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PELA BOCA MORRE O PEIXE - Em Portugal não temos manifestações de multidões vestidas com coletes amarelos e não é por falta de razões: estamos num país onde qualquer dia em vez de comboios voltaremos a ter  carroças, onde em vez de cacilheiros se utilizarão jangadas, um país onde médicos do maior hospital pediátrico se demitem por falta de condições, onde o um porto marítimo fulcral para a economia continua a suicidar-se, onde as greves em serviços essenciais começam a ser mesmo preocupantes. Temos, no entanto, um sistema perfeito de vasos comunicantes bem exemplificado no Orçamento de Estado que acabou de ser aprovado pela frente de esquerda: aumentam-se os gastos do Estado com os seus funcionários, graças ao dinheiro extra que vem da carga fiscal directa e indirecta. A sociedade portuguesa está a criar um funil onde a boca é larga para cobrar mas o tubo de saída é estreito: o que fica de fora do funil são os serviços que o Estado devia assegurar e que são a razão de ser dos impostos. Por aqui continua tudo trocado: os recursos gastam-se para ganhar sossego político em vez de ser para suprir necessidades da população, na Assembleia deputados vigarizam o livro de presenças e votações, no Ministério das Finanças um quadro superior protegido por Centeno está sob suspeita de fechar os olhos a irregularidades. Noutros tempos dir-se-ia que pela boca morre o peixe. Mas começa a ser perigoso usar provérbios destes graças a uns cómicos que acham que falar assim pode ser ofensivo para os animaizinhos e consideram que o tema deve ser debatido no Parlamento. Depois queixam-se que a Assembleia da República tem má imagem.

 

SEMANADA - Até ao final deste ano há 47 pré-avisos de greves em 11 áreas da administração pública, desde a justiça aos hospitais, passando pela inspeção das pescas; a  percentagem de cesarianas realizadas nos hospitais privados é mais do dobro da realizada no Serviço Nacional de Saúde; entre 1 de novembro de 2017 e 31 de Outubro de 2018 o Ministério Público instaurou 3423 inquéritos relativos a crimes de corrupção e crimes conexos; em Outubro, segundo a Marktest, o site noticioso com maior alcance foi o do Correio da Manhã, com cerca de 2,5 milhões de visitantes; segundo o Conselho das Finanças Públicas os gastos das famílias portuguesas com a saúde estão acima da média da OCDE; 1684 euros é o valor que em média cada português gastou em cuidados de saúde em 2017; segundo o Ministério do Ambiente nos últimos dois anos apenas foi retirado amianto em 90 dos 1400 edifícios públicos que estão no plano de remoção daquela substância potencialmente cancerígena; em duas semanas de greve dos enfermeiros prevê-se o adiamento de cerca de  4500 cirurgias; Maria Begonha continua candidata à liderança da Juventude Socialista apesar de ter prestado declarações falsas sobre o seu currículo e da polémica em torno dos contratos que celebrou com autarquias do PS no valor de cerca de 140 mil euros

 

ARCO DA VELHA - O Inspector Geral das Finanças, que integra o Conselho de Prevenção da Corrupção, é suspeito num processo em que se investigam corrupção, peculato e abuso de poder.

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A POESIA IMPRESSA - Eugénia de Vasconcelllos começou a publicar poesia em 2005, com “A Casa da Compaixão” e desde então tem publicado ensaios como ”Cultura Light” ou  “ Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea”, contos como “Do Banco Ao Negro” e poesia como “O Quotidiano a Secar em Verso” - que João Mário Silva descreveu como «um meteorito que cruzou o céu da poesia portuguesa»”. Está traduzida em catalão, alemão, sérvio e romeno. Nascida no final dos anos 60, em Faro, Eugénia Vasconcellos elege como poetas favoritos Camões, Walt Whitman e Herberto Hélder . O seu novo livro, “Sete Degraus Sempre A Descer”, percorre etapas do amor, da descoberta à desilusão, do encontro à despedida, entre dúvidas e desejos. Como Eugénia de Vasconcellos escreve logo no primeiro poema do seu novo livro, “A poesia não é coisa das páginas dos livros -/ não se faz na tipografia./ Ainda que seja nas páginas dos livros que/se fixa depois de a tipografia lhe dar um corpo de papel -/ é sempre de amor que se faz um corpo,/ é por amor que um corpo se dá./A poesia é da vida. É de quem tem.”

 

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O PARADOXO CONTEMPORÂNEO - A Galeria Cristina Guerra Contemporary Art exibe, até 4 de Janeiro, uma exposição que reúne 42 obras de arte contemporânea de artistas portugueses e estrangeiros - de Julião Sarmento a John Baldessari, passando por Horácio Frutuoso, Vasco Araújo ou Joseph Kosuth, Ed Ruscha ou Matt Mullican, entre muitos outros. As obras têm proveniências diversas, nomeadamente de colecções particulares e do acervo da própria Galeria e foram agrupadas por Alexandre Melo sob o título “1000 imagens-  uma imagem vale mais que mil palavras”. Existe um ponto comum entre muitas das obras que é a utilização da palavra escrita, seja de forma isolada, seja numa frase. No texto que acompanha a exposição Alexandre Melo sublinha que “a presença das palavras no contexto criativo das artes plásticas é marcante nas vanguardas históricas do início do século XX” para depois esclarecer que o critério de curadoria da exposição foi apresentar “uma grande diversidade de obras realizadas por autores que, cada um segundo a sua sensibilidade e no âmbito da sua linha de pesquisa, deram um lugar de destaque às palavras, e assim nos dão, a nós próprios, a possibilidade de pensar e decidir qual o valor e a atenção que queremos, ou não, continuar a conceder às palavras”. Esta reflexão está enquadrada numa época em que as imagens se banalizaram e a sua utilização se globalizou e multiplicou - e por isso este confronto das palavras com a imagem se torna interessante. Mas, ao mesmo tempo, a montagem da exposição evidencia um paradoxo que por vezes se torna repetitivo na arte contemporânea - e que passa por viver de uma teoria e da sua sublimação,  mais do que de uma emoção ou de um acto de comunicação. Evidenciar este paradoxo é a marca destas “1000 imagens”.

 

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UMA ESTRELA NO FADO - Carminho está  a fazer um dos mais interessantes percursos artísticos entre as fadistas da sua geração e mistura o fado que conviveu com ela toda a vida (a mãe é a fadista Teresa Siquiera) com outros géneros musicais e nomeadmente a música brasileira. Sinal disso é ter já gravado nos seus quatro discos anteriores duetos com Chico Buarque, Milton Nascimento, Marisa Monte e Nana Caymmi. O seu quarto disco é aliás inteiramente dedicado à obra de Tom Jobim e é, também, uma prova da versatilidade da sua interpretação. “Maria”, agora editado, é o seu quinto álbum e marca um regresso ao território musical de origem - o Fado. Carminho envolveu-se mais do que é costume na produção e escreveu várias das canções que interpreta naquele que parece ser o disco mais pessoal da sua carreira . A concepção dos arranjos e a escolha de instrumentos (desde a tradicional guitarra de fado à guitarra eléctrica) mostra que a ousadia de Carminho não se manifesta só na sua forma de cantar, mas também na abordagem musical que concretiza. A guitarra portuguesa esteve a cargo de Bernardo Couto, José Manuel Neto e Luis Guerreiro, a viola de fado é de Flávio César Cardoso, no baixo acústico esteve José Marino de Freitas, no piano João Paulo Esteves da Silva e na guitarra eléctrica Filipe Cunha Monteiro  - aliás Carminho também toca guitarra eléctrica no tema “Estrela”, por sinal um dos melhores do disco. É muito interessante o contraste que Carminho consegue criar entre as suas composições originais (nomeadamente “Mulher Vento”” e “Estrela”), a interpretação de clássicos (como “O Começo”, de Pedro Homem de mello e Acácio Gomes), tradicionais (como “Sete Saias” de Artur Ribeiro) ou a abordagem a “As Rosas” (de Joana Espadinha). CD Warner.

 

SABORES LIBANESES -  A zona do Princípe Real levanta-me a maior reserva em termos de restaurantes. Não tenho tido boas experiências, sobretudo no atendimento que parece penalizar quem não é turista. Mas recentemente tive uma boa surpresa num novo espaço que nasceu num local onde antes existia um desses restaurantes o, no caso o Prego da Peixaria. O Sumaya - Mesa Libanesa tem um acolhimento simpático, um serviço atencioso e os empregados sabem explicar o que é cada prato deixando os clientes decidirem por si. Há combinados que juntam várias especialidades ou pode seguir-se o menu e ir pedindo. A comida libanesa apela à partilha de petiscos (mezze), portanto a ideia é pedir várias coisas e ir partilhando e saltando de uma para outra. Veja na lista os mezze frios e quentes, pegue no pão achatado que lhe colocam na mesa e vá fazendo experiências. Numa recente visita a escolha recaíu sobre Labneh (iogurte  com tomilho, azeitonas e hortelã), Baba Ghanouj (uma pasta  de beringela com tahini, limão e romã ),  Fatayer (empadas de espinafre com limão e azeite) e Makanek  (salsichas caseiras cozinhadas num molho de romã com pinhões). Há vinhos libaneses, mas também portugueses e, na circunstância, optou-se por um Catarina a copo. A sobremesa vai variando todos os dias mas na altura veio um  Mohalabie, uma espécie de panna cotta libanesa que leva pistácios aos pedaços e fez um bom contraste de sabores com o resto da refeição.  Sumaya - Mesa Libanesa - 213470351, reservas@sumaya.pt, Rua da Escola Politécnica 140

 

DIXIT - “Não podemos ir além do limite, sob pena de que PSD e CDS se fiquem a rir de nós e digam que tinham razão” - António Costa, no Parlamento, sobre o Orçamento de Estado para 2019.

 

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BOLSA DE VALORES -  Claudia Fischer expõe na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho, 71, RC, Esq ) a obra Spatien #8, 2018, impressão sobre papel, edição 1/3 emoldurada, com a dimensão 26x73 cm, por 750 euros (IVA de arte incluído).

BACK TO BASICS - “Nunca devemos interromper o inimigo quando ele está a fazer um erro” - Napoleão Bonaparte

 

 

 

 

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O ADUBO POPULISTA - Afinal porque cresce o populismo? O aumento do peso político do populismo está na proporção directa das revelações sobre corrupção, da ineficácia da justiça, da forma de funcionamento dos partidos  institucionais, do funcionamento dos parlamentos, do comportamento de muitos políticos. O populismo que assume proporções preocupantes é o resultado directo da falência dos partidos mais presentes no poder, das jogadas de bastidores e entendimentos à revelia dos resultados eleitorais, dos arranjinhos e distribuições de benesses. O adubo que fomenta o populismo está no apodrecimento do sistema. O retrato do futuro próximo um pouco por toda a Europa é dado pelo que se passou na Andaluzia: o descrédito no regime leva a deslocações surpreendentes de voto - analisando os resultados constata-se que foi do eleitorado do PSOE que saíram maioritariamente os votos que deram entrada aos populistas de direita. Não precisamos só que surjam novos partidos, precisamos fundamentalmente que exista uma nova ética política e uma outra agilidade da justiça. No caso português precisamos de um sistema eleitoral que possibilite a entrada de novos participantes, precisamos de uma varridela nos partidos antigos que acabe com os escândalos que se têm passado na Assembleia da República e que andavam bem escondidinhos da vista de todos. Deixaram alastrar a vigarice, não se queixem do resultado. O mundo já não é feito de dogmas. Os partidos e quem os dirige não se podem julgar donos da verdade depois de terem sido apanhados tantas vezes a mentirem.

 

SEMANADA - Mais de 57 milhões de seringas e mais de 30 milhões de preservativos foram distribuídos nos últimos 25 anos em Portugal; o Ministro do Ambiente preconiza uma redução de entre 25 a 50% da população de bovinos como uma das medidas para reduzir as emissões poluentes de gases para a atmosfera; quase metade das instituições portuguesas de solidariedade social têm prejuízos graves; a não actualização dos escalões do IRS no Orçamento de Estado vai causar um aumento  deste imposto em 2019; os futuros pensionistas só vão receber 74% do salário que tinham à data do início da reforma, indica um relatório da OCDE; Guarda, Portalegre e Bragança são os distritos com menor número de nascimentos e Lisboa, Porto e Braga são os que registam natalidade mais elevada; mais de 150 mil crianças e jovens não têm médico de família; o Tribunal de Contas criticou as regras da Assembleia da República e diz ser impossível fiscalizar se os pagamentos feitos aos deputados são devidos; o Presidente da Assembleia da República,  Ferro Rodrigues, admitiu ao fim de algumas semanas ter havido irregularidades e  “registo de presenças falsas” de deputados em sessões plenárias do Parlamento.

 

DISTRACÇÕES ESTATAIS - O Estado português  perdeu o rasto a cinco jovens romenos que tinha à sua guarda, depois de os seus pais, que obrigavam os dois rapazes e três raparigas a mendigar, terem sido presos.

 

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ESCRITOS TURÍSTICOS - Não é inédito: uma publicação periódica vai melhorando depois do primeiro número, afinando detalhes e estabelecendo a sua própria identidade. No caso de “Electra”, a revista editada pela Fundação EDP e dirigida por José Manuel dos Santos, identidade ideológica é coisa que não falta. Mas nos primeiros dois números houve alguma indefinição de temas, alinhamento e problemas gráficos. Neste terceiro número há um salto qualitativo - quer a nível da diversidade de conteúdos, do alinhamento editorial, quer a nível gráfico e da edição fotográfica. O tema central desta edição é o turismo nos tempos actuais e o geógrafo Álvaro Domingues, em “Turismo On Fire”, aborda a evolução dos tempos, desde a viagem elitista à viagem democratizada pelo turismo massificado. Jean-Didier Urbain aponta que o turista actual é um viajante maltratado e considera que o turismo no nosso tempo não deve ser desclassificado, mas sim encarado como uma verdadeira experiência de viagem, tese criticada por Thierry Parquot, que defende ser urgente interromper o movimento crescente do turismo mundial, negando que o passeio turístico tenha agora alguma coisa a ver com o conceito de viagem. O arquitecto Pedro Levi Bismark tem uma certeira observação sobre os efeitos do turismo nas cidades contemporâneas e o economista Álvaro Matias faz uma análise dos negócios gerados pelo turismo, que classifica como uma exportação fácil. Turismo à parte destaque para um livro de horas de Pedro Cabrita Reis, sob a forma de fac-simile de nove páginas da sua caligrafia e desenhos, a tinta da china sobre papel, que exemplificam alguns dos seus registos diários. Finalmente uma menção ainda para o texto de Rui Chafes sobre as esculturas de Manuel Rosa, artista que, ao fim de vários anos, resolveu de expôr de novo as suas obras.

 

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VIAGENS FOTOGRÁFICAS - Há uma fotografia que mostra a realidade e outra que alimenta a ilusão. Cláudio Garrudo, que tem vindo a experimentar diversas abordagens à imagem fotográfica (numa sua recente exposição utilizou cianótipos), encarou  agora o mar e utilizou uma técnica de duplas exposições que cria uma dimensão muito especial nas imagens e uma ilusão quer de cores, quer de perspectiva. A exposição leva o nome de “Trinus” (na imagem) e está na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) até dia 19 de Janeiro. A exposição, nove fotografias e um video, resulta de uma viagem que Cláudio Garrudo fez a bordo de um carregueiro, que zarpou de Lisboa. “Viagem”, um poema de Miguel Torga, foi o ponto de partida para esta expedição. Bem diferente é uma exposição no Arquivo Municipal Fotográfico, centrada no espólio de Helena Côrrea de Barros e que é uma viagem à sua família e amigos, mas também uma mostra de trabalhos que ela apresentou a salões fotográficos, comuns nos anos 50 e 60. A exposição, “Fotografia, A Minha Viagem Preferida”, que fica patente até 23 de Fevereiro, foi organizada de forma exemplar por Luís Pavão e Paula Figueiredo Cunca, mostrando um lado da realidade do Portugal dos anos 50 e 60 que separa a visão familiar e festiva feira a cores, em Kodachrome, da prática artística de Helena Côrrea de Barros, a preto e branco, feita para os salões de fotografia de então. Na Rua da Palma 246.

 

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EDIÇÃO ESPECIAL  - Em Janeiro deste ano foi editado “Nação Valente”, o primeiro disco de originais de Sérgio Godinho dos últimos sete anos -  um álbum com nove originais e uma versão de “Delicado”, um tema de Márcia, intensamente interpretado por Godinho.  Na altura escrevi aqui que este era o melhor disco do autor neste século e destaquei o tema “Grão da Mesma Mó”, um poderoso manifesto com letra de Godinho e música de David Fonseca. Na mesma altura sublinhei que “outro ponto alto é “Maria Pais, 21 Anos”, onde as palavras de Godinho se cruzam mais uma vez com as ideias musicais de José Mário Branco naquela que é certamente a mais elaborada e emocional composição deste disco, não por acaso uma espécie de retrato de uma geração para a qual ambos os autores olham com um agudo espírito de observação”. Agora “Nação Valente” teve uma edição especial, com um CD extra gravado ao vivo nos Coliseus de Lisboa e do Porto e que inclui algumas das canções de Nação Valente tocadas ao vivo com arranjos diferentes da gravação de estúdio, mas também interpretações novas de temas clássicos de Sérgio Godinho, entre os quais  destaco “Balada da Rita”, com a participação de David Fonseca e o magnífico “Às Vezes O Amor” com a participação de Márcia. CD Duplo Universal Music.

 

UM CLÁSSICO LISBOETA  - O Petite Folie é um restaurante com uma história longa - no início dos anos 80 abriu inspirado pela cozinha gaulesa, por iniciativa de uma francesa que vivia em Lisboa e que queria aumentar a então reduzida oferta gastronómica do seu país em Lisboa. Passados uns anos decidiu sair  e o restaurante passou para as mãos de Almerindo Gonçalves, um minhoto com uma longa carreira na hotelaria e na restauração e que saíu do então prestigiado Clube de Empresários para abrir uma casa só sua em 1988 . Manteve o nome francês mas trouxe a comida portuguesa, sobretudo alguns pratos da sua região de Monção - como a lampreia na época em que é devida. Com uma decoração clássica e muito bem conservada onde a madeira predomina, tem um serviço único, um cruzamento de profissionalismo e gentileza. Um dos seus pratos mais apreciados - e estamos na altura ideal do ano para ele - é a perdiz à Convento de Alcântara e outro muito apreciado é um folhado de lebre com castanhas. No peixe destaca-se a garoupa grelhada com molho de alcaparras e os supremos de cherne com molho de champagne. Se quiser uma coisa mais simples tem sempre o entrecôte à Café de Paris. Nos doces o leite creme queimado tem boa fama. O Senhor Almerindo Gonçalves sabe receber como poucos e nas mesas o Sr. Artur garante uma atenção rara nos dias que correm. Garrafeira a preços sensatos, vinho a copo bem escolhido. Fechado ao Sábado e, ao Domingo, ao jantar. Petite Folie, Av. António Augusto de Aguiar 74-cv, telefone  213 141 948.

 

DIXIT - “Neste tempo de guerras civis nas redes sociais, em que o Facebook e Google lêem por nós, é bom ler e escrever (...) É do confronto de ideias que nasce a liberdade, a democracia política, económica, social e cultural” - Fernando Sobral, no derradeiro “Pulo do Gato”.

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BOLSA DE VALORES - Na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), além das fotografias da exposição “Trinus”, de Cláudio Garrudo (que estão à venda por 1100 euros) está disponível uma edição especial do catálogo, limitada e numerada, em caixa de madeira, com uma prova assinada de uma das imagens, por 185 euros.

 

BACK TO BASICS - "O telescópio faz encolher o universo,  o microscópio aumenta-o"- G.K. Chesterton

 





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A MINISTRA SOBRESSALENTE - Nos últimos tempos tivemos um Ministro da Cultura que entrava mudo e saía calado; agora temos uma Ministra da Cultura que sofre de incontinência verbal. Em comum têm, entre eles, o facto de não dizerem uma palavra sobre política cultural. Acresce que esta Ministra da Cultura dá sinais de ser defensora de algo perigoso para quem ocupa o cargo onde foi colocada: uma política determinada pelo seu gosto pessoal - considera-se uma iluminada, coisa sempre perigosa em geral e, em especial, na área que tutela A isto junta um desprezo acentuado pela opinião dos outros - evidenciado nas suas declarações sobre o enfado que lhe causa seguir o que se escreve em Portugal, afirmação cinicamente proferida num certame literário, a Feira Internacional do Livro, de Guadalajara. Arrogante, a senhora prefere não ser incomodada e muito menos recordada de episódios desagradáveis - na sua auto-suficiência parte do princípio que relatos da  realidade são fake news. Graça Fonseca, um dos expoentes da mentalidade politicamente correcta na área do Governo, está a dar mostras de gostar de secar as ideias à sua volta e tem mostrado um assinalável vazio e desconhecimento sobre questões de política cultural. É uma Ministra sobressalente, calhou estar à mão quando foi preciso mudar as peças do tabuleiro. Está a revelar-se um problema de casting.

 

SEMANADA - Há dez anos que cada português anda a dar 15 euros por mês para salvar bancos; entre janeiro e outubro 2 milhões e 226 mil pessoas já recorreram ao crédito ao consumo, cerca de 26%  da população; um novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que mais de 60% dos contratos das câmaras municipais são feitos por ajuste direto sem concurso; entre 2013 e 2017 dez câmaras municipais não fizeram qualquer concurso público; 51 câmaras têm taxas de endividamento superiores a 100% ; 45 câmaras municipais não disponibilizam publicamente qualquer informação documental sobre as suas contas; no ano passado o número de greves em empresas cresceu 39% e o número de trabalhadores envolvidos em greves quase triplicou em relação ao ano anterior; no primeiro semestre o preço médio da electricidade em Portugal era a sexto mais caro da União Europeia e no gás o país ficou no quarto lugar; a carga fiscal representa 55% da fatura da luz, o triplo do que se passa em Espanha; o deputado Feliciano Barreiras Duarte, um fiel de Rui Rio, apareceu registado na votação do orçamento de Estado por a sua password ter sido utilizada, apesar de ter estado ausente do plenário; Portugal tem mais de mil novos casos de VIH registados no ano passado e a taxa de diagnóstico mais elevada regista-se nos jovens entre os 25 e os 29 anos.

ARCO DA VELHA - Em Braga um homem foi condenado a prisão efectiva por ter roubado seis euros; também em Braga um Tribunal libertou o núcleo duro de um gang violento relacionado com tráfico de droga e uma vaga de assaltos violentos, apesar de terem sido presos em flagrante delito.

 

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UMA VISÃO DO NOVO PODER EM ANGOLA - O que tem acontecido em Angola desde que João Lourenço se tornou Presidente, em finais de Setembro de 2017? O que mudou no dia-a-dia do país, dos bastidores, do próprio Palácio que é o símbolo do poder presidencial? O jornalista Luís Fernando, hoje secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e Imprensa do Presidente da República de Angola, faz um relato de tudo o que se foi passando desde então, entre a crónica e a reportagem, em “Notícias do Palácio” -  que relata o primeiro ano do mandato de João Lourenço. O livro, agora editado em Portugal, começa nos dias da transição de poder de Eduardo dos Santos para o novo Presidente, passando pelo primeiro Conselho de Ministros, descrições de viagens e visitas oficiais ou a primeira entrevista coletiva do novo Presidente a jornalistas nos jardins do Palácio. Mas também relata a presença de João Lourenço no encontro de Davos, a ida ao Parlamento Europeu, o encontro com Macron, a reunião com Putin, a visita à China e até a recente visita de António Costa a Luanda, relatos enquadrados nas suas circunstâncias, a partir do ponto de vista privilegiado de um colaborador próximo de João Lourenço. É uma visão necessariamente comprometida e parcelar, mas é um testemunho destes tempos de mudança, uma observação particularmente interessante para todos os que seguem o que se passa em Angola - uma viagem ao processo de tomada de decisão do novo poder de Luanda.

 

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O TEATRO DE REVISTA - O Parque Mayer hoje em dia diz muito pouco ou mesmo nada a quem tiver menos de 40 anos. Digamos que era a coisa mais parecida com a Broadway que por cá havia, tendo em consideração todas as diferenças de escala. Tinha quatro teatros construídos entre os anos 20 e os anos 50 do século passado (Maria Vitória de 1922, Variedades de 1926, Capitólio de 1931 e ABC de 1956). Além dos teatros, havia restaurantes, esplanadas, casas de fado, barracas de tiro, e até luta livre e boxe - era um local de boémia por excelência. Muitas das peças levadas à cena eram musicais e ali nasceram algumas das grandes canções populares e ali artistas ganharam fama e reconhecimento. O Teatro de Revista, assim ficou conhecido o género ali encenado,  tinha antes de 1974 alusões e indirectas à situação política que se vivia, num permanente jogo do gato e do rato com a censura. Local de muitas histórias o Parque Mayer marcou uma época de Lisboa e passou agora do teatro ao cinema, pela mão do realizador António-Pedro Vasconcelos e do produtor Tino Navarro. “Parque Mayer”, que estreia a 6 de Dezembro, mostra a cidade -  e através dela o país - no início do salazarismo. O filme, escrito por Tiago Santos, decorre em 1933, numa altura em que o Estado Novo começava a formar-se. A história segue a preparação de uma nova revista, os ensaios onde há de tudo: amores não correspondidos, dramas pessoais e tentativas de contornar a censura - no fundo a luta pela liberdade de criação numa altura em que as palavras e atitudes começavam a ser rigorosamente vigiadas. O engraçado é como o realizador, a partir da evocação daquele espaço entre a Avenida da Liberdade e a Praça da Alegria, faz um retrato de Portugal inteiro naquela época e da nascente resistência ao regime, com base num quadro da revista que é o centro de toda a acção. António-Pedro Vasconcelos continua  a ser um grande contador de histórias, o argumento de Tiago Santos cria momentos emocionantes e destacam-se grandes interpretações da estreante Daniela Melchior, de Francisco Froes, Diogo Morgado, Miguel Guilherme e Carla Maciel.

 

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O PODER DO SAXOFONE - Ricardo Toscano tem 25 anos e desde os 15 que estuda e toca jazz, tendo escolhido o saxofone alto como forma de expressão. O seu primeiro álbum de originais saíu agora na editora Cleanfeed - o disco é sobriamente intitulado Ricardo Toscano Quartet. Além do próprio, aqui estão João Pedro Coelho no piano, Romeu Tristão no contrabaixo e João Lopes Pereira na bateria. Dos seus temas, cinco são originais de Ricardo Toscano e um, “The Sorcerer”,  é a recriação de um original de Herbie Hancock. Numa recente entrevista Ricardo Toscano afirmou que o verdadeiro virtuosismo de um músico reside na sua capacidade de expressão e isso sente-se neste disco. Como Ricardo Toscano também reconhece uma das suas maiores influências é Coltrane e percebe-se ao longo deste álbum que o território musical dos blues é algo que o atrai e onde se sente à vontade - o tema “Lament” é prova disso mesmo. Ao longo de todo o disco Ricardo Toscano destaca-se como o pólo agregador, fomentando um diálogo permanente com os outros músicos do quarteto, por vezes até de forma inesperada. Por exemplo no tema final, “Grito Mudo”, é o saxofone que fala com a bateria, em paralelo com a relação que se cria entre o piano e contrabaixo. Destaco ainda a balada “Song Of Hope” e a declaração de intenções inicial, do tema de abertura, “Almeria”, onde o saxofone de Ricardo Toscano mostra o que vale. Em virtuosismo e em expressão.

 

COZIDO ILIMITADO -  Lembro-me que há uns anos tinha o hábito dominical de frequentar o cozido à portuguesa que nessa altura era servido na “Doca do Espanhol”, cuja cozinha era supervisionada por Justa Nobre ainda antes de ela ser conhecida por força da TV. Várias voltas da vida depois Justa e José Nobre estabeleceram-se no Campo Pequeno, no Spazio Buondi-Nobre e ali retomaram o buffet de cozido à portuguesa ao almoço de domingo. Claro que existe a lista habitual (que inclui até uma opção vegetariana), mas aquilo que os clientes procuram nesse dia é mesmo o cozido - abundante em tudo e como mandam as regras - carnes diversas de boa qualidade, legumes em fartura e cozidos no ponto, arroz do dito confeccionado como deve ser, enchidos das espécies requeridas e de boa qualidade. Tudo é permanentemente reabastecido e, no final, ainda existe uma sopa de cozido para quem quiser acabar de confortar o estômago. A acompanhar o cozido (25 euros por pessoa, bebidas à parte), veio o honesto vinho da casa, um Douro, da região de Mesão Frio, o “Consensual Justa Nobre”. Embora Justa e José Nobre façam questão de verificar como vão as coisas em todas as mesas, por vezes o serviço deixa a desejar, sobretudo nas zonas mais esconsas do restaurante. É o único senão.

 

DIXIT - “No país ideal de Graça Fonseca não havia notícias, havia comunicados” -  Pedro Santos Guerreiro

 

BOLSA DE VALORES - “Stardust”, a nova exposição de Nuno Gil tem 14 obras, reunindo um grupo de pinturas sobre tela e um conjunto de trabalhos em papel. Os valores de venda vão dos  1800 aos 8000 euros. A que aqui é reproduzida tem um preço de 3000 euros. Está na Módulo - Centro Difusor de Arte, Calçada dos Mestres 34, em Lisboa, até 29 de Dezembro.

 

BACK TO BASICS - “O mundo é um palco, só que a peça está pessimamente encenada” - Oscar Wilde

 

 

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QUEM VIER ATRÁS, QUE FECHE A PORTA

por falcao, em 23.11.18

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UM PAÍS DESCONTROLADO - Cada vez que há uma desgraça neste torrão à beira-mar plantado destaca-se uma tendência fatal para ninguém assumir responsabilidades. Quem olhar para as fotografias das pedreiras de Borba e da estrada que se equilibrava de forma instável entre elas percebe que a falta de bom senso, o laxismo e o desprezo pela segurança dos cidadão é total. Desde quem devia fiscalizar as pedreiras (o Estado), até quem devia garantir as estradas (as autarquias),  todos lavaram as mãos como Pilatos, embora há vários anos existissem alertas para o perigo existente. O caso da estrada entre Borba e Estremoz e o rol de declarações produzidas por governantes e por autarcas é o retrato de um país descontrolado, o retrato de um país onde nenhum poder gosta de ser escrutinado e onde os políticos fogem da realidade e das consequências dos seus actos como o diabo da cruz. Fez-se uma descentralização que atribuiu competências às autarquias sem lhes proporcionar recursos e deixa-se que o Estado continue laxista sem exercer a vigilância que lhe compete. O resultado desta receita só pode ser mau. O caso da estrada, das mortes por intoxicação numa habitação sem condições, no meio da pobreza total, mostra o outro lado do país da web summit: um país onde a miséria coexiste com a irresponsabilidade, no meio da ostentação de Estado. Falta dinheiro para a saúde e para a educação, as cativações são o emblema desta legislatura  - mas não nos devemos preocupar: António Costa gosta da ideia de acolher o Mundial de Futebol de 2030 por cá. Sócrates trouxe o Europeu, ele quer mais, venha o Mundial. Em 2030 já Costa provavelmente não será governo - quem vier atrás que feche a porta e pague as contas. Assim, lá vamos cantando e rindo, de vitória em vitória, até à derrota final…

SEMANADA - O Governo de António Costa já fez em três anos mais cativações que o Governo de Passos Coelho nos quatro anos da legislatura; a Comissão Europeia considerou que a proposta de Orçamento do Estado de Portugal para 2019 coloca um “risco de incumprimento” do Pacto de Estabilidade e Crescimento;  na última década o porto de Lisboa perdeu 31,2% das escalas de navios de mercadorias; em compensação o porto de Lisboa registou em outubro o melhor mês de sempre em número de passageiros de cruzeiro, batendo o anterior recorde de Outubro de 2013e atingindo agora os 108.875 passageiros; o Parlamento prevê gastar no seu funcionamento  mais 3,2 milhões de euros em 2019 do que este ano; as dívidas dos hospitais a bombeiros e a privados estão a provocar problemas no transporte de doentes por ambulâncias; segundo a Marktest 22,6% dos portugueses viram filmes, séries ou documentários online nos últimos 30 dias, mas entre os espectadores até 34 anos este número sobe para 54,2%; a produção de vinho deverá ser este ano a mais baixa das últimas duas décadas e o INE prevê uma quebra de 20%; segundo uma sondagem do Guardian os partidos populistas europeus mais que triplicaram o apoio de eleitores nos últimos 20 anos; o número de jovens colocados à guarda do Estado por terem cometido crimes aumentou 85% no ano passado.

PRODUTIVIDADE PARLAMENTAR - Desde o início da legislatura já foram contabilizadas 4.576 ausências dos deputados nas 324 sessões plenárias realizadas, uma percentagem de faltas de 6,54% e 87 foram classificadas como injustificadas. As sessões de quinta-feira são as que registam mais faltas e com a entrada da Primavera e o bom tempo aumenta o número de ausentes.

 

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MISTÉRIOS POR RESOLVER - Uma mulher esteve presa 15 anos, cumprindo pena por um crime que sempre afirmou que não tinha cometido. Quando Casey Carter foi presa as redes sociais mal existiam, a circulação da informação era completamente diferente. Ao sair da prisão choca de frente com a nova realidade quando um site de mexericos mostra fotografias suas num centro comercial a comprar roupas, noticiando a sua libertação, poucos minutos depois de tudo acontecer. Ao ver um reality show de televisão,  sobre crimes não desvendados, convence a produtora do programa a investigar o seu próprio caso. “A Bela Adormecida Assassina” é o novo policial de Mary Higgins Clark em parceria com Alafair Burke. Relata a busca da acusada pela sua inocência, num novo mundo complexo a que tem dificuldade em se adaptar. Enquanto as pessoas que lhe são mais próximas querem evitar que ela se sujeite à lógica de um reality show, Casey persiste e a produtora responsável pelo programa começa a vislumbrar que ela pode de facto estar inocente, contrariando aliás o parecer de parte da sua própria equipa. É um policial fascinante, com um final completamente imprevisível. Mary Higgins Clark é autora de mais de trinta romances e vendeu em todo o mundo mais de 150 milhões de exemplares. Alafair Burke é uma antiga advogada de acusação, actualmente professora de direito criminal e autora de mais de uma dezena de livros. “A Bela Adormecida Assassina”  foi editado em Portugal pela Bertrand.

 

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AS POSES DE RODIN - Na galeria de exposições temporárias da Fundação Gulbenkian está uma imperdível exposição que reúne três dezenas de esculturas das coleções do Museu Calouste Gulbenkian e da Ny Carlsberg Glyptotek de Copenhaga sob o tema da pose na escultura francesa do século XIX. Feitas praticamente ao mesmo tempo, estas duas colecções, que mostram a escultura que se fazia em Paris no tempo de Rodin, são mostradas em conjunto pela primeira vez. Rodin, Carpeaux ou Dalou, são os autores representados nesta exposição que estará na Gulbenkian até 4 de Fevereiro, seguindo depois até à Glyptotek de Copenhaga. Na imagem “As Bençãos”, de Rodin. Nota: A exposição está aberta nas  sextas feiras até às 21h00. Outras sugestões: em primeiro lugar a nova exposição de Miguel Teles da Gama, Lux in Tenebris, que estará até 5 de Janeiro na Fundação Portuguesa das Comunicações; Cláudio Garrudo viajou num cargueiro em alto mar para criar o seu novo trabalho, a exposição de fotografia Trinus e o livro homónimo,  que serão apresentados neste sábado dia 24 de novembro, às 18h00 na Galeria das Salgadeiras  (Rua da Atalaia 12 a 16, Lisboa); finalmente no Museu Berardo “Saudade, China & Portugal – Arte Contemporânea”, com obras de artistas portugueses e chineses como André Sousa, José Pedro Croft, Luísa Jacinto, Joana Vasconcelos, Pedro Valdez Cardoso, Rui Moreira, Vasco Araújo,  Leng Guangmin, Tao Hui, Liu Jianhua, Rui Moreira, Cheng Ran, André Sousa, Guan Xiao, Sun Xun, Shi Yong, Xia Yu e Liang Yuanwei.

 

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O ENCANTO DO PIANO - O pianista norueguês Tord Gustavsen começou por estudar psicologia e tem uma tese publicada sobre os paradoxos da improvisação - ao mesmo tempo que estudava jazz. Mais tarde dedicou-se à musicologia e ensinou piano e jazz na Universidade de Oslo. O seu primeiro disco data de 2003 (“Changing Places”) e foi gravado com um trio. Mas foi na formação de quarteto que se fez mais notado com “The Well (2012) e “Extended Circle” (2014). Agora regressa à sua formação original de trio com o novo “The Other Side”, onde mostra temas originais , temas influenciados pela música folk do seu país e outros trabalhados a partir da música de Bach. A formação inclui, além de Tord Gustavsen no piano e teclados electrónicos, o baterista Jarle Vespestad que com ele tem tocado e o baixista Sigurd Hole, que se estreia com Gustavsen e que é o principal responsável pela inclusão de referências folk e de uma sonoridade diferente  - e basta ouvir os temas “Duality” e em “Re-Melt” para se perceber como traz um contributo ao grupo. Ao todo são doze temas - e a faixa de entrada, “The Tunnel” estabelece o ambiente musical, envolvente, que caracteriza a sonoridade poética de Tord Gustavsen - também evidente nos outros originais, como a faixa título “The Other Side”, “Left Over Lullaby no.4” e “Curves”, que encerra o disco e nos remete para memórias passadas do grupo. Tord Gustavsen Trio, “The Other Side”, ECM Records, no Spotify.

PROVAR -  Quando não se sabe o que podemos fazer para jantar, qual a solução? Ver se há ovos e o que se pode cozinhar com eles. Para mim ovos simplesmente mexidos são um prato magnífico - e podem vir sozinhos. Experimentem fazê-los muito bem batidos (usem uma varinha mágica em vez do garfo tradicional e sentirão uma diferença), cozinhados em manteiga - coloquem generosos pedaços de manteiga e os ovos ao mesmo tempo (sem deixar a manteiga derreter primeiro). O truque é cozinhar os ovos em lume o mais brando possível, mexendo sempre. Quando os ovos começarem a ficar mais sólidos desliguem a chama e acabem de mexer só com o quente residual da frigideira e sirvam logo de seguida. Estes ovos, muito batidos, mal passados em manteiga e cozinhados lentamente fazem toda a diferença. Se quiserem adicionem cogumelos que saltearam antes, ou pedaços de tomate com bocadinhos de um bom chouriço que também previamente cozinharam um pouco. Claro que tudo melhora ainda mais se tiverem à mão túberas ou, melhor ainda, trufa preta. Mas no fim do dia uns suaves ovos mexidos, cozinhados no ponto, acompanhados de um bom pão e umas lascas de presunto cortado fino fazem um belíssimo e leve jantar.

DIXIT -  “Portugal está para a Madonna como Lloret del Mar está para os putos” - Herman José

 

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BOLSA DE VALORES - Pedro Cabrita Reis criou para a Vista Alegre uma peça de porcelana, uma taça, que recebeu o nome “De Natura” e tem um preço de venda ao público de 600 euros.

BACK TO BASICS - “A lógica leva-nos do ponto A ao ponto B; a imaginação leva-nos a todo o lado” - Albert Einstein

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Esta semana destaco dois factos políticos. O primeiro é apenas curioso - o Bloco de Esquerda anunciou querer ser Governo, com o PS, claro, e apontou até nomes ministeriáveis. A partir de agora o suspense não é saber quem serão os próximos ministros após as eleições legislativas do próximo ano; o suspense é saber o que o PCP fará se o Bloco, ou alguma das suas margens, entrar para um futuro Governo de António Costa. O segundo facto político é importante, bem mais importante, e decorre de uma intervenção doutrinal do Presidente da República sob o tema “Portugal Independente - A partir da sua história, que futuro desejável para Portugal?”. Tratava-se o primeiro Encontro de reflexão promovido pela Fundação Batalha de Aljubarrota e nele Marcelo Rebelo de Sousa fez uma intervenção, escrita, cheia de alusões ao presente e carregada  de recados diversos virados para o futuro próximo. Numa alusão concreta a factos recentes o Presidente da República, no contexto do enquadramento dos actos eleitorais de 2019 (Europeias e Legislativas), pediu aos partidos “clareza dos propósitos” e “verosimilhança da solidez da sua base de apoio político  - para que as propostas não fiquem apenas como meras intenções sem capacidade de ser poder”. Depois fez uma alusão a alguns protagonistas políticos que têm estado, digamos, apagados, numa frase que parece destinada a alguma oposição:  “Quem se atrasar ou faltar mesmo à chamada para o encontro com os portugueses não se poderá queixar do destino nem da penosidade do recomeço da caminhada nos idos mais próximos”. Mas o Presidente não se ficou por aqui: reconheceu que existe um debate a aprofundar sobre o sistema eleitoral e aconselhou os partidos parlamentares a terem em conta o debate que sobre o tema já começou fora do Parlamento, na Sociedade Civil - uma discreta referência às ideias de um recente encontro da SEDES e da Associação Por Uma Democracia de Qualidade, onde Marcelo aliás esteve, e em que o tema central foi a revisão da Lei Eleitoral. E, finalmente, referindo-se à necessidade de manter a coesão do território, o Presidente da República foi claro a elogiar o trabalho desenvolvido nas Regiões Autónomas da Madeira e Açores, mas também claríssimo a deixar no ar que não será a criar novas regiões que o problema do desenvolvimento do país se resolverá. Sumário da lição parlamentar: partidos deixem-se de fantasias e sejam realistas, oposição faça o favor de trabalhar, Assembleia da República assuma a questão da revisão da Lei Eleitoral e senhores políticos desenvolvam a descentralização mas não fragmentem o país. Marcelo pegou na pá da padeira de Aljubarrota e não foi brando.

 

SEMANADA - 32% das crianças portuguesas entre os 2 e os 10 anos têm excesso de peso; o movimento de passageiros nos aeroportos portugueses atingiu os 52,7 milhões em 2017 e Lisboa destacou-se com o maior número,  26,6 milhões; de acordo com os dados de 2018 do Bareme Internet da Marktest, 526 mil lares de Portugal Continental possuem televisão com acesso à internet (smart TV) e a penetração deste equipamento duplicou nos últimos 3 anos; segundo a Marktest,  em termos musicais, em Portugal, as mulheres preferem o pop e os homens preferem o rock; durante a Web Summit deste ano registou-se, em Lisboa, um aumento de 20,5 por cento no número de compras e levantamentos nas redes de caixas automáticas e terminais de pagamento; os visitantes do Reino Unido ) foram os que mais operações efectuaram, seguidos dos cidadãos provenientes de França , Estados Unidos, Espanha e Alemanha; efeito colateral da  Web Summit: Lisboa foi citada em 8.195 notícias em meios online de mais de 110 países e segundo um estudo da Cision, os Estados Unidos foram o país que mais destaque deu ao evento seguido da Espanha, Reino Unido, França e Alemanha; a greve dos estivadores do porto de Setúbal está  a pôr em causa a capacidade de escoamento da produção  Auto-Europa ; no terceiro trimestre a economia portuguesa cresceu ao ritmo mais baixo do ano; a diminuição das exportações é a explicação avançada pelo INE para explicar os sinais de abrandamento que a economia portuguesa está a dar; na PSP há sindicatos com mais dirigentes que sócios.

 

ESTATÍSTICAS LISBOETAS - Lisboa tem actualmente 7230 edifícios “em mau ou péssimo estado de conservação”, a par de um total de 2626 imóveis total ou parcialmente devolutos.

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UMA HISTÓRIA DE ANGOLA - Aí está a nova edição de “Teoria Geral do Esquecimento”, um dos mais aclamados livros de José Eduardo Agualusa, editado originalmente em 2012, e que foi distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora em 2013, finalista do Man Booker International em 2016 e vencedor do International Dublin Literary Award em 2017. “Teoria Geral do Esquecimento” relata, na personagem de Ludo - Ludovica Fernandes Mano - a história de uma Angola sem rumo no fim da época colonial e nos primeiros anos da independência. No meio de tumultos generalizados Ludo, uma portuguesa assustada pelo que vê passar-se à sua volta, decide proteger-se e isolar-se no seu apartamento, em Luanda, erguendo uma parede que separa o seu apartamento do restante edifício e do resto do mundo e assim vive num universo só seu durante quase trinta anos, costas viradas à realidade que se desenha à sua volta e a tudo o que nessa época se passou - das lutas internas pelo poder à guerra civil, passando por negócios pouco limpos . A ficção desenvolve-se a partir de um imaginário de notas, poemas, desenhos e prosa que Ludo escreveu nesse período, conhecidos depois da sua morte, num hospital, aos 85 anos. Este é um exercício de ficção que se confronta com o recordar de uma dura realidade da Luanda desses tempos, assim evocada por José Eduardo Agualusa.

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ARTES DE TODOS OS TEMPOS - Até dia 18 a Sociedade Nacional de Belas Artes acolhe pela primeira vez a nova Feira da Associação Portuguesa de Antiquários, que passa a coexistir, naquele espaço e nesta época, com a outra Feira da Associação, que decorre em Abril na Cordoaria e que ali se realiza há mais de duas décadas. No novo espaço estão presentes 15 expositores (na Cordoaria este ano estiveram 25). A ideia é proporcionar uma maior selecção das peças expostas, condições de montagem e iluminação mais interessantes e um espaço mais contido. O resultado é bom e a opção de incluir expositores de várias áreas cria um contraste interessante proporcionando a descoberta de peças de todo o mundo representativas de diferentes épocas, países e correntes artísticas, desde a arte antiga à contemporânea, passando pela moderna. Destaco a presença da Galeria Bessa Pereira com peças de mobiliário moderno de referência, nomeadamente as desenhadas por Le Corbusier para alguns dos edifícios do seu plano de criação da nova Chandigarh, a capital do Punjabe na Índia,  no início dos anos 50, em colaboração com Pierre Jeanneret. Mas existem outras peças , como as que estão na fotografia - uma magnífica secretária do arquitecto e designer brasileiro Sérgio Rodrigues, acompanhada por uma cadeira original de Gerrit Rietveld, da segunda metade dos anos 60. Destaque também para as peças de decoração e jóias expostas por Isabel Lopes da Silva, para as obras mostradas pela Galeria S. Mamede e para as preciosidades mostradas por Manuel Castilho. Esta nova Feira de Arte e Antiguidades da APA ficará na Sociedade Nacional de Belas Artes até dia 18 - hoje das 16 às 21h00, sábado das 14 às 21H e domingo das 12 às 19h00. Rua Barata Salgueiro 36.

 

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REVISITAR A SOUL - O cantor de jazz norte-americano José James tem feito carreira introduzindo alguma inovação em repertórios antigos de grandes nomes - a sua reinterpretação de temas de Billie Holiday editada em 2015 sob o título “Yesterday I Had The Blues” passou com distinção na sempre difícil tarefa de fazer versões de obra alheia. Mas é precisamente esse o território onde José James se sente mais à vontade. Reincidiu agora com “Lean On Me”, que pega nos grandes clássicos de Bill Withers, um nome da soul music injustamente pouco recordado. Withers, que ainda vive, gravou entre 1971 e 1985, ano em que se retirou de cena, desgostoso com o caminho que a indústria discográfica levava. Pelo meio ficaram temas como “Ain’t No Sunshine”, “Grandma’s Hands”, “Lean On Me”, “Use Me”, todos retomados neste  novo disco onde José James consegue duas coisas: prestar uma homenagem e, sobretudo, mostrar o talento de Bill Withers, bem exemplificado nas suas 12 canções aqui recriadas. Para além dos temas já citados, destaque para as interpretações de “Who Is He” ou “Hope She’ll Be Happier” e para os arranjos de “Better Off Dead” e de “The Same Love That Made Me Laugh” que são especialmente interessantes, assim como um dos pontos altos deste disco, o dueto de James com Lalah Hathaway em “Lovely Day”.

 

TINTO OUTONAL -  À medida que o Outono entra pelo calendário apetece comida de conforto, acompanhada por um vinho honesto. Esta semana recomendo um vinho facilmente disponível e com uma boa relação de qualidade/preço (cerca de 5 euros)  - o Marquês de Borba Colheita, 2017, feito por João Portugal Ramos a partir das castas Alicante Bouschet, Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional, Petit Verdot e Merlot, fermentação dividida por lagar de mármore e cuba de inox, com controle de temperatura e estágio de seis meses em meias pipas de carvalho francês. É um vinho tinto jovem e suave, recomenda-se que seja servido a uma temperatura entre os 14°C e os 16°C. Tem uma bom aroma, com destaque para os frutos vermelhos, com equilíbrio entre fruta, acidez e taninos suaves. Acompanha bem carnes vermelhas, queijos intensos, pratos de bacalhau ou o tradicional cozido à portuguesa. João Portugal Ramos produz seis milhões de garrafas por ano de várias regiões do país, que têm como destino o Brasil, Estados Unidos, China e Suécia, além de Portugal e o Marquês de Borba é uma das suas marcas mais antigas e mais vendidas.

 

DIXIT - “Estaremos  no Governo quando o povo quiser” - Catarina Martins

 

BOLSA DE VALORES - Hoje, amanhã e Domingo são as últimas oportunidades para ver o magnífico “Worst Of” da companhia Teatro de Praga na sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, uma revisitação do teatro português feita com humor  e uma encenação invulgar - bilhetes de 10 a 17 euros.

 

BACK TO BASICS - “Não há regras absolutas de conduta, quer na paz, quer na guerra. Tudo depende das circunstâncias” - Leon Trotsky

 

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VITAMINAS ABSTENCIONISTAS - Se o Parlamento não se respeita a si próprio, como podem os eleitores respeitá-lo e porque hão-de os abstencionistas querer votar? A pergunta surge numa semana em que se descobriu mais um caso no Parlamento, depois das moradas falsas que deputados indicaram para ganharem mais uns cobres em subsídios de deslocações. Desta feita a coisa desceu a um nível ainda mais baixo, com um deputado, que é secretário geral do maior partido da oposição, a vigarizar a folha de presenças no plenário, pedindo a um colega de bancada para assinar por ele - no caso electronicamente através de uma password de exclusivo uso pessoal que assim, contra todas as normas, foi desviada da sua finalidade. Nem parece que estamos num parlamento, a coisa assemelha-se a um recreio onde miúdos inconscientes fazem asneiras que pedem a amigos para depois ocultar. A pouca vergonha cometida vale 69 euros por dia - curioso número como em tempos disse um Presidente da Assembleia da República. O facto de um deputado entrar na batota - e o embaraço silencioso dos seus pares - diz tudo sobre o estado a que chegámos. A coisa chegou ao nível das anedotas do menino Tonecas, só que a asneira, em vez de punida exemplarmente pelo líder do partido a que pertence, é classificada por Rui Rio como uma “pequena questiúncula” sem importância. Tenciona ele manter José Silvano como Secretário-Geral do PSD ou vai reforçar a dose de vitaminas abstencionistas ao eleitorado? Este Parlamento está a entrar na idade das trevas. E ao PSD não há luz que o ilumine.

 

SEMANADA - Na semana da Web Summit em Lisboa, a capital grega, Atenas, foi designada Capital Europeia da Inovação; no caso de Tancos, desde que se realizaram as detenções de elementos da PJM, o Presidente da República e o Primeiro Ministro já se pronunciaram publicamente 19 vezes sobre o tema - 11 por parte do Presidente e oito pelo chefe do Governo; António Costa afirmou que o Presidente da República manifestava ansiedade em relação a Tancos; um estudo divulgado esta semana indica que dois em cada três portugueses lêem as notícias de actualidade on line; o total das transações imobiliárias realizadas em 2017, representou um investimento de 24,3 mil milhões de euros, mais seis mil milhões de euros que em 2016, uma variação homóloga de 33,5%; há 14 concorrentes à construção de uma base espacial nos Açores; 50 milhões de euros é o investimento para os próximos cinco anos do STARLab, um laboratório conjunto de investigação e desenvolvimento tecnológico para o Espaço e para os oceanos que vai ser criado por Portugal e a China;  o Governo anunciou 100 milhões de euros para startups tecnológicas provenientes do Fundo Europeu de Investimento Estratégico; a Liga dos Bombeiros Portugueses classificou esta quarta-feira como "completamente desajustada da realidade do país" a nova lei orgânica da Autoridade Nacional de Proteção Civil.

 

IDIOSSINCRASIAS SOCIALISTAS - Manuel Alegre escreveu uma carta-aberta a António Costa, a propósito da posição da Ministra da Cultura sobre as touradas, onde sublinha que “é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correcto”.

 

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ANA, EU GOSTAVA DE IR CONTIGO PARA ÁFRICA - “Metade da Vida”, de V.S. Naipaul, originalmente publicado em 2001 (o ano em que o escritor  ganhou o Nobel) é um romance absolutamente cativante em que parte da história se passa com referências a Moçambique, ainda no tempo em que era uma colónia portuguesa. As origens familiares de Naipaul, vêm da Índia - embora tenha nascido em Trindade e Tobago e ido cedo para Inglaterra, onde estudou. Este romance cruza o dilema da própria família de Naipaul, entre as tradições e castas da Índia e a descoberta de novos mundos. O romance gira à volta de Willie Somerset Chandran, fruto da união entre um pai brâmane e uma mãe de casta inferior. Willie vai estudar para Londres onde, entre várias peripécias e aventuras, publica um livro de contos e se defronta com a descoberta da sua sexualidade - afastada de qualquer sentimento. O amor descobre-o por acaso numa noite londrina com Ana, uma jovem mestiça, de Moçambique, que ali estudava e que lhe escreve elogiando esse livro de contos. Apaixonado pela primeira vez, Willie segue Ana até ao seu país, ainda sob domínio colonial. As páginas do livro em que Willie conta a sua experiência africana, relatadas do ponto de vista de um homem que não sabe de onde vem, são brilhantes. No fim, após 18 anos, em vésperas da independência, Willie decide que precisa de viver outra vida - a que deixou de viver. E parte, dizendo a Ana: “Tenho quarenta e um anos. Estou cansado de viver a tua vida”.  V.S. Naipaul, “Metade da Vida”, tradução de José Vieira de Lima, editado pela Quetzal.

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DE OLHOS NOS OLHOS - Pedro Calapez produziu quatro dezenas de novas obras para serem apresentadas de forma invulgar - a maioria delas cirurgicamente colocadas ao longo das salas da Casa Museu Medeiros e Almeida (na imagem). A exposição tem um percurso recomendado e sugere-se a consulta de uma folha informativa que permite ir seguindo sala a sala o que se passa - e aí procurando e descobrindo as obras (algumas delas em locais pouco evidentes). O título da exposição é “Olhos nos Olhos” : “Procurarmos perceber porque determinados olhares não se fixam no nosso é o que permite penetrar no interior da pintura” - escreve Pedro Calapez no texto que acompanha a exposição. A montagem é muito cuidada, cada obra de Calapez integra-se nuns casos e provoca noutros, no meio da colecção de preciosidades do local, desde a capela à biblioteca, passando pelas outras salas do 1º andar. Na realidade trata-se de uma dupla descoberta - a de visitar este espaço pouco conhecido com a memória que lá está salvaguardada e, paralelamente,  ver a nova produção artística de Calapez, que em várias peças abre pistas de desenvolvimento da sua obra. Para além da miscigenação com a colecção da Casa Museu, há um espaço onde várias obras se apresentam a solo, com destaque para um conjunto da série de onze telas “ A Dor passou Para Os Quadros” e a pintura a pastel de óleo sobre papel “Como Os Homens Se Metem Para Dentro”. Todas as obras seguirão depois para a Alemanha, onde Pedro Calapez terá uma mostra brevemente. A exposição pode ser vista até 21 de Dezembro na Casa Museu Medeiros e Almeida, Rua Rosa Araújo nº 41.

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MAGANICES  - Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Magano é quem demonstra pouca ou nenhuma responsabilidade e é dado à lascívia, quem é jovial ou gosta de se divertir ou ainda quem demonstra malícia ou malandrice. Dito isto é também o nome de um trio dedicado à música popular alentejana, sem conservadorismos e com arrojo. Francisco Brito no contrabaixo e teclados, Nuno Ramos na guitarra e voz e Sofia Ramos na voz e no harmónio constituem os Magano cujo disco de estreia acaba de ser editado. O disco tem ainda participações de André Sousa Machado na percussão (exemplares, por sinal) e André Santos na Viola de arame e braguinha. Das 13 faixas deste álbum a maioria é baseada em temas populares.alguns com intervenções nas letras de nomes como João Monge ou Vanda Rodrigues. Dois são originais - “Que É Feito Dos Velhos Montes” de José Borralho e o magnífico “Açorda d’Alho”, uma deliciosa receita cantada de Joaquim Marrafa e Joaquim Banza. Tenho para mim que uma das razões da importância deste disco está nos arranjos e na sua conjugação com a voz de Sofia Ramos - o expoente é o tradicional “Trigueirinha Alentejana”, mas “Promessas” não lhe fica atrás. Sofia Ramos é uma voz rara, pela sua capacidade de interpretação, pelo timbre, pelo ritmo, pela entoação. Não é frequente em Portugal encontrar uma voz assim e, só por si, ela é razão bastante para ouvir este “Magano” com muita atenção.

 

ÁGUA-PÉ E CASTANHAS -  De onde vem a tradição de S. Martinho? Remonta ao início do século V e evoca Martinho de Tours, que fundou o mais antigo mosteiro conhecido na Europa, na região de Ligugé. Conhecido pelos seus milagres, o santo atraía multidões, foi ordenado bispo de Tours em 371 e foi sepultado a 11 de Novembro de 397 DC em Tours, que, por isso,  poucos anos depois se tornou local de peregrinação. Manda a tradição que desde essa época, na véspera e no dia das comemorações, o tempo melhora e o sol aparece, o que está na origem da expressão “verão de São Martinho”. O dia de São Martinho é festejado um pouco por toda a Europa, de forma diferente. Por exemplo em Espanha matam-se porcos, tradição que deu origem ao ditado popular “a cada cerdo le llega su San Martín” (“cada porco tem o seu São Martinho”). Em Portugal é tradição fazer-se uma festa, o magusto, beber-se água-pé ou jeropiga e provar-se  o vinho novo saído das vindimas de Setembro - seguindo o ditado popular, “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”. Mas a grande bebida deste dia é a água pé - que resulta da adição de mosto remanescente das uvas pisadas para o vinho com água e o engaço esmagado - o resultado é uma bebida leve, frequentemente um pouco gasosa. As normas europeias e a cegueira dos burocratas nacionais arredaram a água pé da legalidade e ela passou a ser mais ou menos clandestina ou comercializada com outros nomes. Acompanha bem os petiscos naturais desta época do ano, na celebração do Outono - castanhas, marmelo nas suas várias formas, e romãs.

 

DIXIT - “Se pensam que me calam, não me calam” - Marcelo Rebelo de Sousa

 

BOLSA DE VALORES - A Balcony é uma das mais recentes galerias de arte de Lisboa que trabalha com jovens artistas. “Sanditosamente” é uma exposição de Philipp Schwalb e DeAlmeida e Silva com obras muito estimulantes cujos preços vão de 600 a 8000 euros, dependendo dos materiais e dimensões, a grande maioria entre os 1500 e os 2000 euros. Rua Coronel Bento Roma 12A, www.balcony.pt

 

BACK TO BASICS - Não é a morte que devemos temer, mas sim não sentirmos que devemos começar a viver - Marcus Aurelius Antoninus

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HALLOWEEN NO PARLAMENTO - Segundo a Wikipedia o Halloween, que se celebra na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro, caracteriza-se pela realização de festas onde se utilizam máscaras e fantasias, lanternas feitas a partir de cascas de abóbora, e onde decorrem assombramentos vários, relatos de histórias assustadoras e exibição de filmes de terror. Dia das bruxas, como também é chamado por vezes, o halloween é uma tradição que tem pouco a ver com Portugal mas que nos últimos anos aterrou nas montras e um pouco por todo o lado, mesmo nos locais mais sérios. Até o Parlamento escolheu estes dias para o encerramento do debate do Orçamento de Estado de 2019 e sua votação na generalidade - o que dá um significado inteiramente novo à junção de assombramentos com a utilização de máscaras. Este ano a rainha das bruxas foi papel que calhou ao Ministro Centeno, permanentemente a voar sobre o hemiciclo na sua vassoura voadora que usa para as andanças europeias, esbanjando promessas, auto-elogios e fazendo números de ilusionismo como o da diferença de 590 milhões de euros entre a versão do OE entregue dia 15 de Outubro em Lisboa e outra, no dia 16 de outubro, entregue em Bruxelas. Centeno quer outros vôos mais altos, o seu testamento político está no Orçamento que nos deixa - o único problema é que ninguém verdadeiramente sabe o que dali vai sair quando a realidade acabar com a fantasia.

 

SEMANADA - 32 mil brasileiros adquiriram nacionalidade portuguesa no ano passado e este ano já foram aprovados mais 23 mil pedidos;  o Governo decidiu suspender há dois meses a divulgação das subvenções vitalícias dos políticos sem pedir parecer a ninguém; a altura dos autocarros movidos a gás da STCP, encomendados no ano passado, não os deixa passar por baixo de alguns viadutos da área do Grande Porto, afectando cinco carreiras; a despesa da saúde em Portugal está 30% abaixo da média europeia em termos de PIB; o aumento da despesa pública em medicamentos nos últimos três anos rondou os 500 milhões de euros; o acesso dos doentes a medicamentos inovadores em Portugal pode demorar até 38 meses; a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) critica o processo de informatização que provoca  falhas diárias nos centros de saúde e nos hospitais e que põe em causa a relação médico-doente; Marcelo Rebelo de Sousa responsabilizou a decisão do Governo de reduzir o horário semanal de trabalho das 40 para as 35 horas pelo acréscimo de 70 mil euros em horas extraordinárias registado nas contas da Presidência da República em 2017; segundo o INE o preço por metro quadrado de um alojamento familiar em Portugal é de 969 euros, no Porto é de 1460 euros e em Lisboa é de 2753 euros; um estudo europeu indica que três quartos dos portugueses temem falat de rendimentos na velhice;

 

BELEZA ORÇAMENTAL -  A deputada Isabel Moreira foi fotografada pela agência Reuters a pintar as unhas no plenário da Assembleia da República durante o debate sobre o Orçamento de Estado para 2019.

 

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BARRIGA INCHADA? - A nutricionista Cláudia Cunha tem mais um livro que aborda os problemas sentidos por quem tem frequentemente barriga inchada, cólicas, gases, obstipação e más digestões. Com o título “Livre Trânsito”, o livro é um guia de boa alimentação baseado num regime alimentar baixo em FODMAP, tema que estudou no King’s College, de Londres. Como a autora refere na introdução a dieta baixa em FODMAP baseia-se nos alimentos que podem provocar determinados sintomas, todos eles relacionados com desconforto no sistema digestivo e em particular no intestino. O nome FODMAP vem da conjugação das iniciais de  Fermentáveis, Oligossacáridos, Dissacáridos, Monossacáridos e Polióis. Os oligossacáridos, dissacáridos e monossacáridos são hidratos de carbono constituídos por moléculas de açúcar e os polióis são moléculas de açúcar com uma cadeia de álcool. Todos são fermentados pelas bactérias da flora intestinal, contribuindo nomeadamente para a formação de gases. Esta dieta baixa em FODMAP permite identificar os alimentos que podem ser prejudiciais para o intestino e perceber aqueles que são mais favoráveis para cada pessoa. O livro aborda as principais patologias intestinais, tem conselhos práticos sobre a dieta baixa em FODMAP, o processo de reintrodução de alimentos, os respectivos planos de dieta e uma série de receitas. Claúdia Cunha editara em 2016 o livro “Doce veneno - Plano de 21 dias para se livrar do açúcar de uma vez por todas”. Este novo “Livre Trânsito - O Regime Alimentar Baixo em FODMAP” é editado pela Esfera dos Livros.

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O CINEMA IDEAL MOSTRA FOTOGRAFIA - O Cinema Ideal existe graças à determinação da Casa da Imprensa, dona do espaço, em manter ali uma sala de cinema. Agora a Casa da Imprensa e o Cinema Ideal associam-se numa mostra de filmes a realizar anualmente onde os temas relacionados com a imprensa estarão em destaque. Nesta primeira edição o mote é a fotografia, com um conjunto de 6 filmes sobre fotógrafos e a antestreia de um filme que adapta um livro de um dos grandes repórteres de guerra do nosso tempo, “Mais um Dia de Vida” de Ryszard Kapuscinski. Ao longo de uma semana, de 1 a 7 de Novembro, com duas sessões diárias às 15:45 e 19:15, podem ser vistos  filmes sobre Robert Frank, Gérard Castello-Lopes, Robert Mapplethorpe, Robert Doisneau, Vivian Maier e Sebastião Salgado. Os bilhetes têm o preço único de 3 € e os filmes sobre os fotógrafos serão lançados em DVD (ao preço de 5€) e e disponíveis nos videoclubes das plataformas de televisão e na Filmin. São estes os filmes: “Mapplethorpe – Vejam as Imagens”, de Fenton Bailey e Randy Barbato; “Robert Frank, Não Pestanejes”, de Laura Israel; “Robert Doisneau, o Rebelde do Maravilhoso”, de Clémentine Deroudille; “À Procura de Vivian Maier”, de John Maloof e Charlie Siskel;  “Olhar / Ver – Gérard, Fotógrafo”, de Fernando Lopes; e “O Sal da Terra – Uma viagem com Sebastião Salgado” de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.

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EXIBICIONISMO OU INTIMISMO? - O novo disco de Annie Clark, aliás St.Vincent, é um exercício de disfarce e sedução. Vamos por partes: há cerca de um ano St. Vincent lançou Masseduction, um disco duro e cru, maquilhado de latex e carregado de insinuações sexuais, onde ela ensaiava contar pequenas mas vigorosas histórias de atracção,  envolvimento, ruptura - muito dele certamente autobiográfico após uma relação tempestuosa com a modelo Carla Delevigne. Um ano depois Annie Clarke fechou-se durante dois dias num estúdio em Nova Iorque para gravar novas versões desse álbum de 2017, mas em vez do som incisivo da banda com que trabalhou, agora usa apenas piano e por vezes guitarra acústica. Refez completamente, do ponto de vista vocal e musical, 12 dos 13 temas originais (só falta o pequeno interlúdio de “Dancing With A Ghost” que aqui se incorpora logo na faixa escolhida para abertura no novo alinhamento, “Slow Disco”. O nome escolhido para esta versão acústica é toda uma proclamação - em vez do ambíguo e provocante Masseduction, agora o conjunto destas revisitadas canções leva o título de MassEducation, como se o propósito fosse mostrar o primado da suavidade, do romance e da saudade. Continua a ser um disco pop, mas onde as palavras se tornam muito mais fortes, onde o dramatismo vocal se destaca e onde o intimismo se sobrepõe ao exibicionismo anterior. Toda uma conversão - ou como as versões acústicas são um passaporte sem destino anunciado. No Spotify.

 

SALSA RENOVADO - José Duarte começou as suas lides de restauração na Tia Matilde, há umas dezenas de anos. Cedo se interessou pela cozinha tradicional portuguesa, sobretudo pela Alentejana, foi trabalhando em diversos restaurantes conhecidos e ao mesmo tempo frequentou a Escola de Hotelaria de Lisboa. Em Agosto de 2005 abriu em Alvalade o Salsa & Coentros, na época com Belmiro de Jesus na cozinha. O restaurante rapidamente ganhou nome e merecida fama baseado num conceito: qualidade, serviço e preço honesto. 13 anos depois, no final deste verão, José Duarte resolveu refrescar a casa: foram-se as cores mais escuras, as paredes ganharam luz, as janelas ganharam vida e resguardo do exterior. A casa ficou mais alegre e ao mesmo tempo ganhou intimidade. Felizmente as mudanças são só de decoração, a qualidade da cozinha mantém-se, assim como um sensato equilíbrio de preços. A escolha de vinhos é cuidada e há sempre um vinho recomendado, que vale a pena experimentar. A casa fez fama com as suas entradas (as favinhas de coentrada, as empadas de galinha, os pimentos com coentros, a paiola de porco preto, o queijo de cabra de leite fervido), com petiscos como ovos mexidos com túbaras, ou coisas ainda mais sérias como a vitela Salsa & Coentros, o arroz de perdiz, o bacalhau confitado. Para além de doces conventuais, há sobremesas de época como é o caso, agora, do marmelo cozido. A nova decoração ajuda ao conforto da casa e ainda bem que a qualidade se manteve. Rua Coronel Marques Leitão, 12 (junto aos Bombeiros e Mercado de Alvalade), telefone 218410990, encerra aos Domingos.

 

DIXIT - “Aquilo a que estamos a assistir no Brasil é à dificuldade que há em pôr termo a um longo regime convencido de possuir a verdade, como é o caso do PT, e identificar as forças capazes de o substituir.” - Manuel Villaverde Cabral

 

BOLSA DE VALORES - Até 16 de Novembro pode ver a exposição “What Do They Feel?” do norte-americano Matt Mullican na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 33), com 16 obras, a maioria de grandes dimensões, com preços que vão dos 25.300€ a 80.500€. Duas delas estão reservadas. Obras de Mullican estão presentes em várias grandes colecções internacionais de arte contemporânea.

 

BACK TO BASICS - “O verdadeiro prazer está na descoberta e não no conhecimento” - Isaac Asimov

 

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CAVACO, AS MEMÓRIAS DE UM NARCISO - Esta semana Cavaco Silva resolveu, com estrondo, sair da sua sonsa reforma. Com o arrogante estilo de sempre veio contar a sua versão da História recente de Portugal - centrada nele próprio, narciso como é, em mais um volume da sua biografia política. Não é muito usual que um ex-Presidente da República, menos de três anos depois do fim do seu mandato, se ponha a revelar factos, teoricamente reservados, ocorridos durante o desempenho do cargo, ainda para mais relativos ao Governo em exercício e ao anterior Primeiro Ministro. Só por si esta pressa de moldar a História à sua própria versão é sinal da falta de elegância e de fair play, assim como do ressabiamento que caracterizaram a sua acção política ao longo dos anos. O lema de Cavaco, recorde-se, é “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, o que só por si é um manifesto de arrogância. E é, além disso, uma falsificação no que toca à parte do “nunca me engano”  (como aliás se pode comprovar pela sua acção enquanto Primeiro-Ministro e, depois, enquanto Presidente da República). Foi a partir do núcleo duro de Cavaco Silva que o BPN se criou, foi com ele que parte do PSD se refinou enquanto aparelho oportunista na política e nos negócios. Além disso, como hoje já se percebe bem melhor, o modelo que criou e estimulou de desenvolvimento para o país, à custa de betão e obras públicas, é polémico, serviu para enriquecer alguns, financiar a política e partidos e os resultados não são os melhores se compararmos com outros países - nomeadamente se olharmos para a liquidação da agricultura e da pesca. A sua actuação enquanto Presidente da República tem episódios lamentáveis, que ele omite naturalmente. O facto de haver quem veja nele o eterno D. Sebastião do PSD diz muito sobre uma geração de políticos que o continuam a colocar num pedestal e que vivem num registo de adoração elucidativo da pobreza das ideias que têm.

 

SEMANADA - Portugal mantém a terceira maior dívida pública da União Europeia (UE), em 2017; o Ministro das Finanças não revelou ainda o montante das cativações que prevê fazer no Orçamento de Estado de 2019; o ex eurodeputado socialista Vital Moreira afirmou que a redução das propinas proposta pelo Governo é uma medida eleiçoeira e reacionária; o montante das compras feitas com cartões bancários portugueses no estrangeiro durante o verão cresceu 24% em relação ao ano anterior e atingiu 1093 milhões de euros; os trabalhadores portugueses fazem uma pausa de almoço de 58 minutos em média, a maior de toda a Europa;  segundo a Marktest nos últimos anos triplicou o número de portugueses que utiliza serviços de mensagem instantânea através de várias aplicações; a rádio capta cerca de um terço dos seus ouvintes regulares entre as seis e as dez da manhã; está prevista a construção de 208 novos estabelecimentos hoteleiros em Lisboa, quase duplicando a capacidade existente; no último mês morreram oito pessoas em acidentes no mesmo troço do IC8; uma comissão parlamentar deu parecer desfavorável à nomeação do deputado socialista Carlos Pereira para vogal do conselho de administração da ERSE, para onde tinha sido indicado pelo Governo.

 

MELODIAS DE SEMPRE - Os actuais políticos podem ficar descansados que a sua influência perdura - uma candidata à liderança da JS apresentou um currículo académico com mentiras nas habilitações reais.

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O FASCÍNIO PELO NOVO  - A História de Portugal no período dos Descobrimentos dos séculos XV e XVI é absolutamente extraordinária e o novo livro de Onésimo Teotónio Almeida, “O Século dos Prodígios” aborda uma área particularmente interessante desse período - a evolução da Ciência no Portugal da expansão. Trata-se de uma série de ensaios, artigos e comunicações, feitos ao longo de vários anos e em diversas circunstâncias. Editados finalmente em conjunto, permitem, segundo o autor, “uma revisitação global do papel português na abertura à modernidade científica” traçando  uma história paralela à das descobertas e que mostra o fascínio pelo novo. Usando ainda as palavras do autor:”O núcleo duro da temática do livro circula em torno da ideia de que durante a Alta Idade Média foram surgindo sinais, alguns deles muito isolados e sem efeitos posteriores, de uma viragem de enfoque, cada vez maior, para a natureza e o conhecimento empírico dela. Outro aspecto desse núcleo duro é a noção de que um dos momentos da referida viragem (...) teve lugar em Portugal durante o período da Expansão”. E, num dos ensaios publicados: “A necessidade obrigou os portugueses de Quinhentos a reinventarem a roda. A verdade, porém, é que a reinventaram mesmo, e num contexto completamente diferente do grego e do medieval, ao terem de se largar Atlântico fora «por mares nunca dantes navegados», forçados a mapear metade do mundo, algumas partes completamente desconhecidas e outras, a maior parte, inteiramente desconhecidas dos europeus”.

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A ENERGIA DO CARVÃO - Vou começar com uma citação de Kandisky:  “De todas as Artes, a pintura abstracta é a mais difícil. Requer que saibamos desenhar bem, que tenhamos que ter um sentido elevado de composição e da cor, e que sejamos verdadeiros poetas. Este último ponto é essencial.” Esta citação está  na apresentação da exposição “A Dull Flask”, de Pedro Sousa Vieira, uma série inédita de desenhos de carvão sobre papel patentes na Galeria Belo-Galsterer até 21 de Dezembro (na imagem). Sousa Vieira, que nasceu e trabalha no Porto, desenvolveu nos últimos anos obra em vários meios, do desenho, à pintura, instalação e fotografia. Nesta nova exposição volta ao traço a carvão forte e simples que o caracterizou no início da sua carreira, com uma série de desenhos abstractos de uma grande intensidade. Outra sugestão é a exposição "O Material Não Aguenta: Júlio Pomar e Luisa Cunha", com curadoria de Sara Antónia Matos, no Atelier-Museu Júlio Pomar.  Esta exposição faz parte da série que tem vindo a ser apresentada e que procura cruzar a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas, “de modo a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade”.  A preparação desta exposição foi iniciada com o pintor ainda em vida e Júlio Pomar reconheceu na obra de Luísa Cunha “uma qualidade irónica e até mordaz em relação à realidade”, que, segundo o pintor, prometia uma aproximação inesperada entre a obra de ambos. Até 13 de janeiro.

 

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AS ESTRADAS SÃO PARA IR- Márcia é uma das mais interessantes vozes femininas da música popular portuguesa contemporânea. Faz parte daquela geração que estudou na escola de jazz do Hot Clube e isso nota-se no cuidado colocado na composição, nos arranjos e na forma como canta. A sua carreira começou no Real Combo Lisbonense (projecto de João Paulo Feliciano) mas mantém uma actividade discográfica a solo desde 2009 - no disco de estreia existia o tema que a tornou conhecida, “A Pele Que Há Em Mim”, que posteriormente teve uma versão em dueto com J.P.Simões. Do seu círculo de trabalho faz também parte Luis Nunes (que assina musicalmente Walter Benjamin) e Filipe C. Monteiro, que assina a produção da maior parte dos temas deste novo disco, e que musicalmente usa o nome Tomara. Esta geração aborda a canção portuguesa de forma diferente e Márcia gosta de cruzar colaborações - António Zambujo, Samuel Úria e Salvador Sobral são os convidados para duetos neste novo disco,  “Vai e Vem”. Márcia escreveu todas as 12 canções deste álbum, essencialmente intimista, a reflectir sobre si própria, sobre o amor, mas também sobre o seu tempo. Rodeando-se de bons músicos, com arranjos de uma diversidade atraente, Márcia consegue estabelecer um caminho muito próprio. As minhas canções favoritas são “Manilha”, “Emudeci”, “Do Que Eu Sou Capaz, “Corredor” e “Ao Chegar”, de onde aliás é tirada a expressão que dá o título a estas linhas : “Lembra-te ao chegar/ que as estradas são para ir/vemos sempre mais ao longe”.

 

A BELA GAROUPA - Volta e meia um amigo leva-me a descobrir um daqueles restaurantes lisboetas que se mantém fiel à clientela habitual sem cair em modas. Esta semana foi assim que descobri o Restaurante Manuel Caçador, que fica bem perto do Areeiro. Por sugestão desse meu amigo, que é cliente regular, fui pela garoupa grelhada. O restaurante tem uma belíssima banca de peixe logo na entrada, ao fundo do balcão, antes de se passar para a sala, simples, luminosa e confortável. O primeiro comentário vai para o pão da casa, cortado em nacos grandes, e que veio com umas azeitonas bem temperadas que serviram para entreter enquanto não chegaram as belíssimas postas de garoupa, grelhadas no carvão, no ponto certo. Vieram acompanhadas de feijão verde e batata cozida de boa qualidade. Devo dizer que não comia uma garoupa grelhada tão boa desde o tempo do falecido Senhor António do Restaurante A Paz, na Ajuda. Uma posta de garoupa alta, fresca, bem grelhada, é uma coisa única e esta do Manuel Caçador far-me-à lá voltar mais vezes. Do outro lado da mesa o meu amigo dizia-me que em próximas ocasiões devo experimentar o peixe espada grelhado ou a pescada cozida. O único conceito que existe neste restaurante é que o peixe é fresquíssimo e muito bem cozinhado. O vinho tinto da casa é honesto, o ambiente é muito simpático.  Restaurante Manuel Caçador, Rua Agostinho Lourenço 339 A, Telefone 218 486 965.

 

DIXIT - “A direita portuguesa hoje não existe”... “Rui Rio é uma anomalia no sistema político” - Vasco Pulido Valente.

 

BOLSA DE VALORES - As obras de Pedro Sousa Vieira da série A Dull Flask são desenhos a carvão em papel Hahnemühle William Turner, 100% algodão, 310g, com as dimensões de 31,5 x 22,9, com o preço unitário de  750 euros, sem moldura, com IVA incluído, na Galeria Belo-Galsterer Rua Castilho 71, RC, Esq.

 

BACK TO BASICS - Salta! Enquanto cais descobrirás como abrir as tuas asas - Ray Bradbury

 

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publicado às 13:00

O TRAULITEIRISMO REMODELATIVO

por falcao, em 19.10.18

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O TRAULITEIRISMO REMODELATIVO - Tancos ainda não acabou. Depois do Governo, vem a remodelação militar. O Chefe do Estado Maior do Exército mandou uma mensagem às tropas a dizer que se ía porque “as circunstâncias políticas assim o exigiam” e o Presidente da República, e Comandante Supremo das Forças Armadas, disse que o pedido de demissão do general Rovisco Duarte se devia a “razões pessoais”. Vai uma diferença grande entre uma afirmação e outra. Mas não foi a única peripécia de Marcelo esta semana: depois de há uns meses ter alertado para os perigos de orçamentos eleitoralistas, esta semana veio explicar, sob a sua habitual capa didáctica, que era normal a um ano de irem a votos os partidos terem tentações eleitoralistas. Difícil de perceber? Nem por isso. Chama-se a isto querer agradar a gregos e a troianos ou, numa outra versão,  querer tapar o sol com a peneira. E esta foi a semana da grande remodelação - sendo que o facto mais relevante foi a ascensão de uma estrela socrática, João Galamba, que se caracteriza por ser um dos mais vivos defensores do trauliteirismo no debate político e que se tornou um perito na manipulação dos factos. O folclore da remodelação foi apenas uma pastilha para a azia em época de Orçamento de Estado. Foi o segundo capítulo da pré-campanha eleitoral. Como Manuel Villaverde Cabral escreveu, a remodelação é sempre um sinal de fraqueza de quem escolheu mal.

 

SEMANADA - Segundo o  Eurostat Portugal é o país europeu com mais pessoas perto da exclusão - 2,4 milhões em risco de pobreza; as famílias portugueses continuam a pagar mais IRS do que antes da crise; em 2019 o Fisco prevê arrecadar a maior receita de sempre, mais de 45,6 mil milhões de euros na cobrança de impostos directos e indirectos; um relatório da Organização Internacional do Trabalho caracteriza como “precário e desigual” o emprego português no pós-crise; entre janeiro e setembro de 2018 chegaram ao Portal da Queixa cerca de 2034 reclamações dirigidas ao setor da Saúde, verificando-se um aumento na ordem os 72%, comparativamente com o período homólogo;  os dois ministérios que tutelam as entidades que previnem e combatem incêndios - Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural e Administração Interna são os dois únicos com  cortes no Orçamento de Estado; das 88 pessoas que já passaram pelo Governo de António Costa apenas 22 nunca mudaram de cargo desde o início e o ministério com maior número de mudanças é o da Cultura;  78.6% dos utilizadores de internet portugueses dizem aceder às redes sociais entre as 20 e as 22h00, em cima do período nobre tradicional dos canais de televisão.

 

PERGUNTA OCIOSA - O atraso de mais de meio ano no início de pagamentos das reformas pela Segurança Social e  Centro Nacional de Pensões é uma forma de cativação da despesa do Estado? O Governo e os seus aliados prevêem estabelecer um prazo máximo de resposta para o início do pagamento após o pedido ser efectuado?

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INSULTOS ILIMITADOS - Há um livro recente que certamente não entra na Biblioteca de Serralves. Chama-se “O Pequeno Livro Dos Grandes Insultos” e a sua substância foi recolhida por M.S.Fonseca. Já havia dicionários de calão,  mas não havia um repositório tão completo de insultos. Quando digo insultos os estimados leitores nem imaginam o que lá podem encontrar. Aconselho que o procurem nas livrarias e o espreitem. Dificilmente resistirão a levá-lo, uma vez constatada a enorme utilidade que pode ter no dia-a-dia. Por exemplo, depois de ouvir as audições sobre Serralves na Comissão de Cultura do Parlamento, apeteceu-me despejar em cima daquela gente o conteúdo total do livro. Este é também  o livro ideal para animar debates com o novo governante Galamba ou para qualquer programa de análise de ocorrências futebolísticas e em geral todas as outras de grau zero de bom senso. Também deve ser bom para uma conversa com pessoas como Ana Avoila ou Mário Nogueira, quando nos querem fazer passar por parvos. “A matéria deste livro é o palavrão, matéria com que se desfazem sonhos, reputações ou egos”, escreve o seu autor no texto de introdução, onde classifica o insulto como “a última fronteira da linguagem” ou, de forma mais explícita, “o palavrão é a linguagem em cuecas”.

 

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O RISO DOS OUTROS - Évora está cada vez mais no roteiro das artes. Depois da programação africana do verão do Palácio Cadaval, a Fundação Eugénio de Almeida pôr de pé uma das exposições que vale a pena visitar. Trata-se de “O Riso dos Outros”, de Pedro Proença, um exercício de construção de uma história, através de imagens, baseada em personagens ficcionadas. Na exposição desdobram-se as criações de Pedro Proença e das personagens que ele criou, John Rindpest, Sandralexandra, Sóniantónia, Rosa Davida, Pierre Delalande, Bernardete Bettencourt, que exibem palavras e objectos, biografias e bibliografias, desenhos e colagens, variações sobre a criação. Ao mesmo tempo Pedro Proença criou um livro, com o mesmo título da exposição, já editado pela Sistema Solar. É um livro-catálogo pensado ao pormenor por Pedro Proença, que gosta do trabalho gráfico, como gosta de desenhar em grandes superfícies uma espécie de bandas desenhadas gigantes - que na exposição coexistem com pequenos desenhos e grafismos. Até 31 de Março a exposição (na imagem) está no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida. Contemporâneo e correligionário de Pedro Proença no grupo dos homeostéticos Manuel João Vieira,  tem na Casa Atelier Vieira da Silva (ao Jardim das Amoreiras, próximo do bar Procópio), até 13 de janeiro, a exposição Theatro Natural. Outras duas exposições que vale a pena visitar são “A Vocação dos “Ácaros” de José Loureiro na Fundação Carmona e Costa e “How Do They Feel” do artista norte-americano Matt Mulican, na Galeria Cristina Guerra - até 23 de Novembro.

 

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A RAINHA DA SOUL MUSIC - Foi em 1967, tinha ela 25 anos, que Aretha Franklin teve o seu primeiro Top One na lista dos singles mais vendidos nos Estados Unidos com a canção “I Never Loved A Man (The Way I Love You”)”. Nos três anos seguintes ela passou do anonimato à fama, de uma cantora quase desconhecida de Memphis a uma voz reconhecida mundialmente. Uma nova colectânea, “The Atlantic Singles Collection 1967-1970” inclui 34 canções que são o retrato desse tempo em que ela cantou o amor, a felicidade mas também e perda e a amargura, tudo com uma voz e um estilo inconfundíveis. Trata-se de um duplo CD onde as canções surgem por ordem cronológica. A sua edição original foi em seis álbuns: I Never Loved A Man The Way I Love You (1967), Aretha Arrives (1967), Lady Soul (1968), Aretha Now (1968), Soul ’69 (1969), This Girl’s In Love With You (1970), e Spirits In The Dark (1970). A única excepção é a versão que Aretha gravou para Border Song, de Elton John, que primeiro foi editada como single em 1970 e só depois surgiu num álbum, Young, Gifted And Black, em 1972. A colectânea inclui originais da própria Aretha, como Prove It e Think, mas também uma versão pouco conhecida que ela gravou em 1968 de Respect, um original de Otis Redding, ou o grande êxito que foi a sua interpretação de I Say A Little Prayer. Uma das coisas interessantes é notar a capacidade de Aretha Franklin em interpretar canções alheias, como as já referidas mas também as suas versões de You Send Me, de Sam Cooke, The Weight que foi originalmente gravada por The Band, Eleanor Rigby ou Let It be dos Beatles, The House That Jack Built ou Son Of A Preacher Man.

 

OUSAR SANDUICHAR! - A sanduiche aberta é comum nos países nórdicos,  os espanhóis têm uma adaptação nas tapas e o torricado ribatejano pode ainda ser considerado primo afastado do conceito. De uma forma geral um pedaço de pão com alguma coisa suculenta em cima entra nessa família. Por cá estamos mais habituados a sanduíches fechadas, em que o recheio, normalmente modesto, fica entre duas fatias ou metades de uma carcaça. Para mim o ideal é usar um bom pão de centeio (o da Serra da Estrela feito pelo Museu do Pão é o que prefiro), levemente tostado. A partir daí é adicionar o que se quiser - mas comecemos por barrar o pão - e aí tudo depende daquilo que vamos usar. As minhas matérias primas preferidas são a de paiola de porco preto cortada muito fina ou lombo fumado, truta ou arenque fumado, ventresca ou muxama de atum e Queijo da Ilha. Como preparar o pão?  Se a sandes fôr de paiola (ou bom lombo fumado) barro com mostarda de Dijon; se usar a truta ou arenque prefiro requeijão espalhado temperado com endro e pimenta; para o atum prefiro uma boa maionese que tempero com ervas finas; e para o queijo nada melhor que um chutney. Em todos estes casos gosto de colocar por cima da matéria prima principal pickles de pepino e/ou cebola, tomate baby cortado em metades, basílico, frequentemente folhas de espinafre baby, agrião ou rúcula. Umas azeitonas ao lado também ficam bem. Com um ligeiro aquecimento o pão fica mais estaladiço e suporta melhor o que lhe pusermos em cima. Depois é pescolher o que se quer beber e comer uma refeição fácil de fazer e cheia de sabores.

 

DIXIT - “É aguinha de rosas servida em taça de prata para lavar as mãozinhas? Quem nos está a falhar na justiça? Quem nos está a tramar e a proteger bandidagem?” - Ana Gomes, eurodeputada do PS, sobre as penas suspensas aplicadas pelo Tribunal aos ex-gestores do Banco Privado Português.

 

BOLSA DE VALORES - Na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, em Lisboa), a quarta exposição individual do arquitecto Álvaro Siza Vieira sob o título “À Mão Livre”, até 24 de Novembro. São 20 desenhos figurativos, inéditos, de 29,7x21 cm, e o preço de venda de cada obra é 2.700 euros.

 

BACK TO BASICS - Deus criou os homens, mas são eles que se escolhem uns aos outros - Nicolau Maquiavel.

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publicado às 13:30

COSTA, O PROMETEDOR

por falcao, em 04.10.18

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O ANDOR DAS OFERENDAS - Na tradição popular e religiosa, em muitas terras deste nosso Portugal, nas procissões que se realizam, há muitas vezes um andor que recebe as oferendas dos fiéis agradecidos, que assim pagam as promessas feitas. Na política também há um andor das oferendas, mas funciona em sentido contrário: é o governo que carrega às costas o andor com a figura do primeiro-ministro, tal santo milagreiro, e é de lá de cima que ele vai largando as oferendas para os fiéis, que neste caso são os eleitores. Em ano que precede eleições o saco das promessas vai cheio e assenta no orçamento de estado. Basta ver o que se tem passado nas últimas semanas para perceber como as coisas vão ser. Costa já se dá ao luxo de dar o dito por não dito, de hoje negar o que ontem achava possível e não se tem importado em irritar os seus parceiros de coligação, soprando-lhes que mais vale um pássaro na mão que dois a voar e contentando S. Jerónimo e Santa Catarina com umas migalhas face às expectativas criadas. Assim os vai envolvendo, sempre sorrindo, enquanto do andor distribui o que lhe apetece, como lhe apetece, quando lhe apetece, a quem lhe apetece. E vai ser assim até às eleições, neste jogo do dá e tira, alargando os cordões à bolsa quando é necessário para ganhar mais um tempo. Na realidade o que ele quer é ficar sozinho a fazer os seus milagres, sem ter que repartir os louros com mais ninguém. A ver vamos como vai terminar esta gaiola do orçamento de onde se vão soltando uns passarões...

 

SEMANADA - António Costa descartou a redução do IVA na luz e no gás; Jerónimo de Sousa afirmou que “não é com a política do PS que se resolvem os problemas do país”; a procura pelo ensino superior privado aumentou 17,5% no último ano;  os alunos com necessidades especiais aumentaram 41% em seis anos; a despesa do Estado com professores sobe 23% até 2023; segundo o FMI a dívida mundial, tanto pública como privada, subiu 60% desde 2007; o atraso nas listas de espera para cirurgias afeta 62 mil doentes; a Entidade das Contas alertou que as multas dos partidos entre 2010 e 2015 vão prescrever; os portos portugueses registam uma quebra de 2,7% nas mercadorias movimentadas no primeiro semestre deste ano; todos os anos, em média, 25 homens são condenados por violação mas ficam com a pena suspensa; em Vila Meã, Amarante, um juiz soltou um homem que agrediu de forma violenta e durante quatro anos a mãe dos seus dois filhos, mas o homem acabou por ser preso pela GNR  por não ter pago uma multa por guiar sem carta; segundo a Marktest 5,3 milhões de portugueses usam redes sociais e o Instagram é a que mais tem crescido nos últimos cinco anos; Lisboa tem 200 mil lugares de estacionamento e há 745 mil veículos que entram diariamente na cidade; em nove anos Portugal acolheu 23.767 estrangeiros, de 146 países, ao abrigo do Regime Fiscal para Residentes Não Habituais.

 

PERGUNTAS SOLTAS - Este ano a Emel já passou mais de 270 mil multas, das quais menos de 1,4% são por estacionamento em segunda fila. Esta desproporção será uma anedota ou é só prova do mau funcionamento da empresa oficial de multas da Câmara Municipal de Lisboa?

 

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CRÓNICAS DO MUNDO - “Atlas” foi o último livro publicado em vida de Jorge Luis Borges, já ele tinha perdido a visão. O livro é uma colecção de apontamentos, de cerca de uma centena de páginas onde se reproduzem diversas viagens feitas por Borges, muitos deles acompanhados por fotografias de Maria Kodama, que o acompanhou nestas viagens e nos últimos anos de vida. “As vésperas da viagem são uma preciosa parte da viagem”, escreve Borges que, entre Roma, Atenas ou Istambul acaba por confessar: “O meu corpo físico pode estar em Lucerna, no Colorado e no Cairo, mas ao acordar cada manhã, ao retomar o hábito de ser Borges, emirjo invariavelmente de um sonho que acontece em Buenos Aires”. No prólogo do livro, Borges escreve:  “Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Sinbad, de Erik, o Vermelho, ou de Copérnico. Não há um só homem que não seja um descobridor”. E no epílogo, diz Maria Kodama: “O que é um atlas para nós, Borges? Um pretexto para entretecer na urdidura do tempo os nossos sonhos, feitos da alma do mundo. Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899, desde cedo viajou pelo mundo e viveu em vários países, tendo morrido em Genebra, em 1986. “Atlas” foi editado originalmente em 1984 e foi agora publicado em Portugal pela Quetzal numa excelente tradução de Fernando Pinto do Amaral.

 

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AS MIL FLORES - Uma das mais interessantes exposições de obras originais que se podem ver em Lisboa actualmente está na Galeria 111 até 10 de Novembro. Tem por título Mille Fleurs é é da autoria de João Francisco - um artista de 34 anos que começou a expôr em 2008 e que agora apresenta um trabalho de uma grande consistência e criatividade, pintando acrílico sobre papel e sobre esquissos encontrados com mapas para bordados feitos a grafite, sobre papel. Há uma razão de ser para isto, que se prende com o título da exposição - mille-fleurs ou mil flores - o termo utilizado para agrupar um conjunto de tapeçarias produzidas no norte da França e na Flandres entre o final da Idade Média e o início do Renascimento, representando de forma repetitiva flores e plantas, com adição de figuras que podem ir de damas com unicórnios a caçadores e pequenos animais. O traço de João Francisco cria imagens fortes, umas vezes ricas de pormenor, como o painel que agrupa 160 pequenas pinturas, outras fortes e sugestivas, quer em retratos quer na evocação de ausências. Outra exposição em Lisboa que vale a pena conhecer é a Colecção Pinto da Fonseca, que mostra uma parte do acervo colecionado por António Pinto da Fonseca - cerca de sessenta obras de trinta artistas portugueses, provenientes das décadas de 1960 a 1980, como Álvaro Lapa, Júlio Pomar, Jorge Molder, Jorge Martins, Menez, Paula Rego, Dacosta, Vespeira, Rui Chafes, Vieira da Silva e Arpad Szenes, entre muitos outros. A exposição tem curadoria do filho do colecionador, Victor Pinto da Fonseca, ele próprio colecionador e galerista, e tem por título Educação Sentimental. Está na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, até 13 de Janeiro.

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CANÇÕES QUOTIDIANAS - O novo disco de Madeleine Peyroux é um exemplo de trabalho colectivo de uma cantora com os seus músicos, nomeadamente o produtor e baixista Larry Klein, o baterista Brian MacLeod , os guitarristas Dean Parks e David Baerwald, o pianista Patrick Warren, o organista Pete Kuzma e uma secção de metais de rara elegância. Hoje em dia não é frequente encontrar um disco de jazz vocal em que se fuja aos arranjos delico-doces e em que seja tão evidente este trabalho colectivo - enriquecido aliás por colaborações pontuais como as da harmónica de Gregoire Maret e as percussões de Luciana Souza. Todas as canções são originais de Peyroux, excepto a faixa título Anthem, que é um original de Leonard Cohen, e  Liberté, baseada num poema de Paul Éluard, musicado por Klein e Peyroux. A norte-americana Madeleine Peyroux nasceu em 1974, o seu primeiro disco foi editado em 1996, leva uma dezena de álbuns no activo e uma das coisas que desde o início me fascina nos seus discos é a forma como ela consegue transmitir nas gravações de estúdio uma vivacidade que se encontra no ambiente de um clube de jazz. Este “Anthem” é particularmente conseguido desse ponto de vista logo desde a primeira faixa, On My Own, o primeiro relato do quotidiano, que inclui outros momentos como On A Sunday Afternoon ou Down On Me, este a fazer uma transição para o relato dos tempos correntes na América, relato que tem o seu expoente em The Brand New Deal. Mas há momentos festivos, como Honey Party ou o delicioso We Might As Well Dance. E é justo referir que a versão de Anthem, o original de Cohen,  mostra o talento e a sensibilidade de Peyroux. CD Decca/Universal, já disponível em Portugal.

 

SABORES ORIENTAIS - Em Lisboa existem hoje em dia vários restaurantes que se reivindicam de inspiração oriental mas uma boa parte deles são do género excursões para turistas sem grande interesse nem alma (culinária, entenda-se). No caso tailandês há dois ou três - não mais - que merecem visita e frequência regular. Um deles fica por trás da avenida de Roma, na Rua Conde de Sabugosa, onde em tempos existiu o restaurante típico Arraial. Agora existe lá a Sala Thai, que mantém muita da decoração do velho Arraial, o que quer dizer que escapou à tentação de fazer uma decoração típica tailandesa. Decidiu investir na confecção dos pratos sem artifícios decorativos - e fez muito bem. É daqueles sítios onde apetece voltar, para descobrir mais pratos. Destaque nas entradas para os rolos primavera com noodles e legumes, os pastéis de peixe com especiarias ou as chamuças à moda tailandesa. A sopa tradicional tailandesa de camarão cozinhado com erva princípe, limão e malagueta é uma especialidade, mas comer alguma coisa depois não é fácil. Na área das massas os noodles fritos com camarão ou vegetais recomendam-se, assim como os caris de frango, vaca ou ou camarão, sobretudo o caril vermelho (também há verde…). Nas especialidades da casa destacam-se a garoupa em caril vermelho e o robalo cozinhado ao vapor com molho de limão. E nas sobremesas, para refrescar o palato, os gelados de gengibre e limão com manjericão cumprem bem a função. Sala Thai, Rua Conde de Sabugosa 13A, fecha às segundas, telefone 216 039 946.

 

DIXIT - Dá para sermos amigos, mas não dá para casar“ - António Costa sobre os seus parceiros da geringonça.

 

BOLSA DE VALORES - Até 20 de Outubro pode ver novos e marcantes trabalhos de Nádia Duvall na galeria MUTE, sob o título Abalo I. Cada uma das obras expostas está à venda por 1500 euros. Na Rua Cecílio de Sousa 20, em Lisboa.

 

BACK TO BASICS - “Existem dois pecados de onde todos os outros derivam: impaciência e preguiça” - Franz Kafka

 

 

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