Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



RETRATO -  As últimas semanas têm sido particularmente exemplares para se poder comprovar que, em Portugal,não temos um sistema baseado na Justiça mas sim um sistema baseado em manobras, truques e desleixos diversos para iludir a justiça. Ficou claro que a prescrição é agora um estado normal da justiça portuguesa, quer o crime seja financeiro ou de vida e morte, ou de costumes. A maior especialidade desenvolvida em Portugal pelo sistema judicial é o arquivamento de casos prescritos. A coisa chegou a um ponto em que o Governador do Banco de Portugal recomenda como medida para o assunto que se alargue o prazo de prescrição  - mas não ocorre atacar as causas do problema : as habilidades dos advogados que empatam julgamentos, a displicência de juízes e de procuradores, a falta de meios dos tribunais. Em Portugal quem tiver bom advogado e alguma influência pode ter esperança em passar pelo crime sem castigo - infelizmente é esse o ponto a que a percepção do cidadão comum chegou.

 

SEMANADA - Uma procuradora adjunta de Santa Maria da Feira deixou prescrever 19 processos; a procuradoria de Lisboa afirma que o novo mapa judicial não é viável; o crédito malparado nos empréstimos à habitação já subiu 7,85% face ao ano passado; o Banco de Portugal recebeu 17.911 queixas contra Bancos  em 2013, mais 15% que no ano anterior sobretudo por causa de créditos à habitação e ao consumo; os pedidos de ajuda à DECO no 1º trimestre só subiram entre os trabalhadores do Estado e os reformados; o volume dos depósitos das famílias nos bancos voltou a diminuir em Fevereiro pelo terceiro mês consecutivo;  o acordão do julgamento do processo “Face Oculta”, que se arrasta há dois anos e cinco meses, foi marcado para 5 de Setembro, daqui a cinco meses; o realizador Manoel de Oliveira, 105 anos de idade, iniciou esta semana no Porto a rodagem de um novo filme, “O Velho do Restelo”, graças a financiamentos públicos portugueses e franceses; Helena Roseta, presidente das Assembleia Municipal de Lisboa eleita pelo PS, criticou a actuação do município no processo da Colina de Santana e exigiu publicamente “lealdade e transparência” ao executivo de António Costa; os vistos gold fizeram disparar em 54% os preços dos imóveis de luxo em Lisboa; a Presidência da República, a Assembleia da República, diversas Cãmaras Municipais e numerosas empresas públicas não divulgaram qualquer contrato de aquisição de bens ou serviços, ao contrário do que o Tribunal de Contas exige; o deputado Miguel Frasquilho foi indicado para presidente do AICEP sem parecer prévio do Sr. Bilhim; um protocolo assinado no Ministério da Agricultura criou o o Centro de Competências do Tomate.

 

ARCO DA VELHA - O secretário de Estado do Orçamento, Hélder Reis, interrogado por deputados na Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, teve esta resposta: “Eu sou como o Pinóquio: quando minto o meu nariz cresce. Não está a ver o meu nariz a crescer - eu não estou a mentir”.

 

FOLHEAR - No panorama livreiro português restam poucas editoras independentes e a “Guerra & Paz”, dirigida por Manuel S. Fonseca, é uma delas - e uma das que trabalho mais interessante tem feito ao longo dos oito anos que leva de vida. «Fama e Segredo na História de Portugal», de Agustina Bessa-Luís, foi um dos primeiros livros que editou e quis o destino que fosse o último livro escrito pela escritora, antes de a sua saúde ter fraquejado. Talvez por isso, neste momento de aniversário da edtora, a “Guerra & Paz” relançou, em novas edições, dois títulos do seu catálogo:  “O Livro de Agustina - uma autobiografia”, que nesta versão editorial inclui o conto preferido da autora, “Um Inverno Frio”; e também esse maravilhoso encontro da escrita de Agustina com a pintura de Paula Rego sobre a série “As Meninas” - “Estão sempre alerta, sabem coisas proibidas, em volta delas as mulheres conspiram, inspeccionando a sua roupa de baixo. As Meninas são profundamente perigosas”. São duas edições verdadeiramente fundamentais - uma para entrar, sorrindo, dentro da vida da escritora e, outra, para ver a sua capacidade de observação e o encanto da sua cumplicidade com a criatividade de Paula Rego. São duas edições de excepção nestes tempos que correm.

 

VER - Raras vezes uma exposição de fotografia provoca uma impressão tão marcante como  “Este é o Lugar”, do sul-africano Pieter Hugo, que ficará na Fundação Gulbenkian até 1 de Junho. As imagens são duras, não são retratos passivos, são testemunhos de um tempo, de pessoas e de lugares. São imagens do quotidiano, mas não são instantâneos. São fotografias cuidadosamente produzidas, feitas em película e em câmara de grande formato. Pressupõem o estabelecimento de uma relação entre o fotógrafo e o fotografado que ultrapassa o momento. Cada uma permite adivinhar conversas, imaginar o que se estabeleceu, o que levou cada sujeito fotografado ou local escolhido até ali - ao momento da imagem fotográfica. Na realidade a exposição compõe-se de 15 ensaios diferentes, feitos entre 2005 e 2012, num trabalho persistente de rigor e coerência, de imaginação e de provocação. Esta é mais uma mostra exemplar da iniciativa “Próximo Futuro”, da Fundação Gulbenkian, programada por António Pinto Ribeiro.

 

OUVIR - Volta e meia há discos que me despertam e surpreendem. Discos em português, com letras que são histórias para além de rimas e tretas, palavras que contam testemunhos e relatos - que nos falam das vidas e de pessoas. Confesso que, distraído, nunca tinha ouvido falar de Capicua. No seu site dá como referência que nasceu em Cedofeita em 1982, descobriu o hip hop aos 15 anos, estudou e doutorou-se em sociologia. Tem uma longa lista de colaborações musicais, o primeiro trabalho foi editado pela Optimus Records e o segundo foi editado já este ano pela Norte-Sul. Chama-se “Sereia Louca” e evoca Kafka em abono do título. A edição tem dois discos, um de originais, outro de versões acústicas de trabalhos anteriores e qualquer deles é bom - mesmo o brinde acústico é muito bom. Rapper por etiqueta, o que me interessa mais em Capicua é o que ela canta, aquilo que escreve e a forma como conjuga as palavras com a música. Escreve boas histórias, retoma aqui e ali cantigas antigas, como “O Soldadinho”, de Reinaldo Ferreira, a que dá uma volta completa com a ajuda de Gisela João. Sente-se que tem gôzo em subverter as coisas, em ensaiar colaborações inesperadas como aquela “Lupa” em que a angolana Aline Frazão canta José Gomes Ferreira. Gostava de não colar uma etiqueta de género a este disco e dizer apenas que aqui está música contemporânea de Portugal. É coisa rara, cada vez mais rara hoje em dia. Não é saudade, mas tem passado; e ao mesmo tempo desenha o futuro com os pés no presente. Há muito que não ouvia um disco assim.

 

PROVAR - Em Setúbal, frente à doca dos barcos de pesca, há um passeio largo, que permite andar a pé ao longo do Sado, desde a saída dos barcos para Tróia, com a baía bem à vista.. Toda a zona tem sido recuperada nos últimos anos e entre velhos armazéns começaram a surgir novos restaurantes. O local onde tudo isto se cruza é a Rua da Saúde. Já se sabe que Setúbal é uma das cidades onde se come melhor peixe e numa recente visita deixei-mer seduzir pelo apelo de D. Manuela, que acolhe os clientes no restaurate “Baía do Sado”: esplanada confortável e bem protegida do sol e do vento, interior amplo. Logo à entrada está um balcão com o peixe e mariscos frescos. Havia uma bela dourada de 700 gramas que chamava por nós e umas navalhas, que por recomendação da casa e curiosidade nossa, foram feitas à moda de Bulhão Pato. Nunca as tinha provado neste preparo e gostei. A dourada estava primorosamente grelhada, mantendo a frescura e o sabor, sem secura nem estorricanços. Os legumes cozidos no ponto foram o acompanhamento. O pão, que se provou com azeitonas e, depois, na infusão criada pelo Dr. Bulhão, estava denso e saboroso. Acompanhou um vinho branco da região, fresco e levemente frutado. O serviço foi escorreito e no final a conta foi uma agradável surpresa. A esplanada foi um prazer para a vista e o peixe e as navalhas excederam o que se esperava. A Baía do Sado fica no nº 46 da Rua da  Saúde e o telefone é o 265 553 247.

 

DIXIT - “Muito bem. Fica registado o seu insulto, ao qual não vou responder” - José Rodrigues dos Santos, em reação à afirmação de José Sócrates: “não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista”.

 

GOSTO -Catarina Sobral foi escolhida na Feira do Livro Infantil de Bolonha como a melhor ilustradora para a infância, garças ao seu livro “O Meu AvÔ”.

 

NÃO GOSTO - Continuam a prescrever processos no caso BCP


BACK TO BASICS - Não esperem pelo julgamento final, ele realiza-se todos os dias - Albert Camus

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:32



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2003
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D