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ABSTENÇÃO, ELEIÇÕES & LIBERDADE

por falcao, em 21.07.17

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ABSTENÇÃO - A pré-campanha das autárquicas está a ser um retrato do estado da nação. Em Lisboa a candidata do PSD fez um cartaz que só pode ser interpretado como um pedido de um cheque em branco; também em Lisboa a Câmara está a ser investigada por autorizações urbanísticas dadas por Manuel Salgado e Medina já se confessa desistente de manter a maioria absoluta; em Loures o candidato da coligação CDS - PSD fez afirmações polémicas sobre os ciganos e afirmava-se tranquilo sobre o apoio dos partidos que o indicaram - mas o CDS saíu da coligação, ficou o PSD sozinho com a polémica; no Porto, Manuel Pizarro, o iô-iô autárquico local do PS, faz promessas mirabolantes esbracejando pelas ruas, numa passeata ao lado de um António Costa tranquilo. A procissão eleitoral ainda vai no adro, mas percorrer as rotundas de cidades e vilas já proporciona um catálogo de tesourinhos deprimentes que parecem todos saídos de cartazes de uma empresa imobiliária, cada um com um slogan e promessas de bradar aos céus. Não admira que, como diz Manuel Villaverde Cabral, apesar “da enxurrada de demagogia feita à volta do chamado «poder local», a abstenção eleitoral tem sido mais alta ainda nas autárquicas do que nas legislativas”. Nas autárquicas de 2013 a abstenção foi de 47,4%, nas legislativas de 2015 foi de 44%, número apenas ultrapassado pelas presidenciais de 2016, com 51,3% de abstenção. Citando ainda Villaverde Cabral, “há muito tempo que Portugal se tornou no país da abstenção como o maior partido”. Este ano o cenário poderá ser ainda pior. Vai sendo tempo de o Presidente, os partidos e os autarcas tirarem lições de tudo isto - mas tal parece cada vez mais fora dos seus interesses e prioridades. O mesmo é dizer que a opinião dos cidadãos só interessa quando lhes dá jeito.

 

SEMANADA - As salas de cinema registaram mais de 7,9 milhões de espectadores no primeiro semestre, mais um milhão que no mesmo período do ano passado; “Velocidade Furiosa 8” foi o filme recordista com 786 mil espectadores e “Jacinta” foi o filme português mais visto, com 45 mil espectadores; Matosinhos é o concelho do país no qual as salas de cinema têm maior média de espectadores por sessão; desde 2011 têm sido desligadas 280 máquinas de multibanco por ano e entre 2011 e 2016 fecharam 1620 balcões de bancos; no segundo trimestre deste ano as compras realizadas com cartões de débito ou de crédito totalizaram mais mil milhões de euros que em igual período do ano passado; este ano o Turismo criou tanto emprego em Abril como em todo o ano passado; o SIRESP voltou a falhar no incêndio de Alijó; no espaço de um ano Portugal perdeu um terço dos bombeiros; o Governo deu instruções para que os comandantes dos bombeiros deixem de dar informações à imprensa; a administração central não divulga 85% das compras de produtos ou serviços que efectua, e o ajuste directo continua a ser principal opção de aquisição; os gastos do Estado com as parcerias público-privadas aumentaram 39 milhões de euros num ano; o conjunto de gastos com veículos automóveis, desde a compra à manutenção, passando pelos combustíveis, rende ao estado 23 milhões de euros por dia em impostos; na última década as famílias portuguesas cortaram em restaurantes, hotéis, cultura e lazer para equilibrar as subidas verificadas na habitação, luz, gás, água e ensino; o orçamento familiar é 232 euros mais caro em Lisboa que a média nacional.

 

ARCO DA VELHA - O fabrico de petardos cada vez mais pequenos, com poucos centímetros, tem permitido que cada vez mais adeptas dos principais clubes entrem com esses artefactos explosivos escondidos nas partes íntimas.

 

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FOLHEAR - Tenho seguido a existência da revista Elsewhere desde o seu número um, no primeiro semestre de 2015. Durante dois anos a Elsewhere publicou semestralmente, a partir de uma operação de crowdfunding que lhe deu vida durante essas primeiras quatro edições. O formato é 16x23, 82 páginas. Os textos são relativamente curtos, tem existido pelo menos um portfolio fotográfico por número e muitos dos artigos de viagem são acompanhados de magníficas ilustrações em desenho feitas expressamente para a ocasião. A Elsewhere nasceu em Berlim pela mão de Paul Scraton e Julia Stone, que são responsáveis por vários textos publicados ao longo da vida da revista . É assumidamente uma actividade extra em relação às actividades profissionais que ambos desenvolvem. A Elsewhere intitula-se “ A Journal of Place” - não é uma publicação sobre viagens no conceito habitual, é mais uma evocação de sentimentos e sensações que os lugares visitados deixam nos visitantes. Não esperem reportagens,  vão encontrar impressões. Nas primeiras quatro edições não havia um tema fixo orientador, a diversidade de  locais, como a Madeira, no número 4, era o lema. A partir deste número 5, que agora foi publicado, no início de Julho, passa a existir um tema por edição, e o primeiro é “Transition”. “A transição tem a ver com o movimento, com a natureza da viagem, e assim sendo com o conceito de casa, de origem e de identidade. De certa forma estes sempre foram os temas da Elsewhere e, de alguma maneira,  a ideia da transição moldou, pelo menos em parte, a revista desde o seu início” - escrevem Paul Scraton e Julia Stone no editoral. Locais: São Francisco, Cáceres, Tblisi, Melbourne, e Irlanda, entre outros. O ensaio fotográfico é sobre as ilhas Faroe. Se quiser saber mais consulte o blog, que é actualizado regularmente - www.elsewhere-journal.com/blog/

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VER - Até 15 de Setembro pode ver na Biblioteca Nacional uma deliciosa exposição intitulada “Jazz em Portugal: 100 anos de txim, txim, txim, pó,pó,pó,pó”, comissariada por João Moreira dos Santos, autor de sete livros sobre a história deste género musical em terras lusas. Os primeiros ecos de jazz terão chegado em 1916/17 e ganharam adeptos como Ferreira de Castro, Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Cottinelli Telmo, António Ferro, António Lopes Ribeiro e Fernando Curado Ribeiro. A imagem que aqui se reproduz evoca a primeira jam session pública de que há registo, realizada em Lisboa, em 1948 no Café Chave de Ouro. São exibidas várias fotografias inéditas (como a de Duke Ellington com Eusébio), exemplos da presença do jazz nas bandas sonoras de filmes portugueses dos anos 20 e 30, o primeiro disco de jazz gravado por músicos portugueses em 1957, entre muitos outros documentos como capas de revistas e publicações diversas. Imperdível. Outras sugestões: no Palácio Pimenta, e no âmbito da programação de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017, estão expostas máscaras e devoções mexicanas aob a designação “Do Carnaval À Luta Livre”; na Fundação Carmona e Costa, até 29 de Julho, ainda pode ver “Missão Fria”, de Pedro Casqueiro (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1, 6º); e a sul, no Centro Cultural de Lagos, de dia 22 até meados de Outubro, Sofia Areal expõe pintura, desenho, obra gráfica e tapeçarias.

 

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OUVIR - Quatro músicos de jazz, Jack DeJohnette (bateria), Larry Grenadier (baixo), John Medeski (teclas) e John Scofield (guitarra), juntaram-se para prestarem homenagem a uma paixão comum - o rock dos anos 60. Vai daí criaram o projecto Hudson, agora editado. O álbum inclui dois temas de Dylan (“Lay Lady Lay” e uma versão de nove minutos, fantástica, de “A Hard Rain’s Gonna Fall”), “Woodstock” de Joni Mitchell, “Wait Until Tomorrow” de Jimi Hendrix, “Up On Cripple Creek” de The Band e ainda diversos originais dos membros do grupo. O álbum arranca com “Hudson”, um original de 12 minutos de John Scofield, que faz lembrar a época de “Bitches Brew”, de Miles Davis - não por acaso Scofield integrou o grupo de Davis nessa época, o que também se nota no outro tema que assina, “Tony, Then Jack”. “Dirty Ground” é um tema de Jack DeJohnette, onde o baterista também canta num registo de blues. O que é mais curioso neste disco é a forma como quatro nomes do jazz, de diferentes gerações, se cruzam em torno da evocação de canções que se tornaram standards da música dos anos 60 e, nas composições próprias que apresentam, acabam por reflectir o espírito da época, como por exemplo em  “Song for World Forgiveness” e “Great Spirit Peace Chant”. Mas de facto o momento alto é mesmo a versão de “A Hard Rain’s Gonna Fall”, captando o espírito com que Dylan compôs e interpretou a canção, desafiando a noção clássica de canção e de ritmo.  Álbum disponível no Spotify.



PROVAR -   A espelta, também conhecida por trigo vermelho, é um cereal que durante anos caíu em desuso, mas a sua utilização cresceu nos últimos anos ligada às investigações sobre uma alimentação saudável. A espelta é rica em fibras e vitaminas do complexo de B e tem a presença de diversos minerais como cobre, magnésio, fósforo e, principalmente, ferro. É também conhecida por seu alto teor de proteínas. Além disso, por possuir pouca quantidade de glúten, o grão é de mais fácil digestão. Normalmente utilizo o pão de espelta fabricado pela Miolo, mas há pouco tempo descobri numa loja Celeiro o pão de espelta integral elaborado pela Pachamama (nome que evoca uma deusa Inca), num processo de fermentação lenta durante 24 horas e que, além da farinha leva apenas água filtrada e sal marinho. É mais leve que o da Miolo (que é mais denso), e igualmente saboroso - aparentemente o processo de fermentação lenta torna o pão mais digestivo e com menor indíce glicémico. Além da espelta integral simples existem as variedades com curcuma e pimenta preta, centeio integral, trigo duro e centeio integral.  

 

DIXIT -  “A direita tem um problema de liderança, de caras, de quadros, de ausência de ideias, de estratégia” - Nuno Garoupa.

 

GOSTO - Rita Red Shoes fez uma magnífica actuação ao vivo na abertura do EDP cooljazz, com uma banda e arranjos surpreendentes, até num clássico de Nina Simone.

 

NÃO GOSTO - Winnie the Pooh, o urso amarelo da banda desenhada, foi banido da internet chinesa por se parecer com o Presidente XiJinping.

 

BACK TO BASICS - “A liberdade é o direito de dizermos às pessoas aquilo que elas não querem ouvir” - George Orwell

 

 

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publicado às 13:31

ABSTENÇÃO, ELEIÇÕES & LIBERDADE

por falcao, em 21.07.17

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ABSTENÇÃO - A pré-campanha das autárquicas está a ser um retrato do estado da nação. Em Lisboa a candidata do PSD fez um cartaz que só pode ser interpretado como um pedido de um cheque em branco; também em Lisboa a Câmara está a ser investigada por autorizações urbanísticas dadas por Manuel Salgado e Medina já se confessa desistente de manter a maioria absoluta; em Loures o candidato da coligação CDS - PSD fez afirmações polémicas sobre os ciganos e afirmava-se tranquilo sobre o apoio dos partidos que o indicaram - mas o CDS saíu da coligação, ficou o PSD sozinho com a polémica; no Porto, Manuel Pizarro, o iô-iô autárquico local do PS, faz promessas mirabolantes esbracejando pelas ruas, numa passeata ao lado de um António Costa tranquilo. A procissão eleitoral ainda vai no adro, mas percorrer as rotundas de cidades e vilas já proporciona um catálogo de tesourinhos deprimentes que parecem todos saídos de cartazes de uma empresa imobiliária, cada um com um slogan e promessas de bradar aos céus. Não admira que, como diz Manuel Villaverde Cabral, apesar “da enxurrada de demagogia feita à volta do chamado «poder local», a abstenção eleitoral tem sido mais alta ainda nas autárquicas do que nas legislativas”. Nas autárquicas de 2013 a abstenção foi de 47,4%, nas legislativas de 2015 foi de 44%, número apenas ultrapassado pelas presidenciais de 2016, com 51,3% de abstenção. Citando ainda Villaverde Cabral, “há muito tempo que Portugal se tornou no país da abstenção como o maior partido”. Este ano o cenário poderá ser ainda pior. Vai sendo tempo de o Presidente, os partidos e os autarcas tirarem lições de tudo isto - mas tal parece cada vez mais fora dos seus interesses e prioridades. O mesmo é dizer que a opinião dos cidadãos só interessa quando lhes dá jeito.

 

SEMANADA - As salas de cinema registaram mais de 7,9 milhões de espectadores no primeiro semestre, mais um milhão que no mesmo período do ano passado; “Velocidade Furiosa 8” foi o filme recordista com 786 mil espectadores e “Jacinta” foi o filme português mais visto, com 45 mil espectadores; Matosinhos é o concelho do país no qual as salas de cinema têm maior média de espectadores por sessão; desde 2011 têm sido desligadas 280 máquinas de multibanco por ano e entre 2011 e 2016 fecharam 1620 balcões de bancos; no segundo trimestre deste ano as compras realizadas com cartões de débito ou de crédito totalizaram mais mil milhões de euros que em igual período do ano passado; este ano o Turismo criou tanto emprego em Abril como em todo o ano passado; o SIRESP voltou a falhar no incêndio de Alijó; no espaço de um ano Portugal perdeu um terço dos bombeiros; o Governo deu instruções para que os comandantes dos bombeiros deixem de dar informações à imprensa; a administração central não divulga 85% das compras de produtos ou serviços que efectua, e o ajuste directo continua a ser principal opção de aquisição; os gastos do Estado com as parcerias público-privadas aumentaram 39 milhões de euros num ano; o conjunto de gastos com veículos automóveis, desde a compra à manutenção, passando pelos combustíveis, rende ao estado 23 milhões de euros por dia em impostos; na última década as famílias portuguesas cortaram em restaurantes, hotéis, cultura e lazer para equilibrar as subidas verificadas na habitação, luz, gás, água e ensino; o orçamento familiar é 232 euros mais caro em Lisboa que a média nacional.

 

ARCO DA VELHA - O fabrico de petardos cada vez mais pequenos, com poucos centímetros, tem permitido que cada vez mais adeptas dos principais clubes entrem com esses artefactos explosivos escondidos nas partes íntimas.

 

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FOLHEAR - Tenho seguido a existência da revista Elsewhere desde o seu número um, no primeiro semestre de 2015. Durante dois anos a Elsewhere publicou semestralmente, a partir de uma operação de crowdfunding que lhe deu vida durante essas primeiras quatro edições. O formato é 16x23, 82 páginas. Os textos são relativamente curtos, tem existido pelo menos um portfolio fotográfico por número e muitos dos artigos de viagem são acompanhados de magníficas ilustrações em desenho feitas expressamente para a ocasião. A Elsewhere nasceu em Berlim pela mão de Paul Scraton e Julia Stone, que são responsáveis por vários textos publicados ao longo da vida da revista . É assumidamente uma actividade extra em relação às actividades profissionais que ambos desenvolvem. A Elsewhere intitula-se “ A Journal of Place” - não é uma publicação sobre viagens no conceito habitual, é mais uma evocação de sentimentos e sensações que os lugares visitados deixam nos visitantes. Não esperem reportagens,  vão encontrar impressões. Nas primeiras quatro edições não havia um tema fixo orientador, a diversidade de  locais, como a Madeira, no número 4, era o lema. A partir deste número 5, que agora foi publicado, no início de Julho, passa a existir um tema por edição, e o primeiro é “Transition”. “A transição tem a ver com o movimento, com a natureza da viagem, e assim sendo com o conceito de casa, de origem e de identidade. De certa forma estes sempre foram os temas da Elsewhere e, de alguma maneira,  a ideia da transição moldou, pelo menos em parte, a revista desde o seu início” - escrevem Paul Scraton e Julia Stone no editoral. Locais: São Francisco, Cáceres, Tblisi, Melbourne, e Irlanda, entre outros. O ensaio fotográfico é sobre as ilhas Faroe. Se quiser saber mais consulte o blog, que é actualizado regularmente - www.elsewhere-journal.com/blog/

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VER - Até 15 de Setembro pode ver na Biblioteca Nacional uma deliciosa exposição intitulada “Jazz em Portugal: 100 anos de txim, txim, txim, pó,pó,pó,pó”, comissariada por João Moreira dos Santos, autor de sete livros sobre a história deste género musical em terras lusas. Os primeiros ecos de jazz terão chegado em 1916/17 e ganharam adeptos como Ferreira de Castro, Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Cottinelli Telmo, António Ferro, António Lopes Ribeiro e Fernando Curado Ribeiro. A imagem que aqui se reproduz evoca a primeira jam session pública de que há registo, realizada em Lisboa, em 1948 no Café Chave de Ouro. São exibidas várias fotografias inéditas (como a de Duke Ellington com Eusébio), exemplos da presença do jazz nas bandas sonoras de filmes portugueses dos anos 20 e 30, o primeiro disco de jazz gravado por músicos portugueses em 1957, entre muitos outros documentos como capas de revistas e publicações diversas. Imperdível. Outras sugestões: no Palácio Pimenta, e no âmbito da programação de Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017, estão expostas máscaras e devoções mexicanas aob a designação “Do Carnaval À Luta Livre”; na Fundação Carmona e Costa, até 29 de Julho, ainda pode ver “Missão Fria”, de Pedro Casqueiro (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1, 6º); e a sul, no Centro Cultural de Lagos, de dia 22 até meados de Outubro, Sofia Areal expõe pintura, desenho, obra gráfica e tapeçarias.

 

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OUVIR - Quatro músicos de jazz, Jack DeJohnette (bateria), Larry Grenadier (baixo), John Medeski (teclas) e John Scofield (guitarra), juntaram-se para prestarem homenagem a uma paixão comum - o rock dos anos 60. Vai daí criaram o projecto Hudson, agora editado. O álbum inclui dois temas de Dylan (“Lay Lady Lay” e uma versão de nove minutos, fantástica, de “A Hard Rain’s Gonna Fall”), “Woodstock” de Joni Mitchell, “Wait Until Tomorrow” de Jimi Hendrix, “Up On Cripple Creek” de The Band e ainda diversos originais dos membros do grupo. O álbum arranca com “Hudson”, um original de 12 minutos de John Scofield, que faz lembrar a época de “Bitches Brew”, de Miles Davis - não por acaso Scofield integrou o grupo de Davis nessa época, o que também se nota no outro tema que assina, “Tony, Then Jack”. “Dirty Ground” é um tema de Jack DeJohnette, onde o baterista também canta num registo de blues. O que é mais curioso neste disco é a forma como quatro nomes do jazz, de diferentes gerações, se cruzam em torno da evocação de canções que se tornaram standards da música dos anos 60 e, nas composições próprias que apresentam, acabam por reflectir o espírito da época, como por exemplo em  “Song for World Forgiveness” e “Great Spirit Peace Chant”. Mas de facto o momento alto é mesmo a versão de “A Hard Rain’s Gonna Fall”, captando o espírito com que Dylan compôs e interpretou a canção, desafiando a noção clássica de canção e de ritmo.  Álbum disponível no Spotify.



PROVAR -   A espelta, também conhecida por trigo vermelho, é um cereal que durante anos caíu em desuso, mas a sua utilização cresceu nos últimos anos ligada às investigações sobre uma alimentação saudável. A espelta é rica em fibras e vitaminas do complexo de B e tem a presença de diversos minerais como cobre, magnésio, fósforo e, principalmente, ferro. É também conhecida por seu alto teor de proteínas. Além disso, por possuir pouca quantidade de glúten, o grão é de mais fácil digestão. Normalmente utilizo o pão de espelta fabricado pela Miolo, mas há pouco tempo descobri numa loja Celeiro o pão de espelta integral elaborado pela Pachamama (nome que evoca uma deusa Inca), num processo de fermentação lenta durante 24 horas e que, além da farinha leva apenas água filtrada e sal marinho. É mais leve que o da Miolo (que é mais denso), e igualmente saboroso - aparentemente o processo de fermentação lenta torna o pão mais digestivo e com menor indíce glicémico. Além da espelta integral simples existem as variedades com curcuma e pimenta preta, centeio integral, trigo duro e centeio integral.  

 

DIXIT -  “A direita tem um problema de liderança, de caras, de quadros, de ausência de ideias, de estratégia” - Nuno Garoupa.

 

GOSTO - Rita Red Shoes fez uma magnífica actuação ao vivo na abertura do EDP cooljazz, com uma banda e arranjos surpreendentes, até num clássico de Nina Simone.

 

NÃO GOSTO - Winnie the Pooh, o urso amarelo da banda desenhada, foi banido da internet chinesa por se parecer com o Presidente XiJinping.

 

BACK TO BASICS - “A liberdade é o direito de dizermos às pessoas aquilo que elas não querem ouvir” - George Orwell

 

 

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publicado às 13:30

ISTO ANDA TUDO TAXADO

por falcao, em 14.10.16

CRESCIMENTOS - Nisto dos impostos não há santos - há gaspares, há centenos, muda o nome mas os aumentos continuam sempre. E porque continuam? Porque, por melhores que sejam as intenções do LABX e de Maria Manuel Leitão Marques, o Estado age como um parasita voraz que se alimenta do que está à sua volta. Não se reforma porque nenhum dos partidos da bipolarização, PS e PSD, tem coragem para diminuir os custos de uma máquina mastodôntica, tão numerosa que os votos dos seus funcionários são decisivos para quem quiser alcançar o poder. Com gastos e mais gastos a solução é cobrar mais e mais, cobrar sempre mais impostos, taxas, inventar todas as formas possíveis para captar mais receitas. De um lado do parlamento tapa-se o olho esquerdo na altura de governar, do outro tapa-se o olho direito. Daqui resulta um pingue-pongue de anulação de medidas na altura da alternância de poder, modificações cujos custos são igualmente penosos. O mais dramático de tudo é que este estado de coisas conduz a que, para disfarçar as contas, o Estado vai atrasando pagamentos, deixa faltar material nos hospitais, pessoas na educação e reparações e manutenção nos transportes. Quem governa o Estado com base no aumento da despesa - como acontece actualmente - está a ser o coveiro das áreas onde o Estado efectivamente faz falta. Estamos naquele momento triste em que em vez de discutir como fazer crescer a economia se discute como fazer crescer os impostos. Quando a coisa chega a este ponto é muito mau sinal.

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SEMANADA - O número de portugueses que lêem notícias em meios online já ultrapassa os cinco milhões; segundo o Bareme Internet, da Marktest, 94% dos internautas nacionais já usa a Internet para aceder a serviços de informação, havendo 90% que o faz para ler notícias, 75% para ver vídeos online e 30% para consultar blogues; um estudo da Anacom revela que apenas 17,6% das residências portuguesas utilizam em exclusivo a TDT para ver televisão; entre o último Censo (2011) e 2015 as estimativas do INE  apontam para uma diminuição de 220 848 indivíduos em Portugal; actualmente, 14.1% da população tem menos de 15 anos, 10.7% tem entre 15 e 24 anos, 54.5% tem entre 25 e 64 anos e 20.7% tem 65 ou mais anos; este grupo de população mais idosa foi também aquele que viu o seu peso aumentar mais nos últimos anos, passando de 13.6% em 1991 para os 20.7% agora registados, um acréscimo de 798 mil indivíduos nesta faixa etária; o número de eleitores registados em Lisboa caíu 11,5% entre 2002 e 2015; o PCP chamou a atenção do Ministro da tutela sobre o caos nos transportes de Lisboa e criticou “a acelerada degradação das empresas de transportes”; para memória futura: Câmara de Lisboa espera “um aumento da eficiência e da qualidade” do serviço depois da municipalização da Carris; no Parlamento o Ministro do Ambiente, Matos Fernandes, que tutela os transportes, falando sobre a  falha recente de fornecimento de bilhetes em Lisboa, disse que foi um “azar”.

 

ARCO DA VELHA - Por mais que custe a crer o novo livro de José Sócrates tem por título  “O Dom Profano - Considerações sobre o Carisma”. Deverá ser publicado no fim do mês.

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FOLHEAR - A “Elsewhere” é uma pequena publicação, editada duas vezes por ano, a partir de Berlim, que se insere na linha das novas revistas de nicho, com enorme cuidado gráfico e que partem de ideias editoriais invulgares. “Elsewhere, A Journal Of Place”, assim se chama a revista, apresenta-se como uma publicação “dedicada à escrita e às artes visuais que explora a ideia do lugar em todas as suas formas, quer sejam cidades, bairros, aldeias, ilhas, as comunidades que lá existem, o mundo como o vemos ou as paisagens que imaginamos” . Seria abusivo dizer-se que a Elsewhere é uma publicação de viagens - e acho mais correcto apresentá-la como um lugar onde se revelam as sensações que as descobertas realizadas em viagem nos proporcionam. Cada número tem um tema central - neste, o quarto volume, o tema é a cartografia. E, depois, há ideias sobre Londres, Praga, e pequenos locais na Moldávia, Austrália, Hawai, Gales e na nossa Madeira. - no caso os faróis da Madeira, a começar pelo da Ponta do Pargo. As ilustrações são o prato forte da parte gráfica, mas em cada número existe também um portfolio fotográfico. Se quiserem saber mais visitem www.elsewhere-journal.com .

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VER - Noé Sendas não esconde a influência do surrealismo nas suas obras, na concepção das fotografias que encena e manipula e, posteriormente, na forma como as expõe, não apenas numa apresentação, mas numa instalação que quer dialogar com o espaço e as pessoas que forem ver os seus trabalhos. Este cuidado colocado na conceptualização da exposição (na imagem) é muito patente em “Significant Others”, que está na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos, à Estrada da Luz). O próprio autor, em entrevista recente, sublinhou que “esta exposição não é uma exposição de fotografia, mas sim um Set,  um carrocel, uma instalação de pequenas esculturas 3D” . Nestes trabalhos é impossível não notar as referências a Man Ray. Nascido na Bélgica, com ligações a Portugal, e a viver preponderantemente em Berlim, Noé Sendas fotografa recorrentemente a sua própria imaginação e a imagem que idealiza dos corpos. Outras sugestões: no Museu Gulbenkian a exposição “Luanda, Los Angeles, Lisboa”, de um dos mais importantes artistas angolanos, e que tem um belíssimo catálogo; e na Chiado 8 mais uma apresentação de trabalhos da Colecção Cachola, desta vez obras de Rui Chafes e Carla Filipe.

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OUVIR - O mais recente trabalho de Rodrigo Leão é feito em parceria com o australiano Scott Matthew, chama-se “Life Is Long” e o resultado é muito bom. Matthew, que reside nos Estados Unidos, tem uma carreira começada em 2001, passou por várias bandas e em 2008 começou uma carreira a solo. As 13 canções do disco resultam de uma colaboração entre Rodrigo Leão, que compôs e tocou, e Scott Matthew, que escreveu as letras, desenhou as melodias e cantou. Os dois já tinham feito trabalhos em conjunto desde 2011, duas canções, e a voz grave, serena e melancólica de Scott Matthew parece feita como uma luva para as composições de Rodrigo Leão - o single “That’s Life” é uma boa prova disso mesmo. Rezam as lendas que era Scott ainda adolescente na sua Austrália quando lhe chegou às mãos uma cassette com o tema “O Pastor”, do álbum Existir, dos Madredeus, editado em 1992, e no qual participava ainda Rodrigo Leão. A canção ficou-lhe no ouvido embora não entendesse uma palavra. Muitos anos mais tarde, em 2006, Rodrigo Leão descobriu Matthew nas cinco canções que ele fez para a banda sonora do filme Shortbus, de John  Cameron Mitchell. Uns tempos mais tarde Rodrigo Leão enviou um mail a Matthew propondo-lhe uma colaboração e foi nessa altura que o australiano soube que “O Pastor” tinha tido a mão de Rodrigo Leão. Para encurtar - os dois entenderam-se bem e esta é a terceira vez que colaboram - só que agora é num álbum inteiro, projecto de que andaram a falar uns anos. Aqui estão 13 canções pop, com arranjos orquestrais, a maioria com uma sonoridade marcante e envolvente. Leão e Matthew em breve iniciarão uma digressão em Portugal e Espanha e, no próximo ano, em vários países europeus. Life Is Long, CD Universal/Uguru.

 

PROVAR -  Baseado em muitos conselhos fui conhecer um restaurante italiano lisboeta que entrou nas bocas do mundo neste Verão. Trata-se de L’Artusi, que se reivindica de uma nobre tradição culinária baseada nas 790 receitas compiladas por Pellegrino Artusi em “A Ciência na Cozinha e A Arte de Comer Bem”, publicado no final do século XIX. Ouvi dizer que a casa seguia e honrava o receituário, e lá fui.  Foi num sábado ao almoço, a esplanada quase vazia e, lá dentro, ninguém. Face à ausência de clientes há que reconhecer que o serviço foi impecável de simpatia e disponibilidade. Depois de aperitivar um branco, obviamente italiano, em muito bom estado, seguiu-se a incursão numa das pastas da casa, tidas como um ex-libris - pastas frescas cozinhadas na hora. Escolhi maltagliati com molho rústico, já que infelizmente nesse dia não havia o de anchovas. A massa estava cozida demais e uma pequena parte mostrava sinais de ter ficado agarrada ao tacho na cozedura; o molho estava insípido e nem o pesto que se poderia adicionar salvava o assunto. A salvação, que existiu, veio do vinho, recomendado pelo italiano que governava as operações, um tinto “Piccini”. Para sobremesa um gelado de amaretto, que estava bem. A rematar a casa ofereceu um licor digestivo caseiro, feito na tradição italiana. Resumo - serviço cinco estrelas, cozinha três estrelas, bebidas quatro estrelas. Rua do Mercatudo 4, a Santos, telefone 21 396 9368.

 

DIXIT -   ”Da mesma forma que muitos esquecem que as escolas servem para ensinar alunos e não para empregar professores, no caso dos táxis muitos esquecem-se que eles existem para transportar clientes e não para empregar taxistas” - João Miguel Tavares

 

BOB DYLAN E O NOBEL DE LITERATURA - Agora há-de vir aí muita teoria. Mas uma coisa é certa: desde os anos 60 para cá a poesia vive sobretudo na música popular, assim como o retrato escrito dos tempos que correm e das tensões que atravessam as sociedades.

 

GOSTO - Já começou a época das romãs e dos dióspiros.

 

NÃO GOSTO -  Já começou a época de novos impostos.

 

BACK TO BASICS - A força de um guerreiro não se encontra no ataque, mas sim na resistência - Guilherme Vanin

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