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APARTHEID - A frente de esquerda, a que alguns por carinho oficinal chamam geringonça, está a fazer tudo para criar um apartheid na sociedade portuguesa, ao colocar de um lado quem trabalha para a administração e empresas públicas e, do outro, quem trabalha fora do braço protector do Estado como patrão. O resultado é simples: jogar uns contra os outros, Estado contra o que não é Estado. Aquilo a que assistimos por estes dias é à defesa da criação de duas castas - a dos que têm benefícios automáticos e a dos que só progridem se derem provas de que o merecem. Os clamores pela igualdade para todos escondem sempre a parte que não cabe no todos e que, neste caso, já é a maior parte. Se formos ao segmento abaixo dos 35 anos ainda é mais evidente a clivagem: nesse escalão há muito mais gente a trabalhar fora do Estado que em qualquer outro segmento etário. Os que trabalham fora do Estado sabem o que é terem de competir com empresas rivais da sua, terem que desenvolver produtos que sejam vendáveis, dever prestar serviços de forma eficaz, sob pena de as suas empresas serem preteridas por outras. Mas Estado há só um e não há como lhe fugir. Ainda vivemos numa época em que a maioria dos políticos passou a vida a trabalhar para o Estado - na Administração central, local ou em empresas públicas. Cresceram com a certeza de que os votos vinham daí e que esse colégio eleitoral tinha que ser protegido. Mas com o andar dos tempos há menos gente a receber ordenado do Estado. Um dia destes os eleitores que não trabalham para o Estado vão revoltar-se contra os políticos que defendem o apartheid social.

 

SEMANADA - Os partidos que apoiam o Governo apresentarem 492 propostas de alteração ao Orçamento de Estado com reflexos no aumento da despesa pública; a Comissão Europeia diz que o Orçamento português arrisca violar as regras europeias de ajustamento orçamental e em causa está uma redução estrutural do défice inferior à recomendada e um aumento da despesa considerado excessivo; peritos de Bruxelas dizem que a despesa com salários da função Pública vai custar mais 385 milhões de euros do que o Governo previu no Orçamento, sem contar com novos encargos pendentes de negociações com os sindicatos; a Comissão de Protecção de Dados considera que o Orçamento de Estado propõe demasiadas interconexões entre bases de dados da administração pública; o sector empresarial do Estado registou no ano passado prejuízos de cerca de 408 milhões de euros e a Parpública foi a que registou maior aumento de perdas nesse período; nos últimos quatro meses, em Portugal, foram feitos 3500 furos de água; cada português gasta por dia 220 litros de água, o dobro do considerado suficiente pelas Nações Unidas; o tempo médio de espera para o início de tratamento de alcoólicos já ultrapassa os dois meses; ficaram por ocupar cerca de meia centena de vagas para médicos de família por falta de candidatos; 91% dos trabalhadores do Infarmed estão contra a mudança para o Porto.

 

ARCO DA VELHA - A base de dados de pedófilos condenados, que tem mais de cinco mil nomes e que foi criada há dois anos com o objectivo de ser usada pelos orgãos de investigação criminal, nunca foi consultada por PSP, GNR ou PJ, apesar de crescente número de casos de abuso de menores.

 

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FOLHEAR - A “Monocle” já não surpreende com frequência, mas neste mês conseguiu dar nas vistas: fez uma entrevista com o ex-presidente brasileiro Lula, a que dá chamada de capa com o título “O Regresso de Lula”,  com direito a três páginas, no essencial laudatórias. Para o ex-presidente nas malhas da Lei esta foi a possibilidade de se reposicionar numa revista de difusão internacional e dirigida a um segmento influente. Lula curiosamente afirma na entrevista que “a solução para a crise económica é a credibilidade”. Quase me apetece dizer que a peça sobre Lula podia ser considerada conteúdo patrocinado.... Surpresas à parte, esta edição de Dezembro da “Monocle” inclui o já tradicional relatório anual sobre os países que melhor exercem o seu “soft power”, um misto de diplomacia com encanto e comunicação. Portugal aparece na posição 12, em subida comparativamente com o ano passado, logo atrás da Itália e Dinamarca e à frente da Nova Zelândia, Espanha e Noruega. O ranking de 25 países é liderado pelo Canadá, Alemanha e França. Sobre Portugal a revista deixa no entanto um aviso: “à medida que cresce o número de visitantes é importante o país focar-se na salvaguarda da sua autenticidade”. Um outro destaque português surge na lista “Travel Top 50” com o Hotel Ritz (“Top untouched modernist hotel”) e com as tripulações da TAP (“Most handsome crew”). Finalmente na secção de comidas e bebidas surge em destaque o restaurante Jncquoi, na Avenida da Liberdade. Por fim, uma notícia: efeito colateral do Brexit, a “Monocle” vai mudar o seu quartel general de Londres para Zurique. Já me esquecia - esta é  a edição com sugestões de prendas de Natal. Nada austeras.

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VER - A nova exposição de Pedro Calapez surge como uma surpresa, rasgando horizontes em relação ao que tem sido a evolução da sua obra nos anos mais recentes. São pinturas sobre papel e alumínio (na imagem), criadas em várias dimensões, rasgando a escala habitual, e sugerindo diversas formas de ver e de poderem ser vistas. Integralmente composta por obras inéditas, feitas para esta mostra que assinala o 5º aniversário da Galeria Belo-Galsterer, a exposição evidencia a forma como Calapez optou por trabalhar sobre formatos inesperados. O nome escolhido - “Tracção e Compressão simples entre limites elásticos” - é particularmente indicado para mostrar as diferentes abordagens, de material de suporte e de concepção da sua forma. Vai ficar na na Belo Galsterer, Rua Castilho 71, r/c esq, até 20 de Janeiro. Outro destaque vai para a exposição “2 desenhos e 2 esculturas”, de José Pedro Croft, na Galeria Vera Cortês. Croft, que representou Portugal este ano na Bienal de Veneza, apresenta quatro trabalhos inéditos. Permito-me chamar  a atenção para os desenhos, que vão para além da aparência do traço, numa construção minuciosa feita sobre papel, manipulado e trabalhado de forma a permitir diversas leituras. Na Rua João Saraiva 16-1º, até 13 de Janeiro. N´A Pequena Galeria, (avenida 24 de Julho 4C),  Luiz Carvalho apresenta “O Resto É Paisagem”, uma exposição de fotografias feitas ao longo da sua vida e a que aqui regressaremos para a semana.

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OUVIR - A carreira de Seal começou no início dos anos 90, ao longo do tempo editou dez álbuns e afirmou-se como uma das vozes mais interessantes, muitas vezes na fronteira entre a pop e o soft jazz, com influências dos blues e da soul music e de nomes como Tony Bennett ou Nat King Cole. O seu  mais recente CD acaba de ser publicado e o nome corresponde exactamente ao seu conteúdo: “Standards”. Trata-se de um conjunto de canções que ganharam fama, originalmente feitas entre os anos 30 e 60 do século passado. Neste álbum Seal é acompanhado por uma orquestra de 65 elementos, com arranjos de Chris Walden, num registo que muitas vezes se aproxima de uma gravação ao vivo. O começo do disco é arrasador: “Luck Be A Lady”, “Autumn Leaves” e “I Put A Spell On You”. Ao todo são 14 temas, entre os quais podemos ainda encontrar “They Can’t Take That Away From Me”, “Love For Sale”, “My Funny Valentine”, “I’ve Got You Under My Skin”, “The Nearness Of You” e, claro, “Christmas Song”, entre outros. Seal é um vocalista de créditos firmados, com uma capacidade de interpretação invulgar. É justo dizer o que o disco é marcado por um espírito de risco na sua abordagem a “I Put A Spell On You”, uma interpretação arrebatadora onde Seal é acompanhado de um coro gospel. O mesmo desejo de fazer  a diferença ouve-se em “I Got You Under My Skin”, onde descola da abordagem que Nelson Riddle  fez para a marcante interpretação de Sinatra. CD Decca /Universal já disponível em Portugal.

 

PROVAR - Há cerca de duas décadas Manuel Martins ganhou fama com os seus petiscos alentejanos num pequeno estabelecimento na Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, a que chamou “A Charcutaria”. Alguns anos depois resolveu mudar-se para uma casa bem maior, na Rua do Alecrim. Continuou a ganhar fama mas a certa altura as coisas começaram a correr menos bem e este ano, há uns meses, decidiu voltar a Campo de Ourique, à Rua Francisco Metrass. É bem visível o peso da idade, mas o talento nos sabores alentejanos continua igual. As suas empadas de galinha têm uma massa finíssima e um recheio leve e continuam a ser uma iguaria. O pão, obviamente alentejano, é fatiado finíssimo. Na ementa introduziu umas saladas (como por exemplo de pêra, canónigos, pinhões e parmesão), mas mantém bons clássicos - como os seus pastéis de massa tenra acompanhados por arroz de coentros que continuam soberbos. E claro que na lista ao longo do ano surgem pratos como os pezinhos de coentrada, perdiz estufada, perdiz de escabeche,  empada de perdiz ou a lebre com feijão..Lá estão ainda nos queijos um serpa curado e um de cabra, também curado, muito saboroso e, nas sobremesas, um belo bolo de chocolate e doces conventuais. O vinho servido a copo é o alentejano Nunes Barata, tanto tinto como branco, e ambos cumprem com honestidade a sua função. Manuel Martins continua sempre simpático, focado nos clientes e a fazer boa cozinha alentejana, simples, com qualidade, e aqui com preços muito convidativos. A sala é pequena, como na casa original, tem uma dúzia de lugares e está aberta ao almoço e jantar todos os dias excepto ao domingo. A Charcutaria, Rua Francisco Metrass 64, telefone 215 842 827. Aceita encomendas para fora.

 

DIXIT - “Mudar sedes da Administração Central é desconcentrar. Descentralizar é transferir competências da Administração Central para Entidades Regionais ou Locais” - Luis Paixão Martins, no Facebook.

 

GOSTO - The Presidential, o comboio turístico de luxo do Douro, que usa as carruagens utilizadas por Presidentes da República recuperadas pelo Museu Nacional Ferroviário, ganhou o Best Event Awards de 2017.

 

NÃO GOSTO - Mais de 200 mil utentes foram afectados pela greve dos técnicos de diagnóstico e terapêutica.

 

BACK TO BASICS - Vale mais um exército de ovelhas comandado por um leão, que um exército de leões comandados por uma ovelha - Damião de Goes

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CAMPANHA - E pronto, começou a campanha eleitoral. O Governo entrou nela a pés juntos com promessas de redução da carga fiscal, os autarcas em exercício com inaugurações e, nalguns casos, como o de Medina, com promessas por cumprir e muitas obras por acabar, além dos engarrafamentos que vão aumentando. Os eleitores começam a estar fartos destas aldrabices. Querem ver? - Desde 1976 realizaram-se em Portugal 11 eleições autárquicas e nestes 41 anos, a taxa de participação eleitoral foi descendo depois dos primeiros entusiasmos, o que diz alguma coisa sobre o relacionamento de eleitos com eleitores.  Na primeira eleição a participação foi de  64.55% dos inscritos, na eleição seguinte, em 1979, esse valor subiu para 73.77% e ainda se manteve acima dos 70% nas eleições de 1982. A partir dessa data a participação foi diminuindo com o valor mais baixo de sempre a registar-se  nas últimas eleições, de Setembro de 2013, onde  participação andou pelos 52,6%, com 6,8% de votos brancos e nulos. Ou seja a maioria dos eleitores não votou em nenhum candidato. Há uma minoria que elege e a maioria da classe política não se incomoda com o assunto porque a abstenção é a garantia de que não há sobressaltos nem alteração do status quo partidário vigente. Os incumbentes preferem que a abstenção continue o seu caminho e lhes garanta o lugar por arrasto. Por isso Medina não se importa que haja menos habitantes e menos eleitores em Lisboa. Até lhe dá jeito.

 

SEMANADA - Segundo o INE, o número de pessoas entre os 20 e 34 anos que habitam em Lisboa passou de 95.830 em 2011 para 67.916 em 2016, uma diminuição de 29%, sendo assim o concelho onde o número de jovens adultos mais diminuiu; o número de licenciados do ensino privado caiu 41% em dez anos; Azeredo Lopes não esclareceu na Assembleia da República se houve ou não assalto aos paióis de Tancos; o Bloco de Esquerda propôs que jovens com mais de 16 anos possam processar os pais que não aceitem a sua vontade de mudarem de sexo; Mário Centeno apressou-se a explicar que afinal o prometido alívio fiscal no IRS , que ele próprio tinha anunciado, não se destina a todos os contribuintes; o primeiro ministro admitiu que Portugal pode apresentar uma candidatura à presidência do Eurogrupo; na primeira semana de entrada em vigor de nova legislação sobre imigração deram entrada 4000 pedidos de autorização de residência de estrangeiros em Portugal; o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não recebeu informação sobre os suspeitos do processo brasileiro Lava-Jato e alguns deles pediram vistos Gold; as receitas do IMI cresceram 150% depois da avaliação arbitrária e unilateral dos imóveis pelo Estado; em ano de eleições autárquicas as Câmaras Municipais já arrecadaram mais 100 milhões de impostos até Julho do que em igual período de 2016; “proibir os jogos de futebol nos dias em que há eleições é mais uma boa ideia para levar os portugueses à abstenção” -  escreveu Miguel Esteves Cardoso.

 

ARCO DA VELHA - Dos 21 relatórios encomendados pelo Governo sobre o incêndio de Pedrogão nenhum atribui culpas a quem quer que seja sobre o ocorrido nas mais diversas áreas, das comunicações ao comando das operações, passando pela actuação das forças de segurança ou dos organismos de coordenação e prevenção.

 

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FOLHEAR - A revista Wallpaper foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, que a dirigiu até 2002 e desde o início a publicação convida nomes conhecidos das artes, da arquitectura, do design ou da moda para editar o número de Outubro. Este ano, para assinalar o 21º aniversário da Wallpaper, revisitam-se os 21 convidados, entre os quais Karl Lagerfeld, Philippe Starck, David Lynch, Louise Bourgeois, Robert Wilson, os Kraftwerk, Lang Lang, Frank Gehry, Jean Nouvel, Jeff Koons Hedi Slimane e Dieter Rams, entre outros. E a todos os possíveis foi pedida uma ideia nova para esta edição. A capa , aqui reproduzida, foi concebida pelo atelier Zaha Hadid a partir de um modelo gráfico gerado em computador. É um prazer ver que neste tempo de crise da imprensa e das dificuldades em obter publicidade para muitas revistas, as 44 páginas iniciais desta edição da Wallpaper são publicidade de algumas das maiores marcas mundiais de moda e design - e ao longo das 420 páginas muitas são de publicidade. Destaco nesta edição na área da arquitectura (a transformação de um silo de armazenagem em museu na Cidade do Cabo para acolher arte africana contemporânea), das artes plásticas (Miguel Barceló e o japonês Takashi Murakami) ou do design (o nonagésimo aniversário da prestigiada marca italiana de mobiliário Cassina). À margem, um dos artigos mais curiosos é sobre o design das embalagens de medicamentos e produtos farmacêuticos, desde as primeiras embalagens de Aspirina aos logotipos de alguns laboratórios ao longo dos tempos. Outro artigo curioso mostra uma vinha e uma adega no Japão, uma experiência pioneira naquele país. Para rematar há um destaque português, dedicado aos sabonetes Claus, do Porto.

 

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VER - André Gomes usa a fotografia como instrumento de construção de ficções que traduz em imagens. Durante anos trabalhou a partir de polaroids e nos tempos mais recentes passou a utilizar imagens fotográficas digitais que usa depois como base para manipulação, muitas vezes criando colagens electrónicas. Esta semana apresentou os seus dois mais recentes trabalhos, o pequeno ensaio “Numa Noite Igual” e, sobretudo,  “Casa da Estrada” - um projecto que conta uma história imaginada, ocorrida entre os kms 35 e 36 da Estrada Nacional 332, no distrito da Guarda. A “Casa da Estrada”  evoca uma narrativa mística, inspirada por citações dos evangelhos , cruzada com imagens aparentemente banais mas com um grau de construção assinalável, criando uma sucessão de ambientes e situações onde o real e o artificial se misturam. Não deixa de ser curioso pensar que André Gomes, com uma carreira no teatro a interpretar personagens imaginadas, transpõe para um suporte aparentemente tão reprodutor da realidade, como é a fotografia, a ideia da fantasia através da encenação da imagem.  Até 21 de Outubro na Galeria Diferença, Rua São Filipe Nery 42. Outras sugestões: em primeiro lugar, no Porto, na Galeria Quadrado Azul, Paulo Nozolino expõe até 16 de Novembro “Loaded Shine”  que reúne 20 fotografias feitas entre 2008 a 2013 em locais tão diferentes como Nova Iorque, Paris, Berlim e Lisboa, mas também lugares no interior de França e de Portugal; depois, em Lisboa, na Plataforma Revólver, “Lights, Camera, Action”, do francês Renaud Monfury, mostra uma série de fotografias que retratam o mundo do cinema; e finalmente, no Centro Cultural de Cascais, “Em Plena Luz”, uma centena de fotografias do norte-americano Herb Ritts, essencialmente sobre estrelas do cinema, da música e da moda, em exposição até 21 de Janeiro.

 

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OUVIR - Nos últimos tempos tem-se assistido a um renascer das edições de discos em vinil, muitas vezes a partir de originais remasterizados, com prensagens de alta qualidade que utilizam vinil virgem de grande densidade. Para dar resposta a este público crescente - basta ver o aumento do tamanho das prateleiras de vinil nas lojas de discos como a FNAC e El Corte Ingles - a Warner lançou seis títulos que são clássicos da música portuguesa dos últimos 30 anos. Cinco deles são editados pela primeira vez em vinil - três são de Madredeus e três de Mariza.” O Espírito da Paz”, primeiro disco de Madredeus, foi originalmente publicado em 1994 e, na altura, teve uma tiragem em vinil limitada a 500 cópias e ressurge agora remasterizado. Dois outros títulos de Madredeus agora lançados surgem pela primeira vez em vinil: o álbum de remisturas “Electrónico”,  de 2002, onde a música do grupo foi revista por produtores como Craig Armstrong, Manitoba ou Telepopmusik e a recolha de êxitos “Antologia”, lançada em 2000. Quanto a Mariza, três dos seus álbuns vêem agora primeira edição em vinil: “Fado Em Mim” , de 2001, que foi a estreia da cantora ( e que inclui “Ó Gente da Minha Terra”), “Mundo”,  de 2015, que é o seu mais recente trabalho de estúdio, e o “Best Of” de 2014, que junta três inéditos a 17 êxitos da carreira de Mariza. Acreditem que quando ouvirem qualquer destes LP’s numa boa aparelhagem vão descobrir nestes discos de vinil  uma sonoridade diferente.

 

PROVAR -   Como alguns leitores já terão notado um dos passatempos que me ajuda a descontrair é cozinhar e ir descobrindo possibilidades na combinação de sabores. Ora para cozinhar não são precisas muitas coisas além de boa matéria prima, mas há meia dúzia de utensílios que ajudam muito o trabalho de amadores como eu, que gostam de estar sozinhos na cozinha. Confesso que sou fascinado por gadgets de cozinha - desde tábuas de cortar a mandolinas, passando por pinças até peças sérias como as panelas de ferro da Creuset para lume e forno, as frigideiras De Buyer, ou as assadeiras redondas de ferro fundido, fantásticas para levar ao forno o que se começou a preparar na chama do fogão, ou mesmo simples panelas de bambu para cozer a vapor. Não é fácil encontrar tudo isto num só lugar mas, há pouco tempo, descobri na Avenida 5 de Outubro, junto ao cinema Nimas, a filial lisboeta da casa César Castro, originalmente do Porto, e que se dedica a ter todos os utensílios possíveis e imaginários para utilizar na cozinha, com pessoal competente para esclarecer dúvidas. Não poucas vezes, depois de ler uma receita no site www.epicurious.com ,  é lá que me dirijo para procurar alguma coisa que me faz falta para garantir que o preparo sai bem feito. Claro que esta mania coleccionista gera problemas de falta de espaço na cozinha doméstica, mas com jeitinho e paciência tudo se consegue. E com o material adequado o resultado final do cozinhado é bem melhor. www.cesar-castro.pt .

 

DIXIT - “Entrar aqui um grupo de políticos ou de turistas é a mesma coisa: nunca nenhum me comprou um peixe” - Cristina Jesus, peixeira em Matosinhos, sobre as incursões de caravanas partidárias no Mercado durante as campanhas eleitorais.

 

GOSTO -  Da presença de artistas portugueses fora de portas: José Barrias expõe “collezionista de echi” na Nuova Galleria Morone em Milão, Cristina Ataíde está em Madrid na Estampa 2017, na Galeria Magda Bellotti, e Pedro Calapez está em Palma de Maiorca com “”El Límite Ubiquo”na Galeria Maior.

 

NÃO GOSTO - Segundo a Anacom, desde Abril de 2011 que os preços das telecomunicações crescem mais em Portugal do que na União Europeia.

 

BACK TO BASICS - “Aqueles que vos fazem acreditar em coisas absurdas são os mesmos que depois cometem atrocidades” - Voltaire

 

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publicado às 13:45

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AUTARQUIAS - Com a abstenção provavelmente perto dos 50% o país está dividido entre quem vota e quem não vota nas eleições deste ano, que são as autárquicas. Há muitas razões para o desinteresse no voto - a maneira como os partidos funcionam, a má fama que demasiados casos de corrupção criaram no seio de autarcas - de presidentes da junta a presidentes de câmaras importantes. Mas é forçoso reconhecer que, corrupções e compadrios à parte, o país, numa série de coisas, mudou para melhor com o trabalho de muitos autarcas dedicados às populações que os elegeram. Sou dos que partilha a opinião de que a participação cívica e política mais importante e com maior capacidade de concretização de transformações é a nível das autarquias. Isto acontece a vários níveis, desde a limpeza ao ordenamento do trânsito. Há presidentes de juntas de freguesia que, com poucos recursos, fazem milagres, que contactam diariamente com as populações, que pensam no interesse de quem ali vive e não das imposições dos presidentes de Câmara que são do mesmo partido - embora infelizmente ainda exista, sobretudo nas grandes cidades, muita submissão a interesses partidários em vez de aos interesses dos cidadãos. Há autarcas que sabem utilizar bem as novas formas de comunicação para ouvir reivindicações e protestos, a que depois respondem. Se todos os dias estamos mais perto uns dos outros nas redes sociais, como é que depois há autarcas que se fecham numa torre de marfim e não percebem a realidade? São esses que dão má fama à política, são esses que afastam as pessoas do voto. Cada nova eleição é um teste à forma de funcionamento da democracia. Quem está no poder - a nível nacional, municipal ou local, tem especiais responsabilidades na forma como os eleitores se vão comportar. Vai ser interessante estudar onde se verifica maior abstenção. Estas eleições são o melhor termómetro do estado da nação.

 

SEMANADA -  A Covilhã quer posicionar-se como o maior produtor de pêssegos do país; a Câmara de Cascais está a ser investigada por ter aprovado a transformação de terrenos agrícolas numa área urbana na zona de Birre; um estudo da Marktest quantifica em 2 milhões e 987 mil o número de portugueses que referem ter consumido vinho do Porto nos últimos 12 meses, o que representa 36.2% dos residentes no Continente com 18 e mais anos; em 2017 o volume de vinho produzido vai atingir  6,6 milhões de hectolitros, mais 10% que no ano passado e o maior potencial de subida está no Douro e no Dão, enquanto o Alentejo será batido pela região de Lisboa; o consumo de cerveja em Portugal no primeiro semestre aumentou 10% em termos homólogos, o que a manter-se este ritmo levará 2017 a ser "o ano com os maiores crescimentos da última década"; no último ano cerca de três milhões de lares consumiram cerveja em casa, o que representa 76% de aumento em relação ao período homólogo; o estudo Bareme Rádio da Marktest quantifica, no primeiro semestre de 2017, em 6 milhões e 646 mil o número de residentes no Continente que ouviram rádio numa base semanal, o que corresponde a 77.6% dos residentes no Continente com 15 e mais anos; em termos médios cada português ouviu, ao longo do semestre, 3 horas e 7 minutos de rádio por dia; o consumo médio de televisão anda nas cinco horas e 28 minutos por dia e por telespectador; na mesma semana deram grandes entrevistas Marcelo Rebelo de Sousa e Eduardo Lourenço - gostei mais desta última.

 

ARCO DA VELHA - Trump tomou posse há pouco mais de 190 dias e a Casa Branca já registou 17 baixas, entre despedimentos e pedidos de demissão. Anthony Scaramucci só ocupou o cargo durante 10 dias.

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FOLHEAR - Como tem acontecido, desde 2015, chega-se a esta altura do ano e a Monocle edita “The Escapist”, que se apresenta como “uma publicação sobre locais menos conhecidos”. Chega o Inverno e sairá “The Forecast”, que se dedica a adivinhar tendências futuras. “The Escapist” é mais hedonista, completamente dedicada aos prazeres estivais - é afinal o assumido guia anual proposto pela Monocle sobre os locais onde deve ir descansar, fazer compras, jantar e preguiçar enquanto estiver de férias.  Mas há uma novidade este ano - a “Monocle” junta a “The Escapist”, a partir da próxima semana, uma publicação em formato de jornal, com 48 páginas, “ The Monocle Summer Weekly” que irá ter quatro edições ao longo do mês de Agosto. Tyler Brulé mantém-se fiel à sua convicção de que nada substitui o papel impresso quando o produto é feito com qualidade, rigor e ambição. Nesta edição “The Escapist” propõe a descoberta dos tesouros da arquitectura modernista em Columbus, Indiana, nos Estados Unidos, um cruzeiro no Reno, uma visão optimista da capital romena, Bucareste ou locais mais recônditos como Tottori, no Japão, Canguu (no Bali), Broome (Austrália) ou ainda Semmering, um refúgio nas montanhas da Áustria, cheio de memórias do final do século XIX. E um destaque a Portugal - esta edição inclui a lista dos 100 melhores restaurantes, segundo a equipa da Monocle, e o primeiro lugar foi arrebatado pelo Bistro 100 Maneiras do chef Ljubomir Stanisic. O segundo lugar foi para um restaurante em Tóquio, o terceiro para um em Nova Iorque, enquanto o quarto lugar foi para o incontornável “The River Café” de Londres e o quinto para um em Melbourne, na Austrália. E o Porto também teve prémio - o “Taberna dos Mercadores”, na Ribeira, aparece na 41ª posição.

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VER - Com a maior parte das galerias em ritmo de Agosto, sem grandes exposições a abrir, o destaque vai para a nova mostra no British Bar, na série de pequenas exposições nas montras do local, organizadas por Pedro Cabrita Reis. Todas as últimas sextas feiras de cada mês renova-se a escolha e a que entrou na semana passada mostra obras de Francisco Queirós, Pedro Barateiro e Lourdes Castro - trata-se da quarta ronda de artistas convidados a expor no Cais do Sodré nesta iniciativa que conjuga um belíssimo bar com a arte contemporânea portuguesa - iniciativa única, gratuita e pública, numa cidade tão percorrida por turistas. Pedro Calapez expõe desde este fim de semana até final de Setembro um conjunto de obras recentes (na imagem) na Galeria Maior, em Polença, Mallorca, a maior ilha das Baleares. Outro destaque é a mostra de filmes de animação japoneses do célebre Studio Ghibli, que decorre entre 6 e 27 de Agosto, aos Domingos pelas 18h00 no Museu de Oriente. Se lá for aproveite para descobrir as exposições sobre a Ópera Chinesa ou a exposição de fotografia “Tanto Mundo”, de João Martins Pereira, que até 10 de Setembro mostra 50 retratos feitos na China, Nepal, Butão, Tanzânia, Senegal, Indonésia, Etiópia e Índia. Já agora, se estiverem em Lisboa, não percam no Cinema Ideal, ao Chiado, a partir de 17 de Agosto a exibição de “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” e “As Donzelas de Rochefort”, de Jacques Demy, em cópias digitais restauradas.

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OUVIR - Há qualquer coisa de final dos anos 80 no segundo disco a solo de Chris Baio, o baixista dos Vampire Weekend. “Man Of The World” é uma colecção de canções pop com uma grande utilização de electrónica e com a particularidade de constituírem um almanaque de observações sobre o evoluir da política dos dois lados do Atlântico, desde Trump ao Brexit, passando pelas alterações climatéricas. Tal como “Sunburn”, o seu primeiro EP a solo, de 2012, este “Man Of The World” avança pelo território das pistas de dança, mas é bem melhor que o álbum anterior, “The Names”. Agora Baio atingiu um equilíbrio entre o pop, o techno e as palavras que quer transmitir. “Philosophy”, a canção escolhida para single deste novo trabalho, aborda a falta de comunicação entre as pessoas. E embora todos os temas tenham uma mensagem qualquer que querem veicular, Chris Baio conseguiu fazer um disco que não é aborrecido nem pretensioso. É um disco pop, condimentado com observações sobre o que se passa à sua volta, como é tradição na melhor música pop. E, nesse sentido, é do melhor que tem sido feito em matéria pop nos tempos mais recentes. Disponível no Spotify.

 

PROVAR -  Para esquecer das agruras do atendimento algarvio, nada como revisitar alguns clássicos lisboetas. Hoje falo do regresso estival ao Salsa & Coentros, no 1º dia de Agosto - casa cheia nos dois pisos e na nova esplanada que abriu este ano, a simpatia de sempre do Sr. José Duarte e da sua equipa e uma surpresa: nos pratos do dia estava sopa de beldroegas. Ele há a época da lampreia e do sável, o mês das sardinhas, o tempo da caça. Mas uma das melhores alturas do ano fica a meio do verão, quando as beldroegas estão viçosas, com folhas carnudas e tenras. Agosto é o seu grande mês e encontrar em Lisboa uma sopa de beldroegas  bem feita não fácil - mas o Salsa & Coentros, com a sua dedicação alentejana, trata do assunto e segue à risca a receita recolhida por Maria de Lurdes Modesto: beldroegas frescas e tenras, azeite do melhor, louro, alho, queijo de ovelha ou de cabra, ovos e batatas. A beldroega nasce espontaneamente junto de ribeiras, é oriunda do médio oriente e em Portugal está presente no Alentejo e Algarve. O que se aproveita em termos culinários são as folhas e a parte de cima dos caules, que deve ser cortada em pequenos pedaços. O seu sabor é único. A sopa de beldroegas é originária do Baixo Alentejo e é por si só uma refeição - o queijo é cozido no caldo e o ovo é escalfado. Dizem os entendidos que as propriedade nutricionais da beldroega são extraordinárias - eu acho o seu sabor acima de extraordinário e agradeço ao Salsa & Coentros ter-me dado esta inesperada alegria. Rua Coronel Marques Leitão 12, em Alvalade, telefone 218 410 990 .

 

DIXIT -  É preciso que não estejamos sempre a viver um Ronaldo colectivo, um “nós somos o melhor do mundo” - Eduardo Lourenço, entrevistado por Isabel Lucas.

 

GOSTO - Ana Ventura Miranda vive em Nova Iorque e criou o Arte Institute que já organizou 300 eventos, onde participaram 650 artistas, em 20 países, com o objectivo de divulgar a cultura portuguesa e com uma ínfima parte do que algumas instituições oficiais gastam.

 

NÃO GOSTO - Muito má ideia a destruição do restaurante Gôndola, frente à Gulbenkian, fruto de um negócio de terrenos que envolveu a Câmara Municipal e um Banco.

 

BACK TO BASICS - “O amor é a única doença que nos faz sentir melhor” - Sam Shepard.

 

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EUROPA: UTOPIA & CONFORMISMO

por falcao, em 18.11.16

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EUROPA - Quando olho para a política portuguesa e para a relação dos seus vários actores com a Europa e o Mundo fico a pensar que tudo se resume a isto: um dos lados gosta de alimentar utopias e é um pouco avesso às realidades, enquanto o outro se apresenta sistematicamente conformista e sobrevaloriza exigências externas. O problema não é de agora - desde a adesão à União Europeia criou-se o mito do aluno exemplar, sempre obediente. Foi assim que enquanto outros países, como a Espanha, foram protelando ou mesmo evitando acabar com o proteccionismo a actividades económicas nacionais, Portugal foi rápido a cumprir ordens, com manifesto prejuízo para a agricultura, a pesca e a indústria. Sabe-se hoje que a França, especialista em proteger a sua agricultura e indústria, violou sistematicamente os compromissos que assumiu, com a complacência de outros estados. Na realidade o que existe é uma Europa a duas velocidades, o que criou em cada um dos Estados membros níveis diferentes de obediência a Bruxelas. O poder da burocracia comunitária é sempre rápido a querer mais dos cumpridores e tolerante para com os prevaricadores. Quando as coisas funcionam assim o resultado não pode ser bom. Está à vista de todos a fraqueza da Europa nos dias que correm.                         

 

SEMANADA - Este ano o emprego precário na administração pública aumentou 9,6%; a economia portuguesa cresceu 1,6% no terceiro trimestre deste ano e o turismo teve um peso relevante nesse crescimento; a concessão de crédito ao consumo voltou a aumentar em setembro, atingindo 514 milhões de euros, o valor mensal mais elevado desde 2013; um estudo recente revela que metade dos portugueses consideram a corrupção um dos maiores problemas do país; o fisco deu ordens para acelerar a cobrança de impostos em falta; devido aos impostos a gasolina portuguesa é a sexta mais cara da Europa; os depósitos acima dos 100 mil euros caíram 3400 milhões de euros nos últimos 12 meses; o custo dos cartões multibanco disparou 30% num ano; está prevista a abertura de mais trinta hotéis em Portugal durante 2017; as autoridades policiais portuguesas registam 26 queixas por dia de burlas na internet; as burlas informáticas quadriplicaram nos últimos cinco anos; há 150 mil pessoas com deficiência auditiva profunda que têm dificuldades no acesso a serviços públicos; segundo a marktest 76,8% dos lares portugueses subscrevem serviços em pacote de telefone, internet e televisão.

 

ARCO DA VELHA - Uma exposição sobre o quotidiano de Lisboa no século XVI, “A Cidade Global”, prevista para o Museu Nacional de Arte Antiga, foi inesperadamente adiada para o próximo ano e coleccionadores que iam emprestar obras dizem que a explicação que lhes foi dada sobre o adiamento é a falta de dinheiro para pagar o transporte e seguros das peças.

 

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FOLHEAR - As primeiras 53 páginas da revista que tenho nas mãos são dedicadas a uma reportagem sobre a vida dos ciganos no Alentejo.  A revista chama-se “Berlin Quarterly” e tem por subtítulo “ European Review Of Culture”. Este é a sua quinta edição. “Berlin Quarterly” é mais  um dos exemplos da nova imprensa de nicho que aposta na preservação do papel como meio privilegiado para a publicação de reportagens e ensaios. “Across Those Hills” é o título da reportagem sobre os ciganos alentejanos, com texto de Tiago Carrasco e fotografia de  Daniel Costa Neves, que têm aqui um espaço editorial que em Portugal dificilmente obteriam. A revista é feita a partir de colaborações de diversas nacionalidades e que retratam realidades bem diversas dentro do espaço europeu . seja lá isso o que fôr. Inclui reportagens, ensaios escritos e fotográficos, poesia e ficção - como por exemplo a proposta de Matilde Campilho, intitulada “Jockey”. Os textos são publicados em inglês e no idioma original. Com um total de 250 páginas, cada autor tem espaço para publicar como entende. Este é um conceito muito curioso, podem saber mais em berlinquarterly.com . Um dos artigos mais interessantes é uma entrevista com Trevor Panglen na qual ele explica como as máquinas estão actualmente a captar imagens que outras máquinas vão ler e interpretar, removendo o ser humano da intermediação da observação da realidade.

 

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VER - No fim de semana passado rumei a S. João da Madeira para a Oliva Creative Factory, um espaço que ocupa as antigas instalações industriais da Oliva - que no pós guerra do século XX fabricou de máquinas de costura a banheiras, no tempo em que havia indústria e se compravam produtos portugueses. Ali, por obra do município local, nasceu um espaço que acolhe diversas artes e algum comércio da área do design e do artesanato contemporâneo. A Oliva Creative Factory tem vários espaços e acolheu, por exemplo, a colecção de Treger/Saint Silvestre, um casal de franceses que escolheram o local para depositarem o seu acervo, com  núcleos de arte bruta, artes marginais e arte contemporânea e ainda núcleos de vocação etnográfica, num conjunto de dimensão importante a nível internacional.  Mas o que ali me levou foi uma instalação de José Barrias, um artista plástico português que vive em Milão há décadas, e que deu um novo sentido à antiga sala dos fornos, induzindo na arquitectura industrial arruinada a componente majestática de uma catedral imaginada, usando as cores como símbolos, num exercício de transfiguração do espaço e do tempo. Rumando mais a norte, ao Porto,  fui ver o que Pedro Calapez levou à Galeria Fernando Santos, um dos espaços de referência da Rua Miguel Bombarda. Calapez apresenta obras novas (na imagem), sob o título genérico “Configurações”, introduzindo peças que exploram várias dimensões e perspectivas, com planos diferenciados,  e que, pontualmente, revelam a reintrodução do desenho na sua pintura com algumas técnicas novas em relação à sua produção mais recente. Não certamente por acaso as derradeiras  salas da Galeria são dedicadas a desenhos seus de grandes dimensões, imponentes e marcantes. É impossível não pensar que, até na forma como a exposição está montada, Calapez evoca o triunfo do desenho nesta sua nova exposição que ficará patente na Rua Miguel Bombarda 526 até 7 de Janeiro.

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OUVIR - Deixei de gostar dos Pinkfloyd em 1973, quando foi publicado “Dark Side Of The Moon”. Já não tinha gostado muito de “Atom Heart Mother” e decididamente os meus preferidos são os discos gravados entre 1967 e 1972. Em vésperas de se assinalarem 50 anos sobre o primeiro disco do grupo, “The Piper At The Gates Of Dawn”, foi editada uma belíssima colectânea intitulada “Pink Floyd, The Early Years, 1967 - 1972, Cre/ation”. “Arnold Layne” e “See Emily Play” são as duas primeiras canções deste duplo CD, e são os dois primeiros singles da banda. “Ummagumma”, de 1969, é o álbum de que eu gosto mais - e ainda conservo a edição original em vinyl e uma posterior em CD. A presente colectânea tem 27 temas que representam na realidade a quase totalidade dos momentos altos dos Pink Floyd na fase inicial da sua carreira. Inclui gravações originais, mas também registos ao vivo (como uma aceitável versão de “Atom Heart Mother” gravada em 1970 em Montreux) e até remixes contemporâneas. “Obscured By Clouds”, de 1972, foi o último álbum da banda que verdadeiramente apreciei. Em 1970 compuseram alguns temas para “Zabriskie Point”, de Michaelangelo Antonioni, e aqui eles surgem em remisturas. Depois da desilusão que tive com “Dark Side Of The Moon” deixei praticamente de os ouvir e centrei-me, quando necessário, em “Ummagumma”. Quem quiser ouvir ainda mais tem disponível, em vez deste duplo CD, uma caixa de 27 discos, com o mesmo nome, que recolhe toda a carreira da banda nos cinco anos entre 1967 e 1972. Distribuído em Portugal pela Warner.

 

PROVAR - No lugar onde dantes existia uma oficina que recuperava automóveis antigos está desde Setembro um dos restaurantes mais vibrantes do Porto. Chama-se, claro está, “Oficina” e é uma iniciativa do galerista Fernando Santos que, na mesma rua e um pouco mais acima, tem a sua Galeria. O Oficina desenvolve-se em dois pisos, com o superior a acolher frequentemente a mesa do Chef, mas também as tertúlias que Fernando Santos promove  e que darão direito a um livro que pretende ter edição anual. O próprio restaurante tem o prazer de mostrar arte, logo a começar por uma instalação de luz que Pedro Cabrita Reis criou para a empena do prédio que dá para o terraço que ladeia o piso superior. Há um cuidado assinalável na decoração, desde as mesas ao conforto das cadeiras e às peças de arte que irão rodando em sintonia com o acervo da Galeria. O responsável pela cozinha é o chef Marco Gomes, um transmontano que criou e fez nome no Foz Velha, um bom intérprete de versões de pratos inspirados na gastronomia tradicional portuguesa. Numa recente visita destacou-se a vitela mendinha, os medalhões de  lombo maturado, a açorda de perdiz, o polvo grelhado com arroz do mesmo e um robalo ao vapor sobre risotto de lima e hortelã. O couvert inclui uma bola transmontana miniatura que é por si só um programa e a carta de sobremesas é tentadora. Desde há dias o restaurante abre ao almoço com uma proposta de menu executivo e ao jantar é mesmo melhor reservar. A garrafeira tem boa escolha, o serviço precisa de rodar mais, mas a experiência é muito positiva. Oficina, Rua Miguel Bombarda 273, Porto, telefone 220 165 807 ou reservas@oficinaporto.com

 

DIXIT -  “Gosto dos números, mas fico preocupado porque vejo que são sustentados no turismo e isso é um risco” - João Duque, sobre o crescimento da economia portuguesa.

 

GOSTO - Do trabalho que Marco Martins fez com o texto de Jean Genet, “As Criadas”, no D. Maria II. Boas interpretações de Luísa Cruz, Beatriz Batarda e, sobretudo, Sara Carinhas. Até 18 de Dezembro

 

NÃO GOSTO -  Das demoras da justiça nos casos em que o Fisco abusa dos cidadãos e da forma como o abuso de poder do Estado é protegido - e nenhum dos partidos do arco da governação se preocupa com o assunto.

 

BACK TO BASICS - “O desporto não constrói o carácter das pessoas; apenas o revela” - Heywood Broun

 

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publicado às 13:45

ESTADO - Há três verbos que definem a acção do Governo nestes primeiros seis meses de vida: revogar, demitir e nomear. Os três andam juntos e justificam-se uns aos outros em nome da alteração das políticas. Raramente um Governo terá feito de forma tão sistemática, em tão pouco tempo, tantas  alterações de dirigentes de organismos públicos, interrompendo mandatos e substituindo anteriores responsáveis, independentemente do seu desempenho, por outros novos nomeados com o exclusivo critério da confiança política. Para usar uma expressão introduzida pelo Primeiro Ministro, parece que as vacas voadoras tomaram o freio nos dentes e se transformaram em drones, que voam sobre o Estado português, ocupando posições estratégicas na economia, na saúde, na segurança social, em todo o lado onde surja um pretexto para encaixar alguém sintonizado. As vacas voadoras deixaram de ser figura de retórica e são quem assumidamente reboca a geringonça. Aquilo a que assistimos é à tomada do aparelho de Estado por um partido, sem olhar a meios nem a competências. Aos poucos o Estado perde credibilidade e a célebre frase de Guterres, “no jobs for the boys” parece mais uma vez uma anedota de péssimo gosto. Há quem diga, elogiando, que António Costa reintroduziu a política na acção do Estado; creio que o que fez foi reintroduzir a politiquice e o aparelhismo, as duas degenerações senis da partidocracia.

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SEMANADA - A greve dos Estivadores no Porto de Lisboa causa prejuízos superiores a 100 mil euros por dia; os sete operadores do Porto de Lisboa estão em situação de pré-falência; a actividade económica do Porto de Lisboa em 2015 foi metade da registada em 2012; o Governo pretende que as empresas cotadas em bolsa que, em 2018, não atinjam uma quota de 20% de mulheres nas administrações, tenham a cotação suspensa; um padre que dirigia uma instituição integrada na Casa do Gaiato foi acusado pelo Ministério Público de maltratar crianças e idosos; o subsídio de desemprego só chega a menos de 22% dos trabalhadores independentes; as exportações portuguesas tiveram o pior arranque do ano desde 2009; o investimento estrangeiro feito através dos vistos gold aumentou 45% até Abril deste ano; a Madeira aumentou os incentivos fiscais para atrair mais vistos gold; Cavaco Silva interrompeu o seu silêncio para dizer que “a política económica é demasiado importante para ser deixada aos políticos; o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou o desejo de que as eleições “autárquicas não venham interromper a governação”; o Estado está a cobrar mais 1,6 milhões de euros por dia em impostos sobre combustiveis e já arrecadou este ano mais de mil milhões de euros graças a eles; as obras da segunda circular, em Lisboa, vão começar em Junho, ainda com as obras do eixo central a decorrer e sem prazo de finalização apurado; as turmas do ensino profissional não entraram no cálculo da lotação das escolas públicas quando o Estado decidiu cortar o financiamento aos privados.


ARCO DA VELHA - Kátia Aveiro vai cantar na final da Liga dos Campeões, em Milão, neste sábado - e depois ainda há quem ande à procura das causas do mau tempo...

 

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FOLHEAR - A edição de Junho da revista Monocle é dedicada ao mar, opção que atinge as várias secções. Talvez por isso a revista publica uma nota sobre Marcelo Rebelo de Sousa e o desenho que acompanha o texto de Joana Stichini Vilela sobre o novo Presidente da República, mostra um Marcelo de fato de banho e polo, com leves mocassins, como se fosse a caminho dos seus bem amados mergulhos no mar. É uma boa maneira de a Monocle assinalar o resultado das presidenciais portuguesas. Outras referências a Portugal surgem nesta edição. Mário Ferreira, da DouroAzul, fala das suas actividades de cruzeiros ao longo do rio e dos seus planos de expansão para o Brasil, com cruzeiros no Amazonas. É mostrado o exemplo da manutenção da construção artesanal de barcos num estaleiro, no Tejo, que usa técnicas tradicionais, fundado pela família Ferreira da Costa, e que hoje é dirigido por Jaime Costa, bem perto de Lisboa, e que continua a fazer lindíssimos barcos. Na área de sugestões a Monocle recomenda o turismo rural da Casa Agostos, em Santa Bárbara de Nexe, no Algarve, uma obra do atelier de arquitectura Pedro Domingos. Finalmente o portfolio de fotografias no fim da edição é dedicado a São Tomé e Principe e infelizmente não foi feito por quem melhor fotografou esse arquipélago nos últimos anos, Inês Gonsalves, que lá vive. Em vez disso a Monocle publica uns postais ilustrados sem grande graça - aqui está uma oportunidade perdida.

 

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VER - No espaço da Fundação Carmona e Costa, na Rua Soeiro Pereira Gomes nº1, ao Rego, está patente até 9 de Julho uma mostra de obras em papel, de Pedro Calapez, feitas entre 2012 e 2016. Arriscaria dizer que são precisamente as obras mais recentes, já deste ano, concentradas numa única sala, que mostram uma alteração do modelo de trabalho de Calapez, abrindo novo horizontes de uma forma quase inesperada e surpreendente. Numa das outras salas está a instalação, aqui na imagem, que funciona como se um caderno de esboços ganhasse subitamente vida em quatro paredes. Outra exposição a ver reúne obras de Rui Sanches, Mitsuo Miura, e também Pedro Calapez, sob a designação comum de Backstories, na Fundação Arpaz Szenes - Vieira da Silva até 25 de Setembro. Aqui o mais marcante é o trabalho de Rui Sanches, na sala inicial, sobretudo os seus jogos de ilusão sobre o quotidiano. Dando um salto para fora do país, a portuguesa Cristina Ataíde volta a expor no Brasil, desta feita em Curitiba, na Galeria Ybakatu, até 30 de Junho, sob o título “Na Palma da Mão”, que agrupa desenhos e esculturas em alumínio ainda inéditas em Portugal; a seguir estará em São Paulo. Finalmente, para quem gostar de festejos numa certa aura de polémica entre críticos, artistas e galeristas, este é o fim de semana da primeira extensão da feira de arte Arco, de Madrid, a Lisboa. Está na Cordoaria até domingo dia 29 e 44 galerias de vários países, predominantemente Espanha e Portugal, mostram obras de cerca de uma centena de artistas, com bilhetes entre 15 e 25 euros.

 

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OUVIR - Há alguma coisa de Bill Withers na forma como Gregory Porter canta. Depois do sucesso obtido com “Liquid Spirit”, que ganhou um Grammy, Porter regressou agora a um registo mais pessoal e intimista, numa produção discreta mas assente em temas sólidos, desde logo “Holding On”, que abre o novo álbum “Take Me To The Alley”. Porter tem uma voz e um estilo de interpretação tão marcantes que às vezes é preciso distanciarmo-nos para que possamos entender como ele evolui de disco para disco, sem perder a força natural que caracteriza a sua voz e que é a sua marca muito pessoal. Neste álbum Gregory Porter apresenta quase exclusivamente composições suas, canções que contam histórias da sua vida, do seu filho, da sua mãe, da família. Há aqui quase um regresso à tradição dos espirituais, o que faz com que este álbum pareça  musicalmente menos variado e mais conservador do que “Liquid Spirit”. Na realidade, neste seu quarto disco, “Take Me To The Alley”,  Gregory Porter optou por traçar o seu próprio caminho, com base nas suas histórias de vida, arriscando musicalmente, com maior influência do gospel e menos utilização das sonoridades da  pop que lhe trouxeram a fama no disco anterior. Mas isso é também fruto de uma opção de produção rigorosa, com arranjos mais discretos, que fazem passar para primeiro plano o conteúdo das histórias pessoais presentes nas canções. CD Blue Note, Universal

 

PROVAR -  A carne de javali não é das mais fáceis de cozinhar. Se mal preparada fica rija, seca e sensaborona. Se bem tratada, ganha fulgor. É o que acontece na Casa Nepalesa, um restaurante surpreendente das Avenidas Novas onde o javali com espargos verdes em molho de caril é uma belíssima descoberta. A mão amiga que lá me fez regressar tem também razão ao elogiar a qualidade da confecção do arroz basmati: a Casa Nepalesa utiliza exclusivamente a célebre marca Tilda, dos Himalaias, e assim consegue de facto um arroz de invulgar qualidade. A decoração evoca a origem dos fundadores do restaurante, o serviço é atencioso e irrepreensível. A garrafeira é de extensão moderada, com preços honestos e selecção cuidada. Há uma multidão de entradas tentadoras, propostas de peixe e vegetarianas, várias possibilidades com gambas de moçambique e com frango, para além dos pratos mais tradicionais de borrego e cabrito, tudo com a intensidade do picante a poder ser ajustada à preferência de cada um, Mas foi de facto a surpresa da combinação do javali com os espargos verdes e o caril que me conquistou. Para rematar provou-se um gelado de manga com pistácio, que se recomenda. Avenida Elias Garcia 172 A, (quase a chegar à Fundação Gulbenkian), telefone 217 979 797. É melhor marcar que a casa não é muito grande.

DIXIT - “A Câmara Municipal de Lisboa manifesta (...) um completo desrespeito por quem vive e trabalha na cidade e revela uma incompetência que não é admissível em quem gere uma capital europeia” - do comunicado do Automóvel Club de Portugal sobre as obras que que estão a piorar a circulação em Lisboa.

GOSTO - O Parque Eduardo VII ganha nova vida este fim de semana com o regresso da Feira do Livro, até 13 de Junho.

NÃO GOSTO - O défice orçamental quase duplicou no mês de Abril.

BACK TO BASICS - Só duas coisas são infinitas - o Universo e a estupidez humana - Albert Eisntein

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publicado às 12:30


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