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AS REPORTAGENS INTROMETIDAS - Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional. O programa, que devia ter retomado a sua exibição em Setembro, acabou por não ser emitido durante a campanha eleitoral por decisão da Direcção de Informação e apenas voltou na semana passada. Quem o viu perceberá o porquê da suspensão durante a campanha eleitoral - o trabalho de investigação sobre a exploração do lítio em Portugal e as concessões atribuídas gera desconforto no poder . Tivesse ele sido exibido na altura prevista e um dos Ministros, agora reconduzido, João Galamba, teria sido pretexto para mais umas dores de cabeça de António Costa. Galamba, que aliás é um dos bulldogs políticos de serviço ao PS, já se indignou sobre o programa, mostrando assim o seu conhecido apreço pela liberdade de opinião e de informação, evidenciando o que se pode ter passado nos bastidores da decisão.  O que se passa é que, ao estimular comportamentos assim, quem esconde e adia programas como este está a prestar um péssimo serviço e a dar razão a todos os que querem acabar com o serviço público de televisão, dando pretexto a que surjam acusações de ingerência editorial. No news não é melhor que fake news. Não se sabe, nem saberá, se a decisão de esconder o programa foi tomada por receio de ofender o poder ou por descarada intromissão deste, mas o que é facto é que uma das duas coisas existiu e isso não é bom. Até à data não ouvi nenhum dos bonzos do Conselho Geral Independente, essa inútil instituição criada por Poiares Maduro, pronunciar-se sobre o assunto, eles que eram supostos ser os guardiões da virtude. O caso do “Sexta às 9” já proporcionou que alguns viessem clamar pela privatização da RTP e outras aleivosias do género, próprias de quem não entende das matérias sobre as quais se pronuncia. Os mais liberais e avançados países europeus têm serviço público audiovisual forte e dinâmico, que é o fiel da balança na paisagem audiovisual desses países, que estimula o tecido económico da área e que é um bastião das respectivas culturas nacionais. Aqui a noção de serviço público é evitar incomodar os políticos, sobretudo os que estão no poder. E isso sim é que é preciso mudar. 


SEMANADA -  O número de ministros que são membros do secretariado nacional do PS aumentou de três para seis no novo Governo;  o novo executivo tem mais dois ministérios, apenas duas caras novas, oito mulheres em vez das cinco anteriores e o número de ministros de estado aumentou para quatro; saíram três governantes e há 14 repetentes com as mesmas funções; Mário Nogueira, líder da Fenprof, disse que se Tiago Brandão Rodrigues continuasse como Ministro da Educação isso seria uma provocação aos professores; não houve alterações nas pastas mais polémicas como a saúde, educação e justiça e o ministro das cativações que afectam estas pastas, Mário Centeno, também se mantém; a média de idade dos governantes desceu de 54,8 anos para 52,5 anos; Fernando Medina manteve o ex-vereador Manuel Salgado à frente da empresa municipal de obras;  o juiz Ivo Rosa foi acusado de falta de bom senso pelo Ministério Público devido ao seu comportamento na investigação do caso do roubo de armas em Tancos, que atrasou a investigação; uma lista candidata à Ordem dos Enfermeiros foi excluída por ter mulheres a mais na sua composição; este ano já se registram nas escolas portuguesas 264 casos de agressões entre alunos; há um milhão de pensões abaixo dos 264 euros; a região norte é a mais afectada pela pobreza. 

 

ARCO DA VELHA - Milhares de alunos continuam sem professores um mês depois de as aulas terem começado e Ministério da Educação diz não ter sido informado de qualquer situação anómala.

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UMA FÁBULA ILUSTRADA - Na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71) inaugurou esta semana uma dupla exposição com trabalhos da portuguesa Joana Gomes e da alemã Daniela Krtsch. Comecemos por esta última, Daniela Krtsch, artista alemã que vive há mais que duas décadas em Lisboa, apresenta  “Jorinde & Joringel”, uma série de pinturas inspirada no conto homónimo dos irmãos Grimm: a história de dois noivos prometidos que se perdem na floresta e são enfeitiçados por uma bruxa má que transforma as virgens em pássaros. A transformação em rouxinol da amada Jorinde, e a busca do seu Joringel por libertá-la da morte certa no castelo da bruxa, é um conto de fadas aqui ilustrado de forma marcante por Krtsch (na imagem). Curiosamente a autora tem desenvolvido extensa colaboração com outra arte visual, o video, nomeadamente em clips para a banda Micro Audio Waves e em filmes de curta e longa metragem. Joana Gomes, pelo seu lado,  apresenta “Double Poetics”, trabalhos sobre tela, de médio e grande formato e trabalhos sobre papel. Esta sua exposição mostra uma selecção de obras do seu espólio e de experiências criativas recentes, dividida em duas áreas distintas. A primeira com uma série de pinturas de grandes dimensões que, segundo a curadora, Inês Valle, “criam paisagens de cor e matéria”. A segunda parte mostra uma série de pinturas e desenhos, onde a côr surge de forma intensa, “contida pelo silêncio e ritmo formal da geometria branca que intercepta toda a obra”. As duas exposições ficam patentes na Galeria até meados de Janeiro. A outra sugestão da semana está no Museu Colecção Berardo. Dando continuidade a um projeto inaugurado em abril deste ano “Constelações II: uma coreografia de gestos mínimos” apresenta obras de, entre outros, Fernando Calhau, Ana Hatherly, José Maçãs de Carvalho, Sol LeWitt, Cindy Sherman, Jack Pierson, Joseph Kossut, Mark Rothko, Ernesto de Sousa, João Tabarra, Rui Chafes e Douglas Gordon, entre outros . A curadoria é de Ana Rito e Hugo Barata. 

 

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REDESCOBRIR OS SONS - Quando uma editora discográfica se chama Italians Do It Better tudo pode acontecer. No caso a editora é obra de Johnny Jewel, o mentor dos Chromatics, uma banda do início do século e que pratica uma fusão de pop com electrónica, constituída por Ruth Radelet na voz, sintetizadores  e guitarra, Adam Miller na guitarra, Nat Walker na bateria e pelo próprio Jewel que toca vários instrumentos e assume o papel de produtor. “Closer To Grey”, lançado inesperadamente no início de Outubro, é atípico no contexto da discografia da banda, mas é uma bela surpresa. Os arranjos e a produção são sempre exemplares e a voz de Ruth Radelet é capaz de algumas magias - como aliás se pode bem notar na sua versão do clássico “The Sound Of Silence”, de Simon & Garfunkel, que é a faixa de abertura de”Closer To Grey”, o primeiro disco dos Chromatics em sete anos (aparentemente neste período esteve para ser publicado o álbum “Dear Tommy”, entretanto dado como desaparecido). Ao todo são 12 temas, dos quais, além da já citada versão, realço “Touch Red”, “Closer To Grey”, “Light As A Feather”, “Whispers In The Hall” , a inesperada balada “Move a Mountain”,  “On the Wall”e “Through the Looking Glass”. Disponível no Spotify.

 

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LIBERAL, PORQUÊ?  - “O Apelo da Tribo” é um ensaio escrito em 2017 por Mario Vargas Llosa no qual o autor explica a evolução das suas filiações filosóficas e políticas. “Nós, os liberais, não somos anarquistas e não queremos suprimir o Estado”, escreve Mario Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura de 2010. Logo nas primeiras páginas do livro lê-se: “A doutrina liberal representou desde a sua origem as formas mais avançadas da cultura democrática e foi a que fez progredir mais os direitos humanos, a liberdade de expressão, os direitos das minorias sexuais, religiosas e políticas, a defesa do meio ambiente e a participação do cidadão comum na vida pública das sociedades livres. Por outras palavras. o que mais nos foi defendendo do inextinguível «apelo da tribo». Este livro gostaria de contribuir com um grãozinho de areia para esta tarefa indispensável”. Sendo um livro de ensaios biográficos, “O Apelo da Tribo” é, ao mesmo tempo, uma história intelectual e política do percurso de Vargas Llosa, desde uma juventude fascinada pelo marxismo e pelos movimentos revolucionários latino-americanos até alertar para os perigos da submissão intelectual, da demagogia, do chauvinismo e do nacionalismo, bem como da negação da racionalidade e da liberdade de pensar e questionar. Adam Smith, Ortega Y Gasset, Friederich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Ibrahim Berlin e Jean-François Revel são alguns dos nomes sobre cuja obra e pensamento Vargas Llosa escreve nesta obra. Edição Quetzal.

 

 

UMA BELA TOSTA - A minha busca por sanduíches e tostas em condições prossegue continuamente. Desta vez disseram-me que no Restelo, na rua das lojas, havia umas boas tostas numa casa que dá pelo nome de Lambretta. Esta semana confirmei que isso é verdade. A tosta da casa, Tosta Lambretta, é feita em pão alentejano e leva queijo curado, peru fumado, molho inglês e mostarda de dijon. O resultado é surpreendente de sabor e de textura. Uma outra descoberta é uma sanduíche de salmão em bolo do caco, com rúcula, pesto e requeijão. A Lambretta também serve saladas (a clássica Caesar, uma de salmão e outra de burrata), há rosbife no prato com salada, cebola confitada e batata palha. As empadas de galinha recomendam-se. No capítulo dos doces há scones, tarte de maçã, blattertarte, pão de ló e há gelados da Artisani. Voltando à razão da experiência a tosta Lambretta e o salmão em bolo do caco correram muito bem, o serviço é eficaz, a esplanada é abrigada. No interior a decoração é muito simpática com réplicas de cartazes publicitários antigos. À disposição do cliente estão exemplares de revistas estrangeiras, como a Monocle por exemplo. Aqui está um sítio que vale a pena conhecer. Lambretta, Rua Duarte Pacheco Pereira 26-A.

 

DIXIT - “Caro João Galamba, nenhum político nem servidor público está acima do escrutínio” - Sandra Felgueiras, autora do programa “Sexta Às 9” da RTP, cuja reportagem sobre a concessão da exploração de lítio, área tutelada por João Galamba, teve a exibição suspensa durante a campanha eleitoral.

 

BACK TO BASICS - “Quando os políticos se queixam que a televisão transforma a política num circo devemos recordar-nos que o circo já existia e que a única coisa que a televisão faz é mostrar que nem todos os intervenientes estavam convenientemente treinados” - Edward R. Murrow




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PARA ONDE VAIS PORTUGAL?

por falcao, em 11.10.19

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RESULTADO ELEITORAL: CONSERVAR O PODER ; CUSTE O QUE CUSTAR - Olha-se para os resultados das eleições do passado fim de semana e o que salta à vista é que o vencedor foi eleito por uma minoria de cidadãos eleitores. A diferença entre o número de eleitores e o número de votantes é cada vez maior.  A abstenção ultrapassou os 45%, votaram menos cerca de 300 mil pessoas. O número de eleitores que votaram nulo ou branco subiu - eram 3,7%, agora foram 4,28%. De entre os votos registados nos diversos partidos, 680 mil votos não elegeram nenhum deputado num total de cinco milhões de votos. Há muitos anos que se fala na necessidade de introduzir alterações na lei eleitoral, por forma a combater a abstenção e melhorar a representatividade da decisão dos eleitores,  mas a lei eleitoral está praticamente imutável desde há mais de quatro décadas, não acompanha a evolução dos tempos, do comportamento dos cidadãos nem da tecnologia. Os cidadãos não se sentem representados num sistema que não aproxima eleitores dos eleitos. Aos partidos maiores não interessa mudar este estado de coisas. O sistema de representatividade existente favorece-os, enquanto prejudica o surgimento de novas organizações políticas. E apesar das dificuldades do sistema o descontentamento com os partidos instalados é tanto que três novos partidos conseguiram chegar ao parlamento. O PS, que chegou a sonhar com uma maioria absoluta e teve o sonho de atingir 40% dos votos, ficou abaixo dos 37%. Costa foi indigitado Primeiro Ministro com um milhão e oitocentos e sessenta mil votos num universo de 10,8 milhões de eleitores inscritos - ou seja pouco mais de 17% do eleitorado. É a António Costa, claramente o vencedor na menor votação de sempre, que cabe decidir os caminhos do futuro próximo. O cenário não é agradável, vamos assistir a uma radicalização do Bloco e do PCP e a uma permanente negociação do PS. Deixa de haver estratégia para o país, passa somente haver táctica para um partido conservar o poder. Para onde vai Portugal?

 

SEMANADA - O peso dos impostos “amigos do ambiente” no total da receita fiscal foi superior em Portugal (7,6%), comparativamente com a média da União Europeia (6,1%) e o seu o peso no Produto Interno Bruto em Portugal (2,6%) foi superior ao da média da União Europeia a 28 (2,4%); António Guterres, secretário-geral da ONU, alertou que a organização internacional pode ficar sem dinheiro até ao final deste mês e sem capacidade para o pagamento de salários; o Benfica está entre os dez clubes que mais jogadores emprestam e na última década cedeu 37 futebolistas a clubes das cinco principais ligas europeias; no dia em que as armas de Tancos apareceram a Polícia Judiciária foi avisada por um coronel da GNR da farsa que estava a ser montada; a investigação sobre as golas anti-fumos já tem sete arguidos; os empréstimos à habitação registados este ano já atingem 7 mil milhões de euros, o valor mais alto desde 2010; um inquérito da Marktest revela que os portugueses dizem acreditar no aquecimento global e no papel do homem nesse fenómeno mas não acreditam que deixar de consumir carne de vaca tenha impacto nas alterações climáticas; estão em curso projectos para a construção de 166  novos hotéis; só um terço das câmaras municipais aceitou competências na área da saúde e mais de metade rejeitaram responsabilidades nas áreas da educação e justiça; metade dos casos de pornografia infantil não chega a julgamento por incapacidade das autoridades em localizar os suspeitos.

 

ARCO DA VELHA - A eleita do PAN por Setúbal, Cristina Rodrigues, admitiu numa entrevista não conhecer o programa do partido.

 

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A FORÇA DO DESENHO - Pela segunda semana o destaque vai para Rui Sanches, desta vez para a segunda visão do “Espelho”, no seguimento da retrospectiva dos seus trabalhos em escultura que inaugurou na semana passada na Cordoaria, com curadoria de Delfim Sardo. Agora, no Museu Colecção Berardo, com curadoria de Sara Antónia Matos, Rui Sanches apresenta um notável conjunto de obras focadas no desenho mas que não se esgota aí. É uma exposição antológica, baseada no desenho, que inclui trabalhos recentes nos quais cruza suportes, meios e técnicas — além de desenho sobre papel, utiliza fotografia, mostra esbocetos de barro e esculturas de parede em diversos materiais. Em paralelo com a exposição da Cordoaria, esta segunda série de obras reunidas de novo sob a designação “Espelho” permite ter uma outra visão e perceber uma dimensão completamente diferente sobre o trabalho e a obra de Rui Sanches. Até 12 de Janeiro no Museu Colecção Berardo (na imagem). O outro destaque da semana vai para a segunda edição do Drawing Room Lisboa, que até domingo está patente na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36). Estão patentes obras de 70 artistas e 25 galerias de arte em torno do desenho contemporâneo. Lourdes Castro, Helena Almeida, Pedro Barateiro, Ana Jotta, Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Paulo Brighenti, Júlio Pomar, Carlos Correia e Paulo Lisboa estão entre os 70 artistas representados nesta segunda edição do certame.  Estão presentes galerias de Lisboa, Porto, Açores, e também de Espanha, Japão, Colômbia, Moçambique e Brasil, numa seleção que coube a Mónica Álvarez Careaga, diretora da feira, e ao Comité Consultivo do certame. No âmbito da Drawing Room Lisboa decorre ainda uma exposição de desenhos da Coleção de Desenho Contemporânea da Fundação PLMJ, com curadoria de João Silvério. 

 

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A MÚSICA DA DOR -  Ao fim de 40 anos de carreira Nick Cave fez um dos seus trabalhos mais fortes e tocantes, uma meditação sobre a vida e a mortalidade e sobre o luto. Aqui as suas canções partem de uma terrível experiência pessoal que já tinha marcado o seu disco anterior, “Skeleton Tree”, de 2016, que gravou pouco depois da morte, num acidente, do seu filho adolescente. O disco e o  documentário que acompanhou a sua produção, “One More Time With Feeling”, são fruto de um momento dramático. Mas neste “Ghosteen”, um duplo CD, Cave vai ainda mais longe e de forma muito mais profunda. No novo disco continua a marca da dor, a sombra do desespero, mas também a busca da própria vida, procurando uma razão para continuar. Musicalmente o disco vive da criação de espaços, de ambientes carregados de sentimentos como por vezes só a música permite fazer, entre palavras que organizam a meditação ao mesmo tempo que procuram um enquadramento para reforçar os laços entre os que (sobre)vivem. Um dos pontos incontornáveis de “Ghosteen” é a clássica lenda Budista de Kisa Gotami, que Nick Cave relata. Depois de perder o seu filho, Gotami procura o apoio e conselho do Buda, que a manda procurar e trazer sementes de mostarda de cada casa onde ninguém tenha morrido na família. Ela acaba por perceber que a morte entra em todas as casas, em todas as famílias e regressa, sem as sementes,  ao Buda que a conforta e lhe abre caminho a uma nova forma de encarar a vida.  “Everybody’s losing someone/ It’s a long way to find peace of mind,” evoca Cave num dos momentos em que canta num registo acima do habitual, reforçando o dramatismo da interpretação. É impossível escolher canções aqui, mas arrisco destacar  “Bright Horses” no primeiro disco e dois temas fortíssimos no segundo, aquele que dá título ao álbum, “Ghosteen”, e o final, “Hollywood”, que são duas das mais marcantes canções que Cave escreveu em toda a sua carreira.

 

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A POLÉMICA DO CLIMA - Judith A. Curry é uma climatologista americana, que dirigiu a Escola de Ciências Atmosféricas e da Terra do Georgia Institute of Technology, publicou numerosos estudos sobre alterações na atmosfera e nos oceanos e foi galardoada pela Sociedade Americana de Metereologia pelos estudos que desenvolveu sobre o aquecimento global e os furacões. Nos últimos anos tem tomado posições contrárias à corrente mais catatrofista, denunciando métodos de previsão baseados em dados insuficientes e falta de rigor científico. “Alterações Climáticas, o que sabemos, o que não sabemos”  é o seu novo livro, agora editado em Portugal, pela Guerra & Paz. Trata-se de uma obra de pensamento aberto que afirma a incerteza científica face a um pretenso unanimismo de redução do aquecimento global a uma única causa. Numa época em que o alarmismo campeia e se gerou uma intensa vaga emocional que quase proíbe o exercício de qualquer pensamento crítico Judith Curry defende uma única solução: o método científico, a necessidade de lidarmos com a incerteza, o reconhecimento efectivo do que não sabemos. Curry opõe-se ao actual consenso, que considera desvirtuar o método científico e ser determinado por razões políticas e discorda nomeadamente que a causa humana seja o factor dominante das alterações climáticas. O livro alerta-nos para a perigosidade de uma hipótese excessivamente simplificada monopolizar toda a investigação científica, uma hipótese para a qual, segundo a autora, há provas observacionais insuficientes e que se baseia em modelos climáticos inadequados para estabelecer as causas do aquecimento recente. Ora aqui está bom combustível para alimentar a polémica.

 

VINHOS & PETISCOS - E que tal uma happy hour baseada em vinhos e petiscos? Em plena Avenida da Liberdade o bar Intra-Muros e a Esplanada do restaurante AdLib, no Hotel Sofitel, proporcionam uma selecção de vinhos franceses e portugueses, servida com queijos franceses bem escolhidos e petiscos caseiros do Chef Daniel Schlaipfer. Os vinhos franceses estão em destaque até 13 de Outubro, entre as 18h30 e as 21h00. Os vinhos selecionados incluem um Branco Domaine Fevre Petit Chablis, um Rosé Miraval Provence e um Tinto Domaine Bonnard Sancerre. Pode optar por um prato de 3 ou 5 queijos a 8 e 13 euros respectivamente. Os vinhos são degustados a copo a partir dos 6 euros, com a opção de um “wine flight” de 3 vinhos a 12 euros. Os Wine Days dedicados a Portugal decorrem  de 14 a 31 de Outubro e a seleção inclui um Tinto do Douro, Cheda Reserva, um Branco também do Douro, Terras do Grifo, e um Rosé Alentejano, Lima Mayer, servida com uma seleção de petiscos do chef -Wine 3 petiscos 8€ e 5 petiscos 13€. Os preços do vinho são os mesmos - 6 euros um copo, 13 euros a prova dos três. Durante todo este período está disponível no restaurante AdLib um menu de degustação preparado pelo chef Daniel Schaipfer a 50 euros por pessoa.

 

DIXIT - “Logo por azar dos Távoras havia de haver a renovação do mandato da PGR” -  juiz João Bártolo sobre a saída de Joana Marques Vidal durante a investigação do caso Tancos.

 

BACK TO BASICS - “Comprem com base nos rumores, vendam com base nas notícias” - provérbio nascido em Wall Street.

 

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JÁ ESTÁ TUDO COMBINADO....

por falcao, em 04.10.19

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E NO DIA SEGUINTE? - António Costa chegou a pensar que no dia seguinte às eleições poderia governar sozinho ou fazer um acordo de conveniência com André Silva, do PAN. Seria a réplica contemporânea do acordo do queijo limiano que permitiu a Guterres prolongar a sua existência governamental. Em vez de lacticínios, ração para animais: eis aquilo que resumia a política portuguesa há duas semanas atrás. No entanto as últimas sondagens mostram que Costa vai ter que gerir os resultados de maneira diferente. Há um episódio esta semana que mostra bem a alteração da correlação de forças eleitorais e dá sinais de que o dia seguinte tenha já começado a ser decidido mesmo antes de conhecido o resultado. Porquê?  Como já se percebeu o caso de Tancos, a convicção de que o Governo estava informado do achamento fingido - e nele colaborou - e a dúvida sobre aquilo que António Costa conhecia ou não do assunto, provocou inquietação geral. Numa primeira fase o Bloco e o PCP admitiram que queriam mesmo ver o assunto debatido na Assembleia antes das eleições de Domingo e disseram-no publicamente. Mas eis que chegada a hora da votação ambos mudaram de posição e colaram-se ao PS na suspensão do Parlamento, fiéis discípulos das manobras de Boris Johnson que tanto criticaram há umas semanas. Esta desistência do Bloco e do PCP de aprofundar o caso de Tancos antes das eleições mostra que as negociações já começaram e que Costa resolveu prevenir qualquer incómodo que viesse de um escrutínio parlamentar nesta altura. PS, Bloco e PCP uniram-se debaixo da bandeira da ocultação. O que acordaram para lá chegarem saberemos depois. Não resisto a citar a crónica desta semana de Ricardo Araújo Pereira: “O futuro é dos fisioterapeutas. O contorcionismo necessário para defender uma coisa e o seu inverso tem de gerar hérnias muito dolorosas na coluna”.  Resta-me dizer que a campanha mostra o desgaste dos partidos do regime, o seu tacticismo, as amnésias sobre o que fizeram nestes quatro anos. É tempo de dar oportunidade a que outros protagonistas entrem em cena. Por mim dou o meu voto à Iniciativa Liberal que, durante a campanha, foi quem melhor soube evidenciar que o rei vai nu.

 

SEMANADA - Os pedidos de crédito ao consumo atingiram 20 milhões de euro por dia; as poupanças das famílias estão nos níveis mais baixos de sempre o os valores de crédito ao consumo estão acima do período pré-troika; de Janeiro a Setembro 83 mil novos imigrantes tiveram autorização de residência em Portugal; as universidades e politécnicos da região nortenha tiveram no último ano um aumento de 40% nos estudantes internacionais, ultrapassando a região de Lisboa; em 2018 foram transacionados 242.091 imóveis em Portugal,um aumento de 6,8% face ao ano anterior, o total dos negócios imobiliários realizados representou um investimento superior a 26,1 mil milhões de euros e só Lisboa registou um volume de investimento de 11,9 mil milhões de euros; Portugal é o país da União Europeia onde a diferença entre as taxas de desemprego consoante a qualificação é menor e onde a sobrequalificação dos trabalhadores face ao emprego que desempenham é das mais altas; segundo uma sondagem recente 56% das pessoas informam-se através da televisão; 36% pelos jornais, seja em papel ou online e 28% pela rádio; segundo a Marktest  o Facebook é a rede social onde mais portugueses têm conta, captando 95.3% dos utilizadores de redes sociais, o WhatsApp, ocupa a 2ª posição, com 74.2% de penetração, o Messenger entra para a 3ª posição, com 70.8%, o que coloca o Instagram em 4º, com 67.9%.

 

ARCO DA VELHA - O Juízo de Família e Menores de Mafra está a julgar um caso no qual se decide, entre um casal de ex namorados, a tutela de uma  cadela de raça pitbull.

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O ESPELHO - Há duas exposições incontornáveis que abriram na semana passada em Lisboa: a impressionante retrospectiva da obra de Rui Sanches que inaugurou na Cordoaria e a evocação dos trabalhos de Carlos Correia, na Galeria 111. Rui Sanches apresenta no Torreão Nascente da Cordoaria uma visão retrospectiva da sua obra em escultura, que começa com três peças recentes, uma delas concebida expressamente para esta ocasião, algumas obras inéditas em Portugal do início do seu percurso criativo nos anos 80 e depois um conjunto de obras verdadeiramente marcantes. A montagem da exposição, um trabalho conjunto do artista e do curador, Delfim Sardo, aproveita da melhor forma o espaço da Cordoaria e proporciona a possibilidade de viajar entre as esculturas, comparando fases, vando-as de diversas perspectivas. Na folha de sala Delfim Sardo salienta que a obra de Rui Sanches é “um espelho da escultura e da relação desta com a imagem”, sublinhando a complexidade e coerência do percurso criativo de Rui Sanches. Pego nesta citação e na sua relação com a imagem para chamar desde já a atenção para um complemento deste “Espelho”, que sob a mesma designação vai estar a partir de dia 9 de Outubro no Museu Berardo e onde Rui Sanches mostrará trabalhos recentes em desenho sobre papel, fotografia, esbocetos de barro e esculturas de parede em diversos materiais. A exposição na Cordoaria fica até 12 de Janeiro. O outro destaque da semana vai para a exposição evocativa de Carlos Correia que estará na Galeria 111 (Campo Grande 113) até 9 de Novembro. Desaparecido no ano passado, Carlos Correia vinha a construir um percurso singular de que talvez uma das melhores referências seja uma das obras expostas, o auto-retrato “O Artista Cego”.

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OUTRO MUNDO -  Em finais de junho de 1964 John Coltrane e o seu quarteto juntaram-se no célebre estúdio de Rudy Van Gelder e gravaram temas para a banda sonora de um filme franco-canadiano, “Le Chat Dans Le Sac” do realizador Gilles Groulx. O quarteto atingira o auge da sua forma, estava entre as gravações de dois dos mais importantes momentos da carreira de Coltrane, os álbuns “Crescent” e “A Love Supreme”. Que quarteto era este? John Coltrane tocava saxofone tenor,  McCoy Tyner estava no piano, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo. O mais curioso é que Coltrane acedeu aos pedidos do realizador, que sugeriu a maior parte dos temas a gravar, fazendo até Coltrane rever a sua habitual recusa em regravar temas antigos. O resultado é este “Blue World”, agora editado pela primeira vez, depois de as fitas originais terem ficado guardadas (e ignoradas) durante décadas num cofre do National Film Board do Canadá. O resultado são 37 minutos que retratam a forma fantástica dos músicos. Coltrane acedeu ao pedido de Groulx e reinterpretou cinco temas. O disco abre com “Naima”, uma das suas melhores baladas, gravada originalmente para o álbum “Giant Steps” de 1960.  Depois surge a versão de “Village Blues” que foi utilizada no filme (e que é a melhor das três versões do tema que surgem neste álbum). O terceiro tema é o que dá o nome do disco, “Blue World”, uma nova reinterpretação de um original de Harold Arlen e  Johnny Mercer’s “Out of This World”, que era a faixa de abertura do álbum “Coltrane”, de 1962. Esta nova versão, que aqui ganhou o nome de “Blue World”, começa com um exercício de baixo de quase três minutos,  uma lição de virtuosismo de Garrison e da coesão com os outros músicos do quarteto que vão dialogando com o baixo. “Like Sonny” é também do álbum “Coltrane Jazz”, de 1961 e é tida como uma homenagem de Coltrane a Sonny Rollins. “Traneing In”  é de um disco ainda mais antigo, “John Coltrane With the Red Garland Trio”, de 1958.  Blue World já está disponível em CD e no Spotify.

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CAPAS CLIMÁTICAS - A edição de Outubro da Monocle traz algumas novidades - no papel, na arrumação dos conteúdos e em algumas novas secções. O tema de capa bate em cima da actualidade - as alterações climatéricas, mas de uma perspectiva um pouco diferente. Já lá vamos. O editorial de Tyler Brulé, o fundador da revista, é sobre a prioridade que as empresas devem dar à escolha das pessoas que a representam junto dos clientes - alguém que seja ao mesmo tempo boa vendedora, acolhedora, que tenha atenção ao detalhe, que saiba o que é prestar um bom serviço ao cliente. No fundo é este o segredo do sucesso das empresas - criar uma equipa que reflicta os seus melhores valores e faça crescer a sua própria imagem. Nas novidades editoriais destaca-se um conjunto de novas secções logo no início, que imprimem maior ritmo à leitura da Monocle - em temas que vão da cultura aos tempos livres, mas de uma forma por vezes inesperada, como por exemplo a apresentação da equipa que assegura a gestão das lojas do Victoria & Albert Museum em Londres, cuja qualidade e inovação explica muito do sucesso da instituição. Na secção de cidades o destaque vai para Copenhaga pelo cuidado colocado na manutenção de espaços públicos e no respeito pelos direitos dos seus habitantes. No especial sobre alterações climatéricas há um foco na importância económica que as previsões metereológicas estão a ter no desenvolvimento de planos de negócio, desde a localização de instalação de fábricas até à construção de hotéis. Na secção de comidas  há um destaque para o Gastrobar do Rossio, no Altis Avenida Hotel e, regressando ao início da revista, há uma pequena secção, Cosy Corner, que apresentar um local para descontrair ao fim do dia, proposto por um dos seus clientes habituais - no caso um bar em Berlim onde o editor da revista Zeit Magazin gosta de descontrair. E é isto, a Monocle. Volta e meia ainda surpreende.

 

OKTOBERFEST  - Outubro é o mês da cerveja e dos festivais em sua honra desde que, em 1810, o Rei Luis I da Baviera decidiu criar um festival cervejeiro em Munique para assinalar o seu casamento. O Oktoberfest estendeu-se a várias regiões, foi desenvolvendo versões sempre com uma componente de festa, bebida e comida. Em Lisboa nasceu há três anos A Cerveja em Lisboa, que se realiza até Domingo no Campo Pequeno. Ali estarão disponíveis 30 marcas de cerveja de diversos países e uma série de cervejas artesanais portuguesas como a Dois Corvos, Chica, Velhaca, Sadina, Vadia ou Bolina, entre outras. Estão também presentes marcas internacionais mais tradicionais como a Mahou, a San Miguel e a Warsteiner ou a Erdinger Oktoberfest. Para que a cerveja não caia em estômago vazio estão disponíveis várias opções de street food, entre as quais pretzels autênticos feitos na ocasião. O preço da entrada na Cerveja em Lisboa varia entre os 3€ e 5€, consoante o tamanho do copo de prova que quiser levar - está sempre incluído no bilhete. Na sexta-feira e sábado o recinto está aberto das 16 horas à uma da manhã e no domingo, abre à mesma hora mas encerra mais cedo, pelas 21 horas, já depois de se conhecerem os resultados eleitorais - ainda vai dar para brindar … ou lamentar.

 

DIXIT - “Azeredo Lopes foi um tolo, fascinado com o jogo de xadrez em que se via jogador mas era peça de tabuleiro” - Pedro Santos Guerreiro sobre o roubo de armas em Tancos.

 

BACK TO BASICS - “A História é a versão dos acontecimentos passados sobre a qual se obteve um consenso” - Napoleão Bonaparte

 

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publicado às 12:30

QUEM QUER VOTAR NOS INCUMBENTES?

por falcao, em 26.09.19

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AS CAMPANHAS MOBILIZAM ELEITORES NOVOS? - Qual o ponto comum entre as igrejas e os debates na televisão? Ambos perdem audiência. Não há novos fiéis. O resultado de audiências do debate eleitoral entre os actuais seis partidos com assento no parlamento fala por si. Para que conste, no mesmo dia do debate e antes dele, a RTP1 passou a transmissão do Best Fifa Football Awards, que teve uma média de 889 mil espectadores. Logo a seguir, o debate dos seis partidos parlamentares teve uma média de apenas 424 mil espectadores, menos de metade. À mesma hora do debate a SIC passava do milhão e cem mil espectadores com as telenovelas “Nazaré” e “Golpe da Sorte” e a TVI teve 722 mil a verem a novela “Na Corda Bamba”. Continuo sem perceber porque é que há partidos que insistem em defender este modelo de debates que só convencem quem está já convencido. Na realidade naquele debate não houve ideias novas, houve apenas as picardias do costume entre os protagonistas habituais. Este ano a coisa parece aliás ainda mais confusa - dos seis implicados, três confessam-se de inspiração social-democrata em várias variantes: o PSD, o PS e o Bloco de Esquerda. Esta estranha convergência é a única novidade da campanha dos suspeitos do costume. O resto é de uma pobreza confrangedora, onde abundam as promessas e a falta de balanço sobre o cumprimento das que fizeram há quatro anos e, mais grave ainda, sobre o triste balanço da decadência de princípios de deputados e parlamento na legislatura que agora finda.

 

SEMANADAA Comissão Nacional de Protecção de Dados decidiu que não irá aplicar nove artigos da lei aprovada na Assembleia da República que adapta à realidade portuguesa o novo Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD), justificando que os mesmos violam precisamente o diploma original da União Europeia; o roubo das armas em Tancos entrou na campanha eleitoral e quem lhe deu a chave de entrada começou a disparar em todas as direcções; oito em cada dez crianças não têm vagas em creches; cinco associações de doentes oncológicos afirmaram conjuntamente que existe “um agravamento dos cuidados de saúde” nesta área e um “enorme alargamento do prazo para a realização dos exames”; um terço das vagas de ginecologia e obstetrícia fiacaram vazias em Lisboa; o dinheiro gasto em horas extra no SNS em 2018 daria para contratar 7500 profissionais  de saúde, segundo o presidente da Associação dos Administradores Hospitalares; o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou que os tribunais portugueses violaram em duas sentenças, proferidas em 2012 e 2013, o direito à liberdade de expressão dos cidadãos; não são conhecidas medidas tomadas sobre os juízes autores dessas limitações à liberdade de expressão”; o INE reviu as contas, com números mais favoráveis para o Governo, dias antes do início da campanha eleitoral, proporcionando uma subida das pensões para além da inflação; graças a outra curiosa coincidência temporal a Procuradoria Geral da República divulgou na semana de arranque da campanha o seu parecer sobre negócios de familiares de governantes que afirma não haver incompatibilidade em nada do sucedido.

 

ARCO DA VELHA - O cortejo da queima das fitas da Universidade de Coimbra deixou nas tuas 25 toneladas de resíduos e detritos vários, isto na mesma Universidade que não quer carne de vaca nas cantinas por razões ambientais.

 

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A MEMÓRIA DO MAR - Até 30 de Novembro poderão ver na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18), uma exposição de inéditos de Pedro Cabrita Reis, “Os Desenhos da Maré Baixa”. Trata-se de um conjunto de obras que evocam as tonalidades do mar, numa referência a um dos locais de eleição do artista. Muito curiosamente estes desenhos, que sugerem quer as ondas quer a espuma que elas  deixam na areia, são uma referência a memórias visuais e, como tem sido corrente na obra de Cabrita Reis, também um olhar sobre si próprio, os seus gostos, as suas fixações - como já antes foram desenhos de bosques, auto-retratos ou cenas do seu quotidiano. Outra sugestão: até 7 de Outubro ainda pode ver na Gulbenkian a exposição “Sarah Affonso E A Arte Popular do Minho” que ocorre por ocasião do  120.º aniversário do nascimento da artista, uma pintora portuguesa modernista cuja obra tem sido muito pouco investigada e exposta, frequentemente ofuscada pelo facto de ser casada com Almada Negreiros. Esta exposição centra-se na particular relação de Sarah Affonso com a arte e a cultura popular do Minho, onde passou a sua infância e adolescência. A exposição apresenta, em paralelo, as obras de Sarah Affonso com os objetos cerâmicos, têxteis, de ourivesaria, que formam parte do léxico visual que a inspirou e onde se incluem empréstimos de museus e colecionadores portugueses. Mais sugestões - a exposição Acervo Aberto, de Bettina Vaz Guimarães na Galeria Cisterna (Rua António Maria Cardoso 27). Na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º)  Catarina Dias mostra a sua pintura e escultura na exposição Mamute, até 2 de Novembro.

 

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SETE MOMENTOS DE MEMÓRIA - “Solo” é o primeiro álbum póstumo de Bernardo Sassetti, de um conjunto de nove que irão saindo gradualmente e que registam actuações ao vivo e sessões de gravação do músico. Este “Solo” inclui-se nesta última categoria e recupera sete temas do próprio Sassetti gravados em 2005 num piano Steinway do Teatro Micaelense, piano que o músico apreciava particularmente. Sassetti deslocou-se para uma série de concertos naquela sala açoriana, mas durante três dias esteve sozinho com o técnico e produtor Nelson Carvalho e o afinador do piano. É das gravações solitárias feitas nesses três dias que nasceu este disco. Na altura, o pianista fez uma pré-produção do material gravado, tendo agora Nelson Carvalho e Inês Laginha feito uma segunda seleção, escolhendo apenas os temas mais inéditos, que não estão fixados em outras gravações.  "Solo" inaugura uma série de nove álbuns de material inédito que a Casa Bernardo Sassetti quer editar nos próximos tempos, cumprindo uma das missões desta associação cultural criada em setembro de 2012, quatro meses depois de Bernardo Sassetti ter morrido, aos 41 anos. O segundo disco desta série, a editar em 2020, incluirá temas que Bernardo Sassetti compôs para o espetáculo “A Menina do Mar”, inspirado no conto de Sophia de Mello Breyner Andresen. O mais surpreendente neste “Solo” é conseguir, nos sete temas que inclui nos seus cerca de 35 minutos de música, mostrar toda a subtileza e intimismo de Sassetti, sem exuberâncias, apenas com um enorme sentimento musical.

 

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UMA FESTA ROMANA - Os escritores novos têm um grande ponto comum com os partidos recentes que concorrem às legislativas pela primeira vez: têm uma grande dificuldade em vingar e darem-se a conhecer. Lembrei-me desta comparação ao pegar em “Saturnália”, o romance estreia  de André Fontes, publicado pela Guerra & Paz. Comecemos pelo princípio. A saturnália era uma festividade da Roma Antiga em honra ao deus Saturno que ocorria a 17 de Dezembro e que incluía banquetes e festividades numa atmosfera que derrubava as normas sociais romanas. Catulo, o poeta, chamava-lhe “o melhor dos dias”. António Fausto é a personagem principal deste romance e assume-se como a personificação dos jovens do século XXI, os intelectualmente melhor preparados para a vida, mas emocional e financeiramente mais instáveis. António Fausto encarna o desejo dos jovens de quererem ser grandes e terem uma vida melhor que a dos pais. Mas ao mesmo tempo que tem em si os maiores sonhos, António Fausto tem também os maiores receios: crescer e não sair da banalidade. E, no entanto este não é um livro banal - é provocatório. O seu editor, Manuel S. Fonseca, fez um bom resumo das razões que o levaram a editá-lo:  “Se não fosse imoral não queríamos! Mas o primeiro romance de André Fontes, “Saturnália”, é imoralíssimo e é também o primeiro romance millennial da literatura portuguesa. O romance? Somos nós, é o nosso retrato: bem-vindos a esta Saturnália moderna, carregada de erotismo, boémia e angústias de uma nova geração num mundo igualmente novo. Precária em erário mas abundante em avidez.”


A QUESTÃO DA SANDES -  Para um café ou snack bar português o que é uma sanduíche? A resposta é uma carcaça que evoca a borracha, muito levemente barrada com manteiga mole que muitas vezes caminha para rançosa, uma fatia de fiambre quanto mais fina e transparente melhor ou uma fatia de queijo tipo flamengo do mais barato que exista. Resumo - uma porcaria que não interessa a ninguém. Nas zonas de restauração de alguns centros comerciais ou em alguns novos espaços começam a aparecer boas sanduíches, bem preparadas, com pão estaladiço e recheio condigno. Os estabelecimentos Copenhagen Coffee Lab, do Príncipe Real e de Alcântara, são boas referências na variedade de sandes tradicionais, nas sandes abertas, e nas tostas, com possibilidade de escolha da qualidade de pão pretendida nalguns casos. O recheio é mais abundante que o normal, sem ser no entanto generoso, e há bom senso nas misturas e combinações propostas. Mas sinceramente gostava de conhecer um estabelecimento que se dedicasse a explorar a potencialidade de bom pão fresco com enchidos nacionais pouco usados (chouriço de boa qualidade, paio do lombo, paiola de porco preto, salpicão, morcela e, porque não, farinheira) combinados com queijos como de São Miguel, o de cabra atabafado, ou o serra curado. O pão havia de ser salpicado com bom azeite, combinações possíveis com mel ou doces tradicionais. Carcaça de borracha seria proibida e pão de forma de dois centímetros de espessura e consistência mole idem. E cada vez mais há por aí muito bom pão para iniciarmos uma contenda com essa maravilha americana que é a sanduíche de pastrami.

 

DIXIT - “Porque é que não há uma estratégia para combater a corrupção se ela está na boca de toda a gente? Porque é que um país com 200 kms de largura tem o interior ao abandono?” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “Não sei qual é a chave para o sucesso, mas sei que a chave para o falhanço é querer agradar a toda a gente” - Bill Cosby.

 

 

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ELEIÇÕES & ILUSÕES - Quando se olha para a campanha eleitoral fica-se a pensar que vivemos num mundo perfeito: belas propostas, ideias soberbas. Mas, vai-se a ver, e quando se confrontam estas ideias com as práticas passadas dos seus autores surge a desilusão. Esta semana um amigo dizia-me que iria votar num dos incumbentes porque assim já sabia ao que ía e dava o desconto do engano. Recusa-se a votar em algum dos novos partidos porque acha que vão acabar iguais aos outros e não cumprirão o que dizem mal puserem o pé no poder. A culpa não é do cepticismo deste meu amigo - a culpa é de um sistema político e partidário que protegeu a mentira e a desresponsabilização dos eleitos face aos eleitores. A culpa é de um sistema em que os resultados provocam situações como esta: a geringonça governou o país com base na vontade de apenas 28% do total de eleitores possíveis. Obteve 2,7 milhões de votos no PS, Bloco e PC num total de quase dez milhões de eleitores inscritos. Metade não vota. o poder acaba por ser exercido por uma minoria que é cada vez mais minoria porque a abstenção vai aumentando e os novos eleitores não acreditam no sistema. Será possível reganhar a confiança dos eleitores? Será possível combater a abstenção entre os novos eleitores? Quem manda fica tranquilo se a maioria dos cidadãos até aos 35 anos ficar fora do sistema, como está a acontecer? Sem mudanças profundas, da lei eleitoral ao modelo de campanhas, nada disto mudará e a crise de falta de representatividade ainda se acentuará mais. Os partidos incumbentes gostam desta situação e todos os anos dizem não querer mudar. Assim como está, com os dois cancros que são o método de hondt e a impossibilidade de círculos uninominais, os partidos que estão em S. Bento mantêm o seu poder e têm uns lugares para distribuir dentro dos respectivos aparelhos. Há muito que desistiram de manter a relação dos eleitos com os eleitores. Basta ver o que se passou com os escândalos no Parlamento nos últimos quatro anos, com o avolumar de casos de corrupção e com a teia de relações familiares nos círculos de poder. Aos incumbentes só lhes interessa o próprio umbigo.

 

SEMANADA - O aumento das rendas de casa nos centros urbanos e periferias está a provocar um crescimento do incumprimento dos empréstimos ao consumo e um aumento dos pedidos de apoio de reestruturação de dívidas financeiras das famílias; até final de Julho já tinham entrado em Portugal cerca de 140 mil turistas brasileiros, o que coloca o Brasil como quinto maior mercado emissor de turistas para Portugal; estudos recentes indicam que no final deste século o Algarve terá menos 83% de água; um número alargado de universidades tem milhões de euros por receber do Estado relativos a projectos de investigação cujo pagamento, acordado, não foi feito; o debate entre Costa e Rio teve menos 600 mil espectadores que o debate de há quatro anos entre os líderes do PS e PSD; como diz um amigo meu, já  nem os reitores de safam: o reitor da Universidade de Coimbra escolheu o período eleitoral, em pleno debate ambiental, para eliminar a carne de vaca das ementas das 14 cantinas sob sua tutela sem sequer ouvir especialistas sobre o tema; o Hospital Amadora-Sintra debate-se com uma praga de baratas; até Junho foram destruídos 5645 ninhos de vespas asiáticas em Portugal; duas dezenas de ambulâncias do 112 compradas em Abril estão paradas com avarias eléctricas; o Governo já perdeu 20 Secretários de Estado e cinco Ministros que deixaram o executivo desde o início desta legislatura; num debate eleitoral radiofónico Rui Rio atacou os jornalistas e o jornalismo que denuncia casos de corrupção em segredo de justiça; Fernando Neves de Almeida, dirigente da empresa de executive search de que Rui Rio fez parte, defende que os Ministros deviam ser escolhidos por head hunters - resta saber o que pensa da escolha de dirigentes partidários, tendo em conta os previsíveis resultados do seu ex-colaborador Rui Rio nas próximas eleições. 

 

ARCO DA VELHA - O Ministério Público considerou que defender publicamente o abate de ciganos não é crime, mas sim opinião. 

 

Galeria Ratton_O caminho das mãos - Azulejos de C

UM BAIRRO CHEIO DE ARTES - Na quinta-feira 19 deu-se o arranque de mais uma série de exposições integradas na iniciativa Bairro das Artes, que este ano assinala o décimo aniversário e que engloba uma série de galerias e espaços expositivos da zona do Bairro Alto. Começo por destacar a incursão de Cristina Ataíde nos azulejos (na imagem) com a exposição “O Caminho das Mãos” na Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2), até 15 de Novembro. Esta exposição, começada a preparar há cerca de dois anos, apresenta cinco composições com azulejo em relevo e em várias cores. Ao mesmo tempo estão expostas diversas experiências de texturas, cores vidrados e engobes que Cristina Ataíde desenvolveu simultaneamente. Outros destaques desta edição do Bairro das Artes vão para os desenhos de Pedro Proença na Abysmo Rua da Horta Seca 40) , as fotografias do prémio Estação Imagem 2019 na Casa da Imprensa (Rua da Horta Seca 20), a exposição “Antecâmara” com fotografias de  Inês d’Orey na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), para a exposição de fotografia “Futuro Repetido”, de Mário Macilau no Espaço Santa Catarina (Largo António Sousa Macedo 7) e para seis tapeçarias de Cruzeiro Seixas na galeria das Tapeçarias de Portalegre (Rua da Academia Das Ciências). Todas as informações sobre esta iniciativa em bairrodasartes.pt . Finalmente destaque ainda para a exposição "Miguel Palma. (Ainda) O Desconforto Moderno", uma antológica do artista que inclui 54 peças, muitas delas surpreendentes, e que inaugurou esta semana no Museu Colecção Berardo. 

 

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POP INESPERADO - É um Iggy Pop inesperado este que nos surge no seu mais recente álbum, “Free”. Aos 72 anos Iggy Pop mostra a sua vivacidade ao enveredar por um caminho completamente inesperado, concretizado na colaboração com o guitarrista Noveller e o trompetista de jazz Leron Thomas. É um disco contemplativo, no qual Iggy, como ele próprio afirma, deixa outros artistas exprimirem-se por ele, restando-lhe emprestar a sua voz. É preciso recordar que este novo disco é o que se segue a “Post Pop Depression”, feito em 2016 com Josh Homme, dos Queens Of The Stone Age. Esse era um disco que soava àquilo que as pessoas esperam de um disco de Iggy Pop. Este não é assim e agudiza a ideia de que há discos do rocker Iggy Pop e discos do contemplativo James Newell Osterberg, o seu verdadeiro nome. Já agora é preciso recordar as inflexões da actividade dos últimos anos: em 2009 cantou uma versão de “Autumn Leaves” no álbum “Préliminaires”, onde namorou o jazz, enquanto em 2012 se aventurou pelo pop e cantou “Michelle”, dos Beatles, A seguir veio o rocker de “Post Pop Depression”, um curioso nome nesse contexto, e agora chama para título a necessidade de se libertar de formas musicais que o tornaram famoso. Temas deste novo disco como “Love’s Missing”, “James Bond” ou “Dirty Sanchez” têm palavras que Iggy Pop poderia cantar em qualquer fase da sua carreira - sobre amor, dominação ou sexo - mas o conceito musical aproxima-se do jazz e sua forma vocal é a dos crooners -  mas como é Iggy Pop proclama alto e bom som “online porn is driving me nuts”.  

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DÚVIDAS LINGUÍSTICAS - Todos conhecemos as semelhanças entre o galego e o português. Mas serão a mesma língua? Que têm em comum? Marco Neves, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor de diversos livros na área da linguística dispôs-se a reflectir sobre o tema no livro “O Galego e o Português São A Mesma Língua?”, que leva como subtítulo “Perguntas portuguesas sobre o galego”. Numa conversa com um hipotético conterrâneo Marco Neves responde com paciência, humor e muita informação às suas perguntas e observações, dissecando também vários preconceitos.  Como está assinalado na contracapa “neste livro vamos encontrar reflexões sobre o funcionamento das línguas e sobre o plurilinguismo, percursos pela História da linguagem humana e desta língua em particular e algumas ideias sobre as relações entre as sociedades da Galiza e de Portugal e entre as suas identidades e os seus falantes”. João Veloso, Professor na Universidade do Porto, autor do prólogo deste livro defende que “o Mundo de língua portuguesa é um espaço a várias latitudes onde os galegos têm culturalmente o seu lugar, juntamente com portugueses, brasileiros, africanos e gente de muitas outras paragens”. O livro foi editado em Compostela pela editora Através.

 

PETISQUICES - Durante alguns anos A Paz foi um dos meus poisos preferidos para almoçar. Ficava no Largo da Paz, na Ajuda, tinha à sua frente o Sr. António, a mulher e uma ajudante na competentíssima cozinha, e os filhos na sala. As postas de garoupa grelhadas eram épicas, mais épica ainda era a cabeça do mesmo peixe, cozida, que vinha para a mesa desmanchada pelo Sr. António para ser partilhada sem trabalho pelos apreciadores. Mas havia também um pernil às segundas e petiscos diversos nos outros dias. As voltas que o mundo dá levaram ao encerramento d’A Paz após a morte do seu proprietário e agora, no mesmo local, há cerca de dois anos, está o Restaurante Mestrias Nova Tasca, uma belíssima petisqueira. A decoração foi refrescada mas não demasiado, as mesas são de tampo de mármore e as cadeiras, salvo erro, são as originais do antecessor, sólidas e confortáveis. No largo em frente, que entretanto teve obras de recuperação, há uma esplanada. Na lista há petiscos como moelas, pica-pau, ovos com farinheira. E nos pratos há bochecha de porco, bitoque, arroz de choco e de polvo, e bacalhau à braz, entre outros. As batatas fritas são às rodelas finas, feitas na hora e o bitoque está acima da média na qualidade da carne. O serviço é atento e simpático, o local é mesmo bom para petiscar. Eu, que gosto de almoçar sozinho, arrependi-me de não ter companhia para petiscar qualquer coisa de entrada e para dividir a honesta tarte de figo e alfarroba que veio no final. Vinhos a copo, entre eles um bom Monte das Servas tinto. Ao almoço é sossegado, ao jantar muitas vezes acolhe grupos. Largo da Paz 22, telefone 913 342 204,  reservas disponíveis nas várias plataformas e no facebook. 

 

DIXIT - “Não corremos para um lugarinho no Governo” - Jerónimo de Sousa em entrevista à CMTV

BACK TO BASICS - “Se tivesse que escolher se devíamos ter um governo sem jornais ou jornais sem o governo, não hesitaria um momento que fosse na segunda opção” -Thomas Jefferson, 1787.

 




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E A CORRUPÇÃO,  NÃO SE FALA DELA? - A campanha eleitoral ainda não começou e já estou enjoado com os preliminares. Reza a tradição que quem faz preliminares enjoativos dificilmente será lembrado por alcançar os píncaros. É espantoso como duas décadas passadas do novo século, com o panorama de consumo dos meios de comunicação todo virado do avesso em relação há meia dúzia de anos  (nem vou mais longe), os políticos, salvo raras e honrosas excepções, actuam como no tempo da idade da pedra comunicacional. Entre os incumbentes do Parlamento a falta de imaginação é galopante, o conformismo é reinante, a amnésia é dominante. As campanhas são baseadas em promessas e, em política, já se sabe que promessas leva-os o vento. Uma vez concluídas as eleições as promessas ficam no saco dos materiais a esquecer. Mas neste ano, nestas eleições para o Parlamento, o que mais me espanta é que não se fale praticamente de corrupção, dos numerosos casos que envolveram deputados, partidos e governantes e que durante meses foram noticiados com destaque e minúcia. Em vez de ouvirem promessas os eleitores deviam olhar para o que os eleitos fizeram com os votos que receberam. O balanço não favorece quem agora pede votos depois de ter estado sentado no Parlamento. Cada vez que ouvirem um deles a fazer promessas recordem-lhes os casos em que andaram directa ou indiretamente envolvidos, as corruptelas a que fecharam os olhos e as trafulhices que permitiram em faltas, viagens, compadrios familiares. A política, nesta campanha, está ao nível do WC.

 

SEMANADA - O apoio do Estado à compra de automóveis eléctricos esgotou a quatro meses do fim do ano; na última década a percentagem de docentes com mais de 50 anos em Portugal saltou de 22% para 41% e o país tem agora uma das classes docentes mais envelhecidas da OCDE; apenas 1% dos professores em Portugal tem menos de 30 anos enquanto nos países da OCDE a média é de 10%; segundo a Organização Mundial da Saúde Portugal é um dos quatro países em que se registou uma diminuição da despesa pública em saúde entre 2000 e 2017; a média comunitária de mortos em acidentes rodoviários é de 49 mortes por milhão de habitantes e em Portugal verificam-se 58 mortes por milhão, o que nos coloca no décimo lugar dos países com sinistralidade mais grave; em Julho as exportações subiram 1,3% mas as importações dispararam 7,9%; a nova versão do filme “Rei Leão” é o filme mais visto em Portugal desde 2004 e já teve cerca de 1,3 milhões de espectadores; as obras de recuperação do Palácio da Ajuda vão custar o dobro do que estava previsto; em Portugal menos de um terço dos inscritos em universidades conclui a licenciatura em três anos e a taxa de abandono no final do primeiro ano é de 12%; no primeiro ano do mandato de Frederico Varandas o passivo do Sporting subiu 42,3 milhões de euros em relação ao exercício anterior e é agora de 324 milhões, o maior da história do clube; segundo a Marktest 74,6% dos portugueses usam internet e 67% fazem-no pelo telemóvel.

 

ARCO DA VELHA - Em Ovar um jovem de 22 anos confeccionou um bolo com folhas de cannabis para partilhar com amigos, mas a iguaria, deixada numa mesa, desafiou a gulodice de familiares que a devoraram e que acabaram intoxicados com sintomas de tonturas e vómitos. 

 

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A ARTE DA LUZ - Em física Lumen é a unidade de medida do fluxo luminoso, em anatomia é a cavidade ou canal dentro de um orgão ou estrutura tubular. E agora, em livro, é a recolha das obras de arte que entre 1992 e 2019 Pedro Cabrita Reis fez, utilizando tubos de neon que trabalha como linhas de luz num desenho, como referiu esta semana na apresentação do livro na Central Tejo. Este livro vem no seguimento da aquisição da colecção Pedro Cabrita Reis em 2015 pela Fundação EDP, e é na realidade um catálogo de 27 anos de trabalhos com luz. A sua capa é precisamente “Central Tejo”, a escultura que o artista fez em 2018 e que está colocada em cima do rio, frente ao MAAT. Markus Richter, que escreveu a introdução ao livro, sublinha que Pedro Cabrita Reis “utiliza a luz, em primeira linha, para definir ou criar espaços” e faz a história da forma como a luz aparece e evolui na obra de Cabrita Reis na década de 90. Richter destaca uma afirmação de Cabrita Reis que enquadra todas estas obras: “Os tubos luminosos estruturam os espaços como um desenho estruturaria um pensamento visual”. Na apresentação que fez do livro Pedro Cabrita Reis afirmou aquele que tem sido sempre o ponto de partida do seu trabalho: “Nada é por acaso, tudo é pensado”. Ao longo das 480 páginas do livro são mostradas mais de 300 obras, todas devidamente identificadas e descritas, muitas delas pouco conhecidas e surpreendentes, que aqui são partilhadas e que estão expostas em colecções particulares, em empresas ou em museus em Portugal (de Lisboa, Porto, Coimbra e Tavira), mas também internacionalmente em Antuérpia, Londres, Paris, Chicago, Buenos Aires, Basel, Nova Iorque, Milão ou Hamburgo, entre outras. O livro LUMEN está à venda na loja do MAAT. 

 

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MÚSICA ITALO-AMERICANA - O trompetista italiano Enrico Lava e o saxofonista norte-americano Joe Lovano são dois músicos de jazz que se distinguem pela sua capacidade de improvisação. Surge agora o seu primeiro disco em conjunto, uma gravação ao vivo realizada Novembro passado no Auditorium Parco della Musica em Roma - a cidade que dá o nome ao álbum, editado pela ECM e disponível no Spotify. Lava e Lovano são acompanhados pelo pianista italiano Giovanni Guidi, o baixista americano Dezron Douglas e o baterista americano Gerard Cleaver. O álbum tem cinco temas, os dois primeiros são composições de Enrico Lava: “Interiors” (do álbum New York Days de 2009) e “Secrets” do álbum homónimo de 1987. Se no primeiro o trabalho de Giovanni Guidi no piano se destaca, no segundo é o diálogo entre o trompete e o sax que se salienta, apoiado pelo baterista Gerard Cleaver. Os outros três temas são de Lovano - “Fort Worth”, de 1992, o original “Divine Timing”, e uma faixa final, de 18 minutos, que arranca com “Drum Song” de Lovano e depois tem incursões em clássicos como “Spiritual” de John Coltrane e na balada “Over de Rainbow” de Harold Arlen, num medley onde a improvisação corre solta até finalizar com um envolvente solo de Guidi naquela que é uma das mais conhecidas baladas do jazz.

 

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O CLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO  - A rentrée nos principais museus e galerias já começou. Comecemos  pelo Museu Nacional de Arte Antiga que expõe “A leitura da sina do Menino Jesus”, uma pequena pintura que foi a última obra de Josefa de Óbidos a ser conhecida. O quadro foi leiloado na Alemanha em maio passado e o Estado português não conseguiu comprar a obra, vendida por 220 mil euros a um negociante de arte argentino que a emprestou ao MNAA, para ser exposta durante um mês antes de atravessar o Oceano.  O museu expõe a peça no Hall principal e recorda: “Revisitada em 2015, numa grande exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, Josefa de Ayalla, dita Josefa de Óbidos, tem vindo a revelar-se como um dos casos culturalmente mais interessantes entre as mulheres pintoras do período barroco. A pintura, datada de 1667,  mostra a leitura da sina do Menino Jesus através da observação da sua mão por uma mulher cigana durante a estadia da Sagrada Família no Egipto.” Passando para um outro registo o MAAT inaugurou esta semana uma nova série de exposições: a colectiva Playmode, onde os artistas participantes se focaram no “poder de transformação do jogo, integrando-o nas suas obras com propósitos distintos – evasão à realidade, construção e transformação social, subversão ou crítica dos próprios mecanismos de brincadeira e jogo”; e M.A.G.N.E.T. - uma encomenda da Fundação EDP para o Video Room do MAAT, feita à artista egípcia Basin Magdy. O filme foi gravado ao longo de um período de quase dois anos em diferentes locais da Europa, entre os quais se incluem uma cratera vulcânica na ilha grega de Nisyros, um laboratório de robótica em Manchester, o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Dino Parque da Lourinhã, “lugares que, retirados dos seus contextos históricos e geográficos, são apresentados enquanto cenários ficcionais que servem a narrativa. O enredo relata a forma como diversas pessoas e comunidades de todo o mundo recebem a notícia do aumento da gravidade da Terra — uma das quatro forças fundamentais da natureza —, descrevendo uma série de situações e acontecimentos inesperados que têm lugar em diferentes lugares e contextos.”

 

COMIDAS POSSÍVEIS - Felizmente vai crescendo em Lisboa um conjunto de restaurantes em locais agradáveis, sem pretensão maior do que a de servir comida bem confeccionada sem exageros nem de forma nem de preço. Nestes dias mais encalorados experimentei dois onde tudo correu bem. Um deles foi no CCB, o Este-Oeste que tem a sua carta dividida entre comida italiana e sushi de fusão. O sushi é acima da média do que por aí se encontra e na comida italiana destaco a boa qualidade da massa das pizzas - fina, crocante e um muito honesto spaghetti putannesca com a receita original e sem modernices escusadas. O outro é o já antigo, mas recentemente renovado Doca de Santo, em Alcântara, onde uma escolha ampla de saladas e de pratos como caril de gambas à tailandesa (com legumes), o bitoque ou croquetes com arroz de tomate são honestos e de bom preço. Nos dois casos há esplanada mas também espaços interiores com bom ar condicionado e muito luminosos que nestes dias quentes, à hora de almoço,  são melhores ainda que uma esplanada. Nos dois casos não falamos de fast food, mas de pratos variados, bem confeccionados, de um serviço simpático e diligente, de uma equilibrada mistura entre comensais portugueses e turistas estrangeiros. Numa altura em que se multiplicam novos restaurantes onde por vezes o pretensiosismo é dominante, e vão fechando sem glória alguns dos clássicos (como a Bica do Sapato), é bom perceber que existe uma categoria intermédia, mas boa, bem localizada e que cumpre o papel básico de um restaurante. Este-Oeste e Doca de Santo são bons sítios para se apreciar o rio enquanto se tem uma muito razoável refeição.

 

DIXIT - “A política sempre foi um jogo de máscaras, mesmo que não a devamos reduzir a isso” - Vicente Jorge Silva

 

BACK TO BASICS - “Acima de tudo a vida de um fotógrafo não pode ser pautada pela indiferença” - Robert Frank




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CASAMENTOS - O dado curioso das próximas eleições legislativas é que só existe um candidato a primeiro-ministro. Ninguém mais se candidata à função, os outros concorrentes apenas procuram votos e lugares clientelares no novo parlamento. António Costa ainda não sabe se vai ter  que arranjar companhia ou se conseguirá ser o noivo que vai sozinho ao altar, prescindindo de arranjinhos. Numa entrevista recente deu umas sapatadas no noivado com o Bloco e,no primeiro debate da televisão, mostrou-se pouco entusiasmado em namorar o PCP, mas cuidadoso para não o afastar. António Costa é um político inteligente, um hábil manobrador que gere com táctica os arrufos e os assomos de paixão com os seus parceiros. Sabe perfeitamente que no dia a seguir às eleições será ele a ditar as regras do jogo que vai ser formar novo Governo e sabe também que ninguém estará em condições de lhe tirar esse prazer. Há quatro anos fez o namoro com Bloco e PCP às escondidas para garantir o poder no dia seguinte às eleições, espantando Passos Coelho, que havia sido o mais votado. Agora, às  claras, espera que o eleitorado lhe dê a possibilidade de se separar da geringonça, namorando caso a caso com quem mais lhe convier. A coisa já esteve mais longe de acontecer. E para tirar o Bloco da equação não será o PCP a a complicar a vida a António Costa.

 

SEMANADA - Até agora, durante o verão, foram detectados 31 mil condutores em excesso de velocidade e 2980 outros a utilizar telemóvel enquanto guiavam; de Janeiro a Agosto morreram 312 pessoas em acidentes de viação; mais de 43 mil portugueses foram apanhados em excesso de velocidade em Espanha;  mais de metade das consultas de neurocirurgia superou o tempo máximo de resposta considerado clinicamente aceitável; o envio pelo SNS de doentes para cirurgias no privado subiu 96% em 2018; as dívidas de hospitais do Serviço Nacional de Saúde ao Instituto do Sangue ultrapassam os 70 milhões de euros e ameaçam o seu funcionamento; a despesa pública com subvenções vitalícias abrange 308 políticos que custam 6,1 milhões de euros por ano; o PS prevê gastar 2,4 milhões de euros na próxima campanha eleitoral, o PSD cerca de dois milhões, a CDU prevê 1,2 milhões, o Bloco quase um milhão e o CDS cerca de 700 mil euros; José Sócrates classificou António Costa como “insuportável”; a aplicação informática para autorização de queimadas registou mais de 300 mil pedidos durante os primeiros sete meses do ano, dos quais 96% foram autorizados; o Tribunal de Contas alertou que a desertificação dos solos afecta dois terços do território e denunciou que os programas de combate à desertificação estão a ser mal executados pelo Governo que obviamente o desmente; um inquérito recente indica que mais de metade dos portugueses (53,5%) diz que a crise não passou e afirma que o desemprego está no topo das suas preocupações.

 

ARCO DA VELHA - Catarina Martins anunciou que “o programa eleitoral do Bloco é essencialmente social-democrata”.

 

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DIGRESSÃO ARTíSTICA - "Contra a Abstracção" é uma exposição colectiva de obras da Colecção da Caixa Geral de Depósitos, comissariada por Sandra Vieira Jurgens, que tem percorrido diversas cidades ao longo dos últimos meses com várias versões de diferentes obras, mas mantendo um núcleo central de artistas em todos os locais onde já passou. É uma boa forma de levar a colecção do Banco Público para fora das austeras portas do seu edifício sede em Lisboa. A exposição   apresenta uma seleção de obras, de diferentes artistas (cerca de 50, a maioria portugueses) e suportes (da pintura à fotografia, passando pelo vídeo, escultura e instalação). O título da exposição evoca o seu tema central - que é o abstracto.  Estão representados artistas como Álvaro Lapa, Ana Hatherly, Ana Jotta,  ngela Ferreira,  ngelo de Sousa, António Ole, António Palolo, Bartolomeu Cid dos Santos, Ernesto de Sousa, Espiga Pinto, Fernanda Fragateiro, Fernando Calhau, Joana Vasconcelos, João Paulo Feliciano, José Loureiro, José M. Rodrigues, Júlia Ventura, Kees Scherer, Leonor Antunes, Luís Demée, Man, Manuela Almeida, Manuel Viana, Nadir Afonso, Pedro Cabrita Reis, Pedro Casqueiro, Pedro Portugal e Rui Sanches, entre outros. A exposição está neste momento patente no Centro de Artes de Sines até 27 de Outubro. Concebido por Francisco e Manuel Mateus o Centro de Artes de Sines é considerado como um edifício marcante da arquitetura portuguesa contemporânea. A exposição está aberta diariamente entre as 14h30 e as 20h00, incluindo ao fim de semana. 

 

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NOVAS CANÇÕES AMERICANAS- Após uns anos sem gravar Lana del Rey surge com o seu quinto álbum de originais que chama para o título Norman Rockwell, um dos nomes incontornáveis da ilustração norte-americana, conhecido pela forma como retratou cenas do quotidiano do sonho americano. “Norman Fucking Rockwell” é o nome do novo disco com 14 canções que mostram uma Lana Del Rey mais madura e mais afirmativa, a desafiar as palavras e a exibir a sua sexualidade, mas também a sua opinião sobre a América deste tempos. O álbum é um somatório de emoções, alternadas com opiniões e afirmações. A faixa inicial, “Venice Bitch”, é uma melodiosa evocação de jogos de sedução e de sexo que se prolonga durante quase oito minutos e que antecede a forte “Fuck It I Love You”, muito autobiográfica, a abrir caminho para o centro geográfico deste álbum que é a Califórnia, evocada numa canção homónima onde o amor perdido é tema, aliás como em “Love Song”. Há canções cujos títulos são já um programa, como “The Next Best American Record” ou o também muito pessoal “Hope Is A Dangerous Thing For A Woman Like Me To Have - But I Have It”, onde até cabe uma referência a Silvia Plath, uma poetisa e escritora norte-americana conhecida pelo seu estilo confessional - um ponto de contacto com este disco de Lana Del Rey. Há ainda uma piscadela a Neil Young, a quem roubou o nome da uma canção, “Cinnamon Girl”, o exibicionismo de “Bartender” e aquela que é talvez a mais forte canção do disco, “Doin’ Time”, que começa por uma evocação do standard “Summertime” e que subitamente parte para outros territórios. No disco há numerosas referências à America de Trump, críticas presentes em quase todas as canções num contraste propositado com a ideia de um paraíso idílico do sonho americano que Norman Rockwell retratou. É este conjunto de citações e de cruzamentos de fontes e influências que faz a força deste disco. CD disponível no Spotify.

 

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SOBRE AS CIDADES - A edição de Setembro da revista “Monocle” vem com muita leitura. O tema de capa aborda a evolução da mobilidade entre a casa e o trabalho e aponta ideias para o replaneamento de cidades num futuro próximo, indicando Helsínquia como uma das mais avançadas, sublinhando que já tem um curso um plano com objectivos traçados até 2050. Os filisteus que habitam na Praça do Município em Lisboa, de todos os partidos aliás, fariam bem em ler este artigo e tomar notas. Passando para outro tema, a cultura, uma das cidades em foco é a norte-americana Tulsa,  que é protagonista de um ressurgimento devido a generosas dádivas de fortunas feitas no petróleo e que desde os anos 30 do século passado contribuíram para edifícios arquitectonicamente marcantes da cidade. Uma das actividades mecenáticas mais recentes tem a ver com a recuperação do Arts District da cidade e com a compra dos arquivos de Woody Guthrie de de Bob Dylan pela universidade de Tulsa, um investimento que ultrapassou os 20 milhões de dólares em grande parte financiado por uma Fundação privada - coisas que a legislação americana permite e incentiva e que aqui são maltratadas. Com ligações claras a esta área está um dos mais interessantes artigos da edição e que tem a ver com a gestão de museus, baseado em entrevistas com responsáveis de instituições em Berlim, Taipé, Nova Iorque e Londres. Aqui estão mais umas páginas que podem ser úteis a algumas pessoas envolvidas no tema em Portugal. Por falar nisso a edição inclui oito páginas de conteúdos patrocinados pelo Turismo de Portugal com 50 lugares essenciais a visitar, de restaurantes a museus, passando por praias ou lojas. Serralves é que deve ter ficado aos saltos porque a sua localização vem… em Lisboa.

 

VOANDO - Andar de avião no Verão dá cabo da paciência a um santo: filas infindáveis, aeroportos cheios, controlos de segurança demorados. Se as coisas correrem bem podemos contar com uma hora entre a entrada no aeroporto e a chegada à porta de embarque. Se falarmos do aeroporto de Lisboa, à hora de ponta, a coisa pode ser ainda pior. Quem está na cidade exaspera-se com o barulho causado pelos aviões, quem está no aeroporto enerva-se com as filas e com a espera. Uma vez chegados à porta de embarque resta aguardar que o voo não esteja atrasado, uma raridade nos tempos que correm, sobretudo na TAP. Depois, uma vez no avião, resta esperar que ele não tenha perdido a sua hora de saída e seja obrigado a ficar à espera de vez. Foi o que me aconteceu num recente voo da Vueling para Barcelona, em que estive quase três quartos de hora à espera que o avião pudesse levantar. O comandante, no entanto, não foi de modas e explicou aos passageiros que, embora o aeroporto de Lisboa fosse já manifestamente insuficiente para o movimento que tem, desta vez a culpa não tinha sido da torre de controlo. Explicou que o atraso se deveu ao handling, classificando-o de desleixado e incompetente. Disse que o avião até tinha chegado adiantado ao aeroporto mas a equipa de handling atrasou-se uma hora e comprometeu todo o resto da operação. Insinuou que isto era frequente com o handling no aeroporto da capital. E os passageiros, maioritariamente estrangeiros, que enchiam o Airbus A320, ficaram assim comuna bela ideia do país.

 

DIXIT - “Desejo firmemente que os “debates” televisivos tenham a audiência que merecem: a pior, abaixo da do pior telejornal. Seria um magnífico sinal de alguma maturidade cívica numa sociedade tão infantil e infantilizada por uma oligarquia política e comunicacional tropical.” - João Gonçalves, jurista

 

BACK TO BASICS - “Ouçam muitos mas falem só com alguns” - William Shakespeare

 

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A POLÍTICA CULTURAL -  Vão agora começar a circular os programas eleitorais dos partidos - e a sua semelhança com a realidade é maioritariamente escassa. Hoje pego numa área muitas vezes subalternizada - a da Cultura. Nos últimos anos a discussão sobre o tema tem-se centrado sobre se deve existir Ministério ou não e, sobretudo, sobre o financiamento do Estado ao sector e a percentagem do PIB que esse financiamento poderá representar. Reduzir as questões a isto é a melhor forma de acabar com a cultura. Desde há muito defendo que mais importante que a percentagem do PIB é tomar medidas que facilitem e incentivem acções de mecenato e a aquisição de bens culturais pelos cidadãos. Assim, antes de aumentar o orçamento da Cultura, vale a pena pensar como ele pode ser estimulado, do exterior, pelos privados. Neste domínio há várias questões, a maior parte dependente das Finanças - e logo em primeiro lugar a revisão da lei do mecenato, tornando mais simples o seu funcionamento e muito mais largo o seu campo de acção, o que inclui que os benefícios sejam mais estimulantes para quem decide apoiar a Cultura. Por exemplo seria interessante estudar um regime fiscal favorável para que as empresas e particulares (trabalhadores independentes por exemplo) possam adquirir arte contemporânea com uma vantagem fiscal no IVA e na dedução à colecta, sem ter de recorrer à Lei do Mecenato. Era interessante estudar como estender este processo ao apoio à edição livreira cuja situação se agrava de dia para dia. Diminuirá isto a receita fiscal ? Há estudos que indicam uma diminuição marginal, largamente compensada por uma redução da necessidade  de financiamentos do Estado - como acontece nalgumas sociedades onde a sociedade civil tem incentivos para existir e se desenvolver. E finalmente, em vez da discussão sobre o estatuto de um Ministério, creio que seria bem mais importante implementar uma verdadeira coordenação entre vários departamentos do Governo que lidam com áreas culturais, do património edificado que é chamariz do Turismo, até à Educação, passando pela dinamização da imagem internacional do país geralmente mal feita pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

 

SEMANADA - Nos primeiros sete meses do ano foram feitos mais de 90 mil pedidos de nacionalidade portuguesa com Brasil, Venezuela e Israel à frente da lista; 84,4% das vagas para jovens médicos no Alentejo ficaram por preencher por falta de interessados que alegaram deficientes condições de trabalho; durante o fim de semana passado o sul do país esteve sem transporte aéreo de urgência; mais de 350 vagas para médicos que terminaram a especialidade nas áreas de medicina geral e familiar, saúde pública e hospitalar ficaram por preencher no concurso de primeira época deste ano, que disponibilizava 1264 postos de trabalho;  no ano passado 156 pessoas morreram atropeladas nas estradas portuguesas - é o número mais alto dos últimos seis anos e subiu 20% em relação a 2017, com o registo de mais 26 vítimas mortais; actividades ilegais como a prostituição, droga e contrabando já valem 0,5% do PIB; segundo a Marktest em Portugal já há milhão e meio de assinantes de serviços de streaming audio e video, com a Netflix a ter a maioria das subscrições; ainda segundo a Marktest há quase dois milhões de portugueses que ouvem regularmente rádio pela internet, os indivíduos entre os 25 e os 34 anos são os que possuem maior afinidade com este hábito e nos quadros médios e superiores a penetração de ouvir rádio pela internet é de cerca de 44%; A receita fiscal proveniente da venda de combustíveis atinge os 10 milhões de euros por dia.

 

PARA MAIS TARDE RECORDAR - Foi com um Governo PS, apoiado pelo Bloco de Esquerda e o PCP, que se chegou ao ponto de procurar dissolver um sindicato desalinhado das centrais sindicais e incómodo para o poder.

 

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MANIFESTAÇÃO FOTOGRÁFICA - Ao longo de 2013 o fotojornalista Luís Ramos acompanhou as manifestações em Lisboa contra as políticas de austeridade impostas pela troika. Mas em vez de se limitar a fazer planos das manifestações ou de cartazes, Luis Ramos fixou-se na cara das pessoas, de manifestantes, isolando-os do cenário de multidão em que estavam inseridos, como se fossem retratos individuais. São grandes planos das caras, a preto e branco, que oscilam entre a desilusão e a expectativa, com alguns, poucos, sinais de determinação.São fotografias mais de um queixume que de um protesto. Percebe-se que são pessoas muito diversas mas o enquadramento escolhido e a técnica seguida apagam diferenças sociais ou de origem. Restam as (poucas) diferenças de idade e as diferenças de expressão entre os 100 retratos que estão no painel “Remember” que até 29 de Setembro pode ser visto na grande praça do Museu do CCB, ao fundo, enquadrada pela marcante escultura que José Pedro Croft levou há uns anos à Bienal de Veneza. Visto à distância o painel parece uma peça única - é preciso aproximar-nos para vermos uma a uma a cara destes protagonistas do que acaba por ser uma manifestação fotográfica. Luis Ramos afirma que o desalento foi o sentimento marcante que sentiu ao seleccionar as imagens dos manifestantes, com quem não falou, limitando-se a isolá-los no meio das multidões. Numa recente entrevista sobre a exposição e a razão de ter feito estes retratos Luis Ramos afirmou simplesmente: “na cara das pessoas está tudo”.

 

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UM DUETO INVULGAR - A primeira edição de “El Corazon”, em LP de vinil, saíu em 1982. Não é muito frequente fazer um disco baseado num dueto entre trompete e bateria, mas “El Corazón” é isso mesmo. Don Cherry com o seu pequeno trompete, ocasionalmente no piano e na harmónica, Ed Blackwell na bateria e também nas percussões. Em 1982 Don Cherry tinha 46 anos e Ed Blackwell já ía nos 53. Cherry ganhou fama ao lado de Ornette Coleman, nomeadamente no marcante “The Shade Of Jazz To Come”, de 1958. Ao longo dos anos tocou com John Coltrane, Sonny Rollins e Charlie Haden, entre muitos outros. Este “El Corazón”, depois de ter nascido no vinil, foi reeditado em 2000 pela ECM em CD e este verão teve nova reedição, também da ECM, com uma remasterização e também presença no Spotify. Este dueto entre o trompete e a bateria é muito interessante de seguir - até porque Blackwell não se coíbe e muitas vezes ocupa muito o espaço, mas sempre de forma elegante. Há no entanto um tema que Cherry toca a solo, “Voice of the Silence”, que é dos momentos altos do disco e uma demonstração da capacidade e criatividade do trompetista e da forma como conseguiu deixar marca com a sua sonoridade. Se não conheciam esta obra vale a pena descobrirem-na agora, 37 anos depois da sua edição original. E é espantoso como permanece tão actual.

 

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AS ORIGENS DOS EUROPEUS - Numa altura em que as questões em torno do Brexit se agudizam e em que o número de eurocépticos  vai aumentando é curioso olhar para a História da Europa e dos europeus não do ponto de vista da evolução política, mas do ponto de vista biológico, a partir do seu legado genético, da primeira onda de migração que desencadeou o povoamento do continente até aos dias de hoje. “A Grande Família Europeia - os primeiros 

54 000 anos” é uma obra escrita por Karin Bojs, que foi durante duas décadas editora de ciência de um dos maiores jornais diários suecos e foi distinguida com um doutoramento honoris  causa da Universidade de Estocolmo. Esta sua obra recebeu o prémio de melhor livro de não ficção editado em 2015 na Suécia. «Viajei por dez países, li cerca de 200 estudos científicos e entrevistei mais de 70 cientistas na minha pesquisa», escreve Karin Bojs, que conversou com geneticistas, historiadores e arqueólogos eminentes, acabando por descobrir a história escondida nos nossos genes, que revela a história partilhada dos povos europeus e de toda a Humanidade. O livro começa pela evocação do que aconteceu, há 54 000 anos na proximidade do mar da Galileia, com um encontro entre uma mulher e um homem, fisicamente muito diferentes, no cimo de uma montanha. Do encontro nasceu um rapaz, de uma aparência física diferente das outras crianças da tribo da mãe. E o rapaz teve “uma grande descendência, que migrou em todas as direcções e se espalhou pelos territórios sem fim”. Ele era o filho de um homem de Neandertal. E a partir daqui a autora percorre as diferentes épocas da História e da evolução da raça humana. Fascinante. O livro foi agora editado em Portugal pela Bertrand. 

 

EM DEFESA DA CAVALA - Abundante na costa portuguesa e rica em Ómega 3, com todas as vantagens que daí advêm para a saúde, a cavala é um peixe ainda hoje menosprezado por muita gente - quer fresco quer em conserva. Para efeito de receita de fim de verão vou focar-me apenas nas conservas de filetes de cavala em azeite. Três ideias simples: como entrada sugiro uma fatia de bom pão tostado, barrado com pasta de abacate temperado com lima, sal e pimenta, e coberto por fatias muito finas de pepino e tomate. Por cima colocam-se os filetes de cavala partidos aos pedaços depois de escorridos. Estas sanduíches abertas são sempre um bom petisco que tanto pode ser entrada como uma refeição leve. Outra alternativa é uma salada de corações de alface e tomate coração de boi cortado aos pedaços, com rodelas de pepino e amêndoa laminada, bem temperada com azeite e vinagre e depois com os filetes inteiros misturados. Por fim uma inspiração italiana: um bom esparguete cozido al dente em água com sal, misturado com molho de tomate cozinhado e temperado com ervas, ao qual se adicionou no final os filetes de cavala de conserva aos pedaços. Deita-se tudo sobre a massa, envolve-se bem e serve-se de imediato. Eu costumo usar os filetes da Comur, uma marca de conservas cujo método de produção tem a vantagem de não deixar o por vezes desagradável sabor da lata.

 

DIXIT - “O PS não se propõe “libertar” energias, cidadãos, empresas, autarquias ou iniciativas. O PS propõe-se enquadrar, comandar, dirigir, orientar e, numa palavra, fazer. O PS não quer deixar fazer, não deseja que outros façam, quer fazer. E o que ele não fizer, proíbe ou dificulta” - António Barreto.


BACK TO BASICS - “Aos olhos de quem lê História a desobediência é a virtude original do Homem: é através da desobediência e da rebelião que se construíu o progresso” - Oscar Wilde.




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À PROCURA DO SILÊNCIO PERDIDO

por falcao, em 23.08.19

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OS RUÍDOS - Estou entre aqueles que, em tempo de férias, prefere o silêncio e as boas condições para sonos repousantes, leituras tranquilas, meditações diversas. No regresso de férias, em que estes objectivos foram alcançados, volto a uma Lisboa, com menos trânsito mas com ruído igual ao que existia - e o principal ruído, que me prejudica as noites, vem dos aviões, que rugem desde bem cedo até bem tarde. Não sei quem terá convencido aqueles que legislam sobre esta matéria que um ser humano precisa apenas de, no máximo, cinco horas de sono por noite. Os especialistas dizem que poucas horas de sono bem dormido têm efeitos terríveis na saúde, para não falar já do seu efeito na capacidade de trabalho e no humor das pessoas. E no entanto os lisboetas que residem nos percursos mais utilizados pelos aviões a descolar ou a aterrar muitas vezes nem essas cinco horas de sono repousado têm. E, durante o dia, experimentam a sensação de viver na pista de um porta-aviões em tempo de guerra. Quem é responsável por isto? Quem legisla? Quem devia fiscalizar? Quem autoriza e contorna a Lei? E como são responsabilizados? Que pode a Câmara Municipal fazer para adicionar ruído ao problema permitindo barulho na rua em zonas do centro da cidade por essa noite fora? O Turismo justifica tudo? - Em Amsterdão e noutras cidades europeias começaram a existir restrições à proliferação de alojamentos locais e em muitos casos foram proibidas quaisquer actividades ruidosas na rua ou que prejudiquem outros moradores de um prédio. Estes são países e cidades onde os políticos que decidem respeitam quem os elege. Como se sabe não é esse o caso de Lisboa, nem o caso de Portugal.



SEMANADA - O New York Times fez um trabalho sobre os incêndios florestais em Portugal e relatou a experiência que está a ser feita com cabras - já são mais de dez mil em todo o país - chamando-lhes bombeiros low cost; há cerca de seis dezenas de candidatos à escola de pastores que arranca este ano com cursos que tem a duração prevista de quatro meses; um estudo agora divulgado indica que a despesa pública nunca foi tão pouco produtiva, a actual legislatura é a menos amiga da economia desde que há estatísticas e Portugal é dos Estados europeus que menos investem no crescimento de longo prazo; apenas 2% dos estabelecimentos de ensino dispõem de desfibriladores automáticos; no Palácio de Justiça de Torres Novas quando as águas do rio Almonda sobem, o arquivo “fica inundado devido ao sistema de esgotos; no Porto, no Tribunal de São João Novo, caíu o tecto de uma sala de audiências e de um gabinete de juízes; na comarca de Aveiro foi necessário encerrar o WC dos funcionários no Tribunal de Castelo de Paiva para evitar escorrências para o piso inferior, ocupado pela conservatória do registo civil; um recente estudo da Marktest considera que cerca de um milhão de portugueses tenciona comprar automóvel nos próximos 12 meses, a maioria tenciona comprar um automóvel em segunda mão e quanto ao tipo de combustível, enquanto, em 2013, 70% dos que tencionavam comprar um automóvel optavam por um veículo a gasóleo, em 2019 essa opção baixa para 44.2% das intenções de compra e as opções pelos híbridos e elétricos são as que mais têm crescido nos últimos anos, ultrapassando já os 10%.



SINAIS DOS TEMPOS - Segundo a Cision, uma empresa de análise de informação, a greve dos motoristas teve uma cobertura noticiosa total de 205 horas de televisão, gerando 8241 notícias nos vários mídias. Pardal Henriques ocupou apenas 30% do espaço noticioso contra 46% da Antram. TV e internet foram responsáveis por 87% do espaço noticioso consagrado à greve, a imprensa 3% e a rádio 10%.

 

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DOCES TENTAÇÕES - Uma das novidades do verão lisboeta é o ambiente de ginásio criado na Sociedade Nacional de Belas Artes (Rua Barata Salgueiro 36). Até dia 30 de Agosto poderá ali ver o mais recente trabalho da artista plástica Ana Fonseca, “Master Baker”. Trata-se de uma paródia sobre a relação, que tantas vezes atormenta as pessoas, entre a comida e a forma física. O ginásio imaginário que Ana Fonseca criou tem peças como a que aqui se reproduz, intitulada “I like my dumbbell sweet #1”: uma barra de halteres, feita em  cimento, pó de mármore, farinha Maizena, pigmento, verniz, tinta de esmalte esmalte e aglutinante. O resultado é no mínimo apetitoso e é apenas uma pequena amostra daquilo que a exposição oferece aos sentidos. À disposição dos frequentadores deste ginásio especial há também copos de gelado, bolos e sobremesas diversas - doces tentações, aqui completamente incomestíveis mas que proporcionam uma boa reflexão sobre o conflito entre os prazeres da mesa, que dão uma satisfação imediata, e o exercício físico, que é um processo que exige trabalho consistente ao longo do tempo. O trabalho de Ana Fonseca pode ser visto até ao final de Agosto na SNBA, de segunda a sexta, das 12h às 19h e sábado das 14h às 20h. Termino com outra sugestão -  até 12 de Setembro, na Galeria das Salgadeiras, Rua da Atalaia 12, pode ver obras que sob o título genérico ATER incluem desenho e fotografia de Augusto Brázio, Cláudio Garrudo, Daniela Krtsch, João Dias, Jordi Burch, Maria Capelo, Rui Horta Pereira e Rui Soares Costa.

 

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O RITMO DO PIANO - Abdullah Ibrahim é um pianista e compositor de jazz sul africano que aos 84 anos continua a fazer bons discos - o mais recente chama-se “The Balance”, foi agora editado, e mereceu uma crítica muito elogiosa da revista norte-americana Downbeat. Ibrahim começou a tornar-se conhecido fora do seu país, de onde saíu em pleno apartheid no início dos anos 60 com o seu Dollar Brand Trio, que gravou sob os auspícios de  Duke Ellington. “The Balance” tem dez temas inéditos e conta com colaborações de peso. Abdullah Ibrahim está obviamente no piano,  Noah Jackson e Alec Dankworth no baixo, Will Terrill na bateria,  Cleave Guyton Jr. no saxofone alto e flauta, Lance Bryant, no sax tenor, Marshall McDonald também no saxofone,  Andrae Murchison no trombone e Adam Glasser na harmonica. “The Balance” percorre uma grande variedade de estilos e sonoridades - que vão quase desde a sensação de big band proporcionada pela secção de metais até ao temas que só aparece o piano, três ao todo, com destaque para “Tonegawa”. Outro tema, “Jubula” é um exemplo da capacidade rítmica dos músicos e do calor da sua execução. O disco termina com uma homenagem à mulher de Ibrahim, já falecida, a cantora Sathima Bea Benjamin que foi decisiva na carreira do músico. “The Balance” está disponível no Spotify.

 

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UM ESPIÃO ESPECIAL - Arturo Pérez-Reverte foi durante muitos anos um repórter de guerra que presenciou conflitos em todo o mundo. Quando se dedicou essencialmente à ficção colocou a Guerra Civil de Espanha como cenário de vários dos seus romances - e até escreveu um livro que conta o conflito espanhol aos jovens. Reverte escreve os romances como se de um policial se tratasse, criando um mistério, urdindo uma intriga, visitando por vezes, como agora acontece, acções de espionagem. No caso de “Sabotagem”, o seu novo romance agora editado em Portugal, é a terceira vez que centra a acção em Falcó, um operacional dos nacionalistas espanhóis usados para tarefas complicadas. É difícil falar de “Sabotagem” sem fazer um spoiler mas é inevitável dizer que o tema do livro é impedir que Picasso apresente a sua obra “Guernica” no Pavilhão da Espanha Republicana na Exposição Internacional de Artes e Técnicas, que se realizou em Paris em 1937. “Guernica” havia sido uma encomenda explícita do Governo Republicano para chamar a atenção para o massacre que ali ocorreu na sequência de um bombardeamento da Legião Condor, uma unidade militar da Alemanha nazi que apoiou os franquistas na Guerra Civil Espanhola. O quadro, bem o sabemos, existe e tornou-se numa das obras mais famosas de Picasso. Que se passou então nesta aventura de Falcó? O melhor é mesmo ler “Sabotagem”.

 

PETISCOS & VINHO - A Casa José Maria da Fonseca abriu há uns anos em Lisboa, no Chiado, o seu primeiro espaço de restauração - o By The Wine. A ideia é servir petiscos, alguns pratos mais elaborados e sobretudo dar a conhecer os vinhos que a José Maria da Fonseca produz em diversas regiões do país. Chegou este verão a vez de abrir novo By The Wine em Azeitão, no conjunto de edifícios que são a sede histórica da José Maria da Fonseca, em pleno centro da vila. Este novo By The Wine dispõe de uma ampla esplanada coberta e de dois espaços interiores, um que acaba por ser o prolongamento da esplanada e o outro, mais protegido, e que nos dias  frios será certamente mais procurado.  Em duas visitas constatou-se a boa qualidade da oferta.Nas entradas vou destacar uma invulgar e superior sopa fria de melão levemente temperada por moscatel da região. Mas deve ser também destacado o escabeche de perdiz numa receita do chef José Júlio Vintém e uma sanduíche de rosbife com mostarda e mel. Noutro género podem encontrar  um ceviche teriyaky, um bom carpaccio de novilho com pistachios, rúcula e parmesão e uns inesperados cogumelos à bulhão pato. Quem quiser tem várias tábuas de queijos e enchidos à disposição e nas coisas mais sérias José Júlio Vintém volta a destacar-se com umas bochechas de vitela estufadas em vinho tinto e, noutro registo, um polvo à Gomes de Sá com batata doce. Nos doces vale a pena provar o bolo de chocolate com gelado de lima e manjericão, temperado com sal marinho. Todos os vinhos da casa podem ser pedidos a copo e numa das ocasiões provou-se um belíssimo tinto Domini do Douro e na segunda vez o branco seco da Quinta de Camarate - e ambos se portaram muito bem. Rua José Augusto Coelho 1, telefone 212 191 366.

 

DIXIT - “As mais profundas convicções democráticas e liberais que marcaram o carácter do PS estão a sofrer uma erosão manifesta, causada pelo apetite de poder e pela influência ideológica do Bloco” - António Barreto 

 

BACK TO BASICS - “O nosso objectivo deve ser encontrar soluções simples para problemas complexos” -  escola de Bauhaus, há um século.

 

 

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O GOVERNO E AS REMUNERAÇÕES ENCAPOTADAS - António Costa é dos mais hábeis políticos que tem dirigido o país, consegue transformar crises em vantagens e o que se passou no caso da greve dos motoristas de matérias perigosas é um manual de como inverter a situação. António Costa jogou xadrez com o eleitorado e conquistou provavelmente posições nos eleitores do centro. Mas não encontro melhor olhar sobre o caso da greve do que estas palavras do advogado Fernando Delgado,  num belo post que escreveu no Facebook e que descreve de forma exemplar uma das questões deliberadamente escondidas pelas autoridades sobre a greve dos motoristas - o Governo optou por tolerar remunerações encapotadas. Aqui vai, com a devida vénia ao autor: “No meio do nevoeiro lançado pelo Governo, só há uma coisa em causa neste assunto ou não assunto. Os motoristas querem que o total que recebem (que não é pouco) pelo seu trabalho, seja considerado retribuição para efeitos fiscais e contributivos. Porque ganhar dois mil euros por mês e só descontar sobre o salário mínimo é muito bom para as empresas, que poupam bastante nos descontos para a Segurança Social e em IRS, mas penaliza os trabalhadores, quando têm de estar de baixa, em situação de desemprego ou para o cálculo da sua reforma. E penaliza directamente o Estado, que não recebe as contribuições devidas em impostos e descontos para a Segurança Social. Só o Governo tem a chave desta questão - e toda a gente omite isto, ai minha santa comunicação social -basta que obrigue as empresas a cumprir a lei. É esta estranha aliança de interesses entre um governo socialista calçado em sapatos comunistas e bloquistas e um patronato que continua a gerir as suas empresas com clara evasão fiscal, que me faz confusão.Ou não, porque realmente é mais fácil atirar as culpas para o motorista - esse tipo feio, bruto e analfabeto.”

 

SEMANADA - Este ano já deram entrada 6926 pedidos de equivalência de diplomas de ensino por alunos estrangeiros que querem continuar a estudar em Portugal, um aumento de 366% em relação ao ano passado; no final de 2018 existiam 16203 funcionários públicos com idade superior a 65 anos; no final deste ano cerca de 3500 médicos continuarão sem acesso à especialidade devido à falta de vagas nos internatos; ao longo da última década diminuíu o número de guardas e sargentos da GNR mas aumentou o número de oficiais; nos primeiros três meses deste ano foram decretadas 2757 insolvências, uma redução de 181 processos relativamente ao mesmo período do ano passado; a nova versão do Rei Leão, estreada em Portugal em meados de Julho, já está perto do milhão de espectadores nos cinemas nacionais, o que o coloca como o filme mais visto deste ano; o filme português mais visto foi SNU com cerca de 82 mil espectadores, muito acima dos cerca de 30 mil  até agora registados de “Tony”; o movimento dos coletes amarelos português anunciou a sua extinção; este ano 135 pessoas com idades entre os 16 e os 58 anos fizeram pedidos para alterar o nome e o género no Cartão de Cidadão. 

 

ARCO DA VELHA - O Governo recuou na decisão que tinha tomado em 2017 e decidiu manter a taxa de utilização de subsolo na fatura de gás.

 

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UM MUSEU MUSICAL- Volta e meia descubro qualquer coisa completamente inesperada. Desde há uns tempos que via cartazes publicitários na região de Setúbal e Palmela a anunciar o Museu da Música Mecânica, localizado no Pinhal Novo. Os dias menos solarentos deste Verão proporcionaram a ocasião para a visita. Primeira surpresa - o Museu é uma iniciativa completamente privada, instalado num moderno e atraente edifício projectado pelo arquitecto Miguel Marcelino. O edifício foi pensado para albergar a colecção de Luis Cangueiro, um empresário da área da publicidade de exterior que actua sobretudo na margem sul. A sua colecção engloba 200 anos de máquinas que produzem ou reproduzem música - desde realejos a instrumentos, passando por grafonolas, um exemplar do cilindro de Edisom que foi a primeira máquina de gravação de som, uma grande colecção de caixas de música e uma magnífica Juke Box Wurlitzer de 1947, que é a peça mais moderna de uma colecção que se estende por 200 anos. O Museu foi inaugurado em outubro de 2016 e a sua colecção é constituída por mais de 600 peças que produzem música e se movimentam por sistemas exclusivamente mecânicos, todos em estado de funcionamento e que foram produzidos entre finais do século XVIII e a década de 40 do século passado. A entrada custa 5 euros e o museu está aberto de terça a domingo das 14h30 às 18. O Museu de Música Mecânica tem recebido várias distinções da Associação Portuguesa de Museologia, um total de sete desde a abertura, entre eles um, recebido já este ano, pelo catálogo “O Maravilhoso Mundo da Música Mecânica”. O site do museu tem muita informação e  é acessível em museudamusicamecanica.com . 

 

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TV JAZZ - Jon Batiste é o pianista de serviço a dirigir o grupo de músicos que anima o “The Late Show With Steve Colbert” na estação de televisão norte-americana CBS. batiste é um dos mais conhecidos músicos de jazz contemporâneos graças à sua presença constante num programa de grande audiência. Na televisão americana é comum que os talk-shows da noite tenham uma banda residente e um director musical, simultaneamente líder dessa banda,, tocando ao vivo, em todas as emissões. Jon Batiste vem de uma família de músicos de Nova Orleães muito ligados à tradição musical local. No final da adolescência mudou-se para Nova Iorque e estudou numa das mais prestigiadas escolas de música, a Juilliard. Ao longo da sua carreira gravou com nomes como Wynton Marsalis e Bill Laswell e com a sua banda, Stay Human, que é aliás a formação que aparece no programa de televisão já referido. O seu novo álbum, “Anatomy Of Angels”, foi gravado ao vivo com os Stay Human, ao longo de oito concertos realizados no Village Vanguard um clube de jazz de Nova Iorque, no Outono de 2018. Com uma duração de 36 minutos e já disponível no Spotify, este “Anatomy Of Angels”, agora editado, e inclui cinco temas - três peças para trio (duas composições originais de Batiste e o clássico “The Very Thought Of You” de Ray Noble e duas faixas mais extensas, tocadas em octeto - “Round Midnight” de Thelonius Monk e o tema que dá título ao álbum, da autoria do próprio Jon Batiste. Com arranjos cuidados e uma interpretação criativa que por vezes junta diversas influências este álbum é uma excelente introdução ao trabalho de Jon Batiste, conseguindo combinar uma sonoridade clássica e uma execução completamente actual. 

 

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REFLEXÕES MONETÁRIAS - “Money makes the world go round”, cantava Liza Minnelli no filme “Cabaret”. E dinheiro é precisamente o tema do sexto número da revista trimestral “Electra”, editada pela Fundação EDP e dirigida por José Manuel dos Santos e António Guerreiro. Nove artigos desta “Electra” são sobre o tema do dinheiro - a sua relação com a guerra, com o poder, com a escrita, a arte, o luxo, os novos meios de pagamento, a dívida e até a loucura. Para além deste tema central, monetário, destaco um belíssimo artigo de Ulf Meyer sobre a Bauhaus, um portfolio de Edmund de Wald com imagens da sua exposição “Psalm” feita para a Bienal de Arte de Veneza deste ano. Neste portfolio, criado pelo autor expressamente para a “Electra”, fotografias da exposição surgem a par de um texto que percorre a memória, os livros, os objectos, os sentidos e os lugares. Um outro portfolio, deslumbrante, é o proposto por Álvaro Siza, “Paisagens de Papel”,  que através dos seus desenhos. regista um diário de uma viagem ao Peru. A figura entrevistada desta edição é o historiador A.J.P Taylor, autor de numerosos livros sobre a história contemporânea e que rapidamente se tornou numa estrela mediática graças ao sucesso das suas obras. Finalmente destaque ainda para a entrevista feita ao imunologista António Coutinho, director do Instituto Gulbenkian da Ciência, e sobretudo para a parte em que fala sobre as questões teóricas da filosofia da ciência e do processo científico e sobre uma política para a ciência. A terminar, um belo texto de João Pinharanda sobre uma exposição de Lourdes Castro em Paris.

 

A VER O RIO - Fundado em 1993 pelo hoteleiro Joaquim Machaz o Alfoz, em Alcochete, tem uma localização única, em cima do Tejo, frente à zona Oriental de Lisboa. Com duas salas rasgadas para o rio, o Alfoz tem uma tradição de servir peixe e marisco da melhor qualidade. Ao longo dos tempos tem tido altos e baixos e numa recente visita comprovei que está em grande forma. Comecemos pelo couvert, simples, com bom pão e boa broa, azeitonas honestas e uma pasta de atum caseira temperada a alcaparras que está muito acima do que sob esse nome se costuma encontrar por aí. Nas propostas de entradas destacam-se as cada vez mais raras pontellitas, pequeníssimas lulas fritas, bem estaladiças. No menu há pratos emblemáticos da casa como cataplana do mar, caldeirada de línguas de bacalhau com ovo escalfado ou caldeirada de enguias. A escolha da refeição recaíu numa massada de garoupa e em filetes de peixe galo com arroz do rio. A massada estava superior, com a massa de cotovelos ao ponto, tempero acertado, presença abundante de garoupa e de bons camarões. Os filetes de peixe galo tinham uma fritura exemplar e o arroz, caldoso q.b, estava farto de berbigão. Até a salada que veio a pedido estava boa. A terminar o teste final - como está o melão? - Muito bom, foi a resposta. E de facto estava acima da média. Em muitos locais louvam o melão sem merecimento - aqui foi um conselho acertado. Lista de vinhos sem grandes surpresas mas com boa variedade a preços razoáveis. Bom serviço. Boa comida, bem confeccionada. E uma grande vista, numa zona bem tranquila. Esperemos que não se estrague com os aviões no Montijo. Alfoz, Avenida D. Manuel I, Alcochete, telefone 212 340 668. Tem parque de estacionamento. 

 

DIXIT - “Greves,sim senhor- mas não quando o PS está aí beira de uma maioria absoluta e o país inteiro fica subitamente impedido de andar de pópó” - João Miguel Tavares 

 

BACK TO BASICS - “Todos os movimentos acabam por ir longe demais” - Bertrand Russell

 




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