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ENTRE PROMESSAS & REPUTAÇÕES

por falcao, em 25.09.15

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REPUTAÇÃO - Não consigo deixar de olhar para o que se passou na Volkswagen e pensar nas semelhanças que este caso apresenta com a política e o exercício do poder. Passo a explicar: o Presidente de um dos maiores fabricantes automóveis prometeu aos seus accionistas que melhoraria a posição no mercado dos Estados Unidos. Engenheiro de formação, com fama de ser minucioso, veio-se agora a descobrir que durante a sua gestão a Volkswagen tinha encontrado forma de iludir, tecnologicamente , os testes das autoridades norte-americanas sobre a emissão de CO2. A Volkswagen era uma marca associada a valores como a confiança, a qualidade e, desde há uns anos, a uma política ambiental, criando até uma campanha publicitária em torno da série bluemotion, a bandeira ecológica do fabricante de automóveis. A descoberta da falsificação teve um efeito devastador. Embora tarde e apenas sob pressão, Martin Winterkorn, o presidente executivo da Volkswagen, demitiu-se. Não lhe restava outra alternativa: quebrou as garantias associadas ao valor da marca, mentiu aos consumidores, fez uma promessa que não cumpriu. Os efeitos foram devastadores para a marca, a nível de imagem e na capitalização bolsista. Passemos agora para a política: quantos líderes partidários fazem promessas irrealistas só para conseguirem recolher o apoio dos seus accionistas - os eleitores - nessa assembleia geral que é a escolha, pelo voto, entre os vários partidos? Quantos chegaram ao poder e iludiram expectativas, degradaram a imagem dos seus próprios partidos e provocaram um rombo nas finanças do Estado? E, quando tudo isto acontece, que é frequente, o que lhes acontece? - Nada, ou quase nada. Alguns são recompensados com cargos no estrangeiro, outros saltam da política para empresas que os querem como lobistas pelos contactos que possuem, mais do que pelas características de gestão que têm. Se estão a pensar que o mundo anda às avessas são capazes de ter razão. Um país não é uma empresa; mas às vezes era bom que os actos praticados tivessem consequências.

 

SEMANADA - Entre 2011 e 2014 emigraram 485 mil portugueses; a Arábia Saudita está a contratar médicos portugueses a 12 mil euros por mês; A GNR detectou já este ano 135.213 condutores em excesso de velocidade, um aumento de 10% em relação a igual período do ano passado; um décimo dos activos da PSP tem 55 anos ou mais; as multas por cobrar relativas a falta de bilhete nos transportes públicos atingiram 9,5 milhões de euros no primeiro semestre deste ano; na cadeia de Ponta Delgada há uma cela com 50 detidos, dois duches e duas sanitas; actualmente há mais de 14 332 detidos em todo o país, dos quais 11 848 estão condenados e os restantes estão em prisão preventiva; um detido custa ao estado 48 euros por dia; este ano já se registaram dez suicídios nas prisões; mais de 700 condutores são apanhados todos os dias com alcool em excesso; em Julho as poupanças em depósitos à ordem atingiram o valor recorde de 36.051 milhões de euros, cerca de 60% dos activos da Banca; em 2014 os portugueses gastaram 2,9 mil milhões de euros em compras online; a dívida pública portuguesa atingiu os 290 mil milhões de euros em Julho, um aumento de 1300 milhões face ao mês anterior; Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, é a líder partidária que melhores audiências conseguiu nos debates realizados nos canais informativos do cabo; o seu debate com Paulo Portas foi o mais visto da série efectuada; Patti Smith deu um concerto de arromba em Lisboa e antes de subir ao palco quis ir visitar a casa museu Fernando Pessoa, poeta de que se confessou leitora há muitos anos; há 26 cursos do ensino superior a que nenhum aluno se candidatou; a pré campanha eleitoral já deu origem a 32 processos contra os media, uma delas, de Marinho Pinto, contra o humor.

 

ARCO DA VELHA - Apanho um taxi no aeroporto, dou a morada, é relativamente perto, no centro de Lisboa; o taxista começa a dar uma volta estranha, pergunto-lhe onde vai, diz que é para fugir ao trânsito e começa a levantar a voz e a perguntar se eu quero parar e sair. É isto que dá força à Uber.

 

FOLHEAR - Mário Assis Ferreira dirige a revista “Egoísta” desde que ela começou a ser editada há 15 anos. Foi graças ao seu apoio, através da Estoril-Sol, que o projecto ganhou pernas para andar e forma para ganhar os 70 prémios nacionais e internacionais que alcançou ao longo dos anos. A partir de um projecto gráfico de Henrique Cayatte e de um conceito editorial de Patrícia Reis, a “Egoísta” afirmou-se como uma revista única no panorama português, um espaço onde escritores, jornalistas, desenhadores, fotógrafos e artistas plásticos puderam mostrar o seu trabalho. Edição a edição Mário Assis Ferreira escrevia o que observava, e logo nas primeiras páginas reflectia sobre o que iríamos ver ao folhear cada número da Egoísta. São 60 textos pessoais, que o levaram a escrever sobre o juízo , a noite, o altruísmo, a cidade e a utopia, o amor, a fotografia, a publicidade e muitos outros temas. Agora essa escrita está reunida no livro “Egoísta Mas Não Só- textos de Mário Assis Ferreira”, editado pela Gradiva. No prefácio Guilherme de Oliveira Martins lembra que  “os textos que aqui se reunem constituem um desafio à reflexão para além das aparências” e sublinha que no caso de Mário Assis Ferreira  “é a procura do talento e do génio que animam a sua paixão pela vida e pela literatura”.

 

VER - É possível fazer uma banda desenhada em azulejo? Já se sabia que o azulejo permite contar uma história - o Palácio de Fronteira, por exemplo, tem salas que o demonstram. Em Lisboa há uma galeria que se dedica ao azulejo, convida artistas plásticos para usarem este suporte e os resultados são frequentemente surpreendentes. É a Galeria Ratton, Rua da Academia das Ciências 2C. Na semana passada inaugurou uma mostra de dois artistas: Andreas Stocklein, um dos habituais da Galeria, que aqui apresenta um trabalho inesperado e cativante; o outro é Pedro Proença, que foi quem me fez recordar das bandas desenhadas e do seu método narrativo. Sob o título comum “O Azulejo E A Palavra”, expõem-se diferentes visões do diálogo entre o suporte azulejo e a história que cada um conta. Os painéis de Pedro Proença, de 6, 8 ou 12 azulejos, são exemplos de uma explosão de observação e do prazer sentido em trabalhar um suporte de comunicação diferente. E são a grande, surpresa da série de exposições do Bairro das Artes 2015.

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Outras sugestões: em Lisboa  uma exposição de um artista em início de carreira, Jaime Welsh, na Galeria Alecrim 50, rua do mesmo nome; em Évora, no Palácio Cadaval, “Dá Licença?”, de Mauro Pinto; no Porto, Palácio dos Correios, exposição de João Penalva; em Braga, os Encontros da Imagem, que este ano assinalam a sua 25ª edição.

 

OUVIR - O australiano Robert Forster foi um dos fundadores dos Go Betweens e a sua carreira a solo deu-nos o maravilhoso  “The Evangelist”. Desde há sete anos que Forster não editava um disco de originais e entreteve-se a produzir discos alheios e a escrever sobre música - reuniu os escritos dispersos no livro “Ten Rules Of Rock ‘n’ Roll”. “Songs To Play”, já distribuído no mercado português é o seu novo trabalho, dez canções intrigantes e sedutoras. A voz de Forster não é propriamente um prodígio de harmonia, mas a forma como constrói as canções ultrapassa bem essa questão. “Learn To Burn”, a canção inicial, tem logo um aviso, que se aplica bem à maneira de cantar do autor: “you can miss details when you’re in a hurry.” Há aqui influências desde a bossa nova de “Love Is Where It Is” até aos Velvet Underground, em “Disaster In Motion”, com a sonoridade do orgão e a percussão a criarem o ambiente.  Mas o maior encanto do disco são as palavras acutilantes, as observações certeiras, os textos destas canções, marcantes e que nos fazem voltar a elas com prazer. Um belíssimo disco para ficar na prateleira dos que se repetem com maior frequência.

 

PROVAR - Habituei-me há muito a gostar do Castro Elias, o primeiro restaurante que Miguel Castro e Silva abriu quando veio para Lisboa, na Avenida Elias Garcia, do lado da Fundação Gulbenkian. Com o andar dos anos Miguel Castro e Silva foi abrindo outros espaços, mas foi sempre seguindo o que se passa neste seu primeiro marco lisboeta. Diogo Siqueira, desde há uns anos a olhar vigilantemente sobre o Castro Elias, tem sabido manter a qualidade e garantir o bom atendimento. Este verão a casa foi remodelada, algumas mexidelas na decoração, uma carta diferente mas com a mesma qualidade e a continuar a proporcionar a opção entre petiscar ou tomar uma refeição mais substancial. Em incursões recentes comprovei a qualidade dos peixinhos da horta, do arroz de fígado de patos com míscaros e também de um bacalhau à braz cremoso e saborosíssimo. As sugestões de vinhos do Diogo são sempre boas e de preço justo - desta vez foi um Dão Pedro Cancela. Para rematar é difícil não resistir àquela que é provavelmente a melhor tarte de laranja de Lisboa, um dos poucos doces que me entusiasmam. Avenida Elias Garcia 180, telefone 217 979 214.

 

DIXIT - “Se fôr preciso correr com Passos e Costa para os partidos se entenderem, que corram” - João de Deus Pinheiro, falando sobre a necessidade de uma maioria que viabilize reformas estruturais.

 

GOSTO - Do novo site de estatísticas para crianças, elaborado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, um trabalho exemplar que pode ser visto em www.pordatakids.pt

 

NÃO GOSTO - Que se gaste mais tempo nos canais de informação a discutir o Porto-Benfica do que a noticiar as eleições gregas.

 

BACK TO BASICS - Devemos sempre desconfiar de promessas mirabolantes - Theodore Parker.



 




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