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Políticas esquizofrénicas

por falcao, em 08.05.15

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ESQUINA 617 - 6 MAIO 2015

 

ESQUIZOFRENIA - Nestes tempos que correm a vida política resume-se a isto: de um lado, numa semana coliga-se e noutra logo a seguir intriga-se; do outro lado, num dia mostram-se previsões em folhas de Excel e noutro fazem-se promessas de panfleto de campanha eleitoral. Não é o mundo que anda estranho, é a política que virou esquizofrénica. Se calhar não é novidade, mas agora nota-se mais. Na coligação passa-se o curioso fenómeno de o Primeiro Ministro se referir ao seu Vice Primeiro Ministro como líder da oposição, na mesma semana em que uma colaboradora do núcleo central do PSD publica uma biografia autorizada onde conta episódios da crise da governação - a célebre demissão irrevogável - com detalhes prontamente desmentidos pela outra parte. Tudo se passa entre sorrisos com a propagandista de Passos Coelho a menorizar as dúvidas sobre a veracidade do seu relato. Tenho cá para mim que estes episódios não dão muita confiança aos eleitores - sejam aos dos partidos do Governo, sejam aos do PS. Às vezes tenho a sensação de que toda a gente procura constantemente um motivo para fabricar uma crisezinha. Será falta de ideias? Ou apenas falta de jeito? A narrativa política está rasca - trata os eleitores como se eles fossem apenas mudar de canal, em vez de valorizarem que o sentido do voto é obter mudanças no parlamento, no Governo  e nas políticas. E, em última análise, no bem-estar das pessoas e no progresso do país.

 

SEMANADA - A Ryanair declarou-se muito satisfeita com o aumento das suas reservas e do seu negócio em Portugal, verificado em consequência da greve de alguns pilotos da TAP; outras companhias aéreas low cost viram também o seu negócio aumentar em consequência desta greve; João Cravinho afirmou que a TAP está a correr “um forte risco de inviabilidade na sua forma actual”; Portugal cria 78 novos alojamentos por dia para turistas; o bacalhau dominou a visita oficial de Cavaco Silva à Noruega; o poder de compra dos portugueses é 79% da média da União Europeia; a Câmara Municipal de Lisboa foi acusada de favorecer um projecto do GES na zona do Parque das Nações, cujo plano de pormenor foi feito pelo arquitecto Manuel Salgado, antes ainda de ser vereador, mas que depois tomou decisões sobre o processo; está a aumentar o número de juízes afastados dos tribunais; um juiz do Tribunal de Torres Novas chamou burra a uma escrivã; o Juiz Carlos Alexandre afirmou temer estar a ser espiado por uma organização secreta; em cinco anos desapareceram das igrejas e capelas portuguesas 150 peças de arte sacra; Marcelo Rebelo de Sousa considerou que Marques Mendes exerce sobre ele uma pressão  “doentia e obsessiva”  para que se candidate à Presidência da República; Sampaio da Nóvoa disse numa entrevista que se sente “preparadíssimo” para ser Presidente; Alfredo Barroso afirmou que o documento “Uma Década Para Portugal” “diz aquilo que querem ouvir tanto a actual direcção do PS como a ala mais à direita do partido”; António Costa disse que o PS não faz promessas impossíveis; António Costa prometeu esta quarta-feira mexer nos atuais escalões do IRS e com isso promover uma redução “da carga fiscal sobre o trabalho”; já são efectuadas mais pesquisas através de telemóveis do que de computadores e tablets.

 

ARCO DA VELHA - Marianne Thyssen, comissária europeia do Emprego e dos Assuntos Sociais, cancelou a visita a Portugal, para reuniões com o Ministro Mota Soares,  devido à greve na TAP.

 

FOLHEAR - António Pinto Ribeiro, recentemente afastado da Gulbenkian onde tinha criado o programa “Próximo Futuro”, tem tido uma persistente actividade de crítico e ensaísta na imprensa, procurando sempre comunicar de forma clara questões que não são simples. Fomenta o gosto pelo debate e pelo raciocínio provocador e a série de artigos que escreveu para o ”Público” entre Março de 2011 e Dezembro de  2014 é particularmente rica. 32 desses artigos foram agora publicados pelos Livros da Cotovia, na colecção Três Razões, sob o título “Miscelânea”. Passam por aqui temas que vão da política cultural aos desafios com que defrontam os museus, passando pela gastronomia e a moda. Há títulos de alguns destes artigos que são todo um programa, como “A cultura é cara? Experimentem a ignorância”, “Sem pêlos”, “Para acabar de vez com a lusofonia” ou “Ode ao conflito”, que encerra a recolha e de onde não resisto a extrair este segmento: “ Importa não confundir compromisso com consenso. O primeiro resulta de negociação cultural na mais abrangente definição do termo; o segundo - o consenso - é o adiamento de um conflito, modo cínico de enfraquecer a energia potencial e criadora que existe no conflito quando este está longe de ser guerra”.

 

VER - Miguel Justino mudou a sua Galeria da Rodrigo da Fonseca, frente ao Hotel Ritz, para um primerio andar da Rua Rodrigues Sampaio - é no 1º Esq do número 31, um prédio magnífico. Para a exposição que ficará até final de Maio, Miguel Justino convidou o crítico Miguel Matos para curador do “Projecto Sinistesia”, de Gabriel Garcia, e “Per Fummum” de Teresa Gonçalves Lobo. Gabriel Garcia aceitou o desafio de trabalhar sobre imagens que lhe foram sugeridas pelo cheiro de determinados perfumes - o ponto de partida que o curador lhe estabeleceu. Teresa Gonçalves Lobo, que tem vindo a afirmar a coerência do seu trabalho, apresenta novos desenhos, já mostrando uma evolução em relação a obras ainda recentes. Como diz Miguel Matos na apresentação da exposição, os desenhos de Teresa Gonçalves Lobo (na imagem) “são de carácter abstracto mas possuem poderes evocativos subjectivos”. O seu traço, agora progressivamente mais trabalhado com novas técnicas, cria uma noção de especial do espaço, particularmente visível nesta selecção que apresenta na Galeria Miguel Justino.

 

OUVIR - Há poucos portugueses a fazer bandas sonoras e menos ainda a editá-las. Valia a pena por exemplo editar as bandas sonoras que José Mário Branco já fez e que permanecem esquecidas da memória, mesmo daqueles que permanentemente o louvam e premeiam. Mas adiante. André Neves, com o seu disco “Soundtracks Vol 1”, é a razão de ser destas linhas. Começou a estudar Direito mas as leis foram vencidas pelo piano e, depois, pela paixão do trabalho em estúdio que o envolveu na Islândia, nos Sundlaugin Studio, construídos pelos Sigu Rós - o seu disco de estreia, “Circunstances”, foi lá finalizado. Este “Soundtracks Vol 1” recolhe trabalhos que fez em 2014 para uma dezena de filmes de realizadores de países como os Estados Unidos, Japão, Índia, Alemanha, Islândia e Espanha - entre eles a banda sonora de “Our Father”, de Linda Palmer, que ganhou o prémio de melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival. Além das bandas sonoras está incluída uma peça escrita para uma coreografia de dança contemporânea (por sinal um dos melhores momentos do disco). A destoar da qualidade geral deste registo está “Gambiarra”,  uma composição interessante infelizmente estragada por um arremedo de poesia para jogos florais, mal escrita e mal lida pelo seu autor, Valter Hugo Mãe - em suma uma foleirice pretenciosa,  que no final do CD estraga o prazer anterior.

 

PROVAR - Não gosto de frequentar restaurantes que entram de repente na moda e que são lidos em todo o lado. Prefiro casas mais simples que não recorrem aos préstimos de relações públicas para criarem nome. Por isso mesmo demorei largos meses a aventurar-me na “Casa de Pasto”, muito badalada porque o seu cozinheiro é Diogo Noronha, que ganhou nome de chef no falecido “Pedro E O Lobo”, ao Princípe Real. Voltando ao Pasto, vale a pena destacar a decoração, feita de uma mistura confortável de objectos e mobílias de várias épocas. Vale ainda a pena destacar o serviço, bom, exemplar: num restaurante, por melhor que seja a comida, um mau serviço arruína o prazer da refeição - e ainda há muita gente por aí que ignora este ponto essencial. Resolvidas as questões do conforto e do serviço, passemos ao essencial: a cozinha. As propostas são variadas, desde as entradas até aos pratos de substãncia. Há uma clara dedicação na interpretação, respeitosa e  comedida, da cozinha tradicional portuguesa - nos petiscos de entrada, nos peixes e nas carnes.. Para servir de entretém a mesa oferece azeitonas marinadas e umas deliciosas cenouras de conserva, à algarvia. O petisco inicial foi uma salada russa com puntillitas, seguido de uns filetes de peixe galo de impecável preparo e fritura e um arroz de lagostim, com açafrão, tomate e tobiko irrepreensível. Tudo foi acompanhado de um branco Quinta das Bageiras. O repasto terminou em beleza com um duchesse improvável de morangos com ruibarbo que resultou muito bem. Rua de S. Paulo 20-1º, ao Cais do Sodré. Telefone 963 739 979.

 

DIXIT - “Eu diria que onde a língua portuguesa se depara com maiores dificuldades, adversidades e pouca capacidade de luta é na Europa” - José Ribeiro e Castro.

 

GOSTO - Da sugestão de Teresa Garcia, uma professora do ISEG, para que se faça um estudo sobre a carreira contributiva dos políticos.

 

NÃO GOSTO - De dirigentes partidários que enviam SMS agressivos a jornalistas que criticaram acções políticas, dizendo que estão apenas a exercer o direito de protesto.

 

BACK TO BASICS - “Tenho por certo que durante o horário de expediente nunca se diz a verdade” - Hunter S. Thompson

 

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