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SOBRE A EVOLUÇÃO DAS FORMAS DE VER TV

por falcao, em 16.12.16

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TELEVISÃO - Quando olhamos para o panorama da televisão em Portugal, que vemos? - o canal mais visto é a TVI, seguido da SIC a alguma distância e pela RTP1, bastante mais abaixo. Mas se olharmos para o visionamento de televisão o quadro é um bocadinho diferente. De segunda a sexta o conjunto dos canais de acesso livre, fica um pouco acima dos 50 por cento do total da audiência e o cabo e outras formas de televisão (you tube, jogos e, claro, netflix e proximamente Amazon) ficam um pouco abaixo. Mas ao fim de semana, quando as pessoas estão mais tempo em casa e o desporto, sobretudo o futebol, assume maior importância, os canais de acesso livre já ficam abaixo dos 50% e as outras formas de televisão, chamemos-lhes assim, são já, no seu conjunto, maioritárias. Se olharmos para o tempo que os espectadores passam à frente do televisor, desde o início do corrente ano, detectamos uma diminuição, mas sobretudo notamos uma perda nos canais de acesso livre e um incremento nos canais de cabo e nas outras formas de consumo. Nada disto é estranho. No Reino Unido um estudo recente mostra que o número de espectadores que utiliza o aparelho de televisão para ver YouTube duplicou desde o princípio do ano - e as pessoas entre 18 e 34 anos nesse país consomem 45 minutos de YouTube diariamente. À medida que o número de aparelhos de televisão com capacidade de conexão digital aumentar ( e estão a aumentar de forma rápida) a emissão digital vai crescer - o que a médio prazo colocará um dilema significativo aos operadores que apostarem na emissão tradicional. Na televisão o futuro está cheio de novos desafios.

 

SEMANADA - Uma investigação do Observatório Europeu da Droga e da Toxidependência sinaliza um aumento do consumo de ecstasy e indica que a cocaína continua a ser a droga mais consumida em Portugal; o mesmo estudo indica que em Lisboa o consumo destas drogas é maior que em Paris; a Ministra da Justiça admitiu que há prisões onde se regista falta de comida para os detidos; as prisões portuguesas devem sete milhões de euros a fornecedores; 41 euros é quanto custa ao Estado cada preso por dia;  Pedro Dias, o foragido que se entregou em directo à RTP, diz-se inocente e pediu a saída da prisão; Sandra Felgueiras, que se dispôs a acompanhar essa rendição, afirmou que “Pedro Dias é uma pessoa que cria conforto”;  segundo a PJ Pedro Dias é também suspeito de ter roubado antiguidades e obras de arte no Alentejo há quatro anos e algumas dessas peças furtadas foram encontradas na casa do suspeito e de familiares; a Autoridade de Mobilidade e dos Transportes recebeu 4576 queixas de utentes no primeiro semestre, uma grande parte tendo por alvo o Metropolitano de Lisboa; a Gatewit,  uma plataforma que geria compras do Estado, foi impedida de operar. ao fim de váruiosmeses de queixas,  por incumprimento “grave e reiterado”, designadamente a cobrança de serviços que por lei são gratuitos; em Portugal há centros de procriação assistida com ovócitos, espermatozóides e embriões guardados há dez anos, sem serem reclamados; “ Não estou nada arrependido de ter estado na política, mas menos arrependido estou de ter saído” - afirmou Fernando Nogueira numa recente entrevista.

 

ARCO DA VELHA - Rui Rio, putativo candidato à liderança do PSD, propôs a criação de um novo imposto para pagar os juros da dívida pública.

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FOLHEAR - Um dos mais fascinantes livros sobre fotografia que me foi dado descobrir nos últimos tempos foi “Seeing Things - A Kid’s Guide To Looking At Photographs”, de Joel Meyerowitz, um fotógrafo norte-americano, de Nova Iorque, que se destacou por ser um dos precursores de uma utilização criativa da fotografia a cores numa época em que o preto e branco era ainda largamente dominante. Com uma carreira longa de ensino da fotografia, ele é também autor de quase duas dezenas de livros. Agora, para a prestigiada editora norte-americana Aperture ele fez este livro dedicado às crianças. “Escolhi as fotografias deste livro com a esperança de que as coisas que vão descobrir a vê-las possam encorajar-vos a abrir os olhos e a mente para que possam olhar para o mundo à vossa volta de uma nova maneira” - escreve Meyerowitz na introdução ao livro. A primeira fotografia apresentada é de Henri Cartier-Bresson, na Gare de Saint-Lazare, em 1932. E a segunda é uma das imagens mais célebres de uma das referências do autor,  Eugène Atget, o tocador de orgão, de 1890. As imagens escolhidas percorrem mais de um século de fotografia e todas merecem um texto que as enquadra e as analisa, mostrando-as para além das evidências. E isto é o que faz deste livro uma obra não só para crianças mas para todos os que verdadeiramente se interessam por compreender a fotografia. “Seeing Things”, disponível na Amazon, edição original da Aperture. de 2016.

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VER - Para ver, hoje recomendo um documentário feito para televisão há uma década. Esta é uma semana particularmente interessante para trazer aqui esta obra, em paralelo com a cerimónia do Nobel onde Patti Smith, em nome de Bob Dylan, fez uma arrepiante interpretação (disponível no YouTube) de “A Hard Rain’s Gonna Fall”, uma canção de 1962. Realizado por Martin Scorsese, estreado em 2005 na PBS americana e na BBC no Reino Unido, “No Direction Home” retrata a evolução de Bob Dylan, entre 1961 e 1966, de cantor folk para voz de protesto de uma geração de jovens norte-americanos e, finalmente, para uma estrela rock de dimensão mundial. No fundo retrata o nascimento da carreira de Dylan até ao acidente de moto que durante muito tempo o afastou dos palcos. O título é um dos versos de uma das suas canções mais conhecidas, “Like A Rolling Stone”, de 1965. Para assinalar o décimo aniversário da edição original foi agora distribuída, também no mercado português, uma nova edição de um duplo DVD que inclui imagens inéditas, versões originais de entrevistas concedidas aquando das filmagens e outro material raro. Dylan gravou mais de dez horas de entrevista no âmbito da produção, que registou também depoimentos do poeta Allen Ginsberg, de Suze  Rotolo (a namorada Dylan da época, numa das suas raras entrevistas), Joan Baez e Pete Seeger, entre outros. O documentário ganhou uma série de prémios quando foi originalmente exibido e lançado em DVD e é ainda hoje uma obra de referência quando falamos de documentários sobre criadores musicais contemporâneos. “No Direction Home”, 2xDVD Capitol, distribuído em Portugal pela Universal, edição especial disponível na FNAC e El Corte Inglés

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OUVIR - Quando o disco começa e se ouvem os versos “Tristeza não tem fim/ Felicidade sim”, percebe-se que há aqui qualquer coisa de diferente. Estes versos fazem parte de “A Felicidade”, um dos grandes êxitos de Tom Jobin, em parceria com Vinicius de Moraes, que aqui surge cantado pela portuguesa Carminho, um dos nomes do Fado da nova geração. Atrever-se a fazer um disco baseado em canções de Jobin é uma aventura, ainda para mais quando conta com duetos com Marisa Monte, Chico Buarque e Maria Bethânia. A direcção musical de "Carminho canta Tom Jobin" e os arranjos foram de Paulo Jobim e o acompanhamento foi da Banda Nova, onde além de Paulo e Daniel Jobin estão Jaques Morelenbaum e Paulo Braga. O que é surpreendente neste disco é que Carminho recusa abrasileirar-se e canta no seu estilo próprio, uma opção inteligente que ao princípio parece estranha mas depois se compreende. A sua interpretação é foneticamente tão diferente, que, por exemplo, no dueto com Chico Buarque em  “Falando de Amor”, o contraste entre os dois intérpretes se torna num desafio atraente. Para mim a interpretação de “Wave - Fundamental é mesmo o amor/É Impossível ser feliz sozinho” com letra e música de Tom Jobin, é talvez o momento mais alto do disco, logo seguido de “Retrato em Branco e Preto”. 

 

PROVAR -  A Tasca do João é um daqueles clássicos lisboetas que nunca engana. Existe há muitos anos, já mudou de localização várias vezes, sempre na Rua do Lumiar. A casa tem origens nortenhas, que se notam na ementa e no apuro da cozinha. Há pratos clássicos, como a posta mirandesa, temperada como manda a tradição, grelhada na brasa, acompanhada de batatas a murro e feijão verde, ou os lombinhos de porco preto na grelha, ou então, mediante encomenda, o coelho bravo à caçador, a feijoada de lebre, o cozido minhoto ou o arroz de cabidela de galo. A atestar a origem minhota destaque, na época adequada, para uma das melhores lampreias de Lisboa. Do couvert fazem parte umas boas azeitonas, fatias de lombo fumado, em pão de milho, e pataniscas de bacalhau. A casa está sempre cheia, a clientela é fiel, o vinho da verde da casa é servido em jarros e malgas e a carta de bebidas tem boas surpresas como o Bafarela, do Douro, que acompanhou bem a posta à mirandesa - atenção que duas doses dão à vontade para três comilões. Nesta altura do ano,entre as sobremesas, destaque para o marmelo cozido. Rua do Lumiar 122, telefone 217 590 311

 

DIXIT -  “Nunca tinha tido oportunidade de colocar a mim mesmo esta questão: será que as minhas canções são literatura?” - Bob Dylan, no discurso enviado à Academia Sueca a propósito da atribuição do Nobel.

 

GOSTO - Artur Anselmo, Presidente da Academia das Ciências, defende que em relação ao acordo ortográfico “o normal é o respeito pelas ortografias nacionais”.

 

NÃO GOSTO - As empresas públicas de transportes têm um passivo que já ultrapassa os 20 mil milhões de euros

 

BACK TO BASICS - A diplomacia é a arte de se ir dizendo “cãozinho lindo” até se encontrar uma pedra para lhe atirar - Will Rogers

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publicado às 14:00

O papel do Serviço Público de televisão tem que ser visto hoje em dia no contexto da dinamização do tecido industrial audiovisual português e da divulgação da língua e cultura portuguesa no espaço digital. Por outro lado a rápida evolução tecnológica exige que verdades passadas sejam reanalisadas periodicamente e que os períodos de atribuição dos contratos de concessão do serviço público, e respectivo conteúdo, sejam aferidos, avaliados e eventualmente modificados com maior frequência do que até aqui tem sucedido.

 

Há alguns anos que me interesso pelo tema: em 2002 integrei uma Comissão criada pelo Ministro Morais Sarmento, que elaborou um Relatório sobre o Serviço Público de Televisão, cujos princípios gerais continuam justos. Algum tempo depois fui convidado para pôr de pé o projecto de um canal aberto à Sociedade Civil, que ficou conhecido como a 2:,  que dirigi durante quase três anos.  Antes, quando trabalhei na produção independente, nomeadamente na área dos documentários, na Valentim de Carvalho Televisão, testemunhei que era mais fácil vender documentários sobre a história contemporânea portuguesa à SIC, como aconteceu, do que à RTP. De há cerca de três anos a esta parte a estação pública tem perdido progressivamente relevância e, nos tempos mais recentes, as mudanças de tecnologia, de distribuição e de hábitos de consumo de programas foram enormes, afectaram-na de forma sensível,  e é absolutamente indispensável que as definições gerais de serviço público audiovisual sejam adaptadas à realidade da introdução da Televisão Digital Terrestre, que é utilizada como meio único de recepção por apenas cerca de um quarto dos lares portugueses, e que o papel da RTP seja repensado no novo universo tecnológico, nomeadamente enquanto motor de inovação e não enquanto bastião da tradição.

 

Costumo dizer que Gutenberg chegou à televisão com a entrada no mercado de câmaras digitais de alta definição de preço acessível e com sistemas de edição baseados em computadores que qualquer um de nós pode ter em casa. Mas a realidade é que este Gutenberg audiovisual ainda é pouco aproveitado pelo serviço público e que a RTP, para utilizar uma analogia com a imprensa, ainda trabalha com composição a chumbo numa época em que o offset já tem várias gerações e em que, por exemplo no MEO, é possível a cada um de nós criar um canal – bem sei que não é bem disso que estamos a falar, mas este exemplo serve para mostrar como a televisão deixou de ser uma tecnologia inacessível e isso tem inevitavelmente consequências no comportamento de todo o sistema.


A ALTERAÇÃO DO CONSUMO E A REESTRUTURAÇÃO DA RTP


Hoje em dia cerca de 77% dos lares portugueses consomem televisão que lhes chega por um dos sistemas de distribuição de cabo ou satélite. Quer isto dizer que estes lares têm uma oferta de pelo menos meia centena de canais, em vez dos quatro tradicionais (RTP 1 e 2, SIC e TVI) e do Canal Parlamento, que também está, vá-se lá perceber porquê, na Televisão Digital Terrestre.


Portanto, sem desprezo pelos 23% de lares restantes, a oferta e os hábitos de consumo de televisão em Portugal mudaram de forma substancial nos últimos cinco anos. Basta dizer que desde há mais de um ano o conjunto dos canais de cabo ultrapassa em share médio de audiência qualquer um dos canais de sinal aberto.


Ora estas alterações significativas na distribuição e no consumo dos canais de televisão tem inevitavelmente consequências no serviço público – sobretudo no que deve ser a sua definição hoje em dia. A questão do acesso universal e gratuito por exemplo, já não é a pedra de toque da definição. Por outro lado, os canais generalistas e comerciais privados fornecem informação pelo menos tão pluralista como a da RTP, entretenimento e produção nacional em maior quantidade que a RTP, e qualquer pessoa – com cabo ou sem cabo - pode aceder a eles em qualquer ponto do território para ver futebol ou transmissões diretas de acontecimentos importantes – já que todos o fazem.

 

Fruto de um posicionamento concorrencial face aos privados, a RTP é ainda hoje uma entidade despesista, com uma estrutura sobredimensionada e custos desproporcionados. Num modelo ideal a RTP devia possuir apenas os meios necessários à informação e à emissão e tornar-se, usando a terminologia anglo-saxónica, num “broadcaster” e não numa empresa de produção, que é hoje em dia.


Ou seja, toda a área de conteúdos não informativos devia ser descontinuada e o investimento em programas de documentário, ficção, infantis e entretenimento devia ser aplicado na produção externa e na aquisição de programas - o que quer dizer ter uma ideia do que se quer encomendar, do que se deve aceitar, do quye se deve exigir aos produtores externos: ou seja não ter um papel passivo na recepção da encomenda, mas um papel activo de discussão de conteúdos e de resultado final, em função dos objectivos da estação. Ao contrário do que muitos pensam a BBC não produz internam,ente as belas séries e os belos documentários que conhecemos: contrata produtores externos para a sua concretização mas tem uma equipa de produtores executivos que define, acompanha, controla e decide se o produto final está de acordo com a encomenda e  com as guidelines da estação.


Este canalizar para a aquisição de conteúdos de parte importante das verbas actualmente gastas em funcionamento permitiria dinamizar a produção independente, desenvolvendo e consolidando uma industria audiovisual, necessária à manutenção do português enquanto língua viva. Recordo que a RTP é a empresa que menos tempo de emissão consagra à produção nacional não informativa, nomeadamente na ficção.


No meu entender existe um papel importante a desempenhar pelo serviço público e que tem a ver com uma carteira de encomendas continuada, junto à produção independente, nas áreas menos apetecidas pelos operadores privados, como os documentários, o registo de espectáculos na área do entretenimento ou uma programação infantil acessível, cuidada e baseada no português falado e não em legendagens. Estas áreas são fulcrais para o desenvolvimento e para a nossa sobrevivência no universo dos conteúdos audiovisuais. Actualmente, nem 10% do investimento em grelha chega à produção independente.


De uma forma mais concreta, faria sentido que o serviço público de televisão investisse a maior fatia do seu orçamento de produção na encomenda e aquisição de programação de stock – aquela que se pode repetir ao longo do tempo e que não se esgota na primeira emissão, e a que se chama de fluxo. Para dar um exemplo uma série de ficção é stock e um concurso como o “Preço Certo” é fluxo. Faz mais sentido investir no que perdura do que naquilo que se evapora, certo? Já nem vou dizer que o aproveitamento da produção de stock nas emissões internacionais, em intercâmbios com outras televisões ou até na venda de direitos é uma realidade e que o fluxo é inaproveitável em tudo isto. A este propósito não deixa de ser interessante que a BBC tenha escolhido a sua área emporesarial que se dedica à comercialização dos conteúdos próprios (produzidos externamente), para servir de garantia e alavanca a uma operação de financiamento.

 

CRIATIVIDADE OU BOÇALIDADE?

 

Analisemos o tema de outra perspectiva, mesmo correndo o risco de alguma repetição: nos dias de hoje, num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?


Correndo mais uma vez o risco de me repetir, insisto em algumas perguntas: o serviço público deve fazer concorrência aos privados,  ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entretenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que já passam nos canais de cabo emitidos em Portugal?


Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas.


A este propósito, as recentes decisões da RTP, de suspender a produção de documentários por produtores independentes é muito preocupante: penso que esta devia ser uma área prioritária de recursos financeiros das grelhas e não uma área descartável. No fundo, a RTP quer investir em fluxo ou em stock? É esta a questão que deve ser clara em decisões futuras sobre as obrigações do serviço público.


Finalmente penso que uma área onde se devem aproveitar as disponibilidades técnicas e humanas da RTP - e que deve fazer parte da sua missão - é a informação regional e até mesmo local. O seu serviço informativo deveria ser orientado para a proximidade com os seus públicos e não apenas de índole nacional, repetindo os canais concorrentes. Da mesma forma faria sentido desenvolver as boas capacidades existentes de reportagem, a partir dos meios disponíveis na Direcção de Informação - alguns desses espaços já existentes são aliás exemplo de boas audiências conquistadas pelo canal.


Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural na acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos.

 

OLHAR PARA O FUTURO E TOMAR DECISÕES

 

Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.


Para terminar e para esclarecer as coisas, sou da opinião de que deve existir serviço público, tendencialmente com um único canal nacional de sinal aberto, com um forte enfoque em noticiário nacional, regional e internacional, de acesso livre e universal em todo o território português, por difusão hertziana. Este canal, na minha opinião,  não deve ter publicidade nem patrocínios comerciais e deve privilegiar a informação, o pluralismo, o debate, a programação infantil de qualidade, a produção de documentários de diversa índole e a produção de ficção nacional nas tipologias não concorrenciais com os canais privados. Pode e deve ter um tratamento adequado do entretenimento, modalidades de desporto incluídas – sobretudo não pode ser um canal maçador, sorumbático e cinzento.


Gostaria de aprofundar a questão da publicidade. Actualmente a RTP pode ter até seis minutos por hora de inserções publicitárias, e os privados podem ir até aos 12. Nesta altura do ano de 2013, o investimento publicitário nos canais de sinal aberto (RTP1, SIC e TVI) está a cair cerca de 20%, por cima das quedas verificadas nos últimos anos. O desconto médio em relação aos valores de tabela tem vindo a aumentar. A oferta de espaço publicitário nas televisões de sinal aberto encontra a concorrência cada vez maior dos dos canais de cabo. Na realidade a oferta de espaço publicitário em televisão de sinal aberto excede largamente a procura e, salvo raras ocasiões, nem os seis minutos hora são ocupados. O resultado é uma acentuada quebra de valor do espaço publicitário em televisão, o que tem efeitos nefastos noutros media, sobretudo a imprensa - já que o preço em televisão baixou a valores que se tornam, na prática, muito concorrenciais. Também aqui, na minha opinião, se devia repensar o tema, caminhando para uma progressiva diminuição da publicidade na RTP até à sua anulação - este é o papel regulador que, creio, o Estado pode e deve ter para procurar assegurar uma diversidade de formas de comunicação e não a sua redução.


Existem pelo mundo diversos canais públicos com estas boas características, que inclusivamente exportam formatos. Esse canal deve ter o mínimo de meios necessários e basear a sua produção nos produtores independentes, seguindo as recomendações internacionais sobre esta matéria. A presença do operador de serviço público no cabo deve ser repensada à mesma luz da não concorrência aos privados e protegendo a necessidade de maior participação das diversas regiões do país, aproveitando os recursos técnicos existentes para a informação. E, finalmente, a nível internacional, o operador de serviço público deve acabar com o RTP África – compreendendo aliás que nos países lusófonos já existem operadores locais de televisão com os quais interessa mais fazer cooperação do que concorrência -  e manter apenas um canal que seja a imagem internacional do país – um embaixador audiovisual de Portugal.


Isto é o que me interessa – ou seja, os conteúdos de um serviço público de televisão e as suas obrigações é que o tornam, ou não, útil e necessário. O resto é uma questão de distribuição e de organização. Mas o primeiro passo é decidir o que deve ou não ser assegurado, da forma mais concreta que fôr possível.


(Este texto é uma versão actualizada do que foi publicado na revista Notícias TV de 5 de Julho)

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publicado às 10:39

CONCORRÊNCIA INFORMATIVA

por falcao, em 17.05.13

Esta semana fui ver como se comportam os três canais informativos nas várias regiões do país, dentro dos espectadores qie têm televisão por subscrição e que são sensivelmente 2/3 do total. A nível nacional a SIC Notícias lidera estes canais informativos na sexta posição, seguida da TVI 24 na nona posição e da RTP Informação na 12ª. Na zona da Grande Lisboa a coisa é bem diferente – a SIC Notícias está em 5º lugar, a TVI 24 em 10º e a RTP Informação em 14ª. O melhor resultado da SIC Notícias é na zona sul, na quarta posição – a RTP Informação nem aparece nos 15 primeiros nesta região e a TVI 24 está na 8ª posição. A única região em que a TVI 24 consegue bater a SIC Notícias é a zona Centro, onde se coloca na 5ª posição, seguida da SIC Notícias na sexta posição e da RTP Informação na 13ª. Finalmente na zona norte a SIC Notícias aparece em 8º lugar, a TVI 24 em 9º e a RTP Informação em 12º. Na maior parte das regiões as preferências, excluindo os informativos e os generalistas, vão para o Hollywood, o Panda e o Disney Channel.

 

(Publicado dia 17 de Maio na revista Correio da manhã TV)

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publicado às 14:27

Como criar saturação nos públicos?

por falcao, em 12.04.13

 

ANÁLISES - No Domingo passado José Sócrates, na RTP1, teve uma audiência média de 978 mil telespectadores, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, alcançou 1,6 milhões. Os números nāo mentem e, nesta semana em particular, evidenciam uma coisa, que voz amiga bem me sublinhou: estamos numa fase em que as pessoas nāo querem ouvir comícios, nem ataques, nem vinganças; querem quem as ajude a pensar e a compreender, querem quem aponte algum optimismo com espírito construtivo. É isto que Marcelo faz, e é o contrário do que Sócrates proporciona. Mesmo o universo anónimo e heterogéneo das audiências televisivas consegue separar o trigo do joio.


POLÍTICA - Chego ao meio da semana um pouco perplexo. Será possível que o Governo verdadeiramente nāo equacionasse um “chumbo” do Tribunal Constitucional? Os juristas que estāo no Governo e nos gabinetes nāo se pronunciaram? Os políticos nāo previram? Os constitucionalistas da área do PSD nāo disseram ao Primeiro-Ministro aquilo que nestes dias mais recentes têm escrito, comentando a situaçāo? Ou pura e simplesmente o Governo nāo quis ouvir? Nāo consigo deixar de pensar que, ou o Governo previu o que ía acontecerr e estudou alternativas,  ou não previu - e aí o caso revela inconsciência. Nem quero pensar que o Governo soubesse, desde o início do processo do Orçamento que isto iria acontecer, e que voluntariamente deixasse a panela ao lume, para,quando fervesse, poder dramatizar a situaçāo. Qanto maior a dramatizaçāo, já se sabe, maiores os argumentos para justificar o que aí vem - os cortes na despesa. Os mesmos cortes que há muito deviam ter sido estudados, preparados e anunciados, para poderem ser implementados de acordo com um plano gradual que tivesse apoio político para além da coligaçāo. Infelizmente o Governo preferiu fechar-se cada vez mais dentro de si próprio, criando divergências nos próprios partidos que o apoiam e menosprezando a necessidade de conseguir alianças. No fundo, o desprezo pela negociaçāo política, que é a única coisa que nos pode salvar.


SEMANADA - Miguel Relvas à quinta, Tribunal Constitucional à sexta, Conselho de Ministros ao sábado, Passos Coelho, José Sócrates e Marcelo Rebelo de Sousa ao Domingo, António José Seguro à segunda; ainda no Domingo o Nobel da Economia Paul Krugman, referindo-se a Portugal e a novas medidas de austerirdade, comentou “Just say Nao”; o Financial Times escreveu em editorial que os sacrifícios dos portugueses serāo em vāo se nāo houver um plano europeu para impulsionar o crescimento; António Lobo Xavier afirmou no início da semana que “este é o momento da remodelação do Governo”; Vitor Bento afirmou que o acordão do Tribunal Constitucional “estreitou o caminho de permanência no euro”; Num artigo de opinião, Ângelo Correia sublinhou: “só se reforma ou refunde um Estado, se se reformar ou refundar os principais atores, ou seja, os partidos”; o economista João Ferreira do Amaral propôs que o melhor para as contas públicas seria diminuir a carga fiscal para que a economia voltasse a crescer; Eduardo Catroga disse que o Governo desperdiçou ano e meio para reduzir a despesa pública; o chumbo do Tribunal Constitucional a quatro artigo do Orçamento de Estado para 2013 não terá efeitos imediatos no 'rating' da dívida soberana de Portugal, considera a agência de 'rating' Standard & Poor's; a troika anunciou que na próxima semana fará uma visita de urgência a Portugal.


ARCO DA VELHA - Título da semana, sobre a saída de Miguel Relvas do Governo: “Passos perde pára-raios”.


VER - Carlos Correia é um dos mais interessantes artistas portugueses contemporâneos e desde há alguns anos tem vindo a mostrar um olhar muito peculiar em relação ao que se passa à sua volta, evocando momentos que misturam a realidade com referências a obras clássicas da pintura (nomeadamente Manet) ou situações de imagem quase noticiosa. Mas em todas elas há um peculiar sentido de observação, um sentido de humor elegante e o estabelecimento de uma cumplicidade entre o artistas e o espectador da sua obra, que se revela aliás no título que retoma para a sua nova exposição - “La Place Du Spectateur II”, e que estará patente desde quinta-feira 18 de Abril na Galeria  Baginsky, em Lisboa, na Rua Capitão Leitão 51 a 53, ao Beato, em Lisboa.


OUVIR- Mesmo num disco com muita produção, como é este, Madeleine  Peyroux consegue transmitir a ideia de que estamos num clube de jazz a falar com amigos e a beber um copo quando surge uma cantora que nos começa a seduzir. Essa faceta, digamos, de cabaret, sempre me atraíu em Peyroux. Quando começou a trabalhar em “The Blue Room”, o novo álbum, a ideia seria fazer um disco de homenagem a Ray Charles, baseado no repertório de “Modern Songs”, dois álbuns que se tornaram referência na obra do cantor. Mas a meio do percurso a coisa evoluíu para incluir outras canções modernas, como “Bird On The Wire” de Leonard Cohen, “Desperadoes Under The Eaves” de Warren Zevon, ou “Guilty” de Randy Newman. As interpretações de Peyroux de temas cantados por Ray Charles, como “Take These Chains”, “I Can’t Stop Loving You”, “Bye Bye Love” ou “Born To Lose” são exemplos de contenção e criatividade, ajudados pelos arranjos de Larry Klein. O disco inclui ainda um DVD com uma versão acústica, ao vivo, de “I Can’t Stop Loving You”, um documentário sobre o processo de produção do trabalho, e o teledico de “Changing All Those Changes”, uma das interpretaçōes clássicas de Ray Charles, uma canção de Buddy Holly, que Madeleine Peyroux resgatou para este “The Blue Room”.


FOLHEAR - A revista “Photography” (melhor dizendo, British Journal of Photography) é uma das melhores publicações que podemos encontrar sobre os caminhos percorridos pela imagem fotográfica, novidades técnicas e exemplos do trabalho de fotógrafos de diversas sensibilidades. Não mostra apenas fine art, nem apenas foto-jornalismo. Abre as páginas a ensaios e a novos criadores, e assim torna-se uma das poucas publicações do género a dar uma imagem ampla do que se faz pelo mundo - como prova o artigo sobre novos fotógrafos orientais. Além disso reporta iniciativas como o “The Commons”, resultado de um acordo entre a Library of Congress dos Estados Unidos e o Flickr, destinado a recuperar e a trabalhar arquivos antigos e geralmente esquecidos. Mas o prato forte desta edição é o especial de 16 páginas sobre “Genesis”, o novo trabalho de Sebastião Salgado que ele desenvolveu ao longo dos últimos oito anos. Além de várias imagens da série (que vai dar um livro e uma exposição), o artigo mostra o processo de trabalho de Salgado, da preparação à impressão das imagens, fala do material que usa desde 2008 (Canon 1Ds Mk III, digital) e revela que no final as fotografias são processadas através de um programa de software, DxO que, a partir de imagens digitais, consegue reproduzir o aspecto característico do filme a preto e branco Kodak Tri-X de 35 mm. O artigo é fascinante e só por si vale os 12 euros que a revista custa em Portugal. Podem ter uma ideia da coisa em www.bjp-online.com ou na aplicação para iPad.


PROVAR - Nos últimos tempos começa a surgir uma nova geração de restaurantes que apostam na comida portuguesa de qualidade, ementa diária limitada mas variada e serviço atencioso. O S- Restaurante & Petiscos, está neste campo. Abre de segunda a sexta ao almoço e à sexta, à noite, serve petiscos. Fica nas antigas instalações da “Bruschetta”, ao Rato, uma bela sala de arcos de pedra, agora dividida em duas áreas, uma delas, ao fundo, para fumadores. A ementa diária tem quatro pratos cozinhados e alguns grelhados, o vinho da casa, branco e tinto, é servido em jarros e vem da Casa Ermelinda Freitas; o couvert inclui um honesto paio fatiado e um queijo simpático. Panadinhos de frango com arroz de coentros, bola de cozido, polvo com batata doce, galo de cabidela ou arroz de pato são alguns dos pratos que fazem a marca da casa. Pode ser reservada para graupos ao jantar. S - Rua de S. Filipe Nery 14, telefone 213 866 372. Chegue cedo, que a casa enche depressa com uma clientela fiel.


GOSTO - Da aplicação “wunderlist” , para me ajudar a organizar os dias.


NĀO GOSTO - Da absurda situação de confusão a que o silêncio do parlamento remeteu as candidaturas autárquicas.


BACK TO BASICS - “Aquilo que é ilegal pode fazer-se imediatamente. O que é inconstitucional demora um pouco mais de tempo” - Henry Kissinger em, 1973, ao New York Times.


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Abril)

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publicado às 18:26

SE NÃO ESTRAGAREM, PODE SER NEGÓCIO

por falcao, em 01.07.09

 (Publicado no «i» de 26 de Junho

 


No futuro como vai ser a televisão? Um bom bocado diferente daquilo que hoje conhecemos, de certeza. O ecrã tradicional vai progressivamente ser deixado de lado, substituído pelo ecrã do computador ou de vários outros dispositivos (ainda) mais móveis que um laptop. A forma de organização da programação também vai mudar – progressivamente as pessoas vão ter tendência a verem os programas que querem à hora a que estiverem disponíveis, e não à hora a que as estações os colocam em grelha de programas. A própria publicidade terá que se adaptar a estas mudanças.


Num tempo já próximo a televisão digital terrestre vai proporcionar uma experiência bem diferente daquela que temos hoje; a distribuição de sinal de televisão por fibra óptima vai complementar a oferta com uma diversidade e possibilidades de interacção que ainda nem sequer estão bem estimadas; a futura geração de telemóveis e novas redes de comunicações móveis tornarão mais fácil e acessível ver conteúdos vídeos on-demand ou simples emissões regulares de operadores de televisão. No centro de tudo isto estão os operadores de redes de comunicações: com diferenças tecnológicas quase inexistentes, com diferenças de preço mínimas, o principal critério de escolha dos clientes vai passar pelos conteúdos disponibilizados – e aqui o desporto, nomeadamente o futebol, desempenhará um papel fundamental.


É por isso que, depois de assegurar a TDT e de ter lançado o MEO, a PT voltou à necessidade de ter conteúdos audiovisuais e direitos de emissão, de preferência exclusivos, para os seus clientes. E é por isso que ter uma posição numa estação líder, que ainda por cima tem uma «fábrica» de produção própria, pode fazer sentido. Em termos de actividade e de negócio, o racional é perfeito; o pior será se a estação líder deixar de o ser, se existir a tentação de colocar interesses políticos à frente de critérios empresariais e se as mudanças efectuadas diminuírem as audiências e a qualidade dos conteúdos.  

 

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publicado às 11:32

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por falcao, em 18.02.08
UM OUTRO CANAL
Publicado na Revista «Atlântico» de Fevereiro de 2008

A história mais recente da evolução dos media mostra uma coisa muito interessante - coexistem duas tendências de certa forma antagónicas. Por um lado fortalecem-se os suportes generalistas mais agressivos, que se assumem como pólos globalizantes nos respectivos mercados, e, em simultâneo, começam-se a afirmar os veículos de informação e comunicação muito segmentados, dirigidos a públicos especiais.
Em Portugal continua a existir ainda medo pelo surgimento de novos suportes, pela proliferação de títulos. O reduzido crescimento do investimento publicitário nos últimos anos é argumento usado pelos suportes existentes para contrariar o inevitável alargamento do mercado. A questão, no entanto, não é essa. O verdadeiro problema, para os actuais grandes grupos de media, é como conseguirem manter a captação de investimento publicitário quando é certa a tendência para a procura de novos meios, novos suportes, que possibilitem uma afinidade e uma proximidade cada vez maior com os consumidores. E, quanto mais generalistas esse grupos procurarem ser, menos conseguirão captar os segmentos onde estarão os consumidores com maior poder de compra.
O rápido crescimento da internet – que dentro de alguns anos igualará a televisão na captação de publicidade nalguns mercados mais desenvolvidos, devia dar que pensar.
Na realidade é inevitável a convergência entre a televisão, tal como hoje a conhecemos, e a internet, num futuro que já não está assim tão distante.
Isto coloca aos operadores de televisão com maior experiência e capacidade um dilema: como conciliar a existência de canais generalistas fortes e com audiência massificada mas pouco qualificada, com a criação de novos canais, com outros conteúdos, eventualmente exportáveis para outras plataformas, que toquem os segmentos de publico que fogem dos canais tradicionais e que possibilitem captar investimentos publicitários que já não querem hoje em dia os canais generalistas de sinal aberto?
A resposta, no caso português, para já, pode estar no cabo. Tal como noutros mercados, será que aqui iremos assistir à criação de novos canais (ou à transformação dos existentes), por forma a captar o interesse dos consumidores com poder de compra, urbanos, profissionalmente activos? A SIC, que deu os primeiros passos na segmentação de canais há uns anos, tem hoje a esse nível uma oferta mal definida e provavelmente desajustada da realidade do mercado – e a existência de um novo canal de informação, da TVI, no final do ano, irá baralhar o jogo. E com uma SIC generalista agora tonificada, com Nuno Santos a disputar audiências com a TVI, fará ou não sentido alterar a definição dos canais de cabo existentes, criando um canal português assumidamente elitista, não exclusivamente noticioso, focado na realidade nacional mas cosmopolita, que seja veículo para os anunciantes que procuram outros públicos? Ou deixa-se esse mercado apenas para os canais internacionais de séries?



PENSAMENTOS OCIOSOS I
O Presidente francês Nicolas Sarkozy está a trabalhar no sentido de retirar completamente a publicidade dos canais de televisão do serviço público em França. O objectivo, relata a imprensa especializada, é promover uma programação de alta qualidade e, ao mesmo tempo, aumentar a produção local. A medida visa por um lado libertar o serviço público dos constrangimentos comerciais e, por outro, libertar uma fatia do mercado publicitário para fortalecer os operadores privados. Quererá Sócrates seguir o seu exemplo?
Recorda-se que em Portugal o Governo colecta uma percentagem do consumo da electricidade que se destina a pagar parte dos custos do serviço público de rádio e de televisão. Em França, Sarkozy, está a estudar o lançamento de uma taxa a pagar pelos operadores de telemóveis e Internet exactamente com o mesmo objectivo.
Até que ponto gosta Sócrates de Sarkozy?


PENSAMENTOS OCIOSOS II
Nos Estados Unidos a televisão de alta definição (TVHD) está muito mais implantada do que na Europa e isto deve-se, em primeiro lugar, ao facto de os norte-americanos terem optado pela distribuição das emissões de HD através do cabo, aproveitando a facilidade com que neste meio se obtém uma maior largura de banda. A mais recente cobertura do maior espectáculo desportivo do ano nos Estados Unidos, a Super Bowl, foi um festival: 47 câmaras simultâneas de alta definição mostraram todos os ângulos possíveis do jogo e da actuação, de meia hora, de Prince, que antecedeu a competição. Na Europa o território onde a TVHD está mais desenvolvida é na Grã Bretanha, em parte graças à rede de satélite da Sky – que usa muito a HD na Sky Sports.
Ora isto devia dar que pensar aos nossos queridos governantes: porquê reservar largura de banda na televisão digital terrestre para a alta definição se tudo indica que no futuro o seu melhor meio de distribuição está num dos sistemas de cabo ou de satélite? Claro que isto deixa outra questão em aberto – que fazer com as frequências que ficam libertas. Talvez mais canais…Dor de cabeça à vista, portanto.

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publicado às 17:33

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por falcao, em 15.01.08
REVISTA ATLÂNTICO
Não percam a edição deste mês - belos artigos de Rui Ramos, José Miguel Júdice e António Carrapatoso, entre outros. E a coluna habitual sobre televisão, intitulada «Sentados No Sofá», da minha lavra, e que aqui se reproduz. No entretanto espreitem aqui


A HORA H
Nos últimos quatro anos a RTP deve uma gestão estável e foi possível fazer muita coisa a nível de organização da empresa e respectivo equilíbrio financeiro. Em termos de conceito de serviço público houve altos e baixos, como em qualquer época anterior. Mas na realidade, em termos de definição da missão do operador público de televisão e rádio, e sua concretização, muito continua por fazer.

Por isso mesmo, aqui sentadinho no meu sofá, dei comigo a pensar que valia a pena o accionista, que é o Estado, reflectir sobre este assunto – numa altura em que a Televisão Digital Terrestre está aí à beira e em que novos canais privados são já dados como certos.

Existe portanto um ponto assente: a realidade vai mudar, a paisagem audiovisual portuguesa vai sofrer transformações acentuadas nos próximos quatro anos.

Qual o papel e quais as linhas de força da actividade do operador público nesse horizonte de tempo?

A questão tem na realidade um duplo sentido: por um lado definir melhor a esfera de acção de cada canal de televisão de serviço público (e, já agora, também de rádio) e, por outro, definir que papel deve ter a RTP no fomento articulado do desenvolvimento da produção audiovisual portuguesa. Até agora existe um contrato de investimento plurianual com a RTP, tímido e por vezes de difícil execução. É preciso ir bem mais longe.

Um operador da televisão pública que seja de facto aliado do Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia e que participe activamente no fundo de investimento de capital autónomo para o fomento e desenvolvimento do cinema e do audiovisual, pode ter um papel único no desenvolvimento da produção audiovisual, nomeadamente nas áreas da ficção e do documentário, mas também no registo das artes performativas e na relação com outras áreas criativas e artísticas.

Sempre achei que o operador de serviço público deve ser um dinamizador da produção independente e uma referência em termos da tipologia e da qualidade que se pretende. Durante muito tempo (e a administração cessante infelizmente fomentou esta ideia), a produção independente foi encarada como inimiga da RTP – quando na verdade deve ser encarada como parceira necessária no desenvolvimento da indústria audiovisual portuguesa. Não me canso de repetir que, nos dias que correm, a defesa da língua e da cultura de cada país reside, em primeiro lugar, na sua capacidade de existência no mundo audiovisual e digital. E a esse nível continua quase tudo por fazer.

O serviço público da RTP ou passa por aí - e se justifica o investimento que o Estado para lá canaliza - ou então a sua actividade serve apenas para alimentar uma máquina sem rumo próprio, concorrente às estações privadas, e que garante um palco negociado entre as forças políticas que alternam no Governo do país. E o serviço público só se justifica se este novo paradigma for encarado de frente.



PENSAMENTOS OCIOSOS I

Quando tiverem um bocadinho de tempo e quiserem perceber o que é na realidade bom serviço público, podem visitar o site do Public Broadcasting Service norte-americano (www.pbs.org ) . Para além da história, organização, financiamento e funcionamento das várias estações locais que aderiram ao conceito, têm permanentemente novidades sobre novos programas, quer documentários, quer educacionais, quer reportagens de actualidade ou debates, como por exemplo sobre as próximas presidenciais americanas. É engraçado ver como há sites específicos para crianças, pais e professores, além de extensas zonas de navegação para todos os que querem apenas mais informação sobre a programação e a estação. Um exemplo de boa acessibilidade, boa informação e, acima de tudo, excelentes princípios e objectivos.



PENSAMENTOS OCIOSOS II

A recente greve dos guionistas norte-americanos devia fazer-nos pensar aqui um bocadinho nesta Europa e, em particular, neste Portugal. Como alguns terão notado, o motivo da greve tem a ver, essencialmente, com a distribuição da parte dos direitos de autor e conexos que os guionistas entendem que lhes é devida, em função da distribuição de obras audiovisuais baseadas nos seus textos em outros formatos para além daqueles para que foram originalmente escritas, ou seja os filmes e a televisão. Hoje, para além da tv, temos que contar com a distribuição digital em PDA’s, telemóveis e iPod’sm, com a edição em DVD ou ainda com downloads via net ou via cabo – para só citar alguns exemplos. O que os guionistas querem é o seu quinhão nestas novas receitas, como alguns realizadores, actores e produtores já têm nos Estados Unidos.

Mais cedo ou mais tarde a União Europeia vai também exigir o cumprimento das remunerações acessórias relativas aos direitos de autor – e em Portugal a situação é particularmente grave já que muito boa gente – a começar pelo serviço público que devia dar o exemplo de boas práticas nesta matéria – se escuda no conceito de obras de encomenda para não distribuir as remunerações acessórias.

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publicado às 13:37

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por falcao, em 03.10.07
O ESTADO E A TV
(Publicado no diário «Meia Hora» de dia 3 de Outubro de 2007)

Daqui a cerca de quatro anos o panorama da televisão vai mudar substancialmente, com a televisão digital terrestre. Para o telespectador há duas consequências imediatas: em primeiro lugar melhor qualidade de recepção, de imagem e de som; e, em segundo lugar, uma maior oferta de canais sem necessidade de subscrever serviços de cabo. À partida, em vez dos quatro canais actuais (RTP 1, RTP 2, SIC e TVI) poderão (deverão) existir pelo menos oito canais.

Actualmente decorre a fase inicial de todo este processo – primeiro com a escolha da plataforma técnica (que de alguma forma condiciona os canais disponíveis no futuro) e do operador de telecomunicações que escolherá a nova rede e, numa segunda fase, com a escolha dos operadores de televisão que terão acesso aos novos canais e com a definição dos seus conteúdos.

Neste processo, o mais importante é anunciar qual a forma como os novos canais serão distribuídos, por forma a saber se o Estado permite maior concorrência no sector e se dá uma oportunidade para que novos grupos de media entrem no processo, como tem acontecido em toda a Europa – a começar pela vizinha Espanha.

Um dos factores cruciais para que isto possa acontecer tem a ver com o Estado, que é o accionista da RTP. Mandam as regras da transparência que o Estado diga publicamente, e o mais rápido possível, qual é a orientação que vai transmitir à RTP sobre esta matéria: se manter os mesmos dois canais nacionais e libertar frequências para novos operadores, ou se reforçar a presença, com a criação de outros canais, como já se falou.

Esta é uma daquelas decisões que deve ser tomada pelo accionista e é bom que seja pública e transparente porque, na essência, tem a ver com saber o que o Estado (e o Governo) pretendem: se um serviço público de referência e não submetido a imperativos comerciais, se um operador financiado por dinheiros públicos e taxas aplicadas aos consumidores de electricidade, que entra em concorrência no mercado publicitário e faz uma programação concorrencial com os canais privados.

O concurso para a televisão digital terrestre é um desafio ao Estado e ao Governo: querem manter e reforçar o papel comercial da RTP ou querem dinamizar a indústria do audiovisual e o sector privado de operadores de televisão em Portugal?

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publicado às 23:37


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