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SOBRE MEMÓRIA E A IGNORÂNCIA

por falcao, em 06.03.15

EXEMPLOS - Esta semana li numa página de Facebook que acompanho uma verdade absolutamente incontornável: nos manuais de liderança, ser o exemplo surge como uma das características mais importantes de um líder. Vivemos num tempo em que a ignorância das leis e dos regulamentos é tida por coisa de somenos importância e em que a falta de memória é assunto esperado que motiva apenas sorrisos cínicos. E é entre a ignorância e a falta de memória que se desenvolve o cepticismo do comum dos mortais sobre os políticos, sobre os que se oferecem para ter uma participação cívica, sobre quem anuncia querer contribuir para mudar o país. Se Portugal tivesse mudado, para melhor, um décimo do que andam a prometer há décadas estaríamos nos primeiros lugares de bem-estar. Odeio pingue-pongue de acusações entre políticos que vivem debaixo de telhados de vidro - os últimos anos têm mostrado como em matéria de falta de ética a coisa está bem distribuída no espectro partidário, mas também no mundo empresarial e no sector financeiro. Este ano tem sido uma galeria de horrores em matéria de revelações escabrosas e o que mais revolta é observar a forma  como as autoridades são tolerantes para os políticos incumpridores e os automatismos são inflexíveis para os vulgares cidadãos ou as instituições sem poder. Enquanto houver políticos com carreiras contributivas poluídas que tentam disfarçar, enquanto houver ex-governantes que se dedicaram a criar teias de relações para enriquecimento posterior, nada pode funcionar bem neste país. A política em Portugal não é encarada como um acto cívico. É entendida como uma oportunidade. Fica tudo dito. As boas intenções não vivem sózinhas.

 

SEMANADA - As escolas portuguesas perderam quase 40 mil professores desde 2011; há 9500 professores que, quando saírem das suas escolas, não serão substituídos; o vereador Manuel Salgado disse que a Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, Helena Roseta, tem um “raciocínio pouco atento”; o preço das casas subiu 1,2% em 2014, depois de queda de 22% em sete anos; a venda de automóveis cresceu 30,7% nos dois primeiros meses do ano face ao período homólogo de 2014; 262 mil veículos foram apanhados em 2014 pelos radares policiais em excesso de velocidade; uma mulher de 30 anos fez a ponte 25 de Abril em sentido contrário na direcção Almada-Lisboa; mais de 400 mil portugueses já foram ver as “50 Sombras de Grey”; um grupo de apoiantes do movimento “Junto Podemos” deixou de querer estar juntos e fundou o movimento “Agir”; Jardim Gonçalves aplaudiu a proposta de fusão do BPI e do BCP apresentada por Isabel dos Santos; segundo a Cáritas as situações de pobreza em Portugal aumentaram 15% em 2014; uma em cada quatro mulheres portuguesas estão desempregadas ou sub-ocupadas; o PSI 20 continua só com 18 empresas cotadas; em 2014 as empresas portuguesas desceram o seu endividamento em 19 mil milhões de euros e a maior fatia coube a microempresas que foram responsáveis por 39% do total da redução; frase esclarecida da semana: “o que é preciso agora é que os Governos desempenhem o seu papel”, tal é o pensamento do director do Think Tank Bruegel; uma vigília de apoio a Sócrates, que decorreu junto à cadeia de Évora no fim de semana, juntou 17 mulheres e quatro homens; a Turquia vai ser um dos grandes mercados de carne de coelho portuguesa a partir de meados deste ano.

 

ARCO DA VELHA - Segundo a imprensa, o fisco penhorou bens alimentares doados a uma associação que dá apoio aos sem abrigo na cidade do Porto,  o "Coração da Cidade", por dívidas em atraso relacionadas com o pagamento de portagens em antigas SCUT e a Autoridade Tributária quer penhorar  arroz, massa e bananas.

 

FOLHEAR - A revista “Monocle” fez em Fevereiro oito anos e foi fundada com uma substancial participação de capital do Japão. É frequente encontrar sugestões sobre locais, empresas, moda ou design japonês, tal como de outros países. Pela primera vez a edição de Março deste ano da “Monocle” tem o Japão por tema central, e ainda bem. É um retrato contemporâneo do império do sol nascente, desde os media mais experimentais até comunidades estrangeiras que estão a mudar os hábitos dos locais - como os brasileiros que levaram o samba para Tóquio e explicaram porque é que no Brasil se faz sushi de fusão. A coisa mais interessante da “Monocle” é proporcionar uma visão abrangente, multi-disciplinar, ajudar os seus leitores a estarem atentos às tendências e obrigar a pensar no que se está a fazer por esse mundo fora - desde livrarias a lojas de acessórios, passando por moda ou música. É um equilíbrio difícil de conseguir, mas é esse delicado equilíbrio que faz o sucesso da revista e que, mês após mês, motiva fiéis leitores, como eu, a redescobri-la. No seu editorial desta edição o fundador da revista, Tyler Brulé, exprime o desejo de que no ocidente existam escolas japonesas que possam ensinar boas maneiras e princípios básicos de civilização. Dei comigo a concordar com ele.

 

VER - Hoje proponho uma exposição virtual, no site do Museum Of Modern Art - e não estou a falar da badalada exposição de Bjork, a cançonetista preferida de algumas pessoas que gostam de se dizer atentas à música moderna. Vamos passar a coisas sérias. A exposição de que falo mostra a colecção Thomas Walther que incorpora aquilo a que se chamava exemplos de fotografia dos tempos modernos, feitas entre 1909 e 1949, com especial ênfase nos anos 20 e 30, quando a fotografia começou a ser notada, levada a sério e referenciada. O trabalho de investigação, a maneira como se relacionam locais, autores estilos e temas de forma interactiva no site da exposição é absolutamente exemplar. A galeria de imagens é deslumbrante e eu, que me gabo de conhecer muitas imagens, descobri várias que ignorava. A colecção tem 341 fotografias de 148 artistas e o site da exposição, “Object Photo”, pode ser visto aqui - http://www.moma.org/interactives/objectphoto/#home . Não percam. No site do museu existem indicações sobre como adquirir o magnífico catálogo cuja capa aqui se reproduz.

 

OUVIR - Em finais de 2014 a ECM ofereceu uma prenda aos seus fiéis - um CD com o registo, muito pouco conhecido, de um histórico concerto realizado em Hamburgo, em 1972, pelo trio que integrava o pianista Keith Jarrett, o contrabaixista Chary Haden e o baterista Paul Motian - um trio que à época da gravação tocava em conjunto há cinco anos. É supreendente a esta distância ver a consistência, a nergia e o prazer da sua música. Motian morreu em 2011 e Haden no ano passado. Mas este disco é um legado precioso da forma como entendiam a música, como cada um contribuía para um resultado excepcional. Haden e Jarrett mostram já nessa altura, há 43 anos, o entendimento que ao longo de décadas aperfeiçoaram e Motian é surpreendente nas soluções que encontra para completar este trio. CD ECM na Amazon.

 

PROVAR - O Funil é um histórico restaurante das Avenidas Novas, nascido no início dos anos 70, com o apogeu nos anos 80, e que em meados do ano passado sofreu uma mudança total - de proprietários, de gerência, de decoração, de cozinha. Agora as mesas estão apenas colocadas no piso de entrada, mas, para os saudosistas mantém-se o Bacalhau à Funil, feito no forno com molho bechamel. Na minha opinião mais interessantes ainda são o novo Bacalhau à Braz à Funil e o Arroz de Bacalhau, ambos a superar expectativas. Outro arroz que merece elogios é o arroz de pato à moda antiga, um dos melhores que tenho provado. Em matéria de aperitivo recomendo as bolinhas de alheira com puré de maçã e a tábua de queijos. Ao almoço tem um menu executivo por 12.90 euros e um outro para os comilões, com sopa e sobremesa, que custa 14.50 euros. Ambos são servidos com pão de Mafra e azeitonas bem temperadas e um copo de vinho. No tinto a casa recomenda, com razão, o Paulo Laureano Clássico e nos brancos o Álvaro de Castro Dão. Para sobremesa tem um bolo de chocolate para quem quer coisas mesmo doces e um honestíssimo leite creme de boa queima e consistência. O chef Duarte Lourenço tem também uma carta vegetariana, o novo Funil encerra aos Domingos e fica na Elias Garcia 82A, junto à esquina com a 5 de Outubro. O telefone é 210 968 912 e em www.ofunil.pt pode encontrar todas as informações.

 

DIXIT- “Uma bala é um vulgar e tradicional instrumento da política russa” - Gleb Kuznetsov, no “Moscow Times”

 

GOSTO - Em Campolide vai haver um referendo para decidir que tipo de pavimento terão os passeios para peões no bairro.

 

NÃO GOSTO - Alexis Tsipras esconde-se atrás de acusações a outros países para não reconhecer na Grécia que as suas promessas eleitorais não serão cumpridas.

 

BACK TO BASICS - É obrigação de cada um reter na memória as promessas que andou a fazer - Friederich Nietzsche

 

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publicado às 17:49



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