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O PESO DA ARTE NA ECONOMIA - Até Domingo 22 decorrem em Lisboa duas feiras dedicadas à Arte Contemporânea - a ARCO Lisboa e a JUSTLX. Os dois eventos não são concorrentes entre si, antes complementares - e por acaso ambos nascem de organizadores espanhóis. A ARCO Lisboa, que assinala o seu quinto aniversário, é organizada pelos mesmos promotores da ARCO Madrid, uma das mais prestigiadas feiras de arte europeia, e a JUSTLX , na sua terceira edição, é promovida pela entidade que em Madrid criou a JUSTMAD. A ARCO Lisboa decorre na Cordoaria, engloba 65 galerias de 14 países, tem uma secção dedicada a novas galerias e outra à arte africana, além de um espaço de divulgação e venda de edições sobre arte. A JUST LX, na sua terceira edição, realiza-se no Centro de Congressos de Lisboa, em Belém (antiga FIL) e tem a presença de 28 expositores de vários países. Com estes dois eventos em paralelo e uma série de exposições relevantes em museus e galerias privadas, Lisboa tem uma semana dedicada às artes. E qual o peso da arte contemporânea e das galerias na economia? Por ocasião da LAAF (Lisbon Art and Antiques Fair), que decorreu recentemente, foi divulgado um estudo sobre o mercado de arte em Portugal, realizado sob a direcção de Adelaide Duarte, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. O estudo aponta para a existência de mais de 70 galerias de arte em Portugal, a maioria dedicada à arte contemporânea, que no seu conjunto realizam mais de 250 exposições por ano com vendas totais estimadas de cerca de 47 milhões de euros e com um crescimento acentuado nos últimos anos de vendas online. Interrogadas sobre as principais medidas que gostariam de ver implementadas, as galerias inquiridas estabeleceram estes pontos como principais: promover incentivos fiscais para colecionadores, deduzindo aquisições em sede de IRS e IRC, melhorar a Lei do Mecenato, permitindo que a Arte possa ser um investimento para as empresas, promover políticas públicas de incentivo à compra de obras de arte, motivar o coleccionismo privado e institucional, aumentar o orçamento para museus no domínio da aquisição de obras de arte e da programação, criar uma rede intermunicipal de organização de exposições, investir na cultura e na educação, intensificar parcerias entre instituições museológicas com colecções privadas a fim de colmatar lapsos existentes nas colecções públicas, divulgar conteúdos ligados à arte contemporânea na RTP1, promover visitas a museus e a galerias, promover o gosto e o interesse pela arte e, em suma, democratizar o acesso à arte. Como vêem, não pedem subsídios, reivindicam apenas que o Ministério da Cultura tenha uma política que facilite e não dificulte o crescimento de hábitos culturais - uma raridade, como se sabe. Talvez o novo Ministro possa ter força política suficiente para convencer o seu colega nas Finanças de que uma política fiscal adequada pode ser fundamental para desenvolver sectores da economia, também na área da Cultura. Será que Pedro Adão e Silva vai conseguir fazer com Medina o que nenhum dos seus antecessores conseguiu?



SEMANADA - Dos quase 90 mil militantes inscritos no PSD apenas cerca de 45 mil têm as quotas em dia para poderem escolher o futuro líder do partido, entre Montenegro e Moreira da Silva; o cancro do pulmão é o que mais mata em Portugal e em 2020 foram diagnosticados 5415 novos casos; 80% das construtoras não conseguem preencher vagas para as obras e os baixos salários associados à exigência de qualificações são as principais razões para a situação existente; em dez anos o Estado não conseguiu vender uma única propriedade da Bolsa das Terras, criada para combater o abandono agrícola; a Lei dos metadados é ilegal desde 2009 e existem 163 mil pedidos de dados pessoais das tribunais às operadoras de telecomunicações feitos com base nessa lei; as bases de metadados das operadoras de telecomunicações estão sem fiscalização há cinco anos; no primeiro trimestre deste ano verificou-se uma perda média de poder de compra de 2,5%; os acidentes vasculares cerebrais foram em 2021 a primeira causa de morte em Portugal com cerca de 11.439 casos, seguido das mortes por Covid-19, com 7.125 óbitos; o Estado emprega agora 741.288 pessoas, mais 15.821 que no primeiro trimestre do ano passado, com um salário médio mensal de 1815,60 euros; no ano passado, deram entrada na Polícia Judiciária 705 novos processos de suspeitas de corrupção, um aumento de 42% em relação ao ano anterior; com o número de casos de COVID-19 a subir a linha SMS 24 atendeu mais chamadas até Maio do que em todo o ano de 2021; em média a Google acede aos dados de cada seu utilizador português 65 vezes por dia.



O ARCO DA VELHA - António Almeida Costa, membro do Conselho Superior do Ministério Público, e putativo candidato a juiz do Tribunal Constitucional, escreveu um texto contra o aborto em que apelida as experiências nazis de “investigações médicas”.

 

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O CONTRASTE ENTRE DOIS ARTISTAS - Uma das novas exposições que podem ser vistas em Lisboa está na Galeria Belo Galsterer (Rua Castilho 71 RC) e mostra o trabalho de dois artistas: Pedro Quintas  com um conjunto de acrílicos sobre tela com o título genérico “Vinco”, e Gwendolyn van der Velden, uma holandesa que vive e trabalha em Portugal há vários anos e que apresenta “Faces of Others”, um conjunto de retratos a aguarela de grandes dimensões. Bem diferentes entre si, estas duas exposições mostram a diversidade de estilos e propósitos dos dois artistas. Pedro Quintas explora formas geométricas compostas por linhas, riscos e vincos, com uma técnica nascida de trabalho e paciência, em diversos formatos - e para mim, de entre os dez trabalhos que Pedro Quintas expôs, os de menor dimensão são os mais aliciantes porque apelam a uma observação mais detalhada e obrigam a ser vistos de perto (como o da imagem). Já Gwendolyn van der Velden faz da força das expressões que transmite nos retratos o seu principal argumento, introduzindo um dramatismo intrigante. Pedro Quintas estudou no Arco, tem exposto regularmente desde 2002 e está representado em diversas colecções. Gwendolyn estudou na Academia de Belas Artes na Holanda, e trabalha e expõe em Lisboa desde 2009, explorando sobretudo o desenho sobre papel - estas aguarelas são claramente fruto da sua prática de desenho. Outras exposições a descobrir: Suzanne Themlitz na Galeria Vera Cortês, David Graham na Galeria Filomena Soares, Rui Calçada Bastos na Galeria Bruno Múrias, Isaque Pinheiro na galeria Insofar.

 

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MEMÓRIAS DO NOSSO TEMPO - No princípio deste livro está uma citação de Francisco Salgado Zenha: “Ninguém sabe o que é a Justiça, mas todos sabem o que é a injustiça”. O livro em causa é “Justiça, Política e Comunicação Social”, onde Daniel Proença de Carvalho relata as suas memórias enquanto advogado. A sua vida profissional é um cruzamento constante entre o  trabalho enquanto advogado e os cargos que desempenhou no sector da comunicação: director do Jornal Novo, presidente da RTP e do Global Media Group, fundador do “Semanário”, proponente no início da década de 90 de um  dos concorrentes à concessão de canais privados de televisão e ainda Ministro da Comunicação Social, anos antes, no IV Governo Constitucional. Ao longo de cerca de 370 páginas, Daniel Proença de Carvalho recorda ainda alguns dos casos a que esteve ligado enquanto advogado: a herança Sommer e António Champalimaud e os processos em que defendeu Manuel Rui Nabeiro, Leonor Beleza e Roberto Carneiro, entre outros. Mas escreve também sobre a relação que manteve com outros advogados que admirou, como Manuel João da Palma Carlos ou Salgado Zenha, “um homem de uma cultura superior” que “escrevia à primeira, sem precisar de corrigir”. O livro relata também os tempos que se seguiram em, 1974 e 1975, ao 25 de Abril e a intervenção que teve em diversos casos. Já no final Proença de Carvalho recorda o seu último combate político, contra a regionalização na altura do referendo de 1998. E, a terminar, relata o conflito que teve com o Procurador Geral da República, Cunha Rodrigues. O livro proporciona uma viagem, na escolha de temas e nas palavras do próprio, por períodos marcantes da nossa história recente- na justiça, na comunicação, na política. O texto final, “E o futuro?” bem pode ser lido como um programa para que Portugal progrida. Edição Bertrand.

 

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O TANGO  - Astor Piazzolla nasceu na Argentina em 1921, filho de pais italianos que foram viver para Nova Iorque, tinha ele quatro anos. Com apenas oito anos teve o seu primeiro bandonéon, oferecido pelo pai, e foi nos Estados Unidos que estudou música. Foi também em Nova Iorque que conheceu Carlos Gardel, o grande nome do Tango, quando Piazzolla, ainda miúdo, desempenhou o papel de um ardina que levava jornais a Gardel no filme “El Dia Que Me Quieras”. Piazzolla, que faleceu em Buenos Aires em 1992, é considerado o  compositor de tango mais importante da segunda metade do século XX mas, quando começou a fazer inovações no tango, no ritmo, no timbre e na harmonia, foi muito criticado pelos tradicionalistas. Em 1986 Astor Piazzolla aceitou o desafio de Hip Hanrahan, fundador da editora American Clavé, e gravou em Nova Iorque três discos com o Quarteto Tango Nuevo - onde o seu bandóneon era acompanhado por um baixo, violino, piano e guitarra. “Tango: Zero Hour” foi o primeiro desses três álbuns, os outros foram “The Solitude of Passionate Provocation” e “The Rough Dancer and the Cyclical Night (Tango Apasionado)”, este último construído como banda sonora para uma peça teatral baseada em textos de Jorge Luis Borges. Os três constituem a sua discografia na American Clavé. A Nonesuch, que herdou esse catálogo, reuniu agora os três discos numa edição especial onde se pode ouvir toda essa obra, um total de 28 temas, cerca de duas horas e meia de grande música - The American Clavé Recordings. Quer ouvidos de forma separada ou em conjunto estas três obras mostram bem a dimensão da revolução musical protagonizada por Astor Piazzolla. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT -  "Na nossa elite política, ninguém acredita que a cultura e o conhecimento continuam a ser importantes para a sociedade em geral e para se perceber a política global" - Fernando Sobral

 

BACK TO BASICS - “Um quadro exposto nas paredes de um museu é alvo de mais opiniões ridículas que qualquer outra coisa no mundo” - Edmond de Goncourt

 

 

 

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O NOSSO GRANDE PROBLEMA

por falcao, em 13.05.22

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GERAÇÃO DESPERDIÇADA - Nos últimos anos tem sido feito um enorme esforço em aumentar a qualificação de toda uma geração. Temos mais e melhores profissionais de diversas áreas fundamentais, por exemplo na saúde, na engenharia e na inovação. Mas muitos dos novos profissionais começam a trabalhar com remunerações objectivamente abaixo das qualificações que têm. Olham para a frente e não vislumbram perspectiva de progressão na carreira de forma estruturada e compensatória. Para muitos jovens portugueses qualificados, alcançar uma qualidade de vida semelhante à das pessoas da sua idade e formação noutros países é uma miragem. Estivemos anos a formar bons profissionais, ao mesmo tempo que nada fizemos para os incentivar a sentirem-se recompensados pelo trabalho que são chamados a desempenhar. O resultado é que muitos partem para outros países onde sentem que o esforço, o saber e a competência são recompensados. Este é talvez o maior problema que Portugal tem pela frente: está a desperdiçar uma geração que podia dar um contributo para a transformação do país. Todas as estatísticas indicam que o fosso salarial existente entre Portugal e outros países da União Europeia aumenta em vez de diminuir. A diferença entre o salário mínimo nacional e o salário dos que entram, qualificados, no mercado de trabalho reduz-se cada vez mais. A parte do salário mínimo aumentar é positiva, a parte de o salário inicial de profissionais qualificados não ter alterações sensíveis nem um progressão expectável é muito negativa. De que serve qualificar se não temos como beneficiar quem se qualificou? 

 

SEMANADA - Segundo a Ordem dos Médicos o número de queixas contra profissionais que realizam procedimentos estéticos tem vindo a aumentar desde 2021; o aumento do preço dos combustíveis não levou ao aumento da procura de bicicletas e comerciantes do sector dizem que as vendas estão abaixo do ano passado; a CP transportou o dobro dos passageiros no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período do ano passado; em 2021 as viaturas médicas de emergência e reanimação do INEM estiveram inoperacionais quase sete mil horas devido à falta de tripulação; o preço do calçado deverá aumentar mais de 8% nos próximos meses, afirmam os industriais do sector; o Parlamento tem o mesmo número de deputados abaixo dos 35 anos e acima dos 65; dos 130 deputados, 75 são formados na área do Direito; escassas semanas depois do fim da obrigatoriedade das máscaras registam-se 27 vezes mais casos de covid-19 que há um ano; as queixas de atrasos no abono de família aumentaram 133%; no hospital de Seia quem  pretende ir a uma consulta de dermatologia tem de esperar 1301 dias; no hospital da Guarda quem pretende ser visto por um dermatologista terá de esperar 1041 dias; a TAP pesou 57% nos prejuízos de todo o sector empresarial do Estado em 2020; 33 empresas públicas têm capital próprio negativo e estão em falência técnica, entre as quais o Metro do Porto,  a TAP, a CP, e a STCP; apesar de Portugal ter a nona maior área de vinha do mundo, de ser o 10º produtor mundial de vinho, e ter o maior consumo per capita de vinho do mundo,  é o país que mais vinho a granel importa; no primeiro mês depois da invasão da Ucrânia, Portugal importou mercadorias da Rússia no valor de 153 milhões de euros, dos quais mais de 100 foram de produtos petrolíferos. 



O ARCO DA VELHA -  No caso da fuga de João Rendeiro o Conselho Superior da Magistratura isentou de responsabilidades os juízes, apesar deles  terem atrasado o início do julgamento e de o mandato de captura ter demorado  28 meses a ser emitido.

 

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JULIÃO  - “Abstracto, Branco, Tóxico e Volátil” é o título da primeira grande exposição de trabalhos de Julião Sarmento que se realiza após a morte do artista, ocorrida em 2021. O Museu Berardo recebe a partir desta semana e até ao fim do ano 121 obras de Julião Sarmento, distribuídas por 18 das salas do Museu, numa exposição com curadoria de Catherine David. A peça que dá o título à mostra,  “Abstracto, Branco, Tóxico e Volátil” (na imagem), é datada de 1997. Julião Sarmento trabalhou ainda com Catherine David nesta exposição, empenhando-se muito na sua concepção. O layout desta exposição e a disposição das obras nas salas foram finalizados dois meses antes da sua morte. É bom sublinhar que,  para Julião Sarmento, a instalação dos seus trabalhos no espaço era parte integrante das obras que expunha, pois considerava de capital importância a relação que se estabelece entre o trabalho, o espaço que o envolve e o espectador. Rita Lougares, directora artística do Museu Berardo, sublinha que Julião Sarmento “ foi um dos artistas portugueses com uma carreira internacional mais solidamente firmada, tendo construído um percurso artístico de enorme coerência, riqueza e intensidade”. E, destaca: “O artista foi muito influenciado pela cultura anglo-saxónica e pelos temas e imagens da literatura e do cinema, muito presentes nas suas obras através de citações e montagens. Em permanente renovação e em estreita ligação com as práticas artísticas da sua época, que vão do pós-pop até à atualidade, utilizou uma grande diversidade de meios e técnicas, como fotografia, pintura, colagem, desenho, escultura, performance e filme, para implantar um vocabulário conciso de imagens ambíguas”.

 

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UMA INVESTIGAÇÃO EM BARCELONA  - No início da pandemia deliciei-me com um policial espanhol, “Terra Alta”, que em 2019 valeu ao seu autor, Javier Cercas, o Prémio Planeta. No centro do livro está Melchor Marin, um polícia que em Barcelona  desmantelou uma rede terrorista islâmica e que, para sua própria segurança, foi colocado na Catalunha profunda, numa vila sem história chamada Gandesa. A pacatez do lugar foi sacudida por um assassinato, envolvido numa história de corrupção que tocava a própria polícia. Melchor deslindou o crime mas, pelo caminho, a sua mulher, Olga, morreu. “Independência- Terra Alta II”, é o seguimento dessa história, agora publicado em Portugal. Com a morte da mulher a solidão de Melchor nos confins da Catalunha acentuou-se. Pensou em mudar de vida, em deixar de ser polícia, em ser bibliotecário, que era a profissão de Olga. Foi no meio destes pensamentos que um dia adormeceu a ler um livro do nosso Eça de Queiroz, “A Ilustre Casa de Ramires” . Na manhã seguinte decidiu alterar os seus planos, não resistindo ao desafio de voltar a Barcelona para investigar um caso de chantagem: a Presidente da Câmara estava a ser ameaçada com a divulgação de um vídeo de teor sexual. Quem a ameaçava não queria dinheiro, queria poder manejar o poder. Esta investigação é sobre os círculos de poder, sobre as manobras de bastidores, sobre o que está em jogo numa cidade como Barcelona e numa zona tão rica como a Catalunha. A história envolve droga, grandes empresas, moedas virtuais e corrupção abundante. A escrita de Javier Cercas é dura, a construção da narrativa é envolvente e irresistível. Um policial excelente. A tradução é de Helena Pitta, para a Porto Editora.

 

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GUITARRADA - Aos 70 anos o guitarrista John Scofield editou agora o seu primeiro disco a solo. Com uma longa carreira ao lado dos melhores músicos de jazz, Scofield consolidou a sua reputação como um dos melhores guitarristas. Ao longo da sua carreira tem cruzado estilos musicais, do jazz ao rock, passando pelos blues e pela soul. Tocou com Miles Davis, Joe Henderson, George Duke, Herbie Hancock e com outros guitarristas como Pat Metheny ou Bill Frisell. Mas também tocou com os Grateful Dead, Mavis Staples, Dr. John ou John Mayer. Participou em mais de uma centena de álbuns com outros músicos mas este é o seu primeiro aĺbum a solo - um desafio quando falamos de um guitarrista que está habituado a tocar nota a nota, tendo alguém a acompanhá-lo. Scofield resolveu essa questão fazendo ele próprio overdubs que surgem em pano de fundo. Pessoalmente gosto de discos de guitarra a solo, e este é uma bela surpresa. Ao longo de quase uma hora Scofield interpreta 13 temas, a maioria versões, mas inclui dois originais seus. Alguns temas já tinham sido gravados antes por Scofield, mas surgem aqui em novas versões, como “Honest I Do” ou “Mrs Scofield’s Waltz”, “There Will Be Never Another You” e “Since You Asked”. Outros temas são clássicos, como “It Could Happen To You”, uma evocação dos seus tempos com Miles Davis, “My Old Flame” que antes tocou com Charlie Haden, “Danny Boy” , “Not Fade Away”, uma canção de Buddy Holly que Scofield tocou muitas vezes com os Grateful Dead, “You Win Again” de Hank Williams ou “My Old Flame”. Os dois temas originais são “Elder Dance” e “Trance du Hour”, uma homenagem a Coltrane onde surge a evocação de “A Love Supreme” na melodia.



TEMPO DE SALADAS - Tenho umas manias em matérias de saladas. Por exemplo, entre aquelas que vêm lavadas e embaladas, só suporto as de rúcula, que com tomate cherry cortado em metades pode ser uma possibilidade. Claro que esta rúcula está mesmo a pedir um salmão fumado cortado às tiras, bem temperado de sumo de limão e com um punhado de alcaparras por cima.  Mas experimentem acompanhar muxama de atum, cortada fina, com esta salada. Ou, mais simples ainda,  coloquem-na a namorar uma conserva de lombo de atum em azeite da marca Tenório.  Deixemos a rúcula e passemos para a tão maltratada alface. Devo desde já dizer que,  no que toca à salada de alface, prefiro-a natural, sem ser pré-preparada. Gosto dela cortada, em pedaços de média dimensão, salpicada por umas  rodelas de cebola roxa crua, temperada de forma generosa com sal, azeite e vinagre de vinho branco. Assim preparada, quanto mais fresca e estaladiça, melhor. É a salada ideal para acompanhar fritos - sejam filetes de pescada, sejam bifinhos panados cortados bem finos E para o fim deixo uma das minhas saladas preferidas - pepino cortado em rodelas muito finas, acompanhado por pedaçoss de tomate maduro, umas azeitonas sem caroço e cebolinhas de conserva, tudo temperado com um pouco de sal, azeite e vinagre- acompanha muito bem um peito de frango grelhado e fatiado e que no fim leva por cima um molho feito com sumo de limão, mel e pimenta preta. Bom apetite, o Verão é um desafio.

 

DIXIT - “Não são precisos mais milhões no Orçamento de Estado da Saúde. O que é preciso é saber gerir adequadamente” - Pedro Pita Barros, professor de Economia da Saúde na Universidade Nova

 

BACK TO BASICS - “Quem está sempre a falar, no fundo não quer ouvir os outros e não quer conversar” - ouvido num restaurante.

 




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ESQUINA 874 - 6 MAIO 2022

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OS RUSSOS DE SETÚBAL  - O caso do acolhimento de refugiados ucranianos por activistas russos pró Putin na Câmara de Setúbal evidencia que ainda há quem considere  haver legitimidade para os russos controlarem os ucranianos, como se a Rússia tivesse ainda direitos e autoridade sobre a Ucrânia. Esta é a realidade: para a Câmara de Setúbal,  dominada pelo PCP, é natural que sejam servidores russos a organizar refugiados fugidos de um país que a Rússia reivindica como seu. O desejo de reconstituição do império soviético sobrepõe-se ao bom senso. Muita gente ainda encara como natural que membros destacados e influentes da Federação Russa, como Igor Khashin,  possam representar cidadãos de países que se libertaram do regime soviético e se tornaram independentes. Vai-se sabendo que o caso de Setúbal, gritante pelos dislates cometidos, é uma gota de água no oceano. Já nem vou buscar o triste episódio das denúncias da Câmara de Lisboa, na altura  dirigida por Fernando Medina, que passou nomes de opositores a Putin para a embaixada da Federação Russa. Mas recordo que o Alto Comissariado para as Migrações incluía em 2021, entre as associações que podem representar a comunidade ucraniana em Portugal, a Associação dos Imigrantes dos Países de Leste (EDINSTVO), dirigida por Igor Khashin que se gaba das suas boas relações com o Kremlin e com a embaixada da Federação Russa em Portugal. A associação Edinstvo, responsável pelo acolhimento de refugiados ucranianos em Setúbal, está envolvida numa outra polémica. Durante, pelo menos, cinco anos terá tido acesso à base de dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) através de um protocolo assinado com o Governo português. O que a Câmara de Setúbal fez resume-se a isto: vêm de Leste? Fogem da Operação Militar Especial? Queixam-se de terem sido invadidos? - então os camaradas do Kremlin têm que saber quem são, de onde vêm e o que fazem. Este é o triste raciocínio. E não é falta de bom senso ou ignorância. É apenas subserviência face a ditadores como Putin. Bem podem dar loas a Abril, mas na prática desconhecem o significado de Liberdade.

 

SEMANADA - No primeiro trimestre do ano foram controlados em Portugal 156 500 vôos, um aumento de 208% em comparação com o mesmo período do ano passado; 6057 pessoas morreram afogadas em Portugal nas últimas três décadas, das quais 38% tinham mais de 65 anos; as mulheres representam 7% do total de reclusos nas prisões portuguesas; mais de 2500 médicos e enfermeiros saíram do SNS nos anos da pandemia; só no ano passado emigraram 88 médicos, a maioria para países nórdicos; há mais utentes do SNS sem médico de família hoje do que quando o Governo tomou posse em 2015; só 11% das autarquias assumiram competências na área da saúde; a manterem-se os planos actuais a península de Tróia vai ter mais de 15 mil camas turísticas e residenciais; no primeiro trimestre do ano o fisco arrecadou por dia 123 milhões de euros em impostos; as tentativas de fraude informática aumentaram nove vezes em 2021; entre os 30 maiores beneficiários de fundos europeus relativos ao quadro comunitário do Portugal 2020 há 28 públicos e apenas dois privados; o programa Chave na Mão, que se destinava a incentivar e dar facilidades de alojamento a quem se mudasse do Litoral para um dos 165 concelhos de baixa densidade populacional, teve zero adesões; a idade média dos membros do novo Conselho de Estado é de 72 anos; Costa dixit: “Sócrates aldrabou-nos”.

 

O ARCO DA VELHA - A Entidade fiscalizadora do Segredo de Estado continua a funcionar em instalações sem condições de segurança física nem capacidade para informatizar os segredos de Estado, com apenas dois membros, e sem assessor jurídico.

 

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CLÁSSICOS REVISITADOS - Uma das exposições incontornáveis que neste momento podem ver em Lisboa está no Atelier Museu Júlio Pomar. Sob o título “Pintura de Histórias” a exposição tem 40 obras, maioritariamente pinturas, e mostra a forma como Júlio Pomar, desde a década de 80, deu mais atenção aos temas literários e trabalhou na exploração de histórias e figuras da mitologia clássica,  que fazem parte do património universal. Neste conjunto de trabalhos Pomar conseguiu com a sua pintura transformar as grandes histórias da humanidade em versões próprias, onde a visão das personagens se faz de acordo com a sua criatividade, com um forte cunho pessoal, com humor e irreverência. Com curadoria de Alexandre Pomar e Sara Antónia Matos, a exposição ficará patente no Atelier Museu até 2 de Outubro - Rua do Vale 7, Lisboa, de terça a domingo, entre as 10 e as 18. (Na imagem uma das obras fotografada por António Jorge Silva). A norte há também uma reinterpretação da antiguidade clássica -  Ana Jotta apresenta de novo em  Serralves as onze máscaras que fez no início deste século sob o título colectivo  “Mirmidão da Tragédia”. Estas onze peças são a interpretação que Ana Jotta fez de máscaras usadas na tragédia grega - os mirmidões foram soldados tessálicos que acompanharam Aquiles à Guerra de Tróia. As máscaras de Mirmidão da Tragédia tinham já sido mostradas em Serralves em 2005 na exposição retrospectiva “Rua Ana Jotta” e a nova exposição pode ser vista até 25 de Setembro. E para terminar, regresso a Lisboa, ao Museu Natural de História Natural e da Ciência onde Jorge Barreto Xavier expõe até 31 de Julho “Alice”, um ensaio fotográfico que se debruça sobre a pele, esse envelope do corpo.

 

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UMA AVENTURA NO MUNDO DO XADREZ - A “Diagonal Alekhine” é um daqueles livros que não se larga quando se começa a ler. A história começa a meio do Atlântico, no paquete Miracle, em 1940, quando Alexandre Alexandrovitch Alekhine, campeão do mundo de xadrez na época, vinha de Buenos Aires para Lisboa. Toda a história se baseia nos últimos anos de vida de Alekhine, nascido em Moscovo em 1892, falecido no Estoril em 1946, e que teve o título de campeão mundial de xadrez durante 17 anos. Conhecido pela sua forma de jogar agressiva, privilegiando o ataque, Alekhine, venceu o seu primeiro torneio aos 17 anos em São Petersburgo e ao longo da sua vida desenvolveu várias aberturas e jogadas que ficaram como referências do xadrez. A 24 de Março de 1946, numa manhã de domingo, Alekhine, foi encontrado morto no quarto 43 do Hotel do Parque, no Estoril, junto a um tabuleiro de xadrez com as peças na posição inicial. Tinha 53 anos e a sua morte continua ainda envolvida em mistério. Tinha uma personalidade irascível, fez muitos inimigos. “A Diagonal Alekhine,”, um livro agora editado relata os seus últimos dias e foca-se nos sete derradeiros anos da sua vida, não esquecendo as polémicas em que se envolveu e a sua rivalidade com outro mestre do Xadrez, o cubano Capablanca. Não é uma biografia, é uma aventura que segue a vida de um aventureiro. O seu autor, Arthur Larrue, professor de literatura francesa, expulso há poucos anos da Rússia pelas suas relações com intelectuais dissidentes, vive actualmente em Lisboa. O romance decorre com a intensidade de uma disputada partida de xadrez, joga a jogada, com todos os ingredientes de uma personagem consagrada pelo czar, perseguida por Estaline, chantageada por Goebbels e odiada por muitos praticantes do jogo. Uma leitura apaixonante. Edição Quetzal, tradução de Antonio Sabler.

 

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BLUES CLÁSSICOS  - Se gostam de blues, corram a descobrir este disco onde se reúnem dois grandes nomes da música da América, Taj Mahal e Ry Cooder, juntos numa homenagem a dois grandes bluesmen, Sonny Terry e Brownie McGhee. Há mais de 50 anos que Mahal e Cooder não gravavam juntos - em 1968 Ry Cooder foi o guitarrista convidado para o álbum de estreia de Taj Mahal. Apesar da amizade entre os dois e das numerosas colaborações que tiveram ao longo dos anos, só voltaram a encontrar-se num estúdio em 2021, com o objectivo confesso de homenagearem as duas figuras históricas dos blues que são uma referência incontornável para eles. Em “Get on Board: The Songs of Sonny Terry & Brownie McGhee” , Taj Mahal e Ry Cooder gravaram onze temas, repescados de discos e de gravações de actuações de Terry, na harmónica , e McGhee, na guitarra, Neste disco coube a Mahal a harmónica, a guitarra e o piano, e Cooder ficou com a guitarra e o banjo. O filho de Ry, Joachim Cooder, assegurou o baixo e a percussão. Ao longo das 11 canções que compõem o álbum é evidente o prazer e a alegria de Mahal e Cooder em fazerem as suas versões destes temas que conhecem desde a adolescência. Aqui podemos revisitar clássicos de blues como “Midnight Special”, “Deep Sea River”, “Pawn Shop Blues”, “I Shall Not Be Moved” ou ainda os deliciosos “My Baby Done Changed the Lock on the Door” ou “Drinkin’ Wine Spo-Dee-O-Dee”. Irresistível - e disponível nas plataformas de streaming.

 

PETISCO ALEMÃO - Meia dúzia de mesas no interior, uma no passeio, ao ar livre. Uma cozinha pequena onde um cozinheiro alemão, Ralf, confecciona todos os dias petiscos da sua terra, com respeito pela tradição. E na pequena sala, sempre atenta, Josiany explica o que esperar dos pratos com nomes germânicos e avança umas sugestões.  É o “Bistro Café do Alemão”, abre cedo para os pequenos almoços e depois começa a preparar o menu do almoço, que vai variando todos os dias. Ralph confecciona os seus próprios doces e salgados e ainda os diversos petiscos da refeição principal. No menu todos os dias há uma das variedades das deliciosas salsichas alemãs, com diversos acompanhamentos, desde puré de batata até cebola caramelizada, couve lombarda, ou couve roxa salteada. Nalguns dias da semana há o tradicional schnitzel, os escalopes de lombo de porco finos e bem fritos,  com batatas fritas ou batatas salteadas. Todos os dias há uma opção vegetariana, além das sopas, cremosas, de legumes, e das saladas que podem ser um prato principal. Nas sobremesas há um bolo de queijo alemão, um Apfeltaschen (massa folhada com recheio de maçã) ou um Creme de Canela com Ameixas em calda de Vinho Tinto. Há uma boa escolha de cervejas alemãs, a casa aceita encomendas para take away e encerra todos os dias às 16h30. Este é um daqueles sítios meio escondidos, com qualidade mas despretensiosos, que vale a pena conhecer. O “Bistro Café do Alemão” fica na Rua Artilharia Um, nº 98A e tem o telefone 211 347 808.

 

DIXIT - “Tenho grandes dúvidas sobre a importância de uma regionalização nesta altura. Entendo que há que mobilizar o país e não dividi-lo” - Ramalho Eanes

 

BACK TO BASICS - “Se o crime não compensasse, não havia criminosos” - G. Gordon Liddy

 




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O DEBATE DA REGIONALIZAÇÃO

por falcao, em 29.04.22

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DESENVOLVER OU REGIONALIZAR? - Creio que a maior parte das pessoas estará de acordo em que o maior problema com que Portugal se defronta nos próximos anos é garantir o crescimento económico, permitindo sair da cauda da Europa, para onde temos vindo a cair de forma acentuada. Na situação actual não vai ser fácil: entre os efeitos da pandemia que ainda se farão sentir, as alterações produzidas pela guerra desencadeada por Putin e todas as suas consequências económicas e, por fim, o regresso da inflação, o crescimento de uma economia debilitada não vai ser tarefa simples. É neste quadro, em que reformas de fundo são necessárias, que o tema da regionalização voltou a surgir. Esta semana o debate regressou com particular intensidade graças a um artigo assinado por Luís Valente de Oliveira e Miguel Cadilhe, em defesa da regionalização e em resposta a artigos, em sentido contrário, de António Barreto e Cavaco Silva. Está pois lançada a discussão,  que visa agendar um novo referendo sobre o tema regionalização, depois da derrota que semelhante iniciativa teve em 1998. Tenho pessoalmente as maiores dúvidas sobre os benefícios da regionalização. Os seus defensores deviam demonstrar que a regionalização pode ter um efeito positivo no desenvolvimento, na redução da dívida pública, na dinamização do interior, na reindustrialização em sectores específicos, na inovação e na melhoria da qualidade de vida dos portugueses. Esta demonstração faz falta e é sempre mascarada por uma cortina de retórica. Há outro tema em cima da mesa, e poucas vozes se ouvem sobre o assunto: Portugal tem índices de corrupção na Administração central e local elevados. A regionalização provocará novos clientelismos? Agravará a situação? A justiça, que não tem sido capaz de dar resposta aos crimes dessa natureza, funcionará melhor na regionalização? Todos estamos de acordo que o país precisa de se desenvolver e de fazer reformas profundas. Mas qual a sua prioridade? Por exemplo, valerá a pena fazer a regionalização sem fazer uma reforma profunda no sistema eleitoral? Valerá a pena descentralizar sem reformar o funcionamento da justiça? Cabe aos defensores da regionalização mostrarem com factos e números que os seus opositores estão enganados nas dúvidas que colocam.

 

SEMANADA - As polícias portuguesas apreenderam o ano passado 2,2 milhões de euros em numerário a traficantes de droga, o segundo maior montante dos últimos cinco anos; em 2021 fizeram-se 1944 apreensões de diversas drogas, mais 36,7% que no ano anterior; o endividamento das famílias junto à banca atingiu em fevereiro cerca de 148 mil milhões de euros; em média, ao longo de um ano, os portugueses pediram à Banca 14 milhões de euros por dia; a agricultura perdeu quase um milhão de trabalhadores em três décadas; a riqueza criada pela agricultura ascendeu a 3500 milhões de euros em 2021, valor que está em queda desde os anos 80, década em que gerava mais do dobro da riqueza atual, segundo dados compilados pela Pordata; Portugal é o quinto país da União Europeia com menor número de trabalhadores na agricultura; uma sondagem da Aximage indica que o 25 de Abril é relevante para 83% dos portugueses (maioritariamente entre os inquiridos de 18 a 34 anos), mas a satisfação com a democracia fica-se nos 57%; a Direcção Geral de Energia e Geologia só tem 25 funcionários para fiscalizar as mais de duas mil pedreiras existentes em Portugal; o Ministério das Finanças ficou sem aprovar as contas da Parque Escolar durante seis anos e a sua dívida ao EStado e à banca é de cerca de 892 milhões de euros.

 

O ARCO DA VELHA - Apesar de todas as declarações sobre igualdade, nenhum dos cinco representantes indicados pelo PSD e PS para o Conselho de Estado é uma mulher.

 

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FOTOGRAFIA DESTES TEMPOS - Manuel Botelho estudou arquitectura e pintura e durante vários anos concentrou-se em pinturas e colagens. A partir de 2006 passou a usar a fotografia como um meio de expressão e desde então tem desenvolvido esta área de trabalho, centrado na exploração de temas históricos e na realidade social e política. Botelho salienta que o seu trabalho se baseia na sua visão da realidade da vida e por isso mesmo nunca se interessou pela abstracção. A sua nova exposição na Galeria Miguel Nabinho , intitulada “longlivepdg”, datada de 2022, documenta a situação de um parque de skate, o Parque das Gerações, que existe desde 2011 em São João do Estoril (na imagem), uma estrutura criada para fomentar a integração social de crianças de bairros carenciados. O Parque das Gerações (pdg) está agora ameaçado devido a alterações no plano director municipal e Manuel Botelho documenta a situação existente e o movimento de resistência, desencadeado pelos utentes do parque, destacando a forma visual como essa resistência se materializa através de pinturas na estrutura dos equipamentos do  parque. Outra exposição que vale a pena ser vista é “Sem Título Original”, de José Manuel Rodrigues, que está até 26 de Junho no Palácio D. Manuel, em Évora.  Com cerca de uma centena de fotografias actuais, José Manuel Rodrigues mostra o seu olhar sobre a vida nestes dias. O autor, Prémio Pessoa em 1999, sublinha: “no trabalho final desta exposição aconteceu a guerra. A parte humana foi invadida por ela. Mostrar a vida tornou-se uma prioridade, por isso modifiquei a exposição. A par do sonho de mostrar a vida que é possível, estas fotografias pretendem também e com urgência alertar para o que é viver debaixo de guerra”.  

 

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UM ROMANCE ENVOLVENTE - “Ethan Frome” é um romance de Edith Wharton passado na cidade fictícia de Starkfield, na Nova Inglaterra e foi publicado pela primeira vez em 1911. O romance conta a história de Ethan, um homem de meia-idade, que coxeia como se arrastasse consigo um peso, e relata os seus infortúnios na vida e no amor. “Ethan Frome” é  mesmo considerado um dos grandes clássicos americanos do século xx e uma das melhores obras de Edith Wharton, a primeira mulher a receber um Pulitzer de ficção. Para o escritor norte-americano Gore Vidal, Wharton  é, a par de Henry James, um dos «gigantes, iguais, os deuses tutelares e benignos da nossa literatura americana». Neste livro, que muitos consideram a obra - prima de Wharton, a autora capta os impulsos e as fraquezas da natureza humana, explorando a hipocrisia da sociedade. Graças à sua forma de escrever envolvente, mas simples, Wharton dá a descobrir a beleza que pode existir numa paisagem austera e explora o conflito entre o dever e o desejo, colocando a atracção e o sexo no meio de uma narrativa ficcional que se desenrola de forma ardente, mas elegante - um bom exemplo disto é uma curta frase, que aqui deixo, tirada ao acaso do livro: ”Quando a porta do quarto dela se fechou, ele lembrou-se de que nem sequer lhe tinha tocado na mão”. O livro serviu de inspiração a uma peça de teatro e a um filme de John Madden, de 1993, protagonizado por Liam Neeson e Patricia Arquette. “Ethan Frome” inaugura a nova colecção de clássicos recentes da Guerra e Paz Editores.

 

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BLUES & JAZZ - Charles Mingus, que teria feito 100 anos no dia 22 de Abril, é uma das mais influentes figuras da música americana do século XX e afirmou-se como baixista, pianista, líder de banda e compositor. Para assinalar a data a etiqueta Rhino/Parlophone lançou uma nova edição do seu álbum Mingus Three, originalmente de 1957, agora remasterizado a partir das fitas originais. Neste registo Mingus, no baixo, é acompanhado pelo pianista Hampton Hawes e o baterista Dannie Richmond. O disco original tinha sete faixas, a que foram acrescentadas para esta edição oito registos inéditos de estúdio, com versões diferentes de todas as faixas do álbum de 1957, à excepção de “Laura”, mais dois blues originais. Esta nova edição apresenta uma réplica da capa original da Jubilee Records e um livro com fotos da época, bem como notas da autoria do orquestrador e pianista de jazz Sy Johnson, que colaborou com Mingus na década de 70. Nessas notas Johnson recorda como a gravação, realizada no dia 9 de Julho de 1957, foi essencialmente um diálogo musical entre o baixo de Mingus e o piano de Hawes, pontuado discretamente pela bateria de Richmond. Um dos temas mais exemplares deste encontro de talentos musicais é a versão do clássico “Summertime”, um dos temas clássicos do disco - os outros são  “Yesterdays”, “I Can’t Get Started” e “Laura”. Há ainda dois originais de Mingus, “Back Home Blues” e “Dizzy Moods” e uma jam session intitulada “Hamp’s New Blues” . As faixas bónus incluídas nesta edição incluem versões mais swing de  “Summertime” e “Hamp’s New Blues.”

 

UMA SALADA DE PEPINO  - Gosto de pepino, quer em salada, quer como parte de uma sanduíche, de preferência em pão de centeio. A primavera chama por saladas e a de pepino é especialmente refrescante. O segredo está no tempero - já lá chegamos. O ideal, se fôr possível, é o chamado pepino japonês - que muitas vezes se encontra no Lidl. Mas se não houver japonês, pode bem ser o pepino vulgar que há em todo o lado. Começo por tirar pedaços de casca com um descascador e depois corto em fatias muito finas. Vou colocando as fatias num prato raso e polvilho-as com sal à medida que vou fazendo camadas. Um pepino de média dimensão, sem ser demasiado grosso, dá para duas pessoas. O segredo desta salada está no tempero: deitar num copo uma colher de sopa de água, sumo de um quarto de limão, três colheres de sopa de vinagre de arroz, uma colher de sobremesa de açúcar amarelo, mexer tudo bem mexido até o açúcar se dissolver. Depois deitar numa tigela larga todo o pepino já cortado, adicionar-lhe meia dúzia de cebolinhas em vinagre cortadas ao meio e deitar o tempero por cima. Mexer tudo bem mexido e no fim salpicar com pimenta preta moída na altura. Voltar a mexer e está pronto a servir. Vão ver que tem um sabor diferente do que é hábito, e creio que será uma boa surpresa para muita gente. Experimentem para acompanhar uma carne grelhada. 

 

DIXIT -  "Falta a Portugal o inconformismo de Abril para romper a estagnação. Abril confiou-nos esta difícil missão: a de continuar a querer saber - da política, de Portugal, da Europa e do Mundo. A de continuar a querer saber do futuro" - Bernardo Blanco, deputado da Iniciativa Liberal

 

BACK TO BASICS - “Tudo o que é verdadeiramente importante e inspirador foi criado por pessoas que puderam trabalhar em liberdade” - Albert Einstein

 




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UM CONVENIENTE EMPREGO - Quando na semana passada começaram a surgir rumores de que o ISCTE tinha casos, digamos, perfumados de rosa, uma pessoa próxima disse-me, com alguma razão: “é o ISCTE com o PS e a Católica com o PSD”. Nessa altura falávamos só do peso de quadros de um determinado partido dentro de cada uma dessas Universidades. Mas, que se saiba, os dirigentes da Católica não são nomeados em função dos favores que fazem à sua Universidade quando estão no Governo. O assunto do ISCTE ganhou novos contornos quando se soube das habilidades de João Leão, o ex-Ministro das Finanças que saíu do cargo do Governo directamente para vice-reitor do ISCTE, nomeado por outra antiga ministra do PS, Maria de Lourdes Rodrigues, agora reitora da instituição. João Leão foi convidado e negociou a sua ida para vice-reitor do ISCTE quando ainda era ministro das Finanças, dois dias antes de sair do Governo, a 28 de março.  Esta amigável transição ocupacional proporcionou a João Leão regressar ao local onde era professor, mas com um bónus. O melhor estava para vir quando se soube que, enquanto ministro das Finanças, João Leão tutelou, através de uma sua Secretária de Estado, a colocação no OE de um financiamento de 5,2 milhões de euros para o seu próprio novo emprego.  Ora este financiamento do Estado a uma instituição universitária fez-se, convenientemente, através de uma “dotação centralizada do Ministério das Finanças” e não do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, como é de regra nestes casos. Esta situação está compreensivelmente a causar algum desconforto entre responsáveis de Universidades e Institutos Politécnicos. E é um sinal para Elvira Fortunato, a cientista que aceitou ser Ministra, e que agora pode ir vendo como funciona a política. E o PS.

 

SEMANADA - Em média os portugueses esperam cinco vezes mais tempo do que os alemães pela introdução no mercado de medicamentos inovadores; em Março o número de óbitos verificado em Portugal foi o maior dos últimos cinco anos; nos três primeiros meses deste ano registou-se um número de baixas por doença superior às registadas durante todo o ano passado; em mais de 650 escolas estão a ser implementadas medidas contra a ansiedade provocada pela pandemia nos alunos; nos dois primeiros meses do ano o conjunto dos alojamentos turísticos recebeu 2,2 milhões de hóspedes e registou 5,4 milhões de dormidas; em Março houve um aumento de 20% do número de passageiros dos transportes urbanos de Lisboa e Porto;  a partilha ilegal de jornais através de redes sociais é efectuada por 600 mil pessoas, provocando um prejuízo mensal de 3,5 milhões de euros à imprensa; numa sondagem realizada pela Intercampus esta semana para este jornal 74% dos inquiridos disseram acreditar que foi “a proximidade política”, mais do que a competência, que pesou nas escolhas de António Costa para a constituição do executivo; na mesma sondagem 54% dos inquiridos consideraram que Fernando Medina não será um bom Ministro das Finanças; o orçamento apresentado pelo Ministro Medina prevê uma subida da receita de impostos face à proposta que havia sido apresentada em Outubro. 

 

O ARCO DA VELHA - Um recluso da cadeia de Coimbra que estava evadido decidiu entregar-se, mas não foi admitido no estabelecimento por falta de documentação - e para conseguir ser preso noutra penitenciária teve de obter um despacho do Tribunal de Execução de Penas de Lisboa. 

 

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COLECÇÕES - O título é uma divertida provocação, a exposição é surpreendente: “Não Sei Se Posso Desejar-lhe Um Feliz Ano” (na imagem) mostra parte da colecção privada de Mário Teixeira da Silva. Além de coleccionador, Mário Teixeira da Silva fundou em 1975 a Galeria Módulo, primeiro no Porto, depois em Lisboa. A exposição, com curadoria de Adelaide Duarte, está até 28 de Agosto no Museu Nacional de Arte Contemporânea (Rua Serpa Pinto 4, ao Chiado). Mário Teixeira da Silva reuniu ao longo de 50 anos um conjunto de obras de artistas nacionais e internacionais. A exposição está bem organizada em quatro eixos distintos e inclui obras de artistas como Julião Sarmento, Bernd and Hilla Becher, Hamish Fulton, Helena Almeida, Alberto Carneiro, João Jacinto, Eduardo Vianna, Pedro Casqueiro, Paula Rego, Gonçalo Mabunda, Silva Porto, Candida Höfer , Wolfgang Tillmans, Henrique Pousão, Zhang Huan, Thomas Ruff, Aurélia de Sousa, Lourdes Castro e  Nan Goldin entre muitos outros.  O percurso encerra com uma evocação de um Cabinet d’Amateur, em que se apresentam obras do ambiente privado do coleccionador. A exposição inclui também peças de arte tribal e mostra parte do importante núcleo de fotografia da colecção de Mário Teixeira da Silva, com algumas obras de autores raramente expostos em Portugal. Logo por acaso esta mostra do Museu do Chiado abriu na mesma semana em que a dupla Sara e André apresentaram, na Galeria Quadrum (Rua Alberto de Oliveira 52, Alvalade),  a exposição “O Coleccionador de Belas Artes”, que reúne um conjunto inédito de pinturas de média dimensão, realizadas entre 2021 e 2022. Anteriormente Sara e André já haviam trabalhado sobre a sua visão de artistas e curadores e agora focam-se em colecionadores portugueses de arte contemporânea, num exercício que utiliza vários suportes e técnicas. Até 19 de Junho.

 

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FOTOGRAFIAS - Uma semana cheia de boas novidades em matéria de exposições de fotografia. O destaque vai para a exposição de Clara Azevedo, “365 Dias Que Mudaram As Nossas Vidas” na Galeria de Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147), onde pode ser vista até 7 de Maio. Trata-se da visão de uma fotojornalista sobre o primeiro ano da pandemia em Portugal, vista de um ponto de observação privilegiado que vem do facto de ela ser a fotógrafa oficial do Primeiro Ministro. Mas este não é um trabalho de propaganda, é  o olhar de  Clara Azevedo sobre o silêncio e o vazio. Durante 365 dias, a partir de 18 de março de 2020, Clara Azevedo fotografou e documentou a memória de um tempo imprevisível. Este projeto deu origem a um livro, publicado pela INCM no final de 2021, antecedido por um registo diário no Instagram e que agora tem esta exposição e também 25 caixas numeradas, que contêm um print assinado pela autora. Clara Azevedo diz que “as fotografias deste diário são o meu estado de alma, quer estivesse a fotografar o Primeiro-Ministro no seu dia-a-dia, ou a registar o que acontecia à minha volta.”  A fotografia que aqui se reproduz retrata uma missa na Igreja de S. Mamede, em Lisboa, há precisamente dois anos e é um testemunho de um tempo onde tudo mudou e as pessoas pareciam ter desaparecido. A exposição pode ser vista de segunda-feira a sábado, entre as 15 e as 20h.  Em Lisboa, na Gulbenkian, pode ainda ver até dia 25 “As Bravas”, de Paulo Pimenta. As Bravas são mulheres das montanhas do Marão, nas palavras do autor,  “guardiãs de pés descalços e de lembranças de tempos duros, de histórias e cantigas do passado mas com o futuro no olhar”. 

 

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BANDA DESENHADA - Nestes tempos dramáticos que vivemos, onde os ditadores lançam de novo o seu espectro sobre a Europa, não é demais recordar o passado. A história de Anne Frank, relatada no seu diário, torna-se actual com o drama vivido por tantas crianças ucranianas. Vem isto a propósito de “À Procura De Anne Frank”, obra simultaneamente lançada como banda desenhada e filme de animação. No seu famoso diário, Anne Frank criou uma amiga imaginária, Kitty. Ari Folman, realizador e autor trabalhou com a ilustradora Lena Guberman e  deram uma volta à história, movendo-a para o tempo presente: em Amsterdão, uma violenta tempestade quebra o vidro que protege o Diário, guardado na Casa de Anne Frank. E é Kitty que salta daquelas páginas e se lança numa aventura à procura da sua amiga. Acompanhada pela memória dos dias passados, Kitty percorre as ruas da capital holandesa de hoje na companhia de amigos e juntos vão descobrir o que foi o Holocausto, o que significou para Anne e o que o seu Diário continua a significar para as crianças de todo o mundo. “À procura de Anne Frank”tem por base os textos originais do Diário, publicado há 75 anos. Como Ari Folman escreve no posfácio do livro, “as aventuras de Kitty têm lugar na Europa, mas as verdades que ela descobre reflectem a dura realidade em muitas partes do mundo: as crianças em zonas de guerra correm perigo constante”. 

 

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A MÚSICA FILMADA -  Há filmes com bandas sonoras e agora há bandas sonoras sem filme. Confuso? Então a história é esta: Bruno de Almeida, realizador de cinema e de documentários, anda sempre com os seus filmes de mão dada com a música. Ele é o realizador de um magnífico documentário sobre Amália Rodrigues e do belo “Cabaret Maxime”, onde a música está sempre presente. Agora, pegou na sua guitarra, e voltou às música por onde já tinha andado nos anos 80. O resultado é um álbum,”Cinema Imaginado”,  que além de Bruno de Almeida inclui músicos como o cornetista Graham Haynes, o saxofonista Ricardo Toscano, o baixista Mário Franco e o trompetista Frank London. O disco é um híbrido de jazz, funk e spoken word. O  disco envolveu três dezenas de pessoas e tem 11 temas, todos da autoria de Bruno de Almeida, nas palavras e na música, excepto “Downtown 85”, em que a música foi composta por Mário Franco, Ricardo Toscano e André Sousa Machado,  e “Film Noir”, em que a música é de Graham Haynes, com Bruno de Almeida. O tema inicial, “Between Crazy And Dead”, parte de uma malha de guitarra que Bruno de Almeida descobriu em gravações suas dos anos 80 em Nova Iorque. A partir daí, dessa malha de guitarra, nasceu a banda sonora do filme que não existe. A obra é também uma execução singular de possibilidades tecnológicas: os músicos gravaram não só em estúdios de Lisboa mas também em New Orleans, Nova Iorque e Bahia, os seus sons convergindo num trabalho de produção em Portugal. Cada canção é um plano desse filme imaginado, os planos vão-se ligando entre si e acabam por contar uma história, utilizando a voz de Bruno de Almeida, o narrador. Fechamos os olhos e parece uma banda sonora, as imagens começam a desfilar. Fascinante. Disponível em CD e nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “O falhanço de Rio no PSD deveu se, em grande parte, às ambiguidades face ao Chega” - José Pacheco Pereira


BACK TO BASICS -” Quando os mentirosos falam verdade nunca são acreditados” - Aristóteles

 




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UNS VÃO, OUTROS FICAM-SE...

por falcao, em 14.04.22

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A SOCIEDADE DAS NAÇÕES - Bem sei que a diplomacia é sempre um tema complicado, que os diplomatas gostam de usar cinto e suspensórios em simultâneo, para estarem bem seguros de que as calças não lhes caem a meio do percurso. E também sei que a ONU é um território extremo de diplomacia, onde as regras ditam que o uso de pinças é utilizado a par do cinismo. Mas custa-me que alguns dos seus organismos, no caso da invasão da Ucrânia, não sejam mais activos. Para mim a situação resume-se assim: Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, foi à Ucrânia; Ursula Von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia, foi à Ucrânia; Josep Borrell, alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, foi à Ucrânia; Boris Johnson, Primeiro-Ministro britânico, foi à Ucrânia; António Vitorino, Director-geral da Organização Internacional para a Migração das Nações Unidas não foi à Ucrânia; António Guterres, Secretário Geral das Nações Unidas, não foi à Ucrânia. A presença física de líderes mundiais em território ucraniano é não só uma prova de apoio à resistência ucraniana face à invasão russa, mas também uma afirmação de que há princípios civilizacionais e políticos que não devem ser violados. Guterres foi eleito para a ONU com o voto da Rússia e fica-se sempre na dúvida até que ponto o seu tradicional jogo de equilibrista é a causa principal do seu imobilismo, quer verbal, quer físico ou se a sua proverbial fuga aos problemas também joga nisto. E em relação a António Vitorino ainda menos se percebe a ruidosa ausência, tendo em conta que o problema dos refugiados ucranianos devia merecer toda a atenção de quem se ocupa do problema das migrações. Mas isto se calhar sou eu que sou ingénuo, não percebo nada e ainda acredito na boa fé da raça humana. Cada vez menos, é certo…



SEMANADA - Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a cobrança de IVA subiu 13,4% em 2021, para 19 mil milhões de euros, um valor record; a carga fiscal, ou seja, o total de impostos e contribuições sociais sobre o PIB, atingiu o seu valor mais alto de sempre em 2021; em 2002 Portugal tinha a 15.ª posição entre os 27 países da UE, em termos de rendimento per capita, no final do ano passado tinha descido para a 21ª posição; Portugal é, depois de Malta, o segundo país da UE com impostos mais altos sobre as empresas; um estudo recente indica que Portugal não cumpre os prazos de pagamento dos apoios comunitários a projectos aprovados; a produtividade em Portugal é 73% da média europeia; o investimento de cidadãos estrangeiros na aquisição de casas na região de Lisboa atingiu os 923,1 milhões de euros, o valor das 1767 casas compradas principalmente, e por esta ordem, por americanos, franceses e chineses; 35,2% dos refugiados ucranianos em Portugal são crianças e só 10% estão já inscritas em escolas; em Portugal entraram 360 crianças refugiadas ucranianas que vieram sem a companhia dos pais; 3,6 milhões de pessoas foram infectadas por Covid-19 em Portugal, cerca de 35% da população total; desde que a equipa brasileira de gestão da TAP a levou a investir  naquele país na área da manutenção, a companhia aérea sempre registou prejuízos ao longo de 16 anos, e a aventura brasileira teve um custo superior a 500 milhões de euros; a TAP registou no ano passado  prejuízos de 4,3 milhões de euros por dia; os atrasos no plano Ferrovia 2020 vão causar 2,4 milhões em custos ambientais; o INE confirmou o valor da inflação para março: 5,3% o valor mais elevado desde Junho de 1994;  ainda segundo o INE os preços de energia dispararam 19,8%, o valor mais elevado desde fevereiro de 1991, enquanto os produtos agrícolas subiram 5,8%.

 

O ARCO DA VELHA - Há oito anos, num inquérito promovido pelo Conselho Pedagógico da Faculdade de Direito de Lisboa,  já haviam sido feitas queixas de assédio moral sexual por parte de professores, essas queixas constaram de um relatório, mas nunca foram investigadas nem foi tomada qualquer medida.

 

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UMA BOA IDEIA FOTOGRÁFICA  - Uma das mais curiosas ideias de trabalho fotográfico que segui nos últimos tempos é o projecto “Tempo Suspenso”, de Joana Carvalho Dias, que está na Sala dos Passos Perdidos do piso zero do Museu Nacional de Arte Antiga. São 40 retratos, de outros tantos funcionários e colaboradores do Museu. Ao longo de meses os espaços foram sendo identificados por cada um dos retratados. Na escolha do lugar da fotografia uns traziam ideias claras e definidas, outros hesitavam, para outros houve notas de indiferença, mas também houve, para alguns, sentimentos de rejeição de alguns espaços no museu. Cada um evidenciou a sua relação com as suas obras, com o seu espaço, com os seus tempos, com a sua memória. Ao todo são 40 retratos onde se sente a ingenuidade nalguns casos, mas também a cumplicidade noutros e até, como no retrato de Narcisa Miranda, que aqui se reproduz, se nota um cuidadoso jogo revelador das preferências de cada retratado e da sua ligação às peças expostas que escolheu. A exposição pode ser vista até 30 de Abril. Outras sugestões fotográficas: até dia 25 podem ainda ver na Fundação Gulbenkian a exposição “As Bravas”, em que Paulo Pimenta fotografou mulheres, com mais de 70 anos, de duas aldeias de Amarante, Vila Chã do Marão e Olo. E na Casa da Imprensa, em Lisboa (Rua da Horta Seca 26, ao Chiado), Alfredo Cunha mostra o trabalho de 50 anos de carreira como fotojornalista. Para terminar, em Guimarães, Duarte Belo apresenta a exposição "Território Manuel Botelho”, na Garagem Avenida, que faz o registo documental fotográfico do território de espaços construídos e de objetos do arquiteto, bem como dos espaços do seu quotidiano.

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FESTAS ILUSTRADAS - O poeta Paul Verlaine teve uma vida bem agitada. Boémio por natureza, distinguiu-se em obras como “Poemas Saturninos” ou “Romances sans Paroles” e foi uma das principais figuras do simbolismo francês. Nasceu em 1844, morreu na miséria em Janeiro de 1896, esteve preso dois anos por ter disparado sobre o também poeta Arthur Rimbaud com quem tinha uma profunda ligação. Em 1869 publicou “Festas Galantes”, um conjunto de poemas sobre a sedução, a ambiguidade dos sentimentos amorosos e o erotismo. O livro teve uma rara edição de bibliófilo em 1928, com apenas 25 exemplares numerados. Nesta edição os poemas de Verlaine foram acompanhados por 23 ilustrações de Georges Barbier, um ilustrador de revistas de moda e desenhador para o teatro e o cinema, que o reviu com a imagem déco da sua época, mas tendo sempre presente a expressão poética de Verlaine. O ilustrador citou os aspectos mais libertinos e sedutores das personagens, bem como o excesso e o humor presentes que caracterizavam as “Festas Galantes” de Verlaine. O primeiro exemplar dessa edição numerada, de apenas 25 exemplares, que inclui 23 aguarelas (20 de página inteira e 3 vinhetas) concebidas por George Barbier, viria, anos mais tarde, a ser adquirido em Paris pelo coleccionador Calouste Gulbenkian, que o incluiu no seu espólio.  Foi esse  exemplar número um da edição que agora serviu de base para a publicação da obra em Portugal, numa edição da Guerra e Paz, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, onde a obra está. Esta edição inclui os 22 poemas originais em francês, uma tradução cuidada para português do poeta João Moita, uma reprodução das deliciosas aguarelas originais e um texto do escritor austríaco Stefan Zweig sobre estas “Festas Galantes”.

 

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TRIO RENOVADO - Cada vez que o pianista norueguês Tord Gustavsen apresenta um novo disco corro a ouvi-lo. Não tenho registo de desilusões desde que o faço com os seus primeiros discos em trio, a partir de 2003. Ao todo são nove discos. Em 2012 alargou  sua formação para um quarteto e fez um dos seus melhores trabalhos, “The Well”. Depois regressou ao trio clássico, piano, baixo, bateria, e é assim que o encontro no CD “Opening”, acabado de lançar. Neste novo trabalho Gustavsen é acompanhado pelo baterista Jarle Vespestad, que com ele colabora há muito, desde o primeiro disco, “Changing Places”,  e por um novo baixista, Steinar Raknes. Para mim a coisa mais fascinante no trabalho de Tord Gustavsen enquanto músico e compositor é a forma como é capaz de conjugar sensibilidade com vigor e calor com tranquilidade. Gravado no auditório Stelio Molo em Lugano, o disco coexiste entre momentos de improvisação e um trabalho de composição sólido. O novo baixista, Steinar Raknes, integra-se bem e parece mais presente que o seu antecessor, nomeadamente nos momentos em que intervém de forma mais marcante. “Opening” tem 12 temas, recorre pontualmente a citações da música folk escandinava, mas tem a inconfundível imagem de marca da sonoridade do piano de Gustavsen. “The Circle”, o primeiro tema do álbum, é exemplar na forma como cruza o trabalho dos três músicos. “Opening”, “Findings” , “Shepherd Song” e “Stream” são outros pontos altos deste álbum, já disponível nas plataformas de streaming e em CD na ECM.

 

SALADA, EU? - Queriam uma receita pascal de cabrito? Pois levam outra coisa, mais verdejante. O segredo de uma salada César está no tempero e na qualidade e frescura da alface. Há muitas versões mas aquele que prefiro é uma mistura de maionese, mostarda de dijon, azeite e um pouco de molho inglês, tudo bem mexido.  Se quiser adicionar dois ou três filetes de anchovas cortados aos pedaços ainda fica melhor - mas sou sensível às resistências de quem ainda não se entregou aos prazeres que só uma boa conserva de anchova pode proporcionar. Para a salada a coisa é simples:  juntar bocados de frango com alface muito fresca cortada em pedaços não demasiado pequenos, alguns tomates cherry, croutons (feitos em casa, a partir de pão de véspera, partido manualmente, incluindo côdea, bem tostado no forno, salpicados com sal azeite e cebolinho). Por fim, pedaços de queijo - dividem-se as opiniões se entre uns quadrados de feta ou lascas de parmesão cortadas na altura. Seja como fôr está garantida uma bela salada. Recordem-se que a salada César é um exercício de tema livre que deve ter em conta o que há no frigorífico - não é heresia juntar pedaços de presunto ou bacon se os restos de frango forem insuficientes. Uma salada com muitas regras passa a ser uma maçada - rima com salada mas não é a mesma coisa.

 

DIXIT - “Dizer que a Ucrânia não pode, se assim o quiser, integrar a NATO é afirmar que ela não tem um estatuto soberano, livre e independente igual ao de qualquer outro Estado” - António Araújo

 

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BAIXEZA PARLAMENTAR  - Quando se julgava que Rui Rio não podia descer mais baixo do que já caíu, eis que ele surpreende de novo. Depois de ter criticado a Iniciativa Liberal por procurar um acordo com o PS para poder ter lugar na primeira fila da Assembleia da República, eis que Rio negociou com o PS a exclusão da Iniciativa Liberal dos cargos para os quais o Parlamento indica deputados, em representação dos respectivos partidos - e entre esses cargos está o Conselho de Estado. A exclusão da Iniciativa Liberal da mesa do parlamento, com o nome de Cotrim de Figueiredo inesperadamente vetado, foi o primeiro sinal daquilo que o PSD, com algumas outras ajudas certamente, entende como a linha a seguir face à realidade que é a alteração do quadro partidário saído das recentes legislativas. Este acordo de bloqueio entre os principais partidos do regime significa a sua incapacidade em aceitarem que a paisagem política está a ser alterada. Como não conseguem contrariar o voto expresso nas urnas, usam outros mecanismos para menorizarem o sentido da escolha dos eleitores portugueses. Face aos seus próprios maus resultados, Rui Rio recorre a manobras de bastidores e a conspirações silenciosas. O que acontece é que desta forma os partidos do regime, na Assembleia da República, querem mostrar que não toleram mudanças no status quo e comportam-se como um clube fechado, retrógrado. Não lhes basta não admitirem mudanças e reformas necessárias na lei eleitoral e no sistema partidário, chegaram ao ponto em que, confrontados com uma nova realidade, a querem eliminar.

 

SEMANADA - Em cinco anos Portugal captou produções internacionais de cinema que trouxeram 314 milhões de euros; desde 2018 foram aprovados 113 projectos de filmagens em Portugal; a iniciativa Serralves em Festa, interrompida no início da pandemia, continua a não se realizar este ano; 10% dos docentes da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa foram denunciados por assédio e discriminação; nos bairros de Lisboa onde foram proibidos novos alojamentos locais o preço das casas desceu 9% e registou-se uma quebra de 20% na venda de imóveis; nas duas últimas décadas Portugal foi ultrapassado por sete países no ranking europeu do PIB por habitante: a Eslovénia em 2003, Malta em 2004, a República Checa em 2007, a  Lituânia em 2017, a Hungria e a Polónia em 2021; no ranking europeu do PIB por habitante passámos do 15º para o 21º lugar;  em 2010 estávamos, em termos de PIB por habitante,  a 83%  da média europeia; em 2020 já tínhamos descido para 76% da média e em 2021 voltámos a cair, para 74%; nos últimos 35 anos Portugal recebeu da União Europeia 141 mil milhões de euros em fundos estruturais; o Porto vai ter menos sete rotas da TAP, o que significa menos 705 mil lugares disponíveis no norte por parte daquela companhia aérea subsidiada pelo Governo; três quartos dos trabalhadores jovens não estudaram para além do ensino secundário; desde o início do conflito na Europa o aumento do preço dos alimentos é superior a 5%; este ano os bens essenciais subiram três vezes mais que os aumentos salariais registados.

 

ARCO DA VELHA - Dois juízes do Tribunal da Relação do Porto, José Carreto e Paula Guerreiro, consideraram que a falta de contactos sexuais num casal pode servir de atenuante para violência doméstica. Os juízes pronunciaram-se num caso em que uma mulher foi  agredida e forçada a relações sexuais ao longo de décadas durante o casamento.

 

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FOTOS MUSICAIS  - Há em Lisboa, na zona do Beato/Chelas, um espaço onde coexistem uma galeria dedicada à fotografia, um bar e música, a Little Chelsea Gallery. As fotografias expostas têm a ver de alguma forma com música ou com um determinado fenómeno onde a música exerceu influência. É o caso dos Mods britânicos - Mod é a abreviatura de Modern, o que no início dos anos 60 queria dizer jazz, soul, ska e rhythm’n’blues, em contraposição aos rockers. Os Mods deslocavam-se em vespas ou outras scooters italianas, carregadas de extras como faróis suplementares e espelhos, enquanto os rockers preferiam os motociclos tradicionais ingleses. Eram épicos os confrontos entre Mods e Rockers, e Brighton foi frequente palco dessa rivalidade. Os Mods tinham bandas preferidas: Small Faces, Yardbirds e Who - que tornaram Quadrophenia a obra musical de referência do movimento Mod. A nova exposição na Little Chelsea é sobre a cultura Mod, fruto do trabalho do fotógrafo alemão Horst Friedrichs, que ao longo de 12 anos fotografou a cultura inspirada pelos Mods e que tem desenvolvido trabalho em torno da cultura urbana nomeadamente em Londres, num caminho documental com uma visão muito própria. Esta exposição com o trabalho de  Horst Friedrichs sobre os Mods, tem 24 fotografias,  à venda por valores entre os 500 e os 700 euros, é comissariada por João Vilela Geraldo, Céline Couvreur e Christine Chansou e pode ser vista até 21 de maio, de terça-feira a sexta-feira das 14h às 19h, e sábado das 14h às 18h, na Little Chelsea Gallery, Rua Capitão Leitão 40, a Marvila.  Se gostam de música e fotografia este é mesmo um local a conhecer, que abriu na segunda metade do ano passado. Outra sugestão: em Braga, na Galeria da Estação, organizada pelos Encontros da Imagem está a exposição de fotografia “Comunidades Ciganas”, de José Firmino Ribeiro, até 30 de Abril.

 

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UMA INVESTIGAÇÃO APAIXONANTE - Philip Trent é um artista plástico que tem uma queda por descobrir a solução de crimes complicados. Pelo meio, enquanto investiga, conta os pormenores do que vai descobrindo nas páginas de um jornal londrino que lhe patrocina as investigações e as relata em exclusivo. O autor dos policiais protagonizados por Trent é E.C. Bentley. Agora, quatro décadas depois da sua anterior edição em Portugal, a colecção Vampiro, da Bertrand, fez uma nova edição, revista, com o texto integral de uma das suas mais famosas obras: “O Último Caso de Trent”. Considerada por Agatha Christie «uma das melhores histórias de detetives jamais escritas» e «uma narrativa de invulgar brilhantismo e charme» por Dorothy L. Sayers, “O Último Caso de Trent” surgiu em 1913 como um dos exemplos mais originais do género policial. Estamos portanto a falar de um policial que tem mais de cem anos, mas que se mantém actual. A investigação gira em volta de um importante financeiro de Wall Street, Sigsbee Manderson, que apareceu morto, com um tiro na cabeça, numa pacata vila inglesa. “Quando Manderson morreu, os mercados estremeceram. As acções desceram vertiginosamente e o mundo dos negócios foi agitado por um terramoto” - assim escrevia Bentley nas primeiras páginas do livro. Mal se soube a notícia Trent foi encarregado pelo proprietário do diário “Record”, Sir James Molloy, de descobrir o que se tinha passado - quem tinha disparado sobre Manderson. Entre os suspeitos estão a sua jovem mulher, um seu familiar, e até um grupo de sindicalistas descontentes. Quem terá sido o autor? As duas centenas de páginas deste livro devoram-se num ápice, tal a qualidade da escrita e a construção da história. Espero que se tentem a descobrir a solução do caso.

 

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CANTIGAS DO ARAÚJO - Em dez anos de carreira Miguel Araújo lançou seis álbuns de originais - só este ano já foram dois - a banda sonora “Canções da Esperança” e, agora, “Chá Lá Lá”, onde mais uma vez tem uma boa lista de convidados: António Zambujo, com quem tem uma cumplicidade especial, Joana Almirante (que tem tocado ao vivo com Miguel Araújo), mas também Rui Pregal da Cunha, Tim e Rui Reininho que se juntam, os três numa bela “Canções da Rádio”, que evoca momentos passados, êxitos em tempos cantados por estas três vozes. Com nove temas, este novo disco tem já três canções que se destacam: “Talvez Se eu Dançasse”, “Dia da Procissão” e “Chama por mim”. “Chá Lá Lá” é assumidamente um disco pop, canções de amor, ritmadas, pequenas histórias que se vão encaixando umas nas outras. Miguel Araújo tem essa qualidade, rara, de contar histórias do quotidiano e fazer disso grandes canções. Além dos nomes referidos o disco tem também a participação da Orquestra Filarmónica da Cidade de Praga e foi lançado pela Chiu, a editora do próprio Miguel Araújo. No seu site estão todas as indicações para quem quiser a edição em CD. O trabalho está também disponível nas plataformas de streaming.

 

A ESSÊNCIA DO JAPÃO - Nas novas galerias Ritz abriu há pouco tempo o primeiro restaurante  Kabuki em Portugal. Em Espanha, onde nasceu, o Kabuki está em Madrid, Tenerife, Málaga e Valência. Apresenta-se como um restaurante de sushi de fusão, que, baseado na tradição japonesa, incorpora referências mediterrânicas. Kabuki é aliás a designação de uma forte tradição teatral japonesa, caracterizada pelo facto de os actores utilizarem elaborada maquilhagem. No Kabuki, em Lisboa, a arte é a do equilíbrio entre as culturas gastronómicas japonesa e ibérica. Nas Galerias Ritz o Kabuki tem três espaços distintos - um bar, o restaurante com a lista normal e uma sala mais pequena, no primeiro andar, a Experience, onde são servidos menus de degustação que vão variando. Quem me desafiou a fazer esta experiência foi Ivan Carvalho, um jornalista da Monocle, de ascendência portuguesa, e que, vivendo em Milão, está cada vez mais apaixonado por Portugal - e em particular pelos seus vinhos. No Kabuki Experience foi-nos sugerido o menu Família do Atum: para começar um croquete de atum, um nigiri de gelatina de atum com tomate fresco e cebola caramelizada e um ceviche tépido de atum meio gordo. Depois veio lírio, em corte fino, com as suas ovas, e um tártaro de barriga de atum, cebolinho, wasabi fresco e caviar. O nigiri que se seguiu foi uma selecção de oito peças do chef e, para terminar,  uma magnífica barriga de atum, preparada a baixa temperatura, com caldo ibérco e rosmaninho. Tudo impecável de frescura e preparação. O chefe responsável pelo Experience é Marcos Martinez e o sommelier é Filipe Wang, sabedor e atento. Começámos com um Textura da Estrela 2019, da região do Dão, do enólogo Luís Seabra. Depois veio a sugestão de Wang, o Pura 2018, também Textura, ambos vinhos brancos muito gastronómicos, com as castas encruzado, bical e cerceal branco. 

 

DIXIT - “No fim de cada ano, no termo de cada legislatura, a Justiça fica sempre aquém do necessário. E mais injusta” - António Barreto.

 

BACK TO BASICS - “A História da Humanidade parece-se cada vez mais com uma competição entre a educação e a catástrofe” - H. G. Wells



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A PEDRA DE TOQUE - O novo Governo tomou posse esta semana. Recebe um país, governado pelo PS desde 2015, e cujo quadro geral, segundo o Eurostat, se resume assim: Portugal ficou, em 2021, com o sétimo PIB per capita mais baixo da União Europeia, o produto per capita em Portugal está 26% abaixo da média da União Europeia, apenas à frente da Roménia, Lituânia, Croácia, Eslováquia, Grécia e Bulgária. Acresce que, no tempo em que os juros não eram um problema, a dívida pública aumentou  e está nos 127,5% do PIB - e, agora com a inflação a mexer-se e os juros a começarem a pesar, ninguém em seu perfeito juízo consegue medir o que pode acontecer às finanças do país. As finanças do país, aliás, caracterizam-se por um aumento constante da carga fiscal directa e indirecta e por um fraco crescimento económico. Neste quadro não se vislumbra como, além de gastar a bazuka europeia, o Governo pretende actuar. Como vai o novo Governo, e o tentacular Ministério das Finanças, comportar-se num cenário em que o Plano de Recuperação e Resiliência, atribui a maior fatia dos fundos europeus ao Estado, potenciando o aumento da despesa estrutural, enquanto para o desenvolvimento da economia, das empresas e da reestruturação dos sectores produtivos vai uma minoria? Há um ano um grupo dos mais importantes empresários portugueses elaborou um documento de análise do PRR que, em jeito de conclusão, afirmava:  “A fórmula do PRR corresponde a um modelo de aplicação de fundos externos similar ao verificado nas últimas quatro décadas, um modelo que nos deixou como um dos países mais pobres da União Europeia.”. O cerne da questão é saber o que tenciona o Governo fazer para alterar este panorama - ou, se sequer encara que vale a pena ser alterado. Vai ser interessante seguir como será a relação entre o Ministério da Economia e o Ministério das Finanças, o duelo inevitável do novo executivo.

 

SEMANADA -  Apesar de agora considerar Putin um capitalista desenfreado, o PCP tinha programado para este ano uma série de  excursões políticas à Rússia e à Bielorússia; várias comunidades intermunicipais gastaram mais de 100 mil euros em viagens de dirigentes autárquicos à expo do Dubai; o imposto sobre produtos petrolíferos rende 9,7 milhões de euros por dia ao Estado; o valor médio das rendas de habitação em Lisboa e no Porto aumentou 20% em 2021; a quantidade de azeite produzido em Portugal no ano 2021, a maior produção de sempre, foi de 180 mil toneladas; o aumento das reservas de voos para Abril deste ano, com destino a Portugal, foi de 500% face ao período homólogo do ano passado; cinco anos depois dos incêndios de Pedrógão a zona florestal ardida não teve intervenção e está invadida por acácias, espécie perigosa em termos de combustão; uma ex-governante e deputada socialista, Constança Urbano de Sousa, afirma que figuras de topo do PS a pressionaram no sentido de evitar a alteração da lei da nacionalidade que favorece os descendentes de judeus sefarditas; o processo de contratação pelo Estado de psicólogos e nutricionistas, iniciado em 2018, ainda não está concluído; um estudo recente indica que pelo menos 100 mil alunos do terceiro ciclo e secundário não terão professor a uma das cadeiras no próximo ano lectivo; no novo parlamento, que tomou posse 153 dias depois do chumbo do Orçamento de Estado,  há 80 caras novas e menos mulheres; nenhum Ministro do primeiro governo de Costa em 2025 se mantém no novo Governo; 

 

O ARCO DA VELHA - Fernando Medina foi a uma estação de televisão comentar a composição do governo de que faz parte

 

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IMAGENS DOS TEMPOS - Esta semana destaco duas exposições de fotografia. A primeira leva-nos à Itália do pós-guerra e nasceu de um trabalho efectuado pelo fotógrafo Paolo Di Paolo e o escritor e realizador Pier Paolo Pasolini. Tudo nasceu como uma uma reportagem sobre as férias de Verão dos italianos, que viria a ser publicada numa revista, em três capítulos, em 1959. Vivia-se o tempo em que a Itália procurava sair da miséria causada pela II Grande Guerra, novas indústrias surgiam e um novo conceito de vida se desenhava. O escritor e o fotógrafo partiram para uma longa viagem de carro, com a ideia de atravessar a Itália ao longo da costa, de norte a sul, para testemunhar a sociedade italiana da época. Agora as imagens e alguns dos textos desse trabalho foram reunidos numa exposição, “La lunga strada di sabbia” (A longa estrada de areia), de Paolo di Paolo, presente desde a semana passada na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Com curadoria de Silvia de Paolo, que mergulhou nos arquivos do seu pai, Paolo di Paolo, a exposição mostra fotografias a preto e branco, algumas inéditas, vídeos, material de arquivo e também excertos de textos de Pier Paolo Pasolini. As imagens (como esta aqui reproduzida) deixam o testemunho do contraste, então ainda existente, entre a pobreza e o início da recuperação económica.  A outra exposição de fotografia que destaco é “Portugal/Saudade” do fotógrafo norte-americano Neil Slavin e que agrupa 100 fotografias que fez em Portugal, em dois ciclos temporais. O primeiro inclui 50 fotografias feitas em 1968 e que mostravam instantes da vida dos portugueses, por exemplo em Coimbra, no Portugal dos Pequenitos, no Santuário de Fátima, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, ou nos areais da Praia da Nazaré. Mais tarde, entre 2016 e 2019, Slavin regressou a Portugal e procurou mostrar as diferenças em relação ao que havia fotografado cinco décadas antes em mais 50 fotografias. A exposição de Neil Slavin está em Vila Nova de Gaia, na galeria do espaço WOW-World Of Wine, até 31 de Outubro.

 

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A GUERRA FRIA  - A complexa situação internacional em que vivemos desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, há mais de um mês, evoca memórias do período que ficou conhecido como “Guerra Fria” e que, de uma forma genérica,  se desenvolveu entre 1947 e 1990. Por isso é especialmente oportuna a publicação do “Atlas da Guerra Fria – 1947-1990: Um Conflito Global e Multiforme”, da autoria dos historiadores franceses Sabine Dullin, Stanislas Jeannesson e Jérémie Tamiatto. Esta obra de divulgação histórica está dividida em cinco principais períodos. As duas primeiras partes pretendem mostrar como o conflito Leste-Oeste, entre a democracia liberal dos Estados Unidos e o comunismo da União Soviética, gerado a partir da divisão da Alemanha, no pós-Segunda Guerra Mundial, degenerou numa Guerra Fria global. Foi um conflito ideológico e político inédito da História, que não acarretou nenhum confronto físico directo entre os seus principais oponentes, mas que precipitou conflitos armados periféricos, como a Guerra da Coreia e a Guerra do Vietname. A terceira parte é dedicada à apresentação das crises e das contestações, como a construção do Muro de Berlim, a crise de Cuba e o conflito israelo-árabe, mas também às resistências nos dois campos. Na quarta parte, os autores focam-se na Détente e na dimensão cultural do conflito: a propaganda anti-imperialista da URSS, a rivalidade das agências espaciais e das competições desportivas e a disseminação do modo de vida ocidental. A quinta e última parte expõe a forma como a Guerra Fria chegou ao fim, com os desafios regionais da Guerra do Afeganistão, o desmantelamento do bloco comunista e o apaziguamento nuclear.  Quando se percorre este livro percebe-se melhor como o mundo actual não pode ser compreendido, em todos os pontos de vista, sem se ter em conta os 45 anos de tensões e conflitos pós-Segunda Guerra Mundial.

 

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O TRIO - Volta e meia, neste rectângulo à beira-mar plantado, ainda há lugar para boas surpresas musicais. Para além da espuma dos dias e daquilo que normalmente se ouve na rádio há todo um conjunto de músicos que trabalha e se exprime em terrenos pouco explorados. É o caso do Indra Trio: Luís Barriga no piano, João Custódio no contrabaixo e Jorge Moniz na bateria. O Indra Trio editou agora o seu segundo disco, “Shiva”, um trabalho que agrupa nove composições originais, onde se sente a relação profunda existente entre os três músicos. Embora o piano seja a força central, que marca de forma clara a maioria das composições, a essência de um trio de jazz, que é a diversidade e cumplicidade entre os músicos, está aqui exemplarmente retratada. A maioria das composições é de Luís Barriga, mas Jorge Moniz assina igualmente dois dos temas. Em todos é evidente a capacidade de improvisação dos músicos e a sua cumplicidade. Segundo os próprios músicos, o trabalho deste trio caracteriza-se pela simplicidade e pela procura do encontro com a natureza e a ligação profunda dos sons. No Hinduísmo, Indra é o deus do céu e rei dos deuses da natureza.  “Shiva” é o segundo álbum do trio e o título evoca um dos principais deuses do Hinduísmo, conhecido também como o Transformador. Os nove temas que integram “Shiva” são de uma elegância extrema, um exercício de criatividade musical e uma boa surpresa na paisagem do jazz português.



UMA DESCOBERTA ROMANA - A primeira vez que ouvi falar de pinsa romana achei que era uma graçola à volta da palavra pizza, afinal trata-se de uma reinterpretação de uma antiga receita criada no Império Romano. O formato é irregular, mais oval que circular, mas a verdadeira diferença reside na massa - a Pinsa Romana é feita de uma massa leve e crocante, macia em seu interior, tostada por fora. O segredo da massa da Pinsa moderna reside na utilização de três farinhas diferentes - soja, trigo e arroz, mais hidratadas que as massas  de pizza, e com uma fermentação natural, lenta e longa, a partir de massa mãe, o que tem como consequência uma base de massa com menos glúten, mais saborosa e mais fácil de digerir. Em Portugal descobri recentemente as pinsas da  “Ammazza!” e fiquei fã. A lista, além de entradas e saladas propõe pinsas em dois tamanhos, individual e dupla, e variedades como a marguerita, amatriciana, diávola (com um picante salame ventricina), funghi (com pecorino romano), acciughe (com anchovas) uma vegetarianas sem queijo e com creme de abóbora e outra com berinjela, tomate confitado e mozarella. Nas sobremesas há pinsas de Nutella ou de pêra e chocolate. A Ammazza! está na Infante Santo 66D, funciona todos os dias da semana e pode levantar na loja ou encomendar entrega em casa. Mais informações em ammazza.pt .

 

DIXIT - “Costa pôs a carne toda no assador. Está lá o PS inteiro e o Largo do Rato em força” - José Adelino Maltês, sobre o novo Governo

 

BACK TO BASICS - “Se quiserem conhecer o verdadeiro carácter de alguém, dêem-lhe poder” - Abraham Lincoln

 




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CONSEGUIRÁ COSTA SER UM REFORMISTA? - Das duas uma: ou o próximo Governo fica sentado num banco de jardim a ver para onde sopra o vento, e vai navegando à bolina dos acontecimentos, como aconteceu nestes anos de pandemia, ou então traça um plano, vê o que é preciso fazer para tirar o país praticamente da cauda da Europa  e mete mãos à obra. Na situação conturbada em que vivemos, em termos europeus e mundiais, o bom senso aconselha estabilidade, mas recomenda também que se tomem medidas para evitar a degradação da crise económica, ainda para mais num cenário de inflação. Neste momento, e por mais uns largos meses, a oposição está de baixa. A verdade é que completaremos 48 anos sobre o 25 de Abril de 1974 com o principal partido da oposição paralisado, com uma reconfiguração da composição parlamentar que tirou o CDS da Assembleia da República e reduziu em muito a presença do PCP e do Bloco de Esquerda. Há um ano ninguém se atreveria a adivinhar o que agora se passa. A situação coloca responsabilidades a quem tem de formar Governo e a quem aceitar integrá-lo. Não vale a pena olhar para erros recentes de vários governantes, o essencial é que a situação saída das mais recentes eleições legislativas, com uma maioria absoluta do PS, permite fazer reformas importantes, se para isso existir vontade e empenho. Não vai ser por culpa de nenhuma oposição que elas não se farão. Se daqui a quatro anos as coisas estiverem piores e não se tiver mudado nada de fundamental, se os nossos indicadores comparativos com o resto da União Europeia não derem sinais de melhoria, então é porque o Governo falhou, o PS foi incapaz de aproveitar a sua maioria absoluta e o país ficou, mais uma vez adiado. À hora a que escrevo não se conhece a composição do novo governo. Cada um dos seus membros terá uma responsabilidade pesada. É um desafio, mas também pode ser uma oportunidade.

 

SEMANADA - A PSP detectou no ano passado 42 mil veículos a circular sem a inspecção periódica obrigatória, o dobro do que foi verificado no ano anterior: o valor dos empréstimos concedidos pelos bancos a particulares cresceu, no espaço de um ano, cerca de cinco mil milhões de euros, o equivalente à média diária de 14 milhões de euros;  o total da dívida à Banca por parte das famílias e empresários em nome individual atingiu em janeiro deste ano mais de 148 mil milhões de euros; a totalidade dos empréstimos a particulares acumulados em janeiro de 2022 corresponde ao montante mais elevado nos últimos oito anos; os empréstimos destinados à compra de casa são responsáveis pela principal fatia do crédito bancário concedido às famílias;  segundo um estudo da Marktest no ano de 2021 cerca de 1,2 milhões de portugueses acederam mensalmente a sites de imobiliário; as exportações de cannabis cresceram 600% em 2021; devido à falta de verba para comprar consumíveis, os tribunais portugueses receberam instruções para racionarem papel e usarem mais documentos electrónicos, mas a lentidão da ligação à internet em muitos tribunais impossibilita que isso aconteça; o Tribunal de Contas considerou que não é controlada a forma como os financiamentos das autarquias às corporações de bombeiros são gastos; segundo a ONU cada pessoa precisa de 110 litros de água por dia para as suas necessidades básicas e em Portugal cada habitante gasta em média 190 litros de água por dia. 

 

O ARCO DA VELHA - Uma unidade de cuidados paliativos , em Leiria, inaugurada em 2021, já tem problemas de funcionamento por falta de pessoal.

 

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MUITO QUE VER - Na Galeria 111 (Rua Dr. João Soares 5b), até 21 de Maio, quatro artistas expõem obras em diferentes suportes. Rui Chafes apresenta trabalhos em ferro, como esta “Lição de História” reproduzida na foto, enquanto Pedro Paixão mostra desenhos a grafite e lápis de cor sobre papel, Rui Moreira apresenta obras em papel com guache e tinta sobre papel e Alexandre Conefrey, que comissaria a exposição, tem obras a pastel seco sobre papel. Na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, até 2 de Outubro, está uma exposição que apresenta 29 trabalhos de Menez, feitos ao longo de 40 anos. Além da pintura, que é o seu lado mais conhecido, estão expostos um objecto tridimensional, uma tapeçaria e um painel de azulejo. Na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º) Céline Condorelli apresenta até 7 de Maio “Diversions” uma exposição sobre a segregação e a posterior integração da mulher em alguns desportos. Outras sugestões: na Galeria Francisco Fino está a segunda exposição individual de Diogo Evangelista “Campos Magnéticos”; na Galeria Carlos Carvalho abriu a exposição”Seres Imaginários” de Carla Cabanas,; na Galeria Bruno Múrias “A Gravidade E a Graça” é a proposta apresentada por Isabel Simões. E no Centro de Artes Visuais (Coimbra) CAV, duas novas exposições do ciclo “Museu das Obsessões”, concebido e programado por Ana Anacleto, com “For the eyes that never blink ” de Christian Andersson e “Ensaio sobre a Gordura” de Ana de Almeida.

 

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UMA LEITURA RUSSA - Uma edição demora sempre algum tempo a ser preparada. Por isso, esta nova edição de “Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch”, um dos clássicos de Aleksander Soljenítsin, estava a ser preparada muito antes da invasão russa da Ucrânia. É aquilo a que se pode chamar uma oportuna edição. O livro relata o que era a vida na União Soviética sob Stalin, percorrendo as experiências da jornada de um prisioneiro num gulag no Cazaquistão. A obra, que ganha agora nova relevância à luz dos actos de Putin, foi expressamente citada pela Academia Sueca no momento da atribuição do Prémio Nobel de Literatura a Aleksandr Soljenítsin. Recordo que este foi o primeiro romance publicado na União Soviética revelando a vida nos campos de trabalho dos prisioneiros políticos e a repressão estalinista. Editado originalmente em 1962, com largos excertos censurados, o livro foi escrito durante um período de trabalhos forçados de Soljenítsin no inverno de 1950-1951, e terminado em 1959. A primeira edição não censurada data de 1973, nela se encontrando em todo o seu esplendor a desventura do protagonista, cuja figura foi inspirada no soldado Chúkhov, um companheiro de combate do autor na guerra soviético-alemã. Todas as outras personagens são reais, recolhidas da vida no campo, e as suas biografias são autênticas. É de uma leitura apaixonante, e muito educativa, nos dias que correm. Aleksander Soljenítsin nasceu em 1918, combateu na Segunda Guerra Mundial e esteve preso e internado em campos de trabalho forçado de 1945 a 1953. Recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1970 e foi expulso da União Soviética em 1974, pouco depois da publicação de “O Arquipélago Gulag”.

 

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O PODER DO FADO -  Aldina Duarte é uma voz sem época, o seu talento ultrapassa os tempos, as modas, as novidades. Talvez por isso “Tudo Recomeça”, o seu novo álbum, é um disco de memórias onde a única novidade é a mais rara: descobrir-se ainda mais o sentimento de quem canta assim. Como se pode resistir à voz de Aldina a cantar “Sem Cal Nem Lei” de Maria do Rosário Pedreira, “Uma Outra Nuvem” de José Mário Branco,”Antes de Quê” de Manuela de Freitas ou “Cachecol de Fadista” de João Monge? O único fado novo na sua voz, dos 12 que estão neste disco, é um que Manel Cruz fez propositadamente para Aldina - “Ela”. Por acaso este fado complementa-se com o “Auto-Retrato”, escrito também para Aldina por João Ferreira Rosa. Aldina Duarte tem um canto desprendido, uma coisa que só conseguem os que têm o talento natural das grandes vozes do Fado. Não faz trinados, não complica, antes pelo contrário simplifica e concentra-se nas palavras. Por isso é tão bom ouvi-la - porque sentimos o que ela diz e como o faz. O disco tem fados compostos por nomes como Carlos da Maia, Armando Machado, Alfredo Duarte ou Francisco Viana, entre outros. Na guitarra Paulo Parreira e na viola Rogério Ferreira souberam ser criativos, mas rigorosos, deixando o primeiro plano para a voz, mérito também de Joaquim Monte, que gravou e co-produziu o disco. O disco termina com uma homenagem da voz a quem lhe fornece a paisagem por onde canta: quatro minutos de uma guitarrada, “Improviso em Ré” onde se percebe bem o talento e cumplicidade entre Paulo Parreira e Rogério Ferreira. A capa, que não passa despercebida, transmite a emoção e o calor destes fados e é da autoria de Pedro Cabrita Reis.

 

NA CHAMA E NO FORNO - Um dos meus instrumentos de cozinha preferidos é uma frigideira de ferro fundido, já com uns anos, que vai à chama e ao forno com tudo e mais alguma coisa lá dentro. É de uma das marcas tradicionais destes utensílios, a norte-americana Lodge. Com 26 cm de diâmetro está à venda na Amazon Espanha por 45 euros e dura uma vida. Aviso já que é pesada e tem uma qualidade única: distribui o calor de forma uniforme - fica a escaldar, a pega é também de ferro fundido, há que ter cuidado ao manuseá-la. Mas o resultado é fantástico. Torna-se muito útil quando se quer por exemplo cozinhar alguma coisa que tem de ser começada na chama, sobre o fogão, para depois passar ao forno, destapada. Ou então para coisas tão simples como um dos petiscos que fiz esta semana: alcachofras assadas no forno, bem tostadas. Como o calor na base da Lodge é intenso, ao colocar no forno os alimentos eles ficam tostados a gosto por cima e por baixo - foi o que aconteceu a estas alcachofras que foram um óptimo acompanhamento de um atum braseado. Outra boa utilidade das frigideiras de ferro fundido é cozinhar frango assado. Por exemplo, experimente pernas de frango temperadas com uma mistura de mel, mostarda, sal, pimenta e vinagre balsâmico. Primeiro cozinham-se, na frigideira com um pouco de azeite durante uns minutos em chama alta de um lado e outro e depois levam-se ao forno já aquecido. Pelo meio das pernas de frango coloque umas batatas cortadas aos pedaços, salpicadas com rosmaninho, sal e pimenta e deite um fio de azeite por cima. Deixe assar durante uns 25 minutos. Experimente que não se vai arrepender….

 

DIXIT -  “ A comunicação social, principalmente a televisão, comunica facilmente a emoção e com 24 horas em cima, com uma repetição sistemática de imagens fortes, esmaga a razão” - José Pacheco Pereira

 

BACK TO BASICS - “Em política o absurdo não é um defeito” - Napoleão Bonaparte.

 





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Com o novo Governo finalmente a ser nomeado esta semana, e enquanto andam nos bastidores listas de nomes para o elenco, vale a pena olhar para a área da Cultura. O problema essencial não é saber o nome que vai ser indicado, mas sim perceber qual o peso político efectivo da pessoa que fôr designada para a pasta da Cultura - o mesmo é dizer a sua capacidade de influenciar decisões de outros Ministérios que são fundamentais para que se possa fazer alguma coisa de concreto em matéria de política cultural.

Devo dizer que a questão de saber se, no processo de redução, já anunciado, do elenco governativo, a Cultura vai ou não ser Ministério não me causa grande inquietação. Por exemplo, se António Costa dedicasse mais tempo à Cultura do que o habitual encontro de apoiantes do sector que promove sempre antes de eleições ou a presença numas inaugurações avulsas, talvez valesse a pena que existisse um Secretário de Estado da Cultura na directa dependência do Primeiro Ministro. Mas como sabemos não é isso que se passa. Independentemente da conjuntura especial que temos vivido - pandemia,crise, guerra - a Cultura é sempre a parente pobre da atenção do Primeiro Ministro. Sobre a estrutura do Governo, qual o sentido de existir um titular da pasta da Cultura com assento no Conselho de Ministros, mas que não tem voz activa ou condições para convencer e obter apoio dos seus colegas de Governo, nomeadamente na área das finanças e da Economia, além dos Negócios Estrangeiros.

Porque pego nestas três áreas? Porque as finanças são estruturantes para se poder rever o financiamento no quadro do Orçamento de Estado, para se conseguir alterar a fiscalidade do sector, desde medidas de incentivo à compra de obras de arte por particulares ou empresas, e até à autonomia financeira de Museus e outras instituições, que continuam de mãos atadas, sujeitos a cativações e que nem sequer conseguem chegar aos apoios mecenáticos que eventualmente angariam;  a Economia porque é aí que converge muito do que são indústrias criativas, o desenvolvimento digital e  o turismo, áreas que numa série de países europeus estão associadas à pasta da Cultura; e, finalmente, os Negócios Estrangeiros porque tem a ver com a divulgação da língua e a promoção da cultura portuguesa fora das nossas fronteiras. 

E nem vou tão longe quanto aqueles países que colocam a Cultura na mesma estrutura governamental que o Desporto, como acontece em Espanha. Atentemos na definição de actividades do Ministério da Cultura e dos Desportos em Espanha: “cabe ao Ministério da Cultura e Desporto a proposta e execução da política do Governo em matéria da promoção, protecção e difusão do património, protecção e difusão do património histórico espanhol, dos museus do estado e das artes, livro, leitura e criação literária, das actividades cinematográficas e audiovisuais, dos livros e bibliotecas estatais, assim como a promoção e a difusão da cultura espanhola, a dinamização das acções de cooperação cultural, e, em coordenação com o Ministério das Relações Exteriores, União Europeia e Cooperação das relações internacionais em matéria de Cultura. Da mesma forma compete-lhe a proposta e execução da política do Governo em matéria de Desporto.”

Creio que faz sentido que a preservação e valorização do património tenha ligação com o turismo, assim como faz sentido que a gestão dos jogos de apostas sejam fonte de financiamento da actividade cultural, como também acontece numa série de países. E faz sentido que o desenvolvimento digital, tão ligado hoje em dia a áreas como o audiovisual, estejam também juntos. Nalguns países a Cultura e a Comunicação estão juntas, como aliás já acontece desde há uns anos em Portugal - mas esta ligação é sobretudo vista como forma de promover o desenvolvimento e a literacia digital. E, há até um país, a Suécia, onde o Ministério da Cultura é responsável por assuntos como actividade cultural, democracia, mídia, minorias nacionais, política juvenil e desenvolvimento da sociedade civil.

Aqui chegados,  atingimos o cerne da questão: qual é a política cultural proposta - alguém sabe o que o Governo vai fazer, além das generalidades do programa eleitoral do PS? Quais os objetivos traçados? Até que ponto quer o Primeiro Ministro efectivamente mudar o curso das coisas e dotar a Cultura de mais peso e maior capacidade de acção? O nome escolhido pode ter algum significado, mas no fim do dia o que conta é a política cultural que no topo do Governo fôr aceite e definida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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