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REPORTAGEM - Olhando para os últimos dias verifico que os melhores trabalhos de reportagem sobre a catástrofe dos incêndios estiveram em jornais impressos ou em sites de informação, nomeadamente no Observador. Domingo de manhã apenas o Correio da Manhã e o Jornal de Notícias tinham chamadas de capa em destaque evidenciando a dimensão do que estava a acontecer; a edição do Público desse dia era particularmente desajustada da actualidade - valeu-lhe o site que foi recuperando o que o papel falhou. No Observador encontrei as primeiras grandes reportagens, bem escritas, descritivas, com informação, com episódios das vidas das pessoas, com pequenas histórias que ajudavam a fazer o grande retrato do que se passou. Foi no Observador, e também no Público online, que vi as melhores fotografias destes dias - e devo dizer que neste caso a reportagem fotográfica fixou momentos de enorme intensidade e dramatismo, sem sensacionalismos, e ajudando a compreender o que se passou e como as mensagens oficiais se afastavam da realidade que as imagens acabaram por mostrar. O Correio da Manhã TV foi a estação que mais depressa começou a fornecer imagens e relatos e não foi por acaso que este foi o canal noticioso mais visto nesses dias. A RTP3 desta vez conseguiu bater pela sobriedade e rigor a SIC Notícias e a TVI24. A rádio acabou por ser o meio onde menos notei reportagens exemplares. Neste tempo do video, e apesar dos momentos já referidos, não deixa de ser curioso que as melhores reportagens, na minha opinião, tenham sido escritas e fotografadas - quer tivessem sido publicadas em papel ou online. É o triunfo da escrita numa ocasião terrível. E foi-o graças a um regresso à melhor forma de jornalismo - a reportagem. Do resto não falo.

 

SEMANADA - O plano contra incêndios não foi avaliado nos últimos quatro anos;  pelo menos 64 bombeiros morreram em serviço ao longo dos últimos 17 anos; Portugal é o país da europa do sul que registou maior número de fogos florestais entre 1980 e 2013;  até quarta-feira à noite o Governo ainda não tinha ordenado à Inspecção Geral da Administração Interna nenhum inquérito global aos fogos do passado fim de semana; na internet as menções aos acontecimentos de Pedrógão Grande provieram, em 34%, do Facebook, 32% foram observadas no Twitter e 31% em notícias online - indica um estudo da Marktest;  a fibra óptica já é a principal forma de acesso à internet em Portugal, tendo ultrapassado o cabo; a internet em banda larga móvel é utilizada por 6,5 milhões de pessoas; segundo a Marktest, entre Janeiro e Abril de 2017, os portugueses dedicaram 399 milhões de horas à Internet na navegação a partir de computadores de uso pessoal; a Europa recebeu 1,5 milhões de refugiados desde 2015; as compras de automóveis feitas por empresas de aluguer de carros cresceram 26% em função do boom do turismo; em Lisboa existem 2051 pessoas referenciadas como sem-abrigo; o exame de português realizado segunda-feira corre o risco de ser anulado por ter circulado no whatsapp uma gravação que revelava a matéria que iria sair - e que acertou em cheio, citando como fonte uma explicadora, dirigente sindical, que teria passado a informação a uma explicanda sua.

 

ARCO DA VELHA - Um homem invadiu uma casa no Intendente para tentar roubar e violar uma mulher de 85 anos que se defendeu mordendo os orgãos genitais do assaltante, levando-o a fugir - o relato foi feito pela própria às autoridades.

 

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FOLHEAR - A revista que vos trago esta semana é o exemplo da convivência entre o digital e o papel. Neste caso essa convivência existe não nos canais de distribuição de conteúdos, mas sim na equipa que a faz. Grande parte dos elementos com responsabilidades editoriais trabalham simultaneamente neste projecto e em plataformas digitais de última geração como o Quartz e o Medium. Editada duas vezes por ano, a  “Anxy" dedicou a sua primeira edição à raiva - “The Anger Issue”. A revista é um mix cuidado de belos textos, portfolios fotográficos invulgares e um grafismo surpreendente. É editada duas vezes por ano e apresenta-se como uma publicação dedicada a apresentar narrativas pessoais sobre emoções, abordando temas como a ansiedade, a depressão, o medo, a raiva, o trauma e a vergonha, numa incursão que pretende abordar a saúde mental de uma forma diferente, através de exemplos de vulnerabililidade. Nesta edição inaugural a entrevista é com a escritora Margaret Atwood, a autora de “The Handmade’s Tale”; há uma série de ensaios e narrativas de pessoas que lidam diariamente com a raiva e o desespero de outros, desde criados de mesa, a vendedores de lojas de roupa ou cosmética ou, ainda, de agentes de execução que vão penhorar bens em nome de bancos; a grande reportagem é dedicada à instabilidade política na Turquia e aos problemas emocionais que ela fomenta no país; e finalmente há três portfolios fotográficos absolutamente excepcionais. Destaco o de Matt Eich, um dos grandes fotógrafos norte-americanos actuais (procure a conta dele no Instagram), numa visão pessoal do seu próprio universo familiar - um dos melhores ensaios fotográficos que vi nos últimos tempos; dois outro merecem destaque : Melissa Spitz mostra a relação tensa que tem com a sua própria mãe e Brian Frank visita o universo das prisões. São três momentos imperdíveis. Pode comprar a Anxy no site da revista - www.anxymag.com .

 

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VER - A mais recente aventura de Pedro Cabrita Reis é um livro de autor, em que o artista mostra desenhos inspirados pelo poema “Cântico Negro”, de José Régio, que é reproduzido na edição (na foto). Este trabalho começou a ser idealizado há três anos, depois de uma exposição do artista no Rio de Janeiro, o plano editorial e a direção gráfica são da responsabilidade de Cabrita Reis com Lucia Bertazzo e Leonel Kaz, de UQ! Editions, editora brasileira, que tem produzido  livros de artista, sempre com originais. As encadernações da caixa e do grande estojo são obra do Atelier Dreieck, em Paris, que se serviu de um tecido de linho e algodão de um laranja intenso. A tiragem é de 70 exemplares, dos quais 20 estão disponíveis na Galeria João Esteves de Oliveira. Cada caixa inclui um desenho original de Pedro Cabrita Reis, em acetona e pigmentos, trabalhados em folhas de 200x126 cms. Os 20 originais correspondentes a outra tantas caixas estão expostos na Galeria (Rua Ivens 38). Outros destaques: no MAAT inaugurou uma exposição de Fernanda Fragateiro , “Dos arquivos, à Matéria, à construção” e uma outra exposição com os trabalhos dos seis finalistas à edição do prémio EDP Novos Artistas deste ano, escolhidos entre mais de 600 candidaturas.

 

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OUVIR - No final de Maio de 1967 foi lançado o oitavo disco de originais dos Beatles - Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Foi um êxito, na crítica e nas vendas, e esteve durante 27 semanas em primeiro lugar do top britânico de álbuns. Inclui alguns temas famosos como “With A Little Help From My Friends”, “Lucy In The Sky With Diamonds”, “When I’m Sixty Four”, “She’s Leaving Home” e “A Day In The Life”. A ideia do disco foi criar um alter ego dos Beatles, a Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que se pudesse aventurar por territórios diferentes. As gravações começaram no final de 1966, depois de os Beatles terem decidido parar definitivamente com os concertos e as digressões. O facto de estarem a trabalhar num disco que não seria tocado ao vivo proporcionou a oportunidade de experimentarem técnicas novas de gravação e manipulação de som e de incluírem uma orquestra de 40 elementos. Nas numerosas sessões de gravação nos estúdios da EMI, em Abbey Road, dois dos primeiros temas a serem gravados foram “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”, que não estão incluídos no álbum original porque a EMI forçou a banda a editá-los como single no Natal desse ano. A capa, que foi concebida por Peter Blake e Jann Haworth, dois artistas plásticos britânicos da então nascente pop art, teve um custo de 3000 libras, contra as 100 que eram usualmente o orçamento para o trabalho gráfico de um LP. A EMI concordou que a pagaria, unicamente se o disco vendesse mais de um milhão de exemplares mundialmente - senão a conta seria assumida pelos Beatles. Como hoje se sabe a conta acabou por não ser paga por eles. A edição especial que agora foi lançada para assinalar os 50 anos do lançamento original, inclui um pequeno livrinho de 60 páginas onde esta e outras histórias são contadas, além de detalhes e fotos das sessões de gravação. A edição tem dois CD’s - um que corresponde ao disco original, com uma nova mistura estereo, e outro que mostra 18 misturas inéditas das sessões de gravação, entre as quais algumas de “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”. (Edição especial Universal Records, distribuída em Portugal).

 

PROVAR -   Então este é um daqueles dias em que tudo correu mal e a raiva é tanta que nem a fome aparece? Narda Lepes, uma chef argentina, diz que tem uma receita infalível para dias assim: arroz com um ovo estrelado por cima. A coisa é simples: coze-se o arroz, escorre-se bem e mistura-se com meia colher de sopa de manteiga numa tigela. À parte faz-se um ovo estrelado em azeite. Narda recomenda que não se salgue o ovo enquanto ele está na frigideira, para que a clara fique bem cozida, estaladiça, e a gema fique crua. Coloca-se o ovo por cima do arroz e o petisco está pronto quando o amarelo da gema começa a inundar o arroz. Tudo bem misturado é um remédio certo anti-ansiedade, diz convicta a chef argentina na divertida secção de gastronomia da revista “Anxy”, uma nova publicação referida noutro ponto destas páginas. Já Jimena Agois, uma food blogger peruana, prefere massa com pesto è genovesa, tudo preparado na ocasião. Cá por mim, nesses dias, o ideal é uma dose dupla de iogurte natural, misturada com fruta da época cortada aos pedaços, alguns frutos silvestres e um pouco de frutos secos. Se por acaso fôr acompanhada com uma flûte de espumante Murganheira Reserva Bruto, ainda melhor.

 

DIXIT -  “Isto foi um furacão de fogo, veio para nos matar” - habitante na zona de Pedrogão

 

GOSTO - Da eficácia e contenção na comunicação de Jorge Gomes, o secretário de Estado da Administração Interna, que no local acompanhou os incêndios.

 

NÃO GOSTO - A Câmara de Lisboa ignorou a  assembleia municipal e vai aprovar a alteração de um edificio  dos anos 70,decorado com azulejos de António Vasconcelos Lapa, para autorizar um hotel a imitar traça pombalina.

 

BACK TO BASICS - “A arte de agradar muitas vezes encobre a arte de enganar” - máxima hassídica, em textos judaicos

 

 

 

 

 

 

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ÉPOCA - Este ano é com o Verão à porta que regressam as greves, depois de muitos meses de acalmia. Um amigo com quem almocei esta semana tem uma explicação, que me pareceu plausível, para a nova sazonalidade destas movimentações sindicais de peças fundamentais da administração pública, como o ensino e a justiça: o orçamento está em fase de preparação nos próximos meses e o objectivo dos parceiros do Governo é encontrarem mais dinheiro para a máquina do Estado. Estas greves são um sinal a António Costa e uma chamada de atenção a Centeno. Depois do cheque branco que o PCP e Bloco entregaram ao PS pós eleições de 2015, começam agora a vir as faturas. A grande incógnita está em saber o que a habilidade política de Costa conseguirá, estando os seus parceiros notoriamente nervosos e a quererem todos os dias mais uma fatia do bolo da recuperação das contas públicas. É tão engraçado ver como o estado de hibernação foi suspenso aos primeiros calores e como agora as coisas se vão agitando. O jogo tem permissas simples: Costa precisa de uma legislatura completa e com resultados visíveis em termos de cumprimento das regras europeias para tentar a maioria absoluta, ou um resultado que o deixe menos nas mãos do Bloco e do PCP. E os “compagnons de route” temem pelo seu eleitorado que começa a ficar irrequieto e acham que já é tempo de receberem o prémio de bom comportamento. Os próximos meses, até á entrega do Orçamento de Estado, vão ser muito curiosos de seguir.

 

SEMANADA - As mortes por overdose de drogas aumentaram na Europa pelo terceiro ano consecutivo e em 2015 atingiram 8400 pessoas; um estudo divulgado esta semana indica que o mercado das drogas ilícitas na União Europeia movimenta cerca de 24 mil milhões de euros por ano;  o laboratorio de polícia científica da Judiciária identificou em Portugal o aparecimento de 80 novas drogas em seis anos; em 2016, pela primeira vez em quatro anos, o Partido Socialista conseguiu um saldo financeiro positivo de 250 mil euros; a venda de casas penhoradas pelo fisco está a cair mais de 40% em comparação com o ano passado; entre 2007 e 2016 Portugal ganhou uma média de 40 mil novos cidadãos por ano, segundo um estudo do Observatório das Migrações que salienta que a maioria tem origem em países onde se fala português; o consumo de refrigerantes caíu com a nova taxa sobre produtos com açúcar e, no caso das bebidas mais açucaradas, a quebra foi de 72%; segundo a Marktest durante o mês de Abril  foram visitadas 298 milhões de páginas de sites de informação nacionais e o tempo total de navegação nestes sites superou as 4,8 milhões de horas, uma média de 1 hora e 28 minutos por utilizador, o que significa um aumento de 5.6% no número total de horas e de 12.8% no número de horas por utilizador, quando comparados com o mês homólogo do ano anterior; verificaram-se oito acidentes mortais com tratores em 15 dias.

 

ARCO DA VELHA -  Os professores marcaram greve para o dia em que se realizam exames de matérias que andaram a ensinar aos seus alunos.

 

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FOLHEAR - Carlos Quevedo é o mais português dos argentinos. Nasceu em Buenos Aires em 1952 e, em 1978, renasceu em Lisboa depois de ter andado  por diversas paragens. E por cá ficou, a fazer teatro (encenou peças de Beckett, Ibsen e Pinter), dedicou-se à escrita, teve responsabilidades em “O Independente” e na “Kapa”, viu televisão para a “Visão” e de há alguns anos para cá apaixonou-se pela rádio - desde 2015 é o autor e produtor do programa “E Deus Criou O Mundo”, na Antena 1, onde procura fomentar o debate inter-religioso. Vai daí, pegou no conceito e no nome do programa e fez este livro, que aborda três das religiões historicamente mais representativas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. O livro tem uma abordagem histórica das origens destas religiões, a partir de um tronco comum, com origem em Abraão. Como Carlos Quevedo escreve, “só com o diálogo inter-religioso podemos conhecer o mundo diverso e semelhante dos homens de fé”. E sublinha: “Ter o mesmo Deus é o que os une, mas fazer a sua vontade na Terra parece ser a grande divergência”. O livro está organizado em quatro partes : as duas primeiras abordam o enquadramento das religiões, e a terceira mostra as posições que as três religiões têm sobre a vida dos crentes, na família, no casamento e no divórcio e, finalmente, como o judaísmo, o catolicismo e o islão encaram a morte. Este é um livro que permite descobrir os pontos comuns - e as diferenças - entre estas três religiões. “Conhecer os credos é conhecer a humanidade”, como Carlos Quevedo escreve já no final do livro.

 

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VER - A recomendação da semana vai para o novo encontro proposto na Fundação Julio Pomar. Desta vez é entre o próprio Pomar e Pedro Cabrita Reis, que se encontram sob o título “das pequenas coisas”, numa exposição que ficará até 8 de Outubro no atelier-museu na Rua do Vale 7, no Bairro Alto. Esta série de encontros tem por objectivo cruzar a obra de Júlio Pomar com outros artistas por forma “a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade” - o convidado anterior foi Julião Sarmento. “das pequenas coisas” recorre a objectos, esculturas e assemblages, em materiais variados. Pedro Cabrita Reis mostra uma série de esculturas e objectos feitos com materiais de várias proveniências, nomeadamente materiais encontrados na rua e na praia, ocupando todos os espaços do atelier-museu, incluindo o caminho de acesso do edificio recuperado por Álvaro Siza, que até aqui não tinha sido ainda utilizado como área expositiva. A informação da exposição salienta que “foi também na praia, durante um período de quatro meses de férias e trabalho no Algarve, no Verão de 1967, em Manta Rota, que Júlio Pomar começou a produzir assemblages de objectos e materiais aí encontrados, corroídos e desgastados pelo sal, pelo sol, pelo tempo”. A curadoria é de Sara António Matos, que é a directora do atelier-museu desde 2012. Outras sugestões: na Galeria Ratton - Helena Lapas expõe até final de Julho “Matéria do Tempo” (Rua da Academia das Ciências 2C); e até dia 18 ainda pode ver “Pai”, de Paulo Brighenti, na Ermida de Nossa Senhora da Conceição, Travessa do Marta Pinto, por detrás dos Pastéis de Belém.

 

E finalmente, num registo diferente, este sábado, às 16h00 mais uma sessão do ciclo “Grandes Clássicos no Grande Écran do Grande Auditório do CCB “ - no ecrã vai passar “Cleópatra”, o filme de Jospeh L. Mankiewicz com Elizabeth Taylor, de 1963, em nova versão digital restaurada.

 

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OUVIR - João Gil tornou-se conhecido quando, em 1976, fundou os Trovante com Luis Represas, Manuel Faria e João Nuno Represas. Os Trovante fizeram canções que marcam a história da música popular portuguesa e João Gil compôs muita da sua música. Mais tarde criou os Moby Dick, compôs a Ala dos Namorados, esteve no projecto Rio Grande, Cabeças no Ar, Filarmónica Gil, depois os Baile Popular e o Quinteto Lisboa, entre outros. Grande parte da sua obra mais conhecida vem do tempo dos Trovante e da Ala dos Namorados. Luis Represas, João Monge, Carlos Tê são alguns dos co-autores das suas mais célebres composições. “João Gil Por…”, um duplo CD agora editado, recolhe 26 canções assinadas por João Gil, aqui interpretadas por outros nomes - 32 convidados para ser exacto. Permito-me destacar a maneira como Carlão e Lúcia Moniz reinventam a “125 Azul”, como “Tatanka” faz redescobrir “Fim do Mundo”, como Luísa Sobral dá a volta a “Postal dos Correios” ou Héber Marques canta “Solta-se o Beijo”. Destaque ainda para a simplicidade de Miguel Araújo em “Senta-te Aí”, para Jorge Palma em “Dezembro”, para Celina da Piedade (com o próprio João Gil) em “Timor”, e para João Pedro Pais e Márcia, respectivamente em “Providência Cautelar” e “Memórias de um Beijo”. Os discos de versões podem ser um exercício perigoso. Este correu muito bem. CD Warner.

 

PROVAR - Quando era miúdo não gostava nada de côco. Os bolos de côco enjoavam-me, o côco ralado fazia-me impressão. Foi graças ao caril que me reconciliei, através do leite de côco, fundamental para que o belo molho resulte. Aos poucos comecei a usar leite de côco em alguns pratos, como alternativa à nata. Esta semana, por exemplo, fiz lombos de salmão no forno com funcho e courgette cortada em esparguete, tudo embebido em leite de côco. Com os ingredientes previamente temperados com limão, gengibre, cebolinho fresco, pimenta e um salpico de vinho branco ficou uma maravilha ao fim de 25 minutos no forno, já com o leite de côco adicionado. A minha rendição ao côco estende-se ao óleo do dito. Experimentem estrelar um ovo em óleo de côco ou usá-lo para untar a placa das panquecas e não quererão outra coisa. Ainda por cima é uma gordura saudável com benefícios provados. E o melhor de tudo é que dá bom sabor aos alimentos que nele são cozinhados, o que nem sempre acontece com alguns bruxedos apresentados como saudáveis.

 

DIXIT -  “Tenho martelo e vou usá-lo com fartura” - Rui Moreira, a propósito dos festejos de S. João, no Porto.

 

GOSTO - Do discurso de aceitação do Nobel, de Bob Dylan, que ele divulgou esta semana e cuja gravação se encontra disponível na internet.

 

NÃO GOSTO - De um sistema judicial que promove investigações com base em denúncias anónimas e em cima do prazo de prescrição.

 

BACK TO BASICS - “Estou convencido que no sótão do Ministério dos Negócios Estrangeiros há uma pequena sala esconsa onde os candidatos a diplomatas são ensinados a gaguejar” - Peter Ustinov

 

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TURISMO - O facto de termos tantos turistas a visitar-nos, não só em Lisboa mas um pouco por todo o país, pode ser incómodo para alguns mas é algo de muito positivo. Faz parte da desconstrução do “orgulhosamente sós”. É certo que nunca gostámos de ser invadidos e sempre expulsámos os invasores - mas a realidade é que os turistas não são as tropas napoleónicas nem os exércitos de Castela. O aumento do número de turistas representa o êxito de esforços desenvolvidos (nalguns casos ao longo de décadas, como em Lisboa, através da ATL), tem o efeito económico que se conhece e permite-nos, sobretudo uma maior convivência e troca de culturas com outros povos. Tudo isto ajuda a estarmos menos isolados e, é claro, mais expostos. Como acontece sempre em situações destas a procura de um ponto de equilíbrio é uma questão delicada e que demora tempo a ser conseguida. Doug Lanski, um escritor de livros e guias de viagem esteve recentemente em Lisboa e sintetizou o problema de forma exemplar: “A cidade pode ter turistas, mas os turistas não devem ter a cidade”. Se os turistas dominarem a cidade ela transforma-se num zoológico em que as pessoas se tornam animais de cativeiro e espécies em via de extinção. Este é agora o problema de quem manda nas cidades - estimulem os visitantes mas acarinhem os habitantes sem ser só com flores e obras. Tudo cresceu muito depressa - sobretudo desde que os voos das low cost tornaram destinos periféricos (em relação à Europa central)  como Lisboa, o Porto, os Açores e a Madeira em destinos acessíveis. A mina de ouro foi descoberta e a corrida às pepitas está em pleno. O ponto principal é evitar que se esgote o filão. Essa, creio, é a próxima etapa - que há-de passar por conseguirmos ter uma oferta cultural, nomeadamente expositiva, mais variada e atraente.

 

SEMANADA - A venda de automóveis aumentou 15,8% no ano passado; no primeiro ano em vigor das novas regras da carta por pontos nenhum condutor foi punido com formação e nenhum ficou sem carta, apesar de quase duas dezenas terem condições para isso; um estudo da Direcção Geral do território mostra que no último quarto de século 1,1 milhões de hectares mudaram de ocupação e que o país está mais urbano, mais florestal e menos agrícola; segundo dados divulgados esta semana 19 dos 20 maiores projectos apoiados pelo Portugal 20/20 são de natureza pública e apenas um é privado; na maior parte dos casos analisados num estudo agora divulgado, um presidente de Câmara impedido de  voltar a concorrer pela lei de limitação de mandatos gasta menos no último ano da sua gestão do município; dados divulgados esta semana indicam que 20 idosos são agredidos semanalmente quer em roubos quer no contexto de violência doméstica e só no ano passado mais de 1000 idosos foram violentamente agredidos; nos últimos seis anos 427 pessoas pediram para mudar de sexo e de nome no registo civil e deste total há 28 homens com mais de 50 anos que fizeram operações para mudar de sexo e quatro mulheres foram operadas com o mesmo objectivo; segundo o estudo netScope da marktest em Abril 55% do tráfego de internet foi gerado por PC’s (desktop ou portáteis e 45% por equipamentos móveis (39% de smartphones e 9% de tablets).

 

ARCO DA VELHA - Um homem de 22 anos, detido por violação, dedicava-se a vender estimulantes sexuais pela internet a partir da cadeia da Carregueira, onde está preso, e fornecia outros detidos.

 

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FOLHEAR - António Pinto Ribeiro tem desenvolvido nos últimos 25 anos uma actividade significativa no estudo de questões relacionadas com políticas culturais e com a divulgação de diversas formas de arte contemporânea, nomeadamente de África e da América Latina. O seu trabalho na Gulbenkian, em torno do projecto “Próximo Futuro” e a programação de Lisboa enquanto Capital Ibero-Americana da Cultura, que está a decorrer, são o mais evidente sinal dessa actividade. Nos últimos quatro anos dedicou-se a analisar África a partir da representação literária dos seus quatro grandes rios - o Niger, o Zambeze, o Nilo e o Congo. O objectivo foi estudar como a literatura de viagens dos  séculos XVIII e XIX olhou para as geografias dessa época e, depois ( e fundamentalmente) como no final do século XX e início do século XXI quatro escritores olharam para esse mesmo espaço - Ryszard Kapuscinski, Gianni Celati, Pedro Rosa Mendes e Paul Theroux, que escreveram entre 1958 e 2002. António Pinto Ribeiro recorda no primeiro capítulo que ao longo do século XX África deixou de ser um continente maioritariamente sob domínio colonial de nações europeias, passando a ser composto por 54 países independentes, num processo complexo, por vezes violento. Mostra como a partir da década de 70, em África nasceu e desenvolveu-se uma produção cultural contemporânea que aos poucos começou a ser reconhecida fora do continente. O livro enquadra a História recente com o trabalho dos autores evocados, mostrando ainda excertos do que escreveram. “África - Os Quatro Rios” tem uma capa soberba feita a partir de uma fotografia de Pieter Hugo, um notável fotógrafo sul-africano que foi exposto em Portugal pela primeira vez precisamente numa das edições de “Próximo Futuro”. Edição Afrontamento.

 

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VER - O British Bar existe há mais de 100 anos junto ao Cais do Sodré, à época terra de marinheiros, numa zona onde há meio século abundavam os escritórios de transportadores marítimos, despachantes e  transitários e de representações de empresas estrangeiras. Quando a cerveja Guinness era quase desconhecida em Portugal já ali existia, bem tirada, com o sabor acre único que ela tem. Pedro Cabrita Reis habituou-se a frequentar o local quando era aluno de Belas Artes e não mais o largou, lugar de eleição para aperitivo, dois dedos de conversa ou contemplação pura e simples. Deve ter sido num desses momentos de contemplação que se lembrou de propôr aos proprietários do espaço que as três pequenas montras verticais, nos lados e centro da fachada do estabelecimento, pudessem ser aproveitadas para expôr obras de artistas que o próprio Cabrita Reis iria escolher e convidar. Assim nasceu a ideia do britishbar#, com novidades anunciadas para a última sexta feira de cada mês, até Dezembro. Na semana passada foi a segunda mostra e lá entraram duas esculturas, de Vasco Costa e Ana Jotta, e uma estante de Álvaro Siza Vieira. São de Pedro Cabrita Reis estas palavras, que explicam o que está a fazer: “Os espaços convencionais não me interessam. O que quero é fazer coisas fora da caixa, capazes de apanhar as pessoas que gostam de arte e, neste caso, as que só querem beber um copo ou ver um jogo.”

 

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OUVIR -   Tenho para mim que Miguel Araújo é o melhor compositor-intérprete da sua geração. É um contador de histórias - porque cada canção há-de ser um episódio. Escreve com humor, fala de coisas de sempre e de coisas actuais, e ainda por cima escreve muitíssimo bem em português - sabendo-se que escrever português para ser cantado é um exercício bem difícil. Miguel Araújo domina a técnica e mostra o sentimento. “Giesta”, agora lançado, é o terceiro disco a solo deste ex-Azeitonas e atrevo-me a dizer que é o melhor conjunto de canções de Miguel Araújo - talvez por ser, como ele próprio reconhece, o mais autobiográfico dos seus trabalhos. Para além dos Azeitonas, Miguel Araújo é parceiro habitual de António Zambujo, com quem recentemente fez uma série de concertos que foram um sucesso de público. Mas voltemos a este “Giesta” - cujo nome evoca a zona da Maia onde passou a infância. O disco é cheio de memórias, como a faixa “Axl Rose” que conta como Araújo viu, à distãncia do relato da irmã, a aparatosa queda do guitarrista dos Gun’n’Roses no concerto do estádio José Alvalade. As minhas canções favoritas são “Sangemil”, “Lurdes Valsa Lenta” , “Maria da Glória” e “1987”, que inclui um dueto com Catarina Salinas (dos Best Youth). Giesta, CD Warner, disponível no Spotify.

 

PROVAR -  Um dia destes um amigo perguntava-me porque é que eu andava a falar mais de petiscos, de receitas, de produtos e ingredientes do que de restaurantes. A resposta é que ando desanimado com a necessidade de falar dos novos restaurantes que vão abrindo. Penso que muitos desses novos restaurantes estão a posicionar-se, voluntária ou involuntariamente, como exercícios de comunicação efémeros, com um prazo de validade limitado, muitas vezes com uma rápida degradação da qualidade, e que vivem mais de cenários do que de consistência. Por isso volta e meia regresso a alguns dos meus clássicos, onde a qualidade se mantém e onde o serviço é sempre simpático. Alguns deles até são relativamente recentes, como a “Casa de Pasto”, no Cais do Sodré, onde em boa hora voltei esta semana. Confesso que nem é sítio onde vá com uma frequência desmedida, mas cada visita que fiz correu bem. É comida bem confeccionada, frequentemente com um toque de saborosa imaginação. O chef é Hugo Dias de Castro e notam-se as suas origens nortenhas na comida caseira e no tempero e evita os jogos florais do empratamento minimalista que dão cabo de muitos locais. Gosto do ambiente, da decoração que nos faz pensar estar numa sala de jantar familiar, da simpatia da equipa. Nesta visita provou-se uns secretos invulgarmente bem confeccionados, acompanhados por batata frita na hora às rodelas finas (excelentes) e um polvo com picadinho de legumes acompanhado de legumes no forno. Era terça-feira e penso que seríamos os únicos portugueses na sala. E tudo correu bem. Rua de S. Paulo 20-1º, telefone 963739979

 

DIXIT -  “Quem cá mora tem de ter um regime de protecção, porque são moradores da cidade, porque pagam aqui os seus impostos” - Luis Natal Marques, Presidente da EMEL, sobre a utilização de automóveis particulares em Lisboa.

 

GOSTO - Da edição em DVD, já disponível nas bancas de jornais, de “Paula Rego- Histórias & Segredos”, o belo filme de Nick Willing que estreou recentemente.

 

NÃO GOSTO - O consumo de tabaco gera 32 mortes por  dia em Portugal,segundo a Fundação Portuguesa do Pulmão.

 

BACK TO BASICS - “A arte do compromisso é conseguir partir um bolo de forma a que toda a gente fique com a sensação de ter a maior fatia” - Ludwig Ehrard

 

 

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publicado às 15:11

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REALIDADES - Já sabemos que nas próximas autárquicas vamos ter mais candidaturas independentes. Já percebemos que alguns ex-autarcas saíram dos partidos pelos quais foram eleitos e decidiram correr à margem dos aparelhos partidários que lhes deram a primeira encarnação. Em cada cidade, em cada vila, em cada freguesia há uma situação diferente. Apesar desta evidência, no fim, vai haver a tentação de ver quantos votos teve cada partido, perdendo-se assim o foco no local e ensaiando extrapolações para a política nacional. E, no entanto, estas eleições são aquelas em que os candidatos estão mais perto dos eleitores e onde a aferição das promessas eleitorais feitas, a nível local, é teoricamente mais fácil de realizar. Mas é preocupante o generalizado vazio de ideias e de debate, substituído por slogans e programas que mais parecem feitos para o país em nome de princípios genéricos do que para uma situação concreta. O que se tem passado nas autárquicas tem ainda muito a ver com o comportamento clubístico na política e não com escolhas de ideias concretas. Na realidade este é um dos nossos grandes males - pensamos pouco, improvisamos muito, vivemos em ciclos de promessas que se repetem, as mais das vezes sem serem cumpridas. O sistema partidário vigente continua a favorecer que apenas se discutam situações, propostas e soluções de quatro em quatro anos, de acordo com o calendário eleitoral. Na sociedade civil não há o hábito de analisar a realidade, de confrontar políticas, de fazer estudos e elaborar propostas, de avaliar resultados, de forma permanente e continuada. A política local tornou-se o campo dos cenários efémeros, dos alindamentos de fachada e da desmedida cobrança de taxas. Lisboa é um bom exemplo disso mesmo.

 

SEMANADA - A polícia registou 38 ataques de carteiristas por dia; o número de presos com 60 ou mais anos duplicou nos últimos sete anos;  a idade média dos agentes da Polícia Judiciária aumentou para os 48 anos; o Serviço Nacional de Saúde fechou o primeiro trimestre do ano com saldo negativo de cem milhões de euros; um estudo comparativo dos orçamentos dos países do euro indica que os contribuintes portugueses são os mais penalizados pelo custo da dívida; segundo o Banco de Portugal a dívida pública aumentou em março para 243,5 mil milhões de euros, mais 23 milhões face a fevereiro; o Banco Central Europeu voltou a travar as compras de dívida portuguesa em Abril; as vendas dos produtos de marca branca subiram pela primeira vez desde 2012; os portugueses gastam mais de 100 milhões de euros por ano em material de running - roupas, sapatos, gadgets, etc; por cada seis ataques de cães perigosos só foi passada uma multa; a partir de agora, numa separação litigiosa em que o casal tenha animais de estimação, caberá ao juiz decidir com quem fica o bicho; na actual legislatura os deputados já receberam 198 mil euros para reunir com cidadãos nos seus círculos eleitorais mas não são pedidas provas desses encontros por parte dos serviços da Assembleia da República;  duas em cada cinco empresas de construção são ilegais.

 

ARCO DA VELHA - Numa factura de 93 euros da EPAL, 41.30 destinam-se a água efectivamente consumida e 48.61 a diversas taxas da Câmara Municipal de Lisboa - o restante vai para o IVA e outras alcavalas.

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VER - Nos últimos dias vi duas criações, bem diversas entre si, mas que tiveram o condão de me chamar a atenção para a importância de sair da rotina, pular para fora da caixa, puxar pela imaginação, estimular a imaginação de outros. A primeira foi o filme “Fátima”, onde João Canijo demonstra que é o melhor realizador português contemporâneo: o mais criativo, o que melhor mostra uma compreensão técnica do cinema em todos os seus aspectos, o que melhor dirige actores, o mais experimental, o mais inovador, o mais sólido e consistente e que ao mesmo tempo mais arrisca na forma como aborda os temas, prepara os filmes e mostra ser o que mais está aberto à mudança e experimentação. “Fátima” é isto tudo - não se trata de uma evocação de uma peregrinação, esse é apenas o pretexto para a construção de uma teia dramática onde personagens ganham vida própria, entram em conflito umas com as outras e por fim se reencontram. A forma como a procissão das velas é filmada (e como surge no filme) é um exemplo de como mostrar a força da multidão usando a maior sensibilidade.

O outro momento a que me refiro, e que aqui aparece ilustrado, é uma ideia magnífica de Pedro Cabrita Reis para trazer as artes plásticas para a rua - mais propriamente para as montras de um estabelecimento comercial, neste caso um bar histórico do Cais do Sodré. @britishbar#1 é o título da iniciativa que assinala o início de uma série de exposições que até ao fim do ano passarão por aquelas montras. Nesta primeira mostra estão obras de Eduardo Souto Moura, de Rui Sanches e de Ângela Ferreira, todas feitas expressamente para o local onde estão instaladas - cada uma das três montras da fachada do British Bar. Não há melhor pretexto para ir tomar um aperitivo - uma cerveja Guinness ou um Gin por exemplo -  duas especialidades desta casa que merece ser mais conhecida e vivida. E nada melhor que a arte para trazer vida a um local.

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FOLHEAR - Antes de as revistas terem voltado à moda e de serem objectos de colecção já a portuguesa “Egoísta” se deixava folhear com gosto. A “Egoísta” tem 17 anos de idade e 77 prémios no currículo. Sai trimestralmente, bem impressa em excelente papel, é propriedade da empresa Estoril-Sol e o seu director e entusiasta é Mário Assis Ferreira que desde a primeira hora confiou a edição a Patrícia Reis. O projecto gráfico inicial foi de Henrique Cayatte e agora é desenhada por Joana Miguéis, do atelier 004. Cada número é dedicado a um tema e ao longo da meia centena de edições publicadas imagina-se que já por ali se falou de tudo. Faltava a política e é esse o tema da “Egoísta” agora nas bancas. No editorial deste número Mário Assis Ferreira escreve: “No nebuloso universo do partidarismo político, Esquerda e Direita já perderam sentido: as ideologias subvertem-se às manipulações tácticas dos partidos e é na comunhão de ódios que se cimentam alianças espúrias”. Ou, como também Mário Assis Ferreira gosta de dizer, citando Clarice Lispector: “Liberdade é pouco: o que desejo ainda não tem nome!”. Esta  “Egoísta” da política inclui, entre outros, textos de Michelle Obama, Paulo Portas e Daniel Oliveira, uma entrevista com António Costa, portfolios fotográficos sobre Cuba, imigrantes,  Marcelo Rebelo de Sousa e “Ghosts” da África do Sul (o melhor de todos), a reprodução de posters incontornáveis da história da propaganda política e um poema de Manuel António Pina para contrabalançar.

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OUVIR -  Damon Albarn tornou-se famoso do lado de Graham Coxon - ambos fizeram carreira e fortuna nos Blur ao longo da maior parte da década de 90. Depois disso Albarn inventou, perto da viragem do século passado, uma banda virtual, os Gorillaz, cujo primeiro disco saíu em 2001. Visualmente eram personagens de banda desenhada criada por Jamie Hewlett, o criador de “Tank Girl”. Os Gorillaz davam entrevistas virtuais, criaram um biografia ficcionada, o seu álbum de estreia parecia a banda sonora de uma festa de adolescentes e vendeu sete milhões de exemplares. Nos seus quatro primeiros CD’s, entre 2001 e 2010, venderam ao todo 15 milhões de CD’s, até chegarem a este novo “Humanz”, que parece uma espécie de banda sonora para uma noite de reflexão descontraída em torno da presente situação mundial - por aqui passam temas políticos, sociais, ambientais, de comunicação, canções onde se aborda desde a situação da internet até distúrbios mentais. Em “Humanz” Damon Albarn arregimentou um conjunto de convidados como Danny Brown, Pusha T, Jehnny Beth, Danny Brown, Benjamin Clementine, D.R.A.M., Del La Soul, Peven Everett, Anthony Hamilton, Grace Jones, Zebra Katz, Kelela, Popcaan, Jamie Principle, Mavis Staples, Carly Simon, Vince Staples ou Kali Uchis, entre outros. São 20 faixas que mais parecem uma playlist de uma emissão de rádio em streaming do que um álbum - no fundo a prova de como, há quase 20 anos, Albarn percebeu que, com a internet, o consumo da música ía mudar.  Disco Warner Brothers, disponível no Spotify.

 

PROVAR - Estas linhas vão para a série “petiscos que eu faço para mim mesmo”. Já aqui falei da dificuldade atávica da maioria dos cafés portugueses em fazerem sanduíches competentes que superem o trauma da carcaça de borracha com transparências de fiambre e queijo plastificado. Alimento a esperança de que um dia hei-de conseguir que me façam uma sanduíche de queijo da ilha, em bolo lêvedo tostado, lascas finas sobrepostas, temperadas com uma compota contrastante, de preferência dos Açores. Quando me dedico ao assunto em casa uso queijo da Ilha de S. Miguel, de cura prolongada, casca preta. É levemente mais intenso que o de S.Jorge, embora ambos sejam queijos magníficos, entre os melhores de Portugal. Corto-o em lascas e no pão faço-o conviver com uma compota açoreana,  de preferência a de figo embora a de capucho também seja interessante. Pode encontrar tudo isto em www.merceariadosacores.pt. E já que lá está experimente uma das conservas de atum temperadas da marca Catarina - sugiro que um dia destes prove os filetes de atum com funcho ou com tomilho. Vai ver que não se arrepende. E quem quiser atum para sanduíche pode experimentar os Flocos de Atum Temperados, “ideal para sandes”, da fábrica Corretora, de Ponta Delgada. Com agrião pelo meio fica do melhor.

 

DIXIT -  “Quem arrisca falir são os contribuintes, não a Banca”, Nuno Melo, eurodeputado do CDS à revista Domingo, do  Correio da Manhã.

 

GOSTO - Isabel Mota passou a presidir aos destinos da Gulbenkian, sublinhando que a arte, a educação e a ciência são os alicerces da tolerância que criam uma sociedade mais solidária.

 

NÃO GOSTO - Os pré avisos de greve cresceram cerca de 20% nos primeiros quatro meses do ano face a igual período do ano passado.

 

BACK TO BASICS - “A Arte é uma garantia de sanidade” - Louise Bourgeois

 

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publicado às 15:35

SE NÃO REAGIRMOS SEREMOS DERROTADOS

por falcao, em 24.03.16

REAGIR - Hoje em dia não sabemos quando atacam, mas sabemos quem ataca. A guerrilha deslocou-se de territórios distantes para dentro das capitais da Europa. As antigas práticas de guerra, com um cerimonial de disposição de tropas - ou as acções da guerra de guerrilha no meio do mato em regiões remotas - são coisas obsoletas comparadas com o que se passa. Com a amplificação conseguida, em tempo real, do efeito dos ataques no actual sistema mediático, os manifestos e as palavras foram substituídos por bombas. Se perguntarmos a alguém qual a causa dos ataques as respostas são tão diversas que se percebe que a origem do que se passa depende do modo como se vê o mundo. Mas é certo que a desorientação e a fragmentação europeias não ajudam a prevenir e a combater quem decide promover esta guerrilha urbana contemporânea. Deixo aqui as palavras de Miguel Monjardino, no Expresso, no dia dos atentados de Bruxelas, sobre os quatro novos objectivos dos terroristas: “Os aeroportos, as estações de metropolitano, os hotéis e as grandes salas de espetáculos nas capitais europeias são agora os principais alvos daqueles que usam o terrorismo para atingir os seus objetivos políticos.” Tudo isto só nos pode fazer lembrar que quem se divide não se defende. Não partilho as palavras de António Costa, néscias, como li algures, quando recomendou "nada de reacções reactivas": Prefiro pensar como se combate o que acontece, sabendo os riscos e as dificuldades. E termino a dizer que se mudarmos as nossas vidas damos a vitória ao terror. Não é isso que queremos.

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SEMANADA - A Câmara de Valongo fez 49 ajustes directos ao mesmo empresário, no valor de 1,5 milhões de euros, entre 2008 e 2013; 147 mil famílias têm o pagamento dos empréstimos à habitação com prestações em atraso; 27% do olival alentejano é de espanhóis; 80% dos camiões de mercadorias portugueses abastecem em Espanha devido ao aumento dos impostos sobre combustíveis em Portugal; o desemprego está a subir há sete meses consecutivos, contam-se agora mais 43 mil desempregados do que em Julho do ano passado; em 2015 verificaram-se 1456 casos de abusos de crianças e 561 casos de violações de pessoas adultas; em 2006 Sócrates quis criar um privilégio judicial para os políticos, do género daquele que Lula e Dilma estão agora a tentar utilizar no Brasil; A área metropolitana de Lisboa foi responsável por 46% do valor das transacções de imóveis realizadas no ano passado; Rui Moreira aproveitou a sua guerra com a TAP a propósito do abandono de rotas a partir do Porto para lançar um livro que é um manifesto pela regionalização, um tema que promete voltar a dar que falar neste ciclo político; António Costa disse que a banca precisa de "capital estrangeiro, seja ele espanhol, angolano, alemão ou americano; Mira Amaral diz que a espanholização da banca põe em risco empresas portuguesas.

 

ARCO DA VELHA - Em Rio Tinto um homem pediu o carro emprestado à vizinha para assaltar uma loja de electrodomésticos na Póvoa do Varzim e foi apanhado porque um televisor, que estava a furtar,  caíu-lhe em cima do pé, deixando-o ferido e impossibilitado de andar - muito menos fugir.

 

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FOLHEAR - Numa semana em que se falou tanto de Angola a propósito do sistema financeiro português foi lançado um livro que é uma preciosa obra de amor e entendimento entre o português que se fala em Portugal e o que se fala em Angola. É um livro que vale mais do que mil acordos ortográficos, destes anacrónicos que nos impõem por decreto. O livro é um glossário de termos que mostram o idioma português vivo no coração de África e é também um manifesto de amizade, assinado por Manuel S. Fonseca, que é meio português e meio angolano, editor e autor, que aqui dá mostras do seu amor a uma língua que se reinventa nos acontecimentos do dia a dia. O livro chama-se “Pequeno Dicionário Caluanda” e foi editado pela Guerra & Paz. Como autor diz, os angolanos conferem à língua portuguesa uma vitalidade própria - em Luanda, os caluandas cantam o português, impregnando-o de um humor salutar que faz a língua portuguesa rir-se como não se ri em mais nenhum lugar onde é falada”. Esta é uma primeira recolha daquilo a que se chama o falar de Luanda. São palavras novas, algumas, outras já com décadas, que conquistaram direito a reconhecimento, tão amplo é hoje o seu uso, já não só em An­gola, mas também em Portugal, em Moçambique e no Brasil.. Vale a pena ler - para sabermos todos mais e para nos conhecermos melhor uns aos outros.

Pedro Cabrita Reis_Galeria João Esteves de Olivei

VER - “Horas Quietas” é o título da exposição de novas obras de Pedro Cabrita Reis, patente desde esta semana na Galeria João Esteves de Oliveira. Outro título possível seria “O Triunfo do Desenho”, já que é a partir do traço que se desenvolvem as 28 peças apresentadas. Praticamente todas usam técnica mista, com recurso a pintura e a colagens em muitos casos, mas com uma presença do desenho mais intensa que na generalidade da obra mais recente do artista. O nu, o desenho do corpo nu de modelos que com ele trabalharam, é o elemento comum, assim como a delimitação geométrica que define o espaço de muitas das obras, mostrando a delimitação entre o desenho e alguma das outras técnicas utilizadas. Muitas vezes o desenho do nu surge de forma quase académica, mas sempre como um ponto de partida ou de  passagem e não como um ponto de chegada nas peças expostas. É claramente uma exposição inesperada e sedutora, que oscila entre o corpo e a natureza, e que revela mais uma vez como Pedro Cabrita Reis mantém a capacidade de surpreender. Há muito tempo que não se viam tantos coleccionadores a marcar peças que desejavam comprar como nesta inauguração. No mesmo dia foi lançado o livro “Horas Quietas”, com a reprodução de todos os desenhos mostrados na exposição, do qual foi feita uma edição especial de 75 exemplares, assinados e chancelados pelo autor e pela galeria. Até 6 de Maio, Rua Ivens 38.

 

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OUVIR - Parece-me ser impossível ficar indiferente à forma como Kenny Barron e o seu trio tocam em “Book Of Intuition”, o disco que agora editaram. Quem gosta da formação clássica do trio de jazz - piano, baixo e bateria - não pode passar ao lado deste CD. Em boa parte isso é devido à forma como Kenny Barron toca piano, com ritmo e melodia, virtuosismo e swing nos sete temas da sua autoria, nas duas versões de temas de Thelonius Monk (sobretudo Shuffle Boil) e no magnífico Nightfall, de Charlie Haden. Se quiserem, o tema de abertura, do próprio Barron, Magic Dance, conta toda a história que está neste álbum - a energia, a criatividade, o desafio. Kenny Barron é dos maiores pianistas contemporâneos de jazz e este registo prova isso mesmo - ao ouvi-lo quase que parece que o piano ganha outra dimensão. E deve dizer-.se que Kiyoshi Kitagawa no baixo e Johnatan Blake na bateria complementam o trabalho de Barron no piano de forma exemplar. CD Impulse, distribuído em Portugal por Universal Music.

 

PROVAR -  Há uma lenda para o folar da Páscoa - parte de uma história de rivalidades, no amor, entre um fidalgo e um pequeno agricultor, que se confrontaram em torno da mesma rapariga. Reza a lenda que, numa aldeia portuguesa, vivia uma jovem chamada Mariana, dividida entre os dois pretendentes. Ambos queriam que ela se decidisse até ao Domingo de Ramos. Chegada essa data, uma vizinha foi muito aflita avisar Mariana que o fidalgo e o lavrador se tinham encontrado a caminho da sua casa e que, naquele momento, travavam uma luta de morte. Mariana correu até ao lugar onde os dois se defrontavam e foi então que, depois de pedir ajuda a Santa Catarina, Mariana soltou o nome de Amaro, o lavrador pobre.  Na véspera do Domingo de Páscoa, Mariana andava atormentada, porque lhe tinham dito que o fidalgo apareceria no dia do casamento para matar Amaro. Mariana rezou a Santa Catarina e a imagem da Santa, ao que parece, sorriu-lhe. No dia seguinte, Mariana foi pôr flores no altar da Santa e, quando chegou a casa, verificou que, em cima da mesa, estava um grande bolo com ovos inteiros, rodeado de flores, as mesmas que Mariana tinha posto no altar. Correu para casa de Amaro, mas encontrou-o no caminho e este contou-lhe que também tinha recebido um bolo semelhante. Pensando ter sido ideia do fidalgo, dirigiram-se a sua casa para lhe agradecer, mas este também tinha recebido o mesmo tipo de bolo. Mariana ficou convencida de que tudo tinha sido obra de Santa Catarina.  Inicialmente chamado de folore, o bolo veio, com o tempo, a ficar conhecido como folar e tornou-se numa tradição que celebra a amizade e a reconciliação.  Com o correr dos tempos ficaram três receitas bem diversas, uma a norte, duas a sul. A do norte, o folar transmontano, não leva açúcar e tem carnes fumadas no seu recheio - por esta altura há feiras do Folar por toda a região transmontana e os de Chaves (que em Lisboa podem ser adquiridos nos “Prazeres da Terra” do largo Dona Estefânia) são particularmente apreciados. Eu por  mim gosto dos folares alentejanos, temperados a erva doce e azeite e que ficam com a massa dura e ovos cozidos no meio. Mas há também os folares algarvios, onde a massa leva leite e canela e o interior fica cremoso - são demasiado doces para o meu gosto. Para mim Páscoa sem folar alentejano é pior que Páscoa sem amêndoas.

 

DIXIT - “Tenho saudades do tempo em que Portugal era um país industrializado. Nós desindustrializámo-nos para além do que era razoável. O país bem escusaria de estar a passar por aquilo por que está a passar” - Carvalho Rodrigues, na sua derradeira aula na universidade.

 

GOSTO - José Pedro Croft e Siza Vieira representam Portugal na Bienal de Veneza

 

NÃO GOSTO - Usar o dinheiro dos contribuintes para pagar a modernização do sector dos táxis, sobretudo quando este teve meios e tempo para se modernizar e optou sempre por o não fazer e continuou a proteger comportamentos inaceitáveis dos taxistas.

 

BACK TO BASICS - A única forma de derrotarmos o terrorismo é não nos mostrarmos aterrorizados - Salman Rushdie

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