenho em ligação com os trabalhos que o artista fez em colaboração com arquitetos, escritores, editores, músicos, cenógrafos ou encenadores. Na sala do piso inferior é destacada a presença do cinema e da narrativa gráfica. Juntam-se ainda obras e estudos inéditos que permitem descobrir  várias facetas do processo criativo de Almada Negreiros.  Almada, visionário, dizia em 1927, na conferência “O Desenho”, em Madrid: “Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir, mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da Novidade”. E sobre si próprio, em “A Invenção do Dia Claro”, de 1921: “Reparem bem nos meus olhos, não são meus, são os olhos do nosso século! Os olhos que furam para detrás de tudo.” São estes olhos, tão patentes nos seus auto-retratos, que são a sua imagem de marca. Almada defendia uma modernidade presente em todo o lado, nos edifícios públicos, nas ruas, no teatro, no cinema, na dança, no grafismo e nas ilustrações dos jornais e entendia o artista como o agente principal de todo esse movimento. A programação complementar desta retrospectiva, que assinala os 120 anos sobre a data de nascimento do artista, inclui uma peça de teatro, visitas às gares marítimas de Alcântara e Rocha do Conde de Óbidos onde estão murais de Almada, um concerto, um ciclo na Cinemateca Portuguesa e a exibição da obra multimedia “Almada, um Nome de Guerra” de Ernesto de Sousa. E há ainda a aplicação  “A Lisboa de Almada”, com um roteiro em 30 pontos da vida e das obras do artista na capital, desde as tapeçarias do Ritz aos vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

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OUVIR - Numa outra encarnação Curtis Stigers foi um cantor pop com vagas incursões na soul e no rock e que em 1992 ganhou fama com “I Wonder Why”. Depois fez carreira como cantor de jazz, compositor e saxofonista. Agora registou um disco de homenagem à histórica gravação “Live At The Sands”, de Frank Sinatra, feita em Las Vegas, em 1966, com a orquestra de Count Basie. Stigers alinhou a coisa com o repertório de Sinatra e seguiu o exemplo, gravando ao vivo em Copenhaga com a Big Band da rádio pública dinamarquesa. A qualidade desta orquestra, que captou o espírito e o swing de Count Basie, é o primeiro destaque do disco. E Stigers, que não é o xaroposo Michael Bubblé, afirma-se bem em temas como “Come Fly With Me”, “I’ve Got You Under My Skin”,”You Make Me Feel So Young”,  “Fly To The Moon”, “The Lady Is A Tramp” ou “One For My Baby”, mantendo aliás o fraseado original de Sinatra. É um disco de versões, claro, mas é um belo disco, que seguiu as orquestrações originais de Nelson Riddle, Billy May e Quincy Jones. E acaba por ser uma curiosa homenagem a Sinatra e a Count Basie. “One More For The Road”, de Curtis Stigers com a Danish Radio Big Band.

 

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PROVAR -  Rumemos então a Oriente no mapa lisboeta. Isto não quer dizer ir para a zona da Expo, quer dizer procurar um restaurante chinês que seja frequentado por chineses. É o caso do Palácio do Mar, na Rua D. Estefânia - na parte de cima da rua, ao lado de uma histórica cervejaria dos noctívagos lisboetas, “O Arpão”, agora substituída por uma hamburgueria sem história, uma das quatro, todas igualmente sem história, que existem num raio de 500 metros. O Palácio do Mar apresenta-se como uma casa dedicada à “alta cozinha asiática” e oferece menu de almoço acessíveis a 6 euros, horário em que a casa é mais frequentada por ocidentais - embora se vejam sempre alguns chineses na sala, normalmente com pedidos bem diferentes dos portugueses. Mas é à noite que a casa se torna mesmo um local sobretudo frequentado por orientais. Resumindo-me à minha qualidade de ocidental cabe-me elogiar os raviolis chineses cozidos a vapor, cozinhados na hora, e o pato à Pequim, bem crocante e saboroso. Para acompanhar sugiro uma deliciosa e aromática cerveja chinesa, de malte de cevada, lúpulo e arroz, a Tsingtao. Na lista podem ainda encontrar sopas, saladas e mariscos, que ajudam a fazer a boa reputação da casa.

Palácio do Mar, Rua Dona Estefânia 92 A -  Telefone 218 278 315.

 

DIXIT -  “Fogo com fogo se combate. É assim que a política se faz” - Miguel Esteves Cardoso

 

GOSTO - A Academia das Ciências aprovou uma proposta de aperfeiçoamento do acordo ortográfico que propõe o regresso das consoantes mudas, do acento gráfico e circunflexo e também do hífen.

 

NÃO GOSTO - Passado mais de um ano o Conselho Geral Independente da RTP ainda não apresentou o seu relatório sobre a actividade do operador de serviço público relativo ao ano de 2015. Nos corredores da empresa é conhecido por Conselho Geral Inútil.

 

BACK TO BASICS - “Nunca sabemos quem verdadeiramente somos até vermos aquilo que podemos ser capazes de fazer” - Martha Grimes

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publicado às 13:30

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PISTAS - Esta semana Nuno Garoupa, o professor de Direito (actrualmente numa universidade americana) que durante anos recentes dirigiu a Fundação Francisco Manuel dos Santos, deu uma entrevista ao jornal i onde traça um retrato certeiro do país. Com a devida vénia, aqui vão excertos:  “De 1995 a 2015, quase meio milhão de pessoas deixaram de votar. Em 1995 votavam em partidos 5,8 milhões, hoje estão a votar à volta de 5,2. Se continuarmos neste padrão e a este ritmo, dentro de uns dez anos estarão a votar nos partidos cerca de 4,5 milhões de pessoas. E quem são esses 4,5 milhões? São os eleitores que votam sempre nos mesmos partidos: o sistema, os militantes, os simpatizantes e os caciques. Estaremos reduzidos à mobilização desse núcleo e sem qualquer sociedade civil. Dois milhões da direita e dois milhões e meio de esquerda, e aí está.” (...) “Olhando todos os estudos, o votante mediano não está à direita, está à esquerda. E mais do que isso, a renovação geracional, em que a camada dos 20 aos 30 anos está mais à direita que a camada dos 70 aos 80 porque já ninguém se lembra do Estado Novo, tem um problema. É que as pessoas dos 20 aos 30 não votam. O eleitorado está envelhecido e cacicado. Não votam porquê? Porque a direita não encara esse desafio de mobilizar abstencionistas.” Raras vezes vi um retrato tão perfeito do que se passa em termos da degradação do sistema político e partidário.

 

SEMANADA - Seis antigos presidentes de municípios do distrito de Viseu foram acusados pelo Ministério Público de combinarem um esquema que lhes permitiu cobrar senhas de presença e ajudas de custo indevidas, durante cinco anos, no total de cerca de meio milhão de euros; um sargento da GNR de Vila Real recebia mil euros por avisar a realização de rusgas em casas de alterne; as penhoras de automóveis pelo Fisco aumentaram 28% em 2016; quase 30 mil famílias pediram ajuda em 2016 ao Gabinete de Apoio ao Sobreendividado, da DECO; nas cadeias portuguesas, para 14 mil presos, há 30 psicólogos - um para cada 466 detidos; nos vinte tribunais reabertos no início do ano só foi efectuado, até agora, um único julgamento; entre 2014 e 2016 as compras a empresas farmacêuticas registaram uma subida de 200 por cento e os gastos do Estado com medicamentos atingiram no ano passado os 527 milhões de euros; os hospitais públicos realizaram menos 5626 cirurgias entre janeiro e novembro de 2016, face ao período homólogo de 2015; há 30 mil pessoas sem médico de família no litoral alentejano, entre Odemira e Alcácer do Sal; Portugal tem a segunda maior dívida pública da zona euro - 133,4% do PIB; enquanto Portugal colocou recentemente dívida a um juro de 4,2% a Espanha, na mesma altura, conseguiu colocar dívida a 1,5%; o gasto do Estado com parcerias público-privadas rodoviárias aumentou 77% no terceiro trimestre do ano passado; o Tribunal da Relação de Évora considerou que agarrar uma pessoa pelo pescoço não constitui violência doméstica.

 

ARCO DA VELHA - Filipe Silva, o subcomissário que agrediu em maio de 2015 um adepto do Benfica em Guimarães à frente dos dois filhos menores, continua a exercer as mesmas funções e recebeu um louvor do Comando de Braga da PSP porque "prestigia a polícia".

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FOLHEAR - A revista “Monocle” está prestes a comemorar o seu 10º aniversário, com uma edição especial e algumas mudanças, que são já ventiladas no editorial da edição nº100, agora publicada. Nesse editorial o fundador e Director da “Monocle”, Tyler Brulé,  conta que o projecto começou a ser pensado em 2004, para nascer três anos depois. Durante esse período de tempo preparatório, que serviu para definir o modelo, angariar capital e escolher a equipa, o nome de código da nova publicação era “Project Europa”. A equipa dirigente da revista, conta Brulé, está agora na fase de colocar questões: o desenho de capa e o formato devem ser mantidos? Os leitores que seguem a revista entretanto envelheceram 10 anos - deverá isso levar a usar um tipo de letra e um espacejamento entre linhas maiores? Ao fim de uma década há uma geração de potenciais leitores que não lêem edições em papel - deve a “Monocle” entrar no formato digital que sempre evitou?  Deliberadamente a “Monocle” tem apenas um arquivo digital exclusivamente acessível a assinantes e uma operação audiovisual integralmente online centrada na rádio Monocle24 e nos mini-documentários video que acompanham o seu site e a sua newsletter diária  - mas os conteúdos da edição impressa não são disponibilizados on line de forma gratuita nem avulsa. Ao longo desta década a “Monocle” desenvolveu lojas e cafés em algumas cidades, criou produtos próprios em acessórios, roupa, perfumes e até editou duas dezenas de livros. Começou como uma revista graficamente surpreendente, dos 19 colaboradores iniciais passou para mais de 100, com escritórios em nove países, evoluíu para uma marca global e um guia para um fiel grupo de seguidores urbanos e cosmopolitas. E nos próximos dez anos? Dentro de pouco tempo saberemos, mas Tyler Brulé promete que a edição impressa continuará a ser o motor da “Monocle”.

 

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VER - O pintor japonês Jun Shirasu passou três meses, numa residência artística da Oficina Ratton, na Arrábida, a pintar um painel de azulejo a que deu o título “A Viagem da Camélia”  que mostra, numa narrativa visual, como essa planta veio do Japão para Portugal e, também, a história cruzada dos dois países nos séculos XVI e XVII. Trata-se de um impressionante mural azulejar de 0,98 x 19,60 metros; a exposição apresenta ainda um conjunto de azulejos avulso intitulado “Diário Gráfico” e 4 painéis onde o imaginário e as memórias de viagem estão presentes. Uma outra série, de ” falsos azulejos”, leva-nos às origens dos primeiros trabalhos do artista enquanto gravador. No painel Jun Shirasu utilizou o azul cobalto sobre esmalte branco (na imagem) numa técnica inspirada na sua experiência enquanto gravador. A presente exposição, que ficará patente até 28 de Abril, inicia a comemoração do 30º aniversário da Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C). Outras sugestões: na Barbado Gallery (Rua Ferreira Borges 109A) está patente até 4 de Março a exposição “The Americans”, do fotógrafo norte-americano Christopher Morris, que mostra imagens do livro com o mesmo nome editado originalmente em 2012, com o propósito de fazer um retrato antropológico da América, num trabalho que decorreu ao longo de oito anos; finalmente, na Galeria Belo Galsterer (Rua Castilho 71-1º), até 25 de Março, a colectiva “Paperworks IV - Portadores de Ideias”, que mostra edições de múltiplos de, entre outros,  Pedro Calapez, Pedro Proença,  Jorge Molder, Alexandre Conefrey, Mário Macilau e até do criador da ideia de múltiplo, Joseph Beuys.

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OUVIR - Hope Sandoval tornou-se conhecida como a voz dos Mazzy Star, uma banda que fez história nos anos 90. “Until The Hunter” é o terceiro álbum que ela faz com os Warm Inventions, o duo que criou com o baterista dos Bloody Valentine, Colm O’Ciosoig, no início deste século. Ao longo dos anos colaborou também, entre outros,  com os Massive Attack e com Jesus & Mary Chain e, inesperadamente, em 2013 apresentou novo trabalho no projecto Mazzy Star. Mas em finais do ano passado regressou à forma Warm Inventions com este novo disco onde a sua voz é mais uma vez a marca dominante. “Until The Hunter”, que já é considerado como o seu melhor trabalho nos Warm Inventions, tem muitas influências - desde logo da canção dos Mazzy Star que a tornou conhecida, “Fade Into You”, e que aqui é evocada em temas como “Peasant” e “Isn’t It True”. Há claras influências folk em “A Wonderful Seed” e “The Hiking Song” e o seu lado psicadélico sobressai na forma como voz e percussão combinam ao longo dos nove minutos da faixa de abertura, “Into The Trees”. Destaque ainda para o dueto com Kurt Vile em “Let Me Get There”, e para os temas “Day Disguise” e “Treasure” e, sobretudo, para um surpreendente tema final, um blues poderoso, “Liquid Lady” que simbolicamente contrasta de forma evidente com a faixa de abertura, parecendo uma espécie de promessa de algo que pode ser retomado no futuro. Hope Sandoval usa a voz, toca vibrafone e teclas e Colm O’Ciosoig toca bateria, percussões e guitarra. Disponível no Spotify.

 

PROVAR -  No dia a dia há muitos casos em que se aplica a máxima “não se deve voltar onde se foi feliz”. Creio, no entanto, que este princípio não se deve aplicar a restaurantes. É salutar de vez em quando ver como estão as coisas, analisar, avaliar se há variações na qualidade dos ingredientes, da cozinha ou do serviço. Um bom restaurante quer-se um garante da regularidade. Não é de esperar que, à mesma mesa, um dia os pastéis de bacalhau sejam bons e na semana seguinte sejam maus. Se isto é importante em relação a pratos que se podem repetir ao longo de todo o ano, é ainda mais importante quando falamos de pratos que só se servem em determinadas estações de ano - porque a matéria prima é sazonal. Pratos de caça, uma das delícias do Inverno, entram nesta categoria. O “Apuradinho”, em Campolide, é um dos bons sítios onde se pode comer uma perdiz de caça, num tradicional estufado, acompanhada de batatas novas, cebola e fatias de pão frito. Ano após ano não tenho más surpresas nas perdizes que vou comendo no Apuradinho. Para rematar, e apesar da boa lista de doces conventuais da casa, a minha opção, nestes dias, vai para uma pera bêbada em vinho tinto - primorosamente confeccionada. No inverno, de 15 em 15 dias, há cozido às quintas. E a lampreia está quase a chegar… Apuradinho, Rua de Campolide 209, telefone 213 880 501.

 

DIXIT - “Faz parte da função presidencial chegar a todos” - Marcelo Rebelo de Sousa.

 

GOSTO - Em Leiria foi criada a primeira biblioteca para invisuais com obras em braille.

 

NÃO GOSTO - Do veto do Conselho de Opinião da RTP à indicação de João Paulo Guerra como Provedor do Ouvinte da rádio pública.

 

BACK TO BASICS - «O mundo estaria salvo se os homens de bem tivessem a ousadia dos canalhas»  - Nelson Rodrigues

 

 

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Olhando as coisas bem de frente é bom que se diga e fique claro que a única razão para a posição tomada pelo Conselho de Opinião da RTP, rejeitando a indicação de João Paulo Guerra para provedor do ouvinte da rádio de serviço público,é de natureza ideológica. O indigitado foi recusado porque a maioria dos conselheiros olha mais para o currículo de pensamento dos candidatos, e para as posições que possa ter tomado ao longo da vida, do que para as competências profissionais e adequação às funções para as quais é proposto. E isto acontece assim porque o Conselho de Opinião é uma manta de retalhos, resultado de uma mixórdia politico-partidária com inspiração em negociatas e jogos parlamentares a que soma uma larga componente corporativa dos mais variados e contraditórios interesses - com o ponto comum de só uma minoria ter a ver com a actividade em si da concessionária do serviço público de comunicação audiovisual. Em ambos os casos o traço dominante é a falta de conhecimento da maioria dos membros do Conselho em relação à realidade da Comunicação, e, pior ainda, a impunidade com que dizem disparates sobre a matéria. Gostam de ser treinadores de bancada, e como frequentemente acontece a quem se dedica a essa actividade, nem sequer sabem o que é uma bola. Sei do que falo porque, durante alguns poucos meses, fui membro desse Conselho, no início deste século, e ouvi discussões de estarrecer e posições que apenas mostravam a ignorância de quem as tomava em relação às matérias em debate. Este modelo de Conselhos, que se pretendem democráticos, tem um efeito exactamente contrário ao pretendido como agora se verifica - a avaliação da competência foi sacrificada às guerrinhas partidárias e ideológicas. Enquanto o Serviço Público estiver dependente, a todos os níveis, destes conselhos pretensamente independentes, arrica-se a ser manobrado por incompetetes e inúteis que não percebem sequer o que fazem. Mais valia, já que se discute uma eventual revisão do funcionamento da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação), que os Conselhos de Opinião e "Geral Independente" da RTP fossem extintos e as decisões passassem apenas pela ERC. Era tudo mais claro, profissional e transparente.

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INFLUENCIAR  - Como se influencia um político? Como se força um político? Como se manobra a opinião pública? Até onde se pode ir? A resposta a estas questões pode ser vista em “Miss Sloane”, um “thriller” político, passado em Washington, estreado em Portugal na semana passada, realizado por John Madden e que tem Jessica Chastain, fabulosa, no papel principal - o de Elisabeth Sloane, uma lobista habituada a casos difíceis. Usando as palavras de Miss Sloane, fazer lóbi é prever o que pode acontecer, antecipar o movimento dos adversários e tomar medidas para os contrariar, é conseguir ficar à frente de quem se quer derrotar, é conseguir surpreender os inimigos sem nunca se deixar surpreender por eles. Isto é a bíblia de Elisabeth Sloane e é seguindo-a que ela vence, custe o que custar. Contra as mentiras dos políticos ela usa o que pode para provocar o seu descrédito. Se há políticos trapaceiros e que entram em esquemas, não será justo usar todos os recursos contra eles, mesmo os que podem ser ilegais? Como se combate a falta de ética na política? Seguindo a ética ou contornando-a? Estas são as grandes questões que este filme deixa e são estas questões as que, um pouco por todo o lado, se colocam hoje aos eleitores, que cada vez mais perdem a confiança em políticos que deixam os princípios de lado em nome de tácticas. O filme é poderoso e dá um retrato vil da política. Não é ficção, é a realidade e foram os próprios políticos que o criaram. Há quem diga que este filme é o melhor retrato já feito do que se passa em Washington. E,  arrisco  dizer, também em outras cidades, de outros continentes e de outros países.

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SEMANADA - “Vaticanum”, de José Rodrigues dos Santos, foi o livro mais vendido em Portugal em 2016, com perto de de 90 mil exemplares; outro livro do mesmo autor, “O Pavilhão Púrpura”,  está entre os dez mais vendidos; José Rodrigues dos Santos já ultrapassou os 2,2 milhões de livros vendidos em Portugal no total da sua obra e no estrangeiro vendeu cerca de um milhão; “Sentir”, a biografia de Cristina Ferreira, vendeu cerca de 85 mil exemplares; o primeiro volume da “Bíblia”, na tradução de Frederico Lourenço, vendeu cerca de 20 mil exemplares ; medidas do simplex derraparam e mais de 70% estão por concluir; 98% dos alunos formados da Escola Náutica vão trabalhar para o estrangeiro já que a marinha mercante portuguesa foi praticamente extinta; Portugal vai ter mais 40 novos hotéis este ano, metade dos quais em Lisboa; as temperaturas extremas, de frio ou calor, matam em Portugal, em média por ano, 1500 pessoas; o MAAT teve 150 mil visitantes desde que abriu em outubro passado; foram feitos cortes de 34,5 milhões de euros nos principais hospitais do serviço Nacional de Saúde; ao mesmo tempo foi anunciado que o Ministério da Saúde planeia investir este ano 204 milhões em novas infraestruturas e equipamentos no sul do país; nas últimas semanas o Governo prometeu abrir linhas de crédito para sectores específicos cujo valor total é de centenas de milhões de euros - mais um aumento de dívida; o Bareme Internet da Marktest estima em 3,7 milhões o número de portugueses que usam a Internet para ouvir música.

 

ARCO DA VELHA - No meio da confusão existente o acordo de concertação social não foi firmado numa cerimónia, como é usual, mas através da recolha apressada de assinaturas porta a porta junto de cada um dos subscritores, por um motorista do Governo, enquanto no Parlamento o Primeiro Ministro já o dava por assinado antes mesmo do périplo dos autógrafos terminar.

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FOLHEAR - “Luanda, de acordo com o que Mary Kingsley escreveu em 1899, não era apenas a cidade mais bela da África Ocidental, era a única cidade da África Ocidental” - assim começa o delicioso capítulo “A Cultura Urbana na Cidade de Luanda” do livro “Breve História da Angola Moderna”, de David Birmingham, um historiador britânico, da Universidade de Kent. Birmingham escreveu vários livros sobre a história de Portugal e da presença dos portugueses em África, nomeadamente em Angola, e esta obra incide sobre o período entre 1820 e o início do século XXI. O autor detalha a evolução social, económica e política de Angola, incluindo episódios históricos como a tentativa de ali criar uma nação judaica em finais do século XIX e princípio do século XX - houve até uma proposta nesse sentido apresentada no Parlamento português em 1912. A Guerra Colonial, a Guerra Civil e a posterior evolução do regime até ao final da primeira década deste século, são épocas abordadas, com numerosos episódios e relatos de acontecimentos pouco conhecidos. É uma visão curiosa, distante da visão portuguesa, e que por isso mesmo é um complemento de informação que vale a pena conhecer. Edição Guerra & Paz.

 

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VER - Confesso-me um fã da obra de Cecília Costa - aprecio o seu traço, a ironia misturada com enigma, provocação e mistério que retrata nos seus desenhos. Tem, além de um estilo, uma atitude - e isso é muito patente em “Longing”, a sua nova exposição que inaugurou esta semana na galeria Baginski (Rua Capitão Leitão 51, no Beato, até 25 de Fevereiro). Nesta exposição, surpreendente, Cecília Costa provoca ligações entre as instalações que concebeu e os seus desenhos, intervindo sobre objectos do quotidiano, reformulando-os e redefinindo-lhes as funções - mesmo que sejam tão efémeros como um cubo de gelo que se vai dissolvendo. Voz certeira disse-me na inauguração que Cecília Costa “põe cuidado em coisas simples”. É isso que faz a diferença da sua obra. Outras sugestões - No Museu do Chiado pode agora ver a recente exposição do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, que retoma a pintura de Amadeo de Souza-Cardoso, à época surpreendente e polémica, mostrada pela primeira vez em Fevereiro de 1917. Na Escola Superior de Comunicação Social está uma curiosa exposição intitulada “A Propaganda eleitoral nas eleições presidenciais dos EUA - 2016” que reúne espólio da colecção de José Pacheco Pereira e que, além de material das eleições que deram a vitória a Trump, mostra peças de propaganda política desde os anos 30.

 

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OUVIR - O piano, nos vários géneros musicais, é um dos instrumentos de que mais gosto e gravações de piano ocupam lugar de destaque na minha colecção de discos. No jazz contemporâneo há um pianista que há anos me seduz, Brad Mehldau - seja nas suas formações tradicionais de trio, seja nas suas incursões a solo ou, mais recentemente, em duetos. “Nearness”, editado no final de 2016, regista uma selecção de gravações efectuadas durante uma digressão europeia de um duo constituído pelo saxofonista Joshua Redman e Brad Mehldau, ambos amigos e colaboradores de longa data. Aliás Mehldau começou a sua carreira como pianista do quarteto de Redman, no início dos anos 90 e depois ambos trabalharam juntos em diversas ocasiões -  na realidade um e outro estão entre os músicos de jazz mais marcantes da sua geração. Neste disco pegam em temas clássicos como”Ornithology” de Charlie Parker, “In Walker Bud” de Thelonius Monk ou “The Nearness Of You”, de Hoagy Carmichael e Ned Washington e usam-nos para dar uma lição de improvisaçao e de cumplicidade. Temas originais como “Old West” (de Mehldau) ou  "Mehlsancholy Mode", de Redman, mostram também a sua criatividade como compositores. “Nearness”, de Joshua Redman e Brad Mehldau, edição Nonesuch, no Spotify.

 

PROVAR -   O chef argentino Chakall ganhou notoriedade em Portugal, primeiro com a sua cozinha que na altura parecia exótica, e, depois,  com os seus programas de televisão e com mais de uma dezena de livros. Construíu uma personagem onde a exuberância, o colorido das roupas e um constante turbante fazem a sua imagem de marca - certamente fruto da  experiência ganha como jornalista no início da sua carreira profissional. Felizmente, para além da construção da marca, Chakall tem colocado nos vários restaurantes por onde passou um traço de boa cozinha, bom serviço e um honesto compromisso entre qualidade e preço. Há cerca de um ano mudou-se para Marvila, para um dos antigos armazéns da firma de vinhos Abel Pereira da Fonseca, na Praça David Leandro da Silva, num espaço enorme onde pode acolher grandes grupos e eventos, mas onde também pode servir com atenção mesas de duas ou quatro pessoas- o El Bulo Social Club. Há um menu especial de almoço e ao jantar uma carta onde as influências do seu país de origem são notórias. A decoração é exuberante, tão colorida e marcante como o visual do próprio Chef. Há evidentemente evocações bem argentinas como papas rellenas, empanadas argentinas ou um original parafuso - o nome dado a um prego de ojo de bife de 200 gramas servido em bolo do caco e acompanhado por batata frita

A opção numa recente visita foi por um duo de ceviche (de peixe branco e atum) e depois por cannelloni de osso buco. Ambos estavam muito bons mas o ceviche merece destaque pela qualidade do tempero e preparação. A refeição terminou com um crumble de maçãs verdes. A lista de vinhos é comedida na variedade, mas a preços razoáveis. Volta e meia tocam-se e dançam-se tangos. Encerra ao Domingo  e segunda-feira (telefone 218619027)218619027

 

DIXIT -   “Tenho dificuldade em aceitar que o meu partido vote ao lado de quem nunca valorizou a concertação social” - carta aberta de Silva Peneda a Passos Coelho a propósito da nova posição do PSD sobre a TSU.

 

GOSTO - Do novo museu da Casa da Moeda - é virtual, está online e pode ser visto em www.museucasadamoeda.pt

 

NÃO GOSTO - Em Portugal ainda há quatro mil crianças que não são vacinadas todos os anos por resistência das famílias.

 

BACK TO BASICS - “O homem é por natureza um animal político e a natureza não faz nada sem sentido” - Aristóteles



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(IN)JUSTIÇAS - e sugestões avulsas

por falcao, em 13.01.17

 

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(IN)JUSTIÇAS - O número de licenciados em Direito que ocupa lugares no sistema político português é bastante grande e, mesmo não existindo um estudo actualizado sobre o tema, arrisco-me a dizer que juristas e advogados são o grupo sócio-profissional mais representado na Assembleia da República e nos mais altos cargos do Estado, como Primeiro-Ministro e Presidente da República. Por isso mesmo não deixa de ser paradoxal que a justiça seja um tema tão mal tratado em Portugal pelo próprio Estado. Marcelo Rebelo de Sousa, ainda bem recentemente, chamou a atenção para os problemas que existem, mas que ultrapassam a questão da morosidade dos tribunais. O maior problema, penso, tem a ver como o Estado se posiciona face aos cidadãos quando está em disputa com eles nas várias instâncias judiciais. Não é só a questão das altas custas de justiça, para o qual o novo bastonário da Ordem dos Advogados alertou, é sobretudo a atitude com que o Estado actua - partindo sempre do princípio de que o cidadão é culpado. Muito se tem escrito sobre o uso sistemático e talvez abusivo dos recursos, apresentados por organismos do Estado para prolongar processos, encontrando todos os pretextos para suspender prazos e recorrendo de decisões só por recorrer, com o único intuito de adiar decisões finais. A este nível o comportamento da autoridade tributária, que é um dos expoentes destes expedientes, e que tem sido amplamente criticado, é dos piores exemplos da falta de honestidade do Estado e da forma como o princípio da presunção da inocência não é respeitado. O Estado, que devia ser uma referência e um exemplo, é em matéria de justiça um dos seus piores protagonistas. E mudar esta situação seria uma das maiores reformas que o Estado podia concretizar.

 

SEMANADA - Este ano há  4920 candidatos a bolsas de estudo no ensino superior, sendo que serão atribuídas apenas 1320;  existem atrasos na análise destes pedidos devido a erros na plataforma informática da Direcção Geral do Ensino Superior; a dívida dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde cresce ao ritmo de 27 milhões de euros por mês; a dívida total atinge 1750 milhões e regressou aos picos de há três anos; o investimento público registado em 2016 é o mais baixo das últimas três décadas; a Agência de Gestão da Tesouraria e Dívida Pública diz que o Estado português precisa de 12,4 mil milhões de euros de financiamento líquido em 2017; esta semana Portugal colocou no mercado uma dívida de três mil milhões de euros a uma taxa de 4,227%, que compara com a taxa de 2.875% conseguida em operação idêntica há um ano; o Bloco de Esquerda anunciou ter anulado a adesão de um grupo infiltrado de seis elementos que pretenderia controlar e desvirtuar a organização;o Bareme Internet da Marktest  estima em 1,9 milhões o número de portugueses que usam a Internet para marcar viagens ou alojamento; as compras dos portugueses aumentaram 10% desde o início de Dezembro até agora; nos saldos cada português gastou em média 120 euros numa semana; as exportações de empresas de Paredes de Coura aumentaram sete vezes o seu valor no espaço de 3 anos; a maioria dos municípios portugueses aumentou as exportações entre 2013 e 2015; a nível nacional, o volume de bens vendidos ao exterior cresceu 5,3%; segundo uma portaria publicada esta semana em Diário da República, a PSP e a GNR vão passar a cobrar, a partir desta quinta-feira, 75 euros por dia pela cedência de um cão e 100 euros pela de um cavalo, quando solicitados por entidade privada ou pública fora do âmbito de missões policiais.

 

ARCO DA VELHA - Um padre de 84 anos entrou em contramão na circular urbana de Braga, provocou acidente, fugiu, diz que não se lembra de nada e afirma ter saído do local para ir dar missa.

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FOLHEAR - Nascido no Missouri, Thomas Stearns Eliot foi para Inglaterra com 25 anos, aos 39 abandonou a cidadania norte-americana e tornou-se cidadão do Reino Unido. Em 1948 ganhou o Prémio Nobel da literatura pela sua contribuição para a poesia. Em 1915, um ano depois de chegar a Inglaterra publicou “The Love Song Of J. Alfred Prufrock”, que o tornou conhecido e estabeleceu a sua reputação como autor de uma obra prima do movimento modernista. Outras obras importantes seguiram-se - como “Wasteland” (1922), “Ash Wednesday” (1930) e “Four Quartets”(1943). São precisamente estas quatro obras que a editora Relógio d´Água reuniu no final de 2016 em “Poemas Escolhidos”, uma belíssima edição, bilingue, que permite seguir em simultâneo o original inglês e boas traduções de João Almeida Flor, Gualter Cunha e Rui Knopfli. Protegido por Ezra Pound no início da sua carreira, Eliot fez parte do Bloomsbury Group. Foi ensaísta, editor de publicações como a Egoist e a Criterion. T.S. Eliot foi ainda professor, funcionário bancário, responsável editoral da Faber e, acima de tudo, um dos poetas maiores da primeira metade do século passado.

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VER - A primeira grande exposição do ano abriu ontem na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80, a Xabregas). Trata-se de um conjunto de novos trabalhos de Rui Chafes ( na imagem), que mostra até 18 de Março um núcleo de 25 esculturas, 14 das quais realizadas em ferro, de grandes dimensões, e intituladas “Incêndio”, e as restantes 11 pequenas peças, concebidas em bronze sob o título “É assim que começa...”. Numa recente entrevista Rui Chafes descreveu este seu trabalho como a representação “da existência de uma catedral ardida, incendiada, uma catedral com uma floresta dentro” e, já que na obra de Rui Chafes o fogo é uma ferramenta constante,  explicita tratar-se de  “uma catedral queimada, que já não existe”. Na mesma entrevista, ao DN, ele pormenoriza: “Os únicos textos que eu publico são os que eu não queimei. E as esculturas que aparecem são uma acumulação de material que resistiu à solda, à queimadura, ao fogo”. Mudando de rumo, outra exposição a não perder, no Porto, é “Devir”, de Carlos Correia, na Galeria Pedro Oliveira (Calçada de Monchique 3), até 25 de Fevereiro, um exercício sobre a capacidade de transformação dos espaços e a sua relação com a pintura e com o trabalho do artista. Finalmente, também no Porto, num género completamente diferente, na Galeria Cruzes Canhoto (Rua Miguel Bombarda 452) está ainda até final do corrente mês a exposição “Lagarto, Lagarto, Lagarto!”, dedicada a peças de cerâmica de Rosa Ramalho, sua filha Júlia e neto António , “três artistas essenciais não só na história do figurado de barro na região de Barcelos, mas também no âmbito de toda a arte popular portuguesa” - como refere o site da Galeria http://cruzescanhoto.com/exposicoes/5-lagarto/ . onde também podem ser vistas estas obras.

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OUVIR - Quando em Maio de 1975, em Paris, Brian Eno e Robert Fripp, se juntaram para tocar num concerto a audiência, que estava à espera do ressurgir dos King Crimson ou de ouvir sonoridades dos Roxy Music,  iniciou um tumulto, com assobios, pateada e saídas de sala, em  consequência daquilo que, na altura, foi encarado como uma provocação e que era o nascer do seu trabalho em torno do que viria a ser conhecido como a sua simulação de  música ambiente - que em 1978 deu origem a “Music For Airports”. Quatro décadas depois, e após várias experiências, Brian Eno prossegue no caminho que escolheu com o novo “Reflection”, lançado no primeiro dia deste novo ano, em versão on line, com a possibilidade de conteúdos suplementares (na Apple Tv e iOS), no Spotify e também com edição em CD. “Reflection” não é bem a sequência lógica de “The Ship”, o seu trabalho de 2016 - é mais certo considerá-lo um retomar do que estava a fazer em “Lux”, de 2012. Na realidade “Reflection” consta de uma única peça de 54 minutos, uma espécie de manifesto sobre a forma como ele entende actualmente a criatividade e a música que faz. Na altura do lançamento deste “Reflection” , Brian Eno escreveu: “Esta música vai parecer diferente de cada vez que é ouvida - como ficar sentado na margem de um rio: é sempre o mesmo rio mas o seu caudal está constantemente a mudar”. Na verdade em cada audição descobrem-se - melhor dizendo ouvem-se - novas sonoridades que pareciam escondidas. Arrisco dizer que é como um quadro, uma pintura cujo detalhe vai ficando mais perceptível com o tempo.

 

PROVAR -  O pão é o mais básico dos alimentos, sob várias formas é uma presença universal. Ao longo dos séculos o seu fabrico foi-se modificando e hoje em dia uma enorme quantidade do pão posto à venda obedece a métodos industriais, que muitas vezes lhe retiram o sabor - e até as melhores qualidades - que era possível obter nas padarias artesanais. Foi exactamente por isso que há uns anos nasceu em Albarraque a Miolo, que se apresenta como uma padaria biológica artesanal e que se gaba de ter um processo de fabrico de cerca de 20 horas deste que se inicia a mistura da farinha, da água e do sal, até que se recolhem do forno tradicional os pães já cozidos. A Miolo produz vários tipos de pães, como o de espelta e centeio integrais, nozes e tâmaras, azeitonas, batata doce e milho, alfarroba, aveia integral e um low carb, com trigo sarraceno, entre outros. Não é só o sabor (a minha preferência vai para o de espelta integral), é também a textura e o cheiro. Com o formato de pequenos pães de forma, os produtos da Miolo conservam-se bem, mantendo a sua frescura e qualidade ao longo de vários dias. Os pães da Miolo estão disponíveis em lojas de produtos biológicos, nomeadamente nas Celeiro, Brio e nas novas Go Natural.

 

DIXIT - “Os Estados não se avaliam pelo dinheiro que têm, mas sim pela sua história e pela sua gente. Nesse sentido, Portugal não pode ser considerado um país pobre, bem pelo contrário.” - Mário Soares

 

GOSTO - Portugal é o país em destaque na Edição deste ano do Eurosonic, na Holanda, e conta com a presença de 21 artistas de diversos géneros musicais.

 

NÃO GOSTO - O serviço gratuito Ciberdúvidas, destinado a esclarecer perguntas sobre o bom uso da língua portuguesa, está em risco de fechar devido a dificuldades financeiras.


BACK TO BASICS - “A cura para o aborrecimento é a curiosidade; para a curiosidade é que não há cura” - Dorothy Parker

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