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MANIFESTO CONTRA A REGIONALIZAÇÃO

por falcao, em 06.12.19

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BATOTICE REGIONALIZADA - Num país com a nossa dimensão geográfica e populacional não consigo compreender a defesa que alguns políticos, na maioria profissionais dos respectivos aparelhos partidários, fazem da regionalização. Posso compreender, e desejar até, que se criem mais mecanismos de descentralização e se aperfeiçoem os existentes, posso aceitar que se aumente o papel e competências dos municípios, desde que recebam os meios necessários para isso e que eles próprios tornem o seu funcionamento mais transparente. Mas num Estado Central com tantas ineficiências como o nosso, criar aparelhos regionais apenas vai multiplicar essas ineficiências e as burocracias que as acompanham. Mais: num Estado onde a corrupção atinge níveis tão elevados, muitas vezes a n´vel local das autarquias, fazer a regionalização é aumentar os territórios da corrupção, é fomentar o controlo dos aparelhos administrativos pelos aparelhos partidários a uma escala ainda maior. Eu não quero ter mais Estado, quero sim ter um Estado menor e melhor. Mas quando penso na regionalização vejo apenas mais potenciais caciquezinhos, mais poderzinhos, mais serviços duplicados, menos eficácia, maiores prejuízos para os cidadãos, muito provavelmente mais taxas e impostos. A regionalização não é uma questão ideológica que divida os partidos - há dirigentes pró-regionalização nos principais partidos, até porque os seus defensores vêem oportunidades acrescidas para espalhar uns lugares e aumentar o tráfico de influências. Aos principais e mais envelhecidos partidos, aqueles onde o aparelhismo e a corrupção andam de braço dado, a regionalização interessa para proveito próprio, mesmo que seja má para o país. Por saberem isso os seus defensores querem criá-la de forma encapotada, meio escondida, ir criando factos consumados - foi o que António Costa andou a fabricar com alguns autarcas que lhe são próximos nestes últimos tempos, foi aquilo que o Presidente da República travou, alertando para a marosca.

 

PENSAMENTOS OCIOSOS- Todos os dias me surpreendo com a falta de memória e a ingenuidade das afirmações de arguidos e testemunhas interrogados nos principais processos em curso nos tribunais portugueses.

 

SEMANADA - O Tribunal de Contas arrasou os planos das câmaras municipais contra incêndios nas zonas rurais acusando-os de falta de eficácia; um terço dos alunos portugueses com 15 anos ou mais só lê quando é obrigado e para 22% dos estudantes a leitura é considerada uma perda de tempo; há disciplinas, como o Português, em risco de ficar sem professores no espaço de uma década; só seis das 20 dioceses portuguesas criaram comissões de protecção de menores; o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou Portugal por condições degradantes em duas cadeias; uma sondagem do Correio da Manhã indica que depois das eleições de Outubro o CDS já caíu dos 4,4% alcançados para 2,9% das intenções de voto, o mesmo valor que a Iniciativa Liberal e menos que o Chega; segundo a Marktest mais de cinco milhões de portugueses utilizam serviços de mensagens instantâneas em vez de SMS; a falta de verba impede traduções do roteiro dos museus do Algarve; há mais de três mil edifícios públicos contaminados com amianto e a substância causou 126 mortes nos últimos quatro anos; o desemprego de longa duração entre as pessoas com deficiência aumentou 15% na última década; todos os meses são legalizados em Portugal, em média, cinco novos cultos religiosos; Portugal tem o terceiro pior investimento público per capita da união europeia.

 

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INQUIETAÇÕES - Pedro Cabrita Reis (na imagem) regressa a Serralves vinte anos depois da sua primeira exposição naquele espaço. A Roving Gaze (Um Olhar Inquieto) é o nome do projecto que agora apresenta e que foi especificamente concebido para os espaços de Serralves. A exposição assume-se como uma única obra de grande escala que evoca o percurso e a vida do artista sem preocupação cronológica. Inclui estruturas concebidas para o local, fotografias de obras de Cabrita desde 1999 até agora, ao mesmo tempo que apresenta objectos, desenhos, documentos e outros trabalhos que fazem a ponte entre a vida da pessoa e a obra do artista. A exposição fica em Serralves até final de Março do próximo ano. Em Lisboa, até 20 de Dezembro,  pode ainda ver estudos de Manuel Caldeira, desenhos de Pedro Sousa Vieira e pequenos bronzes de Rui Chafes na exposição “SI SOL FLAT”, no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), no Antigo Mercado de Xabregas, Rua Gualdino Pais. Ainda em Lisboa uma chamada de atenção para a exposição de pinturas Manuel Gantes, que vai estar na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria) até 21 de Dezembro. Por fim André Guedes mostra  “Formas Antigas, Novas Circunstâncias” na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º) até 18 de janeiro.

 

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CANÇÕES POPULARES - Harry Connick Jr.  é um dos grandes responsáveis pelo ressurgir do jazz cantado. Ele surgiu numa espécie de regresso às origens já que no início o jazz cantava-se e dançava-se em vez de se ouvir sentado numa sala de concerto. Connick, há uns anos, trouxe este lado de diversão de volta ao jazz. Cabe aqui dizer que Connick, além de cantor, pianista e até actor é um músico experiente e talentoso, capaz de fazer arranjos complexos e dirigir uma orquestra como aliás fez neste disco de homenagem a Cole Porter. Comecemos pela voz: neste disco Connick está cada vez mais parecido com Sinatra e o seu trabalho nas 13 canções que escolheu para “True Love: A Celebration Of Cole Porter” mostra-o a dirigir em estúdio uma orquestra de 16 músicos para a qual compôs todos os arranjos. As maiores surpresas no repertório escolhido são as duas canções da injustamente esquecida banda sonora de Cole Porter para o filme “High Society” - “You’re Sensational” e “Mind If I Make Love To You?”. O disco começa com uma boa versão de “Anything Goes”, um arranjo inesperado em “All Of You” e interpretações arrebatadoras de “I Love Paris”, “In The Still Of The Night” e, sobretudo, de “Begin The Beguine”, uma das minhas canções favoritas de Porter. O CD está disponível no Spotify.

 

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O REGRESSO DO PAPEL - A revista britânica The Face foi minha assídua companhia ao longo do tempo em que existiu, entre 1980 e 2004. Gostava da forma como abordava os temas, gostava da sua paginação, gostava da sua edição fotográfica. Após um interregno de 15 anos eis que ela volta às bancas, continuando com algumas das suas características. A revista no entanto ganhou um novo território, no digital. Agora há uma edição trimestral em papel e uma edição permanente online. A equipa editorial do papel tem a mesma dimensão da equipa do digital e vendo ambas percebe-se que houve o cuidado de pensar num projecto misto, que combina a magia do papel impresso com as possibilidades que o online oferece. Stuart Brumfitt é o seu novo editor e no editorial do primeiro número da nova fase de vida da revista publica uma fotografia sua, de 1997, então um adolescente sentado ao lado da mãe mas a folhear um exemplar da Face original. É uma simbólica nota no arranque desta nova série. Os temas são os de sempre, um mix de música, locais da noite, cultura urbana, moda, artigos que vão de uma reportagem no El Club de Barcelona a uma produção fotográfica com Rosalia. Mas há temas novos, como ambiente e animais, ao lado de um questionário a Liam Gallagher, dos Oasis. A publicação tem 312 páginas de bom papel bem impresso. Dado curioso: entre os anunciantes da versão em papel, logo no início da revista, estão empresas online como a Netflix, Amazon Prime ou a Farfetch e publicidade a conteúdos como uma exposição da Tate Modern ou o filme Joker. O mundo está a mudar e  mesmo para as empresa da economia digital é preciso procurar audiência noutros suportes. Na imagem estão as duas capas alternativas do primeiro número da nova série da Face, que pode ser comprada na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88.

 

UM LOCAL ESSENCIAL - A minha grelha de avaliação de um restaurante baseia-se em coisas simples: qualidade da matéria prima, qualidade e inovação da sua confecção, serviço, ambiente, e, no final, a relação qualidade-preço considerando os items anteriores. Muitos novos restaurantes não passam nesta grelha de avaliação logo nalgumas coisas fundamentais. Felizmente há excepções e há umas semanas conheci uma delas - o Essencial, o novo restaurante do chef André Lança, que abriu em meados deste ano depois de uma passagem pelo Palácio do Governador. André Lança estudou em França e tem uma clara devoção pela cozinha francesa, que felizmente aproveita de forma criativa para uma adaptação mais portuguesa. O Essencial é um exemplo de boa arquitectura de restaurante num espaço relativamente pequeno, muito bem aproveitado, onde o conforto dos clientes foi de certeza parte importante do caderno de encargos. O menu vai variando, este é um daqueles restaurantes onde se evita a rotina e volta e meia aparecem umas surpresas. Nesta altura do ano a sazonalidade é marcada pelas trufas enquanto a tradição é assumida pelo foie gras. Logo no couvert há a boa surpresa de o pão ser da Terrapão, acompanhado por manteiga da ilha do Pico (uma das nossas melhores) e banha de porco mangalica do Fundão (muito bem temperada e trabalhada). Nessa noite pela mesa passaram, nomeadamente, foie gras, pâté en croutes com pickles, gnocchi com cantarelos e cebola fumada, sela de borrego e codorniz com puré de batata. Os comensais ficaram satisfeitos e devo dizer que estes foram os melhores gnocchi que comi em muitos anos. Nas sobremesas a pastelaria é também influenciada pela tradição francesa e ganha destaque um mil folhas de caramelo salgado e uma tartelette de tangerina. A garrafeira é bem escolhida, entre vinhos portugueses e estrangeiros, e o serviço de mesa, quer na comida quer nos vinhos, é exemplar. Se quiser pode trazer o vinho que o restaurante aceita servi-lo mediante uma taxa de rolha. O Essencial fica na Rua da Rosa 176 e o telefone é o 211 573 713.

 

DIXIT - “É preciso encontrar formas, públicas e privadas, de agir face à grave crise da comunicação social” - Marcelo Rebelo de Sousa.

 

BACK TO BASICS - “Existem apenas duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana” - Einstein.




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PS: AUSTERIDADE COMO LINHA POLÍTICA

por falcao, em 29.11.19

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QUEM ANDA À CHUVA, MOLHA-SE - O cartoon de Luis Afonso neste jornal, na passada quarta-feira, era dedicado ao anúncio de que Portugal tem um excedente orçamental de 998 milhões de euros. “Nada mau” - replicava-se a este número. Para a seguir dizer: “Agora é continuar a poupar no Serviço Nacional de Saúde, que se ultrapassa tranquilamente a fasquia dos 1.000 milhões”. Este diálogo imaginado das personagens do cartoon de Luís Afonso sintetiza o estado da nação, melhor que mil discursos. A triste realidade a que todos assistimos é que o Estado falha cada vez mais onde deve mostrar eficácia - saúde, segurança, educação, justiça. Como é patente as contas do país estão melhores porque a austeridade continuou e até se agravou nalgumas áreas. Em vez de o dinheiro existente ser utilizado para políticas sociais foi usado para satisfazer grupos de interesse e comprar apoio eleitoral. O Governo de Passos Coelho criou medidas austeridade, nalguns casos menos agressiva, mas comunicou-a muito mal. Costa e Centeno agravaram a austeridade, prolongaram-na, mas  fazem como se ela não existisse - quando é absolutamente necessário abrem os cordões à bolsa numa área muito específica para calar algumas bocas e obter simpatia. Continuando no universo da banda desenhada há que reconhecer que António Costa é como Mandrake: tornou-se num grande ilusionista, um mágico das aparências, como se provou no debate quinzenal desta semana. Só que quem anda à chuva molha-se e todos os dias cai mais uma chuvada nas ilusões que são a linha política do Governo. Isto vai-nos custar imenso a todos - como já se percebeu a carga fiscal é para continuar a aumentar - não necessariamente para aplicar onde é mais precisa, mas para onde é mais útil aos interesses do PS.

 

SEMANADA -  Foi aprovado o projeto que permite aumentar o tráfego no aeroporto de Lisboa, dos atuais 44 para até 72 movimentos por hora; o orçamento do município de Lisboa para 2020 prevê que as despesas com pessoal subam 12% em 2020; no próximo ano cada lisboeta pagará 545 euros em taxas e impostos municipais; os gastos dos partidos nas eleições europeias derraparam 18%,  o BE, o PS e o CDS foram os que mais gastaram face ao que tinham previsto para a campanha eleitoral e o PSD, a CDU e o PAN gastaram menos face ao orçamentado; o Ministério das Finanças travou um curso para formar 200 GNR prometidos em maio pelo Ministro da Administração Interna; entre 2013 e 2018 o valor das casas em Portugal subiu mais 32% que os salários e Portugal foi o segundo país com a maior diferença na evolução do custo da habitação e o rendimento das famílias; mais de metade das crianças passam 10 a  12 horas por dia em creches; 52,9% dos professores no ensino público têm hoje 50 e mais anos de idade e apenas 1,1% se situam abaixo dos 35 anos; o número de diplomados em educação caíu para metade e os cursos de formação de professores atingiram em 2018 o valor mais baixo da última década; até 2030 mais de metade dos professores do quadro podem aposentar-se devido à idade; em Portugal apenas 33,5% da população entre os 30 e 40 anos tem o ensino superior, abaixo da meta europeia de 40% para 2020; há turnos nos serviços do INEM sem médico coordenador e existem falhas nesses turnos que têm gerado um atraso no encaminhamento correcto de doentes urgentes, colocando em risco a vida das pessoas.

 

ARCO DA VELHA - Joacir Katar Moreira queixou-se do assédio de jornalistas dizendo que tanta pergunta não a deixa trabalhar e pediu para ser escoltada pela GNR dentro do edifício da Assembleia para não ser incomodada por perguntas de repórteres no trajecto para o seu gabinete. 

 

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A MAGIA DAS MÁSCARAS -  Até domingo Bragança torna-se o paraíso das máscaras, com a realização da Mascararte, a IX Bienal da Máscara. Este ano o centro das atenções é a exposição sobre as máscaras da cultura Makonde, de Moçambique. Nesta cultura a paixão pela vida é talhada nas suas afamadas máscaras, elemento central de rituais, como o “Mapiko”, uma dança enérgica, cheia de força e expressividade acompanhada ao som de cânticos e tambores, executada nas principais festas e cerimónias e, sobretudo, nos ritos de iniciação dos jovens homens e mulheres. Outras exposições estão patentes no Centro Cultural Municipal Adriano Moreira, no Centro de Fotografia Georges Dussaud e no Museu Abade de Baçal. Um ponto alto da IX Bienal da Máscara – Mascararte é o desfile pelas ruas do Centro Histórico de Bragança, em direção ao Castelo, onde acontecerá a Queima do Mascareto, sob o tema “Reencarnação do Diabo, da Morte e da Censura no deus Brahma”, e actuações de um grupo de canto e dança de Moçambique.  Esta edição da Mascararte termina com a inauguração da exposição “Gaitas de Fole do Noroeste da Península Ibérica”, de Pablo Carpintero. Outras sugestões: em Coimbra pode também ver até  31 de Dezembro, na Casa  Municipal da Cultura, e organizada pelo Centro de Artes Visuais,  a exposição Linha de Fronteira baseada na Colecção Encontros de Fotografia e na série de exposições que realizou no decurso dos anos 90 sobre os territórios fronteiriços de Portugal e que incluíram encomendas a vários fotógrafos. 

 

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PIANO FADO - Atenção que este disco pode arrepiar logo no início, quando o piano de Mário Laginha se cruza com a voz de Camané em “Não Venhas Tarde”, o clássico de Aníbal Nazaré e João Nobre que Carlos Ramos cantou. E logo a seguir, no disco, está “Com Que Voz”, o fado composto por Alain Oulman para Amália, baseado num poema de Camões. Oulman compunha ao piano e Amália cantava a seu lado quando preparavam os discos e é impossível não pensar nesses momentos quando se ouve este “Aqui Está-se Sossegado”, penas com voz e piano. Mais à frente aparece outro tema onde Oulman, também para Amália, retomou a lírica de Camões, “Amor É Fogo Que Arde Sem Se Ver”. E há mais uma composição de Alain Oulman, desta vez sobre poema de David Mourão Ferreira, o “Abandono”, que Amália também cantou. Laginha e Camané trabalharam muito tempo neste disco, experimentaram os fados e as canções em concertos por todo o país. O resultado é um disco de emoções e cumplicidades feito de repertório clássico e de alguns originais. Do repertório habitual de Camané aqui estão “Guerra das Rosas” e “Ela Tinha Uma Amiga” (ambos de Manuela de Freitas e José Mário Branco), “Dança de Volta” (de Luiz de Macedo), sobre Fado Bailarico, de Marceneiro e Fado Lopes, de José Lopes), e “Quadras” (de Fernando Pessoa, no Fado Alfacinha, de Jaime Santos). Nos inéditos destaque para “Aqui está-se sossegado”, que dá o título ao CD (um poema de Fernando Pessoa sobre o Fado Espanhol, de Júlio Paiva), “Rua das Sardinheiras”, (de Maria do Rosário Pedreira com música de Mário Laginha) e “Se Amanhã Fosse Domingo”  (de João Monge e Laginha). Finalmente há um instrumental de Laginha, “Rua da Fé”. Ao todo 14 temas neste “Aqui está-se Sossegado” que vai ser interpretado ao vivo dia 20 de Dezembro no Coliseu de Lisboa.

 

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TRÊS IRMÃS PODEROSAS - Jung Chang é uma escritora chinesa, actualmente a viver em Londres, que se tornou conhecida com o livro “Cisnes Selvagens”, que conta a história da sua família ao longo de três gerações (sendo uma a dela própria), vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo e foi proibido na República Popular da China. Outras obras suas que ganharam destaque foram a biografia  “Mao - a História Desconhecida” e a biografia da Imperatriz Viúva Cixi. Desta vez Jung Chang revisita a história de três mulheres que estiveram no no centro do poder da China no século XX, “As Irmãs Soong – A Mais Velha, a Mais Nova e a Vermelha”. O livro percorre a vida de três irmãs de Xangai cuja vida girou em torno de poder, amor, conquista e traição: a Irmã Vermelha, Ching-ling, que se casou com Sun Yat-sen, (o fundador da República Chinesa) e veio a ocupar cargos importantes na estrutura do regime de Mao Tsé-tung; a Irmã Mais Nova, May-ling, que foi a senhora Chiang Kai-shek, primeira-dama da China nacionalista pré- comunista e uma figura política por direito próprio; e a Irmã Mais Velha, Ei-ling, que foi conselheira principal não oficial de Chiang Kai-shek, fez do seu marido primeiro-ministro e foi uma das mulheres mais ricas da China. Esta é a história até aqui pouco conhecida das três irmãs Soong, uma narrativa que envolve exílio, amor, momentos de glória, perigos, intriga, guerra, glamour, desespero, traição e perda – mostrando-nos o século decisivo que a China atravessou e como elas conspiraram, influenciaram e deixaram a sua marca. Arrebatador.

 

OS VINHOS DO DOURO SUPERIOR - Pode um vinho branco ser adequado a estes dias de chuva a meio do outono? A resposta é sim se ele tiver corpo e alma. É o caso do Duorum Colheita Branco de 2018. É um vinho proveniente da Quinta do Castelo Melhor, situada a 500 metros de altitude na zona do Douro Superior, perto de Vila Nova de Foz Côa, em terrenos de xisto. O vinho é elaborado a partir de uvas das castas Castas Rabigato, Gouveio, Arinto e Códega do Larinho.  30% da produção foi fermentada em barricas de carvalho francês e o resto em tubas de inox a temperatura controlada. O resultado é um vinho amarelo dourado, com 13º, com volume e corpo e um final prolongado, com aroma frutado e boa acidez. É um daqueles vinhos que persiste na boca, bom para beber devagar, pessoalmente correu muito bem num fim de tarde entre dois dedos de conversa e umas tapas de queijo de pasta mole. Também se portou bem a acompanhar o peixe da refeição que se lhe seguiu.

 

DIXIT - “Fui eu que ganhei as eleições sózinha e a direcção (do Livre) quer ensinar-me a ser política” - Joacine Katar Moreira

 

BACK TO BASICS - “Como nação temos o dever de preservar os recursos naturais que recebemos para os entregar à geração seguinte” - Theodore Roosevelt.

 



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PARLAMENTO, PRIMEIRO MÊS: UM SUSTO

por falcao, em 22.11.19

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A NEBLINA DO REGIME - Percebe-se que há uma neblina perigosa quando uma maioria de esquerda no parlamento pretende silenciar os pequenos partidos; percebe-se que há uma neblina que desfoca o regime quando o PSD acha boa ideia passar os debates quinzenais com o primeiro-ministro a debate mensal para diminuir os incómodos e os ruídos perigosos e não expôr tanto a sua própria fraca oposição; percebe-se que a neblina passa a muro opaco quando o Presidente da Comissão de Transparência do novo parlamento, Jorge Lacão, admite que as reuniões daquele orgão decorram à porta fechada. Tudo isto se passou no Parlamento no seu primeiro mês de actividade - pode dizer-se que pelo caminho que as coisas levam a Assembleia da República está seriamente empenhada em dar uma má imagem  e em continuar a aumentar o desprestígio da função de deputado - situação que pelos vistos não desagrada aos próprios. Se juntarmos a isto a ideia deixada no ar por António Costa de que os impostos indirectos poderiam subir, que há planos de um englobamento que é apenas um eufemismo para aumento do IRS e se juntarmos as notícias sobre a continuação de dificuldade financeiras na saúde e transportes, temos uma ideia do que prometem ser estes quatro anos da legislatura agora iniciada : areia lançada à ventoinha para iludir os incautos, uma sucessão de promessas feitas em ano eleitoral que de repente entram na zona de amnésia do poder e que na realidade nunca foram anunciadas com a ideia de serem cumpridas. Chegámos ao ponto em que o engano é a arma da política e a ocultação a máscara dos políticos. O mais engraçado de tudo é que o efeito desejado - e que até aqui tem sido bem conseguido - é que aumente o desinteresse pela política para que sejam cada vez menos aqueles que votam de forma a que os eleitos sejam cada vez menos representativos e cada vez menos alvo de escrutínio.


SEMANADA - Em Portugal a sindicalização caíu de 61% para 15% em quatro décadas; há mais de 50 mil doentes à espera de serem operados para lá do prazo legal; o número de hospitais que ultrapassam os tempos máximos nas operações prioritárias ao cancro aumentou de 18 para 22; ortopedia e oftalmologia têm os piores tempos de espera para primeira consulta hospitalar; uma consulta prioritária de ortopedia chega a demorar 3,8 anos; na Guarda uma primeira consulta de cardiologia pode chegar aos cinco anos; há 21 pedreiras em situação de risco sem vedações; a mais antiga bienal de arte portuguesa, de Vila Nova de Cerveira, deixou de ser apoiada pelo Ministério da Cultura; apesar das promessas e anúncios anteriores, o Governo suspendeu 18 obras na ferrovia do Norte e Centro; os alunos da Faculdade de Letras de Lisboa queixam-se de que nas instalações universitárias há ratos e baratas; há quase 42 mil idosos a viver sózinhos ou isolados; o número de pré-avisos de greve até Outubro foi o mais alto dos últimos quatro anos, totalizando 781; desde 2008 a crise e os avanços tecnológicos eliminaram 16 mil postos de trabalho na Banca e fecharam quase dois mil balcões e foram eliminadas três mil caixas multibanco;  Bruxelas continua a incluir Portugal nas oito economias com orçamentos para 2020 que ainda apresentam risco de infringir as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

 

ARCO DA VELHA - Nos últimos dias foram feitos dois anúncios oficiais: a certeza que o pavilhão do gelo em Lisboa acontecerá nesta legislatura contrasta com o reconhecimento de que a ala pediátrica do Hospital de S. João no Porto vai ter de esperar.

 

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A FICÇÃO DA REALIDADE - Edgar Martins é um fotógrafo português que tem vivido fora do país, nomeadamente em Macau e Inglaterra e venceu o BES Photo em 2009. A sua carreira profissional passou pelo foto-jornalismo e em trabalhos publicados em vários grandes jornais, como o New York Times. Um deles provocou polémica porque o jornal entendeu que as fotografias tinham sido manipuladas - o que era verdade e o autor não negou. Edgar Martins argumentou que a manipulação não era para ocultar a realidade mas para a ultrapassar e interpretar. Hoje em dia a pós-produção das imagens fotográficas que regista e utiliza tornou-se quase regra no seu trabalho. A exposição que está na Galeria Filomena Soares é um bom exemplo deste conflito entre a realidade, a ficção e a interpretação do mundo à sua volta,  conflito que cada vez povoa mais a obra de Edgar Martins. “What Photography has in Common with an Empty Vase” é o nome da exposição que mostra um trabalho desenvolvido em colaboração com uma prisão de Birmingham, com os seus presos e respectivas famílias. No centro está a forma como Edgar Martins encara e faz coexistirem a visibilidade, a ética, a estética e a documentação. Perturbante, o trabalho reflecte o sentimento de ausência provocado por uma separação forçada e recorre à ficção para construir uma narrativa que enquadra a tese defendida pela escolha das imagens e da forma de as mostrar

 

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40 ANOS A REMAR - Os  Xutos & Pontapés começaram há 40 anos - até me arrepio a pensar nisto e a recordar-me de como os conheci numa sala de ensaios numa garagem salvo erro perto entre Belém e Algés, antes de a zona estar na moda. Nesse dia percebi que estava ali alguma coisa diferente, uma energia feita de convicção. Uns tempos mais tarde ouvi “Sémen” e tive a certeza que os referenciais da música portuguesa estavam a mudar. Muitas vezes os ouvi no Rock Rendez Vous, assisti a concertos deles  ainda antes de encherem pavilhões. Nunca saí aborrecido de um dos seus concertos, não tenho memória de me ter desiludido. Para assinalar as quatro décadas da banda foi agora organizada uma compilação, sob a forma de duplo CD, que inclui 40 faixas marcantes da carreira dos Xutos, desde o primeiro single “Sémen” até “Mar de Outono” do álbum “Duro”, editado já este ano. Pelo meio estão temas como “Remar, Remar”, “Longa Se Torna A Espera”, “O Homem do Leme”, “Não Sou O Único”, “Vida Malvada”, “Gritos Mudos”, “Para Sempre” ou o “Mundo Ao Contrário”, entre tantos outros. Ouvir o disco é imaginar os últimos 40 anos da história de Portugal - porque cada uma destas canções teve o seu lugar no tempo e não poucas vezes se relacionou com o que se passava no país. As canções estão alinhadas por ordem cronológica e incluem ainda temas como “A Minha Casinha”, “À Minha Maneira”, “Para Ti Maria” ou “Se Me Amas”, por exemplo. E continuo a ouvir tudo isto com o agrado de cruzar memórias. 

 

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CEM ANOS DE HISTÓRIAS - Quem gosta de música e seguia The Band deve ter visto “The Last Waltz”, o filme do concerto final do grupo, em 1976, realizado por Martin Scorsese. A páginas tantas no filme aparece um homem a declamar um poema, “Loud Prayer”. O homem é Lawrence Ferlinghetti, um escritor, poeta e artista plástico norte-americano que completou em Março passado 100 anos. Ele é um dos expoentes da chamada Beat Generation. Criou a editora e livraria City Lights, que publicou o célebre e polémico poema “Howl” de Allen Ginsberg e se viu envolvida numa batalha legal pela liberdade de expressão. As suas ligações a uma geração de músicos cruzam nomes como Bob Dylan, Roger McGuinn, mas também Cindy Lauper e The Residents. O poema “A Coney Island Of The Mind” é porventura a sua obra mais célebre. Este ano, coincidente com o centésimo aniversário do autor, foi publicado em Março nos Estados Unidos a novela “Little Boy”, agora editado pela Quetzal com o título “Rapazinho” na tradução portuguesa. É uma curta novela, autobiográfica, na qual Ferlinghetti revisita a sua vida, sublinhando que o único fio condutor da obra é o relato do seu envelhecimento. Mais do que um  testamento literário, o livro percorre reminiscências biográficas e profecias sobre o que podemos esperar da vida no futuro. Ferlinghetti é uma figura incontornável da cultura contemporânea nos Estados Unidos, uma referência de uma geração e neste “rapazinho” surgem referências a nomes como Jack Kerouac, William Burroughs e T.S. Elliott, entre outros. O livro percorre episódios da infância, da adolescência, da vida durante a segunda guerra, da descoberta de Paris e da forma como se estabeleceu em S. Francisco e influenciou a vida cultural da West Coast. É um pequeno livro maravilhoso, a falar do que se passou sem ser passadista e a deixar muito campo aberto à imaginação. Ferlinghetti, aos cem anos, felizmente continua provocador. 

 

PEIXINHO EM PALMELA - Farto de restaurantes com conceito e sem respeito pelo cliente resolvi visitar a nova morada de um clássico da zona de Azeitão, “O Pescador”. Anteriormente estava na zona de Brejos, agora está perto de Palmela, numa sala maior e com um nome equivalente, “Dom Pescador”. Mas à frente das operações continua o Sr. Manuel, olhar vigilante sobre as mesas, a recordar-se de clientes, mesmo antigos e pouco assíduos. Os trunfos do restaurante são o peixe muito fresco, o bom marisco e uma cozinha cuidada. O serviço é atento e mesmo com a sala cheia as coisas andam com suavidade. Um dos trunfos da casa é a qualidade de percebes e amêijoas. Os primeiros foram de aperitivo, fresquíssimos, gordos, com o mar lá dentro, no ponto certo de cozedura. As amêijoas apareceram voluptuosas, no meio de uma canja de garoupa abundante e absolutamente exemplar. Provou-se também um linguado grelhado, impecável de preparo e de frescura, com um belo feijão verde a acompanhar. Outros petiscos possíveis, dependendo do que aparece no mercado, são salmonetes fritos com arroz de berbigão e pregado frito com arroz de conquilhas. O grande aquário à entrada da sala de refeições é um jardim das delícias com lavagantes e lagostas. Mas mesmo os peixes mais simples são aqui tratados com a atenção que o mar merece. E sem manias.  Rua Dr. Bernardo Teixeira Botelho Nº7, Palmela, telefone 21 210 4641.

 

DIXIT - “ Entre aumentos do IRS "para os ricos" (vulgo classe média) e mais impostos politicamente correctos, o futuro do nosso socialismo é o de todos os socialismos: durar até acabar com o dinheiro dos outros”- José Manuel Fernandes.

 

BACK TO BASICS - “Não são os escritores de canções que mudam sociedades, a sociedade é que muda os escritores de canções” - José Mário Branco

 





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OS FEIRANTES DA POLÍTICA

por falcao, em 15.11.19

 

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ANTIGUIDADES MODERNAS - O que é o PS? O partido que primeiro nega a palavra aos deputados eleitos pelos partidos estreantes no Parlamento? O partido que depois lhes quer dar apenas um minuto como tempo para interpelarem António Costa nos debates quinzenais? Ou o partido que defende que uma autarquia que governa (Lisboa) tenha acesso aos dados privados das viaturas particulares que nela circulam? Ana Catarina Mendes, a líder parlamentar do PS, foi a voz que defendeu o silenciamento dos novos partidos no Parlamento e depois lhes quis dar um minuto de esmola, e Vasco Móra, assessor do Vereador da Mobilidade, Segurança, Economia e Inovação da Câmara Municipal de Lisboa, foi quem defendeu que a autarquia possa ter acesso a dados sobre circulação na cidade dos sistemas digitais de automóveis particulares. O PS é cada vez mais um paradoxo entre uma organização que se afirma progressista e um feudo conservador,  fechado sobre si mesmo, disposto a tudo para segurar o poder e controlar o que se diz e se faz. Quer queira, quer não queira, com pessoas como Mendes ou Móra, António Costa faz o papel de guardião do Big Brother, ou, mais prosaicamente, o papel de feirante moderno que negoceia em gadgets já desactualizados nas novas feiras de velharias. António Costa é um mestre de ilusionismo - no sentido de pretender fazer passar a ilusão pela realidade. Como se tem visto desde que é Primeiro-Ministro, o país que ele tem na cabeça faz o que ele quer, como ele quer, quando ele quer. As atitudes destes seus dois serventuários são um reflexo da cultura política vigente sob a batuta de Costa.

 

SEMANADA - As queixas dos utilizadores do novo passe Navegantes resumem-se assim: os transportes públicos não estavam preparados para receber mais utilizadores, estão cheios, os atrasos são constantes e os equipamentos são velhos; as autoridades detectam uma média de 20 pessoas por dia a conduzir sem carta; três em cada quatro portugueses usam o telemóvel enquanto conduzem; 10% dos portugueses não têm qualquer dente e mais de 30% dos portugueses não vão ao dentista ou só vão em caso de urgência, alegando não ter capacidade financeira; a pneumonia é a segunda causa de morte em Portugal; entre janeiro e junho deste ano foram trocadas mais 246 mil seringas para drogas do que em igual período do ano passado; até final de outubro foram concedidas cerca de 11 mil autorizações de residência a estrangeiros, mais 18% que em igual período do ano passado; entre 2005 e 2013 a Câmara Municipal de Santa Comba Dão pagou cerca de 700 mil euros por obras que não foram feitas; as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto concentravam, em 2017, mais de metade (52%) do poder de compra do país e representam 44% da população portuguesa; o PAN quer estender a taxa de carbono à produção de carne; quase 600 médicos  ficaram sem acesso à especialidade este ano; cerca de 53 mil toneladas de matérias perigosas, entre as quais amianto, foram importadas para Portugal entre 2016 e 2017.

 

ARCO DA VELHA  - Nas Forças Armadas há mais índios que setas: segundo o Ministério da Defesa em 2018 havia 11 369 praças para 8738 sargentos e 6905 oficiais (num total de 15 643). 

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ARTE AO FIM DE SEMANA - De 15 a 17 decorre a primeira edição do Lisbon Art Weekend em duas dezenas de galerias privadas e espaços públicos de exposição que estarão abertos todo o fim de semana e centrados na arte contemporânea. Nalguns casos há programas especiais (como uma visita guiada por Filomena Molder na exposição de Rui Sanches, na Cordoaria,  sábado pelas 17h00). O programa pode ser consultado no facebook e em lisbonartweekend.com . Os espaços aderentes são  Balcony Gallery, Carlos Carvalho Contemporary Art, Carpintarias de São Lázaro, 3+1 Arte Contemporânea, AZAN, Bruno Múrias, Casa dell’Arte Lisbon, Galeria 111, Galeria Belo-Galsterer, Galeria Cristina Guerra, Galeria Foco, Galeria Francisco Fino, Galeria Graça Brandão, Galeria Vera Cortês, Galerias Municipais/Galeria do Torreão Nascente da Cordoaria, Madragoa, MONITOR Lisbon, Pedro Cera e Underdogs Gallery. Outros destaques: na Fundação Gulbenkian duas novas exposições merecem visita. “Art On Display, Formas de Expôr 1949-1969” assinala os 50 anos do Museu Gulbenkian e tem como ponto de partida as soluções expositivas pensadas para a sua abertura em 1969 e permite percorrer diversas formas de olhar e de apresentar obras de arte.  A outra exposição da Gulbenkian é “Call To Action - Abril em Portugal” que reúne peças desenhadas por Robin Fior entre as décadas de 60 e 80 para projectos social e politicamente comprometidos. Fior chegou a Portugal em 1973 e por cá se manteve desenvolvendo uma obra de designer gráfico que agora é mostrada pela primeira vez. 

 

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ROUBADOS E BEM CANTADOS - No ano em que celebra 25 anos de carreira Aldina Duarte foi buscar repertório alheio - vários fados mas nenhum dos fados tradicionais, nenhum escrito por si ou para si ao contrário do que tem sido hábito. Aqui estão 12 temas, do “Vendaval” de Tony de Matos a “Rosa Enjeitada” (em dueto com António Zambujo), passando por “Senhora da Nazaré” (de João Nobre), “Porta Maldita” (de Maria da Fé), “Ouça Lá Ó Senhor Vinho” (de Alberto Janes), “Veio A Saudade” (de Beatriz da Conceição) ou “Arraial” (de João Ferreira Rosa).  Por isso mesmo deu a este novo álbum o título de “Roubados” e, para a capa, foi buscar ao baú uma fotografia sua com 21 anos, idade em que se encantou pelo Fado. Aldina Duarte assegurou arranjos e produção musical. As doze músicas que escolheu estão entre as que considera das mais belas de sempre na história da música portuguesa e do fado e a opção foi fazer versões bem diferentes dos originais - muitas vezes levando a sua voz até ao limite, como acontece logo em “Vendaval”, o primeiro tema do disco que tem uma interpretação arrebatadora. Aldina é acompanhada por Paulo Parreira na guitarra portuguesa e Rogério Ferreira na viola.  O CD inclui um portfolio fotográfico de Alfredo Cunha que mostra o trabalho efectuado em estúdio na gravação destas versões. E, como pano de fundo, sempre a voz de Aldina, a sua forma de cantar, a sentir cada palavra que diz.

 

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A HISTÓRIA DA MARQUESA FUTURISTA - A mais recente edição da revista ”Electra” reflecte sobre o crescimento dos movimentos em defesa dos animais com várias colaborações onde se destaca o ensaio sobre a divisão entre o Humano e o Animal pelo professor de neurologia Massimo Filippi. Outro dos temas deste sétimo número da revista editada pela Fundação EDP, e que a partir de agora passa também a ser distribuída no Brasil,  tem a ver com o culto do património e o seu uso político, tendo por base a destruição parcial da catedral de Notre Dame, através das visões de Salvatore Settis, arqueólogo e historiador, Carlo Pùlisci, historiador de arte, e Pedro Levi Bismarck, arquitecto e investigador cujos três ensaios convivem com imagens da Catedral, do fotógrafo André Cepeda. A figura em destaque nesta edição é Luisa Casati, a “marquesa futurista” - como lhe chamou o poeta italiano Marinetti – que adivinhou as atitudes artísticas e culturais do século XX e XXI e cuja fascinante história José Manuel dos Santos conta num belíssimo texto. O portfolio é da autoria da artista holandesa Magali Reus conhecida sobretudo pelo seu trabalho na área da escultura e que aqui apresenta a sua primeira incursão pela fotografia com mais de uma dezena de fotografias sobre o percurso das flores. A entrevista que abre este número é com Hisham Mayet, cineasta, músico, investigador e fundador da editora Sublime Frequencies, em conversa com André Príncipe e José Pedro Cortes que acompanham com um ensaio visual a narrativa, fruto de uma semana em Tânger. Finalmente destaque ainda para um bom texto da historiadora de arte Helena de Freitas sobre duas mulheres artistas, Dora Maar e Berthe Morrison.

 

O PÉSSIMO FAZ FRIO  - Passear hoje em dia no Princípe Real é andar por uma feira de diversões onde a maioria dos restaurantes são feitos para os visitantes estrangeiros, sem preocupações de cativar clientes portugueses que queiram voltar. Alguns destes restaurantes não aceitam reservas e estão no seu direito - não querem correr o risco de atrasos ou faltas e querem manter as mesas disponíveis para quem fôr chegando. Gostam aliás de ter filas à porta, preferem clientes acidentais a clientes regulares. Mas o que nunca me tinha acontecido foi chegar a um restaurante que não aceita reservas, pedir uma mesa para seis pessoas, que me foi dada como disponível e indicada, e sermos impedidos de nela nos sentarmos (estávamos duas pessoas a aguardar a chegada das outras quatro e tínhamos ido mais cedo para “segurar” mesa). O empregado disse que era norma do restaurante só sentar as pessoas se estivessem pelo menos quatro. Quando protestei e questionei o sentido de tal indicação respondeu-me que essa é a política do restaurante. Quando de novo tentei argumentar apareceu um ser, que soube depois ser o dono do local, que se meteu na conversa de forma rude e malcriada, na prática a querer que nos fôssemos embora - como bom burocrata disse que ali era assim e não havia mais conversa - eu tinha a minha opinião, ele tinha a dele (e ficou a rir-se orgulhoso do seu feito). Obviamente saí do restaurante em causa, o antigo Faz Frio, na D.Pedro V junto ao Príncipe Real, outrora uma casa acolhedora, hoje um lugar a evitar. Do antigo mantiveram se as paredes mas perdeu-se a simplicidade e o bom acolhimento. Agora, no Faz Frio, o cliente é gado na fila do matadouro às ordens das regras do proprietário, Jorge Marques, uma pessoa arrogante sem a menor consideração pelas observações dos clientes. Uma breve nota que postei no Facebook sobre este assunto gerou dezenas de observações e vários comentários a denunciar a falta de qualidade da comida e o mau serviço. Evitem dar dinheiro a está gente, o repúdio e a melhor solução. Quem não tem competência não se devia estabelecer - é o caso de quem manda no Faz Frio.

 

 DIXIT - “A própria existência humana tem impacte ambiental” - afirmação do secretário de estado  João Galamba a propósito dos receios de problemas ambientais causados pela exploração de minas de lítio em Boticas.

 

BACK TO BASICS - “Nunca andes pelo caminho traçado. Ele conduz apenas até onde os outros já foram” – Alexander Graham Bell.

 

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A POLÍTICA DA IMPOSIÇÃO DA OPINIÃO

por falcao, em 08.11.19

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OS NOVOS DITADORES - Desde há alguns anos começou a proliferar um conjunto de ideias, aparentemente bondosas, supostamente novas, apresentadas de forma impositiva e que, com o correr do tempo, se enquadraram em mecanismos de acção totalitários. Muitas vezes enfeitam-se sob bandeiras de uma ideologia que se apresenta como sendo de esquerda, como se isso fosse um argumento de pureza e virtude. Esquecem-se os seus propagandistas que algumas das mais cruéis ditaduras do século XX assumiam-se sob o mesmo manto diáfano dessa esquerda, usando na propaganda a igualdade, a liberdade, a defesa de ideais anti-colonialistas, o combate ao desenvolvimento desenfreado e às desigualdades. Como hoje já é patente dois dos mais aguerridos blocos desse passado transformaram-se em regimes onde a corrupção é galopante, a exploração acentuada, o desrespeito pela protecção da natureza é inexistente, o domínio de outras geografias uma obsessão e onde as diferenças sociais são gritantes. Em Portugal o casulo destas ideias começou com o Bloco de Esquerda e organizações satélite, alargou-se para diversas áreas e acabou por ganhar presença parlamentar. Em comum os seus agentes têm o facto de não aceitarem ideias e princípios que não os seus e o de serem crescentemente intolerantes para quem não alinha no seu programa. São organizações que pretendem condicionar o funcionamento da sociedade e impôr as suas opiniões. No fundo são tão totalitários como os fascistas de meados do século XX. Em nome dos seus ideais querem que todos lhes obedeçam. Não admitem a diferença e combatem quem os critica e denuncia. Mascaram-se de politicamente correctos quando são velhos de pensamento e intolerantes de acção. Parecem modernos mas são antigos - antigos, confusos e perigosos. Hoje já os vemos a sair do casulo, dentro em breve começarão a denunciar os que consideram infiéis. Tenho muito claro que a minha liberdade acaba onde começa a do outro. Não quero impôr o que sou e não quero que me imponham o que outros acham que devo ser. 

 

SEMANADA - Segundo a Marktest 2,8 milhões de portugueses possuem ou beneficiam de seguro de saúde, o valor mais elevado dos últimos 16 anos e que equivale a cerca de 30% da população; segundo o INE há 4,5 milhões de pessoas a viver nas 159 cidades portuguesas, o que equivale a 43,4% da população em centros urbanos; um mês depois de finalizada a campanha eleitoral das legislativas continuam na rua a maior parte dos cartazes dos partidos concorrentes; dos 228 deputados eleitos há um mês, 28 já não estão no parlamento por assumirem outras funções; a proposta orçamental da Comissão Europeia prevê que a contribuição de Portugal para a União aumente enquanto os fundos para o país sofrem um corte de 7%; um em cada cinco trabalhadores ganha o salário mínimo; o Tribunal de Contas chumbou a empresa escolhida pela Autoridade Nacional da Aviação Civil para fazer o registo e controlo de drones por suspeitar que a escolhida para este contrato de 1,7 milhões de euros não tem comprovada experiência na área que devia executar; um grupo de especialistas alertou para o facto de Portugal não estar a conseguir avaliar a quantidade e a qualidade dos caudais dos rios que vêm de Espanha; a ameaça de falências volta a crescer no metal, têxtil e calçado e desde janeiro existem 238 empresas da indústria têxtil e da moda que estão em tribunal com processos de insolvência mais 42% face ao período homólogo do ano passado.

 

ARCO DA VELHA -  Durante o seu recente interrogatório pelo juiz Ivo Rosa José Sócrates disse que nunca tinha lido a acusação formulada contra ele.

 

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VENTO DE LESTE - No Museu Berardo inaugurou esta semana a exposição “(Des)construção da Memória”  de Guilherme Ung Vai Meng e Chan Hin Io, que assinam como colectivo YiiMa, e que integra fotografias, vídeos, instalação e performances. Nesta mostra, que  inclui meia centena de obras de grande formato os artistas viajam através da Memória de Macau, dando-lhe um significado inteiramente novo (na imagem). A exposição, com curadoria de João Miguel Barros, é organizada por ocasião dos 20 anos de transferência de soberania de Macau para a RP China e dos 40 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e a RP China.  O outro destaque da semana vai para “Estratégia da Aranha - teias e tramas”, de Teresa Segurado Pavão, que está na Casa/Atelier de Vieira da Silva, integrada na  fundação Arpad Szenes Vieira da Silva. A exposição mostra, através de uma multiplicidade de materiais, a ligação entre o trabalho de Teresa Segurado Pavão e a própria origem industrial do local, que fazia parte da Fábrica de Seda antes de ser o espaço de trabalho de Vieira da Silva. A exposição fica patente até 5 de Janeiro de 2020 e pode ser visitada no horário do Museu, sempre que solicitado na recepção. Às quartas-feiras das 15h00 às 17h30 poderá contar com a presença da artista na Casa-atelier. Finalmente, em Coimbra decorre até 29 de Dezembro a bienal de Coimbra, numa dezena de espaços da cidade com trabalhos de quatro dezenas de artistas de diversas nacionalidades e que este ano tem curadoria do brasileiro Agnaldo Farias. 

 

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RÁDIO BYRNE - David Byrne, o fundador dos Talking Heads, continua em grande forma como o seu álbum do ano passado “American Utopia”, e a correspondente  digressão mostraram. Uma das suas facetas que ganhou notoriedade nos anos mais recentes é o trabalho de recolha e divulgação de artistas, canções e músicas de diversos géneros, desde a world music ao pop experimental e ao apoio a artistas como St.Vincent. Nesta área um dos seus trabalhos mais interessantes é a David Byrne Radio, que pode ser ouvida na sua página pessoal (davidbyrne.com) ou na aplicação Mixcloud que tem uma área própria para a rádio de Byrne. Os novos programas aparecem pontualmente no início de cada mês, no dia 1. Em Setembro e Outubro foi a vez de grandes compositores de bandas sonoras de filmes, respectivamente Nino Rota e Bernard Herrmann. Nino Rota trabalhou com Fellini, para outros realizadores italianos e compôs o tema original de “O Padrinho”. Já Herrmann  trabalhou com Hitchcock -são dele os violinos de “Psycho” e a música de “North By Northwest” - e foi também o responsável pela banda sonora de “Twilight Zone” e de “Taxi Driver”. A selecção de Novembro é dedicada ao Indie Pop e inclui 18 temas de artistas como Stolen Jars, Hobo Johnson, Speedway, os próprios Talking Heads, mas também Bon Iver ou Billie Eilish, além de Vagabon, Michael Kiwanuka ou Jamila Woods entre outros. Assim é fácil descobrir a música de que David Byrne mais gosta.

 

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DEFENDER A LÍNGUA - Esta é uma história formidável: “Assim Nasceu Uma Língua - Sobre as Origens do Português” - trata-se de um livro escrito pelo linguista Fernando Venâncio. O autor começa nos primórdios da nossa língua, que remonta há séculos, tão distantes que Portugal ainda nem existia, passando pelos primeiros escritos, até à fala contemporânea que ainda hoje conserva registos, dessa movimentação primordial. É uma aventura que começa nas terras do norte, onde ao lado do galego nasceu a língua portuguesa e que a certa altura saltou os mares e ganhou novas formas em África e no Brasil. Formado em Linguística Geral e docente de língua e cultura portuguesas nas universidades holandesas de Nimega, Utreque e Amsterdão,  Fernando Venâncio, nasceu em Mértola, em 1944. Neste “Assim Nasceu uma Língua”, há espaço para críticas mordazes a todos os que querem «um idioma passadinho a ferro, lindo para encaixilhar», negacionistas da língua como um sistema vivo e, por isso, mutável. Para Fernando Venâncio, o português é um «idioma em circuito aberto», e falar da sua história é falar das origens, influências, elasticidade e ainda das derivações que resultaram, por exemplo, no português do Brasil. Do famigerado Acordo Ortográfico de 1990, o professor Fernando Venâncio garante que foi, no mundo real, um devaneio inútil e dispendioso. Uma edição da Guerra & Paz, um livro que o seu editor, Manuel S. Fonseca, define asim: “Belíssimo e de um humor que beija a inteligência”.

 

COZINHA ORIGINAL - Mesmo em frente à casa Fernando Pessoa está o restaurante Bicho Mau, uma ideia de Rita Gama e Tomás Rocha após vários anos a trabalharem em outros restaurantes dentro e fora de Portugal. Ambos comandam a cozinha e desenham os menus que mudam com frequência, de acordo com as estações e apoiam-se em pequenos produtores e produtos sazonais. As doses são feitas a pensar em experimentar sabores e partilhar diversos pratos. No couvert vem bom pão, manteiga de ovelha e rillettes de pato. O menu é contido na diversidade mas oferece boas possibilidades de escolha quer de peixe, quer de carne. Numa recente visita experimentaram-se umas lulas de anzol com pinhão e eucalipto e um peixe branco fumado. Ficou-me a apetecer experimentar um pastrami de porco sobre brioche e disseram-me que brevemente surgiriam novas propostas na carta como cabeça de xara e pézinhos de coentrada, iguarias que provocam sempre polémica sobre o gosto pessoal dos convivas. Na mesa do lado dava nas vistas uma massa fresca com marisco e manteiga fumada e, para quem quiser, há um curioso petisco de lavagante com camarão e ovo. Para terminar, nos doces,  destacou-se as farófias com fruta e manjericão. Nas bebidas há cocktails, moscatel roxo e propostas de vinhos brancos e tintos nacionais e estrangeiros - uma selecção curta mas cuidada. A sala é pequena, com uma decoração criativa e muito simpática, o serviço é atencioso e eficaz. Um local a repetir, coisa que cada vez é mais difícil de dizer em relação a novos restaurantes. O Bichomau fica em Campo de Ourique, na Rua Coelho da Rocha 21A, com o telefone 211 608 694.

 

DIXIT - “O caso da deputada do Livre (...) é ilustrativo da tendência anedótica que parece querer dominar a cena parlamentar saída das últimas legislativas” - Vicente Jorge Silva.

 

BACK TO BASICS - “Quem pensa pouco, erra muito” - Leonardo da Vinci




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AS FAKE NEWS DO LIVRE - Esta semana um novo produtor de fake news deu nas vistas e mostrou aquilo de que é feito. Para falar claro, refiro-me ao partido Livre, recém -eleito para a Assembleia da República. A minha acusação de que fomenta fake news é aliás branda - na realidade o Livre esta semana espalhou mentiras, mostrou ignorância e desrespeitou a História. Comecemos pelo que a deputada eleita, Joacine Katar Moreira disse sobre o Parlamento. Com pouca humildade e bastante arrogância proclamou-se uma novidade no Parlamento por ser mulher, mãe e divorciada, ignorando todas as anteriores deputadas que tinham o mesmo enquadramento - uma delas chegou aliás a ser Presidente da Assembleia da República, eleita pelos seus pares, e nunca se gabou das suas circunstâncias. Acusou também a Assembleia de ser um local elitista, esquecendo todos os deputados que desde a Constituinte de 1975 foram eleitos, independentemente da profissão, muitos deles operários e trabalhadores de diversas áreas de actividade, e ignorou a génese do próprio processo eleitoral democrático que a levou onde agora está. Estamos portanto elucidados sobre o que a deputada do Livre conhece da História Parlamentar portuguesa e da forma como pretende que  os factos sejam manipulados - a seu bel prazer, como melhor lhe convier. Antes destas suas declarações, numa manifestação promovida pelo Livre para a apoiar frente ao edifício do Parlamento, um dos oradores fez uma descrição de Portugal com afirmações que manipulam a História, nomeadamente da época dos Descobrimentos, e alteram factos para que as teorias do partido se consigam encaixar. Chegou a referir-se à bandeira nacional dizendo falsidades sobre o significado dos seus símbolos, mais uma vez para que a verdade do Livre se sobreponha à verdade dos factos. Se acham que o perigo vem só do Chega, desenganem-se: em matéria de fazedor de fake news e manipulador de factos o Livre promete.

 

SEMANADA - O Ministério Público já recorreu de cinco decisões de Ivo Rosa no caso Sócrates e os advogados de defesa não contestaram qualquer despacho do mesmo juiz sobre o caso; o juiz Ivo Rosa impediu jornalistas que se tinham constituído assistentes do processo de presenciarem o interrogatório que fez esta semana a José Sócrates; o juiz Ivo Rosa ameaçou apreender os telemóveis dos advogados que assistem ao interrogatório a Sócrates para que não comuniquem com o exterior; Ivo Rosa era o juiz que Sócrates desejava na instrução do seu processo; Sócrates nega todas as acusações e na maior parte dos casos diz que nada sabia dos factos que lhe são imputados durante o tempo em que foi Primeiro  Ministro; desapareceram os documentos com as actas das negociações entre Portugal e a Venezuela, negociações feitas por iniciativa de José Sócrates e Hugo Chávez; a segurança social encerra uma média de dez lares ilegais por mês e há 35 mil idosos a viver em instalações à margem da lei; o Tribunal de Contas acusou a gestão do PCP na Câmara de Almada de ter feito despesas ilegais; um terço dos futebolistas profissionais portugueses não concluíu o ensino obrigatório; em 2018 as importações aumentaram mais que as exportações; o homicida da freira morta em São João da Madeira foi considerado irrecuperável antes de sair da cadeia mas nem as suas vítimas nem a PSP foram avisadas da libertação; os chefes de equipas de urgência do hospital Garcia de Orta, em Almada, pediram ajuda à Ordem dos Médicos por não terem condições para assegurar a segurança no tratamento de doentes.

 

ARCO DA VELHA -  A empresa Águas do Norte tem 21 processos de multas por descargas poluidoras em rios.

 

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UMA GALERIA SETUBALENSE - Em Setúbal há uma galeria, na parte antiga da cidade, que vale a pena conhecer e que tem feito o seu percurso sobretudo em torno da fotografia - bem recentemente acolheu trabalhos de Alberto Picco. Agora no entanto enveredou por um novo caminho através da conjugação de duas instalações concebidas especialmente para a galeria com fotografias e desenhos de Rosanna Helena Bach e Nuno Moreira. Intitulada “The Nature Of This Room”, a exposição tem curadoria de Sofia Steinvorth. Na inauguração foi também apresentado a publicação homónima - The Nature of this Room - composta por um conjunto de imagens, principalmente fotografias e desenhos, assim como  fragmentos de texto que mostram parte do processo que os artistas percorreram e que está na génese deste projecto. Rosannna Helena Bach  é uma artista Suiça actualmente sediada em Lisboa que utiliza a gravura e instalação e é formada em Documentário e Fotojornalismo pelo Centro Internacional de Fotografia de Nova York.  Nuno Moreira (na imagem o seu trabalho “Geometries of Silence”) expõe regularmente desde 2006, em mostras individuais e colectivas, em Portugal e no estrangeiro e é formado em Cinema, especializando-se em design editorial com foco principal na concepção de livros. Passando para outras sugestões recomendo uma visita à Galeria Underdogs (Rua Fernando Palha armazém 56, a Marvila), onde até 16 de Novembro estão duas interessantes exposições:  ”And now for something completely different: a show that features at least one female artist”,  exposição individual da artista Wasted Rita e El Cabaret del mundo exposição individual de Carlos Guerreiro.

 

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O FASCÍNIO DAS BANDAS SONORAS - Enquanto via os seis episódios da quinta temporada da série “Peaky Blinders” dei comigo várias vezes a procurar na aplicação Shazam qual seria a canção e o intérprete que ali passava - não precisei da aplicação para identificar os acordes de guitarra de Anna Calvi, mas nalguns momentos tive mesmo que ir à pesca para descobrir o que estava a ouvir . Ao todo até agora lá estão 199 canções que pontuam momentos, adensam o ambiente. É impressionante como uma série passada na primeira metade do século passado convive de forma tão perfeita com canções e autores contemporâneos. Pode ter uma boa ideia de tudo o que lá se ouve na playlist disponível no Spotify e que permite ouvir todas as duas centenas de canções da série. E em Novembro está para sair um duplo CD que inclui 40 dos mais célebres temas, entre eles canções de Nick Cave and the Bad Seeds , Radiohead, Jack White, Queens of the Stone Age, PJ Harvey, Arctic Monkeys e Black Sabbath, entre outros. Antony Genn, um ex-Pulp, que foi um dos produtores da banda sonora da série, disse numa recente entrevista que para ele os Radiohead são quem musicalmente mais tem a ver com a personagem principal, Tom Shelby - pela capacidade de evolução e adaptação à mudança, desde o início da vida como gangster até se dedicar à política e ser eleito para a Câmara dos Comuns. Na quinta temporada Anna Calvi, cuja guitarra e canções foram extensamente utilizadas ao longo da série, compôs alguns fragmentos originais, que acentuam a acção com a forma única como utiliza a guitarra. Se a série é magnífica a sua banda sonora não o é menos. Ora vão lá à procura dela no Spotify.

 

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O ENCANTO DO DESERTO - Nas primeiras páginas está esta frase: “Talvez só ame o conceito de deserto, e talvez o ame porque quero ser como ele. Amo o deserto por que é o lugar da possibilidade absoluta: o lugar em que o horizonte tem a amplitude que o homem merece e de que necessita. O deserto, essa metáfora do infinito”. Estas palavras foram escritas por  Pablo d’Ors, um escritor e sacerdote católico espanhol que em 2015 foi nomeado para o Conselho Pontifício da Cultura pelo papa Francisco. O seu livro “O Amigo do Deserto”, agora editado pela Quetzal, recolhe os seus pensamentos e está escrito como uma aventura casual, que se iniciou pela busca de um académico que tinha dedicado boa parte da sua vida a viajar por muitos desertos do planeta e que tinha fundado a associação Amigos do Deserto. O livro descreve a odisseia de Pavel, personagem principal do livro, que está obcecado em encontrar os membros da associação Amigos do Deserto. Pavel é obrigado a mudar o rumo da sua vida devido a uma série de circunstâncias. Primeiro com amigos, depois só, leva a cabo viagens pelo Saara, adentrando-se no deserto. O livro é na realidade sobre o silêncio, a contemplação e a busca do absoluto. Está escrito como uma aventura que salta de descoberta em descoberta, numa narrativa empolgante. Sendo um livro que tem por pano de fundo uma questão filosófica a acção anda sempre a par com o pensamento e é isso que o torna fascinante.

 

A ALMA DA COMIDA -  Todas as semanas abrem novos restaurantes, com mais ou menos pretensões. No centro de Lisboa e Porto abrem maioritariamente restaurantes que dizem ter uma ideia nascida de um conceito. Uma boa parte deles encerra as portas ao fim de pouco tempo. Má ideia ou conceito duvidoso? Pode ser que a ideia até não fosse a melhor - mas quanto a mim a principal questão que motiva tantos encerramentos de restaurantes recentes é a falta de alma: falta de alma na cozinha e sobretudo falta de alma na sala. Há modestíssimos restaurantes onde se sente a alma em todos os momentos - a alma não é uma questão do preço médio da conta no fim da refeição, é algo que tem a ver com a noção de bom serviço. Um bom serviço no restaurante começa na escolha e compra dos ingredientes, passa pelo apuro da cozinha e termina no conforto da sala e na forma como os clientes são atendidos. Uma coisa que me aflige é empregados com o olhar perdido no horizonte, que não estão atentos às mesas e que não notam quando um cliente está a tentar chamá-los, quando o copo de vinho ficou vazio e a garrafa que o cliente comprou está longe. Hoje em dia cada vez valorizo mais o serviço - a atenção, a disponibilidade para aceitar sugestões ou pedidos menos vulgares dos clientes, a cumplicidade de conseguir que visitar um restaurante seja um momento de descontracção, que se pretende decorra com boa disposição. Lisboa, infelizmente, está a ficar cheia de lugares que se pretendem sofisticados e que no fundo não têm sofisticação nenhuma. Gosto dos restaurantes simples onde o objectivo do restaurador é conseguir que o cliente repita a visita e se torne freguês habitual em vez de um experimentador que saltita de novidade em novidade.

 

DIXIT - “Os populismos nascem da ausência de resposta aos problemas reais” - João Cotrim de Figueiredo, deputado da Iniciativa Liberal.

 

BACK TO BASICS - “É o espírito, e não a forma da Lei, que mantém viva a Justiça” - Earl Warren.

 





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LIÇÕES DO BREXIT - Há dias vi o filme “Brexit - The Uncivil War”, uma produção feita para a HBO e que se centra na campanha do referendo de 2016 sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. O filme foca-se na figura de Dominic Cummings, o estratega da campanha pela saída e que Boris Johnson nomeou seu assessor político especial quando foi nomeado  primeiro-ministro. Já que estamos em mais um episódio de suspense do Brexit convém recordar qual foi uma das ideias fortes utilizadas por Cummings na campanha: a de que a União Europeia era a causadora dos problemas do sistema de saúde britânico devido a razões financeiras. No fundo o que Cummings fez ao criar o slogan “Let’s Take Back Control” foi dar voz ao descontentamento crescente com a ingerência de Bruxelas. As recentes eleições legislativas trouxeram sinais claros de que existe um desagrado crescente em Portugal, fruto dos cortes efectuados, da sensação de que o dinheiro está a ser mal empregue e as prioridades mal definidas. O PS foi o claro vencedor e a perda da geringonça foi um dano colateral. Mas o surgimento de novos partidos na Assembleia da República é o sinal de que há quem comece a desacreditar do sistema partidário tradicional. Por mais que António Costa faça de Mandrake e promova truques de ilusionismo, a verdade é que a austeridade de Centeno trouxe-nos a benção europeia mas criou problemas mais graves na saúde, na justiça, na segurança e aumentou a carga fiscal. Este é na essência o cocktail explosivo de que se alimenta a contestação ao regime e onde florescem os inimigos da Democracia. São os partidos do poder, e o PS e o PSD em especial, quem aduba esta colheita de descontentamento. Todos os partidos começam por ser pequenos, todos os que querem mudar o regime começam por ser minoritários. A maneira de evitar ervas daninhas como o Chega é não lhes dar pretextos.

SEMANADA - Foi desmantelada uma rede que furtava retro-escavadoras em França sob encomenda de empresas portuguesas que usam esse equipamento; no ano passado em Portugal registaram-se 3700 mortes devido às baixas temperaturas, mas não se conhecem o número de pessoas em Portugal em pobreza energética sem possibilidade de aquecerem as suas casas; o endividamento da economia portuguesa subiu para 724 mil milhões de euros em Agosto, depois de ter estado dois meses a descer; mais de 30 organismos públicos foram vítimas de ataques de hackers durante este ano; a poluição no Rio Douro está acima do limite há mais de 30 anos; segundo  a Universidade Nova, na zona da Grande Lisboa, adquirir habitação leva 58% do rendimento das famílias; Portugal é o terceiro país europeu com menos crianças e jovens até aos 15 anos; segundo a agência de rating Moody, num total de 12 países europeus analisados, Portugal está entre os cinco que enfrentarão maiores dificuldades de crescimento económico decorrentes do envelhecimento da população; a maioria dos secretários de estado do novo Governo não tem qualquer experiência no sector privado da economia; segundo a Pordata Lisboa, Albufeira e Porto são os três locais do país onde se fazem em média e por pessoa mais compras por multibanco; a Comissão Europeia apontou duas falhas no plano orçamental português para 2020: deterioração no défice estrutural e subida da despesa pública acima do recomendado;  a entidade reguladora do sector da saúde tem 30 fiscais para 30 mil unidades que deve fiscalizar.

 

ARCO DA VELHA - Há oito mil pedidos de reforma pendentes na Caixa Geral de Aposentações, alguns em espera há mais de 300 dias.

 

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AO AR LIVRE E DENTRO DE PORTAS - Este é o fim de semana da Lisbon Week, que entre 26 e 3 de Outubro se dedica a dar a conhecer os segredos da zona da Ajuda. Todas as informações podem ser seguidas em lisbonweek.com . Sábado é a inauguração com uma festa no Jardim Botânico da Ajuda, que inclui uma festa barroca e um sunset. Festas à parte esta é a oportunidade de ver alguns segredos da zona, como a cúpula da Igreja da Memória e algumas zonas habitualmente não abertas ao público do Palácio da Ajuda, onde aliás decorre a exposição “Apocalipse” de Valentim Quaresma. Há também uma exposição baseada nas caras de moradores da Ajuda, mais 250 fotografias realizadas a outras tantas pessoas, e que estará visível ao ar livre a toda a gente numa instalação de arte urbana precisamente na Rua Professor Cid dos Santos. O outro destaque vai para o Imago Lisbon Photo Festival decorre até 17 de Novembro e tem um conjunto de exposições que vale a pena descobrir, com destaque para “Construir Pontes”, com fotografias de Augusto Brázio, Luísa Ferreira,Pedro Letria e São Trindade, que está no Museu da Água. Nas Carpintarias de São Lázaro está “Novas Visões na Fotografia Contemporânea” com imagens de Demetris Koilalous, Filippo Zambon, Jon Cazenave, Jonathan Llense, Katrien de Blauwer, Laurence Rasti, Liza Ambrossio, Malú Cabellos, Melanie Walker, Nydia Blas, Shen Chao-Liang, Virginie Rebetez: E no Convento da Graça está Master Show, de Pentti Sammallahti (na imagem). Todas as informações em imagolisboa.pt .

 

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A IMPORTÂNCIA DA REINVENÇÃO - A  “Monocle” está de novo a atravessar um bom momento. Criou no mês passado uma nova publicação, um anuário, desta vez o “Entrepreneurs”, uma evolução do programa que já existia na rádio online da revista. O novo anuário, que se junta ao “Forecast”, a “The Escapist” e ao “Drinking And Dining Directory”, é dedicado a quem procura inspiração e conselhos para dinamizar um negócio ou criar uma empresa. A revista edita ainda uma série de guias de cidades (há um de Lisboa) e várias edições em formato jornal e mais uns quantos livros temáticos. Se conjugarmos estas publicações com os videos disponíveis no site - mini-documentários sobre uma série de assuntos - e com a rádio online ficamos com uma ideia do que é uma empresa de mídia nascida na época digital e que a aproveita bem, mas que baseou o seu negócio (e reconhecimento e notoriedade) nas edições em papel e num modelo de conteúdos patrocinados que tem tido sucesso. Mas voltemos à edição de Novembro, já disponível. O destaque para a edição vai para o design - desde objectos a escritórios, passando é claro pela habitação. Mas há muito mais para ler. Nos negócios a história como a Levi’s se reinventou é deliciosa e não menos interessante é a forma como uma das maiores cadeias de livrarias do mundo, a norte-americana Barnes & Nobles, está a lutar pela existência com a ajuda de James Daunt, um inglês que depois de ter criado a sua própria pequena livraria em Londres obteve tanto êxito que foi chamado a recuperar a cadeia inglesa Waterstones e, agora, a salvar a Barnes & Nobles. Outro artigo muito interessante é o que relata a criação de um hub de galerias de arte que levou algumas das mais prestigiadas de Paris a mudar do centro da cidade para Romainville, uma antiga área industrial agora em reconversão nos arredores da capital francesa. Aí conseguem mais espaço por menos preço, além de um conjunto de sinergias como por exemplo na inauguração de exposições. Tudo isto estimulado por uma autarquia que aposta em que a presença destas galerias vai valorizar e reposicionar a área que está em reconversão, um pouco como há uns anos aconteceu em Berlim.  Vale bem a pena este número da “Monocle”.

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BELAS CANÇÕES - Ora aqui está o primeiro álbum dos Wilco desde 2016, “Ode To Joy”, uma belíssima colecção de canções - simples, muitas com a guitarra acústica bem presente e ritmos marcados. Jeff Tweedy, o líder do grupo parece em grande forma depois de nos últimos tempos ter feito três discos a solo e retoma aqui o prazer de trabalhar com a sua banda, que não sofre alterações desde há mais de uma década e que tem uma história de quase 25 anos e 11 discos de estúdio gravados. O escritor George Saunders escreveu em tempos que Tweedy era um “grande poeta americano que misturava consolo com  ironia”. Entre as 11 faixas destaque para canções como “Love Is Everywhere”, “We Were Lucky”, “Everyone Hides” ou “Hold Me Anyway”. Na verdade o disco desenrola-se em crescendo, começa por canções, digamos, mais austeras e vai abrindo aos poucos as portas de um universo de melodias descomplicadas, muitas influenciadas pela melhor tradição popular, que vem da folk. O mais engraçado é que depois por incursões em zona do rock experimental, e do pop, este “Ode To Joy” retoma sonoridades básicas e é um elogio da simplicidade. Destaque para o trabalho do baterista Glenn Kotche, o guitarrista Nels Cline e as palavras e voz de Tweedy. Edição Rough Trade, disponível no Spotify.

 

PETISCOS COM COELHO - Tenho na memória um coelho à caçador que se fazia em casa da minha avó e que era um petisco suculento. Sabe-se lá porquê e com o andar dos anos tornou-se mais difícil comer coelho - não aparecia nas ementas dos restaurantes nem nos supermercados. De há um ano a esta parte no entanto a coisa começou a mudar e está em curso uma campanha, apoiada pela União Europeia, que visa exactamente promover o consumo da carne de coelho, que faz parte das tradições de países como Portugal, Espanha, França e Itália e que são os seus maiores consumidores e produtores - muitas vezes em criação doméstica. Segundo os nutricionistas a carne de coelho é uma fonte de proteínas de alto valor biológico, é uma carne magra com uma quantidade de gordura total muito baixa e um teor de ácidos gordos e saturados baixo. Esta semana tive a sorte de estar presente numa degustação dirigida pelo Chef Hélio Loureiro na qual provei coelho cozinhado de duas formas invulgares - em rojões e em açorda. Confesso que ambos me surpreenderam - os rojões com maçã aos cubos e castanhas e a açorda, que me conquistou pelo sabor e leveza. Uma das outras propostas do Chef Loureiro era mais tradicional, uma empada de coelho, que estava verdadeiramente exemplar. Fiquei a saber que há muitas formas de preparar a carne de coelho para além do tradicional coelho frito e à caçador. Em carnedecoelhohoje.eu pode encontrar várias boas receitas.

 

DIXIT - “Em vez de procurarem pessoas para os cargos, procuraram cargos para as pessoas” - Manuel Tiago, do PCP, sobre o novo Governo

 

BACK TO BASICS - “A ilusão é o primeiro de todos os prazeres” - Oscar Wilde

 

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AS REPORTAGENS INTROMETIDAS - Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional. O programa, que devia ter retomado a sua exibição em Setembro, acabou por não ser emitido durante a campanha eleitoral por decisão da Direcção de Informação e apenas voltou na semana passada. Quem o viu perceberá o porquê da suspensão durante a campanha eleitoral - o trabalho de investigação sobre a exploração do lítio em Portugal e as concessões atribuídas gera desconforto no poder . Tivesse ele sido exibido na altura prevista e um dos Ministros, agora reconduzido, João Galamba, teria sido pretexto para mais umas dores de cabeça de António Costa. Galamba, que aliás é um dos bulldogs políticos de serviço ao PS, já se indignou sobre o programa, mostrando assim o seu conhecido apreço pela liberdade de opinião e de informação, evidenciando o que se pode ter passado nos bastidores da decisão.  O que se passa é que, ao estimular comportamentos assim, quem esconde e adia programas como este está a prestar um péssimo serviço e a dar razão a todos os que querem acabar com o serviço público de televisão, dando pretexto a que surjam acusações de ingerência editorial. No news não é melhor que fake news. Não se sabe, nem saberá, se a decisão de esconder o programa foi tomada por receio de ofender o poder ou por descarada intromissão deste, mas o que é facto é que uma das duas coisas existiu e isso não é bom. Até à data não ouvi nenhum dos bonzos do Conselho Geral Independente, essa inútil instituição criada por Poiares Maduro, pronunciar-se sobre o assunto, eles que eram supostos ser os guardiões da virtude. O caso do “Sexta às 9” já proporcionou que alguns viessem clamar pela privatização da RTP e outras aleivosias do género, próprias de quem não entende das matérias sobre as quais se pronuncia. Os mais liberais e avançados países europeus têm serviço público audiovisual forte e dinâmico, que é o fiel da balança na paisagem audiovisual desses países, que estimula o tecido económico da área e que é um bastião das respectivas culturas nacionais. Aqui a noção de serviço público é evitar incomodar os políticos, sobretudo os que estão no poder. E isso sim é que é preciso mudar. 


SEMANADA -  O número de ministros que são membros do secretariado nacional do PS aumentou de três para seis no novo Governo;  o novo executivo tem mais dois ministérios, apenas duas caras novas, oito mulheres em vez das cinco anteriores e o número de ministros de estado aumentou para quatro; saíram três governantes e há 14 repetentes com as mesmas funções; Mário Nogueira, líder da Fenprof, disse que se Tiago Brandão Rodrigues continuasse como Ministro da Educação isso seria uma provocação aos professores; não houve alterações nas pastas mais polémicas como a saúde, educação e justiça e o ministro das cativações que afectam estas pastas, Mário Centeno, também se mantém; a média de idade dos governantes desceu de 54,8 anos para 52,5 anos; Fernando Medina manteve o ex-vereador Manuel Salgado à frente da empresa municipal de obras;  o juiz Ivo Rosa foi acusado de falta de bom senso pelo Ministério Público devido ao seu comportamento na investigação do caso do roubo de armas em Tancos, que atrasou a investigação; uma lista candidata à Ordem dos Enfermeiros foi excluída por ter mulheres a mais na sua composição; este ano já se registram nas escolas portuguesas 264 casos de agressões entre alunos; há um milhão de pensões abaixo dos 264 euros; a região norte é a mais afectada pela pobreza. 

 

ARCO DA VELHA - Milhares de alunos continuam sem professores um mês depois de as aulas terem começado e Ministério da Educação diz não ter sido informado de qualquer situação anómala.

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UMA FÁBULA ILUSTRADA - Na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71) inaugurou esta semana uma dupla exposição com trabalhos da portuguesa Joana Gomes e da alemã Daniela Krtsch. Comecemos por esta última, Daniela Krtsch, artista alemã que vive há mais que duas décadas em Lisboa, apresenta  “Jorinde & Joringel”, uma série de pinturas inspirada no conto homónimo dos irmãos Grimm: a história de dois noivos prometidos que se perdem na floresta e são enfeitiçados por uma bruxa má que transforma as virgens em pássaros. A transformação em rouxinol da amada Jorinde, e a busca do seu Joringel por libertá-la da morte certa no castelo da bruxa, é um conto de fadas aqui ilustrado de forma marcante por Krtsch (na imagem). Curiosamente a autora tem desenvolvido extensa colaboração com outra arte visual, o video, nomeadamente em clips para a banda Micro Audio Waves e em filmes de curta e longa metragem. Joana Gomes, pelo seu lado,  apresenta “Double Poetics”, trabalhos sobre tela, de médio e grande formato e trabalhos sobre papel. Esta sua exposição mostra uma selecção de obras do seu espólio e de experiências criativas recentes, dividida em duas áreas distintas. A primeira com uma série de pinturas de grandes dimensões que, segundo a curadora, Inês Valle, “criam paisagens de cor e matéria”. A segunda parte mostra uma série de pinturas e desenhos, onde a côr surge de forma intensa, “contida pelo silêncio e ritmo formal da geometria branca que intercepta toda a obra”. As duas exposições ficam patentes na Galeria até meados de Janeiro. A outra sugestão da semana está no Museu Colecção Berardo. Dando continuidade a um projeto inaugurado em abril deste ano “Constelações II: uma coreografia de gestos mínimos” apresenta obras de, entre outros, Fernando Calhau, Ana Hatherly, José Maçãs de Carvalho, Sol LeWitt, Cindy Sherman, Jack Pierson, Joseph Kossut, Mark Rothko, Ernesto de Sousa, João Tabarra, Rui Chafes e Douglas Gordon, entre outros . A curadoria é de Ana Rito e Hugo Barata. 

 

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REDESCOBRIR OS SONS - Quando uma editora discográfica se chama Italians Do It Better tudo pode acontecer. No caso a editora é obra de Johnny Jewel, o mentor dos Chromatics, uma banda do início do século e que pratica uma fusão de pop com electrónica, constituída por Ruth Radelet na voz, sintetizadores  e guitarra, Adam Miller na guitarra, Nat Walker na bateria e pelo próprio Jewel que toca vários instrumentos e assume o papel de produtor. “Closer To Grey”, lançado inesperadamente no início de Outubro, é atípico no contexto da discografia da banda, mas é uma bela surpresa. Os arranjos e a produção são sempre exemplares e a voz de Ruth Radelet é capaz de algumas magias - como aliás se pode bem notar na sua versão do clássico “The Sound Of Silence”, de Simon & Garfunkel, que é a faixa de abertura de”Closer To Grey”, o primeiro disco dos Chromatics em sete anos (aparentemente neste período esteve para ser publicado o álbum “Dear Tommy”, entretanto dado como desaparecido). Ao todo são 12 temas, dos quais, além da já citada versão, realço “Touch Red”, “Closer To Grey”, “Light As A Feather”, “Whispers In The Hall” , a inesperada balada “Move a Mountain”,  “On the Wall”e “Through the Looking Glass”. Disponível no Spotify.

 

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LIBERAL, PORQUÊ?  - “O Apelo da Tribo” é um ensaio escrito em 2017 por Mario Vargas Llosa no qual o autor explica a evolução das suas filiações filosóficas e políticas. “Nós, os liberais, não somos anarquistas e não queremos suprimir o Estado”, escreve Mario Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura de 2010. Logo nas primeiras páginas do livro lê-se: “A doutrina liberal representou desde a sua origem as formas mais avançadas da cultura democrática e foi a que fez progredir mais os direitos humanos, a liberdade de expressão, os direitos das minorias sexuais, religiosas e políticas, a defesa do meio ambiente e a participação do cidadão comum na vida pública das sociedades livres. Por outras palavras. o que mais nos foi defendendo do inextinguível «apelo da tribo». Este livro gostaria de contribuir com um grãozinho de areia para esta tarefa indispensável”. Sendo um livro de ensaios biográficos, “O Apelo da Tribo” é, ao mesmo tempo, uma história intelectual e política do percurso de Vargas Llosa, desde uma juventude fascinada pelo marxismo e pelos movimentos revolucionários latino-americanos até alertar para os perigos da submissão intelectual, da demagogia, do chauvinismo e do nacionalismo, bem como da negação da racionalidade e da liberdade de pensar e questionar. Adam Smith, Ortega Y Gasset, Friederich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Ibrahim Berlin e Jean-François Revel são alguns dos nomes sobre cuja obra e pensamento Vargas Llosa escreve nesta obra. Edição Quetzal.

 

 

UMA BELA TOSTA - A minha busca por sanduíches e tostas em condições prossegue continuamente. Desta vez disseram-me que no Restelo, na rua das lojas, havia umas boas tostas numa casa que dá pelo nome de Lambretta. Esta semana confirmei que isso é verdade. A tosta da casa, Tosta Lambretta, é feita em pão alentejano e leva queijo curado, peru fumado, molho inglês e mostarda de dijon. O resultado é surpreendente de sabor e de textura. Uma outra descoberta é uma sanduíche de salmão em bolo do caco, com rúcula, pesto e requeijão. A Lambretta também serve saladas (a clássica Caesar, uma de salmão e outra de burrata), há rosbife no prato com salada, cebola confitada e batata palha. As empadas de galinha recomendam-se. No capítulo dos doces há scones, tarte de maçã, blattertarte, pão de ló e há gelados da Artisani. Voltando à razão da experiência a tosta Lambretta e o salmão em bolo do caco correram muito bem, o serviço é eficaz, a esplanada é abrigada. No interior a decoração é muito simpática com réplicas de cartazes publicitários antigos. À disposição do cliente estão exemplares de revistas estrangeiras, como a Monocle por exemplo. Aqui está um sítio que vale a pena conhecer. Lambretta, Rua Duarte Pacheco Pereira 26-A.

 

DIXIT - “Caro João Galamba, nenhum político nem servidor público está acima do escrutínio” - Sandra Felgueiras, autora do programa “Sexta Às 9” da RTP, cuja reportagem sobre a concessão da exploração de lítio, área tutelada por João Galamba, teve a exibição suspensa durante a campanha eleitoral.

 

BACK TO BASICS - “Quando os políticos se queixam que a televisão transforma a política num circo devemos recordar-nos que o circo já existia e que a única coisa que a televisão faz é mostrar que nem todos os intervenientes estavam convenientemente treinados” - Edward R. Murrow




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PARA ONDE VAIS PORTUGAL?

por falcao, em 11.10.19

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RESULTADO ELEITORAL: CONSERVAR O PODER ; CUSTE O QUE CUSTAR - Olha-se para os resultados das eleições do passado fim de semana e o que salta à vista é que o vencedor foi eleito por uma minoria de cidadãos eleitores. A diferença entre o número de eleitores e o número de votantes é cada vez maior.  A abstenção ultrapassou os 45%, votaram menos cerca de 300 mil pessoas. O número de eleitores que votaram nulo ou branco subiu - eram 3,7%, agora foram 4,28%. De entre os votos registados nos diversos partidos, 680 mil votos não elegeram nenhum deputado num total de cinco milhões de votos. Há muitos anos que se fala na necessidade de introduzir alterações na lei eleitoral, por forma a combater a abstenção e melhorar a representatividade da decisão dos eleitores,  mas a lei eleitoral está praticamente imutável desde há mais de quatro décadas, não acompanha a evolução dos tempos, do comportamento dos cidadãos nem da tecnologia. Os cidadãos não se sentem representados num sistema que não aproxima eleitores dos eleitos. Aos partidos maiores não interessa mudar este estado de coisas. O sistema de representatividade existente favorece-os, enquanto prejudica o surgimento de novas organizações políticas. E apesar das dificuldades do sistema o descontentamento com os partidos instalados é tanto que três novos partidos conseguiram chegar ao parlamento. O PS, que chegou a sonhar com uma maioria absoluta e teve o sonho de atingir 40% dos votos, ficou abaixo dos 37%. Costa foi indigitado Primeiro Ministro com um milhão e oitocentos e sessenta mil votos num universo de 10,8 milhões de eleitores inscritos - ou seja pouco mais de 17% do eleitorado. É a António Costa, claramente o vencedor na menor votação de sempre, que cabe decidir os caminhos do futuro próximo. O cenário não é agradável, vamos assistir a uma radicalização do Bloco e do PCP e a uma permanente negociação do PS. Deixa de haver estratégia para o país, passa somente haver táctica para um partido conservar o poder. Para onde vai Portugal?

 

SEMANADA - O peso dos impostos “amigos do ambiente” no total da receita fiscal foi superior em Portugal (7,6%), comparativamente com a média da União Europeia (6,1%) e o seu o peso no Produto Interno Bruto em Portugal (2,6%) foi superior ao da média da União Europeia a 28 (2,4%); António Guterres, secretário-geral da ONU, alertou que a organização internacional pode ficar sem dinheiro até ao final deste mês e sem capacidade para o pagamento de salários; o Benfica está entre os dez clubes que mais jogadores emprestam e na última década cedeu 37 futebolistas a clubes das cinco principais ligas europeias; no dia em que as armas de Tancos apareceram a Polícia Judiciária foi avisada por um coronel da GNR da farsa que estava a ser montada; a investigação sobre as golas anti-fumos já tem sete arguidos; os empréstimos à habitação registados este ano já atingem 7 mil milhões de euros, o valor mais alto desde 2010; um inquérito da Marktest revela que os portugueses dizem acreditar no aquecimento global e no papel do homem nesse fenómeno mas não acreditam que deixar de consumir carne de vaca tenha impacto nas alterações climáticas; estão em curso projectos para a construção de 166  novos hotéis; só um terço das câmaras municipais aceitou competências na área da saúde e mais de metade rejeitaram responsabilidades nas áreas da educação e justiça; metade dos casos de pornografia infantil não chega a julgamento por incapacidade das autoridades em localizar os suspeitos.

 

ARCO DA VELHA - A eleita do PAN por Setúbal, Cristina Rodrigues, admitiu numa entrevista não conhecer o programa do partido.

 

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A FORÇA DO DESENHO - Pela segunda semana o destaque vai para Rui Sanches, desta vez para a segunda visão do “Espelho”, no seguimento da retrospectiva dos seus trabalhos em escultura que inaugurou na semana passada na Cordoaria, com curadoria de Delfim Sardo. Agora, no Museu Colecção Berardo, com curadoria de Sara Antónia Matos, Rui Sanches apresenta um notável conjunto de obras focadas no desenho mas que não se esgota aí. É uma exposição antológica, baseada no desenho, que inclui trabalhos recentes nos quais cruza suportes, meios e técnicas — além de desenho sobre papel, utiliza fotografia, mostra esbocetos de barro e esculturas de parede em diversos materiais. Em paralelo com a exposição da Cordoaria, esta segunda série de obras reunidas de novo sob a designação “Espelho” permite ter uma outra visão e perceber uma dimensão completamente diferente sobre o trabalho e a obra de Rui Sanches. Até 12 de Janeiro no Museu Colecção Berardo (na imagem). O outro destaque da semana vai para a segunda edição do Drawing Room Lisboa, que até domingo está patente na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36). Estão patentes obras de 70 artistas e 25 galerias de arte em torno do desenho contemporâneo. Lourdes Castro, Helena Almeida, Pedro Barateiro, Ana Jotta, Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Paulo Brighenti, Júlio Pomar, Carlos Correia e Paulo Lisboa estão entre os 70 artistas representados nesta segunda edição do certame.  Estão presentes galerias de Lisboa, Porto, Açores, e também de Espanha, Japão, Colômbia, Moçambique e Brasil, numa seleção que coube a Mónica Álvarez Careaga, diretora da feira, e ao Comité Consultivo do certame. No âmbito da Drawing Room Lisboa decorre ainda uma exposição de desenhos da Coleção de Desenho Contemporânea da Fundação PLMJ, com curadoria de João Silvério. 

 

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A MÚSICA DA DOR -  Ao fim de 40 anos de carreira Nick Cave fez um dos seus trabalhos mais fortes e tocantes, uma meditação sobre a vida e a mortalidade e sobre o luto. Aqui as suas canções partem de uma terrível experiência pessoal que já tinha marcado o seu disco anterior, “Skeleton Tree”, de 2016, que gravou pouco depois da morte, num acidente, do seu filho adolescente. O disco e o  documentário que acompanhou a sua produção, “One More Time With Feeling”, são fruto de um momento dramático. Mas neste “Ghosteen”, um duplo CD, Cave vai ainda mais longe e de forma muito mais profunda. No novo disco continua a marca da dor, a sombra do desespero, mas também a busca da própria vida, procurando uma razão para continuar. Musicalmente o disco vive da criação de espaços, de ambientes carregados de sentimentos como por vezes só a música permite fazer, entre palavras que organizam a meditação ao mesmo tempo que procuram um enquadramento para reforçar os laços entre os que (sobre)vivem. Um dos pontos incontornáveis de “Ghosteen” é a clássica lenda Budista de Kisa Gotami, que Nick Cave relata. Depois de perder o seu filho, Gotami procura o apoio e conselho do Buda, que a manda procurar e trazer sementes de mostarda de cada casa onde ninguém tenha morrido na família. Ela acaba por perceber que a morte entra em todas as casas, em todas as famílias e regressa, sem as sementes,  ao Buda que a conforta e lhe abre caminho a uma nova forma de encarar a vida.  “Everybody’s losing someone/ It’s a long way to find peace of mind,” evoca Cave num dos momentos em que canta num registo acima do habitual, reforçando o dramatismo da interpretação. É impossível escolher canções aqui, mas arrisco destacar  “Bright Horses” no primeiro disco e dois temas fortíssimos no segundo, aquele que dá título ao álbum, “Ghosteen”, e o final, “Hollywood”, que são duas das mais marcantes canções que Cave escreveu em toda a sua carreira.

 

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A POLÉMICA DO CLIMA - Judith A. Curry é uma climatologista americana, que dirigiu a Escola de Ciências Atmosféricas e da Terra do Georgia Institute of Technology, publicou numerosos estudos sobre alterações na atmosfera e nos oceanos e foi galardoada pela Sociedade Americana de Metereologia pelos estudos que desenvolveu sobre o aquecimento global e os furacões. Nos últimos anos tem tomado posições contrárias à corrente mais catatrofista, denunciando métodos de previsão baseados em dados insuficientes e falta de rigor científico. “Alterações Climáticas, o que sabemos, o que não sabemos”  é o seu novo livro, agora editado em Portugal, pela Guerra & Paz. Trata-se de uma obra de pensamento aberto que afirma a incerteza científica face a um pretenso unanimismo de redução do aquecimento global a uma única causa. Numa época em que o alarmismo campeia e se gerou uma intensa vaga emocional que quase proíbe o exercício de qualquer pensamento crítico Judith Curry defende uma única solução: o método científico, a necessidade de lidarmos com a incerteza, o reconhecimento efectivo do que não sabemos. Curry opõe-se ao actual consenso, que considera desvirtuar o método científico e ser determinado por razões políticas e discorda nomeadamente que a causa humana seja o factor dominante das alterações climáticas. O livro alerta-nos para a perigosidade de uma hipótese excessivamente simplificada monopolizar toda a investigação científica, uma hipótese para a qual, segundo a autora, há provas observacionais insuficientes e que se baseia em modelos climáticos inadequados para estabelecer as causas do aquecimento recente. Ora aqui está bom combustível para alimentar a polémica.

 

VINHOS & PETISCOS - E que tal uma happy hour baseada em vinhos e petiscos? Em plena Avenida da Liberdade o bar Intra-Muros e a Esplanada do restaurante AdLib, no Hotel Sofitel, proporcionam uma selecção de vinhos franceses e portugueses, servida com queijos franceses bem escolhidos e petiscos caseiros do Chef Daniel Schlaipfer. Os vinhos franceses estão em destaque até 13 de Outubro, entre as 18h30 e as 21h00. Os vinhos selecionados incluem um Branco Domaine Fevre Petit Chablis, um Rosé Miraval Provence e um Tinto Domaine Bonnard Sancerre. Pode optar por um prato de 3 ou 5 queijos a 8 e 13 euros respectivamente. Os vinhos são degustados a copo a partir dos 6 euros, com a opção de um “wine flight” de 3 vinhos a 12 euros. Os Wine Days dedicados a Portugal decorrem  de 14 a 31 de Outubro e a seleção inclui um Tinto do Douro, Cheda Reserva, um Branco também do Douro, Terras do Grifo, e um Rosé Alentejano, Lima Mayer, servida com uma seleção de petiscos do chef -Wine 3 petiscos 8€ e 5 petiscos 13€. Os preços do vinho são os mesmos - 6 euros um copo, 13 euros a prova dos três. Durante todo este período está disponível no restaurante AdLib um menu de degustação preparado pelo chef Daniel Schaipfer a 50 euros por pessoa.

 

DIXIT - “Logo por azar dos Távoras havia de haver a renovação do mandato da PGR” -  juiz João Bártolo sobre a saída de Joana Marques Vidal durante a investigação do caso Tancos.

 

BACK TO BASICS - “Comprem com base nos rumores, vendam com base nas notícias” - provérbio nascido em Wall Street.

 

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JÁ ESTÁ TUDO COMBINADO....

por falcao, em 04.10.19

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E NO DIA SEGUINTE? - António Costa chegou a pensar que no dia seguinte às eleições poderia governar sozinho ou fazer um acordo de conveniência com André Silva, do PAN. Seria a réplica contemporânea do acordo do queijo limiano que permitiu a Guterres prolongar a sua existência governamental. Em vez de lacticínios, ração para animais: eis aquilo que resumia a política portuguesa há duas semanas atrás. No entanto as últimas sondagens mostram que Costa vai ter que gerir os resultados de maneira diferente. Há um episódio esta semana que mostra bem a alteração da correlação de forças eleitorais e dá sinais de que o dia seguinte tenha já começado a ser decidido mesmo antes de conhecido o resultado. Porquê?  Como já se percebeu o caso de Tancos, a convicção de que o Governo estava informado do achamento fingido - e nele colaborou - e a dúvida sobre aquilo que António Costa conhecia ou não do assunto, provocou inquietação geral. Numa primeira fase o Bloco e o PCP admitiram que queriam mesmo ver o assunto debatido na Assembleia antes das eleições de Domingo e disseram-no publicamente. Mas eis que chegada a hora da votação ambos mudaram de posição e colaram-se ao PS na suspensão do Parlamento, fiéis discípulos das manobras de Boris Johnson que tanto criticaram há umas semanas. Esta desistência do Bloco e do PCP de aprofundar o caso de Tancos antes das eleições mostra que as negociações já começaram e que Costa resolveu prevenir qualquer incómodo que viesse de um escrutínio parlamentar nesta altura. PS, Bloco e PCP uniram-se debaixo da bandeira da ocultação. O que acordaram para lá chegarem saberemos depois. Não resisto a citar a crónica desta semana de Ricardo Araújo Pereira: “O futuro é dos fisioterapeutas. O contorcionismo necessário para defender uma coisa e o seu inverso tem de gerar hérnias muito dolorosas na coluna”.  Resta-me dizer que a campanha mostra o desgaste dos partidos do regime, o seu tacticismo, as amnésias sobre o que fizeram nestes quatro anos. É tempo de dar oportunidade a que outros protagonistas entrem em cena. Por mim dou o meu voto à Iniciativa Liberal que, durante a campanha, foi quem melhor soube evidenciar que o rei vai nu.

 

SEMANADA - Os pedidos de crédito ao consumo atingiram 20 milhões de euro por dia; as poupanças das famílias estão nos níveis mais baixos de sempre o os valores de crédito ao consumo estão acima do período pré-troika; de Janeiro a Setembro 83 mil novos imigrantes tiveram autorização de residência em Portugal; as universidades e politécnicos da região nortenha tiveram no último ano um aumento de 40% nos estudantes internacionais, ultrapassando a região de Lisboa; em 2018 foram transacionados 242.091 imóveis em Portugal,um aumento de 6,8% face ao ano anterior, o total dos negócios imobiliários realizados representou um investimento superior a 26,1 mil milhões de euros e só Lisboa registou um volume de investimento de 11,9 mil milhões de euros; Portugal é o país da União Europeia onde a diferença entre as taxas de desemprego consoante a qualificação é menor e onde a sobrequalificação dos trabalhadores face ao emprego que desempenham é das mais altas; segundo uma sondagem recente 56% das pessoas informam-se através da televisão; 36% pelos jornais, seja em papel ou online e 28% pela rádio; segundo a Marktest  o Facebook é a rede social onde mais portugueses têm conta, captando 95.3% dos utilizadores de redes sociais, o WhatsApp, ocupa a 2ª posição, com 74.2% de penetração, o Messenger entra para a 3ª posição, com 70.8%, o que coloca o Instagram em 4º, com 67.9%.

 

ARCO DA VELHA - O Juízo de Família e Menores de Mafra está a julgar um caso no qual se decide, entre um casal de ex namorados, a tutela de uma  cadela de raça pitbull.

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O ESPELHO - Há duas exposições incontornáveis que abriram na semana passada em Lisboa: a impressionante retrospectiva da obra de Rui Sanches que inaugurou na Cordoaria e a evocação dos trabalhos de Carlos Correia, na Galeria 111. Rui Sanches apresenta no Torreão Nascente da Cordoaria uma visão retrospectiva da sua obra em escultura, que começa com três peças recentes, uma delas concebida expressamente para esta ocasião, algumas obras inéditas em Portugal do início do seu percurso criativo nos anos 80 e depois um conjunto de obras verdadeiramente marcantes. A montagem da exposição, um trabalho conjunto do artista e do curador, Delfim Sardo, aproveita da melhor forma o espaço da Cordoaria e proporciona a possibilidade de viajar entre as esculturas, comparando fases, vando-as de diversas perspectivas. Na folha de sala Delfim Sardo salienta que a obra de Rui Sanches é “um espelho da escultura e da relação desta com a imagem”, sublinhando a complexidade e coerência do percurso criativo de Rui Sanches. Pego nesta citação e na sua relação com a imagem para chamar desde já a atenção para um complemento deste “Espelho”, que sob a mesma designação vai estar a partir de dia 9 de Outubro no Museu Berardo e onde Rui Sanches mostrará trabalhos recentes em desenho sobre papel, fotografia, esbocetos de barro e esculturas de parede em diversos materiais. A exposição na Cordoaria fica até 12 de Janeiro. O outro destaque da semana vai para a exposição evocativa de Carlos Correia que estará na Galeria 111 (Campo Grande 113) até 9 de Novembro. Desaparecido no ano passado, Carlos Correia vinha a construir um percurso singular de que talvez uma das melhores referências seja uma das obras expostas, o auto-retrato “O Artista Cego”.

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OUTRO MUNDO -  Em finais de junho de 1964 John Coltrane e o seu quarteto juntaram-se no célebre estúdio de Rudy Van Gelder e gravaram temas para a banda sonora de um filme franco-canadiano, “Le Chat Dans Le Sac” do realizador Gilles Groulx. O quarteto atingira o auge da sua forma, estava entre as gravações de dois dos mais importantes momentos da carreira de Coltrane, os álbuns “Crescent” e “A Love Supreme”. Que quarteto era este? John Coltrane tocava saxofone tenor,  McCoy Tyner estava no piano, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo. O mais curioso é que Coltrane acedeu aos pedidos do realizador, que sugeriu a maior parte dos temas a gravar, fazendo até Coltrane rever a sua habitual recusa em regravar temas antigos. O resultado é este “Blue World”, agora editado pela primeira vez, depois de as fitas originais terem ficado guardadas (e ignoradas) durante décadas num cofre do National Film Board do Canadá. O resultado são 37 minutos que retratam a forma fantástica dos músicos. Coltrane acedeu ao pedido de Groulx e reinterpretou cinco temas. O disco abre com “Naima”, uma das suas melhores baladas, gravada originalmente para o álbum “Giant Steps” de 1960.  Depois surge a versão de “Village Blues” que foi utilizada no filme (e que é a melhor das três versões do tema que surgem neste álbum). O terceiro tema é o que dá o nome do disco, “Blue World”, uma nova reinterpretação de um original de Harold Arlen e  Johnny Mercer’s “Out of This World”, que era a faixa de abertura do álbum “Coltrane”, de 1962. Esta nova versão, que aqui ganhou o nome de “Blue World”, começa com um exercício de baixo de quase três minutos,  uma lição de virtuosismo de Garrison e da coesão com os outros músicos do quarteto que vão dialogando com o baixo. “Like Sonny” é também do álbum “Coltrane Jazz”, de 1961 e é tida como uma homenagem de Coltrane a Sonny Rollins. “Traneing In”  é de um disco ainda mais antigo, “John Coltrane With the Red Garland Trio”, de 1958.  Blue World já está disponível em CD e no Spotify.

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CAPAS CLIMÁTICAS - A edição de Outubro da Monocle traz algumas novidades - no papel, na arrumação dos conteúdos e em algumas novas secções. O tema de capa bate em cima da actualidade - as alterações climatéricas, mas de uma perspectiva um pouco diferente. Já lá vamos. O editorial de Tyler Brulé, o fundador da revista, é sobre a prioridade que as empresas devem dar à escolha das pessoas que a representam junto dos clientes - alguém que seja ao mesmo tempo boa vendedora, acolhedora, que tenha atenção ao detalhe, que saiba o que é prestar um bom serviço ao cliente. No fundo é este o segredo do sucesso das empresas - criar uma equipa que reflicta os seus melhores valores e faça crescer a sua própria imagem. Nas novidades editoriais destaca-se um conjunto de novas secções logo no início, que imprimem maior ritmo à leitura da Monocle - em temas que vão da cultura aos tempos livres, mas de uma forma por vezes inesperada, como por exemplo a apresentação da equipa que assegura a gestão das lojas do Victoria & Albert Museum em Londres, cuja qualidade e inovação explica muito do sucesso da instituição. Na secção de cidades o destaque vai para Copenhaga pelo cuidado colocado na manutenção de espaços públicos e no respeito pelos direitos dos seus habitantes. No especial sobre alterações climatéricas há um foco na importância económica que as previsões metereológicas estão a ter no desenvolvimento de planos de negócio, desde a localização de instalação de fábricas até à construção de hotéis. Na secção de comidas  há um destaque para o Gastrobar do Rossio, no Altis Avenida Hotel e, regressando ao início da revista, há uma pequena secção, Cosy Corner, que apresentar um local para descontrair ao fim do dia, proposto por um dos seus clientes habituais - no caso um bar em Berlim onde o editor da revista Zeit Magazin gosta de descontrair. E é isto, a Monocle. Volta e meia ainda surpreende.

 

OKTOBERFEST  - Outubro é o mês da cerveja e dos festivais em sua honra desde que, em 1810, o Rei Luis I da Baviera decidiu criar um festival cervejeiro em Munique para assinalar o seu casamento. O Oktoberfest estendeu-se a várias regiões, foi desenvolvendo versões sempre com uma componente de festa, bebida e comida. Em Lisboa nasceu há três anos A Cerveja em Lisboa, que se realiza até Domingo no Campo Pequeno. Ali estarão disponíveis 30 marcas de cerveja de diversos países e uma série de cervejas artesanais portuguesas como a Dois Corvos, Chica, Velhaca, Sadina, Vadia ou Bolina, entre outras. Estão também presentes marcas internacionais mais tradicionais como a Mahou, a San Miguel e a Warsteiner ou a Erdinger Oktoberfest. Para que a cerveja não caia em estômago vazio estão disponíveis várias opções de street food, entre as quais pretzels autênticos feitos na ocasião. O preço da entrada na Cerveja em Lisboa varia entre os 3€ e 5€, consoante o tamanho do copo de prova que quiser levar - está sempre incluído no bilhete. Na sexta-feira e sábado o recinto está aberto das 16 horas à uma da manhã e no domingo, abre à mesma hora mas encerra mais cedo, pelas 21 horas, já depois de se conhecerem os resultados eleitorais - ainda vai dar para brindar … ou lamentar.

 

DIXIT - “Azeredo Lopes foi um tolo, fascinado com o jogo de xadrez em que se via jogador mas era peça de tabuleiro” - Pedro Santos Guerreiro sobre o roubo de armas em Tancos.

 

BACK TO BASICS - “A História é a versão dos acontecimentos passados sobre a qual se obteve um consenso” - Napoleão Bonaparte

 

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