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PARADOXOS - Confesso que nestes dias que correm aquilo que mais me choca é estar o país político a discutir quais serão os candidatos à Presidência e ninguém estar a discutir quais os problemas do país e quais as propostas para a sua resolução, apresentadas pelos partidos que concorrem às legislativas daqui a seis meses. Todas as semanas tem aparecido um novo proto-candidato presidencial e o país ocupa-se a discutir se  há mais divisões à esquerda ou à direita, se há mais tabus do lado de personalidades do lado PS ou do lado do PSD. A intriga fomentada em torno dos putativos candidatos presidenciais serve para esconder a ausência de ideias sobre as melhores políticas para o país. As condições estão assim criadas para uma tempestade perfeita na política. As eleições legislativas, que irão resultar num novo Governo, decorrerão entre meados de Setembro e meados de Outubro. Menos de quatro meses depois, em Janeiro, decorrerão eleições para a Presidência da República, cuja data deverá ser estabelecida com um mínimo de 60 dias de antecedência - o que quer dizer que, para os efeitos práticos, a campanha eleitoral para a Presidência começará poucos dias depois da eleição da Assembleia da República e terá o seu pico a partir de Dezembro. O que mais me espanta neste calendário eleitoral, que o actual Presidente, Cavaco Silva, poderia ter alterado se quisesse, é o facto de, mesmo na situação de crise em que estamos, se achar normal ter seis meses seguidos de campanha eleitoral, com inevitáveis paralisias políticas a nível do Governo, da Assembleia e do esfíngico Palácio de Belém. Daqui a dois meses vamos começar a ser bombardeados com propaganda partidária, com muito barulho e, até ver, muito poucas propostas concretas. Quer-me parecer que a abstenção vai ser uma coisa jeitosa - teoricamente grande parte dos nascidos em 1997, praticamente no virar do século passado, poderão votar. E será que se revêem em alguém no meio desta absurda confusão de eleições, da proliferação de candidatos e de ausência de ideias? E já nem falo do pequeno pormenor de termos uma lei eleitoral analógica quando o país já é digital. Paradoxos que servem a quem não quer mudar nada.

 

SEMANADA - Segundo a agência europeia da segurança aérea a Alemanha não respeita há vários anos as normas de controlo de segurança, em particular no seguimento médico dos pilotos; em Portugal o relatório anual de segurança interna indica um aumento de 8,1% de crimes nas escolas, um aumento de 37,2% de roubos a multibancos, de 26,1% de furtos em transportes públicos e de 8,7% em violações; desde 2008 o sector da hotelaria e restauração perdeu 44 mil postos de trabalho; mais de 60% dos hotéis e restaurantes estão em grave risco de falência, segundo um estudo da Comissão Europeia; as receitas turísticas atingiram em 2014 um novo máximo histórico de 10.394 milhões de euros; há mais de 12 mil pessoas com acesso à informação fiscal dos cidadãos, sem qualquer regra definida na lei; em 2014 foram feitas 13 553 escutas telefónicas; a Starbucks está a ser investigada pelas autoridades e governos europeus por suspeitas de fuga ao fisco; a taxa sobre sacos de plásticos já rendeu ao estado 1,6 milhões de euros apenas pelos stocks antigos declarados; o novo Código do Procedimento Administrativo prevê que atrasos da administração pública podem obrigá-la a pagar indemnizações; a venda de automóveis novos cresceu 33,1% no primeiro trimestre do ano; Portugal já tem 107 hospitais privados e existem 119 públicos; a suspensão do leilão dos quadros de Miró que pertenciam ao BPN já custou 1,9 milhões de euros aos contribuintes.

 

ARCO DA VELHA - Escutas divulgadas esta semana relativas ao caso dos vistos gold indicam que na investigação foram feitas escutas ao juiz presidente da Relação de Lisboa, que se teria disponibilizado a apoiar “em tudo o que seja necessário” o presidente do Instituto dos Registos e Notariado sobre quem existem suspeitas de corrupção.

 

FOLHEAR - Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores a editora Guerra e Paz tem vindo a publicar a colecção “o fio da memória”, basicamente conversas de José Jorge Letria com criadores de diversas áreas. Recentemente foram publicadas conversas destas com António Victorino d’Almeida, João Abel Manta e José-Augusto França. O que me agrada nesta colecção é a forma como José Jorge Letria consegue ir dentro das memórias dos seus entrevistados, fazendo-os contar histórias, recordar episódios que os marcaram, mas também dar opiniões e definir escolhas. Ao lado das conversas surgem sempre fotografias de arquivo, dos álbuns pessoais dos entrevistados, , muitas a mostrá- los no seu ambiente pessoal. ao lado de amigos ou em situações que por alguma razão os marcaram. Destas edições mais recentes destaco a de João Abel Manta, pelo tom afirmativo e pela convicção das opiniões, e a de José-Augusto França pelas pequenas hitórias que conta e que me permitem descobri-lo. O título do volume que lhe é consagrado é aliás um episódio: “Com o O’Neill falava de janela para janela”.

 

VER - Por estes dias Lisboa vai andar numa animação - a Lisbon Week, organizada por Xana Nunes, centrou a atenção em Alvalade. Desde dia 10 a dia 19 esta semana lisboeta percorre o património,  a arquitectura e mostra a fotografia, a arte e o desenho que nascem em Alvalade - esse bairro nascido nos anos 50, que marcou de forma decisiva a mudança de vivência da cidade e que albergou desde o novo cinema português até aos primórdios do pop e do rock, depois o punk, mas também as novas modas. Da Avenida de Roma ao Campo Grande, aquela parte da cidade vivia em ebulição desde o final dos anos 60, marcando os anos 70 e os anos 80. A zona viu nascer e crescer uma geração, albergou escolas emblemáticas, salas de concertos que ficaram para a história, discotecas, livrarias, mas também uma zona industrial em plena cidade nova. Há edifícios marcantes como a Biblioteca Nacional, zonas de ruptura como a Cidade Universitária, edifícios como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil ou o Instituto Superior Técnico. Porfírio Pardal Monteiro, a quem é dedicada uma exposição marcante desta Lisbon Week, deixou obra em toda a Alvalade e áreas limítrofes. Neste bem imaginado roteiro da Lisbon Week há dez pontos fundamentais a visitar, desde a Biblioteca Nacional (na imagem) aos ateliers dos Coruchéus, passando pela exposição documental, fotográfica, no Centro Comercial de Alvalade ou uma incursão na obra de Maria Keil numa estação de Metro. Existem exposições especiais, como a Mostra de Arte, dedicada à arte contemporânea, na Rua do Centro Cultural, em plena antiga zona industrial - ver www.mostradearte.com. Até uma regata de barcos a remos no lago do Campo Grande  vai acontecer por estes dias. Vejam todas as informações em lisbonweek.com. Para mim este é o melhor programa de todas a as edições que já vi da Lisbon Week. Mas a verdade é que nasci e cresci em Alvalade e quando lá passo sinto sempre saudades.

 

OUVIR - Billie Holiday teria feito 100 anos a 7 de Abril - mas morreu cedo, aos 44 anos, depois de uma carreira que havia também começado bem cedo - tinha ela pouco mais que 15 anos. Não estudou música mas ouvia o seu pai a tocar guitarra e reza a lenda que Bessie Smith foi a sua grande inspiração. Aquilo que a tornava diferente era  a sua forma de interpretar - às vezes quase uma conversa, outras vezes um lamento, por vezes uma provocação, muitas vezes a voz do desejo - como é tão evidente nas suas versões de standards como “My Man”, “Stormy Weather”, “These Foolish Things” ou “Prelude to A Kiss” - só para citar alguns. A sua grande década de gravações localizou-se nos anos 50, sobretudo na primeira metade. Assinalando o seu centenário, a editora discográfica Verve incumbiu um admirador confesso de Holiday, o cantor José James, de fazer uma compilação das grandes interpretações de Lady Day. O próprio James gravou agora um álbum seu de homenagem, “Yesterday I Had The Blues”, de que aqui falarei para a semana. O que interessa agora é esta excelente compilação, “God Bless The Child - The Best Of Billie Holiday”. Procurem-na e guardem-na bem. É um belíssimo disco - 14 temas históricos que rendem homenagem a Billie da melhor forma que há - ouvindo-a.



PROVAR - A moda é uma coisa que convive mal com a restauração. Sobretudo a moda alimentar. Num destes dias caí na esparrela de acreditar que poderia haver alguma coisa de relevante no restaurante Barrosã, em Alvalade, que se anuncia como especialista em hamburgueres feitos de carne proveniente da região que lhe dá o nome. Lá fui ao engano, saí desiludido e irritado. Em jeito de entrada pedi uma empada que se revelou abaixo da média no recheio, seco e sem graça. O hamburguer, pedido mal passado, veio compactado como um saco de cimento ao sol, cozido e sem sabor. A única coisa assinalável foi a boa fritura das finas rodelas de batata doce. O ovo a cavalo vivia da mesma falta de sabor e  mostrou que precisava de muitas aulas de equitação. A cerveja que acompanhou era espanhola, Estrella Damm, não particularmente interessante - qualquer das portuguesas a vence com facilidade. Uma coisa que me irrita é nestas casas haver pouca possibilidade de escolha de marcas de cerveja e muitas vezes só existir imperial e não cerveja de garrafa. Odeio beber o que não quero e não ter escolha possível. Acho que vou passar a escolher restaurantes que não tenham Estrella Damm. Em resumo - 13 euros por um hambuguer sem graça é caro em qualquer sítio. Com duas imperiais, a empada desconchavada e o café a conta chegou quase a 20 euros. Demasiado para a falta de qualidade. A esta Barrosã não voltarei. Rua Augusto Palmeirim 10, perto do mercado de Alvalade.

 

DIXIT - "Estamos fartos das baladas dos Scorpions que a senhora Merkel tenta impingir-nos" - Vitor Paulo Pereira, Presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura

 

GOSTO - A Sogrape ocupa o quarto lugar na lista das 100 melhores empresas vitivinícolas do mundo da Associação Mundial de Críticos e Jornalistas de Vinhos.

 

NÃO GOSTO - Lisboa tem agora um Presidente da Câmara que não foi eleito para a função.

 

BACK TO BASICS - “Quando era miúdo diziam-me que qualquer pessoa podia aspirar ser Presidente; começo agora a acreditar nisso” - Clarence Darrow.

 

 

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