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Vou a andar e vejo estas bonecas no meio do chão. Estão assim, meio recostadas em degraus, cada uma de sua maneira, Explico já como elas me apareceram: estou a passear numa praça que acolhe uma feira de velharias, todos os meses, no segundo domingo de cada mês. Passo por lá de vez em quando, passeando-me entre as bancadas dos feirantes, mesmo sabendo que o mais certo é não ter grandes surpresas no que posso encontrar. É um universo onde rádios antigos, que o mais certo é não funcionarem, coexistem com louças desemparelhadas, peças de mobílias sem época determinada ou relógios que têm o tempo parado. É um mundo de objectos que já tiveram uma vida e que, de repente, foram rejeitados, esquecidos, deixaram de fazer sentido para quem os teve. Dizem que são feiras de velharias, mas para mim são feiras de recordações, restos de momentos de vidas que ficaram para trás. Nas bancas dos vendedores estão testemunhos de vidas que nunca se cruzaram e que agora estão lado a lado à procura de alguém que lhes queira pegar. Vêm de casas diferentes, ninguém sabe de onde e ainda menos como ali chegaram. O mais certo é serem o resultado de casas que se esvaziam porque a lei da vida lhes ditou um fim e quem ficou desfez-se delas. Olho à volta e penso naquilo que guardamos e nas coisas de que nos desfazemos e que depois acabam assim, longe da vida que tiveram. Vejam bem estas bonecas, de pano, de cores ainda vivas. Seriam da mesma criança? Quem brincava com elas? Que histórias e fantasias protagonizaram? Que segredos guardam? Fico a pensar nisto tudo enquanto vou deixando a feira - mas olho para trás para as espreitar uma última vez e parece que o boneco do barrete verde ficou a sorrir.

CINEMA PARAÍSO - Aconteceu aos filmes o que já tinha acontecido à imprensa. Da mesma forma que o digital foi canibalizando o papel, o streaming está a dar cabo dos ecrãs de cinema clássicos. Segundo a Marktest mais de 4,6 milhões de portugueses utilizam plataformas de streaming e 41,7% dos subscritores usam-nas todos ou quase todos os dias. 43,1% são assinantes e os restantes são consumidores dentro do mesmo agregado ou pacote. É praticamente meio país a ver streaming. Qual é o outro lado desta realidade? Segundo os dados mais recentes do Instituto do Cinema e Audiovisual Portugal contava em Janeiro com 450 salas de cinema, menos 112 face a 2025. Há agora cinco capitais de distrito sem exibição comercial regular de cinema: Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo. Dados recentes indicam que os serviços de streaming mais vistos em Portugal são a Netflix com 23% do mercado, a Prime Video com 22%, a Diney + com 18%, a Max com 13%, a SKY Showtime com 8%, a Apple com 7% e a Filmin com 2%. O YouTube, a mais poderosa plataforma audiovisual, do universo Google, tem já mais de 7,5 milhões de utilizadores em Portugal. Estes números mostram como mudou de forma drástica o consumo do audiovisual, impulsionado pela tecnologia. Os aparelhos de televisão de grande dimensão surgem a preços mais acessíveis, o aumento da penetração da fibra óptica cobre já 95% dos alojamentos e estabelecimentos comerciais, permitindo uma melhor experiência quer nos canais de cabo, quer no streaming. A verdade é que o streaming digital está a provocar o encerramento de salas de cinema e não se vê como alterar a situação. Até a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou que vai deixar de fazer visionamentos para os filmes nomeados para os Óscares em salas de cinema, remetendo os seus membros para o visionamento em streaming. “Cinema Paraíso”, o filme que contava o encanto de descobrir as imagens em movimento numa sala escura, está a ficar uma memória cada vez mais distante.
SEMANADA - As tempestades de fevereiro danificaram 237 mil casas, metade das quais sem seguro; a “Kristin” provocou estragos em mais de 60% das casas de Leiria e Marinha Grande; o número de pedidos de apoio para reconstruir casas devido ao mau tempo já é de 20 mil, com um custo de 100 milhões de euros; a “Kristin” também provocou danos no Estabelecimento Prisional de Lisboa onde chove dentro de celas, a maioria das quais “estão podres”, segundo a Ordem dos Advogados; mais de metade dos trabalhadores da agricultura já são estrangeiros; há 400 mil brasileiros a descontar para a segurança social, seguidos de 85 mil indianos, 67 mil angolanos, 59 mil cabo-verdianos e 51.000 do Bangladesh; há 516 mil pedidos de nacionalidade pendentes; 73,5% das chamadas efetuadas para o 112 em 2025 foram consideradas indevidas; em fevereiro a taxa de inflação aumentou para 2,1% pressionada pelo preço dos alimentos que voltou a subir em relação ao mês anterior; as doenças do aparelho respiratório e o cancro foram responsáveis por metade dos 120.000 óbitos verificados em 2024; mais de 19 mil pessoas fizeram cirurgias da obesidade no SNS nos últimos cinco anos.
O ARCO DA VELHA - Mais de um terço dos 278 municípios do Continente têm os planos de emergência desactualizados, há mais de 100 Planos Municipais de Emergência de Proteção Civil que já deviam ter sido revistos e alguns nem constam do Sistema de Informação de Planeamento de Emergência da Protecção Civil.

O DESENHO E A NATUREZA - Na Galeria Appleton Cristina Ataíde apresenta até 2 de Abril "Espaço Intermédio", um conjunto de 17 novos trabalhos, oito dos quais são desenhos de grandes dimensões sobre papel, com recurso a pigmento, carvão, guache e borracha e os outros nove são esculturas em madeira. Estas esculturas foram feitas, a partir de fragmentos de árvores derrubadas pela intempérie na Tapada da Ajuda, onde a artista tem atelier. Os desenhos estão junto às paredes e as peças de madeira, trabalhadas pela artista, mantendo marcas da erosão natural, estão no centro da sala, no chão. A intervenção de Cristina Ataíde nos segmentos dos cedros criou formas elípticas, que se ligam aos desenhos da parede. No texto que escreveu para esta exposição, Sérgio Fazenda Rodrigues sublinha o aproveitamento das árvores caídas, com os orifícios criados por organismos que consumiram a madeira e “sulcos que não foram desenhados pela artista, mas sim pela vontade do tempo”. E observa: “a superfície (da madeira) é progressivamente lixada, salientando o desenho dos veios, dos anéis de crescimento e das particularidades do seu desenvolvimento” e o resultado final são obras que “actuam como mapas que cartografam o crescimento da espécie, mas também o seu perecimento interior”. (Rua Acácio Paiva 27)

ROTEIRO - No Espaço Projecto do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian Bruno Zhu criou uma instalação, intitulada “Belas Artes”, através de um cenário propositadamente labiríntico onde apresenta até 27 de Julho obras da colecção do CAM de nomes como Almada Negreiros (na imagem), Sérgio Pombo, Eduardo Luiz, António Pedro, Vítor Fortes, Emília Nadal, além de um conjunto de bustos em bronze e gesso de Yvone Mortier, José Dias Coelho, Júlio Vaz, Gil Teixeira Lopes e Francisco Franco. Segundo a Fundação, a instalação é uma reflexão do artista “sobre colecionismo, formas de expor e o papel dos museus enquanto agentes de produção de valor artístico”. A fundação indica ainda que Bruno Zhu tem uma obra “influenciada pelo design de moda, pela edição e pela cenografia”, sublinhando que ela “confronta discursos de poder inerentes à prática museológica, através da sua marcante abordagem conceptual”. Em Lisboa, na Galeria Monitor (rua da Páscoa 91), Helena Lapas apresenta novos trabalhos que, partindo da sua experiência em tapeçarias mostram formas escultóricas em técnica mista. E a Galeria Jahn und Jahn, (Rua de São Bernardo 15) apresenta até 14 de Março “Notas de Rodapé”, uma exposição colectiva com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas com obras de António Júlio Duarte , Carlos Noronha Feio, Catarina Dias, Jorge Queiroz, Julius Heinemann, Navid Nuur, Raphaela Melsohn e Sara Bichão

UMA HISTÓRIA DO CRIME - "Vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar" é uma das frases mais célebres da história do cinema, dita por Don Vito Corleone (interpretado por Marlon Brando) no filme “O Padrinho”, de 1992. A Máfia é sempre um tema delicado, quer seja em investigações jornalísticas, em livros ou no cinema e televisão. Vem isto a propósito de um livro acabado de editar, “Máfia, Uma História Global”, de Ryan Ginjeras. O autor enquadra o crescimento e proliferação das grandes organizações criminosas e investigou ao longo de dez anos organizações como La Cosa Nostra italiana, o Cartel de Medellín colombiano, as Cinco Famílias de Nova Iorque, a Yakuza japonesa ou a Vory russa. Ryan Ginjeiras mostra como estas organizações marginais acompanham as sofisticações tecnológicas e como criaram sobreposições entre crime organizado, corporações empresariais e lideranças políticas, mostrando a enorme influência nas sociedade actuais da sua actividade criminosa. O livro faz-nos conhecer melhor o papel de figuras como Al Capone, Pablo Escobar, El Chapo, Du Yuesheng ou Dawood Ibrahim. Ryan Gingeras é professor no Departamento de Segurança Nacional da Universidade Naval da Califórnia e são dele estas palavras, já no fim do livro: “Trazer as máfias à luz pode ser doloroso, porém num tempo em que mais pessoas são levadas a acreditar na existência de estados-sombra e outras conspirações, o bem que isso poderia fazer seria em si uma recompensa”. Edição Casa das Letras

MESA DE CABECEIRA - Hoje proponho dois livros que nos permitem perceber melhor a História recente nestes conturbados tempos. O primeiro é “Vizinhos Distantes - uma breve história das relações entre a China e a Rússia", de Soren Urbansky e Martin Wagner, uma edição da Temas & Debates. Os autores apresentam-nos os quatrocentos anos de história destes dois vizinhos: dos primeiros contactos oficiais em 1618, passando pelos desentendimentos entre Krutchev e Mao, até à reacção da China quando a Rússia operou a sua invasão à Ucrânia, em 2022. O outro livro é “Portugal e o Ocidente”, de Tom Gallagher, um historiador britânico especializado em Europa Moderna e que já havia escrito em 1983 “Portugal - A Twentieth Century Interpretation”. Este novo livro analisa o papel de Portugal durante o período que vai de 1890 até 1975, quando os conflitos ideológicos e os realinhamentos geopolíticos reformularam a ordem global. É uma obra que vai provocar polémica nomeadamente sobre como Portugal encarou a questão colonial, antes e depois do 25 de Abril, “o golpe de Estado de 1974, que acabou com o regime autoritário e deu origem a uma retirada caótica de África, reduzindo a influência de Portugal a nível internacional.” Edição D. Quixote

AO SOM DO ACORDEÃO - Quando Gabriel Gomes aparecia em palco com o seu acordeão, com a Sétima Legião, muita gente ficava espantada com a inclusão de um instrumento tão popular e tradicional numa banda de referência da música portuguesa dos anos 80. E a verdade é que a sonoridade do acordeão se tornou uma das imagens de marca do grupo. Mais tarde Gabriela Gomes tocou também com Madredeus, Os Poetas, Fandango e em concertos ao lado de nomes como Tim, Jorge Palma e Rodrigo Leão. Só agora Gabriel Gomes decidiu gravar um álbum a solo, “Uma História Assim”, produzido por ele próprio, em parceria com Rodrigo Leão e João Eleutério. É um trabalho exclusivamente instrumental, quase integralmente gravado a solo, com a excepção do tema título, onde Rodrigo Leão toca piano. Ao todo são 10 composições originais para acordeão do próprio Gabriel Gomes. Destaco “O Roubo”, “Uma História Assim”, “Retorno”, “Rumo” e o tema final, “Chorinho”. O trabalho de Gabriel Gomes mostra a riqueza do acordeão e sua vida além de banda sonora de festas populares. (Disponível nas plataformas de streaming).
ALMANAQUE - O Nederlands Fotomuseum, em Roterdão abriu a 7 de fevereiro e acolhe uma das maiores colecções de fotografia de todo o mundo, desde retratos e imagens de alguns dos grandes nomes da fotografia a fotos históricas de autores anónimos.
DIXIT - “Esta é a altura de estar silencioso e de deixar a quem vai entrar o papel decisivo” - Marcelo Rebelo de Sousa.
BACK TO BASICS - “Viver é decidir constantemente o que vamos ser” - Ortega Y Gasset.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Já imaginaram o que seria da culinária nacional sem o alho? Imaginem umas amêijoas à Bulhão Pato sem alho. Ou um bife à portuguesa que não conte com ele. Ou a maravilhosa sopa de beldroegas, que na sua ausência fica deslavada. E já nem falo do bacalhau seu fidelíssimo companheiro por esse país fora, como Quim Barreiros não se cansa de proclamar - mostrando aliás de forma exemplar a musicalidade do alho. Maria de Lourdes Modesto, a grande senhora da gastronomia portuguesa, explicava de forma cristalina a importância do alho na cozinha do seu Alentejo natal e a sua receita de açorda é prova da importância que ela lhe atribuía. Mas, afinal o que é o alho? Segundo a Wikipedia, “o alho, de seu nome original Allium sativum, é um bolbo comestível da família Amaryllidaceae, amplamente usado na culinária mundial como tempero e conhecido pelas suas propriedades medicinais. Originário da Ásia Central, é valorizado pelo seu forte aroma, sabor intenso e composto activo alicina, que oferece benefícios antioxidantes e antibacterianos”. A sua utilização pode ser feita de muitas maneiras - esmagado, picado, laminado, moído em pó ou com os gomos inteiros a soltar aroma. Digo gomos, mas há quem lhes chame dentes - e há mesmo quem o morda por puro prazer gustativo. Claro que também há quem não suporte o seu aroma ou o seu odor e existe um certo consenso em evitar beijos aprofundados em que o sabor dominante seja o do alho. Guardemo-lo para outros temperos, eventualmente na companhia dos seus fiéis parceiros que o acompanham em tantas receitas - os coentros e as folhas de louro. Miguel Esteves Cardoso, numa das suas incursões gastronómicas, defendia a qualidade do alho nacional e desancava os alhos importados, que chegam ressequidos e que são os que abundam nos supermercados. Já o alho nacional, viçoso, é figura sempre orgulhosamente presente nos melhores mercados deste país. O sensaborão alho importado é mais barato, mas este é daqueles casos em que vale a pena recordar o velho slogan: o que é nacional, é bom.

O PAíS EM NÚMEROS - A Pordata, uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos, recolhe, analisa e divulga indicadores fundamentais sobre o que se passa no país, a nível das autarquias, do Governo ou de diversas instituições. É um inestimável serviço público que ajuda a perceber melhor a situação em que estamos. Por exemplo: em 1960 éramos 8,9 milhões e em 2024 atingimos os 10,7 milhões a viver em Portugal. Em 1981 o país tinha 2,5 milhões de jovens e agora tem só cerca de 1,4 milhões. Em 1960 existiam 437 salas de cinema que foram frequentadas por 26,5 milhões de espectadores, enquanto em 2024 o número caíu para 204 salas de cinema que acolheram cerca de 12 milhões de espectadores. Em sentido contrário, na assistência a espectáculos, houve uma enorme evolução: em 1960 foram 1,84 milhões de pessoas que assistiram a espectáculos ao vivo e em 2024 o número pulou astronomicamente para 85,5 milhões - e os muitos festivais que decorrem em todo o país são os grandes responsáveis por este aumento. Em 1960 havia 7 mil médicos, hoje há 64 mil, em 1960 havia 9,5 mil enfermeiros e hoje existem 85,5 mil. Em 1960 a taxa de mortalidade infantil era de 77,5% e hoje em dia é de 3% Em 1960 havia 2000 advogados, hoje há 39.000 mas o número de processos pendentes nos tribunais duplicou no mesmo período. Em 1960 os casamentos não católicos representavam 9,2% do total, hoje representam 80%. Em 1960 existiam 63 mil pensionistas da Caixa Geral de Aposentações, agora há 662 mil. Ainda segundo a Pordata, Portugal está longe de ser o país com a maior percentagem de estrangeiros na população residente: com 9,6%, Portugal encontra-se em 12.º lugar, longe do Luxemburgo, onde cerca de 47,3% dos residentes são estrangeiros, a taxa mais elevada a nível da UE. Mas Portugal é o segundo país mais envelhecido da UE, apenas ultrapassado pela Itália: há 53 jovens por cada 100 idosos. Portugal é também o país da UE onde a população ativa é menos escolarizada. Quatro em cada 10 pessoas não têm ensino secundário em Portugal, muito acima de países como a Polónia ou a Lituânia, onde apenas uma pessoa em cada 10 não concluíu esse grau de ensino. Os números na sua crueza são um retrato do país que temos e do muito que ainda há a fazer.
SEMANADA - A carga fiscal dos residentes em Portugal voltou a agravar-se em 2025 e em média, cada português pagou 6728,73 euros em impostos no último ano, mais 352 euros do que em 2024 e mais 2310 euros face a 2016; as contribuições de emigrantes para a segurança social subiram 8,5 vezes em 11 anos; e no ano passado foram 4162 milhões; o ritmo de crescimento das receitas do turismo em 2025 foi o mais baixo desde a pandemia; um em cada dez novos alunos de licenciaturas interrompe os estudos ao fim de um ano e nos cursos técnicos essa percentagem sobe para 28%; desde o início de 2025 as autoridades registaram 19 denúncias de tentativa de violação por motoristas de TVDE’s; um estudo feito pela Universidade Católica do resultado das presidenciais indica que 65% dos votantes de Cotrim e 89% dos de Mendes votaram Seguro na segunda volta; desde as mais recentes autárquicas, em 2025, o Chega já perdeu sete vereadores que se desvincularam do partido; o número de pessoas em tratamento devido a dependência de drogas e de álcool atingiu o valor mais alto desde 2015; um estudo recente indica que 62% dos portugueses utilizam ferramentas de inteligência artificial e generativa, número que compara com a média europeia que é de 52%.
O ARCO DA VELHA - O Governo fez um ajuste directo para “aquisição de serviços de maquilhagem e cabeleireiro para os membros dos gabinetes ministeriais nas conferências de imprensa” que tem um custo anual de 11.520 euros, e que tem por objetivo “garantir a qualidade da imagem” de ministros e secretários de Estado.

NOVIDADES NO MAC - “May I Help You? Posso Ajudar?” é o título da nova exposição do MAC/CCB que apresenta obras de 90 artistas portugueses e estrangeiros da década de 70 em diante. As obras pertencem às coleções em depósito no MAC/CCB (Berardo, Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Holma/ Ellipse e Teixeira de Freitas), contando também com novas encomendas a artistas portugueses e ainda empréstimos de diversas entidades. Um eixo emblemático é “March” uma obra da dupla britânica Gilbert & George carregada de ironia - um grande painel em que os artistas se representam como operários da arte contemporânea (na imagem). Com curadoria de Nuria Enguita e Marta Mestre, a exposição está dividida em três eixos: Produções, Mudanças e Tramas. Na exposição são apresentadas obras de, entre outros, Gilbert & George, Ana Jotta, Gabriel Abrantes, Bruno Zhu, Donald Judd, Sol LeWitt, Bernd e Hilla Becher, Allan Sekula, Doris Salcedo, Franz West, Jeff Koons, João Marçal, Gabriel Orozco, Carla Filipe, Alberto Carneiro, Taysir Batniji, David Hammons, João Marçal, Matt Mullican, Júlia Ventura, Daniel Buren, Silvestre Pestana, Agnes Martin, Irma Blank, Claude Viallat, Sara Bichão, Wolfgang Tillmans, Louise Lawler ou Joseph Kosuth.

A partir de agora o MAC/CCB fica com duas exposições permanentes, a Deriva Atlântica, mais focada na arte moderna e esta May I Help You? complementando a abordagem à arte contemporânea. No dia da inauguração a pouco informada Ministra, que estava presente, foi confontada pela presença em grande número dos visitantes do autocolante "Ellipse 100% em Belém", numa referência à decisão de levar essa colecção para um depósito em Alcabideche.

ROTEIRO - Em Serralves a exposição “Afinidades Eletivas” apresenta até ao início do próximo ano 24 pinturas, desenhos, colagens, esculturas e obras têxteis de Juan Miró das décadas de 60 e 70 do século passado , em paralelo com 53 obras de artistas de várias nacionalidades como Helena Almeida, Michael Biberstein, Robert Morris (na imagem), Pedro Calapez, Luisa Cunha, António Júlio Duarte, Josep Guinovart, Ana Hatherly, Asger Jorn, Anselm Kiefer, Jannis Kounellis, Graça Pereira Coutinho, Júlio Pomar, Dieter Roth, Julião Sarmento, Thomas Schütte, António Sena, Ângelo de Sousa, ou Antoni Tàpies entre outros. A exposição é organizada pela Fundação de Serralves e tem a curadoria de Robert Lubar Messeri. E a feira de arte contemporânea ARCO Madrid decorre de 4 a 8 de Março com 206 galerias de 36 países que apresentam obras de cerca de 1300 artistas. Há 13 galerias portuguesas representadas.

UM LIVRO IMPERDÍVEL- Se tem fascínio pelo Oriente, em particular pelo Japão, não pode perder “Diários de Viagem e alguns poemas em prosa”, de Matsuo Bashô, escritos no século XVII. Matsuo Bashô foi um samurai errante, um “rònin”, para usar o termo original, que após a morte do seu mestre decidiu dedicar o resto da vida à poesia. Vagueou e mendigou pelo japão do século XVII descrevendo as suas viagens em diários, onde os poemas apareciam ao lado da descrição da natureza, amigos ou episódios circunstanciais. Estes escritos foram agora traduzidos pela primeira vez para português, de forma integral pela mão de Jorge Sousa Braga. O livro inclui ainda, para além de uma seleção de poemas em prosa, os mapas marcando o percurso trilhado pelo grande mestre japonês. Poeta e viajante, Matsuo Bashô nasceu em 1644 e morreu a 28 de novembro de 1694 e é considerado o poeta nacional do Japão. O livro inclui seis diários de viagem e três poemas em prosa, entre eles um delicioso “A Moradia Irreal”, escrito em 1690, em que o autor conta como, após ter viajado pelo norte do Japão, se afastou da cidade e agora contempla paisagens a partir de uma modesta cabana de colmo “Casa da montanha, descanso do viajante - chamem-lhe o que quiserem, não é lugar para armazenar muitas coisas. Um chapéu de casca de cipreste de Kiso, uma capa para a chuva de junco de Koshi - é tudo o que está pendurado por cima do meu travesseiro”. Delicioso. Edição Assirio& Alvim.

MESA DE CABECEIRA - Em “Uma Breve História do Universo” a cientista, Sarah Alam Malik leva-nos conhecer as grandes descobertas sobre o mundo que nos rodeia, de Aristóteles a Isaac Newton, passando por Copérnico. Como a autora afirma, “somos contadores de histórias em busca da maior história de todas, ainda que nela figuremos numa mera nota de rodapé. A nossa exploração do universo não consiste apenas num empreedimento científico de vanguarda, mas também na aventura espiritual de uma espécie repleta de questões impossíveis”(edição Casa das Letras). Outro livro em destaque é “O Que É A Filosofia”, baseado numa série de palestras que José Ortega Y Gasset proferiu no final dos anos 20 do século passado e que foi pela primeira vez editado em livro em 1957, já depois da morte do autor. Considerado o maior filósofo espanhol do século XX, Ortega Y Gasset foi também jornalista, político e ensaísta. As 11 lições agrupadas nesta obra tratam da articulação da história com a filosofia, do pragmatismo, da relação entre ciência e filosofia, dos dados do universo e da ligação de tudo isto com a religião. (edição Bertrand).

CANÇÕES DE PROTESTO - De repente, após anos de ausência de novo material, os U2 apresentam um EP com seis temas, muito marcados pela situação política global. Tal como Bruce Springsteen fez ao retomar recentemente a tradição das canções de protesto com o seu “Streets Of Minneapolis”, os U2 incluem em “Days Of Ashes” três temas que abordam mortes recentes, em conflitos e acções de protesto evocando as mortes da iraniana Sarina Esmailzadeh, do palestiniano Awad Hathaleen e da norte-americana Renee Nicole Good. “American Obituary”, a canção sobre os incidentes em Minneapolis, é dos temas mais duros e contundentes dos U2, onde a guitarra de Edge surge quase como uma arma de arremesso, com Bono a cantar “America will rise against the people of the lie … the power of the people is so much stronger than the people in power” . Noutro tema, “The Tears Of Things” Bono atira ao fundamentalismo religioso: “When people go around talking to God it always ends in tears.” O tema final , “Yours Eternally” conta com a colaboração de Ed Sheeran e Taras Topologia. Disponível em streaming.
ALMANAQUE - O museu londrino Victoria & Albert adquiriu o primeiro vídeo carregado no YouTube, intitulado "Me at the zoo", publicado a 23 de abril de 2005 pelo cofundador do YouTube, Jawed Karim e esse vídeo está agora em exibição na galeria “Design 1900–Now”, apresentada juntamente com uma reconstrução gráfica de uma página de YouTube dessa época.
DIXIT - “Para milhões de pessoas, Zelensky é o que vêem de mais próximo da figura de um herói contemporâneo, num mundo à míngua de heróis.” - Teresa de Sousa, no Público, sobre os quatro anos da invasão da Ucrânia pela Rússia.
BACK TO BASICS - “Toda a gente quer mudar o mundo, mas muito poucos pensam em mudar o seu próprio comportamento” - Lev Tolstoi
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Estávamos nós num curto intervalo entre as chuvas e ventanias da última semana quando, numa manhã não especialmente solarenga, ao chegar junto do carro, deparei no seu tejadilho com este caracol, de antenas de fora como se estivéssemos no verão. Esclareço desde já que não me tinha posto a cantar "caracol, caracol, põe os pauzinhos ao sol", essa melodia que mostra o desejo de ver este molusco gastrópode, primo das lesmas, a sair da concha. Como poderão constatar o exemplar em causa era um animal valente, destemido, com os corninhos bem para fora, embora não ao sol, que por sinal não se vislumbrava. Aprofundando um pouco o meu conhecimento sobre esta espécie animal, percebi que o sol forte pode ser prejudicial ao caracol, preferindo ele a humidade logo após a chuva. Portanto o meu estimado caracol passeava-se no tejadilho ainda com salpicos de chuva como se estivesse num spa. Está-se sempre a aprender, é o que é. Enchi-me de cuidados, retirei-o de onde estava e fui delicadamente pousá-lo na relva húmida ali bem perto. O tamanho era demasiado grande para o meu gosto gastronómico, mas esta singela descoberta fez-me evidentemente pensar num pratinho de caracóis bem acompanhado por uma imperial, esse sinal incontornável dos dias de um Verão, que ainda parece distante. Enquanto não vem esse tempo a alternativa é contentar-me com uns tremoços - e aproveito para denunciar o facto de que são cada vez mais raros os sítios onde os tremoços aparecem automaticamente ao lado da imperial. Sinal dos tempos, a compressão de custos chegou ao tremoço. A ver vamos a que preço estará o prato de caracóis este ano.

OS DADOS ESTÃO LANÇADOS - Existe um velho ditado português que descreve bem a situação que estamos a viver: “depois de casa roubada, trancas à porta”. Aos poucos vão-se sabendo razões sobre o que aconteceu. Para além da imprevisibilidade dos elementos da natureza e a descoordenação na resposta, há questões que têm a ver com o desprezo pelo ordenamento do território e a falta de atenção que se tem verificado: desde falta de vistoria e manutenção de infraestruturas em zonas problemáticas, até planos para novas obras estruturais que não têm em conta as condições do solo e dos locais, há de tudo e a síntese é esta: desleixo e incompetência do Estado. No rol de desgraças a que assistimos uma coisa salta à vista - foi a nível autárquico que se verificou maior empenho na resolução das situações mais graves e foi a nível do governo que se assistiu à maior desorganização. O Governo tem a responsabilidade de rever como, no futuro, deve ser coordenada a resposta a catástrofes e avaliar futuras obras públicas. Aquilo que sabemos fez-me lembrar como o saudoso arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles alertava contra o crescimento desordenado, os perigos da construção em linhas de água e os seus efeitos na impermeabilização dos terrenos. A força dos elementos desencadeou a situação, mas a mão do homem não é invisível nesta desgraça que nos leva a pensar se não temos andado a construir um país de papelão. Descobriram-se, entretanto, coisas extraordinárias como o facto de a futura linha de alta velocidade e a sua nova estação, em Coimbra, estarem localizadas em áreas que agora ficaram submersas. Só incompetência? Deixo duas citações a terminar. A primeira é de Carlos Fiolhais, cada vez mais lúcido: “É nossa obrigação aprender com a experiência acumulada em desastres naturais. Não apenas a curto prazo, capacitando a proteção civil para a defesa de pessoas em risco, mas também e sobretudo a médio e longo prazo, planeando o território de uma forma mais inteligente.” E a segunda é de Fernando Santos, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, sobre a dificuldade em encontrar material para a reparação dos telhados destruídos: “A União Europeia, em vez de ter andado a normalizar a maçã e a pêra de Alcobaça, tinha feito melhor se tivesse regulado calibres para produzir telhas” .
SEMANADA - Até ao final da semana passada já existiam 34 mil candidaturas ao apoio de 10 mil euros para a reconstrução de casas afectadas pelas tempestades; segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de 2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda suba mais; segundo o IPMA até final da semana passada apenas tinham existido seis dias sem registo de chuva durante os últimos dois meses; há mais de 120 edifícios históricos que sofreram estragos, entre eles o Convento de Cristo e mais de 250 bibliotecas públicas; Portugal é o segundo país europeu que mais consome medicamentos antidepressivos e o primeiro lugar é ocupado pela Islândia; entre janeiro e agosto de 2025, o país exportou cerca de 40 toneladas da planta ou de preparações e substâncias à base de canábis, quase mais do dobro de 2024, e o sector já emprega cerca de sete mil pessoas; nas prisões portuguesas estão mais de 13.000 detidos, dos quais 140 estão a cumprir mais de 25 anos de prisão; em 2023 os residentes em Portugal perderam 2,2 mil milhões de euros em jogos de azar, mais do dobro de há uma década; o plano Ferrovia 2020, apresentado pelo Governo então do PS há dez anos, e que pretendia modernizar as linhas ferroviárias em quatro anos, tem uma taxa de execução de apenas 18%; os tribunais de primeira instância declararam a insolvência de 6368 pessoas, no ano passado, o que dá uma média superior a 17 por dia e, no mesmo período, entraram também em falência 2014 empresas (cinco diariamente), o que dá um total de 8386 insolvências em 2025.
O ARCO DA VELHA - Os 10 mil preservativos distribuídos gratuitamente aos atletas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, desapareceram em apenas três dias.

OBRAS CRUZADAS - O Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva apresenta até 10 de Maio a primeira das três exposições que realizará ao longo deste ano, com obras de Arpad e Vieira em paralelo com artistas de diferentes gerações: Sara & André, Vasco Futscher, Frida Baranek, Francisco Janes, Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches são os convidados para este primeiro ciclo expositivo de 2026. No Museu a sala do piso de entrada foi renovada e apresenta agora magníficos desenhos de Arpad e Vieira da Silva. Neste e noutros locais podem ser vistos mais desenhos como os que Arpad fez de Vieira da Silva, os impressionantes desenhos anatómicos que Vieira da Silva fez no início da sua carreira e pinturas sobre papel de ambos, da década de 30 do século passado. A escultura e cerâmica são os pontos comuns de quase todos os artistas convidados: Vasco Futscher apresenta “Broken Mile”, peças de cerâmica dispostas no chão, num exercício entre a produção industrial e o trabalho manual, trabalhos deliberadamente imperfeitos que contrastam com as obras de Vieira da Silva e Arpad - é neste espaço que estão, por exemplo, os rigorosos desenhos anatómicos. Mais à frente a brasileira Frida Baranek apresenta “Desafios”, trabalhos de escultura que utilizam vidro, madeira, ferro, acrílico, pedra, tubo e fio de aço, e que surgem como desafios ao equilíbrio. Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches, também um casal de artistas, criaram um conjunto de obras surpreendentes. Esta é a primeira vez que trabalham em conjunto, a partir das esculturas em madeira de Rui Sanches e das peças de cerâmica de Teresa Segurado Pavão (na imagem). Sara & André estão no antigo atelier de Vieira da Silva, ali bem perto, e Francisco Janes apresenta uma instalação de imagens e som no espaço do auditório do Museu.

ROTEIRO - Na Galeria Balcony, Manuel Caldeira mostra novos trabalhos de escultura e desenho, intitulada “Egyptian Reggae”, inspirada na reinterpretação de artefactos do Egipto antigo relacionados com a observação do vôo das aves e que o autor apresenta como “arqueologia inventada” (na imagem). São 17 obras, quase todas feitas no último ano, incluindo um conjunto de quatro desenhos. (Rua Coronel Bento Roma 12A, até 21 de Março). No MAAT há uma nova exposição, “Turn Around”, baseada na colecção da Fundação EDP que conta com duas mil e quinhentas obras de mais de trezentos e quarenta artistas. “Turn Around - Um Olhar Sobre a Colecção de Arte da Fundação EDP” terá dois momentos este ano O primeiro, agora apresentado, inclui obras de Gabriel Abrantes, Luisa Cunha, Ana Jotta, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira e João Paulo Feliciano, entre outros.

FRAGMENTOS DE ESCRITA - “Cânone da Câmara Escura” é o novo livro do espanhol Enrique Vila-Matas. Este não é apenas um livro, é um conjunto de fragmentos de outros livros, a partir de uma situação especial: o protagonista, Vidal Escabia, recebeu de herança por morte de pessoa muito próxima uma grande biblioteca, mas sob uma condição: que do total da biblioteca seleccionasse aqueles que considerasse os seus livros predilectos com a incumbência de sobre eles refletir e escrever e elaborar o seu próprio Cânone literário. Escabia construíu um ritual, baseado em três movimentos: entrar no quarto escuro onde estava a biblioteca de obras escolhidas, escolher ao acaso um livro, ir ler e seleccionar um fragmento que lhe parecesse interessante e, depois, escrever o que entendesse sobre essa obra para futura inserção no arquivo do Cânone. Vidal Escabia, cumprindo as instruções de quem lhe deixou a biblioteca, seleccionou setenta e um livros. Escolheu fragmentos e intercalou o que anotava, com relatos do seu quotidiano, dúvidas e reflexões sobre o que se passava à sua volta. Colocou interrogações sobre a presença de androides entre os humanos, chegando ao ponto, suprema ironia, de se questionar se ele próprio, ou quem o rodeava, poderia ser um desses androides. “Cânone de Câmara Escura” é uma obra sobre a paixão pela literatura, sobre o papel que ela tem na transmissão de ideias e sobre o sentido da própria escrita. É um livro dividido em 120 intrigantes fragmentos, que culminam nesta frase:”Até no ar percebo o Mal indefinido que está para chegar”. (Edição D. Quixote, tradução de J. Teixeira de Aguilar).

MÚSICA PARA FILMES QUE NÃO EXISTEM - Bruno de Almeida, além de ser realizador de filmes e documentários, tem também uma carreira de músico, que nos últimos anos se tem consubstanciado na série “Cinema Imaginado”, agora no seu quarto volume. Nesta série de gravações Bruno de Almeida imaginou bandas sonoras para filmes que não existem, numa mistura de géneros musicais, combinando jazz e funk, por vezes com recurso a spoken word. Neste “Cinema Imaginado - Volume 4”, Bruno de Almeida esteve nos teclados e chamou para estúdio Ricardo Toscano, Mário Franco, Luís Figueiredo, Mário Delgado, Óscar Graça, José Salgueiro, Eduardo Cardinho, Miguel Bernat, André Sousa Machado, Iúri Oliveira, Graham Haynes, e uma secção de cordas composta por Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano, Ana Cláudia Serrão e Nuno Abreu. O disco inclui dez temas, que vão de incursões no jazz improvisado até baladas ao piano. Todas as composições são de Bruno de Almeida, excepto o tema “Parallax View”, que foi construído em parceria com Graham Haynes e Mário Franco, co-produtores do disco. Disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - Em Londres, a National Portrait Gallery apresenta até 4 de Maio a exposição “Lucian Freud: Drawing Into Painting” com 175 desenhos feitos por Freud, muitas vezes para se evadir da pintura, outros para recordar momentos, como os três retratos, a desenho, que fez de Francis Bacon num fim de tarde em 1951.
DIXIT - “Aberto um novo ciclo político, como quererá Montenegro passar à História? Como o hábil equilibrista, herdeiro de uma nefasta escola tacticista que vem privilegiando a gestão do curto prazo na última década, que se tem limitado a ser até aqui? Ou como um reformador pragmático, capaz de fazer consensos ao centro e de travar o crescimento dos populismos pelo qual, isso sim, parece ansiar a maioria sociológica existente no país?” - Pedro Norton, no Público.
BACK TO BASICS - “Quando alguém perde a capacidade de se rir de si próprio, é o momento em que os outros se começam a rir dele” - Thomas Szasz.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

Acordo há dias sem fim com o som da chuva, da água a correr. É como se vivesse dentro de uma fonte. O correr da água, que pode ser um som tranquilizante, tem-se transformado num quase martírio. Olho para os vidros das janelas e lá estão as gotas de água a escorrer, sempre a escorrer. Saio à rua e chapinho nas poças de água que se formam por todo o lado, Não estamos habituados a tanta água e isso é tão verdade que a Embaixada do Japão endereçou aos portugueses uma simpática mensagem com recomendações e cuidados a ter nestas situações e, em particular, nas inundações. É uma atitude de uma enorme delicadeza e de uma prova de amizade entre os nossos países, que esta chuva proporcionou. Tudo está alagado, o tempo está húmido, o sol anda escondido. Vou à rua comprar o jornal e vejo como os passeios de Lisboa são ainda mais perigosos quando estão tão molhados - parecem escorregas. Ao longo do estreito passeio por onde vou vejo as poças formadas nos buracos do alcatrão. Há carros que abrandam para não molhar os peões, mas há outros que parecem fazer de propósito para levantar uma cortina de água. Mesmo nestas alturas difíceis para todos há quem não pense nos outros. A raça humana é tramada, até nesta altura se nota. Nas ruas os buracos aumentam todos os dias, como se o alcatrão fosse solúvel em água. Regresso a casa, a ver se consigo evitar que o jornal fique empapado da chuva - quando isso acontece fica mais dificil fazer as palavras cruzadas porque não se consegue escrever no papel molhado. Sento-me a olhar para a janela que acolhe as gotas de água. Já chega de chuva por agora, Será que, quando esta chuva passar e o sol voltar a ver-se, vou voltar a ter o prazer de me sentar à beira do chafariz a gozar a frescura do som da água a correr?

VENDAVAL - No fim da noite de domingo, com os resultados apurados, só me lembrava de uma canção popularizada por Tony de Matos. Chama-se “Vendaval” e pela melodia fora vão-se ouvindo estas palavras: “o vendaval passou…navego agora em mar de calmaria… para onde vou? - não sei!”. A vitória de António José Seguro foi arrasadora: 3,4 milhões de votos. Mas para além dos números este resultado significou a clara rejeição de André Ventura por uma larga maioria do eleitorado, inclusivamente da maioria dos que tradicionalmente votam à direita do PS, e, também, evidencia a repulsa por soluções de ruptura. A resposta pedida na canção está dada: o eleitorado prefere soluções consensuais, estabilidade e moderação, mas que também quer alguém que ponha o Estado ao serviço dos cidadãos e não de quem ocupa S. Bento. Os eleitores que votaram Seguro quiseram deixar um recado: Portugal tem muitos problemas, trabalhem em conjunto, deitem abaixo as barreiras partidárias e resolvam-nos. Ora isto volta a colocar na ordem do dia a questão do alargamento do centro político, algo que é o contrário do que Ventura, Montenegro ou Pedro Nuno Santos pretendem. Destas eleições o partido que sai mais ameaçado é o PSD, que tem vindo a perder identidade e que vê muita da sua base de apoio a dar atenção ao Chega, que continua a crescer. Daqui para a frente, ou o PSD e o PS se entendem para fazer reformas nas áreas mais críticas, incluindo o combate à corrupção e a justiça e conseguem criar uma nova era política, ou Montenegro continua no seu jogo táctico de agradar a gregos e troianos e acabará devorado por André Ventura. Quanto a Seguro, que resistiu aos cantos de sereia que o queriam levar a radicalizar o discurso, se fizer o que prometeu como colaborar para resolver problemas, não ter amarras partidárias, usar comedidamente a palavra e manter-se fiel à Constituição, pode vir a ser uma boa surpresa. Como escreveu Francisco José Viegas no “Correio da Manhã”, ele pode ser o primeiro presidente fora da velha oligarquia. Não é coisa pouca.
SEMANADA - Os portugueses gastaram 22 milhões de euros no site de conteúdos eróticos OnlyFans em 2025; o Hospital Amadora-Sintra identificou mais de 500 mulheres vitimas de mutilação genital feminina nos últimos dez anos; neste início de ano já há hospitais do SNS sem dinheiro para comprar medicamentos; no OE deste ano o Governo reduziu em 53,7 milhões de euros o orçamento direto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil; desde o início do ano já morreram 60 pessoas em acidentes rodoviários; no espaço de um ano a Marktest contabilizou 153 milhões de downloads, uma média de 2,9 milhões de downloads por semana; os podcasts mais procurados foram, por esta ordem, “Extremamente Desagradável” da Renascença Multimedia, “O Homem Que Mordeu o Cão” da Baur Media e “Mixórdia Temática” da Rádio Comercial; o Observador registou a maior quota de downloads de podcasts, seguido pela Renascença, Rádio Comercial, SIC Notícias e Expresso; ainda segundo a Marktest 3,5 milhões de pessoas, cerca de 41% dos portugueses ouvem rádio pela internet e este valor é o dobro do verificado há uma década; Portugal apresenta uma das mais baixas coberturas de seguros contra eventos climáticos extremos na Europa, com apenas cerca de 3% das perdas entre 1980 e 2024 seguradas.
O ARCO DA VELHA - Um juiz dos Açores, já aposentado, foi condenado a cinco anos de prisão, mas com pena suspensa, por ter pago a três rapazes menores para ter sexo com eles.

FOTOGRAFIAS PORTUGUESAS - O que se passa quando se olha para as mesmas coisas com décadas de diferença? A resposta está em “A Prova do Tempo”, uma exposição de fotografias de Inês Gonçalves e Ana Paganini, na galeria Lumina. Os temas fotografados são os mesmos: o universo das touradas e das procissões e manifestações públicas da fé. Inês Gonçalves fotografou nos anos 90 os bastidores das touradas para a revista Kapa e procissões nos Açores, estas no âmbito de um projecto pessoal, e a maioria das fotografias expostas desta série são inéditas. Ana Paganini olhou para os mesmos dois universos de 2018 para cá. As duas fotógrafas tinham sensivelmente a mesma idade quando fizeram estes projectos - na casa dos 30 anos. São olhares diferentes, não só porque mostram épocas diferentes, mas também porque têm abordagens diversas. “A Prova do Tempo” é um nome particularmente adequado - as fotografias de Inês Gonçalves testemunham uma época e resistiram bem às quase três décadas que levam; e as fotografias de Ana Paganini levam-nos a compreender o que mudou para permitir a permanência das tradições. As duas fotógrafas acabam assim por, em tempos diferentes, estabelecer um diálogo entre o que observaram e retiveram. Em cada exposição a Lumina, dirigida por Bruno Portela, guarda uma das suas paredes para apresentar uma outra obra no campo das artes visuais, uma área que tem curadoria de Rute Reimão - neste caso a escolha recaíu numa instalação de Sebastião Castelo Lopes, “O som de fazer o último poema”. A Lumina fica na Rua Actor Vale 53, junto à Fonte Luminosa.

ROTEIRO - A galeria This Is Not A White Cube (Rua da Emenda 72, ao Chiado), apresenta a exposição de fotografia “Bloom”, de Dagmar van Weeghel, baseada na evocação da presença histórica de mulheres africanas, através do recurso actual a técnicas fotográficas do século XIX. A artista estabelece um diálogo entre retratos contemporâneos e imagens oitocentistas, numa relação entre o passado e o presente. Na Fundação Albuquerque, em Sintra, a artista britânica Phoebe Collings-James apresenta um conjunto de cerâmicas contemporâneas a que deu o título “Nature Boy”, em que algumas peças foram já produzidas em Portugal no âmbito de uma residência promovida pela Fundação. É a primeira vez que a Colecção Albuquerque, centrada na cerâmica chinesa, acolhe uma ceramista contemporânea. A Galeria Diferença (Rua de São Filipe Nery 42) apresenta duas novas exposições: “Detritos Cósmicos” de Nuno Cera e “Terra Firme” de Matilde Sambo. Na Galeria Ilha (Praça das Flores 48A), pode ser vista uma exposição de pintura, desenho e fotografia do norte-americano John Kacere (1920-1999) intitulada “American Beauty”.

O PAPEL DA MEMÓRIA - O que se escreve quando já se sabe que o fim é inevitável e não estará longe? “Partida”, de Julian Barnes, é uma das respostas possíveis a essa pergunta. Com uma brilhante tradução de Salvato Teles de Menezes “Partida” foi anunciado pelo autor como a sua derradeira obra e combina ficção com realidade, sobretudo quando Barnes fala de episódios da sua vida. Ele aliás diz a certa altura “and you can google that, if you wish”. O livro é uma reflexão sobre a vida do autor, sobre a sua relação com amigos próximos, sobre a memória e o que ela guarda: o amor, as cumplicidades, a amizade, o comportamento dos seres humanos; e também sobre o que se seguirá: a velhice e, inevitavelmente, a morte. É uma escrita envolvente, que amarra, irónica por vezes, crua por natureza, que se desenvolve como uma conversa que se vai tendo. É um livro de despedida, um adeus aos seus fiéis leitores, agora que o escritor fez 80 anos. “Partida”, escreve Barnes, é «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco». Julian Barnes escreveu mais de duas dezenas de livros, ganhou o Man Booker por “O Sentido do Fim” e a sua obra mais conhecida é “O Papagaio de Flaubert”. Edição Quetzal.

MESA DE CABECEIRA - “A Mitologia Grega de A a Z”, do filósofo Luc Ferry, conta as origens do Olimpo, dos seus heróis lendários e todas as suas histórias. Aqui se recordam as aventuras de Ulisses, Zeus, Atena, Jasão, Hércules ou Afrodite e podemos compreender, de forma acessível, o legado da mitologia grega, que continua a habitar a linguagem de hoje e a servir de matéria prima para escritores e artistas das mais variadas áreas. Os mitos relatados por Luc Ferry permitem percorrer lições de vida e de sabedoria que perduraram ao longo dos séculos (Edição Guerra & Paz). Outro livro que percorre, embora de forma bastante diferente este universo mitológico é “A Odisseia de Homero”, mas sob a forma de uma novela gráfica, uma gigantesca obra de desenho e imaginação criada por Gareth Hinds ao longo de 250 páginas numa fascinante banda desenhada que reconstitui as aventuras de Ulisses. A “Odisseia” é um dos poemas épicos fundadores da literatura ocidental, atribuído ao poeta grego Homero, na época do século VIII antes de Cristo. O poema narra a longa e perigosa viagem de dez anos do herói Odisseu (Ulisses) para regressar a Ítaca após a Guerra de Tróia, enfrentando monstros, deuses e feiticeiras. Esta novela gráfica traz esta obra clássica a uma nova dimensão, visual, proporcionando a sua descoberta por novos públicos.

A BOSSA RARA - Nara Leão morreu cedo, aos 47 anos. Foi ela uma das grandes vozes da Bossa Nova, esse expoente da música popular brasileira, servida por talentos da escrita, da música e da voz como nenhum outro género depois. “A bossa rara de Nara” é o título de um álbum, agora publicado, com oito temas, gravações salvadas de um estúdio onde ela por vezes trabalhava. As gravações originais têm só a sua voz e o seu violão e foram encontradas pelo produtor Raymundo Bittencourt numa fita provavelmente gravada nos anos 80, quando ela trabalhava já com Roberto Menescal. Raymundo e Roberto juntaram-se na recuperação dessas gravações e conseguiram salvar a voz em boas condições em oito temas. Menescal juntou a sua voz, agora, como fazia frequentemente nos espectáculos com Nara. O produtor retirou o violão original das gravações e juntou o seu próprio e trouxe para estúdio Diógenes de Sousa no baixo, João Cortez na bateria e Leandro Freixo na flauta e teclados. Eis os oito temas do disco, todos eles clássicos da bossa nova: “Chega de saudade”, “Fotografia”, “Manhã de Carnaval” “Tristeza de nós dois”, “O barquinho”, “Você e eu”, “Diz que fui por aí” e “Wave”. Nara tinha uma capacidade de interpretação única, a sua voz namorava as palavras. Ouçam, está em streaming e é do melhor que tenho ouvido nos últimos tempos.
DIXIT - “Seguro fez uma campanha semelhante à que o publicitário Jacques Séguéla dirigiu em 1981, levando Mitterrand à Presidência sob o lema: “A força tranquila”. Da mesma forma, o “expulso” do PS português contrapôs a calma e a palavra escassa ao palavreado quase histérico de Ventura “ - Eduardo Cintra Torres, no Correio da Manhã.
BACK TO BASICS - O homem sábio, quando descansa em segurança, fica atento aos perigos que podem surgir - Confúcio.
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Quando passeio a pé gosto de olhar à volta, seja onde estiver. Delicio–me com os pormenores, as coisas aparentemente escondidas que, de repente, me saltam à vista. A verdade é que passamos todos muito tempo a olhar para ecrãs, a atenção dirigida para um rectângulo luminoso, e a maioria das coisas que vemos são-nos dadas por algum intermediário: temos quem nos dê notícias, quem nos mostre filmes, quem nos faça descobrir novas músicas, quem nos proponha viagens e até quem nos explique alguma coisa que pretendamos querer saber. Mas nada disto substitui o prazer de olhar à nossa volta, seja numa rua ou num caminho no meio do campo. Olhar com atenção desperta a imaginação, olhar para o que está à nossa frente, ver as coisas bem de perto, sentir a sua forma e textura, leva-nos a descobertas . A beleza que desafia as convenções nasce onde menos se espera. Uma das coisas que me fascina é olhar bem de perto para um cacto, daqueles carnudos que se encontram à beira de um caminho. Muita gente não liga a estes cactos selvagens, mas eu gosto deles. São resistentes, marcam a paisagem, estão com bom ar todo o ano, sobrevivem às chuvas, ao vento e ao calor. E, parecendo iguais, são todos diferentes. Os seus caules carnudos são voluptuosos, têm forma e volume, enquanto os espinhos são as suas folhas, que servem para os proteger. São umas plantas sábias, imprevistas, não há caules iguais. Este que hoje vos trago tem uma pequena janela aberta, circular, por onde se pode espreitar o que se passa do outro lado. Combina a aparência opaca com transparência q.b. Se calhar tinha futuro na política.

O DESGOVERNO - O tempo não está para graçolas mas há coisas que parecem saídas de outro mundo. A actuação do Governo face à catástrofe que se abateu na região Centro, e em particular em Leiria, dava um filme que podia ter por título “Desaparecido em Combate”. As primeiras reacções demoraram horas, a falta de coordenação dentro do Governo e entre poder central e poder local foi gritante, com numerosos presidentes de câmara a afirmarem, mais de 24 horas depois da passagem da Kristin, que não haviam sido contactados por ninguém da Administração Central. No filme, a Ministra da Administração Interna, acusada de não dar a cara no meio da situação caótica, teve uma frase que ficará para a história do guionismo nacional : “trabalho em contexto de invisibilidade”. Mais tarde prosseguiu dizendo “não sei o que falhou, o sistema é complexo”. Já o produtor do filme, o Ministro da Presidência, Leitão Amaro, resolveu fazer um vídeo promocional, exibido nas suas redes sociais, mostrando-o em mangas de camisa a roer as unhas, com uma banda sonora emocionante, imagens a côr alternadas com um dramático preto e branco, e uma montagem ritmada, como se de uma aventura se tratasse. O realizador, Luís Montenegro, preocupado em não tomar posição sobre as presidenciais, teve também uma frase extraordinária para desculpar a inacção: “não conseguimos estar em todo o lado ao mesmo tempo”. E o Ministro da Economia recomendou às pessoas que se desenrascassem com o dinheiro dos salários - mesmo sabendo que muitas empresas locais terão dificuldade em os pagar. Em geral os governantes confessaram-se em estado de aprendizagem colectiva, às nossas custas, claro. O físico Carlos Fiolhais sintetizou o que se passa: “Embora ferida, Leiria existe, mas o governo não. Leiria existe sem o governo. Num contexto de alterações climáticas, temos de estar preparados para novas catástrofes, em Leiria e noutros sítios. E era bom que o governo passasse a existir.” O Estado português que consome 45% do PIB, falha na resposta a mais uma catástrofe, evidencia falta de liderança e uma aflitiva desorganização. Nas zonas mais atingidas pela tempestade há milhão e meio de eleitores, milhares deles ainda sem electricidade nem internet, centenas com casas destruídas, milhares de postos de trabalho em risco devido à destruição das instalações de muitas empresas. Estes eleitores, que durante 48 horas se viram abandonados pelo Governo, terão ânimo e vontade de votar? Se muita gente já tinha dúvidas sobre o funcionamento do Estado, os acontecimentos dos últimos dias reforçaram o sentimento de falta de confiança nos políticos. O que se passou é um péssimo serviço à democracia que só ajuda os que a querem enfraquecer.
SEMANADA - O salário mínimo português caíu em 2026 para 12º lugar entre os 22 países da União Europeia e está abaixo da média da zona euro que é de 1346 euros; em 2025 a economia portuguesa cresceu 1,9%, abaixo da meta do Governo; a receita fiscal em 2025 aumentou mais de 3000 milhões de euros e o investimento público nesse ano desceu outro tanto; a receita do IMT ultrapassou no ano passado os dois mil milhões de euros, o valor mais elevado de sempre e que representa um aumento de 271% face a 2015; as contribuições de estrangeiros para a Segurança Social no ano passado voltaram a subir de 3,6 mil milhões para 4,1 mil milhões e nos sectores da agricultura, pescas e florestas mais de metade das receitas vieram de trabalhadores imigrantes; um estudo de Fernando Freire de Sousa, professor da Faculdade de Economia do Porto, que compara 27 países europeus, coloca Portugal na 25ª posição em potencial económico e estrutura económica, na 27ª posição em desempenho social e estrutura social; a segurança social tem 854 imóveis devolutos de um total de 2561 que gere e as rendas por cobrar ultrapassam os 33 milhões; a CP tem mais de 30% da frota de carruagens dos comboios intercidades imobilizada nas oficinas por falta de pessoal e peças; o aeroporto de Lisboa atingiu um novo recorde de passageiros no ano passado, com 36,1 milhões de passageiros; os cinemas portugueses registaram no ano passado 10,9 milhões de espectadores o pior número desde 1996, com excepção da época da pandemia; desde o início de 2025 já encerraram mais de meia centena de salas de cinema em todo o país e há vários distritos sem exbição comercial de filmes.
O ARCO DA VELHA - Em 2025 aumentou a actividade dos amigos do alheio e as autoridades registaram 6153 roubos feitos por carteiristas, sobretudo a turistas. Um dos detidos em flagrante delito é um reincidente de 71 anos que tinha no quarto telemóveis, dinheiro e cartões bancários roubados.

ESCULTURAS PROVOCANTES - “Inverno” é a nova exposição de André Romão, um escultor que estudou em Lisboa e Milão e que recebeu em 2007 o prémio EDP Novos Artistas e o BES Revelação em 2013. Romão, 42 anos, apresenta agora na Galeria Vera Cortês esta nova exposição com oito obras, uma parte feita a partir de materiais encontrados, mas retrabalhados pelo artista, a partir de fragmentos de madeira, cerâmica, bronze e outros materiais. Na imagem está “Ferida Fóssil”, uma escultura produzida a partir de uma peça de cerâmica vidrada dos anos 60, francesa, e coral vermelho mediterrânico. O trabalho de André Romão cruza-se com a poesia e neste caso parte de uma poesia de Yeats. Uma das peças, um fragmento de madeira retrabalhado, incorpora folhas de árvore de cânfora do jardim da artista Lourdes Castro, no Funchal. Estas obras de Romão misturam técnicas e materiais e constroem novas realidades, abrindo numerosas possibilidades de interpretação. A exposição fica patente até 14 de Março na Galeria Vera Cortês, Rua João Saraiva 16-1º. em Lisboa.

ROTEIRO - “No Words” é a nova exposição de Isa Toledo na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18) e representa uma evolução assinalável no percurso criativo da artista, mostrando trabalhos que incorporam diversas técnicas e materiais com uma utilização constante de colagens. São 18 obras, todas da mesma dimensão (70x50). Na imagem Isa Toledo junto da obra “Carro da Ana”, na qual colocou aplicações de latão sobre flanela. Na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80) é apresentada “Works In Dialogue”, uma exposição colectiva de artistas ligados à própria galeria. E na Sociedade Nacional de Belas-Artes (Rua Barata Salgueiro 36), pode ver até 28 de Fevereiro a exposição “Nadir Afonso: Território de Absoluta Liberdade”, que apresenta 94 obras originais, entre pinturas, desenhos e estudos, incluindo sete grandes telas realizadas nos últimos anos de vida do artista.

UMA MEMÓRIA - O destaque de hoje é um livro de fotografia, construído a partir do arquivo fotográfico de Álvaro Rosendo e que mostra a sua visão do que se passou no mundo da música, jornais e outras artes, nesse período explosivo de criatividade entre 1982 e 1996. Observador privilegiado, Álvaro Rosendo, que nessa época passou nomeadamente pelas redacções do “Blitz” e “O Independente”, acompanhou por exemplo a primeira digressão dos Xutos & Pontapés, mas também de bandas de culto dessa época como Peste & Sida ou Croix Sainte. Integralmente fotografado a preto e branco, com uma intensidade que só a proximidade dos fotografados proporciona, o livro traz, em cerca de 250 páginas, memórias de nomes como Rui Reininho, Madredeus, Rádio Macau, Rui Veloso, Sérgio Godinho, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira, Pedro Burmester, Maria João Pires, Carlos Paredes ou Inês de Medeiros, mas também de contemporâneos seus de fotografia, como Inês Gonçalves ou Daniel Blaufuks - e cito apenas alguns dos muitos fotografados. “Love Song” é um testemunho apaixonado de uma época, uma espécie de diário da aventura que foi percorrer esses anos. Nesta empreitada Álvaro Rosendo teve a colaboração do radialista Henrique Amaro, ele próprio um dos protagonistas maiores, ainda hoje bem activo, e a concepção gráfica de Pedro Falcão. O livro está à venda exclusivamente através do site da editora, tintadachina.pt .

MESA DE CABECEIRA - O título é certeiro: “Impensável”. A neurocientista britânica Helen Thomson passou anos a viajar pelo mundo, investigando perturbações cerebrais raras. Neste livro conta as histórias de nove pessoas, desde o homem que pensa que é um tigre até ao médico que sente a dor dos outros apenas ao olhar para eles, passando pela mulher que ouve música que não existe. A autora mostra como o cérebro pode moldar as nossas vidas de formas inesperadas e, em alguns casos, brilhantes e alarmantes. A edição é da Temas e Debates. Outro livro que vale a pena conhecer é “Relatividade”, de Albert Einstein. Escrito para leitores não especialistas, neste livro o físico apresenta as suas duas teorias da relatividade: a Teoria Especial, que trata da constância da velocidade da luz e da equivalência entre massa e energia; e a Teoria Geral, que explica de que modo a gravidade afeta a curvatura do espaço-tempo. Estas teorias revolucionaram a ciência e transformaram a forma como entendemos o universo, moldaram a física moderna e abriram caminho para a era espacial, a astrofísica e a tecnologia do nosso quotidiano. Edição Bertrand.

SILÊNCIO - “Stille” é o quarto álbum do músico de jazz dinamarquês Jesper Thorn, compositor e baixista. Stille, uma palavra dinamarquesa que tanto pode significar calma como silêncio, tem oito temas que, segundo o seu autor, evocam a capacidade de a música ser um refúgio para parar e reflectir. Thorn é acompanhado por Marc Méan no piano, Andreas Bernitt no violino, Cecilie Strange no saxofone e Maj Berit Guassora no trompete. O grupo explora uma sonoridade muito própria do jazz nórdico, elaborando uma atmosfera musical que combina o lado intimista com o emocional. Edição ECM, disponível em streaming.
ALMANAQUE - Em Paris, no Jeu de Paume, um centro de arte focado na fotografia e no vídeo, está até 24 de Maio uma exposição dedicada à obra do fotógrafo inglês Martin Parr, recentemente falecido, e que exibe várias séries do seu trabalho realizadas a partir dos anos 70, sob o título “Global Warning”.
DIXIT - “Em vez de proibimos a IA devíamos ter uma disciplina obrigatória e transversal a todos os cursos sobre o seu uso ético e responsável” - Luís Aguiar-Conraria, no Expresso
BACK TO BASICS - "Exigência e intransigência são as primeiras palavras que me vêm à cabeça. E trabalho, muito trabalho, sempre e cada vez mais trabalho. O talento e a inspiração são coisas muito lindas, mas trabalhar, trabalhar, trabalhar" - João Canijo
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