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GOVERNO - UM ANIVERSÁRIO REPIMPADO

por falcao, em 09.12.16

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REPIMPAMENTE - Tenho para mim que o estado de graça do Governo se deve a duas coisas: à habilidade de António Costa e à inabilidade da oposição. As duas coisas juntas, polvilhadas pelo tempero de afectos do Presidente da República, deram o que está à vista. Para que não surjam más interpretações devo dizer que a habilidade de António Costa inclui alguma eficácia negocial em Bruxelas, tácticas bem imaginadas e bem utilizadas em algumas situações mais explosivas e, acima de tudo, uma enorme capacidade de só dizer o que lhe interessa, construindo uma realidade própria e negando tudo o que ele entenda não caber dentro dessa realidade. Isto é uma arte - ou, melhor dizendo, estes pontos são parcelas dessa arte a que se chama política. Se existir um Óscar para a melhor ficção política, António Costa ganha-o de certeza absoluta. Nestes últimos dias, e a propósito do primeiro aniversário do seu Governo, o Primeiro Ministro esteve envolvido em duas manobras de comunicação política pura, ambas a tender (usando palavreado da moda) para uma versão pós-verdade das conversas em família. A primeira, era uma ideia engraçada, mas acabou por sair frouxa, e tinha a ver com uma produção ensaiada na Aula Magna da Reitoria de Lisboa em que um grupo de pessoas, seleccionadas pelo Instituto de Ciências Sociais, colocava perguntas ao chefe do governo e aos seus Ministros. A outra foi a entrevista concedida à RTP. Sobre a forma como António Costa se desempenhou das duas tarefas opto por citar um dos próprios entrevistadores, André Macedo, que, referindo-se ao espectáculo da Aula Magna, acabou por fazer o retrato geral da situação e escreveu o seguinte sobre a prestação do Primeiro Ministro: “transformou o debate numa imensa piscina olímpica aquecida, habilmente aproveitada por António Costa para se banhar repimpamente”.  Tudo indica que, com a oposição adormecida, este Governo vai ter longa vida. Mais vale, a bem de nós todos, que isto não corra mal. Mas, temos sempre que ter presente, como dizia Galileu perante a inquisição, falando sobre o movimento da Terra, “e pur si muove!”. Quer dizer, a realidade acaba por se sobrepôr à fantasia. Às vezes com custos pesados.

 

SEMANADA - Num estudo internacional, realizado de três em três anos, que avalia a literacia dos alunos de 15 anos de idade em Ciências, Leitura e Matemática os jovens portugueses ficaram pela primeira vez à frente da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico;  a segurança social fecha três lares ilegais por mês; O Tribunal de Contas acusa o Ministério das Finanças de “falta de controlo” na Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre 2013 e 2015, salientando que o Estado aprovou documentos de prestação de contas sem ter a informação completa; nos últimos dois anos houve 33360 processos ligados à criminalidade económica e foram feitas 297 acusações por corrupção; 17 empresas portuguesas são fornecedoras da da agência espacial europeia e o Governo fala em criar uma agência espacial portuguesa; segundo a Marktest 3,6 milhões de portugueses já têm o hábito de ler notícias através do tablet ou do smartphone, o que significa que o número destes utilizadores quadriplicou desde 2013; nos últimos três anos foram multados três mil condutores por não obedecerem às novas regras de circulação em rotundas; 2015 foi o ano com menos greves desde 2010 - 95 verificadas no ano passado que comparam com as 199 registadas em no início da década; 2012 foi o ano com mais greves, 233; o congresso do PCP realizado este fim de semana caucionou o apoio comunista ao Governo de António Costa.


ARCO DA VELHA - O serviço de estrangeiros e fronteiras admite desconhecer a quantos imigrantes ilegais concedeu autorização de residência sem cumprirem a principal exigência da lei, terem entrado legalmente no espaço Schengen.

 

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FOLHEAR - “Tabacaria” é um poema escrito por Fernando Pessoa, sob o heterónimo Álvaro de Campos, em Janeiro de 1928, publicado pela primeira vez na revista Presença em Julho de 1933. É considerado como um dos mais importantes poemas de Pessoa e o crítico e escritor italiano António Tabucchi considerava-o mesmo o poema mais importante do século XX. “Tabacaria” pertence à fase intimista do heterónimo Álvaro de Campos, onde os temas são a solidão interior, a incapacidade de amar, a descrença em relação a tudo e o conflito entre a realidade e o próprio poeta. Esta belíssima nova edição, da “Guerra & Paz”, inclui a versão original portuguesa e ainda traduções para inglês, francês, espanhol e italiano. É composta por um livro, de 176 páginas, muitíssimo bem paginado e impresso, onde além de Tabacaria nos cinco idiomas, estão recolhidos um conjunto de textos agrupados sob a designação “A Tabacaria vista de outra janela - das páginas íntimas de Fernando Pessoa”. Estes textos, que vários estudiosos do poeta consideram autobiográficos, são reproduzidos nas versões originais em que foram escritos - em português, inglês e francês. O livro inclui ainda um texto do editor, Manuel S. Fonseca, e 25 fotografias de Pedro Norton em que ele mostra a Baixa de Lisboa, digamos que o território natural do poeta. Numa pasta separada estão agrupadas estas 25 fotografias, em impressões de alta qualidade. O livro e a pasta com as fotografias estão guardados numa caixa de madeira de choupo e de maple, impressas a laser e UV e feita em Proença-A-Nova na empresa Ambiente d’Interni - a caixa só por si é uma obra. O grafismo e o design global foram de Ilídio Vasco. Trata-se de uma edição especial, de coleccionador, com uma tiragem numerada de 1500 exemplares.

 

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VER - Até 26 de Fevereiro, na renovada sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, na Rua da Alfândega, em Lisboa, pode ser vista a exposição “Mater Dei”, que apresenta obras de 25 artistas contemporâneos portugueses, que foram desafiados a criarem peças inspiradas na figura de Maria (na imagem). A exposição inclui trabalhos de escultura, pintura, desenho e outras técnicas de artistas como Manuel Amado, Rui Chafes, Ilda David, João Queiroz, Pedro Calapez e Cristina Ataíde. O pároco de São Nicolau, Mário Rui Pedras,  explica que não foi feito “qualquer tipo de limitação do ponto de vista nem da sua vida de fé, nem da sua orientação como artista”. Destaque ainda, para a exposição de Miguel Telles da Gama na Giefarte, até 13 de Janeiro (Rua da Arrábida 54B). O artista mostra a sua produção mais recente com um conjunto de obras a que deu o nome de “Vanishing Act”. Observador de detalhes, contador de histórias através de imagens,  estas suas obras conjugam o hiper realismo da pintura com as palavras usadas para cada peça, a constituir uma narrativa ao longo da sala onde estão em exposição. Há aqui, até no título escolhido para a exposição, uma evocação quase cinematográfica do olhar, como se o artista fosse realizando planos e contra planos, numa cuidada edição de diálogos e de olhares.

 

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OUVIR - Já lá vão 14 anos de Dead Combo, esse encontro musical  de dois talentos - Tó Trips na guitarra e Pedro Gonçalves no baixo. O novo disco chama-se  "Dead Combo e As Cordas Da Má Fama"  - sendo que essas cordas são Carlos Tony Gomes, no Violoncelo, Bruno Silva, na Viola e Denys Stetsenko, no Violino. O objectivo era recriar com esta formação alargada 12 temas da história dos Dead Combo, como  “Quando A Alma Não É Pequena”, “A Menina Dança”, “Lisboa Mulata”, “Rodada”, “Puto Que Cais Descalço”, “Welcome Simone”  e “Anadamastor”, entre outros. Como se deseja nestas ocasiões as versões estão diferentes e para melhor - mas mantêm-se as melodias originais e o espírito de desafio que os Dead Combo sempre imprimem à sua música, algures entre a tradição portuguesa e as bandas sonoras de westerns. Por falar em filmes é curioso notar como a imagem em movimento acompanha a história dos Dead Combo - desde a banda sonora escolhida por Anthony Bourdain para o seu episódio de “No Reservations” sobre Lisboa até à música que compuseram para “Slightly Smaller Than Indiana” de Daniel Blaufuks, até ao facto de terem sido convidados a actuar na estreia, em Cannes, do filme “Cosmopolis”, de David Cronenberg, produzido por Paulo Branco. Este é o seu primeiro disco desde “A Bunch Of Meninos”, de 2014.


PROVAR -  Apanhar com crianças num restaurante pode ser por vezes um pesadelo e muitos restaurantes não acolhem bem estes pequenos clientes. Outros recebem-nos de braços abertos e até têm espaços para eles brincarem. Que isto acontece em cadeias de fast-food já se sabia. Mas que isto aconteça num restaurante dedicado à cozinha tradicional portuguesa e onde se come verdadeiramente bem, já é mais raro. O 13% Restaurante fica no Porto, na zona da Foz, e além da sala tem uma esplanada coberta e um jardim onde, caso o tempo o permita, as crianças podem estar á vontade. Talvez por isso é procurado ao fim de semana para almoços de família ou de amigos. O serviço é muito simpático, sempre disponível e as mesas são amplas e confortáveis. Na cozinha as coisas correm muito bem e a casa tem várias especialidades: rosbife à inglesa, cabrito assado com arroz de forno, batatas e grelos, filetes de polvo com açorda de coentros, e, claro, dobrada. Boa garrafeira a preços sensatos. Nos doces destaque para o crumble de maçã com gelado e o leite creme. Durante a semana ao almoço há um menu especial. Fecha às terças, marcação recomendável especialmente ao fim de semana. O 13% Restaurante fica na Rua da Cerca 440, telefone 912 332 690.

DIXIT -  “Quando se perde, não se finge que não aconteceu nada” - Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, após a derrota no referendo.

GOSTO - O sector da cortiça vai fechar 2016 com valor recorde nas exportações, cerca de 950 milhões de euros.

NÃO GOSTO - A Câmara Municipal de Lisboa escondeu no seu site os atrasos verificados nas obras com o expediente de  mudar as datas inicialmente previstas de conclusão dos trabalhos.

BACK TO BASICS - “Dar dinheiro e poder ao governo é a mesma coisa que dar bebidas alcoólicas e as chaves de um carro a um adolescente” - P.J . O’Rourke

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publicado às 13:55

LISBOA - Se há coisa que não percebo é o que se passa em Lisboa, em termos autárquicos. Enquanto o PSD optou por uma espécie de candidato mistério, já se percebeu que António Costa fez uma lista à medida para se poder ir embora tratar do PS, quando as querelas entre Mário Soares e António José Seguro se tornarem insuportáveis. O mais engraçado desta crispação socialista é o facto de ter sido a crise na coligação que levou ao forte agudizar das divergências e tensões internas no PS. A nova equipa anunciada pela coligação “Juntos Fazemos Lisboa”, que agrupa gente do PS, simpatizantes do PS e penduras do PS,  dá o palco a Fernando Medina, considerado um delfim de António Costa, capaz de o substituir se ele tiver que trocar o Intendente ou a  Praça do Município pelo Largo do Rato. A Costa, vontade não lhe falta, a lista apresentada comprova que será apenas uma questão de oportunidade. Há saídas curiosas como a de Nunes da Silva, o homem que fez o caos do Marquês de Pombal e deu rédea solta à EMEL, ou de Helena Roseta, a  mulher que muito fala e pouco fez na área da habitação e do desenvolvimento social. Há também manutenções estranhas, como a do cómico de serviço aos espaços públicos e ambiente urbano, o Zé que não faz falta.  A única surpresa desta lista do PS é o facto de ela confirmar que António Costa se colocou com meio pé fora da Câmara – o que transforma o acto eleitoral numa farsa: se escolherem Costa, os eleitores arriscam-se a votar em alguém que sairá do governo da cidade mal receba um SOS do PS.


SEMANADA - Prosseguiu o folhetim dos swaps; Vitor Gaspar contou uma história diferente da que foi contada por Maria Luis Albuquerque; Rui Rio criticou a forma como Maria Luis Albuquerque tem agido; Rui Rio criticou a candidatura de Luis Filipe Menezes; Rui Rio considerou que Maria Luis Albuquerque é uma pedra no sapato do Governo; Rui Rio disse que Luis Filipe Menezes “fez pior a Gaia do que o PS ao país”; os partidos da maioria aprovaram uma moção de confiança ao Governo remodelado; a troika também foi remodelada;  disseram-me que uma boa parte dos contratos de swaps surgiram porque as empresas públicas precisavam de empréstimos e alguns bancos só os concediam se também se celebrassem contratos de swaps tóxicos- coisa que na época foi considerada um mal menor; se os estupefacientes são punidos por lei porque é que produtos financeiros tóxicos também não são?;  a CGD pediu  à Polícia Judiciária que investigasse negócios imobiliários do grupo; o Tribunal de Contas considera que os PPP na saúde vão custar mais seis mil milhoes de euros do que o previsto; os tribunais portugueses declararam, na primeira metade do ano, 3311 empresas insolventes, das quais 26% eram da  construção, 18% dos serviços e 17% do retalho; Silva Carvalho diz que a nova lei das secretas “é um projecto silly, feito por gente silly”; o  investimento directo  estrangeiro caíu 65% no primeiro trimestre do ano.


ARCO DA VELHA - “Vamos convir que o trabalho não é agradável”, escreveram os desembargadores Eduardo Petersen Silva, Frias Rodrigues e Paula Ferreira Roberto no seu acordão, salientando: “Note-se que, com álcool, o trabalhador pode esquecer as agruras da vida e empenhar-se muito mais a lançar frigoríficos sobre camiões, e por isso, na alegria da imensa diversidade da vida, o público servido até pode achar que aquele trabalhador alegre é muito produtivo e um excelente e rápido removedor de electrodomésticos” - excertos de um acordão do Tribunal da Relação do Porto, sobre o despedimento de um trabalhador etilizado de uma empresa de recolha do lixo, alvo de um processo após um acidente.


VER - Uma exposição que vale a pena ver é “Sob o Signo de Amadeo, Um Século de Arte”, a peça forte da celebração dos 30 anos do Centro de Arte Moderna (CAM)  da Fundação Gulbenkian. Pela primeira vez é exposta a totalidade do acervo de Amadeo Souza-Cardoso, uma obra pioneira na história do modernismo em Portugal - evocando aliás a mostra inaugural do CAM há 30 anos atrás. Ocupando todo o espaço do edifício do CAM, entre 26 de Julho de 2013 e 19 de Janeiro de 2014, encontra-se exposta cinco por cento da coleção de arte moderna e arte contemporânea da Gulbenkian, que, trinta anos depois da inauguração do CAM , conta com mais de dez mil obras. Destaque também para  uma exposição que se desenrola em simultâneo, na Biblioteca de Arte, intitulada “CAM - 30 Anos de Catálogos e Posters”.


OUVIR-  Silvia Pérez Cruz é uma daquelas cantoras que, á primeira audição, ficam retidas na memória. A forma de cantar, o despojamento, a capacidade de dizer as palavras ultrapassam aquela mania das boas vozes. Costumo dizer que de boas vozes está o mundo cheio, cantores que saibam cantar há que há poucos. Felizmente esta catalã sabe o que faz, e faz muito bem o seu cantar. Às vezes, faz-me Maria del Mar Bonnet - como ela é intrigante, elegante e sedutora. “11 de Novembre”, editado em 2012 e agora distribuído em Portugal pela Universal, é o seu primeiro disco. Tem canções em catalão, português, castelhano e galego. Em “Não Sei”, que ela própria escreveu, canta com António Zambujo, que reincide em “Meu Meniño”. Este é um daqueles discos que nos acompanha umas horas depois de acabarmos de o ouvir - dei comigo a pensar que Silvia Pérez Cruz é catalã, mas também tropical. Pelo meio cruza influências, uma jogada sempre arriscada, e sai-se bem do assunto.


FOLHEAR - Já houve uma altura em que gostaria de poder ter feito uma revista como a “Vanity Fair”, essa combinação subtil de conteúdos entre a evidente futilidade e a profundidade de uma grande reportagem. A capa da revista, fotografia de piscina, é dada a Kerry Washington, a actiz que fez de mulher de Ray Charles e de Idi Amin, mas também de escrava em Django Unchained e, ainda, de Olivia Pope, na muito politizada série televisiva “Scandal”. No seu sempre incontornável editorial, Graydon Carter, o editor da revista, reflecte como Washington mudou de forma acentuada nos últimos anos, como se pode ver na forma como foi evoluindo a sua presença, enquanto cenário de intrigas em filmes e séries de televisão - uma análise bem mostrada numa das grandes peças desta edição de Agosto da Vanity Fair, “Washington Noir”, a estabelecer múltiplos paralelos entre a política, o poder e o cinema e televisão, de uma forma que de repente me fez lembrar alguns dos grandes editoriais de Vicente Jorge Silva na forma primitiva da Revista do Expresso. Outro artigo curioso é a história da biografia do presidente Wilson, escrita por Scott Berg - o que nos coloca a questão de ser legítimo querermos saber porque em Portugal trabalhamos tão pouco sobre as figuras da nossa História recente. A terminar, o questionário de Proust é com John Malkovich que diz sem rodeios que mente, sempre que precisa de o fazer. Como bem sabemos, não é o único.


PROVAR - Num dia em que estão 30 graus, que fazer? Que tal ir a um local com bom ar condicionado e onde exista um belíssimo cozido à portuguesa? Pois foi o que me aconteceu nesta quarta-feira, no Solar dos Presuntos. O começo foi um queijo da ilha, de S. Jorge, na maturação certa e muito bem fatiado, ao lado de umas azeitonas verdes carnudas e saborosas. O cozido que se lhe seguiu, de carnes magras, a pedido, e com reforço das couves, nabo e farinheira, cumpriu superiormente a missão de nos criar ânimo para um jejum até Setembro - que em Agosto ali não há cozido. A refeição rematou com um melão em condições e foi acompanhada por vinho do Douro, bem achado e por sugestão da casa. Companhia amiga, conversa solta. Bom sítio, onde vale sempre a pena voltar. Solar dos Presuntos - Telefone 21 342 42 53, Rua das Portas de Santo Antão, 150.

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DIXIT - Quando penso na RTP e no serviço público audiovisual, e no dinheiro que todos pagamos para que ele exista, vem-me à mente esta citação de Steve Jobs que, tendo sido dita noutro contexto, se pode aplicar que nem uma luva ao que o serviço público devia ser: “A minha paixão tem sido pôr de pé uma empresa que resista ao tempo e onde as pessoas estejam motivadas para fazer grandes produtos. Tudo o resto foi secundário. É claro que é fantástico conseguir lucro, porque é ele que nos permite fazer esses grandes produtos. Mas foram sempre os produtos, e não o lucro, a minha motivação”.


GOSTO- Do festival de arte de rua Walk & Talk, nos Açores - um bom exemplo de descentralização, criatividade e ousadia, a romper convenções, em território arriscado - um exemplo para o país, a começar por Lisboa e o Porto.


NÃO GOSTO - Do slogan “Em Lisboa Com os Dois Pés” escolhido pela lista de Fernando Seara a Lisboa. Deve ser fruto do pendor futebolista do eventual candidato e da maneira como ele entra em campo nos debates clubísticos.

 

BACK TO BASICS - “É muito perigoso para qualquer político dizer coisas de que as pessoas se venham a recordar” - Eugene McCarthy


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publicado às 13:20

GREVE - À hora a que escrevo ainda não sei o que aconteceu de facto. Mas posso, sem grande risco, pensar que a greve de quinta-feira atingiu sobretudo serviços do Estado e empresas públicas. Dantes, as greves gerais não eram assim - paravam fábricas, paravam empresas privadas, paravam países. Agora conseguem parar os transportes e, por via disso, inviabilizam que algumas pessoas vão trabalhar, apesar de não quererem fazer greve. A verdade é que, historicamente, o desenvolvimento do transporte privado tramou os sindicatos e restringiu o universo grevista. Li esta semana que só 10% dos trabalhadores do sector privado são sindicalizados - e os sindicatos bem podem dizer que a culpa é das empresas que atemorizam oa assalariados, mas ninguém em seu perfeito juízo acredita nisso como regra geral. Mais provavelmente, muitos colaboradores de empresas privadas estão apostados em conseguir, nesta difícil conjuntura, que as empresas onde trabalham consigam produzir, vender, facturar e, consequentemente, pagar. Hoje ainda continua a haver quem queira apenas um emprego; mas há muita gente que prefere trabalhar, percebendo que só a sua produtividade ajuda a que a situação geral melhore. É triste que seja na administração pública, mais improdutiva que a actividade privada em termos objectivos, que a greve alcance indícies palpáveis. É o melhor sinal da urgente necessidade de uma reforma e redimensionamento do Estado, muito para além do que os partidos, tementes das suas clientelas eleitorais, estão dispostos a arriscar. Em Portugal continua a falar-se muito de direitos e pouco de responsabilidades. Ao ler declarações, destes dias, do líder da CGTP, Arménio Carlos, dei comigo a pensar que quando um dirigente sindical aparece a pedir eleições, não está a fazer reivindicações, está a fazer política, necessariamente partidária. É nestes dias que vale a pena recordar as palavras de Oscar Wilde, ao sublinhar que “dever é o que esperamos dos outros, não o que nós mesmos fazemos”. Para terminar a conversa: uma semana depois do aviso, continuo à espera de ver como vai ser a prometida comunicação diária do Governo nestes tempos agitados. Terá feito greve?

 

SEMANADA - O Benfica tem 104 jogadores a contrato, o FC Porto tem 69 e o Sporting tem 62 - 235 jogadores apenas nestes três clubes;  o número de milionários em Portugal, usando o critério de património financeiro superior a um milhão de dólares, cresceu 3,4% no ano passado e é agora de 10.750 pessoas; 45 % das casaas do Algarve são residências secundárias; segundo o Banco de Portugal as empresas privadas e as famílias estão a conseguir reduzir a dívida, mas o estado continua a aumentá-la; a dívida pública, que no final de 2013 devia ser de 123%, já atingiu os 127%; o Secretário de Estado da Economia, Franquelim Alves, considerou que a “descida do IRC é um sinal crítico para a política económica” na captação de investimento; o Ministro das Finanças Vitor Gaspar disse na Assembleia da República que ainda não vê margem para poder baixar impostos”; a Secretária de Estado do Tesouro disse no Parlamento que o cancelamento de 69 contratos swaps não custou dinheiro aos contribuintes, embora provocasse uma perca de mil milhoes de euros, suportada pelo Estado; o negócio da construção prevê uma quebra de 15% neste ano.

 

ARCO DA VELHA - A colecta do IRS aumentou 30,6%, a do IRC apenas 8,2% e a de todos os outros impostos caíu 92% - e mesmo assim Vitor Gaspar diz-se satisfeito com a execução orçamental, feita à custa da cobranças mais simples.

VER - Lisboa vive um momento alto em matéria de exposições de fotografia. No Museu da Electricidade inaugurou “Pátria Querida”,  uma boa amostra do trabalho do espanhol Alberto Garcia-Alix, que se celebrizou a mostrar a movida madrilena. Se o que faz a fotografia é o modo de ver, a maneira de transmitir o que se observa, aqui o objectivo está bem conseguido. Na Gulbenkian, inseridas na programação “Próximo Futuro”, estão duas exposições imperdíveis - uma mostra dos Encontros de Fotografia de Mamako, que traça um retrato da África pós colonial, e “Present Tense”, uma mostra comissariada por António Pinto Ribeiro (o amentor do ciclo “Próximo Futuro”) e que desbrava caminhos contemporâneos da observação do espaço e das pessoas no continente africano. Finalmente, em “A Pequena Galeria” (24 de Julho nº 4C) está “De Maputo”, que agrupa fotografias de José Cabral e Luis Basto, com breves mas importantes evocações de Rogério Pereira e Moira Forjaz.

 

OUVIR- Lembram-se de Lloyd Cole? Com os Commotions conquistou fama graças a belas canções, intimistas q.b. Numa carreira a solo incerta, manteve a descrição e o seu novo disco, ironicamente intitulado “Standards”, não é um repositório de versões de lugares comuns, mas sim a tentativa de deixar para a memória do seu público algumas canções. A viver nos Estados Unidos desde há anos, o disco é marcado pelos sons do pop e rock americanos, mais do que pelo suave pop britânico que deu fama a lloyd Cole. Nõo é certamente por acaso que a única versão de canção alheia nestes “Standards” é “”California Earthquake”, de Cass Elliott, dos The Mamas & The Papas, um velho tema de 1968. Dos temas novos, que mostram como aos 52 anos ainda se consegue comabter o destino, destaco “Blue Like Mars”, “Women’s Studies”, “Opposites Day” e “No Truck”. A vasta legião de fãs de Cole em Portugal não ficará desiludida com este disco.

 

FOLHEAR - Qualidade de Vida em 2013, onde se pode encontrar?

Pois é, Costa, em ano de eleições Lisboa saíu da lista das 25 melhores cidades para viver elaborada pela “Monocle”. Eu, lisboeta, tenho pena. Aguentámos lá uns anos, mas não sobrevivemos ao mandato do Costa e do Sá Fernandes. Tenho muitoa pena de ver a minha cidade transforamada num fim de semana em cartaz publicitário de um hipermercado, como vai acontecer este sábado. Estas coisas pagam-se. Para o Continente é barato, para Lisboa, é caríssimo. A “Monocle” sublinha que uma boa cidade deve viver sete dias por semana, sem interrupções, para os seus habitantes. O que se vai passar sábado na Avenida  é uma interrupção da cidade. Além de uma foleirice, é um abuso. Rewsta-nos a satisfação de o Deli Delux ser referida como a sexta melhor loja de comida e bebida no “The Monocle Food And Entertaining Guide 2013”, com destaques para o vinho deo Porto da Taylor’s e para as conservas da Tricana. O City Survey da edição dupla de Verão, agora distribuída, é sobre o Rio de Janeiro. E, claro que me dói um pouco ver Madrid citada várias vezes e Lisboa assim esquecida. olhem, agradeçam ao Costa.

 

PROVAR - Onde é que uma cerveja moçambicana e a vista do casario de Lisboa, com o Tejo por pano de fundo combinam? A resposta é num belo terraço, perto do Castelo, no alto do antigo mercado do Chão do Loureiro, hoje um parque de estacionamento bem útil para se poder ir à zona da Costa do Castelo? Ali pode beber uma “laurentina” bem fresquinha”, mas também uma “dois MM”. No restaurante, que dispõe da mesma vista, tem uma boa selecção de vinhos - mas aceite a sugestão dos vinhos Casa da Ínsua, do Dão, que têm uma excelente relação qualidade-preço. Provou-se a galinha em caril com amendoim, o chacuti de vaca e o camarão à Laurentina e tudo merece elogios. O serviço, como diz voz amiga, é acima de simpático. O Zambeze está aberto todo o dia, alternando entre café, esplanada e restaurante, fica ao alto da Calçada do Marquês de Tancos e tem o telefone 218 877 056.

 

DIXIT - Procuro político honesto para votar - Cartaz em manifestação no Brasil

 

GOSTO- Os Moonspell e seus convidados são os escolhidos para, amanhã, sábado, encerrarem as Festas de Lisboa junto à Torre de Belém.

 

NÃO GOSTO - Já repararam que Antonio Costa protege o piquenicão e as hortas postiças do Continente, ao mesmo tempo que a Câmara arrasar hortas comunitárias?

BACK TO BASICS - Por mais interessante que a estratégia pareça, devemos sempre olhar para os resultados que proporciona - Sir Winston Churchill


(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Junho)

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publicado às 16:45

GOSTAM DA ARRUMAÇÃO FEITA EM LISBOA?

por falcao, em 01.09.09

 


(Publicado no diário «Metro» de 1 de Setembro)

 

No início desta colaboração com o «Metro» gostaria de deixar claro algumas circunstâncias: sou candidato à Presidência da Assembleia Municipal de Lisboa na lista proposta por Pedro Santana Lopes; não tenho partido, não sou republicano, acho que o Estado age com excessiva frequência contra os cidadãos e entendo que o fisco comete demasiados abusos para poder ser encarado como uma entidade séria e justa.

Dito isto, e como sempre achei que a música ajuda a entender as pessoas, devo declarar que a minha pessoalíssima banda sonora deste verão foi constituída pelos mais recentes discos de Ben Harper, Sonic Youth, Regina Spektor, Nouvelle Vague e Rokia Traoré. O australiano Peter Carey é o meu escritor favorito do momento e o próximo filme que hei-de ver é «Sacanas Sem Lei!» de Quentin Tarentino. Não gosto de usar gravata, tenho 55 anos, nasci e fui criado em Lisboa, gosto desta terra, gosto desta cidade, comovo-me cada vez que regresso e irrita-me que ela esteja a ser tão maltratada como ultimamente tem sido. Se pudesse, andava sempre de «Vespa». Pronto, está feito o meu retrato.

Estou na lista da coligação «Lisboa Com Sentido» porque acho mesmo que esta cidade precisa de levar uma volta. Prefiro um candidato que queira mudar e melhorar a cidade, a outro que apenas queira ter as coisas arrumadinhas. Sobretudo, quero um Presidente da Câmara que pense mais nos munícipes que nos interesses do Governo, alguém que se preocupe mais com Lisboa do que com o seu partido, que esteja interessado em conseguir repovoar a cidade, torná-la mais confortável e agradável para quem cá vive. Quero alguém que prefira uma política de recuperação a uma política de demolição, quero alguém que melhore o Terreiro do Paço e não que o transforme numa palhaçada, quero alguém que devolva o rio à cidade, em vez de o entregar às empresas de contentores.

Se estão contentes com o estado da cidade, a sua limpeza, o estado dos seus jardins e os buracos por todo o lado, já sabem que devem votar no arrumadinho. Eu espero que prefiram mudar.

 

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publicado às 15:59

VOTO SANTANA LOPES

por falcao, em 17.08.09

(Publicado no «i» de 15 de Agosto)


Começo por dizer que simpatizo com António Costa, mas acho que é daqueles políticos à antiga - bela retórica, práticas fracas, falta de decisão, resultados instáveis.

Por outro lado confesso-me sem partido há muitos anos e esclareço que trabalhei em diversas ocasiões com Pedro Santana Lopes – tivemos bons e maus momentos, mas o balanço é positivo e reconheço-lhe ser apaixonado pelas causas em que se mete, ter rasgo e visão e querer resultados.

Mas passemos a Lisboa e comecemos, sem receios, pela questão dos dinheiros. Quando António Costa chegou à Câmara Municipal de Lisboa, tudo somado, o passivo desta era de 1200 milhões de euros e, agora, é de 1700 milhões de euros. Ele não é mais poupado que os outros, nem melhor gestor. E, apesar deste aumento, fez menos obra. Tem tomado medidas erráticas como aconteceu no Terreiro do Paço e na Ribeira das Naus e não se opõe nem a imposições do Governo, nem a caprichos caros da sua equipa - como mostra o folclore da caríssima e, no fundo, inútil plantação de girassóis em Campolide, só para satisfazer uma mania de Sá Fernandes, o mesmo que deixa os jardins degradarem-se. Por exemplo, não teria sido melhor usar esse dinheiro na manutenção dos cemitérios, vergonhosamente degradados?

Comparemos algumas coisas: o que tem maior impacto na qualidade de vida da cidade? - A recuperação de Monsanto, que Santana Lopes fez, a sua política de recuperação urbana, o túnel do Marquês, ou as duvidosas e caríssimas ciclovias de Costa?

Depois de ter visto a sua equipa inicial desagregar-se, a nova lista de candidatos de Costa é um arranjo de conveniência em que vários protagonistas pensam coisas bem diferentes sobre aspectos decisivos do governo de uma cidade – uma garantia de paralisia certa. António Costa parece um Presidente ausente, que aparenta assumir o cargo com sacrifício e pouco entusiasmo, talvez porque a sua ambição não esteja na cidade e sim no evoluir da situação do PS e no que se passará se Sócrates sair de cena.

Pedro Santana Lopes está focado em Lisboa, vai preocupar-se com as questões que têm a ver com a qualidade de vida na capital: garantir uma cidade mais limpa (Lisboa está sujíssima), maior atenção ao trânsito e estacionamento, mas, também, maior atenção às políticas sociais que quase desapareceram com António Costa (veja-se o aumento dos sem- abrigo), e à optimização da conjugação entre a política cultural local e nacional, de forma articulada com a promoção turística de Lisboa.

Governar Lisboa é ter as pessoas em conta, combater interesses estabelecidos, bater o pé ao poder central, tornar a vida fácil a quem cá vive, conseguir trazer mais moradores para a cidade e não penalizar quem aqui paga impostos. Comparando o exercício dos mandatos, Santana Lopes fará melhor trabalho.

 

 

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publicado às 22:21

IMPOSTOS – Há uns meses recebi a indicação de que o fisco tinha a intenção de me penhorar por uma pequena dívida atrasada; feito o pagamento, julguei que estaria tudo resolvido. Pois esta semana a Directora Financeira da empresa onde trabalho veio dizer-me, com um ar um pouco pesaroso, que tinha recebido uma notificação do fisco para me penhorar o salário por dívidas fiscais que, verifiquei depois, eram daquela verba que já estava paga – fui conferir, o número do processo era o mesmo, a quantia era a mesma, tinha o comprovativo do pagamento, no site das Finanças o Fisco assegura-me que eu não lhe devo nada – mas mesmo assim há alguém na máquina fiscal que me quer penhorar o ordenado por algo que já está pago. Como há-de uma pessoa gostar deste Estado malfeitor ou acreditar na eficiência dos serviços? 

 


 


ROSETA – Helena Roseta decidiu deixar de continuar independente, e voltou a estar numa lista do PS. Já é público que, mais do que questões de princípio, o que Helena Roseta pretendeu garantir foram questões de poder – lugares e posicionamento nas listas, competências eventualmente a assumir. É legítimo verificar que o eventual apoio dela a António Costa não foi desinteressado, movido por um desejo de eventualmente contribuir para o resultado eleitoral, mas apenas para garantir a sua sobrevivência política dando-lhe palco e notoriedade. A notoriedade está conseguida com o segundo lugar da lista – é uma vitória para Roseta e uma considerável derrota para Manuel Salgado, sinal de alguma desagregação entre o núcleo duro de António Costa. É sempre difícil avaliar num cenário de compromissos eleitorais como reagirá o eleitorado que anteriormente votou, na prática, contra os partidos, acreditando então na bondade da ideia da independência que agora se desmorona. Será curioso ver qual a mais valia real que Roseta traz a Costa – até porque quando a campanha começar há-de ser natural que se recorde como a experiência dela enquanto Presidente da Câmara de Cascais foi um enorme falhanço. Na realidade, em matéria autárquica, estes dois anos de Lisboa incluídos, o currículo de Helena Roseta está longe de ser uma mais valia. 

 


 


ASAE – Agora que a inconstitucionalidade da ASAE está cada vez mais a ser posta em causa conviria ver se o mesmo não se passa por exemplo em relação aos poderes atribuídos à EMEL, essa vergonha de Lisboa, da responsabilidade de vários executivos camarários. Além das dúvidas sobre a legalidade de actuação da EMEL, o seu relacionamento com os munícipes e a forma como responde a reclamações é um exemplo de más práticas e de prepotência. Pôr a EMEL na ordem devia ser uma prioridade para quem quer que ganhe as próximas eleições.


 


REPÚBLICA – Continuo sem perceber porque é que as comemorações do centenário da implantação da República são o pretexto para algumas das malfeitorias que se querem fazer em Lisboa, a começar pelo Terreiro do Paço. Por mais que me esforce não vejo porque se quer apressar tudo para celebrar um século de um regime que, em mais de metade do tempo, foi preenchido por ditaduras e autoritarismos diversos, e que, no geral, tem como cartão de visita o agravar da corrupção. 

 


 


LER – Já muita gente falou disto, mas o novo livro de José Eduardo Agualusa merece elogios – na forma, na história e no conteúdo. A proposta é uma aventura passada numa Luanda situada no futuro, num país onde os interesses do Estado se confundem com interesses particulares, no meio de arranha-céus desertificados, com estrelas pop pelo meio e tráficos diversos por pano de fundo. Em conversa, recente, Fernando Sobral dizia-me que o livro tinha pontos que fazia pensar um «Blade Runner» passado em Luanda, e tem razão na analogia. Mas a escrita compassada de Agualusa ultrapassa esse enquadramento e faz um retrato do que é Angola, falando no futuro mas fazendo-nos constantemente pensar no presente. Essa dualidade, entre os tempos da acção e a realidade da nossa percepção, é um dos encantos maiores de um livro que confirma o autor como um dos grandes escritores da língua portuguesa. (Edição Dom Quixote, 342 páginas). 

 


 


VER – Aqui há uns anos, quando dirigi o canal 2: na RTP, cheguei a seguir uma proposta de um documentário sobre o papel precursor dos portugueses na globalização. A proposta era de um historiador inglês e baseava-se em investigações e ensaios universitários, então recentes. Não havia orçamento, a produção não avançou. Não é por isso de estranhar que a ideia da exposição «Encompassing The Globe – Portugal e o Mundo nos séculos XVI e XVII» tenha partido de um norte-americano, Jay Levinson, que criou o conceito da exposição e a concretizou no Smithsonian, em Washington. Desenganem-se pois os que julgam que a exposição foi criada por iniciativa portuguesa – nada disso é verdade; mas é verdade que o facto de investigadores internacionais se preocuparem mais com a nossa história e património que nós próprios é uma prova de que, na realidade, tivemos um papel globalizante em determinada altura da História. Dito isto ainda bem que a exposição veio a Portugal, embora em versão mais reduzida que a original, ficando no Museu Nacional de Arte Antiga até 11 de Outubro. 

 


 


OUVIR – Nestas tardes de Verão, quando se chega a casa, enquanto o sol se põe, proponho que ouçam o novo disco dos Nouvelle Vague, «NV3», o terceiro álbum desta banda de origem francesa que foi buscar o seu nome ao universo do cinema francês dos anos 60. Filmes à parte os Nouvelle Vague têm no seu repertório temas marcantes como «This Is Not A Love Song» e uma série de versões de temas bem conhecidos dos Dead Kennedys, Billy Idol, Clash, Bauhaus ou Depeche Mode (com quem eram supostos ter partilhado o palco do Super Bock- Super Rock no Porto). No novo álbum surgem participações de Martin Gore dos Depeche Mode, de Ian McCulloch dos Echo And The Bunnymen e Terry Hall dos Specials. No disco, para além de vários originais, há versões envolventes de temas como «Master And Servant», «Road To Nowhere», «Parade» ou «Our Lips Are Sealed», entre outros. Em comparação com os anteriores o ambiente é, digamos, menos bossa nova e mais rock, por vezes com clara inspiração na «country» norte-americana. Não torçam o nariz, o disco vale a pena mesmo. 

 


 


BACK TO BASICS -   O objecto principal da política é criar a amizade entre membros da cidade - Aristóteles 

 

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publicado às 17:31

UMA CIDADE PERDULÁRIA

por falcao, em 07.07.09

 


(Publicado no diário Meia Hora de 7 de Julho)

 

Desde há 43 anos o festival de jazz de Montreux, na Suíça, é um marco incontornável do mês de Julho – nas quase duas semanas em que decorre atrai à cidade cerca de 200.000 visitantes. Ao longo dos anos o Festival abriu-se a outras músicas para além do jazz e teve, nomeadamente, uma enorme importância no reconhecimento de uma geração de músicos brasileiros na Europa. Montreux conseguiu, com o Festival, que uma cidade Suíça, antes conhecida apenas pelo seu lago e pelo casino, se tornasse numa das capitais da música do Verão Europeu – e a organização criou receitas com gravações, discos e programas de televisão. É uma operação exemplar.

Em tempos sonhei que Lisboa podia ter, se houvesse persistência e apoio, uma iniciativa que, com o tempo, fosse semelhante. Aquilo que eu defendia que se fizesse, e que ainda aconteceu curtos anos, era a criação de um Festival, em Lisboa, que fosse o pólo de divulgação e cruzamento da música de África com a Europeia e de outros continentes, e que, ao longo dos anos permitisse afirmar Lisboa como uma verdadeira plataforma multicultural. A estratégia era basear numa primeira fase a actividade no cruzamento com a música dos países lusófonos de África com a portuguesa, utilizando o palco da música (em Monsanto, na época reabilitado) e desenvolvendo complementarmente iniciativas no campo das artes plásticas, literatura e cinema, entre outras. Foi assim que nasceu o Afrika Festival.

Infelizmente a experiência demorou demasiado pouco tempo e a actual Câmara Municipal de Lisboa acabou com o palco da música e manteve apenas as actividades complementares, o que destruíu completamente a ideia existente. Resta sublinhar que nos anos em que o Afrika Festival se manteve, as citações sobre Lisboa na imprensa internacional ultrapassaram as de outros Festivais musicais cá realizados.

O caso infelizmente não é único : vale a pena dizer que o que aconteceu, a outro nível, com a extinção da Lisboa Photo teve exactamente os mesmos efeitos – só que Sérgio Mah, o Comissário da iniciativa, acabou por ver o seu talento reconhecido em Madrid, que o convidou para dirigir o Photo España.

Estas duas iniciativas – Afrika Festival e Lisboa Photo – podiam ser alicerces para a imagem de Lisboa, enquanto cidade aberta à modernidade e ao encontro entre culturas. Nem vou referir que, a médio prazo, o retorno do investimento, em capacidade de atracção turística, seria interessante. Mas registo que foi esta Câmara que acabou com estes projectos, que tinham público e notoriedade. É o que se chama uma política perdulária, a que nem as operações cosméticas de «cartas estratégicas» feitas por encomenda eleitoral chegam para dar qualquer sentido ou consistência. 

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publicado às 10:50

COSTA - A campanha eleitoral de António Costa já começou, com uns cartazes que dizem «Arrumámos, a Casa». O meu palpite é que eles devem ser dirigidos para quem vive fora de Lisboa e está de passagem na Capital – é que quem cá vive fica com os cabelos em pé com estes dois anos de Costa – ruas mais sujas, cidade mais esburacada, trânsito ainda mais caótico. Na verdade o mandato de Costa é feito de desarrumação, a cidade está pior e não há obra feita nem rasto de inovação. Até na relação com o Governo a Capital está a perder – vejam-se as tropelias feitas na zona ribeirinha. António Costa na Câmara pode servir bem os interesses do Governo, mas é seguro que tem feito muito pouco por Lisboa. 

 


 


ASAE - Depois de meses de acalmia a ASAE voltou a fazer das suas, desta feita em Serralves. O motivo foi a apreensão de jóias de novos desenhadores, que estavam expostas na loja do museu – as jóias, de prata não tinham o contraste de Lei e a apreensão terá sido feita por denúncia. Independentemente da questão do contraste, a verdade é que tudo isto se baseia numa Lei com décadas, em grande parte hoje em dia contrária ao Direito Comunitário, e que proíbe a venda de jóias ou peças de metais preciosos, mesmo contrastadas, fora de ourivesarias. É por isso que algumas lojas de grandes marcas internacionais não podem vender nas suas lojas peças contrastadas, de ouro ou prata, mesmo que inteiramente legais e é por isso que elas são seladas pela ASAE – que depois demora infindáveis meses a resolver o processo, criando grandes prejuízos. Mas como se sabe a missão da ASAE é criar dificuldades e prejuízos em diversas áreas da actividade económica – a novidade é que agora invadiu a esfera das artes e da criatividade (esta ida à Fundação do Porto foi a segunda num espaço de pouco tempo já que os diligentes agentes da ASAE andaram por lá no dia da Festa anual de Serralves a ver se se fumava ….). O exagero tira a razão – e a falta de bom senso é o grande pecado da ASAE. 

 


 


LER – A edição de Julho/Agosto da revista internacional «Monocle» devia ser lida por todos os candidatos autárquicos de grandes e médias cidades. É o número anual que faz o ponto de situação dos locais com melhor qualidade de vida, ordena as cidades com base nesse critério e tem uma série de artigos, opiniões e sugestões de especialistas de diversas áreas, do urbanismo ao comércio e indústria, passando pela música ou a animação de rua. No índex anual das 25 melhores cidades para viver Lisboa caíu para a última posição, o que não é estranho se percebermos como a cidade tem ficado mais caótica nestes últimos tempos. Ao longo das páginas descobrem-se evidências há muito esquecidas em Portugal – a importância do comércio de rua, de as cidades acolherem pequenas indústrias, artesanatos, de privilegiarem a recuperação em vez da nova construção, de dignificarem e aproveitarem os espaços ao ar livre. Todo um programa de bom senso. 

 


 


 


OUVIR – Bem Harper faz quarenta anos em Outubro próximo e este seu novo disco, «White Lies For Dark Times» é o seu trabalho mais maduro, surpreendente e conseguido – e absolutamente nada chato. Com uma enorme influência dos blues, apresentando em  estreia a banda texana Relentless 7 ao lado de Harper, a produção garante sólidas e frescas sonoridades. Na realidade este é um Ben Harper para quem gosta de rock, nalguns momentos com citações que parecem pescadas de Jimi Hendrix ou de Neil Young, um disco bem ritmado, a fugir a alguma monotonia demasiado presente em outros trabalhos recentes do cantor. Mas além das influências bluesy, aqui também se percebe como Ben Harper gosta de se inspirar na folk music ou no funk. Um discão. 

 


 


IR – O Estoril Jazz 2009 termina este fim de semana. Hoje, sexta dia 3, é a vez do quarteto do saxofonista David Murray; amanhã, sábado dia 4, a homenagem a Charly Mingus pelo septeto Mingus Dinasty; e  Domingo, dia 5, toca o quinteto do contrabaixista Christian McBride – sexta e sábado às 21h30, Domingo às 19h00, sempre no Centro de Congressos do Estoril, no Festival que regularmente proporciona alguns dos melhores concertos de jazz que por cá se podem ver ao longo do ano. 

 


 


DESCOBRIR – O Douro é certamente das regiões de Portugal onde vale a pena voltar sempre. Nos últimos anos as transformações, para melhor, são grandes – desde as grandes vinhas até aos museus locais, passando pela recuperação dos passeios de barco e, sobretudo por uma oferta de hotelaria e restauração que colocam a zona, em termos de qualidade, entre as melhores do país. Vem isto a propósito daquele que hoje em dia é certamente um dos melhores restaurantes de Portugal, quer em termos de espaço, quer de serviço, quer de qualidade e confecção da comida. Trata-se do DOC, situado precisamente no Douro, a meio caminho entre a Régua e o Pinhão, precisamente em Folgosa. Comecemos pelo local – construído em cima do rio, num edifício concebido para o efeito, com uma esplanada fabulosa, uma sala espaçosa, boas mesas, confortáveis cadeiras, um ecrã que mostra o que se passa dentro da cozinha. Depois, o serviço – eficaz, simpático, atento, bom conhecimento da carta, conselhos acertados e não especulativos sobre vinhos. Finalmente a comida – múltiplas escolhas, comida de inspiração regional com um toque de frescura, muito boa qualidade dos produtos, confecção absolutamente impecável, quer nos peixes, quer nas carnes. Destaques, nas entradas, para as chamuças de moura e de alheira, nos peixes para os milhos de moluscos com algas do mar e rodovalho e o cherne com ratatouille de legumes, e nas carnes para as propostas de porco bísaro, cordeiro e cabritinho. Há a possibilidade de Menu Degustação. A responsabilidade de tudo correr assim é do proprietário e Chefe, Rui Paula, que trabalhou alguns anos em Londres e que tem um belo livro editado, «Uma Cozinha no Douro». O preço é alto, mas aceitável para a qualidade. É uma pena que em Lisboa, numa cidade á beira de um rio, não exista um restaurante assim, quer em conforto, quer em qaulidade. Uma experiência absolutamente a reter. Podem antever o DOC em www.restaurantedoc.com , reservas (absolutamente indispensáveis) para o telefone 254 858 123 ou 919 314 395. 

 


 


PROVAR – Bebida do verão, a meio da tarde – um Nespresso Lungo em copo largo, com três pedras de gelo. Delicioso. 

 


 


BACK TO BASICS -   Homens de bom senso aprendem sempre alguma coisa com os seus inimigos – Aristófanes. 

 

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publicado às 10:48

COSTA CONTRA OS ALFACINHAS

por falcao, em 04.02.09

 


(Publicado no diário Meia Hora de dia 3 de Fevereiro)

 

O PS e o Bloco de Esquerda pretendem fazer alterações significativas no trânsito na zona da Baixa e na zona ribeirinha de Lisboa. Os argumentos são os do costume: devolver a cidade aos peões, tentar criar faixas para bicicletas, demagogia barata para consumo eleiçoeiro – como se as cidade contemporâneas não convivessem com os automóveis.

Fernando Nunes da Silva, um Professor do Instituto Superior Técnico, já veio alertar para o facto de os desvios previstos irem provocar engarrafamentos consideráveis noutros locais – nomeadamente no Chiado – aumentando a circulação, a poluição e diminuindo a qualidade de vida nessas zonas que agora irão ser castigadas.

Os comerciantes que ainda sobrevivem na Baixa lisboeta alertam para o facto de as limitações propostas irem ameaçar ainda mais o já reduzido movimento comercial, alertando para a possibilidade de muitos estabelecimentos comerciais terem que encerrar, criando assim mais desemprego e desertificando ainda mais a Baixa.

Olhando com atenção para as soluções apresentadas salta logo à vista que o movimento entre a zona de Alcântara e a zona da Expo ficaria fortemente condicionado – paradoxal depois do investimento realizado na recuperação daquela área. A este nível este plano é quase uma segregação da Expo, relegada para arrabalde com penalizações de entrada no centro da cidade. Não deixa de ser curioso que um dos autores do estudo agora apresentado seja um dos responsáveis pela planificação (má, como hoje já se percebeu) da Expo – o vereador Manuel Salgado - «um poeta que vive numa auréola de esquerda, sendo um homem de direita», nas acertadas palavras do Presidente do Automóvel Clube de Portugal, Carlos Barbosa.

E é ainda Carlos Barbosa quem recorda, a propósito deste plano, apresentado por António Costa, que o actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi «o pior Ministro (da Administração Interna) no que diz respeito à mobilidade e a tudo o que tem a ver com a segurança rodoviária».

As medidas agora previstas, a serem tomadas, prejudicarão sobretudo os lisboetas que vivem e trabalham dentro da cidade, os mesmos que este ano serão chamados a eleições para uma Câmara Municipal que lhes suga dinheiro em taxas e impostos, que usa a EMEL como arma terrorista e os castiga por quererem continuar a viver nesta cidade. Eu gostava de continuar a viver numa cidade que me quer, em vez de uma que me persegue.

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publicado às 10:20


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