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O BANCO DE PORTUGAL

por falcao, em 24.01.20

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O MURO - O Banco de Portugal devia ser um muro intransponível contra a fraude e ameaças ao sistema financeiro português. Como a História recente comprova de forma recorrente tal não sucede. Nestes últimos dias as notícias em torno de Isabel dos Santos e do banco EuroBic vieram avolumar novas suspeitas sobre a ineficácia do Banco de Portugal. Para resumir a história temos um banco central que não vigia os bancos, um banco central que não fiscaliza movimentos suspeitos, ou seja um regulador que não regula. É certo que faz lindos estudos, mas curiosamente não lançou alertas em tempo devido, apesar de tanto estudo, sobre a situação do BES, do BPP, do BPN ou até do Montepio. Não fossem as exigências europeias sobre as nomeações para a banca e até isso provavelmente passaria ao lado no nosso banco central. A instituição tornou-se inimputável. O Conselho Consultivo do Banco de Portugal, de quem não se ouviram reparos ao que tem sucedido, tem integrado distintas figuras do regime como Francisco Louçã, Luís Nazaré, João Talone ou Murteira Nabo. Diz a Lei que a este Conselho "compete pronunciar-se, não vinculativamente, sobre o relatório anual da atividade do banco e sobre a atuação do banco decorrente das funções que lhe estão atribuídas". Ninguém deu ainda por nada de relevante vindo de tão distintas personalidades. Menos ainda do seu sempre sorridente Governador, Carlos Costa, que é perito em atravessar um dilúvio sem se molhar e em se manter a boiar no meio da tempestade. O Banco de Portugal, assim, pouco mais é do que um refúgio de políticos reformados, escola de candidatos a ministros ou trampolim para cargos internacionais. Em suma, em vez de banco central é um albergue espanhol. O  Banco de Portugal mais parece um verdadeiro muro da vergonha.

 

SEMANADA - Em cinco anos foram apreendidos 2,5 milhões de comprimidos por suspeita de falsificação e os estimulantes sexuais estão no topo da tabela; a Câmara de Lisboa gastou 18 mil euros em carimbos para chancelar folhas de papel na mesma altura em que afirma estar a desmaterializar processos; entretanto o espólio da Hemeroteca Municipal continua depositado numa garagem com poucas condições há sete anos; na última década houve uma quebra de 16% nas vendas de livros de ficção; o julgamento de um homem que se fez passar por assessor do Presidente da República foi adiado cerca de um ano por o juiz ter alegado dor de dentes; o Ministério da Educação confirmou que a meio da janeiro continuavam a existir disciplinas que não tinham ainda iniciado as aulas por falta de professores; o sindicato dos inspectores da PJ está preocupado com o aumento de mulheres naquela polícia e pediu à Direcção que trave a entrada de uma maioria de agentes do sexo feminino; o Estado interrompeu as negociações com as famílias dos comandos mortos em instrução no ano de 2016 e o Governo entende que só pagará indemnizações às famílias se for obrigado em Tribunal; as obras num lote de terreno em Soltróia comprado em hasta pública à Autoridade Tributária, com garantia de construção, foram embargadas por uma resolução do Governo; em 2019 foram contabilizados 4192 médicos estrangeiros a trabalhar no país, um aumento de 8,8% em relação ao ano anterior; a filha de Ana Rita, a bombeira de Alcabideche que morreu em 2013 nos fogos do Caramulo, vai receber dez euros por mês de compensação pela morte da mãe, valor  a que se juntam 90 euros para alimentação; Carlos Siulva, militante socialista e líder da UGT, acusou António Costa de maltratar sindicalistas dentro do partido.

 

ARCO DA VELHA - O suspeito de ser o cabecilha do assalto a Tancos poderá ser libertado dentro de dias por atingir o prazo de prisão preventiva sem acusação formal do Ministério Público, tal como já aconteceu recentemente com os Hell Angels, suspeitos de associação criminosa e homicídio.

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LAPA NO DESERTO - Cada vez que passo próximo da sede da CGD lembro-me da Roménia do tempo de Ceausescu: um edifício megalómano e horrível, impositivo e arrogante. É lá que está instalada a Culturgest que podia ser uma das grandes instituições culturais do país se cuidasse melhor da sua relação com as pessoas. Mas, se a instituição mãe, que é o banco, destrata os seus clientes, que esperar do resto? O mais espantoso de tudo, nesta questão da relação com o Banco, é que os clientes da Caixa não têm, por regra, conhecimento do que se passa na Culturgest. E, embora tenham descontos em algumas actividades, elas são-lhes parcamente comunicadas, para não dizer escondidas. Parece que a Caixa tem vergonha de dizer aos seus clientes o que a Culturgest faz. Há uns anos tive ocasião de falar com um responsável da Culturgest na época, chamando a atenção para a forma como a sua instituição encarava a comunicação e como a relação com os públicos não era estimulada. Não pareceu sensível ao assunto, embora muitas vezes se queixasse da falta de pessoas nas actividades que promovia. Vem toda esta conversa a propósito de uma excelente exposição que abriu na Culturgest na semana passada, dedicada à obra de Álvaro Lapa. A exposição está muito bem organizada e montada, em torno da relação do artista com os livros (e a sua própria escrita), evidencia diversas facetas menos conhecidas da sua obra, nomeadamente mostrando a sua biblioteca e os seus “Cadernos de Escritores”. Até 19 de Abril poderá ver (deverá ver…) “Lendo Resolve-se: Álvaro Lapa e a Literatura”, a exposição de que falo e que devia ser amplamente divulgada, fora das rotinas habituais e pouco funcionais. O que motivou as minhas linhas foi o facto de lá ter ido num Domingo ao fim da manhã e praticamente não haver público. A exposição tinha aberto no Sábado anterior e não tinha ninguém, apesar de ser dia de entrada gratuita. Compare-se o que se passa aos Domingos no CCB ou na Gulbenkian e veja-se a diferença. É uma pena, Álvaro Lapa e Oscar Faria, que organizou a exposição, mereciam muito mais.

 

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UM QUARTETO - Quando me apetece encontrar alguma coisa nova para ouvir tenho algumas rotinas. Uma delas é ir ao site da editora ECM, ver as novidades e depois passear pelo Spotify a descobri-las. Foi assim que dei com “Not Far From Here”, o novo disco do quarteto de Julia Hulssman, uma pianista e compositora de jazz alemã. Aqui está acompanhada pelo saxofonista Uli Klempendorff, Marc Muellbauer no baixo e Heinrich Köbberling na bateria. O quarteto gosta de arriscar, mantendo uma enorme coerência na forma como dialoga entre si. O disco inclui composições de todos os músicos e uma Interpretação de “This Is Not America”, um clássico de David Bowie, feito em co-autoria com Pat Metheny e Lyle Mays, e que é um dos pontos altos do disco (retomado como derradeira faixa numa outra versão, apenas ao piano). Hulsmann assina cinco composições e uma delas, “Weit Weg” merece especial destaque pela forma como a pianista e o baixista dialogam, com uma quase imperceptível presença da bateria. O saxofonista Klempendorff é o elemento novo nesta formação, até aqui um trio que tocava há cerca de 17 anos e ele tem uma presença marcante, como aliás é patente na faixa de abertura “The Art Of Failing”.

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LÍNGUAS VIPERINAS - Michelle Dean é uma jornalista e crítica literária canadiana, atualmente a viver e trabalhar nos EUA. Tem escrito para as revistas The New Yorker, The New Republic, The New York Times Magazine e Elle e em 2016 foi distinguida com uma menção do National Book Critics Circle pela excelência da sua abordagem aos livros e autores. “De Língua Afiada”, agora editado entre nós pela Quetzal,  permite a Michelle Dean levar-nos a conhecer melhor um conjunto de mulheres que, segundo ela, fizeram da opinião uma arte. A primeira frase do livro é esclarecedora: “Reuni neste livro um conjunto de mulheres que têm o denominador comum de, ainda em vida, terem ficado conhecidas como sendo de língua muito afiada”. Susan Sontag, Dorothy Parker, Hannah Arendt, Rebecca West, Joan Didion, Mary McCarthy, Pauline Kael, Renata Adler, Janet Malcom e Nora Ephron são exactamente as línguas afiadas escolhidas por Michelle Dean. A autora apresenta cada uma destas mulheres, enquadrando-as no seu tempo, relatando como viveram, quase uma mini-biografia com a particularidade de em todas surgirem citações dos seus escritos que permitem ver como de facto tinham as línguas afiadas. Dean sublinha que “estas mulheres, cada uma à sua maneira, desbravaram um caminho para que outras pudessem continuar.”. Delicioso - quer pelas histórias, quer pelas citações.

 

UMA TAVERNA - Confesso que até agora as minhas experiências gastronómicas em Nisa, uma vila no Alto Alentejo, não eram nada entusiasmantes. Na generalidade coisas fracas, insípidas, sem ambiente nem graça - gustativa ou convivial. Desta vez, no entanto, tenho que rever a minha opinião. A culpa desta mudança reside na Travessa da Vila onde Paulo Bagulho dirige a cozinha com saber e imaginação. Mas comecemos pelo local - uma sala simples e simpática, serviço atento e pronto, mesas e bancos corridos. Para começar na mesa havia bom pão, queijo e azeitonas da região, todos de boa qualidade. Da ementa contava açorda de ovas com peixe do rio - no caso um safio frito - uma alhada de cação, lombinhos com molho de azeite e coentros e febrinhas do alguidar grelhadas. Há um vinho da casa, passável, mas para a qualidade da comida o melhor é mesmo ver uma das outras propostas da lista. Desta vez provou-se o safio que estava bem frito, no ponto, sem gordura e a açorda, que era rica em ovas e muito bem temperada. Os lombinhos com molho de azeite mereceram vários elogios. A sopa de cação, que infelizmente não foi provada, pode ser servida como entrada ou como prato principal. A Taverna da Vila fica perto do Castelo de Nisa, no Largo Dr. António José de Almeida 2 e tem o telefone 965890164. Está associada a um outro espaço, o Quintal da Festa, na Rua 25 de Abril 61, onde existe também uma mercearia com produtos locais - espaço mais dado a temperaturas mais altas que as actuais, onde também pontifica na cozinha o mesmo chef Paulo Bagulho, que gosta de vir às mesas falar com os clientes de forma descontraída. Esta Taverna fica no registo.

 

DIXIT - “Portugal deve a Eanes, para além da afirmação democrática e do esforço de consciencialização cívica, a recondução das Forças Armadas à sua função de defesa nacional, a atenção prestada tanto aos Açores e à Madeira, como ao interior e muitas preocupações de solidariedade social. “ - Jorge Miranda

 

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OS DOIS ESTAROLAS - Aobsil, sabem o que é? Há bandeirolas e anúncios de rua por todo o lado com esta sigla: AOBSIL.  Eu explico - é a nova marca de Lisboa. Na realidade é a palavra Lisboa escrita ao contrário. Esta palavra de difícil pronúncia é a nova marca da capital portuguesa. A bem dizer faz sentido: a gestão de Medina virou a cidade do avesso, faz sentido virar a palavra ao contrário. A nova marca da cidade nasceu na gigantesca operação de propaganda realizada a propósito de Lisboa ser agora a capital verde da Europa. O Sr. José Sá Fernandes, vereador desta causa, considera certamente ambiental caixotes de lixo a transbordar para o chão nas zonas históricas da cidade,  o cheiro nauseabundo que emana dos contentores ou a falta de limpeza que se tornou regra nesta cidade. Mas resolveu criar uma nova marca gráfica para a cidade, dizem os seus defensores que para evocar uma árvore. Em todo este exercício de vaidade e auto-satisfação vão ser gastos dezenas de milhões de euros ao longo do ano. A propósito de oabsil um dos mais prestigiados especialistas em desenvolvimento de marcas, Carlos Coelho, da Ivity, interrogou-se se Madrid passou a chamar-se Dirdam, ou se Paris passou a Sirap ou ainda se Londres pós brexit será Serdnol. De facto a ideia de mudar a marca da capital significa tratar mal a identidade da cidade, perdendo-se a oportunidade de Lisboa aparecer em grande, e com a sua identidade própria, num evento internacional como este. Mas indiferentes a estas questões menores os dois estarolas que nos governam a urbe, Medina&Fernandes, lá vão satisfeitos arredando pessoas da cidade e descaracterizando-a.

 

SEMANADA - Um estudo divulgado esta semana indica que um médico que trabalhe num dos serviços de cuidados paliativos dispõe em média de um máximo de nove minutos por dia para cuidar de cada doente; os atrasos na atribuição de subsídio de funeral chegam a atingir uma ano; os apoios do Estado a deficientes estão atrasados cerca de dois anos; a sede da PSP em Lisboa, na Penha de França, esteve em risco de ver a electricidade cortada por atrasos de pagamento das facturas; os bombeiros portugueses que ajudaram nas cheias em Moçambique ainda não receberam o valor que lhes é devido pela Protecção Civil desde Março do ano passado; o Governo decretou em Maio apoio financeiro para filhos até 6 anos de bombeiros voluntários mas ainda não foi disponibilizada qualquer verba para esse efeito; a Associação Nacional de Municípios considerou o Orçamento de Estado “absurdo e inaceitável” por contemplar um corte de 35 milhões de euros às autarquias e por violar a Lei das Finanças Locais;  em várias prisões os detidos são abastecidos de droga, armas e telemóveis através de drones e só em Paços de Ferreira já se verificaram este ano vários casos; há mais de três mil imóveis devolutos em Lisboa.

 

ARCO DA VELHA - O contrato de leasing de cerca de três dezenas de veículos da Protecção Civil chegou ao fim e os serviços da entidade não fizeram novo contrato, o que levou a firma locadora a recolher os veículos.

 

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UMA SÓ NOITE - Quando lerem estas linhas já não vão poder ver a exposição a que elas se referem. É uma exposição que apenas ficou patente durante algumas horas. Vai acontecer quatro vezes este ano, cada uma integrando novos artistas. Chama-se, por isso mesmo, “Esta Noite” e decorre, como aconteceu terça 14 de Janeiro, no ateliê Pedro Cabrita Reis, no Beato, entre as nove e meia da noite e a uma da manhã. A ideia de Pedro Cabrita Reis foi complementada por João Ferro Martins que com ele escolheu os artistas, todos eles à data da escolha sem galeria. Estão mesmo em princípio de carreira, nesta primeira Noite foram dez, serão meia centena até à última mostra. Os que expuseram na estreia tiveram oportunidade de mostrar o seu trabalho a coleccionadores, críticos, outros artistas. Foram vistos, ouviram opiniões de quem os não conhecia. “Esta Noite” é uma montra para talentos. a ideia da montra é aliás recorrente na forma como Pedro Cabrita Reis gosta de partilhar o palco. Ao longo de um ano, entre Abril de 2017 e Abril de 2018 organizou nas montras do British Bar, ao Cais do Sodré, uma série de exposições de pequenas peças de artistas que convidou, na generalidade com nome feito. Agora, em vez de uma montra física a dar para a rua, no centro da cidade, passou para a montra que forçosamente é o ateliê de um artista, neste caso o seu próprio espaço, que cedeu para que outros o pudessem utilizar e mostrar o que fazem. É recorrente em Cabrita Reis este impulso de descobrir e mostrar obras de outros artistas - foi assim que criou a sua própria colecção, comprando a muitos no início de carreira. “Esta Noite” é uma ideia generosa. Na imagem obras de Xavier Almeida e Cândido. Destaque também para o trabalho de Diogo Pinto e Luísa Passos.

 

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O PRAZER POP - Se quiserem ter uma ideia sobre o estado da música pop no arranque da segunda década do século XXI aconselho a que ouçam o álbum “Seeking Thrills”, de Georgia, agora editado. Está disponível no Spotify e em outras plataformas. Trata-se do segundo disco da intérprete britânica (o primeiro é de 2015) claramente centrado em conquistar as pistas de dança, com uma determinação assinalável e uma eficácia incontornável. Mas este não é só um disco de dança. Como todo o bom pop que se preza é um prazer para os ouvidos, uma companhia perfeita para várias ocasiões. Georgia Barnes tem 29 anos e foi construindo uma carreira de produtora paralelamente à de intérprete. Georgia faz parte de uma geração que quer recuperar a noção da natureza, que pretende uma vida saudável e se preocupa com o planeta, temas recorrentes das canções deste disco. Esta é a nova contemporaneidade que atravessa cada vez mais campos da criação artística, da música à literatura, passando pelas artes plásticas. Este é um disco onde o ritmo comanda - não é de admirar, Georgia é também baterista e, por exemplo, tocou com Kate Tempest. Musicalmente o álbum vai buscar referências aos anos 80, dando-lhes um tratamento sonoro actual - a capa é aliás um grupo de raparigas a dançar fotografadas em 1988 por Nancy Honey. “Seeking Thrills” é um compromisso entre influências musicais antigas com a sonoridade ajustada e preocupações sociais actuais. É, também por isso, um desafio. E um grande disco pop.

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ARTE EM PAPEL - Fundada em 2009 a revista “Elephant” é publicada em Londres quatro vezes por ano, sazonalmente, e propõe-se acompanhar as tendências da arte contemporânea. Tem uma forte presença online, num site próprio (elephant.art) e está no twitter, facebook e instagram. O seu lema é “life through art”. A revista dedica especial atenção a artistas emergentes e entre as suas actividades criou um laboratório onde promove residências artísticas, que depois são mostradas e relatadas nas várias plataformas. O site é permanentemente actualizado, com uma agenda diferente da edição em papel e, por exemplo, esta semana a notícia em destaque era uma visita à casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. Já a edição em papel, datada deste Inverno, a número 41, parte de uma pergunta: “Será que a Arte pode salvar-nos, a nós e ao planeta?”. O debate sobre as alterações climáticas serve de pano de fundo para uma série de artigos e imagens que colocam em primeiro plano a forma como o mundo natural e os animais são apresentados visualmente. O lema da edição é conseguir voltar a tornar o mundo mais selvagem, com menor peso da intervenção humana. Regularmente há ideias editoriais interessantes - por exemplo a volta ao mundo em cinco cidades, falando do que do ponto de vista da arte contemporânea se passa em cada uma delas ou ainda a “Paper Gallery” onde se mostra de forma alargada a obra de um artista. Ligados ao tema da edição destaco o artigo “10 ideias sobre arte e meio ambiente” . Outro bom artigo fala sobre a importância do trabalho dos assistentes dos artistas, neste caso a propósito da montagem de uma peça complexa de Kara Walker  no enorme espaço da Turbine Hall da Tate Modern. A revista em papel pode ser comprada na Under The Cover, na Rua Marquês Sá da Bandeira 88, em Lisboa.

 

PETISCO - Esta semana vi-as, pela primeira vez neste ano, a serem vendidas à beira da estrada, em pequenos sacos - falo das túberas, esses tubérculos maravilhosos a que alguns chamam as trufas portuguesas. Mais abundantes no Alentejo, aparecem também no Ribatejo e normalmente entre finais de Janeiro até meados de Abril. Não é fácil perceber onde estão, debaixo da terra e descobri-las é um segredo bem guardado, que passa de pais para filhos. O seu sabor não é tão intenso como o da trufa, mas é delicado e envolvente. Misturadas com ovos mexidos é a forma mais frequente como são apresentadas. No restaurante lisboeta Salsa & Coentros elas fazem parte da lista de entradas e são muito bem confeccionadas. Por mim fico bem com ovos mexidos com túberas como prato principal, acompanhado de um bom pão fatiado fino. É um petisco. Em casa do meu Pai, que era um apreciador, às vezes eram feitas de fricassé - e ficam também deliciosas. Noutras vezes eram servidas como aperitivo, cortadas em fatias de uns 2mm que são bem grelhadas na chapa e polvilhadas com sal grosso. Ainda hoje, quando lhes deito a mão, não dispenso guardar algumas para fazer este aperitivo. Mas a minha preferência vai para os ovos mexidos, muito mal passados, com as túberas pelo meio. Para as cozinhar assim devem ser lavadas muito bem e descascadas, tendo cuidado para remover toda a terra. Se não forem consumidas nos dias mais próximos, podem ser congeladas depois de descascadas. Mas vamos à receita, bem simples: o ideal é cortar as túberas em fatias finas como se fossem batatas para fritar às rodelas, a seguir salteá-las  em azeite até estarem passadas, juntar ovos batidos com sal (com um pouco de pimenta se gostarem) e envolver. Os ovos devem ficar mal passados.  Para além da beira da estrada às vezes aparecem em boas lojas como a histórica Frutaria Bristol, na Rua das Portas de Santo Antão, junto ao Coliseu.

 

DIXIT - “Uma obra de arte é tão importante na construção da cidade quanto a habitação social, ou o desporto e a cultura…”  - Pedro Cabrita Reis.

 

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CENTENO NA DANÇA DO ORÇAMENTO

por falcao, em 10.01.20

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O BAILE ARMADO - O Orçamento de Estado é o contrário do que devia ser um documento que regulamenta como se gastam os dinheiros da nação. Devia ser transparente e é opaco - pelos vistos há verbas escondidas, e não são pequenas, para serem usadas e outros indicadores, como a verba para despesas imprevistas, a célebre “almofada” que não se vislumbram. A Unidade Técnica de Apoio Orçamental  do parlamento encontrou 255 milhões camuflados e considera poder existir uma suborçamentação naquele valor das receitas na proposta de Orçamento de Estado apresentada por Centeno. O Ministro das Finanças jura que esta análise está incorrecta, mas não falta quem ache que Mário Centeno criou um baú que permite ter uma confortável margem de manobra por parte do Executivo de António Costa para as negociações do OE2020 com os partidos pró-geringonça. Adicionalmente já se percebeu que o Orçamento de Estado para 2020 prevê maiores cativações do que as efectuadas em 2019. Com vários partidos a anunciarem que se vão abster ou votar contra, a maioria necessária para fazer aprovar o Orçamento vai estar dependente de muita negociação e de cedências aos partidos pró-geringonça. As negociações vão ser duras e a imprevisível deputada do Livre pode ter um grande protagonismo, de que gosta, em todo o processo. Em qualquer dos casos, mesmo depois de aprovado na generalidade, se isso acontecer por obra do Livre ou dos deputados da Madeira, há muito para renegociar nas votações na especialidade - onde a opacidade é ainda maior. E não há-de ser por acaso que na proposta de Orçamento para 2020 há muitos pontos em branco propositadamente deixados para essa negociação na especialidade. Na realidade o baile está armado em S. Bento. Para já o PS é o único a dizer que sim a Centeno, mas há uma fila de espera de pedidos e um baú para dar umas esmolas. E por cima disto tudo temos também a certeza de que esta será a maior carga fiscal de sempre. Os próximos dias vão ser animados, cheios de danças e contra-danças.

 

SEMANADA - A deputada Joacine Katar Moreira quis impedir a Assembleia da República de utilizar uma fotografia em que aparece na Comissão de Ambiente do Parlamento; segundo o presidente do Tribunal Constitucional, Manuel Costa Andrade, as verbas previstas para criar a nova Entidade da Transparência, que vai fiscalizar os políticos, não chegam para assegurar o seu funcionamento e  não há a "mínima preparação" para instalar este novo organismo; o preço das casas na periferia de Lisboa aumentou mais de 20% no terceiro trimestre de 2019; cerca de 1400 condutores já atingiram o limite de infracções e arriscam ficar sem carta de condução, triplicando o número dos que estavam nessa situação em 2018; as queixas relacionadas com os atrasos na atribuição de pensões aumentaram cerca de oito vezes em apenas três anos e atingiram 1600 no ano passado; a taxa de desemprego subiu para 6,7% em Novembro, o valor mais alto no espaço de um ano; na época do Natal, entre 1 de Dezembro e 2 de Janeiro, foram feitos pagamentos via multibanco a uma média de 242 milhões de euros por dia; em 2019 os portugueses gastaram em média 35,5 milhões de euros por dia a comer fora de casa; a maioria das câmaras municipais do norte do país não conseguiu atingir 50% de receitas próprias; pela primeira vez em 16 anos venderam-se mais carros a gasolina; em 2019 morreram 57 pessoas em acidentes com tractores registaram-se mais de cinco mil acidentes rodoviários entre o Natal e a passagem de ano que causaram 17 mortes; o Fisco cobrou imposto automóvel em excesso a cerca de 130 mil carros importados. 

 

ARCO DA VELHA - A nova Feira Popular de Lisboa, anunciada por Fernando Medina há quatro anos, ainda não saíu do papel nem tem data prevista de inauguração mas já se sabe que custará 70 milhões.

 

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IMAGENS MARGINAIS - Américo Filipe e Teresa Almeida e Silva apresentaram esta semana  na Galeria Monumental uma nova etapa do seu projecto comum “Estrada Marginal”, que mostra  pintura e video de Américo Filipe e pinturas de Teresa Almeida e Silva. (Campo dos Mártires da Pátria 101). Na Módulo - Centro Difusor de Arte, inaugura sábado “A Cor da Sombra” de Joana Hintze (Calçada dos Mestres 34). Outros destaques: “Os Dias das Pequenas Coisas” de Sarah Affonso no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado e “Sombras e Outras Cores” de Manuel Baptista no Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva.  Entretanto até sábado ainda podem ver algumas das exposições marcantes das últimas semanas: obras de Sérgio Pombo feitas entre 1973 e 2017 na Fundação Carmona e Costa, “Parasita” de Rita Ferreira na Travessa da Ermida, “Formas Antigas, Novas Circunstâncias” de André Guedes na Galeria Vera Cortês, “O Narcisismo das Pequenas Diferenças” de Pauliana Valente Pimentel no Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, “Jorinde e Joringel”, de Daniela Krtsch e “Double Poetics” , de Joana Gomes, na Galeria Belo Galsterer.

 

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UM TRIO INESPERADO - Não me canso de dizer que o trio é uma das minhas formações preferidas no jazz. O trio clássico inclui geralmente piano, baixo e bateria, mas no caso do disco de que hoje falo há uma curiosa situação: um dos músicos toca piano, trompete e teclados e ainda tem umas participações vocais. O músico em questão é Nicholas Payton, aqui acompanhado por  Kenny Washington na bateria e por Peter Washington no baixo. “Relaxin’ With Nick” é um duplo CD gravado nos dias 30 e 31 de Maio e 1 de Junho de 2019 no palco do Smoke - Jazz and Supper Club, de Nova Iorque. Ao todo são quinze temas, divididos pelos dois discos deste duplo CD, disponível no Spotify. Um dos temas incontornáveis é “Jazz Is A Four Letter Word”, a meio do primeiro disco. Payton começa com acordes do seu Fender Rhodes, acompanhado pelo baixista, enquanto explica que a música foi inspirada por um livro em que Max Roach estava a trabalhar na altura em que morreu. Payton, que fala e canta neste tema, passa do Fender Rhodes para o piano e depois para o trompete, num diálogo arrebatador com os outros dois músicos. Arrisco dizer que este é o tema mais emblemático de um disco onde também se destacam “1983”, “I Hear A Rhapsody” ou “Five”.

 

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GESTÃO POLÍTICA - Luis Reis, um dos nomes fortes da gestão histórica da Sonae, tem vindo a aumentar a sua actividade mediática, quer através de colunas de opinião, quer envolvendo-se mais directamente em política, como no caso das eleições internas do PSD em que aparece a apoiar um dos candidatos contra Rio. Aqui estão cerca de seis dezenas dos artigos que Luis Reis publicou entre Setembro de 2012 e Outubro de 2019 e que reflectem a sua observação da realidade económica e política portuguesa nesse período. Nos seus textos Luis Reis passa em revista a actuação dos governos de Passos Coelho e de António Costa e a acção dos ministros das finanças, nomeadamente de Vitor Gaspar e Mário Centeno. Luis Reis aborda os problemas que na sua perspectiva melhor caracterizam as dificuldades da nossa sociedade e da nossa economia. Além da sua actividade enquanto gestor, Luis Reis tem uma extensa carreira académica e participações em associações empresariais portuguesas e internacionais. Nas suas intervenções que aqui se recolhem tem insistido na necessidade de uma oposição mais activa que faça propostas novas, aponte reformas, defenda a modernidade. A última frase do livro, escrita depois das eleições de Outubro passado, diz tudo: “Lamento o pessimismo com que encaro os próximos quatro anos, mas navegar com Costa à vista é receita segura para naufrágio!”.

 

UM CLÁSSICO - Os buffets de almoço são geralmente uma aposta arriscada - coisas requentadas, sobras diversas, muitas vezes um aspecto um pouco enxovalhado. Uma boa excepção a esta regra é o buffet do histórico São Bernardo, hoje em dia na Junqueira, desde que há uns anos saíu da Lapa. Para além do take away que deu nome casa, o São Bernardo tem no segundo andar uma zona de restaurante que ao almoço funciona em buffet e que à noite pode ser reservado para grupos ou eventos. Mas vamos ao que interessa - este buffet é um clássico:  não sofre das maleitas da maioria, é diversificado, inclui sopa, entrada, prato de carne ou peixe, bebidas (vinho da casa branco ou tinto, água, sumo do dia ou limonada), além de sobremesa e café. O preço é 17,50, as mesas são confortáveis. Não é fácil encontrar clientela abaixo dos 40 e a orientação da cozinha é a gastronomia portuguesa. Num destes dias havia umas tenras tiras finas de choco frito acabado de fazer, uma belas empadinhas de frango e um saboroso frango com alecrim e mel. Nos acompanhamentos destacavam-se umas migas de couve, arroz árabe e batatinhas no forno,  além de uma boa variedade de saladas. Nas sobremesas há sempre fruta laminada e doces. no caso um bolo de chocolate e uma tarte de frutos silvestres. A qualidade da confecção é muito boa, a qualidade da matéria prima é constante. No São Bernardo não há lugar a más surpresas e no fim do almoço pode sempre escolher um dos pratos cozinhados e embalados para levar para casa.

 

DIXIT - “Era giro que, ao entregar o Orçamento ao Presidente da AR, Centeno fosse parado numa daquelas operações stop organizadas pela Autoridade Tributária e lhe esquadrinhassem a pen à procura de receitas ocultas” - José Diogo Quintela

 

BACK TO BASICS - “Um bom gestor garante que as coisas fiquem bem feitas; um líder consegue que se façam as coisas certas” - Peter Drucker

 



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DUAS DÉCADAS PERDIDAS

por falcao, em 03.01.20

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O ESTADO DA NAÇÃO -  As duas primeiras décadas deste século são um somatório de oportunidades perdidas para Portugal. Não se fizeram reformas estruturais e as poucas mudanças que se fizeram acabaram por ser em boa parte revertidas. A presença de portugueses em cargos internacionais de relevo ao longo destas duas décadas é inversa em relação às melhorias e aos progressos verificados no país. Foram duas décadas de degradação do sistema político, do surgimento de numerosos casos de corrupção de várias dimensões, de descrédito do parlamento e dos partidos do sistema. Foram anos de aperto, de destruição de valor, de colapso de instituições financeiras, de degradação dos serviços públicos. A responsabilidade de tudo isto é repartida pelos partidos que estiveram no Governo, sem excepção. Continuámos a ver as promessas eleitorais serem desmentidas na prática logo a seguir à contagem dos votos. O sistema deixou de usar a confiança como moeda de troca. A justiça é uma miragem. Os cidadãos pagam mais ao Estado e recebem menos. Os eleitores afastam-se cada vez em maior número dos processos eleitorais. Os governantes são eleitos por uma minoria. As grandes cidades estão a deixar de ter habitantes, trocados por visitantes. A especulação imobiliária instalou-se. Em Lisboa o programa político da autarquia é afastar os lisboetas, tornar-lhes a vida difícil e deixar a sujidade e a porcaria invadir toda a cidade. Na primeira vintena de anos deste século o progresso foi pouco e o retrocesso foi enorme. É este o estado da nação no início de uma nova década.

 

SEMANADA - O peso dos impostos e das contribuições sociais efetivas aumenta para 35% do Produto Interno Bruto segundo a proposta do Orçamento de Estado para 2020; em 2019 a cobrança fiscal bateu novo recorde, com o fisco a arrecadar 5,2 milhões de euros por hora; o défice do Serviço Nacional de Saúde aumentou 72 milhões de euros;  em 2019 a GNR deteve mais de 30 pessoas, só no Algarve, sob acusação de violência doméstica; ainda em 2019 registram-se 35 mortes em contexto de violência doméstica - 27 mulheres, uma criança e sete homens; duplicaram as queixas de trabalhadoras por discriminação e a maioria dos processos são de mulheres empregadas em híperes e supermercados;  o crédito concedido este ano atingiu o maior valor desde final de 2014; a avaliação bancária das habitações para a atribuição de crédito voltou a bater níveis máximos em novembro; o número de reclamações em relação aos transportes públicos atingiu este ano um valor recorde, com a maior parte das queixas a incidirem nos comboios e no metro de Lisboa;  uma em cada cinco queixas é sobre mau atendimento; são registados quatro bebés por dia com pai incógnito; o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto SS, classificou a gestão das empresas portuguesas como de “fraquíssima qualidade” num discurso para portugueses que prosseguiram as suas carreiras académicas no estrangeiro. 

 

ARCO DA VELHA -  A Entidade da Transparência, criada há seis meses para fiscalizar as declarações de rendimentos de políticos e altos dirigentes da administração pública, não tem dotação orçamental no novo Orçamento de Estado.

 

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RENASCIMENTO  - Uma boa ideia para começar o ano é visitar o Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, para ver a exposição  sobre a obra de Alvaro Pirez de Évora, o mais antigo pintor nascido em Portugal, e que trabalhou na região da Toscana, em Itália, entre 1410 e 1434. No retábulo da Igreja de Santa Croce de Fossabanda, próximo de Pisa, está uma das suas obras e na assinatura o autor diz-se oriundo de Évora.  São conhecidas cerca de 50 pinturas da sua autoria e é reconhecida a qualidade plástica e a importância histórica da sua obra. Da exposição fazem parte pinturas conservadas em Portugal, e ainda obras dos grandes pintores toscanos do seu tempo. Ao todo são mostradas cerca de 85 peças que permitem enquadrar o contexto cultural e artístico em que se desenvolveu a arte de Alvaro Pirez d’Évora. Esta mostra, a mais completa realizada até hoje sobre este pintor,  conta com empréstimos de grandes museus europeus e coleções privadas de referência, de Itália, França, Alemanha, Hungria e Polónia. A exposição é fruto de uma colaboração entre o Museu Nacional de Arte Antiga e o Polo Museale della Toscana e testemunha as intensas relações da área mediterrânica nos alvores do Renascimento. Esta mostra da obra de Alvaro Pirez de Évora fica até 15 de Março, na galeria das exposições temporárias do Museu Nacional de Arte Antiga, no piso zero.

 

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HOT RATS - Frank Zappa fez 62 álbuns em 52 anos de vida e desde a sua morte, ocorrida em 1993, os seus herdeiros já lançaram quase mais seis dezenas. O mais recente é a revisitação de The Hot Rats Session, em seis discos. Hot Rats foi o primeiro grande disco dos Mothers Of Invention, em 1969, e o álbum original tinha 43 minutos que oscilavam entre influências de jazz improvisado e o rock. Nas notas da fantástica capa, o próprio Frank Zappa chamava-lhe “um filme para os vossos ouvidos”. Nesta nova edição estão sete horas e 19 minutos que mostram o trabalho de Zappa e dos outros músicos ao longo das sessões de estúdio que levaram aos disco original. O seu talento de compositor ressalta e nas gravações pode sentir-se o génio a trabalhar, repetindo solos, improvisando, procurando o som pretendido e a melhor solução instrumental. Hot Rats,  o título, vem segundo o que Zappa contava, do que ele achava que soava um solo de Archie Shepp. Nesta recolha de conversas de estúdio (como no disco seis) e horas de ensaios, há a prova do experimentalismo, do sentido de aventura e de descoberta que sempre caracterizou a obra de Frank Zappa, com muito humor e provocação pelo meio. Esta nova edição não tem as sessões integrais, mas sim pedaços escolhidos que permitem compreender melhor como o disco original se tornou num clássico e a quantidade de trabalho que foi colocada no seu processo criativo. Frank Zappa, The Hot Rats Sessions, está disponível no Spotify.

 

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HERANÇAS - A “Cereal” é uma revista de lifestyle, que se publica duas vezes por ano, e em cada edição visita um conjunto de destinos, publica entrevistas e artigos sobre design, moda e arte. A edição de Outono/Inverno de 19 é dedicada o tema da herança, no sentido do legado, da tradição que passa de geração em geração. É uma edição quase intemporal - até a moda não tem data marcada. Rosa Park, a directora da publicação, escreve no texto de introdução que evocar o que nos é deixado “é procurar alcançar a imortalidade, vivendo as memórias daqueles que amámos”. Nesta edição explora-se a arquitectura de Gio Ponti num hotel intemporal em Sorrento e de Carlo Scarpa num túmulo desenhado em 1906. Pode ainda ver-se o trabalho desenvolvido para a Ruinart por Jonathan Anderson e um olhar sobre o estúdio onde Joan Miró trabalhava. Um dos melhores momentos é o portfolio fotográfico de Fan Ho, que com uma Rolleiflex retratou a Hong Kong dos anos 50 do século passado. Esta “Cereal” dá destaque a João Rodrigues, o português que com Manuel Aires Mateus desenvolveu o projecto das Casas na Areia da Comporta, que esteve na Bienal de Veneza em 2008. Depois, também com Manuel Aires Mateus, vieram a Casa no Tempo, no Alentejo, e as Cabanas no Rio, também na Comporta, além do Hotel Santa Clara 1728, em Lisboa. Estes quatro projectos são enquadrados pela marca comum “Silent Living”, que procura combinar a tranquilidade de cada local com um acolhimento familiar. Não é a única presença portuguesa nesta edição da “Cereal” que conta também com uma página de publicidade da marca “Flanela Portuguesa”.

 

COMIDAS - “O Homem Que Comia Tudo” é o blog de Ricardo Dias Felner, um dos melhores sítios para se obterem conselhos em matéria de novos restaurantes e de sugestões gastronómicas. O blogue todos os anos atribui os Prémios Cometa, acabados de revelar e que podem ser consultados em   ohomemquecomiatudo.com. Do texto introdutório à lista dos premiados destaco este excerto: “ainda falta um chef que meta todo o empenho e investimento na tarefa de fazer um restaurante moderno e ambicioso de cozinha regional portuguesa; ainda falta um Solar dos Presuntos actualizado, menos posh e menos vinha d’alhos, mas igualmente impecável no produto e no serviço”. Há prémios para todos os gostos, desde o melhor fine-dining até ao melhor ramen ou comida italiana, passando pelo melhor amouse-bouche, melhores mexicano, chinês, coreano ou japonês do ano. E claro, o chef do ano, o balcão do ano, o snack-bar do ano, a entrada do ano, a sobremesa do ano e mais uma série de inesperadas categorias que vale a pena conhecer. Vão ao blogue que vale a pena - podem a partir daí constituir um roteiro para interessantes descobertas em matéria gastronómica.

 

DIXIT - “Como é que um socialista consegue um excedente orçamental? - Aumenta os impostos.  Quem paga o excedente? - Os contribuintes. E que faz um socialista com um excedente? - Alimenta a grande família socialista. “ - Vicente Ferreira da Silva.

 

BACK TO BASICS - “Experiência não é o que acontece a cada um de nós, é aquilo que fazemos com o que nos acontece” - Aldous Huxley.



 



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REGULADOR, CENSOR OU APENAS BUROCRATA?

por falcao, em 27.12.19

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ERC AGRIDE RTP - Na semana passada foi dada mais uma machadada no Serviço Público Audiovisual por um órgão essencialmente emanado do Parlamento - a Entidade Reguladora da Comunicação, um organismo que tem tido uma vida aberrante, criado há relativamente pouco tempo sob a batuta desse génio que é Azeredo Lopes (sim, o de Tancos…), mas que é essencialmente um monstro burocrático incapaz de acompanhar o evoluir dos tempos e daquilo que se propõe regular. Tenho guardados na memória episódios da falta de conhecimento da realidade de que a ERC regularmente dá mostras, nomeadamente na área online. Para mal dos nossos pecados cabe à ERC representar o Estado na tutela da RTP, é perante a ERC que os cargos dirigentes na área da programação e da informação da estação de serviço público têm que responder e é por ela que têm de ser aprovados antes de iniciarem funções. Como se viu num caso recente, a luz verde da ERC não impediu a interferência da anterior Direcção de Informação na tentativa de condicionar um programa e de gerir a sua emissão de acordo com um calendário da sua conveniência política. Um dos proeminentes dirigentes da ERC, Alberto Arons de Carvalho, veio mesmo afirmar publicamente não discordar das opções feitas pela anterior Direcção de Informação sobre o caso “Sexta Às Nove”. Este senhor foi em tempos Secretário de Estado, com a tutela da RTP, num dos períodos mais graves de má gestão e manipulação sistemática daquela estação, e não se regista uma decisão sua que impedisse o caos que lá se instalou. Voltemos ao tema: José Fragoso, jornalista e experiente homem de televisão, tem sido o Director de Programas da RTP e tem conseguido, no meio do furacão que em 2019 alterou o panorama das televisões em Portugal, manter a estação pública estável, continuando linhas de programação relevantes, dinamizando documentários, criando novas apostas e proporcionando até um crescimento da relevância do serviço público. A proposta da Administração da RTP em lhe dar a possibilidade de acumular a Direcção de Programas com a Direcção de Informação é uma aposta estratégica, na linha do que acontece nas melhores estações mundiais de serviço público onde há um Director Geral que coordena ambas as áreas. Qualquer pessoa que siga e se interesse pela missão contemporânea do Serviço Público Audiovisual conhece as boas práticas do sector, aquelas que têm dado provas, que têm alcançado resultados, que têm desenvolvido a estratégia de produção de conteúdos. A RTP não tem, na sua estrutura e estatutos, consignada a figura de Director-Geral, embora ela tenha existido implicitamente, de forma mais ou menos disfarçada, em muitos casos anteriores. Desta vez, respeitando os estatutos, a nomeação foi clara e fazia sentido. Sempre defendi que na RTP devia existir um Director-Geral com capacidade para harmonizar as áreas da Informação e Programação, que muitas vezes evidencia uma esquizofrenia que se manifesta graças à solução actual - além das numerosas guerras internas improdutivas que fomenta.  A estrutura que a ERC defende é uma herança da forma de organização dos jornais do início do século passado, adoptada como modelo para todos os media e que depois foi progressivamente sendo abandonada, em que se defendia uma certa predominância da Informação sobre a Programação, em vez de existir complementaridade. Ora era exactamente esta complementaridade, hoje em dia evidente em muitas estações públicas europeias de referência, que a RTP poderia ter, e que esta Administração procurava agora formalizar de forma transparente. Ao recusar a solução por temer a concentração e “os riscos que tal situação comporta”, a ERC veio revelar como é retrógrada, como não compreende o que deve ser hoje em dia um Serviço Público Audiovisual e como é avessa a qualquer tentativa de mudança e inovação. Não é pelo caminho que a ERC preconiza que se pode desenvolver um Serviço Público Audiovisual forte. Os senhores deputados e os senhores governantes que sustentam a ERC são coniventes com isto. Ou seja, prestam um péssimo serviço ao Serviço Público Audiovisual. 

 

SEMANADA - A ADSE tem por validar 650 mil facturas apresentadas por beneficiários para reembolso e o número deverá crescer no primeiro trimestre de 2020; nas duas primeiras décadas deste século Portugal perdeu 8767 escolas; ao contrário do que foi prometido pelo Governo a Autoridade Tributária não está a aceitar as correcções das declarações de IRS de quem recebeu pensões em atraso; cada árbitro ganha 1480 euros por jogo da Primeira Liga; no Orçamento de Estado apresentado por Centeno faltam dados sobre quanto o Governo tem para gastos imprevistos; a Ordem dos Engenheiros afirmou, sobre o impacto do mau tempo na zona de Coimbra, que houve incúria do Estado e desinvestimento na manutenção; segundo o seu Presidente do Conselho de Administração, a agência de notícias Lusa, por ter visto o seu financiamento limitado pelo Governo, vai sacrificar drasticamente o investimento em tecnologia em 2020 “num exercício orçamental de altíssimo risco” sobre o qual a ERC mantém religioso silêncio; no terceiro trimestre do ano o preço das casas em Portugal subiu 10,3%; o Bispo do Porto afirmou que “o Estado não é pessoa fiável”; nos últimos cinco anos a Inspecção do Ambiente só conseguiu cobrar 24% das multas; um terço dos projectos apresentados por empresas, e aprovados, no âmbito do Programa Portugal 2020 estão por executar; cada português produz em média 508 kgs de lixo por ano; o Exército perdeu metade dos efectivos em quase duas décadas; o quartel da GNR em Tavira está há um ano sem água quente.

 

ARCO DA VELHA - NO PSD, que é teoricamente o maior partido da oposição, menos de metade dos seus militantes tem direito a voto nas eleições directas para escolha de quem irá dirigir o partido e só cerca de 30 mil poderão votar. Esta democracia está cada vez menos representativa.

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FOTOGRAFIA  - Este ano, no Porto, surgiu uma galeria integralmente dedicada à fotografia. O Espaço SP620 (na imagem) foi criado por Pablo Berástegui que tem bastante experiência na área, nomeadamente como um dos responsáveis da Photo España. Além de galeria promove edições especiais e promove um projecto pedagógico que organiza visitas guiadas às exposições da Galeria para grupos de jovens. Durante os próximos quatro anos vai dedicar-se exclusivamente à fotografia documental, tendo por base um ciclo designado Salut Au Monde!, evocando o título de um poema célebre de Walt Whitman. Até 11 de Janeiro pode ser vista a exposição “Out Of The Way”, de Elena Anosova, com imagens realizadas nos territórios do extremo norte da Rússia, onde ainda vive a família paterna de Anosova rodeada por uma natureza intacta e uns modos de vida não muito diferentes daqueles dos antepassados que colonizaram a região da Sibéria há três séculos. A Galeria quer basear a sua actividade num grupo de apoiantes que mediante uma contribuição anual têm direito a tiragens das imagens das exposições realizadas. É um desafio para todos os que gostam de fotografia.  Espaço SP620, Rua Santos Pousada, 620. Mais informações em https://www.salutaumonde.info/ . Outras sugestões: ainda no Porto, no edifício da Alfândega pode ver  "Henri Cartier-Bresson: Retratos", uma exposição que reúne 121 trabalhos do fotógrafo francês realizados ao longo de 70 anos.  Em Évora, numa mostra preparada e encenada para ser vista ao ar livre, no Largo Conde Vila Flor, estão expostas 38 fotografias de Sebastião Salgado, a preto e branco, que integram o seu mais recente livro, “Genesis”. 

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SONS DA EMOÇÃO - Os budistas tibetanos acreditam que quando alguém morre a sua consciência vagueia num estado intermédio a que chamam bardo durante sete semanas antes de transitarem para uma nova vida. Tradicionalmente os monges budistas, para auxiliarem os familiares de quem passa por esta prova, lêem em voz alta o The Bardo Thodol, ou seja, o Livro Tibetano dos Mortos, durante os 49 dias do processo. Tenzin Choegyal é um dos mais importantes músicos tibetanos e há cerca de 15 anos trabalha  em diversos projectos inspirados pelo The Bardo Thodol, o último dos quais é “Songs From The Bardo”, feito em colaboração com Laurie Anderson e Jess Paris Smith, a filha de Anderson e de Fred ”Sonic Youth” Smith. Anderson assume o papel de guia nesta gravação, lendo passagens do Livro Tibetano dos Mortos traduzidas para inglês por Choegyal, acompanhadas por música imaginada por Jess Paris. No disco as canções e recitações sucedem-se sem separações evidentes, num ambiente fortemente emotivo e inspirador, musicalmente poderoso, em que o trabalho do violoncelista Rubin Kodheli merece especial referência. Disponível no Spotify.

 

PROVAR - Cada vez mais gosto de restaurantes despretensiosos onde o único conceito é prestar bom serviço e apresentar comida bem confeccionada. Por estes dias descobri o Clotilde, no Estoril, próximo do Casino, junto ao Centro de Congressos.  A sala é confortável, com a cozinha à vista, e existe também uma esplanada coberta. O serviço é atencioso e eficaz, a lista de vinhos é curta mas bem escolhida e a preços honestos e, no final, a conta é decente. Nas entradas provaram-se com agrado os peixinhos da horta e uma perdiz de escabeche muito boa. Umas trouxas de enchidos ficaram aquém das expectativas, mas havia uma opção elogiada numa mesa perto que podia ter sido um boa escolha - ostras à unidade ou à dose de seis. Nos pratos de substância tudo continuou a correr bem, com particular destaque para umas lulas guisadas com ameijoas, no ponto e muito saborosas. Na mesa mereceram elogios uns filetes de peixe galo que podem vir com arroz de tomate ou salada;  e dois amigos estrangeiros residentes aventuraram-se com êxito, ele nuns filetes de polvo com arroz de feijão enquanto uma californiana de gema elogiou a bochecha de porco preto com migas de espargos - destacou o tempero da tenra carne e o sabor das migas de espargos, que quis saber como se faziam. O Clotilde fica na Avenida Clotilde, Edifício Centro de Congressos do Estoril, telefone 214 663 084.

 

DIXIT -  “Os políticos adoram o caos. Não pensam noutra coisa. Dá-lhes autoridade e dá-lhes poder. Dá-lhes proeminência. Ficam com a ideia de que podem resolver as coisas por nós”- John Le Carré

 

BACK TO BASICS -  “Fazer reportagem é uma escola de vida: o que aprendemos baseia-se em erros que cometemos” - Cristina Garcia Rodero, fotojornalista.

 

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REGABOFE PARLAMENTAR

por falcao, em 20.12.19

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VERGONHA - Não tenho a menor simpatia por André Ventura. Mas também tenho muito pouca simpatia pelo comportamento de vários deputados no Parlamento, pela forma como alguns deles todos os dias atacam a democracia que dizem defender, perante a complacência - por vezes cumplicidade - dos dirigentes dos respectivos partidos. Não falo só dos casos de acumulação da função de deputado com actividades que deviam ser incompatíveis, nem tão pouco dos casos de tráfico de influências ou de conflito de interesses.  Também já nem falo dos arranjinhos de viagens, das assinaturas falsas de presença, das moradas fictícias para receberem subsídio de deslocação. O que na semana passada verdadeiramente me causou perplexidade foi a prescrição de multas a partidos políticos, que aconteceu graças a uma revisão da lei feita no Parlamento com a participação de deputados que eram visados no caso. A história tem requintes de malvadez e o facto é que prescreveram multas de centenas de milhares de euros aplicadas a partidos parlamentares por faltas cometidas nas suas contas relativas a 2009 e 2010. Pior ainda, sabe-se agora que o mesmo pode acontecer em relação às contas das finanças partidárias até 2014, que correm o risco de também ficarem no lixo e não serem cobradas. E porquê - a nova lei de financiamento, feita em Janeiro de 2018, é a causa que  levou à prescrição de processos de contra-ordenação de partidos e seus responsáveis financeiros. Curiosidade mórbida - alguns desses responsáveis financeiros das máquinas partidárias eram deputados que lideraram a muito conveniente revisão da lei que, em Janeiro de 2018, abriu caminho para atirar com as multas para o lixo. Na realidade estes deputados encontraram forma de contornar um sistema de controlo e verificação de irrregularidades e ilegalidades na actuação dos partidos, para que eles depois não sejam sancionadas. Se isto não é vergonhoso, o que será vergonha no parlamento português?.

 

SEMANADA - O orçamento para 2020 prevê um aumento da receita fiscal de 1275,4 milhões de euros, as receitas com IRS crescem mais de 400 milhões de euros e o Governo prevê um aumento da receita do IVA graças ao aumento do consumo; no mês de Outubro o crédito ao consumo atingiu o valor recorde de 726,8 milhões de euros; as queixas dos consumidores portugueses relativamente à Black Friday subiram 51% face ao ano passado; o descontentamento pelo atraso na entrega de encomendas aumentou 61%;  em 2018 os museus tiveram um aumento de 13,5% no aumento de visitantes, que atingiram os 19,5 milhões, quase metade dos quais foram estrangeiros; em 2018 registaram-se menos 5,3 % de espectadores nas salas de cinema nacionais; já os espectáculos de música registaram um aumento de 9,5% de espectadores; as exportações de bens culturais em 2018 representaram 167,6 milhões de euros (menos 6,9% do que no ano anterior) e as importações registaram 399,1 milhões, o que resultou num saldo negativo de 231,5 milhões; em 2018 a despesa das câmaras municipais em actividades culturais e criativas atingiu os 469,8 milhões de euros, um aumento de 4,4 % face a 2017; a linha de crédito para os municípios fazerem trabalho de limpeza de terrenos florestais desce de 50 milhões para cinco no próximo ano; no próximo ano está previsto um aumento de custos de nove milhões de euros nos gabinetes ministeriais deste Governo; em 2018 cerca de 80 mil portugueses deixaram o país.

 

ARCO DA VELHA - O Governo não executou este ano mais de 755 milhões de euros de investimento público que estavam programados em 2019 e no Orçamento de 2020 está assumido que 590 milhões nunca serão descativados.

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MEMÓRIAS & JOGATINAS - Depois de terem percorrido três décadas da vida lisboeta (LX 60, LX 70 e LX 80), Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes dedicam-se agora a mostrar outro lado de Lisboa em “LxJoga” que tem a particularidade de contar histórias meio esquecidas da cidade, juntando-as com jogos de papel, colocados no livro ao lado de episódios que com ele se relacionam. Aqui poderão ver como nasceram as avenidas novas ou o que significava o Salão Ideal, como era a festa permanente do Bristol Club ou as tentações hollywoodescas do cinema português de meados do século passado. Há capítulos imperdíveis como o dos 16 cromos lisboetas, do Repórter X a Guida Gorda, passando pelo Senhor do Adeus ou Madame Calado. Registam-se figuras que ajudaram a mudar a cidade, como Duarte Pacheco.  Momentos marcantes como o início da Moda Lisboa, a Expo 98 ou a inauguração da Fundação Calouste Gulbenkian aparecem bem relatados e ilustrados. O “LxJoga” combina a história com o ar lúdico dos jogos que se vão espalhando ao longo das páginas, com as respectivas soluções no final da obra, como manda a tradição.

 

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FUTUROLOGIA - Embora nem toda a gente tenha consciência do assunto, na realidade a maioria das pessoas ganharia em ter um almanaque perto de si ao longo de todo o ano. Nem estou a falar do velho Borda d’Água, estou mais a pensar em pequenos livros que se editam nesta altura do ano e que são guias para o futuro próximo. Um bom exemplo de uma destas bem úteis publicações é o “grande Almanaque Português, editado pela Guerra & Paz. Tem um belíssimo grafismo e inclui extensa informação sobre feriados nacionais e municipais, festas e feiras por todo o país, os dias dos santos, romarias e procissões, rezas e benzeduras, astronomia, marés e metereologia além de um rol imenso de curiosidades, como por exemplo várias boas receitas culinárias. Está ordenado por meses e por assuntos. No início do livro os editores sublinham que “um almanaque é um acto de celebração do passado e de confiança no futuro”. Reza a tradição que o primeiro almanaque português nasceu no final do século XV, em 1496, uma obra de Abrão Zacuto intitulada Almanach Perpetuum. Nos tempos presentes este da Guerra & Paz oferece-nos muito boa informação útil para irmos balizando o 2020 que está à espreita.

 

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A MÚSICA DE UMBERTO ECO - “La Misteriosa Musica Della Regina Loana” é uma novela de Umberto Eco que deu o título e serviu de inspiração ao novo trabalho da dupla Gianluigi Trovesi no clarinete e Gianni Coscia no acordeão, um disco agora editado pela ECM e já disponível no Spotify. Umberto Eco era um admirador confesso da dupla e neste trabalho Trovesi e Coscia recuperam uma série de temas que o escritor referiu no seu livro. Aqui estão 19 temas, entre os quais referências cinematográficas como “As Time Goes By” (de Casablanca) ou “Bel Ami” (do filme com o mesmo nome), clássicos como “Moonlight Serenade” de Glenn Miller, “Basin Street Blues” de Louis Armstrong ou temas dos próprios Trovesi e Coscia como “Gragnola”, a sua homenagem à Toscana. O disco abre com “Interludio”, uma composição em que o próprio Umberto Eco e Gianni Coscia colaboraram há anos. Prova de criatividade e capacidade de invenção este disco é uma das belíssimas surpresas da editora ECM neste final de ano.


APERITIVO ITALIANO - Sou um guloso por arancini, essa delícia italiana que tem origem na Sicília, Trata-se de uma bola de arroz que pode ter vários recheios e que no final é passada por farinha e frita. Antes de o ter provado deliciava-me com as descrições da iguaria feitas por Andrea Camilleri nos livros que relatavam as investigações do inspector Montalbano, claramente os policiais que conheço que mais abrem o apetite. Quando os provei percebi o porquê dos elogios de Montalbano ao petisco. Se em Itália, e sobretudo na Sicília, é frequente encontrá-los como aperitivos de fim da tarde em bares, em Portugal não é muito fácil dar com eles. Um bom amigo indicou-me - e posteriormente levou-me - ao L’Ape - Boteco Italiano, onde me deliciei com arancini de vários tamanhos e recheios, todos eles de superior qualidade. O L’Ape é um bar italiano feito para petiscar, conversar, beberricar. Há spritz de Aperol e de Campari, vinhos italianos e, em dias de sorte, os tais arancini. A casa é pequena, tem uma sala junto ao bar e um reservado interior com apenas uma mesa. Combina a função de aperitivo com a de galeria de arte, mostrando obras de artistas jovens. O menu do dia inclui uma bebida e uma tábua de queijos, enchidos e outros petiscos (incluindo por vezes arancini) e custa nove euros por pessoa. Além da tábua há outras possibilidades, bruschettas, saladas, piadine e panini diversos por exemplo, A selecção de vinhos italianos e alguns portugueses é boa embora não seja muito extensa e tem bons preços. Se um dia destes lhe apetecer experimentar um sabor de Itália ao fim da tarde este é o sítio certo para ir. Marco e Sergio lideram as operações, o ambiente é alegre, o serviço muito simpático. Para saberem quando há arancini sigam a página do restaurante no Facebook ou no instagram. Fica na Rua da Senhora da Glória 116A, à Graça.


DIXIT - “Uma política para a cultura deveria ser uma política de públicos e uma política de instituições (bibliotecas, museus, arquivos, patrimónios...) não uma política de clientelas, de autores e de criações, em suma, de subsídios” - Alexandre Pomar

 

BACK TO BASICS - “A maior parte das conversas não passa de monólogos proclamados na presença de testemunhas” - Margaret Millar

 





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A GRANDE ILUSÃO - António Costa começou esta semana a usar a fantasia de Pai Natal. Colocou as barbas brancas e a fatiota vermelha a meio da discussão do Orçamento de Estado. Prometeu mais dinheiro em alguns sectores, nomeadamente na saúde, e colocou Centeno em lume brando, a fazer o papel de perú natalício no forno. Desde o IVA da electricidade ao financiamento da saúde, passando por aumentos da função pública ou a contratação de mil jovens licenciados para serviços do Estado, apareceu um pouco de tudo nesta semana. Com um Orçamento de Estado que promete um excedente orçamental e com estes aumentos de despesa é certo que o dinheiro há-de vir de algum lado - e nas últimas semanas foram também abundantes as referências a novas taxas. A única certeza que tenho é a de que no fim do dia a carga fiscal, directa ou indirecta, vai aumentar. O Estado, como a situação na saúde demonstra, não sabe poupar, sabe cortar e destruir. E depois, quando já está tudo a arder, despeja dinheiro que vai buscar aos bolsos dos contribuintes. Certamente que se recordam que a poucos dias das eleições António Costa garantia não haver problema algum na saúde. Esta semana revelou os números de parte do problema, um problema criado pela austeridade encapotada que marcou a sua primeira legislatura. Agora vem com estas promessas, que profissionais do sector dizem serem ainda insuficientes. Diminuir o peso do Estado é estabelecer prioridades - em sectores como a saúde, a educação, a justiça e a segurança e fazer reformas que permitam que estas áreas funcionem. Vir nesta altura falar de criar mais Estado numa regionalização encapotada é a prova de que tudo isto é um engano. A António Costa não interessa fazer reformas estruturais, o que ele sabe fazer é criar ilusões.  

 

SEMANADA - As emissões poluentes provenientes de navios nos portos portugueses superam as dos carros nas oito maiores cidades portuguesas; o custo das iluminações de natal em todo o país ultrapassa os sete milhões de euros, mais dois milhões que no ano passado - só em Lisboa são 800 mil euros;  o uso de dados móveis em 'roaming' na União Europeia (UE) decuplicou no primeiro semestre de 2019 face a 2017, ano em que as taxas de utilização dentro do bloco europeu foram abolidas; os preços das comunicações em Portugal são 20% mais elevados do que a média da União Europeia, e os da internet são 31% mais caros; há dois anos, a ADSE demorava, em média, um mês e uma semana a pagar aos beneficiários mas desde então, o prazo aumentou quase dois meses; em Outubro os bancos emprestaram mais de 30 milhões de euros por dia em crédito à habitação; em Albufeira há 7361 alojamentos locais; até Setembro o Estado gastou quase 300 milhões de euros em horas extra nos hospitais do SNS; segundo a Marktest, as redes sociais tiveram um crescimento rápido em Portugal, passando de 17.1% de utilizadores em 2008 para 63.6% em 2019, com a maior parte dos acessos feitos por telemóvel; entre os utilizadores portugueses, o Facebook ainda domina mas perde influência, com o Instagram a posicionar-se como rede em ascensão e muito relevante sobretudo entre os mais jovens; entre Janeiro e Setembro os crimes com facas aumentaram 10,4%; nos últimos dois anos abriram quase 300 supermercados em Portugal.

 

ARCO DA VELHA - Dois meses depois das eleições o partido Livre decidiu fazer um manual de conduta para a sua deputada, com nove regras, para ela se saber comportar politicamente. 

 

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ARTES URBANAS -  Pedro Casqueiro (na imagem) faz parte de uma geração de artistas plásticos portugueses que começou a expôr nos anos 80 do século passado e que desde então vem trabalhando a pintura de forma cada vez mais depurada. Desde a semana passada e até final de janeiro mostra uma dezena de trabalhos inéditos na exposição “Pinturas Rupestres” na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18-B). Outros destaques: até Sábado 14 pode visitar “Nas barbas do Pai Natal” , uma exposição de cerâmica, escultura, pintura e joalharia que mostra linguagens diferentes com pontos comuns, obras de Beatriz Horta Correia, Graça Pereira Coutinho, Laura Ayerza de Castilho e Susana Piteira, na loja Manuel Castilho Antiguidades, Rua D. Pedro V 85. Em mais uma exposição que procura cruzar a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas o Atelier-Museu (rua do Vale, 7) exibe a mostra “Antes do Início e Depois do Fim: Júlio Pomar e Hugo Canoilas”, com trabalhos de Hugo Canoilas e curadoria de Sara Antónia Matos.  Na Biblioteca Nacional pode ver “Volta Ao Mundo”, uma exposição sobre a obra gráfica de José de Guimarães uma seleção representativa da sua gravura produzida desde os anos 60 até final de 2018. Finalmente até 11 de Janeiro, “O Narcisismo das Pequenas Diferenças”, da fotógrafa Pauliana Valente Pimentel, põe jovens de várias classes sociais da ilha de São Miguel nas paredes do Arquivo Municipal de Lisboa.

 

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O PRINCÍPE - Em 1992 Prince lançou “1999” um álbum que muitos consideram o momento de viragem na sua carreira, o trabalho que lhe trouxe êxito e reconhecimento, assim como acesso a novos públicos. Foi o quinto álbum da sua carreira e o primeiro com a sua banda The Revolution. Faixas como a que dá o título, “1999”, ou “Delirious” ou “Little Red Corvette” foram marcantes. O disco, feito numa época particularmente agitada da sua carreira, coexistiu com o trabalho que fez com as Vanity 6 e Time, conseguindo manter um elevado padrão de qualidade. Agora a Warner lançou uma caixa com cinco discos que além dos temas originais, inclui lados B de singles, demos de estúdio,  inéditos e a gravação de um concerto dessa época. As canções originais foram remasterizadas e o conjunto de cinco discos tem ao todo 65 temas. O primeiro CD tem os 11 temas originais, o segundo inclui 18 demos, versões alternativas e edits para maxi singles. Nos dois discos seguintes há lados B de singles e inéditos - com destaque para uma balada tocado ao piano, “How Come You Don’t Call Me Anymore”, o vibrante “Horny Toad” que apareceu ao longo dos anos sob várias formas ou ainda “Moonbeam Levels”, que tinha sido revelado no álbum póstumo “4ever”. O quinto disco reproduz a gravação de um concerto realizado em Detroit em 30 de Novembro de 1992, com a energia que era habitual Prince colocar em palco. A caixa inclui ainda um DVD filmado um mês mais tarde em Houston. Trata-se claramente de uma edição para fãs e coleccionadores, que merece ser ouvida com atenção para, por exemplo, se descobrirem raridades como “Money Don’t Grow On Trees” ou “Rearrange” . Os cinco CD’s audio estão disponíveis no Spotify.

 

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PREVISÕES - Desde há uns anos a revista Monocle edita nesta altura uma publicação extra a que dá o nome de “Forecast” e que se dedica a fazer previsões e sugestões para o ano que se segue. É, normalmente uma edição particularmente rica em ideias e conteúdos e a que agora saíu não foge a essa regra. Um dos temas mais interessantes é um ranking das melhores pequenas cidades para se viver. Lusanne na Suiça ocupa o primeiro lugar, seguida por Boulder nos Estados Unidos e Bergen na Noruega. O Porto aparece em nono lugar. Em cada caso é feita uma análise da razão de recomendação de cada uma das urbes. Outro ponto de interesse é um trabalho sobre a nova capital que a Indonésia quer fazer, praticamente do zero, para substituir Jakarta como sede do Governo. Outro artigo interessante relata o aumento do consumo do cartão devido às embalagens utilizadas para a expedição das compras online e as iniciativas que a indústria do sector está a desenvolver para minorar os efeitos ambientais. Se já pensou como é a vida de um agente de escritores ou artistas esta edição do “Forecast” dá-lhe uma ideia do que fazem alguns dos mais conhecidos. No campo das artes  fiquei a saber que a Hungria está a captar cada vez mais filmagens de produções de cinema e televisão graças a uma film commission que funciona bem, suportada por incentivos fiscais que em 2019 atraíram para o país 360 milhões de euros para o sector audiovisual. Ora se cá o Ministério das Finanças entendesse o que os húngaros entendem a vida podia ser bem diferente para esta área em Portugal - não nos falta a luz, nem cenários naturais, nem técnicos. Só nos falta mesmo vontade política para fazer uma oferta financeira atraente.

 

EM DEFESA DO PANADO - O escalope panado, quando é bem feito, é um petisco. Falo de um escalope de vitela, cortado fino, a carne temperada com limão, sal e pimenta, depois envolvida em ovo batido, um pouco de farinha e pão ralado para uma rápida fritura. O ideal é que fique dourado e não com a cor escura que o óleo muito usado dá. Um bom panado tanto pode ser comido acabado de fazer, como servido frio com uma salada ou, então, no meio de um bom pão de mistura barrado com mostarda de qualidade, aconchegado por  uma folha de alface para refrescar. É mais frequente encontrar filetes de porco que de vitela, mas se o corte da bifana fôr muito fino e o tempero tiver sido bem feito são igualmente bons. Esta é uma boa base para uma refeição ligeira e o frito dos panados liga bem com legumes ou uma salada só de tomate cortado em pequenos pedaços, que é o acompanhamento que prefiro. Não é preciso nenhum caldeirão para a fritura, basta uma frigideira com óleo novo de boa qualidade e em pequena quantidade - não necessita de cobrir o filete. Dois minutos de cada lado devem chegar e depois é deixar secar para tirar o excesso de óleo. No fim basta temperar já no prato com uma generosa quantidade de limão espremido.

 

DIXIT - “Há comandantes que não têm quem comandar” - Helena Carreiras, Directora do Instituto de Defesa Nacional

 

BACK TO BASICS - “Quando falamos só repetimos o que já sabemos, mas se ouvirmos pode ser que aprendamos algo de novo - Dalai Lama

 





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MANIFESTO CONTRA A REGIONALIZAÇÃO

por falcao, em 06.12.19

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BATOTICE REGIONALIZADA - Num país com a nossa dimensão geográfica e populacional não consigo compreender a defesa que alguns políticos, na maioria profissionais dos respectivos aparelhos partidários, fazem da regionalização. Posso compreender, e desejar até, que se criem mais mecanismos de descentralização e se aperfeiçoem os existentes, posso aceitar que se aumente o papel e competências dos municípios, desde que recebam os meios necessários para isso e que eles próprios tornem o seu funcionamento mais transparente. Mas num Estado Central com tantas ineficiências como o nosso, criar aparelhos regionais apenas vai multiplicar essas ineficiências e as burocracias que as acompanham. Mais: num Estado onde a corrupção atinge níveis tão elevados, muitas vezes a n´vel local das autarquias, fazer a regionalização é aumentar os territórios da corrupção, é fomentar o controlo dos aparelhos administrativos pelos aparelhos partidários a uma escala ainda maior. Eu não quero ter mais Estado, quero sim ter um Estado menor e melhor. Mas quando penso na regionalização vejo apenas mais potenciais caciquezinhos, mais poderzinhos, mais serviços duplicados, menos eficácia, maiores prejuízos para os cidadãos, muito provavelmente mais taxas e impostos. A regionalização não é uma questão ideológica que divida os partidos - há dirigentes pró-regionalização nos principais partidos, até porque os seus defensores vêem oportunidades acrescidas para espalhar uns lugares e aumentar o tráfico de influências. Aos principais e mais envelhecidos partidos, aqueles onde o aparelhismo e a corrupção andam de braço dado, a regionalização interessa para proveito próprio, mesmo que seja má para o país. Por saberem isso os seus defensores querem criá-la de forma encapotada, meio escondida, ir criando factos consumados - foi o que António Costa andou a fabricar com alguns autarcas que lhe são próximos nestes últimos tempos, foi aquilo que o Presidente da República travou, alertando para a marosca.

 

PENSAMENTOS OCIOSOS- Todos os dias me surpreendo com a falta de memória e a ingenuidade das afirmações de arguidos e testemunhas interrogados nos principais processos em curso nos tribunais portugueses.

 

SEMANADA - O Tribunal de Contas arrasou os planos das câmaras municipais contra incêndios nas zonas rurais acusando-os de falta de eficácia; um terço dos alunos portugueses com 15 anos ou mais só lê quando é obrigado e para 22% dos estudantes a leitura é considerada uma perda de tempo; há disciplinas, como o Português, em risco de ficar sem professores no espaço de uma década; só seis das 20 dioceses portuguesas criaram comissões de protecção de menores; o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou Portugal por condições degradantes em duas cadeias; uma sondagem do Correio da Manhã indica que depois das eleições de Outubro o CDS já caíu dos 4,4% alcançados para 2,9% das intenções de voto, o mesmo valor que a Iniciativa Liberal e menos que o Chega; segundo a Marktest mais de cinco milhões de portugueses utilizam serviços de mensagens instantâneas em vez de SMS; a falta de verba impede traduções do roteiro dos museus do Algarve; há mais de três mil edifícios públicos contaminados com amianto e a substância causou 126 mortes nos últimos quatro anos; o desemprego de longa duração entre as pessoas com deficiência aumentou 15% na última década; todos os meses são legalizados em Portugal, em média, cinco novos cultos religiosos; Portugal tem o terceiro pior investimento público per capita da união europeia.

 

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INQUIETAÇÕES - Pedro Cabrita Reis (na imagem) regressa a Serralves vinte anos depois da sua primeira exposição naquele espaço. A Roving Gaze (Um Olhar Inquieto) é o nome do projecto que agora apresenta e que foi especificamente concebido para os espaços de Serralves. A exposição assume-se como uma única obra de grande escala que evoca o percurso e a vida do artista sem preocupação cronológica. Inclui estruturas concebidas para o local, fotografias de obras de Cabrita desde 1999 até agora, ao mesmo tempo que apresenta objectos, desenhos, documentos e outros trabalhos que fazem a ponte entre a vida da pessoa e a obra do artista. A exposição fica em Serralves até final de Março do próximo ano. Em Lisboa, até 20 de Dezembro,  pode ainda ver estudos de Manuel Caldeira, desenhos de Pedro Sousa Vieira e pequenos bronzes de Rui Chafes na exposição “SI SOL FLAT”, no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), no Antigo Mercado de Xabregas, Rua Gualdino Pais. Ainda em Lisboa uma chamada de atenção para a exposição de pinturas Manuel Gantes, que vai estar na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria) até 21 de Dezembro. Por fim André Guedes mostra  “Formas Antigas, Novas Circunstâncias” na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º) até 18 de janeiro.

 

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CANÇÕES POPULARES - Harry Connick Jr.  é um dos grandes responsáveis pelo ressurgir do jazz cantado. Ele surgiu numa espécie de regresso às origens já que no início o jazz cantava-se e dançava-se em vez de se ouvir sentado numa sala de concerto. Connick, há uns anos, trouxe este lado de diversão de volta ao jazz. Cabe aqui dizer que Connick, além de cantor, pianista e até actor é um músico experiente e talentoso, capaz de fazer arranjos complexos e dirigir uma orquestra como aliás fez neste disco de homenagem a Cole Porter. Comecemos pela voz: neste disco Connick está cada vez mais parecido com Sinatra e o seu trabalho nas 13 canções que escolheu para “True Love: A Celebration Of Cole Porter” mostra-o a dirigir em estúdio uma orquestra de 16 músicos para a qual compôs todos os arranjos. As maiores surpresas no repertório escolhido são as duas canções da injustamente esquecida banda sonora de Cole Porter para o filme “High Society” - “You’re Sensational” e “Mind If I Make Love To You?”. O disco começa com uma boa versão de “Anything Goes”, um arranjo inesperado em “All Of You” e interpretações arrebatadoras de “I Love Paris”, “In The Still Of The Night” e, sobretudo, de “Begin The Beguine”, uma das minhas canções favoritas de Porter. O CD está disponível no Spotify.

 

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O REGRESSO DO PAPEL - A revista britânica The Face foi minha assídua companhia ao longo do tempo em que existiu, entre 1980 e 2004. Gostava da forma como abordava os temas, gostava da sua paginação, gostava da sua edição fotográfica. Após um interregno de 15 anos eis que ela volta às bancas, continuando com algumas das suas características. A revista no entanto ganhou um novo território, no digital. Agora há uma edição trimestral em papel e uma edição permanente online. A equipa editorial do papel tem a mesma dimensão da equipa do digital e vendo ambas percebe-se que houve o cuidado de pensar num projecto misto, que combina a magia do papel impresso com as possibilidades que o online oferece. Stuart Brumfitt é o seu novo editor e no editorial do primeiro número da nova fase de vida da revista publica uma fotografia sua, de 1997, então um adolescente sentado ao lado da mãe mas a folhear um exemplar da Face original. É uma simbólica nota no arranque desta nova série. Os temas são os de sempre, um mix de música, locais da noite, cultura urbana, moda, artigos que vão de uma reportagem no El Club de Barcelona a uma produção fotográfica com Rosalia. Mas há temas novos, como ambiente e animais, ao lado de um questionário a Liam Gallagher, dos Oasis. A publicação tem 312 páginas de bom papel bem impresso. Dado curioso: entre os anunciantes da versão em papel, logo no início da revista, estão empresas online como a Netflix, Amazon Prime ou a Farfetch e publicidade a conteúdos como uma exposição da Tate Modern ou o filme Joker. O mundo está a mudar e  mesmo para as empresa da economia digital é preciso procurar audiência noutros suportes. Na imagem estão as duas capas alternativas do primeiro número da nova série da Face, que pode ser comprada na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88.

 

UM LOCAL ESSENCIAL - A minha grelha de avaliação de um restaurante baseia-se em coisas simples: qualidade da matéria prima, qualidade e inovação da sua confecção, serviço, ambiente, e, no final, a relação qualidade-preço considerando os items anteriores. Muitos novos restaurantes não passam nesta grelha de avaliação logo nalgumas coisas fundamentais. Felizmente há excepções e há umas semanas conheci uma delas - o Essencial, o novo restaurante do chef André Lança, que abriu em meados deste ano depois de uma passagem pelo Palácio do Governador. André Lança estudou em França e tem uma clara devoção pela cozinha francesa, que felizmente aproveita de forma criativa para uma adaptação mais portuguesa. O Essencial é um exemplo de boa arquitectura de restaurante num espaço relativamente pequeno, muito bem aproveitado, onde o conforto dos clientes foi de certeza parte importante do caderno de encargos. O menu vai variando, este é um daqueles restaurantes onde se evita a rotina e volta e meia aparecem umas surpresas. Nesta altura do ano a sazonalidade é marcada pelas trufas enquanto a tradição é assumida pelo foie gras. Logo no couvert há a boa surpresa de o pão ser da Terrapão, acompanhado por manteiga da ilha do Pico (uma das nossas melhores) e banha de porco mangalica do Fundão (muito bem temperada e trabalhada). Nessa noite pela mesa passaram, nomeadamente, foie gras, pâté en croutes com pickles, gnocchi com cantarelos e cebola fumada, sela de borrego e codorniz com puré de batata. Os comensais ficaram satisfeitos e devo dizer que estes foram os melhores gnocchi que comi em muitos anos. Nas sobremesas a pastelaria é também influenciada pela tradição francesa e ganha destaque um mil folhas de caramelo salgado e uma tartelette de tangerina. A garrafeira é bem escolhida, entre vinhos portugueses e estrangeiros, e o serviço de mesa, quer na comida quer nos vinhos, é exemplar. Se quiser pode trazer o vinho que o restaurante aceita servi-lo mediante uma taxa de rolha. O Essencial fica na Rua da Rosa 176 e o telefone é o 211 573 713.

 

DIXIT - “É preciso encontrar formas, públicas e privadas, de agir face à grave crise da comunicação social” - Marcelo Rebelo de Sousa.

 

BACK TO BASICS - “Existem apenas duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana” - Einstein.




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PS: AUSTERIDADE COMO LINHA POLÍTICA

por falcao, em 29.11.19

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QUEM ANDA À CHUVA, MOLHA-SE - O cartoon de Luis Afonso neste jornal, na passada quarta-feira, era dedicado ao anúncio de que Portugal tem um excedente orçamental de 998 milhões de euros. “Nada mau” - replicava-se a este número. Para a seguir dizer: “Agora é continuar a poupar no Serviço Nacional de Saúde, que se ultrapassa tranquilamente a fasquia dos 1.000 milhões”. Este diálogo imaginado das personagens do cartoon de Luís Afonso sintetiza o estado da nação, melhor que mil discursos. A triste realidade a que todos assistimos é que o Estado falha cada vez mais onde deve mostrar eficácia - saúde, segurança, educação, justiça. Como é patente as contas do país estão melhores porque a austeridade continuou e até se agravou nalgumas áreas. Em vez de o dinheiro existente ser utilizado para políticas sociais foi usado para satisfazer grupos de interesse e comprar apoio eleitoral. O Governo de Passos Coelho criou medidas austeridade, nalguns casos menos agressiva, mas comunicou-a muito mal. Costa e Centeno agravaram a austeridade, prolongaram-na, mas  fazem como se ela não existisse - quando é absolutamente necessário abrem os cordões à bolsa numa área muito específica para calar algumas bocas e obter simpatia. Continuando no universo da banda desenhada há que reconhecer que António Costa é como Mandrake: tornou-se num grande ilusionista, um mágico das aparências, como se provou no debate quinzenal desta semana. Só que quem anda à chuva molha-se e todos os dias cai mais uma chuvada nas ilusões que são a linha política do Governo. Isto vai-nos custar imenso a todos - como já se percebeu a carga fiscal é para continuar a aumentar - não necessariamente para aplicar onde é mais precisa, mas para onde é mais útil aos interesses do PS.

 

SEMANADA -  Foi aprovado o projeto que permite aumentar o tráfego no aeroporto de Lisboa, dos atuais 44 para até 72 movimentos por hora; o orçamento do município de Lisboa para 2020 prevê que as despesas com pessoal subam 12% em 2020; no próximo ano cada lisboeta pagará 545 euros em taxas e impostos municipais; os gastos dos partidos nas eleições europeias derraparam 18%,  o BE, o PS e o CDS foram os que mais gastaram face ao que tinham previsto para a campanha eleitoral e o PSD, a CDU e o PAN gastaram menos face ao orçamentado; o Ministério das Finanças travou um curso para formar 200 GNR prometidos em maio pelo Ministro da Administração Interna; entre 2013 e 2018 o valor das casas em Portugal subiu mais 32% que os salários e Portugal foi o segundo país com a maior diferença na evolução do custo da habitação e o rendimento das famílias; mais de metade das crianças passam 10 a  12 horas por dia em creches; 52,9% dos professores no ensino público têm hoje 50 e mais anos de idade e apenas 1,1% se situam abaixo dos 35 anos; o número de diplomados em educação caíu para metade e os cursos de formação de professores atingiram em 2018 o valor mais baixo da última década; até 2030 mais de metade dos professores do quadro podem aposentar-se devido à idade; em Portugal apenas 33,5% da população entre os 30 e 40 anos tem o ensino superior, abaixo da meta europeia de 40% para 2020; há turnos nos serviços do INEM sem médico coordenador e existem falhas nesses turnos que têm gerado um atraso no encaminhamento correcto de doentes urgentes, colocando em risco a vida das pessoas.

 

ARCO DA VELHA - Joacir Katar Moreira queixou-se do assédio de jornalistas dizendo que tanta pergunta não a deixa trabalhar e pediu para ser escoltada pela GNR dentro do edifício da Assembleia para não ser incomodada por perguntas de repórteres no trajecto para o seu gabinete. 

 

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A MAGIA DAS MÁSCARAS -  Até domingo Bragança torna-se o paraíso das máscaras, com a realização da Mascararte, a IX Bienal da Máscara. Este ano o centro das atenções é a exposição sobre as máscaras da cultura Makonde, de Moçambique. Nesta cultura a paixão pela vida é talhada nas suas afamadas máscaras, elemento central de rituais, como o “Mapiko”, uma dança enérgica, cheia de força e expressividade acompanhada ao som de cânticos e tambores, executada nas principais festas e cerimónias e, sobretudo, nos ritos de iniciação dos jovens homens e mulheres. Outras exposições estão patentes no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, no Centro de Fotografia Georges Dussaud e no Museu Abade de Baçal. Um ponto alto da IX Bienal da Máscara – Mascararte é o desfile pelas ruas do Centro Histórico de Bragança, em direção ao Castelo, onde acontecerá a Queima do Mascareto, sob o tema “Reencarnação do Diabo, da Morte e da Censura no deus Brahma”, e actuações de um grupo de canto e dança de Moçambique.  Esta edição da Mascararte termina com a inauguração da exposição “Gaitas de Fole do Noroeste da Península Ibérica”, de Pablo Carpintero. Outras sugestões: em Coimbra pode também ver até  31 de Dezembro, na Casa  Municipal da Cultura, e organizada pelo Centro de Artes Visuais,  a exposição Linha de Fronteira baseada na Colecção Encontros de Fotografia e na série de exposições que realizou no decurso dos anos 90 sobre os territórios fronteiriços de Portugal e que incluíram encomendas a vários fotógrafos. 

 

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PIANO FADO - Atenção que este disco pode arrepiar logo no início, quando o piano de Mário Laginha se cruza com a voz de Camané em “Não Venhas Tarde”, o clássico de Aníbal Nazaré e João Nobre que Carlos Ramos cantou. E logo a seguir, no disco, está “Com Que Voz”, o fado composto por Alain Oulman para Amália, baseado num poema de Camões. Oulman compunha ao piano e Amália cantava a seu lado quando preparavam os discos e é impossível não pensar nesses momentos quando se ouve este “Aqui Está-se Sossegado”, penas com voz e piano. Mais à frente aparece outro tema onde Oulman, também para Amália, retomou a lírica de Camões, “Amor É Fogo Que Arde Sem Se Ver”. E há mais uma composição de Alain Oulman, desta vez sobre poema de David Mourão Ferreira, o “Abandono”, que Amália também cantou. Laginha e Camané trabalharam muito tempo neste disco, experimentaram os fados e as canções em concertos por todo o país. O resultado é um disco de emoções e cumplicidades feito de repertório clássico e de alguns originais. Do repertório habitual de Camané aqui estão “Guerra das Rosas” e “Ela Tinha Uma Amiga” (ambos de Manuela de Freitas e José Mário Branco), “Dança de Volta” (de Luiz de Macedo), sobre Fado Bailarico, de Marceneiro e Fado Lopes, de José Lopes), e “Quadras” (de Fernando Pessoa, no Fado Alfacinha, de Jaime Santos). Nos inéditos destaque para “Aqui está-se sossegado”, que dá o título ao CD (um poema de Fernando Pessoa sobre o Fado Espanhol, de Júlio Paiva), “Rua das Sardinheiras”, (de Maria do Rosário Pedreira com música de Mário Laginha) e “Se Amanhã Fosse Domingo”  (de João Monge e Laginha). Finalmente há um instrumental de Laginha, “Rua da Fé”. Ao todo 14 temas neste “Aqui está-se Sossegado” que vai ser interpretado ao vivo dia 20 de Dezembro no Coliseu de Lisboa.

 

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TRÊS IRMÃS PODEROSAS - Jung Chang é uma escritora chinesa, actualmente a viver em Londres, que se tornou conhecida com o livro “Cisnes Selvagens”, que conta a história da sua família ao longo de três gerações (sendo uma a dela própria), vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo e foi proibido na República Popular da China. Outras obras suas que ganharam destaque foram a biografia  “Mao - a História Desconhecida” e a biografia da Imperatriz Viúva Cixi. Desta vez Jung Chang revisita a história de três mulheres que estiveram no no centro do poder da China no século XX, “As Irmãs Soong – A Mais Velha, a Mais Nova e a Vermelha”. O livro percorre a vida de três irmãs de Xangai cuja vida girou em torno de poder, amor, conquista e traição: a Irmã Vermelha, Ching-ling, que se casou com Sun Yat-sen, (o fundador da República Chinesa) e veio a ocupar cargos importantes na estrutura do regime de Mao Tsé-tung; a Irmã Mais Nova, May-ling, que foi a senhora Chiang Kai-shek, primeira-dama da China nacionalista pré- comunista e uma figura política por direito próprio; e a Irmã Mais Velha, Ei-ling, que foi conselheira principal não oficial de Chiang Kai-shek, fez do seu marido primeiro-ministro e foi uma das mulheres mais ricas da China. Esta é a história até aqui pouco conhecida das três irmãs Soong, uma narrativa que envolve exílio, amor, momentos de glória, perigos, intriga, guerra, glamour, desespero, traição e perda – mostrando-nos o século decisivo que a China atravessou e como elas conspiraram, influenciaram e deixaram a sua marca. Arrebatador.

 

OS VINHOS DO DOURO SUPERIOR - Pode um vinho branco ser adequado a estes dias de chuva a meio do outono? A resposta é sim se ele tiver corpo e alma. É o caso do Duorum Colheita Branco de 2018. É um vinho proveniente da Quinta do Castelo Melhor, situada a 500 metros de altitude na zona do Douro Superior, perto de Vila Nova de Foz Côa, em terrenos de xisto. O vinho é elaborado a partir de uvas das castas Castas Rabigato, Gouveio, Arinto e Códega do Larinho.  30% da produção foi fermentada em barricas de carvalho francês e o resto em tubas de inox a temperatura controlada. O resultado é um vinho amarelo dourado, com 13º, com volume e corpo e um final prolongado, com aroma frutado e boa acidez. É um daqueles vinhos que persiste na boca, bom para beber devagar, pessoalmente correu muito bem num fim de tarde entre dois dedos de conversa e umas tapas de queijo de pasta mole. Também se portou bem a acompanhar o peixe da refeição que se lhe seguiu.

 

DIXIT - “Fui eu que ganhei as eleições sózinha e a direcção (do Livre) quer ensinar-me a ser política” - Joacine Katar Moreira

 

BACK TO BASICS - “Como nação temos o dever de preservar os recursos naturais que recebemos para os entregar à geração seguinte” - Theodore Roosevelt.

 



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PARLAMENTO, PRIMEIRO MÊS: UM SUSTO

por falcao, em 22.11.19

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A NEBLINA DO REGIME - Percebe-se que há uma neblina perigosa quando uma maioria de esquerda no parlamento pretende silenciar os pequenos partidos; percebe-se que há uma neblina que desfoca o regime quando o PSD acha boa ideia passar os debates quinzenais com o primeiro-ministro a debate mensal para diminuir os incómodos e os ruídos perigosos e não expôr tanto a sua própria fraca oposição; percebe-se que a neblina passa a muro opaco quando o Presidente da Comissão de Transparência do novo parlamento, Jorge Lacão, admite que as reuniões daquele orgão decorram à porta fechada. Tudo isto se passou no Parlamento no seu primeiro mês de actividade - pode dizer-se que pelo caminho que as coisas levam a Assembleia da República está seriamente empenhada em dar uma má imagem  e em continuar a aumentar o desprestígio da função de deputado - situação que pelos vistos não desagrada aos próprios. Se juntarmos a isto a ideia deixada no ar por António Costa de que os impostos indirectos poderiam subir, que há planos de um englobamento que é apenas um eufemismo para aumento do IRS e se juntarmos as notícias sobre a continuação de dificuldade financeiras na saúde e transportes, temos uma ideia do que prometem ser estes quatro anos da legislatura agora iniciada : areia lançada à ventoinha para iludir os incautos, uma sucessão de promessas feitas em ano eleitoral que de repente entram na zona de amnésia do poder e que na realidade nunca foram anunciadas com a ideia de serem cumpridas. Chegámos ao ponto em que o engano é a arma da política e a ocultação a máscara dos políticos. O mais engraçado de tudo é que o efeito desejado - e que até aqui tem sido bem conseguido - é que aumente o desinteresse pela política para que sejam cada vez menos aqueles que votam de forma a que os eleitos sejam cada vez menos representativos e cada vez menos alvo de escrutínio.


SEMANADA - Em Portugal a sindicalização caíu de 61% para 15% em quatro décadas; há mais de 50 mil doentes à espera de serem operados para lá do prazo legal; o número de hospitais que ultrapassam os tempos máximos nas operações prioritárias ao cancro aumentou de 18 para 22; ortopedia e oftalmologia têm os piores tempos de espera para primeira consulta hospitalar; uma consulta prioritária de ortopedia chega a demorar 3,8 anos; na Guarda uma primeira consulta de cardiologia pode chegar aos cinco anos; há 21 pedreiras em situação de risco sem vedações; a mais antiga bienal de arte portuguesa, de Vila Nova de Cerveira, deixou de ser apoiada pelo Ministério da Cultura; apesar das promessas e anúncios anteriores, o Governo suspendeu 18 obras na ferrovia do Norte e Centro; os alunos da Faculdade de Letras de Lisboa queixam-se de que nas instalações universitárias há ratos e baratas; há quase 42 mil idosos a viver sózinhos ou isolados; o número de pré-avisos de greve até Outubro foi o mais alto dos últimos quatro anos, totalizando 781; desde 2008 a crise e os avanços tecnológicos eliminaram 16 mil postos de trabalho na Banca e fecharam quase dois mil balcões e foram eliminadas três mil caixas multibanco;  Bruxelas continua a incluir Portugal nas oito economias com orçamentos para 2020 que ainda apresentam risco de infringir as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

 

ARCO DA VELHA - Nos últimos dias foram feitos dois anúncios oficiais: a certeza que o pavilhão do gelo em Lisboa acontecerá nesta legislatura contrasta com o reconhecimento de que a ala pediátrica do Hospital de S. João no Porto vai ter de esperar.

 

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A FICÇÃO DA REALIDADE - Edgar Martins é um fotógrafo português que tem vivido fora do país, nomeadamente em Macau e Inglaterra e venceu o BES Photo em 2009. A sua carreira profissional passou pelo foto-jornalismo e em trabalhos publicados em vários grandes jornais, como o New York Times. Um deles provocou polémica porque o jornal entendeu que as fotografias tinham sido manipuladas - o que era verdade e o autor não negou. Edgar Martins argumentou que a manipulação não era para ocultar a realidade mas para a ultrapassar e interpretar. Hoje em dia a pós-produção das imagens fotográficas que regista e utiliza tornou-se quase regra no seu trabalho. A exposição que está na Galeria Filomena Soares é um bom exemplo deste conflito entre a realidade, a ficção e a interpretação do mundo à sua volta,  conflito que cada vez povoa mais a obra de Edgar Martins. “What Photography has in Common with an Empty Vase” é o nome da exposição que mostra um trabalho desenvolvido em colaboração com uma prisão de Birmingham, com os seus presos e respectivas famílias. No centro está a forma como Edgar Martins encara e faz coexistirem a visibilidade, a ética, a estética e a documentação. Perturbante, o trabalho reflecte o sentimento de ausência provocado por uma separação forçada e recorre à ficção para construir uma narrativa que enquadra a tese defendida pela escolha das imagens e da forma de as mostrar

 

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40 ANOS A REMAR - Os  Xutos & Pontapés começaram há 40 anos - até me arrepio a pensar nisto e a recordar-me de como os conheci numa sala de ensaios numa garagem salvo erro perto entre Belém e Algés, antes de a zona estar na moda. Nesse dia percebi que estava ali alguma coisa diferente, uma energia feita de convicção. Uns tempos mais tarde ouvi “Sémen” e tive a certeza que os referenciais da música portuguesa estavam a mudar. Muitas vezes os ouvi no Rock Rendez Vous, assisti a concertos deles  ainda antes de encherem pavilhões. Nunca saí aborrecido de um dos seus concertos, não tenho memória de me ter desiludido. Para assinalar as quatro décadas da banda foi agora organizada uma compilação, sob a forma de duplo CD, que inclui 40 faixas marcantes da carreira dos Xutos, desde o primeiro single “Sémen” até “Mar de Outono” do álbum “Duro”, editado já este ano. Pelo meio estão temas como “Remar, Remar”, “Longa Se Torna A Espera”, “O Homem do Leme”, “Não Sou O Único”, “Vida Malvada”, “Gritos Mudos”, “Para Sempre” ou o “Mundo Ao Contrário”, entre tantos outros. Ouvir o disco é imaginar os últimos 40 anos da história de Portugal - porque cada uma destas canções teve o seu lugar no tempo e não poucas vezes se relacionou com o que se passava no país. As canções estão alinhadas por ordem cronológica e incluem ainda temas como “A Minha Casinha”, “À Minha Maneira”, “Para Ti Maria” ou “Se Me Amas”, por exemplo. E continuo a ouvir tudo isto com o agrado de cruzar memórias. 

 

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CEM ANOS DE HISTÓRIAS - Quem gosta de música e seguia The Band deve ter visto “The Last Waltz”, o filme do concerto final do grupo, em 1976, realizado por Martin Scorsese. A páginas tantas no filme aparece um homem a declamar um poema, “Loud Prayer”. O homem é Lawrence Ferlinghetti, um escritor, poeta e artista plástico norte-americano que completou em Março passado 100 anos. Ele é um dos expoentes da chamada Beat Generation. Criou a editora e livraria City Lights, que publicou o célebre e polémico poema “Howl” de Allen Ginsberg e se viu envolvida numa batalha legal pela liberdade de expressão. As suas ligações a uma geração de músicos cruzam nomes como Bob Dylan, Roger McGuinn, mas também Cindy Lauper e The Residents. O poema “A Coney Island Of The Mind” é porventura a sua obra mais célebre. Este ano, coincidente com o centésimo aniversário do autor, foi publicado em Março nos Estados Unidos a novela “Little Boy”, agora editado pela Quetzal com o título “Rapazinho” na tradução portuguesa. É uma curta novela, autobiográfica, na qual Ferlinghetti revisita a sua vida, sublinhando que o único fio condutor da obra é o relato do seu envelhecimento. Mais do que um  testamento literário, o livro percorre reminiscências biográficas e profecias sobre o que podemos esperar da vida no futuro. Ferlinghetti é uma figura incontornável da cultura contemporânea nos Estados Unidos, uma referência de uma geração e neste “rapazinho” surgem referências a nomes como Jack Kerouac, William Burroughs e T.S. Elliott, entre outros. O livro percorre episódios da infância, da adolescência, da vida durante a segunda guerra, da descoberta de Paris e da forma como se estabeleceu em S. Francisco e influenciou a vida cultural da West Coast. É um pequeno livro maravilhoso, a falar do que se passou sem ser passadista e a deixar muito campo aberto à imaginação. Ferlinghetti, aos cem anos, felizmente continua provocador. 

 

PEIXINHO EM PALMELA - Farto de restaurantes com conceito e sem respeito pelo cliente resolvi visitar a nova morada de um clássico da zona de Azeitão, “O Pescador”. Anteriormente estava na zona de Brejos, agora está perto de Palmela, numa sala maior e com um nome equivalente, “Dom Pescador”. Mas à frente das operações continua o Sr. Manuel, olhar vigilante sobre as mesas, a recordar-se de clientes, mesmo antigos e pouco assíduos. Os trunfos do restaurante são o peixe muito fresco, o bom marisco e uma cozinha cuidada. O serviço é atento e mesmo com a sala cheia as coisas andam com suavidade. Um dos trunfos da casa é a qualidade de percebes e amêijoas. Os primeiros foram de aperitivo, fresquíssimos, gordos, com o mar lá dentro, no ponto certo de cozedura. As amêijoas apareceram voluptuosas, no meio de uma canja de garoupa abundante e absolutamente exemplar. Provou-se também um linguado grelhado, impecável de preparo e de frescura, com um belo feijão verde a acompanhar. Outros petiscos possíveis, dependendo do que aparece no mercado, são salmonetes fritos com arroz de berbigão e pregado frito com arroz de conquilhas. O grande aquário à entrada da sala de refeições é um jardim das delícias com lavagantes e lagostas. Mas mesmo os peixes mais simples são aqui tratados com a atenção que o mar merece. E sem manias.  Rua Dr. Bernardo Teixeira Botelho Nº7, Palmela, telefone 21 210 4641.

 

DIXIT - “ Entre aumentos do IRS "para os ricos" (vulgo classe média) e mais impostos politicamente correctos, o futuro do nosso socialismo é o de todos os socialismos: durar até acabar com o dinheiro dos outros”- José Manuel Fernandes.

 

BACK TO BASICS - “Não são os escritores de canções que mudam sociedades, a sociedade é que muda os escritores de canções” - José Mário Branco

 





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