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PARA QUÊ VOTAR NAS AUTÁRQUICAS?

por falcao, em 10.09.13

Para que serve um voto nas autárquicas? Basicamente para ver se as cidades, vilas e freguesias onde vivemos ficam mais apetecíveis para todos nós, se ficam mais confortáveis para o dia-a-dia, se os órgãos autárquicos nos ajudam em vez de nos atrapalharem, se existe uma acção social capaz, se é estimulada de alguma forma a criação de emprego e o desenvolvimento económico e social.

Portanto este é o momento exacto para pensar: estes que lá estão há quatro anos facilitaram-me a vida ou infernizaram-me a cabeça? Gastaram bem o dinheiro dos nossos impostos ou andaram a desperdiçá-lo em manias? Têm noção do que é a vida hoje em dia e querem ajudar, ou vivem numa qualquer utopia e querem dificultar?

 

Os que lá estão há quatro anos, que fizeram pela limpeza das ruas, pela segurança, pela recuperação e conservação? E  os pavimentos das estradas – foram só arranjados em véspera de eleições, ou são regularmente conservados e mantidos para que existam menos acidentes e se causem menos prejuízos ao veículos?

 

Se cada um de nós pensar desta forma, poderá fazer um juízo rápido sobrem que dirigiu a sua câmara e a sua freguesia. Será que vale a pena continuarem estes,  ou é melhor escolher outros? Nestas eleições os programas partidários contam menos que a capacidade das pessoas. Eu, na minha Câmara e na minha Freguesia, quero quem me ajude, não quero quem me dificulte a vida, quero quem empregue bem o dinheiro sem ser em obras incompreensíveis, quero quem me ajuda a poupar, em vez de me meter mais multas e limitações em cima.

 

Eu, onde voto, preocupo-me mais com o que fizeram ao meu dia a dia do que com aquilo que fizeram para os visitantes e forasteiros. Quero quem cuide de cá vive em vez de quem cuide de fazer show off.

 

(Publicado na edição de hoje do diário METRO)

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publicado às 15:22

O VAZIO DA CAMPANHA ELEITORAL

por falcao, em 03.09.13

As próximas eleições autárquicas estão a revelar-se um repositório de lugares comuns. Os cartazes então são cada vez mais confrangedores. Ainda não vi um com uma ideia, apenas vejo um rol de banalidades, não se vislumbra uma proposta política. Em Lisboa a coisa é terrível – começa por Seara que tem por lema “Em Lisboa Com Os Dois Pés”. Por muito que me esforce não consigo traduzir isto em medidas concretas – será que pretende distribuir pontapés pela cidade fora? António Costa não é muito melhor – “Juntos Fazemos Lisboa” não quer dizer nada a não ser que deve estar contente com o que fez ao Marquês do Pombal e à Avenida da Liberdade e que se propõe continuar a fazer mais do mesmo. Até o Bloco de Esquerda abdicou da política e de propostas para se limitar a dizer “Queremos Lisboa”, uma coisa que fica sempre bem mas que não quer dizer mesmo nada. Desta vez nem a CDU escapa com o seu vaguíssimo “Cidade Para Todos”.

 

Mas não se pense que isto só acontece em Lisboa. O belíssimo e educativo blogue imagensdecampanha.blogs.sapo.pt recolhe pérolas como “Esperança no Futuro” para a candidatura do PS no Montijo ou “Juntos pelo Montijo”, para  a candidatura do PSD. Em Constância o PS proclama “Juntos Vamos Mudar Constância” e o PSD diz “Mais Juventude, Mais Futuro”. Também gosto muito do slogan do PS “Mudar o Porto” (será para Gaia?), acho curioso o do PS em Loulé “Ninguém Ficará para Trás” e parecem-me muito criativos estes do PSD -  “Afirmar Amarante”  e “Por Angra”.

 

Mas pior que tudo é a mania de adaptar músicas para hinos de campanha sem autorização dos autores. Cá para mim candidatos que usurpam direitos de autor deviam ser impedidos de se candidatarem – estão a usar o que não é seu com desplante e descaramento.

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publicado às 15:36

A Esquina À Beira das Autárquicas

por falcao, em 16.08.13

CONCURSOS PÚBLICOS - A Comissão Nacional de Eleições (CNE) lançou em Março passado um concurso público para escolher quem asseguraria uma campanha publicitária para apelar à participação dos cidadãos no próximo acto eleitoral, as autárquicas. Após meses de impugações e atribulações diversas, a decisão foi tomada apenas na semana passada. Este concurso público previa inicialmente, em Março, 3.4 milhões de euros destinados à criatividade e a plano de meios em simultâneo. O objectivo era então criar uma campanha que apelasse ao recenseamento e à participação no acto eleitoral e explicasse a reorganização administrativa das freguesias. A primeira campanha arrancaria em Maio mas o concurso foi impugnado, no meio de numerosas acusações de que o caderno de encargos estaria feito para uma determinada entidade. O montante acabou por ser reduzido e nesta fase foi apenas adjudicada, e com polémica,  a criatividade, existindo alguma dúvida sobre o que se passará com o plano de meios - isto a cerca de dois meses das eleições às quais a iniciativa se destinava. Este é apenas um dos casos de concursos, no âmbito da actividade publicitária, lançados por organismos públicos, e que claramente partem, do ponto de vista técnico, de bases erradas, sem nenhuma relação com a realidade de funcionamento do mercado - a primeira das quais é persistir ainda hoje em juntar a criatividade com a planificação de meios. Depois, e cada vez mais frequentemente, há concursos públicos que  determinam a utilização, paga pelo Estado português, de empresas internacionais que são alvo de reparos na Europa por utilizarem esquemas fiscais que as livram de pagar impostos nos países onde actuam - o Google é uma dessas empresas, que surge repetidamente como de utilização recomendada ou obrigatória em concursos que envolvem fundos públicos, dinheiro dos contribuintes que, eles sim, pagam aqui os seus impostos que assim esvoaçam... Ainda em relação aos Concursos Públicos, a série de plataformas privadas que foram criadas para os acolher, e cuja utilização é paga pelas empresas que pretendem participar nas consultas, é demasiado alargada - quem quiser estar a par dos concursos lançados tem que subscrever os serviços de uma meia dúzia de entidades, todas elas com um funcionamento com diversas falhas, demoras e problemas técnicos que dificultam e tornam o processo muito pouco transparente. Este caso da Comissão Nacional de Eleições -  que já teve consultas anteriores no mínimo polémicas - é o exemplo de como um orgão que está no coração do regime, que é essencial à participação dos cidadãos em eleições, e que devia estar acima de qualquer suspeita, se torna num elemento perturbador e gerador de desconfianças sobre o funcionamento do Estado.


SEMANADA - Os cadernos eleitorais para as autárquicas de setembro contam com mais de 9,4 milhões de inscritos, enquanto os dados dos últimos Censos indicam que, em 2011, residiam em Portugal apenas 8,6 milhões de pessoas; continua a barafunda em torno da aplicação da Lei de Limitação de Mandatos Autárquicos, com uns candidatos a serem autorizados por uns juízes e, outros, a serem recusados por outros juízes; a Segurança Social gastou 55,6 milhões de euros no primeiro semestre deste ano para pagar salários e compensações em atraso a trabalhadores de empresas em situação económica difícil ou que encerraram; a nova versão do Código de Processo Civil, que entra em vigor daqui a cerca de três semanas, já teve 14 rectificações, apenas mês e meio depois de ter sido inicialmente aprovada no Parlamento; a Banca cortou quatro mil funcionários desde a chegada da Troika; as seguradoras lucraram 464 milhões no primeiro semestre do ano, mais 176% do que no período homólogo do ano passado; o custo dos seguros para despesas com tratamentos de bombeiros poderá duplicar jé em 2014; a provedora dos animais de Lisboa, Marta Rebelo, nomeada por António Costa há dois meses, demitiu-se alegando falta de condições para actuar.


ARCO DA VELHA - A ERC - Entidade Reguladora da Comunicação - edita uma newsletter em formato digital, para informar sobre as suas actividades.  As newsletters 70, 71 e 72, respectivamente de Janeiro-Fevereiro, Março-Abril e Maio Junho, foram enviadas por email, em simultâneo, no passado dia 5 de Agosto. Qual a eficácia desta comunicação e desta ERC?


VER - Estão com vontade de ver boas exposições de arte contemporânea e não sabem como? Experimentem visitar http://www.saatchigallery.com/ e poderão descobrir a actividade daquele que é considerado um dos cinco melhores museus no Facebook e Twitter. Criado a partir da colecção privada dos irmãos Saatchi, localizado no centro de Londres, junto a Sloane Square, numa antiga instalação militar, a Saatchi Gallery apresenta sempre obras provocantes e procura desbravar caminhos. É o caso da exposição “New Order”, sobre artistas emergentes do Reino Unido ou de “Paper”, que apresenta obras, em diversos formatos e conceitos, mas sempre como papel como suporte.


OUVIR- Andava há uns meses para escrever sobre este disco, uma compra ainda primaveril na Amazon e que me deu boas alegrias nestes tempos recentes. Trata-se de um disco de blues, assinado pelo lendário Dr. John, que aos seus 71 anos nos mostra o que é sentir e tocar Rythm’n’Blues. A produção é de um outro apaixonado pelos blues, o guitarrista dos Black Keys, Dan Auerbach. Malcolm John Rebennack Jr., assim se chama de facto Dr. John, fez com este disco a sua melhor gravação dos últimos anos. Fundamentalmente esta é uma jam session onde brilham tanto a criatividade de Dr. John, como a capacidade técnica de Auerbach. A forma como Dr. Joh toca piano eléctrico e com ele imprime uma personalidade própria a canções como “Revolution” , “Getaway”, “Big Shot” ou “Ice Age” não deixa de me espantar, quase que diria década pós década.


FOLHEAR - A edição de Verão da Monocle em formato jornal, a “Monocle Mediterraneo” vem cheia de boas ideias e de algumas referências a Portugal. É engraçado notar que a empresa editora da Monocle deixou de ser apenas uma editora de imprensa e passou a ser uma empresa de media com conteúdos em papel, na webradio e no digital. Arrisco dizer que é a primeira companhia nascida já nesta década a assumir-se desta forma e não deixa de ser extraordinário que os seus anunciantes de maior destaque sejam cada vez mais marcas tecnológicas - de carros a telemóveis. Nesta edição gostei do ponto de situação sobre a Grécia, menos catastrofista do que é habitual sobre o mesmo tema - é aliás curioso notar que a “Monocle” fala quase sempre de forma positiva sobre as coisas, estimula, dá bons exemplos - nos negócios, na cultura. na criatividade e, sobretudo, no desenvolvimento de pequenos negócios auto sustentáveis. Uma das boas peças desta edição é dedicada à indústria italiana de construção de iates e de barcos de recreio. Nós, que temos uma das maiores costas europeias, que temos tradição de construção naval, porque é que nunca desenvolvemos esta vertente, nos estaleiros que vivem em dificuldades? É um mistério que ainda hoje me persegue. Adiante: Madrid continua a investir forte na “Monocle” e esta edição não é excepção com uma página inteira de publicidade, com conteúdos, da gastronomia à música. Portugal é falado por causa das boas conservas Nero, por causa da já inevitável Comporta e duas suas CasasNaAreia e, claro, por causa do potencial surfista da Ericeira. Tudo isto, se não se recordam, se desenvolveu já nesta década.


PROVAR - Prossigo nas minhas refeições leves de verão. Desta vez foram filetes de cavala fumados em azeite, da marca Tricana, disponível desde há 80 anos na Conserveira de Lisboa. Estas conservas de fumados da Tricana são qualquer coisa de especial (já aqui falei, há umas semanas, dos belíssimos mexilhões fumados). Duas latas desta cavala (um peixa injustamente pouco considerado) e uma endívia bem cortada em salada deram um excelente jantar para duas pessoas. Uma garrafa de vinho verde Muralhas fez as honras da casa a pleno contento e uma melancia aos cubos, refrescada, completou o assunto.


DIXIT - “A política, ao pé do desporto, é um convento de freiras” - Pedro Santana Lopes


GOSTO- Dos concertos do Meo Out Jazz, que acontecem aos domingos a partir das 17h00 no Parque Eduardo VII, em Lisboa.


NÃO GOSTO - De quem vai para a política depois de ter feito carreira em negociatas que lesam os contribuintes.

BACK TO BASICS - “A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora” - Eça de Queiroz

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publicado às 22:52

LISBOA - Se há coisa que não percebo é o que se passa em Lisboa, em termos autárquicos. Enquanto o PSD optou por uma espécie de candidato mistério, já se percebeu que António Costa fez uma lista à medida para se poder ir embora tratar do PS, quando as querelas entre Mário Soares e António José Seguro se tornarem insuportáveis. O mais engraçado desta crispação socialista é o facto de ter sido a crise na coligação que levou ao forte agudizar das divergências e tensões internas no PS. A nova equipa anunciada pela coligação “Juntos Fazemos Lisboa”, que agrupa gente do PS, simpatizantes do PS e penduras do PS,  dá o palco a Fernando Medina, considerado um delfim de António Costa, capaz de o substituir se ele tiver que trocar o Intendente ou a  Praça do Município pelo Largo do Rato. A Costa, vontade não lhe falta, a lista apresentada comprova que será apenas uma questão de oportunidade. Há saídas curiosas como a de Nunes da Silva, o homem que fez o caos do Marquês de Pombal e deu rédea solta à EMEL, ou de Helena Roseta, a  mulher que muito fala e pouco fez na área da habitação e do desenvolvimento social. Há também manutenções estranhas, como a do cómico de serviço aos espaços públicos e ambiente urbano, o Zé que não faz falta.  A única surpresa desta lista do PS é o facto de ela confirmar que António Costa se colocou com meio pé fora da Câmara – o que transforma o acto eleitoral numa farsa: se escolherem Costa, os eleitores arriscam-se a votar em alguém que sairá do governo da cidade mal receba um SOS do PS.


SEMANADA - Prosseguiu o folhetim dos swaps; Vitor Gaspar contou uma história diferente da que foi contada por Maria Luis Albuquerque; Rui Rio criticou a forma como Maria Luis Albuquerque tem agido; Rui Rio criticou a candidatura de Luis Filipe Menezes; Rui Rio considerou que Maria Luis Albuquerque é uma pedra no sapato do Governo; Rui Rio disse que Luis Filipe Menezes “fez pior a Gaia do que o PS ao país”; os partidos da maioria aprovaram uma moção de confiança ao Governo remodelado; a troika também foi remodelada;  disseram-me que uma boa parte dos contratos de swaps surgiram porque as empresas públicas precisavam de empréstimos e alguns bancos só os concediam se também se celebrassem contratos de swaps tóxicos- coisa que na época foi considerada um mal menor; se os estupefacientes são punidos por lei porque é que produtos financeiros tóxicos também não são?;  a CGD pediu  à Polícia Judiciária que investigasse negócios imobiliários do grupo; o Tribunal de Contas considera que os PPP na saúde vão custar mais seis mil milhoes de euros do que o previsto; os tribunais portugueses declararam, na primeira metade do ano, 3311 empresas insolventes, das quais 26% eram da  construção, 18% dos serviços e 17% do retalho; Silva Carvalho diz que a nova lei das secretas “é um projecto silly, feito por gente silly”; o  investimento directo  estrangeiro caíu 65% no primeiro trimestre do ano.


ARCO DA VELHA - “Vamos convir que o trabalho não é agradável”, escreveram os desembargadores Eduardo Petersen Silva, Frias Rodrigues e Paula Ferreira Roberto no seu acordão, salientando: “Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos” - excertos de um acordão do Tribunal da Relação do Porto, sobre o despedimento de um trabalhador etilizado de uma empresa de recolha do lixo, alvo de um processo após um acidente.


VER - Uma exposição que vale a pena ver é “Sob o Signo de Amadeo, Um Século de Arte”, a peça forte da celebração dos 30 anos do Centro de Arte Moderna (CAM)  da Fundação Gulbenkian. Pela primeira vez é exposta a totalidade do acervo de Amadeo Souza-Cardoso, uma obra pioneira na história do modernismo em Portugal - evocando aliás a mostra inaugural do CAM há 30 anos atrás. Ocupando todo o espaço do edifício do CAM, entre 26 de Julho de 2013 e 19 de Janeiro de 2014, encontra-se exposta cinco por cento da coleção de arte moderna e arte contemporânea da Gulbenkian, que, trinta anos depois da inauguração do CAM , conta com mais de dez mil obras. Destaque também para  uma exposição que se desenrola em simultâneo, na Biblioteca de Arte, intitulada “CAM - 30 Anos de Catálogos e Posters”.


OUVIR-  Silvia Pérez Cruz é uma daquelas cantoras que, á primeira audição, ficam retidas na memória. A forma de cantar, o despojamento, a capacidade de dizer as palavras ultrapassam aquela mania das boas vozes. Costumo dizer que de boas vozes está o mundo cheio, cantores que saibam cantar há que há poucos. Felizmente esta catalã sabe o que faz, e faz muito bem o seu cantar. Às vezes, faz-me Maria del Mar Bonnet - como ela é intrigante, elegante e sedutora. “11 de Novembre”, editado em 2012 e agora distribuído em Portugal pela Universal, é o seu primeiro disco. Tem canções em catalão, português, castelhano e galego. Em “Não Sei”, que ela própria escreveu, canta com António Zambujo, que reincide em “Meu Meniño”. Este é um daqueles discos que nos acompanha umas horas depois de acabarmos de o ouvir - dei comigo a pensar que Silvia Pérez Cruz é catalã, mas também tropical. Pelo meio cruza influências, uma jogada sempre arriscada, e sai-se bem do assunto.


FOLHEAR - Já houve uma altura em que gostaria de poder ter feito uma revista como a “Vanity Fair”, essa combinação subtil de conteúdos entre a evidente futilidade e a profundidade de uma grande reportagem. A capa da revista, fotografia de piscina, é dada a Kerry Washington, a actiz que fez de mulher de Ray Charles e de Idi Amin, mas também de escrava em Django Unchained e, ainda, de Olivia Pope, na muito politizada série televisiva “Scandal”. No seu sempre incontornável editorial, Graydon Carter, o editor da revista, reflecte como Washington mudou de forma acentuada nos últimos anos, como se pode ver na forma como foi evoluindo a sua presença, enquanto cenário de intrigas em filmes e séries de televisão - uma análise bem mostrada numa das grandes peças desta edição de Agosto da Vanity Fair, “Washington Noir”, a estabelecer múltiplos paralelos entre a política, o poder e o cinema e televisão, de uma forma que de repente me fez lembrar alguns dos grandes editoriais de Vicente Jorge Silva na forma primitiva da Revista do Expresso. Outro artigo curioso é a história da biografia do presidente Wilson, escrita por Scott Berg - o que nos coloca a questão de ser legítimo querermos saber porque em Portugal trabalhamos tão pouco sobre as figuras da nossa História recente. A terminar, o questionário de Proust é com John Malkovich que diz sem rodeios que mente, sempre que precisa de o fazer. Como bem sabemos, não é o único.


PROVAR - Num dia em que estão 30 graus, que fazer? Que tal ir a um local com bom ar condicionado e onde exista um belíssimo cozido à portuguesa? Pois foi o que me aconteceu nesta quarta-feira, no Solar dos Presuntos. O começo foi um queijo da ilha, de S. Jorge, na maturação certa e muito bem fatiado, ao lado de umas azeitonas verdes carnudas e saborosas. O cozido que se lhe seguiu, de carnes magras, a pedido, e com reforço das couves, nabo e farinheira, cumpriu superiormente a missão de nos criar ânimo para um jejum até Setembro - que em Agosto ali não há cozido. A refeição rematou com um melão em condições e foi acompanhada por vinho do Douro, bem achado e por sugestão da casa. Companhia amiga, conversa solta. Bom sítio, onde vale sempre a pena voltar. Solar dos Presuntos - Telefone 21 342 42 53, Rua das Portas de Santo Antão, 150.

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DIXIT - Quando penso na RTP e no serviço público audiovisual, e no dinheiro que todos pagamos para que ele exista, vem-me à mente esta citação de Steve Jobs que, tendo sido dita noutro contexto, se pode aplicar que nem uma luva ao que o serviço público devia ser: “A minha paixão tem sido pôr de pé uma empresa que resista ao tempo e onde as pessoas estejam motivadas para fazer grandes produtos. Tudo o resto foi secundário. É claro que é fantástico conseguir lucro, porque é ele que nos permite fazer esses grandes produtos. Mas foram sempre os produtos, e não o lucro, a minha motivação”.


GOSTO- Do festival de arte de rua Walk & Talk, nos Açores - um bom exemplo de descentralização, criatividade e ousadia, a romper convenções, em território arriscado - um exemplo para o país, a começar por Lisboa e o Porto.


NÃO GOSTO - Do slogan “Em Lisboa Com os Dois Pés” escolhido pela lista de Fernando Seara a Lisboa. Deve ser fruto do pendor futebolista do eventual candidato e da maneira como ele entra em campo nos debates clubísticos.

 

BACK TO BASICS - “É muito perigoso para qualquer político dizer coisas de que as pessoas se venham a recordar” - Eugene McCarthy


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publicado às 13:20

OS SALTA POCINHAS

por falcao, em 25.06.13

Este romance dos candidatos autárquicos salta-pocinhas, que se apresentam como autarcas profissionais e querem passar de uma Câmara para outra independentemente do número de mandatos que levam no cartório, é um dos mais tristes episódios do nosso sistema político.

Mas não é só a situação em si que é caricata – quando o problema começou a surgir, aqui há uns meses, a Assembleia da República tinha tido oportunidade e tempo de corrigir ou esclarecer aquilo que houvesse a fazer em matéria legislativa, o que teria evitado o lavar de roupa suja entre tribunais e candidatos a que temos assistido. Deve aliás sublinhar-se que as maiores culpas de não se ter esclarecido esta situação no local competente, que era o Parlamento, vieram do PSD e do PS, que na altura sacudiram a água do capote e não quiseram pronunciar-se. O PS, previdentemente,  tem evitado apresentar candidatos salta-pocinhas mas o PSD não resistiu e, portanto, está cheio de problemas ainda por cima nas duas Câmaras politicamente mais significativas – Lisboa e Porto.

 

Eu, por princípio, sou contra a perpetuação de responsáveis de cargos políticos nos mesmos cargos e por isso até achei razoável que houvesse um limite de três mandatos. Acho uma cobardia política que, na altura devida, os deputados tenham fugido a pôr esta situação em pratos limpos – tanto mais que deixaram campo aberto para o que agora está a acontecer: face à mesma situação, vários tribunais decidem de maneira diferente e, nuns casos autorizam a candidatura de quem já tem três mandatos, noutros, não. Tudo isto contribui para desacreditar a política e os políticos, para confundir os eleitores – com eleições já marcadas não se saberá, de certeza certa, quem serão os candidatos em várias autarquias. Um triste espectáculo.

 

(Publicado no diário Metro de 25 de Junho)

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publicado às 12:33

DOIS ANOS PERDIDOS

por falcao, em 10.09.09

(Publicado no diário «Metro» de 9 de Setembro)


Quando olho para o que se passa em Lisboa desde que António Costa é Presidente da Câmara sinto uma sensação de tempo perdido, dois anos para ser exacto. Sob a desculpa de arrumar a casa, muito pura e simplesmente deixou-se a cidade ao abandono. Sob o pretexto das dificuldades financeiras deixou-se degradar a limpeza e o arranjo das ruas da cidade – mas verbas importantes foram desviadas para outros projectos, menos prioritários. Passeios sujos, asfalto com buracos, obras sem controlo que se arrastam (como na Fontes Pereira de Melo), desinvestimento nos apoios sociais aos mais idosos – este é o resumo destes últimos dois anos em Lisboa.


Para os que vivem e trabalham em Lisboa a vida está pior, mais desconfortável, mais difícil. As medidas anunciadas – a tolerância zero no estacionamento, por exemplo – ficaram no papel e não se concretizaram. O Terreiro do Paço assemelha-se a um pesadelo, num projecto sem nexo, o trânsito na baixa foi transformado num caos, com placas de indicação de sentido e direcção desactualizadas.


Largas somas foram aplicadas em obras de duvidosa prioridade e utilidade, como as ciclovias - veremos qual a utilização real que elas vão ter, porque para já é bem reduzida.


Mas em contrapartida os espaços públicos – como o jardim do Campo Grande – continuam a degradar-se e os cemitérios estão cada vez mais maltratados – sujos, descuidados.


Nestes dois anos não houve reestruturação dos serviços da Câmara, aproximação aos munícipes, diminuição da burocracia. Pelo contrário, por exemplo, a EMEL piorou a sua actuação e arrogância, e é, claramente, um caso a merecer atenção no futuro.


A qualidade de vida e o conforto de uma cidade é medido, em primeiro lugar, pelos seus habitantes – devem ser eles os destinatários da governação camarária. Mas na realidade é bem difícil encontrar o que foi feito por António Costa e pela sua equipa, mais entretidos em jogos políticos do que em servir os lisboetas. A cidade, na realidade, está mais desarrumada.

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publicado às 00:40

UMA PROMISCUIDADE REVELADORA

por falcao, em 14.07.09

(Publicado no diário «Meia Hora» de 14 de Julho)

 


António Costa escolheu estes últimos dias para dar o pontapé de saída na sua recandidatura à Câmara Municipal de Lisboa: assinou no Domingo um acordo com José Sá Fernandes, na sexta havia indicado apoiantes e mandatários, e na segunda-feira fez a apresentação formal da candidatura. São tudo actividades normais em processo eleitoral. Claramente António Costa escolheu estes quatro dias, de sexta a segunda, para marcar a agenda mediática e ganhar espaço nos «media».


No entanto António Costa não fez só isto e, de uma forma pouco elegante, no mesmo espaço de tempo, misturou por duas vezes a sua recandidatura privada e partidária com actividades da Câmara Municipal de Lisboa : sexta-feira, horas antes de José Saramago ter declarado o seu apoio a Costa, a Câmara Municipal de Lisboa, directamente pela mão do seu presidente, concedeu um subsídio de 30.000 € ao documentário "União Ibérica", sobre a relação entre Saramago e a mulher, Pilar del Rio; a seguir António Costa promoveu a publicação e distribuição, na edição de Domingo de um jornal diário, de um folheto de propaganda municipal, com 16 páginas, das quais as duas iniciais são preenchidas por um texto seu, com respectiva fotografia pessoal.


A política audiovisual de António Costa começou há poucos dias quando decidiu financiar mais um filme de João Botelho sobre Fernando Pessoa; logo a seguir surge este subsídio para um documentário sobre Saramago. O financiamento de produções audiovisuais pela autarquia surge assim de forma casuística -  mais valia que as verbas envolvidas fomentassem a criação de uma Film Commission para Lisboa. Mas, sobretudo, convinha que, nos dois últimos casos, o de Botelho e Saramago, a coisa não parecesse um estender de mão eleitoral.


O segundo caso é pior – toda a história da Carta Estratégica de Lisboa, por melhores intenções que os intervenientes tenham, serve objectivamente apenas para uma acção propagandística e de levantamento de ideias a apoios para o Programa Eleitoral de António Costa. Esta é uma daquelas iniciativas que faz sentido fazer-se logo no início de mandato, mas que em período já pré-eleitoral fica apenas como uma manobra de propaganda eticamente muito discutível.


Nestes dois temas nem falo da utilização de dinheiros públicos, sobretudo revolta-me a falta de ética política e a promiscuidade que a mistura e a coincidência entre actos partidários e actos institucionais revela. 

 

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publicado às 11:10


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