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A PRAGA AGORA PODE SER POLÍTICA

por falcao, em 22.05.20

 

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A ERVA DANINHA - O período mais complicado da pandemia começou agora, com o reabrir dos locais e das actividades após dois meses de um quase total encerramento. Os dois meses foram fundamentais para manter os indicadores em níveis baixos, para permitir que o Serviço Nacional de Saúde funcionasse sem sobrecarga demasiada e para que equipamentos de tratamento e de protecção chegassem nas quantidades necessárias. Durante dois meses houve uma trégua política assumida por todos - e manda a verdade que se diga que, no geral, o Governo fez bom trabalho. Vamos ver agora se o sistema está preparado para absorver os efeitos do desconfinamento - social e político. De qualquer forma a trégua política chegou ao fim e as tempestades já se desenham sob o pretexto das eleições presidenciais. António Costa tentou iludir a questão atirando o Congresso do PS para depois do acto eleitoral que sufragará Marcelo Rebelo de Sousa, na presunção de que ele quebra o tabu e se recandidata. A coabitação entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro inquieta à esquerda e à direita. Ana Gomes e Manuel Alegre já abriram hostilidades do lado do PS, assim como Alberto João Jardim e Miguel Albuquerque, do lado do PSD. Há poucos dias António Costa anunciou que o bloco central não estava nos seus planos, referindo-se a algum entendimento com Rui Rio. Mas, na prática, aquilo a que estamos a assistir é a uma nova forma de aliança, entre pessoas de quadrantes diferentes, ambas em lugares decisivos para o país: o novo compromisso histórico não vai ser o bloco central partidário, tudo indica que será entre o Presidente da República e o Primeiro Ministro. Ambos vão concentrar um poder conjunto inédito em Portugal. No horizonte estão, vindos daqui e dali da área do Poder, sinais de vontade de manter um autoritarismo e um controlo governamental que nasceu no Estado de Emergência e que, agora, dá sinais de querer continuar e, no desejo de alguns, florescer - incentivado aliás por todos os que, desesperados com os efeitos do encerramento geral de actividades no confinamento, se viram para o Estado como a solução de todos os problemas. Está criado o terreno para o Governo aparecer como o salvador. Sem poder equilibrado por um contra-poder essa erva daninha que é o abuso de autoridade poderá tornar-se uma praga, adubada por um compromisso histórico. Esse é o problema maior com que nos defrontamos a nível político.

 

SEMANADA - Um inquérito recente mostra que em Portugal, aos 15 anos, só 10% dos alunos gostam muito da escola mas em 1998 o número era de 29%; durante o período de estado de emergência foram efectuados 348 casamentos; nos hospitais não foram efectuadas nove mil cirurgias programadas durante o estado de emergência; em comparação com o mesmo período do ano passado realizaram-se menos 181 mil consultas hospitalares no período do estado de emergência; a pandemia obrigou a reescrever os guiões das telenovelas que voltaram a ser gravadas, mas sem cenas de beijos e de intimidade; foi descoberta uma estufa de cultivo de canábis, com uma tonelada da substância, dentro de um armazém na Maia que anteriormente era uma lavandaria; a crise da pandemia afectou 40% da força de trabalho em Portugal; o número de desempregados subiu 22,1% em Abril; 7500 microempresas pediram apoios para reabrir portas; um estudo recente indica que nos testes de diagnóstico a Covid-19 cerca de 11% dos infectados apresentam resultados negativos; danos colaterais: segundo o Centro de Informação Antivenenos do INEM, os casos de exposição indevida a lixívia em março e abril mais do que duplicaram e o número de acidentes com desinfetantes das mãos foi oito vezes superior ao do ano passado; O mercado europeu de automóveis caiu 76,3% em abril, em comparação com mesmo mês em 2019 e em Portugal, queda atinge 84,6%: o consumo de gasóleo em Portugal no mês de Abril caíu 45% e o da gasolina cerca de 60%.



ARCO DA VELHA -  O Tribunal da Relação de Évora absolveu um pai condenado por violar a filha menor, considerando que esta tinha mentido, e criticou aqueles que acreditam nos relatos de agressões das vítimas de crimes sexuais e de violência doméstica, ao mesmo tempo que ironizou sobre as lesões atestadas por médicos.

 

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REABRIU A ARTE - Esta semana grande parte das galerias privadas de arte contemporânea começaram a reabrir, algumas delas com exposições que estavam prontas e montadas e que não foram visitadas porque tudo coincidiu com as medidas de confinamento. As visitas são em horários mais reduzidos e com marcação, mas nos sites das galerias e nalguns casos no respectivo facebook é possível agendar o que se pretende ver. Eu tenho saudades de voltar a ver obras de arte sem ser no ecrã do computador em visitas virtuais. Por falar nisso esta semana a ARCO LISBOA abriu, desta vez não na cordoaria, mas de forma virtual, até 14 de Junho, em www.ifema.es/pt/arco-lisboa . Na próxima semana relatarei a visita que vou fazer mas desde já digo que a secção sobre arte africana me despertou a curiosidade. E esta semana foi também marcada pela reabertura de Museus, destacando-se a inauguração de uma apresentação de desenhos de Julião Sarmento no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa (na imagem) . Sob a designação “A Linha Que Fecha Também Abre”, Julião Sarmento apresenta cinco desenhos que dialogam com obras da colecção do museu, nomeadamente do desenho florentino do Renascimento e suas extensões ibéricas, obras da autoria ou atribuídas a Baccio Bandinelli, Luca Cambiaso, Corregio, Pontormo e Francisco Venegas. A exposição deste diálogo entre épocas, comissariada por João Pinharanda,  decorre na Sala do Tecto Pintado do MNAA até 26 de Julho. Finalmente, para sairmos de Lisboa, na Quinta da Cruz - Centro de Arte Contemporânea de Viseu, as portas reabriram com a exposição “I Dreamt Your House was a Line”, de Pedro Cabrita Reis.

 

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O BELO SOM DO  BANJO - Desde já aviso que só vale a pena continuar a ler estas linhas se gostar das sonoridades creoulas de Nova Orleães e de banjo. Eu gosto, de maneira que me deliciei com “The Blue Book Of Storyville”, de Dan Vappie, personagem exuberante, exímio tocador de banjo, vocalista cheio de tiques locais, ao lado dos Jazz Creóle, um trio constituído para esta ocasião e que integra  de Dave Kelbie na guitarra (e produção), Sebastien Girardot no baixo e David Horniblow no clarinete. Cabe aqui recordar que a tradição musical de Nova Orleães está ligada ao nascimento e crescimento do jazz. Neste disco estão canções creoulas originais (algumas no tradicional francês da região), standards de jazz e alguns originais do próprio Vappie, cuja educação musical vem aliás do jazz - começou pela guitarra e o baixo e só depois se dedicou ao banjo, muito influenciado por um dos grandes músicos dos anos 40 de Danny Baker, um dos históricos tocadores de banjo e contadores de canções de Nova Orleães. Dan Vappie pesquisou para este disco a música cajun, inspirações do Caribe, canções tradicionais, temas popularizados por Louis Armstrong ou Sidney Bechet, por exemplo. É difícil destacar um tema de entre os 17 deste disco mas o meu preferido é “Buddy Bolden’s Blues”. Vappie mostra bem a importância do banjo na música de Nova Orleães e a sua importância, muitas vezes esquecida, no jazz. “The Blue Book Of Storyville” está disponível no Spotify.

 

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HISTÓRIAS DE UMA TORRE - Dia 26 de Maio, terça-feira da próxima semana, assinala-se o centenário do nascimento de Ruben Andresen Leitão, que ficou conhecido pela assinatura literária que escolheu - Ruben A. Nesse mesmo dia vai ficar disponível nas livrarias a nova edição de uma das suas obras mais importantes, “A Torre de Barbela”, a visão pessoal de Ruben A. da evolução de Portugal desde a sua fundação.  Escrito em forma de romance que nasce no Minho, na margem esquerda do Rio Lima, numa antiga torre de vigia que, reza a História, data da fundação da nacionalidade e que é a única torre triangular de toda a Península Ibérica. O local, a Torre de Barbela, é o ponto de partida para uma viagem a oito séculos de História através de personagens fantásticas que Ruben A. criou. O romance foi premiado em 1965 pela Academia de Ciências de Lisboa com o prémio Ricardo Malheiros. Publicado na Colecção Miniatura dos Livros do Brasil. A evocação do centenário do nascimento do escritor, de que esta edição faz parte, terá continuidade com as reedições de mais duas obras, “O Mundo À Minha Procura” e “Silêncio para 4”, pela Assírio & Alvim, no segundo semestre. Ruben Andresen Leitão nasceu em 1920, estreou-se em 1949 com “Páginas”, um misto de diário e ficção e dedicou a sua vida ao ensino da Língua e Cultura Portuguesas em universidades do Reino Unido, nomeadamente em Londres e, depois em Oxford.



O REGRESSO ÀS MESAS DE RESTAURANTES - Esta semana regressei aos restaurantes que gosto de frequentar no dia a dia. Num deles procurei uma coisa trivial, mas que ali corre sempre muito bem: um meio bife do lombo, grelhado na brasa, acompanhado por batatas fritas aos palitos absolutamente impecáveis. Ao contrário do que muitos pensam é preciso arte para isto correr bem: a carne tem que ser boa, a grelha tem que estar no ponto para vir mal passado e as batatas fritas não podem ser das congeladas nem das moles e espapaçadas - devem estar estaladiças por fora, sem ficarem queimadas. É assim que as coisas se passam na cervejaria Valbom, que nestes dias tem a vantagem de ter uma boa esplanada (Avenida Conde Valbom 114, telefone 217 970 410). E além do bife tem muito por onde escolher em matéria de cozinha portuguesa, como filetes de polvo com arroz de grelos por exemplo. O outro regresso foi ao melhor bacalhau à Braz que conheço - leve, ovos no ponto, húmidos, bacalhau de boa qualidade, tempero acertado. Nesse dia na ementa havia uma outra especialidade da casa que me deixou na dúvida - pastéis de massa tenra, mas venceu o bacalhau e não me arrependi. O local destas confecções é O Apuradinho, na Rua de Campolide 209, telefone 213 880 501). E, embora agora apeteça voltar a uma sala de restaurante, rever conhecidos e estar à cavaqueira com amigos, se quiser em qualquer destes locais pode fazer uma encomenda para levar para casa.

 

DIXIT - “O PS não pode tratar os militantes como parvos (...) o PS não é o partido do Costa” - Ana Gomes

 

BACK TO BASICS - “É muito perigoso querer estar certo quando um Governo está errado” - Voltaire

 

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O QUE FAZER COM ESTA EUROPA?

por falcao, em 15.05.20

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RECONSTRUIR O FUTURO - O acto fundador da União Europeia foi há 70 anos. Sete décadas depois, e no meio de uma das maiores crises da História recente da Europa, não se vê união - mas sente-se a existência de obstáculos, burocracias e, infelizmente, de muitos egoísmos nacionais.  Quando se olha para a Europa observa-se o entendimento cordial entre a França e Alemanha, construído a calcar os interesses e aspirações de outros países em nome do seu mútuo benefício, e sente-se o agudizar de divisões entre o norte e o sul. Em nome das normas europeias sectores vitais para Portugal como a agricultura e a pesca foram primeiro reduzidos e depois quase eliminados. A indústria foi pelo mesmo caminho. Os fundos europeus foram a justificação para destruir a produção portuguesa em várias áreas e tiveram o seu papel na corrupção do aparelho de Estado. Ficámos com auto estradas construídas e  com o sistema ferroviário destruído. Passámos a importar muito do que antes produzíamos. E, no fim, o turismo foi a cereja no topo do bolo: passámos a exportador de ilusões. O resultado está à vista. Para assegurarmos o futuro temos que reconstruir parte do nosso melhor passado e incorporar nele a capacidade de investigação científica e de desenvolvimento tecnológico de que entretanto começámos a dar provas. Seremos capazes de apostar no nosso desenvolvimento e recuperar agricultura, pesca e indústria ao mesmo tempo que desenvolvemos um sector de serviços baseado no conhecimento e na tecnologia e não apenas no sol, praia e paisagem? 

 

SEMANADA - Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa prepararam a nova viagem de ambos nas instalações da Auto Europa em Palmela; Centeno levou cartão amarelo por fora de jogo no caso do Novo Banco; Rui Rio equiparou a comunicação social a fábricas de calçado ou mobiliário; até Março foram registadas menos 71 mil transacções de imóveis; segundo uma sondagem da Marktest, 74% dos portugueses admitem optar no futuro por fazerem essencialmente compras no comércio de rua, tradicional; quanto às deslocações, a grande maioria considera que vai optar pela utilização de transporte privado e na média nacional apenas 16% aponta para a utilização dos transportes públicos, com um número ligeiramente superior, 22%, nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto; a Deco recebeu 3.600 pedidos de ajuda entre 18 de Março e 11 de Maio por parte de famílias em dificuldades financeiras devido à redução de rendimentos;  Mário Centeno admite que a receita do Estado em 2020 pode cair perto de 10 mil milhões de euros, um cenário mais pessimista que o estimado por Bruxelas; segundo a Escola Nacional de Saúde Pública os concelhos com maior taxa de desemprego e maiores desigualdades de rendimentos são aqueles que têm maior número acumulado de casos de covid-19; Portugal é um dos seis países do euro que menos impulso orçamental vai dar à recuperação da economia; mais de 79% das empresas portuguesas tiveram uma redução no volume de negócios desde o início da pandemia.

 

ASSIM VAI PORTUGAL - Um estudo da Marktest indica que durante o mês de Abril Cristiano Ronaldo continuou a ser o português que registou maior número de menções nas redes sociais, o primeiro ministro António Costa, ficou na segunda posição da tabela e a apresentadora da SIC, Cristina Ferreira manteve o terceiro lugar.

 

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GUITARRADA - Blake Mills é um produtor premiado pelo seu trabalho com nomes como Laura Marling ou John Legend. É, além disso, um guitarrista criativo, um compositor dedicado a fazer canções simples e marcantes, e um cantor com um registo de voz invulgar. “Mutable Set”, agora editado, é o seu quarto disco. Tocou ao lado de Fiona Apple e ao longo dos seus 20 anos de carreira construíu a reputação de ser um músico inventivo a quem se podia recorrer para assegurar arranjos inesperados e uma musicalidade que outros não conseguem criar. A ele, sai-lhe naturalmente, quer quando produz canções de outros, quer quando as faz para si próprio, como neste disco. A forma como toca guitarra e trabalha o seu som, é surpreendente - por vezes com recurso a guitarra sintetizada. Se as suas origens estão no country rock, o seu presente é marcado pelo desejo de descoberta e afirmação de um estilo próprio. As canções deste disco, muitas feitas em parceria com  Cass McCombs nas letras, como “Never Forever” ou “My Dear One”, têm todas uma sonoridade e uma produção exemplares, baseada em guitarra, piano e saxofone. Essa produção, meticulosamente trabalhada, é particularmente saliente em “Vanishing Twin”, onde todo o seu talento enquanto guitarrista mais se mostra - de uma forma elegante mesmo nos momentos mais exuberantes. A voz de Blake Mills é discreta, muitas vezes imagina-se que está a sussurrar ao ouvido de alguém, como por exemplo em “May Later”. Os sete minutos de “Money Is The One True God”, uma evocação da tempestade económica que marca os dias de hoje, é daquelas canções que vai ficar na memória. E, quase de certeza, na História. Disponível no Spotify.

 

NewsMuseumLiberdadeImprensa.jpgAPRENDER A VIVER AS NOTÍCIAS - Localizado em Sintra, o NewsMuseum é um equipamento único vocacionado para dar a descobrir o mundo dos media, com incursões na história do jornalismo e da comunicação. Uma das suas componentes importantes é o serviço educativo, vocacionado para proporcionar aos alunos de diversos graus de ensino uma percepção de como se fazem as notícias. Para se integrar na realidade escolar criada pela pandemia, o Newsmuseum  vai realizar visitas guiadas e interativas para as escolas através de videoconferência. NewsMuseum @Zoom para Escolas é um programa de e-learning já disponível, ainda a tempo de integrar o plano de aulas do 3.º período escolar, no registo #EstudoEmCasa. É a própria coordenadora dos Serviços Educativos, Elsa Luís, quem recebe os visitantes em Zoom e os conduz numa visita interativa pelas grandes narrativas que marcaram Portugal e o Mundo nos últimos 120 anos. Os alunos podem ainda experimentar algumas simulações de reportagem e no final podem fazer um jogo que consiste em criar uma primeira página de jornal. As visitas serão adaptadas aos diferentes níveis de ensino, desde o 5.º ao 12.º ano. Mais informações e agendamentos através do e-mail info@newsmuseum.pt.. Aberto desde 25 de Abril de 2016, o Newsmuseu fica localizado na Rua Visconde de Monserrate, no Centro de Sintra. 

 

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VOANDO NO DESERTO - “O Principezinho” foi escrito e ilustrado por Antoine de Saint-Exupéry, um aviador francês que estava exilado nos Estados Unidos, país onde o livro foi primeiro publicado em 1943.  É uma das obras mais editadas e traduzidas em todo o mundo, existindo mais de 200 edições em outros tantos idiomas e dialectos. O livro tem uma forte componente autobiográfica baseada naquilo que o próprio Saint-Exupéry viveu quando o seu avião caiu no deserto do Saara. À primeira vista, é uma história muito simples: um principezinho fala com um aviador em apuros e cativa-o. O principezinho é uma criança, um menino apenas. Com a sua imaginação e poesia cativa o aviador, e ambos andam, no deserto, à procura de alguma coisa: no fim, a busca deles é o espelho da nossa procura diária de um sentido para a vida. Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon, no começo do século XX, a 29 de Junho de 1900. Morreu no céu, quando o seu avião foi atingido por um atirador alemão, durante a II Guerra Mundial, em 1944. Era piloto de aviões, mas a sua imaginação voava sozinha, criava romances, poemas, reportagens, fazia desenhos que ilustram o que escrevia, como se vê  nas páginas deste “O Principezinho”. O que esta edição tem de especial é um texto do editor, Manuel S. Fonseca, no final, com 16 perguntas. Num livro para crianças a primeira das perguntas é dirigida a adultos: ”quando foi a primeira vez que se lembrou que também já foi uma criança?”. E, mais à frente, outra para os adultos: “qual foi a sua última aventura?”. São duas questões que nos podem pôr a pensar. As outras perguntas, bem mais simples, são destinadas às crianças, os jovens leitores a quem Saint-Exupéry dedicou o livro, os textos e os desenhos. Edição Guerra e Paz na colecção Correio da Manhã.

 

O FEIJÃO FORA DA LATA - Na minha redescoberta dos vendedores e dos pequenos mercados de freguesia redescobri a existência de feijão de várias espécies fora das latas onde vem embalado. Um dia destes trouxe um pequeno saco de feijão frade seco para casa e perguntei se havia conhecimento para tratar do assunto. Que sim, que havia, foi a resposta recebida. E vai daí, pela primeira vez em muitos anos, comi feijão frade demolhado de véspera e cozido na hora, ao mesmo tempo que meio chouriço alentejano cortado às rodelas, com tempero ao gosto. Assisti à preparação, lançando umas piadas pelo meio sobre a complexidade do know how envolvido na operação (muito para além de escorrer a leguminosa de uma lata de abertura rápida). O resultado foi um sabor diferente, uma textura melhor. Regado com bom azeite e salpicado de salsa fresca, também do mercado, foi o acompanhamento de um entrecosto cozido na mesma água que banhou feijão e chouriço. O entrecosto veio do talho do mesmo mercado, onde durante todo este tempo não houve filas e onde a qualidade dos produtos sempre me surpreendeu. A rematar vieram uns morangos, também produzidos na região, e comprados ao produtor no próprio dia em que foram colhidos - toda uma outra história em relação aos que vêm importados de Espanha ainda meio verdes e que andam nos supermercados. Nestes dois meses de isolamento aprendi a comprar produtos alimentares de outra forma, a preparar os ingredientes naturais, a cozinhar mais devagar. E tudo isto sem gastar mais tempo e a despender menos dinheiro que se fizesse as coisas de outra forma. Esta é uma das lições que me fica de dois meses à descoberta de outra maneira de viver o quotidiano, conciliando trabalho profissional com ocupações pessoais e chegando ao fim de cada dia com mais coisas feitas, menos stress e mais contente por contribuir para ajudar o comércio local.

 

DIXIT- “Há uma diferença radical entre cada um de nós ter um campo ideológico com o qual se identifica ou ter um clube ideológico com o qual tem de se identificar” - João Miguel Tavares.

 

BACK TO BASICS - “Nunca ouvi música criada pelo Diabo” - Little Richard.

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PARADOXOS DO PODER - Ainda durante o Estado de Emergência o Presidente da República e o Primeiro Ministro resolveram deixar a abordagem científica do combate à pandemia, trocando-a pela abordagem política às boas relações com o PCP e a conquista de boas vontades para os próximos orçamentos e actos eleitorais. A coisa consubstanciou-se em torno das evocações do Primeiro de Maio, com a coreografia montada pela CGTP que, de mãos dadas com os comunistas, bem pressionou as duas figuras acima referidas para terem direito à excepção das medidas preventivas. A pressão foi protagonizada pela nova líder da CGTP, Isabel Camarinha, uma sindicalista vinda do sector dos serviços e que se mostra adepta da linha dura de confronto. É curioso notar que , de acordo com os últimos números conhecidos no meio da nuvem de mistério que habitualmente rodeia as estatísticas sobre sindicalizados, a CGTP representará cerca de 550 mil trabalhadores e a UGT uns 480 mil - quase empatadas, portanto. No seu recente congresso a CGTP anunciou novos inscritos, mas evitou dar números de abandonos e total de filiados. É também interessante notar que administração pública, sector de escritórios e serviços , professores e saúde são as áreas que contribuem com maior número de sindicalizados da CGTP - e a dosagem da paz social nestes sectores é a moeda de troca nestas negociações. Para termos uma ideia de conjunto um estudo recente aponta que nas últimas quatro décadas o número de sindicalizados caiu de 60,8% para 15,7% da força de trabalho. E sendo o total de sindicalizados nas duas maiores centrais pouco superior a um milhão, convém recordar que a população activa, nas estatísticas mais recentes, é de cerca de 5,2 milhões. Traduzindo por miúdos: já que UGT se demarcou dos festejos da CGTP, a realidade é que em nome de  dez por cento da população activa Isabel Camarinha e Jerónimo de Sousa conseguiram levar Presidência e Governo a permitir uma violação às medidas de contenção da pandemia. E agora a líder sindical queixa-se, face às reacções que surgiram, de estar a ser perseguida. Isto não é o mundo ao contrário?

 

SEMANADA - No prazo anunciado pelo Governo para o pagamento das primeiras comparticipações ao “lay-off” muitas empresas ainda não receberam um cêntimo do Estado e multiplicam-se denúncias sobre a dificuldade em obter respostas da Segurança Social; Bruxelas continua sem data para anunciar plano de recuperação económica; os profissionais do sector da cultura contam perder mais de 50% do seu rendimento; o Banco de Portugal estima em 8,2% a perda de rendimento  das famílias portuguesas; em relação ao mesmo mês do ano passado caíu para metade o número de vacinas administradas em Abril; na Europa já foram detectados 6000 casos de sarampo por falta de vacinação; a PSP e a GNR receberam 4111 queixas desde o início do ano por golpes com MB Way; as empresas de mídia ouvidas pelo Presidente da República disseram que os apoios estatais são bem vindos, mas sublinharam que os anunciados até agora são insuficientes; um estudo de cinco universidades portuguesas mostra que 45% das pessoas que eram fisicamente inactivas antes da pandemia iniciaram a prática de alguma actividade física durante o período de confinamento; segundo uma sondagem recente da Marktest, 14% dos jovens portugueses não consomem nenhuma peça de fruta por dia; as receitas dos casinos virtuais subiram 58% em comparação com o primeiro trimestre do ano passado.

 

ARCO DA VELHA - Um empresário espanhol colocou uma placa com a inscrição “zona de quarentena Covid-19” para evitar que as pessoas de uma aldeia alentejana circulassem por um caminho municipal que atravessa uma propriedade de que é arrendatário.

 

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ARTE DIGITAL - MAAT modo digital é uma iniciativa do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, que propõe uma programação semanal divulgada através do seu site, do Instagram e do YouTube. “Prova de Artista” é uma rubrica publicada na conta do MAAT no Instagram, onde todas as segundas-feiras, durante o maat Mode Digital, é apresentado um artista representado na Coleção de Arte Portuguesa Fundação EDP para dar aos seus seguidores a oportunidade de conhecer melhor os artistas, as suas ferramentas favoritas, as suas inspirações ou até a recomendação de um livro. José Barrias foi o primeiro convidado e confessa que o lápis é a sua ferramenta de trabalho preferida, fala dos dois livros em que está a trabalhar e o livro que sugere é Salto di scala de Ruggero Pierantoni. Na rubrica “Património Energético”, que pode ser vista no site, está uma exposição virtual de cartazes e folhetos sobre o papel da mulher na publicidade aos electrodomésticos nos anos de 1930 a 1950. A programação completa pode ser seguida por exemplo no Instagram na zona onde está a imagem aqui reproduzida - ideias para todos os dias de segunda a Domingo. 

 

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BRITPOP - Ed O’Brien, um dos guitarristas dos Radiohead, lançou o seu primeiro álbum a solo, “Earth”. Muito menos conhecido que outros membros da banda, como Jonny Greenwood ou Thom Yorke, O’Brien optou nesta sua estreia por recuperar algumas das sonoridades que tornaram os Radiohead conhecidos na segunda metade dos anos 80 do século passado. Ao contrário das experiências de outros membros da banda, nomeadamente Yorke, Ed O’Brien, EOB para os fãs, mantém-se fiel às origens e é em torno da sua guitarra que desenvolve este disco - embora o uso da electrónica seja também abundante. Há, se quisermos, duas faixas de referência desta sonoridade, “Brasil” e “Olympic”, ambas a excederem os oito minutos de duração, ambas mais ambientais, calmas, com mais sintetizadores. Depois há faixas mais cruas, como “Deep Days”, onde proclama  “we are the people on the edge of the night”. “Long Time Coming”, onde a guitarra acústica de EOB está em destaque, é outra das canções a merecer atenção. Talvez o ponto alto seja a faixa de encerramento do álbum, “Cloak On The Night”, onde a guitarra acústica se junta à voz de Laura Marling. Esta estreia a solo de EOB é no fundo um disco eclético, que oscila entre o regresso ao britpop que fez os Radiohead célebres e momentos confessionais do autor, aqui acompanhado por um elenco de luxo:a produção é de Flood e nas diversas faixas participam Adrian Utley dos Portishead, Glenn Kotche dos Wilco, e como acima se referiu, Laura Marling. É tão eclético e fora do seu tempo que acaba por ser engraçado.  “Earth” está disponível no Spotify.

 

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CONSELHOS PARA A CRISE - Uma das publicações especiais do grupo “Monocle” é a revista “Entrepreneurs”, um derivado nascido de uma rubrica da radio online Monocle24. A edição que foi agora lançada é dedicada a formas de repensar, ajustar e defender os negócios dos pequenos e médios empresários no contexto da crise gerada pela pandemia. A capa, aqui reproduzida, evoca um canivete suíço com a multiplicidade de ferramentas que tem para resolver os vários problemas - e é isto que a revista se propõe através de um conjunto de ideias, reportagens e artigos de opinião. Esta “Entrepreneurs” dá especial enfoque a alguns empreendedores que estão a recuperar marcas tradicionais, adquirindo a posição dos antigos proprietários. Além disso são mostrados casos de sucesso, sugestões de alguns sectores que podem ser boas possibilidades de investimento;  conselhos de comunicação, externa e interna e de trabalho em equipa estão também presentes. Pequenos negócios em localizações inesperadas e empresas apostadas no aproveitamento de tecnologia estão entre os numerosos casos referidos ao longo de toda esta edição. As últimas páginas são dedicadas a lições que devem ser retidas desta crise - 25 ideias fortes, que vão desde as vantagens de ter uma empresa ágil até à importância do comércio local na defesa da qualidade de vida nas cidades, passando pela mais valia dos contactos cara a cara ou da defesa da privacidade. E o jogo sugerido como bom exercício para resolver problemas, qual é? O Xadrez, claro. Vai uma partida?

 

A SALVAÇÃO ATRAVÉS DA MASSA - Uma das receitas garantidas para a junção de um cozinhado rápido com uma refeição saborosa consiste na combinação de massa com legumes. A primeira questão é escolher o formato da massa, entre as várias marcas de boa qualidade que existem no mercado. Eu normalmente oscilo entre fusilli ou farfalle (espirais ou lacinhos). Estes são os dois formatos que penso que captam melhor o sabor do cozinhado. Há várias possibilidades de legumes - as minhas duas opções favoritas são courgettes e beringelas aos cubos com tomate cherry cortado ao meio e, noutro plano, farfalle com flor de bróculo (a que gosto de juntar dois ou três filetes de anchova de conserva esmagados). Recomendo que salteiem os legumes com um pouco de azeite. Normalmente começo por colocar três ou quatro lâminas de gengibre fresco a aquecer com o azeite e depois lanço os legumes, que tempero com sal a gosto, pimenta negra moída na altura, gengibre em pó e cebolinho fresco picado. Enquanto os legumes estão a ser preparados deito a massa escolhida em água abundante já a ferver, temperada com sal, e deixo-a cozer até dois-três minutos antes do tempo recomendado. Quase no fim retiro o equivalente a um copo da água da cozedura da massa, que reservo. Escorrida a massa, coloco-a directamente com os legumes, mexo tudo bem e vou adicionando a água da cozedura aos poucos para permitir melhor ligação - e por vezes deito também mais um fio de azeite. No caso do farfalle com brócolos, prefiro usar os broccolini, os pequenos brócolos, usando apenas as flores e retirando quase todo o caule. Se fôr o caso, antes de juntar os farfalle mal cozidos, coloco as anchovas esmagadas, envolvo bem nos brocccolini e depois adiciono a massa misturando tudo bem. O segredo é sempre deixar a massa envolver-se no sabor daquilo com que é misturada.

 

DIXIT - “O mesmo Governo que acede a festejos do Dia do Trabalhador acumula atrasos nos pagamentos das situações de layoff, que deixam dezenas de milhar na penúria” - Paulo Rangel

 

BACK TO BASICS - “A felicidade é essencialmente a combinação de ter boa saúde e má memória” - Albert Schweitzer

 

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PRÓXIMO FUTURO - Cada vez que temos uma crise vem à baila o problema da nossa dimensão. Foi uma coisa que sempre me fez alguma impressão quando olhava para outros países europeus e comparava connosco. E, quando olhei para a nossa História, e percebi que há uns séculos tínhamos sido precursores da globalização, fiquei ainda mais convencido de que, se um dia descobrimos rotas novas, adequadas aos tempos presentes, podemos voltar a descobrir um caminho. Os descobrimentos foram a nossa via de expansão. Hoje em dia, quando a globalização está em retrocesso, podemos ser os beneficiários de, pelo menos, segmentos da desglobalização. Isto aplica-se à indústria, onde temos produção de excelência em várias áreas, e tendo em conta o posicionamento da nossa localização em termos de logística comercial. Se temos uma posição geo estratégica relevante em termos políticos e militares, só temos que criar condições para que isso reverta de forma positiva noutras áreas, nomeadamente na economia. Tal como há séculos a nossa via de expansão vai passar pela nossa capacidade, de descoberta e investigação. Estes tempos muito recentes mostram que temos conhecimento e pessoas que conseguem avançar, em diversas áreas, desde a investigação biomédica até ao desenvolvimento tecnológico. As decisões e medidas para conseguirmos este próximo futuro é que serão a pedra de toque da capacidade política de quem nos governa. Na política o que interessa é o que se faz, não o que se promete.

 

SEMANADA - Cerca de 150 mil famílias já têm sérios problemas para comprar comida e pedem assistência a várias instituições; desde o início da pandemia de covid-19 já chegaram ao Banco Alimentar mais de 11.600 pedidos de ajuda de agregados familiares;  a Segurança Social já analisou cerca de 62 mil pedidos de lay-off, mas, até agora, só 62% das candidaturas têm condições para serem aprovadas e, das 38 mil empresas que viram o seu processo viabilizado, 88% preferiram parar totalmente a atividade e só 12% preferiram reduzir o horário aos trabalhadores;  desde o início das medidas de confinamento as autoridades das fronteiras já impediram a entrada em Portugal de 1852 pessoas; na Alemanha é obrigatório o uso de máscaras nos transportes públicos e lojas e as multas por desobediência atingem os dez mil euros; de acordo com a Direcção Geral de Saúde, até agora, o excesso de mortalidade foi de mais 307 óbitos comparativamente com a média dos últimos cinco anos; segundo o barómetro de opinião Covid-19 da Marktest, os portugueses dedicaram uma média diária de 5h54m ao teletrabalho, 4h29m a ver TV, aceder à Internet ou ouvir rádio e 3h13m a estudar; ainda segundo a Marktest 76% dos portugueses consideram que o uso de máscara fora de casa deveria ser obrigatório, mas apenas 47% dispõem delas; finalmente a mesma sondagem indica que ser contaminado, continua a ser o maior receio dos portugueses, logo seguido dos receios de falência da economia nacional e com o aumento do desemprego; em março registaram-se mais 53 mil desempregados que no mesmo mês do ano passado, um aumento de 34%.



ARCO DA VELHA - O Supremo Tribunal de Justiça reduziu e suspendeu a pena de prisão aplicada a um homem de 55 anos, que abusou sexualmente de duas meninas de seis e nove anos, filhas de militares do Exército.

 

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O ESTILO PARR - Martin Parr é um dos mais conhecidos fotógrafos da agência Magnum e criou um estilo muito pessoal de observação do mundo à sua volta. Foca-se em temas que vão do dia-a-dia à moda e a cenas de rua, do quotidiano das praias e espaços públicos. à intensidade da comida e das suas cores e aos contrastes das sociedades. Frequentemente usa teleobjetivas para “aplanar” as perspectivas e colocar em primeiro plano pormenores. Muitas vezes usa um anel de flash à volta da objectiva para criar uma iluminação que faz sobressair as cores. É um observador por natureza e é isso que faz dele um dos mais procurados nomes da Magnum. Tem quatro dezenas de livros publicados (alguns resultantes de encomendas, como um, magnífico, que fez para a Universidade de Oxford), realizou dezenas de exposições (uma esteve em Lisboa, há uns anos, numa galeria dedicada à fotografia, a Barbado, entretanto já extinta), criou em Bristol, onde ainda vive, uma fundação com o seu nome, à qual ofereceu a sua colecção de photobooks, considerada uma das maiores do mundo - e co-escreveu os três volumes da maior obra de referência sobre livros de fotografia, “The Photobook: A History”. No Instagram podem ver a página da fundação, martinparrfdn, e ter uma visão do trabalho do fotógrafo em martinparrstudio , de onde é tirada a fotografia que aqui apresentamos, realizada em Ialta. Vale a pena também a ver o seu site, martinparr.com .  

 

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SEM REGRAS - Lucinda Williams, 67 anos, disse numa recente entrevista que não compreende porque é que as pessoas têm a ideia de que devem ficar mais suaves e contemporizadoras com a idade. O seu novo álbum, “Good Souls, Better Angels” , o 14º disco de originais da sua carreira de quatro décadas, é testemunho disso mesmo, com canções intensas nas palavras e na música  e com a guitarra em destaque. A voz rouca e forte de Lucinda Williams destaca-se logo desde a primeira faixa, no afirmativo “You Can’t Rule Me”, uma declaração de princípios dela própria sobre aquilo de que não abdica - a sua alma, os seus pontos de vista e o seu dinheiro. Cada vez mais bluesy, Williams diz que este é o seu disco garage rock - guitarra, bateria e baixo, um pano de fundo musical que vai bem com o lado explosivo das canções. Eis um belíssimo disco para estes tempos - energia, vontade de mudança, convicções fortes. Destaco uma balada irresistível, “Big Black Train” onde as guitarras se destacam, “Man Without Soul” onde ela proclama “You bring nothing good to this world”, um “Shadow & Doubts” onde promete  “I’m gonna pray the devil back to hell.”. E sobretudo o tema final, “Good Souls”, com o desejo “Help me stay fearless, help me stay strong”. Disponível no Spotify.

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NÚMEROS & ENGANOS - “Como estatísticas, percentagens e análises nos enganam e desenganam” é um subtítulo que chama logo a atenção.  A frase justifica o título, “O Poder Dos Números”, da holandesa Sanne Blauw, escrito em 2018 e que por estes dias ganhou especial relevância com a torrente de informação que envolve a conjuntura actual. Blauw é doutorada em Econometria e divulgadora de Numeracia, procurando guiar-nos a destrinçar a verdade no meio dos gráficos e dados com que somos bombardeados todos os dias. Afirma que a sua missão é pôr os números no seu lugar.  A autora explora as falsidades escondidas pelas análises quantitativas descontextualizadas, muitas vezes usadas para fazer interpretações distorcidas que podem inspirar decisões políticas e, até, pretender explicar comportamentos. Sanne Blauw sublinha que este livro é sobre números, mas é acima de tudo sobre as pessoas por detrás deles e para todas aquelas são levadas a fazer erros de julgamento. Ela revela como até perigosos absurdos são anunciados com base em números, ensinando-nos a olhar de forma crítica para os resultados de estudos. Como Blauw afirma, “as histórias por detrás dos números são mais interessantes que os próprios números”



OVOS BÊBADOS - Antes da receita que experimentei esta semana aqui vai um desabafo: sinto falta dos meus restaurantes preferidos, de coisas tão corriqueiras como ver pessoas que não conheço mas que são também clientes regulares, e com quem acaba por se estabelecer uma cumplicidade de frequentadores de um  local, mesmo que nunca tenhamos trocado uma única palavra. Um restaurante é muito mais que comida, é um ponto de encontro, uma roda de amigos, um espairecer. A este propósito, no fim de semana li uma das melhores coisas sobre o que é um restaurante num ensaio escrito para o New York Times pela proprietária e chef do Prune, Gabrielle Hamilton - o Prune fechou por causa da pandemia e ela duvida que o mundo da restauração, dos pequenos bistrôs onde os clientes são amigos, volte a existir como era antes de tudo isto. Com restaurantes fechados resta-me ir lendo receitas, experimentando e inventando. Esta de hoje foi uma invenção, depois aprimorada por umas leituras que se encaixavam na ideia. Noutro dia tive que aproveitar gemas de ovo que tinham sobrado de um cozinhado e resolvi batê-las com um pouco de espumante, Murganheira Bruto, que é o português que normalmente existe cá em casa. O resultado foi interessante, levou-me a ler sobre o tema e descobri uma receita que encaixa: uma fatia de pão de boa qualidade, levemente tostada, barrada com manteiga, com ovos mexidos com champagne por cima, e com umas fatias de salmão fumado a rematar . O segredo está nos ovos mexidos - depois de os bater levemente, adicionar um pouco de espumante (pouco, não exagerem), temperar com sal e pimenta a gosto e misturá-los depois de forma enérgica com um batedor manual ou, melhor ainda, com o batedor do 1-2-3. Entretanto já ficou a derreter uma colher de sopa de manteiga na frigideira onde se farão os ovos - com lume brando e os cuidados necessários para ficarem cremosos - na realidade o espumante acentua a cremosidade e dá-lhes um leve toque de um sabor diferente. Também experimentei colocar espinafres salteados em vez do pão e o resultado foi interessante - embora prefira o pão. Boas experiências é o que vos desejo.

 

DIXIT - "As plantas não tiram férias, nem fazem lay-off e não podemos cuidar delas em teletrabalho", diz Manuel Silva, presidente da Associação de Horticultores da Póvoa do Varzim.

 

BACK TO BASICS - “É das grandes complexidades que as soluções de maior simplicidade nascem” - Winston Churchill






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DINOSSAUROS EXCELENTÍSSIMOS - A Assembleia da República e os seus deputados continuam a dar uma triste imagem ao país. Nesta semana foram protagonistas, sobretudo o seu Presidente, de um lamentável pretexto que fomentou  a intolerância a propósito do 25 de Abril. Criaram o anátema de rotular como anti democratas aqueles que chamaram a atenção para as medidas em vigor no âmbito da pandemia e que se opunham a uma reunião alargada. Quem projectou um debate de saúde pública em debate ideológico colocou-se  no lugar, não de quem deve dar o exemplo, mas daqueles que se julgam acima de qualquer lei e ostentam como argumento privilégios que julgam ter para contrariar as instruções do próprio Governo sobre matéria de saúde pública. Deram mais uma vez prova de um completo autismo e de uma incapacidade em compreender a comunicação - podiam ter aproveitado para criar uma celebração virtual da liberdade melhor que os discursos monótonos e repetitivos com que brindam as reduzidas audiências que seguem as cerimónias oficiais, e que cada vez se assemelham mais a exéquias que a festa. Foram, em última análise,  o reflexo do pior que existe no degradado sistema político-partidário actual, verdadeiros dinossauros excelentíssimos. Um ex-deputado socialista, mais lúcido que os actuais, escreveu no Facebook sobre a polémica criada: “A AR, com o seu Presidente à cabeça e a pronta anuência do Presidente da República, conseguiu o que não passaria pela cabeça de um cão tinhoso: pôr uma boa parte dos portugueses contra as comemorações do 25 de Abril “.

 

SEMANADA - Desde o início da pandemia cerca de 38,0% dos consumidores inquiridos num estudo da Marktest deixaram de fazer compras em hiper e supermercados e passaram a fazer compras noutro tipo de lojas, sobretudo no comércio local; segundo os dados da última sondagem do Barómetro Marktest, na semana passada os portugueses dedicaram mais de 5 horas ao teletrabalho, cerca de duas horas a ajudar os filhos nas tarefas escolares e 4 horas a ver Tv, aceder à Internet ou ouvir rádio; o governo britânico consignou uma verba adicional de 40 milhões de libras  exclusivamente para uma campanha de publicidade especificamente concebida para aparecer nos próximos três meses em centenas de jornais locais e nacionais como medida de apoio à imprensa, realçando o seu papel na informação e na liberdade; segundo a GFK, no sector livreiro, o efeito da pandemia e das medidas de confinamento provocou uma queda de faturação de dois milhões de euros relativamente ao período homólogo do ano passado. que equivale a cerca de menos 150 mil livros vendidos; na semana passada registou-se uma diminuição no tempo médio de visionamento de televisão por espectador, que desceu de 8 horas e 9 minutos por dia, para 7 horas e 42 minutos e após um mês de confinamento começa a notar-se uma quebra de audiência nos programas informativos e um ligeiro aumento no cabo; segundo a Marktest em março de 2020, o Primeiro ministro, António Costa, manteve a liderança do top de exposição mediática, ao protagonizar 244 notícias com 13 horas e 36 minutos de duração, Marta Temido, ministra da Saúde subiu para a segunda posição, com 175 notícias de 9 horas e 29 minutos de duração, o Presidente da República  baixou para a terceira posição, com 130 notícias, que ocuparam 8 horas e 5 minutos, Paulo Portas, comentador político, foi quarto, esteve em ecrã cerca de 4 horas e 4 minutos e Pedro Siza Vieira, ministro de Estado, Economia e da Transição Digital, subiu ao quinto lugar, com 70 notícias de 3 horas e 50 minutos de duração.

 

ARCO DA VELHA  - A Câmara Municipal de Lisboa não sabe quantas pensões há para refugiados requerentes de asilo e ignora o número de refugiados nessas pensões,  entre os quais já foram detectados 138 casos de infectados.

 

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SONS E IMAGENS - Agora percebe-se melhor a importância da existência de um serviço público de rádio e de televisão - e não estou só a falar na telescola. Por isso talvez seja interessante aproveitar para conhecer o museu virtual da RTP, onde se pode percorrer a história da sua actividade, desde os primórdios da Emissora Nacional de Radiodifusão, em 1935, até aos dias de hoje. Neste site podemos descobrir cenários antigos de programas de televisão que ficaram na História, aceder a numerosos conteúdos de vídeo e de áudio, a episódios de bastidores, fazer uma visita aos pormenores do primeiro carro de exteriores da RTP, assim como ver um documentário sobre a época do teatro radiofónico, antecessor das telenovelas de hoje em dia. No acervo deste museu virtual estão mais de mil peças, 16 horas de conteúdos e visitas em realidade aumentada. Na secção de exposições temporárias, é possível espreitar  modelos antigos de receptores de rádio, altifalantes ou grafonolas. O Museu proporciona um percurso sobre a evolução da radiodifusão e da televisão em Portugal. Para quem quiser brincar às televisões, há um Estúdio Virtual onde maiores de 13 anos são convidados a vestir a pele de pivôs e a apresentar o Telejornal. O museu virtual da RTP pode ser visitado por todos em museu.rtp.pt

 

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EMOÇÕES CANTADAS - Fiona Apple nasceu em 1977 em Nova Iorque, gravou o seu primeiro disco em 1996 e rapidamente tornou-se conhecida pela pela intensidade das suas canções e pela forma como combina a sua voz com o piano.. Desde 2012 não tinha nenhum novo trabalho, até surgir agora “Fetch The Bolt Cutters”, o seu quinto álbum. Musicalmente estimulante, por vezes quase experimental, este disco é ainda mais assertivo nos temas que aborda e nas palavras que Fiona Apple usa, do que os seus trabalhos anteriores. O novo álbum aborda a vulnerabilidade humana, a dor e o leque de emoções que atravessam uma vida.  O disco foi quase todo gravado na casa da cantora, na Califórnia com um grupo de músicos de sessão, usando arranjos onde a percussão - por vezes quase acidental - tem mais peso que habitualmente nas suas composições. Fiona Apple construíu o disco em cima da sua visão de vida: criamos uma espiral de sentimentos e desilusões, remetendo no final a expressão artística como a forma de expôr as mentiras da sociedade. O título “Fetch The Bolt Cutters”, que pode ser traduzido livremente por “tragam um alicate corta-arame” evoca a necessidade de nos livrarmos das armaduras que construímos à nossa volta. Este é talvez o melhor trabalho da carreira de Fiona Apple, com as canções mais fortes, musicalmente mais trabalhadas. Temas como “Under The Table” são uma janela aberta para a sua forma de pensar:   “Kick me under the table all you want/I won’t shut up.” Disponível no Spotify.

 

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LEITURAS CASEIRAS - A edição de Maio da revista Monocle é já fruto da pandemia e está dedicada à casa - o título de capa é “Why Home Matters” . No seu editorial Tyler Brulé, o editor da Monocle, escreve que estas últimas semanas têm sido as mais complicadas desde que a revista nasceu em 2007 - aliás este número de maio é uma das edições com menos páginas desde que começou a sua publicação - a quebra da publicidade atinge toda a gente. Brulé faz algumas perguntas incómodas, como por exemplo porque é que as pessoas em tantos países permitiram que os respectivos governos deixassem degradar os sistemas de saúde, porque é que se permitiu que tantas cidades tivessem um péssimo planeamento urbanístico e porque é que tantas grandes empresas pensaram que deslocalizar a produção de tanta coisa para a China era uma boa ideia a longo prazo. A revista aponta oito mandamentos para aproveitar a casa onde vivemos e mudarmos os nossos hábitos, dá conselhos sobre exercício simples que se podem fazer, recomenda que se fuja de estar constantemente em cima das notícias, que se ajude os vizinhos e deseja que o hábito de lavar sempre as mãos perdure. Depois há conselhos sobre coisas que se podem fazer para melhorar a casa de cada um e, claro, um conjunto de receitas culinárias provenientes de vários países. Por falar em casas, Portugal está presente, através do trabalho de arquitectos como Alcino Soutinho e Alfredo Viana de Lima na zona de Esposende. Uma reportagem sobre os criativos que estão por trás de alguma da publicidade política mais interessante para as próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos é outro ponto alto desta edição da Monocle.

 

PETISCO NO FORNO -  Na presente situação, cozinhar, sobretudo ao jantar, depois de horas em teletrabalho, pode ser um momento de descontracção. É só combinar a happy hour de fim de dia com um pouco de experimentalismo culinário. Basta seguir duas ou três newsletters gastronómicas internacionais para surgirem boas ideias de receitas, que vou ensaiando. Esta semana fiquei atraído por uma sugestão de brócolos no forno com camarões e um tempero algo oriental. Dito assim, reconheço, a coisa pode parecer um bocado estranha. Mas se seguirem algumas indicações básicas verão que são recompensados por uma bela surpresa. Primeiro os brócolos: cortem só a flor, com muito pouco caule. Numa taça grande misturem os brócolos com duas colheres de sopa de azeite, uma colher de chá de coentros moídos, outra de cominhos e outra de gengibre ralado, uma de sal, meia colher de pimenta preta moída de fresco, um toque de piri piri e uma colher de raspa de lima (ou limão, se não tiverem). Misturem tudo bem e reservem enquanto aquecem o forno a 200º. Noutra taça coloquem os camarões crus (convém que sejam de bom tamanho, descascados) e misturem com mais duas colheres de azeite, raspa de meio limão, meia colher de chá de sal e meia colher de chá de pimenta preta. Misturem bem e deixem repousar. Quando o forno estiver à temperatura, coloquem os brócolos bem espalhados num tabuleiro de metal e deixem no forno durante dez minutos. Passado esse tempo colocam-se os camarões no mesmo tabuleiro, borrifa-se tudo com uns salpicos de óleo de sésamo (em havendo)  e agita-se para se misturarem bem com os brócolos, indo o tabuleiro ao forno mais dez minutos. Quando os camarões estiverem opacos e os brócolos tenros está pronto. Retirem do forno e espremam o limão de que usaram a casca por cima de forma generosa. E pronto, basta servir e esperar que gostem. Se quiserem acompanhem com um bom pão ou, até, um arroz. Cá em casa passou a ser coisa a repetir. Vai bem com um vinho branco fresco, no caso foi um Duorum. 

 

DIXIT - “Não aceito que um ritual seja transformado numa autêntica linha vermelha que separa os democratas dos outros” - Sónia Sapage

 

BACK TO BASICS - “Todos recebemos tanta informação ao longo do dia que corremos o risco de perder o bom senso” - Gertrude Stein.

 

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publicado às 11:30

CLAUSURA, TELETRABALHO E LESÕES

por falcao, em 17.04.20

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O TELETRABALHO - Ao princípio achei piada ao teletrabalho. Desde que se disponha de uma infraestrutura tecnológica boa na empresa, de uma ligação de internet razoável e de um mínimo de condições logísticas sabe bem não gastar tempo em deslocações, ficar a observar o trabalho da equipa a uma distância virtual, ter menos interrupções, gerir a agenda de outra forma, poder ter mais tempo para pensar. Mas, depois, sobretudo ao fim de um mês, começo a sentir falta das conversas com mais pessoas, do confronto de ideias mais directo, de poder falar sem ser pelo microfone, de ouvir os outros sem o som roufenho do Zoom ou do Teams, de poder ver caras sem estarem desfocadas ou sem fundos falsos com praias e outras coisas do género. Por sorte, a empresa onde trabalho, a Nova Expressão, tinha migrado todos os sistemas, há cerca de um ano, para a cloud por causa de uma mudança temporária de instalações. Quando a pandemia começou estava tudo operacional e já havia hábito de utilização da cloud e de trabalho remoto. O problema não está na tecnologia, está na falta que as pessoas fazem e na falta do confronto directo de ideias, do debate não electrónico. Com a situação de encerramento das escolas das crianças mais novas ouço muitos pais queixarem-se que não conseguem fazer o acompanhamento das aulas virtuais dos filhos ao mesmo tempo que trabalham. Alguns estão esgotados, outros à beira de um ataque de nervos. Quando sairmos disto, além de todas as outras questões, vamos ter que enfrentar problemas na área dos recursos humanos, saber como recuperar toda a gente que ficou lesionada no meio deste jogo da clausura.

 

SEMANADA - Um estudo da Universidade Católica indica uma quebra de rendimento de 43%  nas famílias que ganham até mil euros; diversos autarcas autarcas têm sido confrontados com o aumento do número de pedidos de comida por parte de famílias carenciadas que, no último mês, viram os rendimentos baixar;  o lay-off em Portugal já atinge cerca de mil trabalhadores; um terço das mortes registadas até agora em Portugal durante a pandemia foram de idosos residentes em unidades de 3ª idade; com uma boa parte das aulas a fazer-se de forma não presencial, e porque grande parte dos docentes não são digitais nativos, a Universidade Aberta e a Direção Geral de Educação vão formar mais de 2.300 professores em ensino à distância; segundo a Marktest 69,8% dos consumidores diminuíram a frequência das compras em super/hipermercados (69,8%), e destes cerca de 38% afirmam que passaram a ir a outro tipo de lojas (maioritariamente ao comércio local: minimercados, mercearias, talhos, peixarias, padarias, etc)  e a encomenda online ou por telefone foi a alternativa referida por um número muito pequeno de indivíduos; em março de 2020 RTP1, SIC e TVI emitiram cerca de 264 horas de informação regular, mais 21.5% do que no mês anterior e mais 7.4% do que o verificado no mesmo mês de 2019. num total de de 797 notícias e 35 horas de emissão sobre a pandemia, com a RTP1 a liderar com 14 horas de emissão e 327 notícias emitidas sobre o tema.

 

ESTE TEMPO - Entre 1 a 14 de Abril, foram matriculados em Portugal 838 ligeiros de passageiros, enquanto um  ano antes, no mesmo período tinham sido 6208, o que significa uma quebra de 86,5%, em termos homólogos.

 

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A FOTOGRAFIA - Quando se fala de fotografia é incontornável que a conversa vá parar à Magnum Photos, a agência fundada em 1947 por um grupo de fotógrafos liderados por Robert Capa e que mudou a forma de encarar o fotojornalismo, a fotografia documental e a fotografia em geral. Ao lado de Capa estavam nomes como David Seymour, Henri Cartier Bresson,  Ernest Hass, René Burri e Inge Morath, entre muitos outros. Os membros da Magnum publicaram nas maiores revistas da época, fizeram trabalhos exclusivos para a Life ou a Look, acompanharam a guerra do Vietnam e muitos outros conflitos. Henri Cartier Bresson descrevia a agência da seguinte forma: “A Magnum é uma comunidade de pensamento, uma qualidade humana compartilhada, uma curiosidade sobre o que está a acontecer no mundo, um respeito pelo que está acontecer e um desejo de o interpretar visualmente''. Ao longo dos anos por lá passaram alguns dos mais marcantes fotógrafos e actualmente podemos encontrar talentos tão diversos como Antoine d’Agata, Elliiott Erwitt, Josef Koudelka, mas também Martin Parr ou Cristina de Middel entre tantos outros. Podem ir seguindo a actualidade fotográfica e a produção da Magnum, assim como os cursos e exposições que organiza  no site da empresa - https://www.magnumphotos.com  , em www.instagram.com/magnumphotos ou ainda em www.facebook.com/MagnumPhotos . A imagem aqui reproduzida do Instagram é de Patrick Zachmann, feita a 16 de Março, em Paris, já com a pandemia declarada.

 

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FOLK CONTEMPORÂNEO - Laura Marling é uma das vozes mais importantes da folk contemporânea e o seu álbum de estreia data de 2008. “Song For Our Daughter”, o novo álbum lançado há dias,  é, nas palavras da cantora, um trabalho quase conceptual, escrito para uma criança imaginária sobre “aquilo que é ser uma mulher na sociedade actual”. O disco é ao mesmo tempo intimista, triste e pessimista, mas cheio de melodias e arranjos magníficos. “Blow By Blow”, uma das canções chave do álbum, fala daquilo que por vezes acontece nas relações: “Note by note, bruise by bruise/Sometimes the hardest thing to learn is what you get from what you lose”. Musicalmente este é claramente um disco folk tradicional, instrumentos acústicos e voz em primeiro plano, sempre a emoção colocada em destaque, como quando os arranjos incluem  um piano discreto ou um côro pontual. O ambiente anda próximo daquilo que se encontrava nos anos 70 em discos folk americanos (Marling, embora inglesa, vive há uns anos perto de Los Angeles). A produção do disco privilegia os arranjos de cordas e vozes. Destaco a canção que dá título ao álbum, “Song For Our Daughter”, mas também “For You”, “Held Down”, “Strange Girl” ou ainda “The End Of The Affair”. Disponível no Spotify.

 

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A CHINA EXPLICADA A OCIDENTAIS - Calhou ter lido “Sob Céus Vermelhos” agora, nesta última semana, no meio de tantas notícias e  especulações vindas do Oriente. É um livro sobre o passado mais recente da China, numa altura em que, pelas razões que se sabem, tanto se fala daquele país e se desenvolvem polémicas à sua volta. “Sob Céus Vermelhos” foi originalmente editado em 2019 e agora lançado em Portugal pela Quetzal. A sua autora, Karoline Kan, aliás Chaoqun Kan, nasceu numa aldeia chinesa em 1989, o ano dos protestos em Tiananmen. Cresceu e viveu nessa aldeia, e depois numa cidade do interior, até ir para a Universidade, em Pequim. Depois de concluído o curso, Kan trabalhou para o New York Times e Radio France Inter em Pequim, foi jornalista na revista “That’s Beijing”, actualmente é editora do jornal digital “China Dialogue” e em 2019 foi distinguida com o Young China Watcher of the Year. “Sob Céus Vermelhos” é essencialmente a história da vida da autora, o relato de como era o dia-a-dia na aldeia, como se estabeleciam hierarquias dentro de uma família ao longo de três gerações, o que era esperado das mulheres e o que era atribuição dos homens. No tempo da política do “filho único”, Chaoqun Kan foi a filha proibida, a que não devia ter nascido. A sua mãe desafiou as ordens do Partido Comunista Chinês ao querer tê-la e viu a sua vida profissional - era professora - prejudicada por isso. O livro relata o que eram as tradições e a cultura tradicional na China de então, quando Deng Xiaoping começou a abrir a economia. ao longo dos anos 90. Conta o choque que foi passar da aldeia para uma pequena cidade, na região de Hunan, que então se começava a desenvolver. Relata a mudança de uma sociedade rural para uma sociedade industrial, no meio de uma corrupção que vivia à sombra dos dirigentes políticos e perante a passividade que os ensinamentos de Confúcio estimulavam. À autora sempre fez confusão porque é que nos livros de História por onde estudou não havia referências ao ano de 1989, o ano dos grandes protestos estudantis - apenas percebeu o que se tinha passado quando finalmente chegou a Pequim. Este livro é a história da descoberta de um país e o relato das suas contradições por uma pessoa que nasceu no despontar da nova China. Indispensável para se perceber tudo o que ali se passou nestes últimos anos.

 

CULINÁRIAS - O prazer de um molho de grelos fresquíssimo, em flor, é uma das coisas que só os mercados tradicionais nos oferecem. A sua textura e o seu gosto não têm comparação com os que são sujeitos a longos períodos de frio e chegam enrugados às prateleiras dos supermercados. Um molho de grelos frescos deve lavado em várias águas e arranjado, tirando as folhas que estejam amareladas. Depois, precisam de ser muito bem cozidos, longamente, até ficarem tenros. Só se metem na água quando já estiver a ferver e obviamente destapados para ficarem bem verdes, que é uma belíssima cor - e é quando entram na água que se salgam a gosto. Depois de escorridos com cuidado são um belíssimo acompanhamento. No topo das minhas combinações preferidas está um lombo de bacalhau. Filetes de pescada também são uma ideia e em geral qualquer peixe de qualidade é boa companhia para os grelos. Uma experiência interessante pode ser desfazer uma posta de pescada já cozida e misturá-la com os grelos. Tudo bem envolvido e regado com bom azeite e está pronta uma refeição. Depois há outras possibilidades e à cabeça lembro-me de um arroz de grelos, com arroz carolino, claro. E, finalmente, um pedaço de grelos cozidos e depois levemente salteados acompanha bem uma boa carne grelhada. Sou dos que acreditam que cozinhar descontrai e que nesta época confinada é algo que estimula a imaginação. 

 

DIXIT - “Raramente saímos das crises da mesma forma como entrámos. Acontecem coisas em nós, e na nossa relação com as outras pessoas, que fazem com que tudo mude” - Miguel Xavier, psiquiatra.

 

BACK TO BASICS - “Não devemos temer e sim procurar compreender. Agora é o tempo de compreender, para que tenhamos menos receios” -  Marie Curie.

 

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O PERIGOSO VÍRUS DA ROTINA

por falcao, em 09.04.20

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O CONFINAMENTO - A rotina é nestes dias o nosso pior inimigo. A rotina a que estamos forçados, a rotina do confinamento, a falta de socialização, a rotina da avalanche de notícias. Aos poucos os números elevadíssimos de consumo de internet e de televisão começam a voltar a valores mais próximos das médias anteriores ao Estado de Emergência. Embora continue alto o consumo de notícias, já começa a subir o consumo de entretenimento - filmes, séries, musicais, documentários, e, claro, culinária. O teletrabalho fez explodir a venda de impressoras domésticas e de máquinas de café. Na realidade as antigas rotinas são substituídas por novas. Olhamos para o horizonte e o ar está mais límpido. No espaço de poucas semanas a vida mudou imenso - desde o vazio das ruas das cidades até à maneira como reorganizamos os nossos hábitos. Há um contraste enorme que percorre a sociedade - entre aqueles que estão em casa a trabalhar, com tudo o que isso comporta, e aqueles que estão nos hospitais, na rua, nas tarefas essenciais que garantem a nossa vida colectiva. O Estado, esse ser sem cara e nas mais das vezes com pouco coração, até deu uns laivos de humanidade nestas semanas. Mas falta imenso - há sectores básicos da sociedade e da economia, sobretudo nas microempresas, que continuam a braços com tratamentos discriminatórios. O Estado, que há uns anos fomentou a criação dessas microempresas e a criação de postos de trabalho com a consequente redução dos números e custos do desemprego, ainda tem muito para fazer neste sector. Se nesta altura se criarem novas barreiras e diferenças entre vários áreas de actividade todos vamos perder. A pior de todas as rotinas é a da resignação, e há muita gente que conta com ela e com a aceitação do mal menor. E, no entanto, só recuperaremos se nos excedermos, se ambicionarmos reconstruir e recuperar. É isso que devemos exigir da Europa, é isso que devemos exigir dos Governos. Ficarmos na rotina não basta - é demasiado perigoso.

 

SEMANADA - Foram apreendidos mais de 100 quilogramas de cocaína no Porto de Sines durante uma operação de controlo a um contentor proveniente da América do Sul;  segundo a CNN dois pandas do Jardim Zoológico Ocean Park, em Hong Kong, China, que não acasalavam há dez anos, fizeram-no quando o zoo fechou devido ao coronavírus; uma cobra pitão com 2,60 metros de comprimento que foi capturada na quinta-feira, no Percurso Pedestre da Fonte Benémola, em Querença, no interior do concelho de Loulé, foi transportada para o Zoo de Lagos; foram criadas duas áreas de refúgio para cavalos-marinhos na ria Formosa e as capitanias de Olhão e Faro, determinaram para estas zonas a "suspensão temporária da circulação de todas as embarcações"; um relatório do Conselho da Europa mostra que as penas de prisão em Portugal continuam a ter uma duração muito superior às dos outros países europeus e a taxa de mortalidade nas cadeias portuguesas está entre os 12 países onde essa estatística é a mais elevada; Portugal reciclou mais 10% em 2019, face ao ano anterior, tendo sido encaminhados para reciclagem mais de 388 mil toneladas de resíduos de embalagens, anunciou a Sociedade Ponto Verde; a pandemia está a afectar a indústria livreira e segundo a GFK, na semana de 23 a 29 de Março, venderam-se menos 66,7% de livros que na semana homóloga do ano passado; também segundo a GFK, na semana de 23 a 29 de Maio as vendas online de aparelhos eléctricos alcançaram 33% do total, quando antes do confinamento valiam 8%; comparando com igual período do ano passado a venda de impressoras domésticas aumentou 172% , as consolas aumentaram 122% e as máquinas de café 54% e os portáteis 33%.

 

ARCO DA VELHA - A Junta de Freguesia de Santa Clara, em Lisboa, deixou de ceder as suas instalações aos 150 idosos da Associação Unitária de Reformados e Idosos da Charneca que ali conviviam diariamente, para ceder o espaço ao Instituto de Emprego e Formação Profissional. 

 

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FOTOGRAFIAS - O Instagram tornou-se na galeria que vou visitando. Esta semana dei com a foto que reproduzo, da autoria de João Miguel Barros, um advogado português que trabalha em Macau e que tem desenvolvido intensa actividade como  fotógrafo, curador independente e editor da publicação de fotografia “ZinePhoto”. Esta fotografia é um auto-retrato “Self-portrait of a not so young artist in times of crisis”  e foi uma das imagens seleccionadas e premiadas pelo júri do Fotofestival Lenzburg, para a série “Times Under Pressure”. Pode saber mais sobre o festival em https://www.fotofestivallenzburg.ch/en/. O trabalho deste autor pode ser seguido em www.instagram.com/joaomiguel.barros e em http://www.jmb.photo/ . Outras sugestões, ainda no instagram: David Guttenfelder é um fotógrafo que trabalha regularmente para a revista National Geographic e tem estado a publicar no Instagram imagens de uma viagem que fez por estrada pelos Estados Unidos ainda antes do início da pandemia - podem encontrá-lo em instagram.com/dguttenfelder . Para terminar sugiro que visitem o instagram da cooperativa de fotógrafos Magnum, que tem feito uma série de iniciativas ligadas com estes tempos que vivemos - podem ver em instagram.com/magnumphotos . E um dos fotógrafos da Magnum é o britânico Martin Parr, cujo trabalho pode ser visto em instagram.com/martinparrstudio .

 

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A VOZ - Cantora, pianista, compositora, Nina Simone  percorreu muitos territórios musicais ao longo da vida. Entre os discos da última fase da sua carreira “Fodder on My Wings” é um registo que tem andado esquecido e que teve sempre uma divulgação reduzida. A editora Verve resolveu agora relançá-lo. Editado originalmente em 1982, gravado em Paris, o disco é influenciado pelos músicos africanos que ela encontrou na capital francesa - Paco Sery na percussão, Sydney Thaim nas congas e Sylvin Marc no baixo. A própria Nina Simone assegurou a voz, o piano, os arranjos e a produção musical e fez um dos discos mais pessoais e intimistas e que é dos melhores trabalhos da sua carreira, injustamente pouco conhecido. Há faixas surpreendentes, como “Liberian Calipso”, que juntamente com “Le Peuple en Suisse” e “I Sing Just To Know That I’m Alive”,  são três faixas inéditas incluídas na nova edição. O álbum inclui 13 temas que exploram uma vasta gama de emoções, desde o “Heaven Belongs To You” que evoca os espirituais negros, cantado em francês e inglês, um primor de utilização da voz de Nina Simone em “Vous Êtes Seul Mais Je Désire Être Avec Vous” e a homenagem ao seu pai feito numa pessoalíssima versão de “Alone Again Naturally” (de Gilbert O’Sullivan), completamente transfigurado nesta interpretação - a cantora altera a letra, os arranjos e até a composição musical. “Fodder On My Wings” está disponível no Spotify.

 

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DOIS MUNDOS - “Sementes Mágicas”, de V.S. Naipaul, é a continuação de um anterior romance, também já editado em Portugal, “Metade da Vida”. Destaca-se aqui de novo a forma de escrita de Naipaul, muito bem transmitida e interpretada pela tradução de Maria João Lourenço. Os dois romances acompanham a vida e as dúvidas de Willie Chandran, um homem de identidade incerta que, aos quarenta e cinco anos, se interroga sobre o seu papel no mundo e o sentido da sua vida. Willie Chandran tem atrás de si uma vida errante: saiu da Índia, onde nasceu, viveu em Londres, em Moçambique e em Berlim. E é a partir de Berlim, para onde regressara depois de deixar África e um casamento, que decide regressar à Índia. O seu regresso é estimulado pela irmã, Sarojini, uma realizadora de documentários empenhada politicamente, que considera que Willie leva uma vida passiva, sem direcção nem objectivo. Influenciado pela irmã resolve juntar-se a um grupo revolucionário clandestino e regressa à Índia - mas encontra-se perante uma organização dividida e é apanhado, digamos, pelo lado errado da História. Quando depois de muitas peripécias volta ao Reino Unido, onde a sua demanda começara trinta anos antes, encontra um país que virou costas ao seu passado colonial. Willie dá consigo a reflectir sobre aquilo em que a sociedade britânica se transformou e na sua própria vida. De certa forma “Sementes Mágicas” é a forma de Naipaul reavaliar a sua carreira e a sua obra e a personagem de Willie, assim como a sua evolução, têm não poucos paralelos com o que foi também a evolução da carreira literária de Naipaul e a sua visão do mundo - dos dois mundos da sua vida e da sua escrita, o da colónia e o da potência colonial.

 

COZINHADOS - Hoje aqui fica uma receita de época. Costeletas de borrego cortadas de forma generosa, não demasiado finas, conte entre 3 a 4 por pessoa, dependendo da respectiva volumetria dos convivas. Em casos acentuados, carregar na dose. Tempere-as generosamente com muito sumo de limão, sal e pimenta preta moída na hora. Faça-lhes uma cama e um cobertor com alecrim e deixe-a assim durante uma hora ou duas. Comece por cozinhar ao lume, numa frigideira que vá ao forno. Basta colocar um pouco de azeite no fundo bem espalhado. Com o lume alto cozinhe-as de um lado e outro até começarem a ganhar côr e a própria gordura das costeletas começar a invadir o recipiente. Quando estiverem a começar a tostar leve-as ao forno previamente aquecido a 200º e deixe-as estar durante dez minutos, virando-as a meio. Se gosta delas muito bem passadas (não é o meu caso), deixe ficar mais cinco minutos. Eu gosto de as acompanhar com ervilhas, levemente cozidas, e depois salteadas com hortelã picadinha bem misturada. Para companhia experimentei um vinho regional da península de Setúbal, da Quinta do Piloto, em Palmela - o Cabernet Sauvignon 2017 e a coisa correu muito bem.

DIXIT - “Há um velho ditado grego que apetece recuperar agora: “Aquele a quem os deuses desejam destruir, primeiro enlouquecem”. A Europa, antes de se destruir, está a enlouquecer” - Fernando Sobral

BACK TO BASICS - “Uma das grandes falhas da raça humana é que toda a gente quer construir de novo, mas muito poucos querem preservar e manter o que existe” - Kurt Vonnegut

 

 

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E DEPOIS? NA EUROPA ? E CÁ?

FICA TUDO NA MESMA? OU MUDAMOS DE RUMO?

por falcao, em 03.04.20

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E A EUROPA? - A situação que vivemos mostra aquilo  que é de facto a Europa: uma confluência egoísta de interesses económicos, não uma federação de vontades nem uma aliança de princípios, muito menos um mecanismo de entreajuda. Cada vez que há crise, há clivagem. É o salve-se quem puder. Olha-se para o que é a estrutura central da Comunidade Europeia e não se vê direcção, não se vê liderança, não se vêem estadistas. Há silêncios, há alarvidades da Hungria à Holanda, noutros países há a procura de uma solidariedade que embate em limites apertados e rigorosamente vigiados. O Banco Central Europeu é uma anedota de capacidade de acção quando comparado com a Reserva Federal Americana. A realidade é esta: ao fim de todos estes anos a Europa não existe como o paraíso prometido quando é mais necessária. Os burocratas convivem mal com a acção e este é um momento de acção. Esta crise vai ser longa. O PIB vai baixar de forma generalizada, muitos sectores vão defrontar-se com a sua própria sobrevivência. Portugal, que tem um mercado interno pequeno, viveu anos de crescimento porque teve uma população visitante, de passagem, que alargou o  mercado muito para além do seu tamanho real. Agora, quando ficarmos outra vez no nosso pequeno rectângulo, provavelmente com menos visitantes, que acontecerá? O Governo português tem reagido bem à situação em termos de prevenção e defesa da saúde pública, atrevo-me a dizer que para além do que era previsível - e ainda bem. Mas a seguir vão sentir-se os efeitos de falta de estratégia de competitividade económica, da falta de reformas. E é quando isto acabar que é preciso começar a pensar no que tem de se fazer para o país poder voltar a prosperar, sem bóias passageiras de salvação. Contando com os nossos recursos e a nossa capacidade. 

 

SEMANADA - A aldeia de São Pedro Velho, em Mirandela, conhecida pela produção de morango, teme pela colheita deste ano com toneladas do fruto que podem ficar por apanhar por falta de trabalhadores e de procura devido à pandemia de Covid-19; técnicos de som e de palco de norte a sul do país, que tinham as suas agendas cheias nos próximos meses, ficaram sem um único trabalho; nos primeiros 22 dias de Março, o número de domínios registados com palavras-chave associadas à pandemia subiram de 3000 para 53 mil; a pandemia está a gerar o maior número de ciberataques alguma vez realizado; o índice mundial dos mercados de ações recuou 13,7% em março, com as maiores quedas registadas na América Latina e na Zona Euro;  as praças de Bogotá, São Paulo, Buenos Aires e Viena foram as mais penalizadas e Lisboa perdeu 16%; o montante médio das compras no comércio online aumentou 6% desde o registo do primeiro caso de Covid-19 em Portugal; segundo as projeções do Instituto Nacional de Estatística, a população residente em Portugal poderá baixar de 10,3 para 8,2 milhões de habitantes em 2080 e o índice de envelhecimento quase duplicará; Portugal continua dependente de outros países para se alimentar, pois só produz 85% dos bens de que precisa para pôr no prato.; a superfície semeada dos principais cereais em Portugal diminuiu pelo sétimo ano consecutivo e a sua produção está no mínimo dos últimos 100 anos.

 

ARCO DA VELHA -  A organização sindical de professores do Sr. Mário Nogueira exigiu que as escolas suspendam já o acolhimento de filhos de profissionais de saúde e forças de segurança.

 

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ARTE NO INSTAGRAM - Nestes tempos o Instagram tornou-se numa imensa galeria virtual - de museus, de artistas e claro de pessoas que mostram o que estão elas próprias a ver. Mas concentremo-nos hoje nos artistas. Um dos que tem estado mais activo durante estes tempos da pandemia é Todd Hido, um americano que hoje em dia vive em São Francisco. O seu trabalho está focado em casas, muitas delas em ambientes rurais, outras em ambientes urbanos pouco densificados. O domínio da luz e da côr, uma cuidadosa escolha da luminosidade natural em que prefere fotografar, são a sua imagem de marca - nomeadamente na série “Homes At Night”. Todd Hido tem trabalhos seus publicados na Artforum, The New York Times Magazine, Eyemazing, Wired, Elephant, FOAM e Vanity Fair. Tem obras suas nas colecções permanentes de museus como o Getty, o Whitney Museum of Art, o Guggenheim, San Francisco Museum of Modern Art e The Smithsonian, entre outros. Por vezes surgem paisagens rurais e muitas vezes foca-se em questões ambientais, como aconteceu com o seu mais recente livro, “Bright Black World”, fotografado fora dos Estados Unidos. Poucas vezes surge o elemento humano, excepto numa série em que fotografa interiores de casas onde surgem corpos de mulheres. Do ponto de vista técnico utiliza grandes formatos, exposições longas e uma enorme profundidade de campo, na tradição de alguns fotógrafos paisagistas americanos de meados do século passado - só que desta vez a cores e não a preto e branco. A imagem que aqui se reproduz é extraída da sua página do Instagram, que merece ser visitada.

 

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O TRIO DE JAZZ - Uma das minhas formações preferidas no jazz é o trio - o mais frequente é ter piano, bateria e baixo, mas outra formação de que gosto particularmente é guitarra, bateria e baixo. “Angular Blues” é o novo disco do guitarrista austríaco Wolfgang Muthspiel, acompanhado por Scott Colley no baixo e Brian Blade  na bateria. Muthspiel tem uma forma de tocar guitarra eléctrica muito característica, com um dedilhar marcante e preciso e um sentido melódico notável. Editado pela ECM, o disco tem uma produção simples que deixa os três músicos mostrarem as suas capacidades de improvisação e sobretudo a forma como se conseguem ligar uns aos outros. “Angular Blues” é um dos discos de jazz que mais gostei de descobrir nos últimos tempos e dos melhores de que me lembro onde a guitarra desempenha o papel principal. O primeiro tema, “Wondering” é uma espécie de manifesto daquilo que se vai poder ouvir ao longo do disco. Logo a seguir, a faixa título, “Angular Blues” mostra como a guitarra de Muthspiel se cruza de forma perfeita com o baixo e a bateria. “Huttengriffe” é uma faixa apaixonante, a mais bluesy de todo o disco. “Camino” é uma ode à guitarra e “Ride” uma demonstração de virtuosismo colectivo. “Kanon in 6/8” é um percurso que evoca o blues-rock e “Solo Kanon in 5/4” é o único tema tocado a solo por Wolfgang Muthspiel. O álbum termina com uma versão do standard “I’ll Remember April”, já interpretada por muitos músicos mas que aqui vive do diálogo entre a guitarra e o baixo. Disponível no Spotify.

 

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HISTÓRIAS DE MACAU -  Os mais recentes livros de ficção de Fernando Sobral são orientais, passados entre a China e a Índia. Não são orientais apenas na localização geográfica das histórias que contam, são-no, sobretudo, na forma como estão escritos, nos reparos que as personagens fazem, nas reflexões que evocam ao longo da narrativa, nos pensamentos que deixam no ar. “A Grande Dama do Chá” é o mais recente livro de Fernando Sobral e foi publicado originalmente como folhetim semanal no diário “Hoje Macau” em 2019. O cenário é Macau, em 1937, no momento em que o Japão tinha atacado a China, tomado Xangai, o que leva a um êxodo de refugiados em direcção a Macau - que assim se torna numa plataforma onde se vigiam mutuamente chineses nacionalistas, comunistas e agentes japoneses. É neste ambiente que se desenrola a história de Jin Shixin, que abre a mais famosa casa de chá de Macau, cobertura para a sua ligação com a tríade do Bando Verde que dominava Xangai. O livro retrata o que era a vida em Macau, o papel dos funcionários portugueses da administração local, os conflitos, cumplicidades, pequenas corrupções e também histórias de sedução. O livro conta a noite, os bares, a música, deixa antever todos os vícios e negócios, os segredos e as conspirações. Macau é uma terra de encontros e desencontros, e , como uma das personagens diz no final do livro, “Macau é bela e sem saída. Sejam sempre bem-vindos a esta cidade. Para jogar, para fugir do passado, para encontrarem o futuro. Assim continuará a ser”. É certo que eu tenho um fascínio pelo oriente, mas de cada vez que leio um livro assim fico com vontade de lá voltar. Pelos vistos, agora, infelizmente, não vai ser tão cedo.



VINHOS DURIENSES - Durante uns anos os vinhos do Alentejo dominaram o mercado doméstico português e João Portugal Ramos foi o enólogo decisivo para criar uma marca e uma personalidade que antes estavam difusas. Sem nunca deixar o seu Alentejo, aqui há uns anos aventurou-se, em parceria com José Maria Soares Franco, por terras do Douro. Assim nasceu a gama Tons do Duorum, inicialmente com Tinto e Branco e agora, pela primeira vez, com um Rosé, uma surpresa nas colheitas agora lançadas. As uvas são de terreno xistoso, com as vinhas a uma cota alta, entre os 400 e 600 metros. O Tons do Duorum Rosé 2019 é feito a partir de uvas Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz, tem aroma marcado por frutos vermelhos, um final de boca prolongado, acidez equilibrada, fresco, graduação de 12%. É uma boa surpresa na gama Duorum, ideal para acompanhar pratos leves e saladas. O Tons do Duorum Tinto 2017 é feito a partir das mesmas castas, Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz com um processo de vinificação muito controlado. Tem dominante de frutos vermelhos, taninos suaves, aroma intenso, fresco, graduação de 13,5% e vai bem com carnes temperadas. O Tons do Duorum Branco 2019 foi feito com uvas das castas Viosinho, Robigato, Verdelho, Arinto e Moscatel Galego Branco. Tem graduação de 12,5%, aroma intenso, citrinos pronunciados, perfeito para acompanhar uma massa com gambas ou massada de peixe. 

 

DIXIT - “Fazer as duas coisas que parecem ou são contraditórias: este é o grande problema. Fazer com que os cientistas e os técnicos, sem se envolver em política, encontrem os remédios e tratem de quem necessita. Mas fazer também com que os políticos façam as leis necessárias, sem se envolver em ciência.” - António Barreto 

 

BACK TO BASICS - “Por melhor que uma estratégia pareça ser, são os resultados alcançados o que verdadeiramente conta” - Winston Churchill

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A LIDERANÇA - A crise que vivemos é um desafio à capacidade de nos organizarmos, lutarmos e mudarmos, para garantir um novo futuro. Este não é tempo de profetas, mas é tempo para pensarmos pelas nossas próprias cabeças e vermos onde líderes políticos actuais nos levaram. Esta é a fase em que devemos pensar e preparar a resposta - a resposta que garanta a sobrevivência de pessoas, da economia, da sociedade. Por estes dias li uma entrevista do historiador e filósofo israelita Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, de “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” e de “21 Lições para o Século 21”. Dessa entrevista retive dois parágrafos - o que reproduzo no Back To Basics e este, que creio resumir o que se passa: “Devido à falta de liderança, não estamos a tirar o máximo partido da nossa capacidade de cooperação. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis têm deliberadamente minado a confiança na ciência e na cooperação internacional. Estamos agora a pagar o preço por isso.”  Claro que há mais temas para analisar e reflectir sobre a situação actual, mas a verdade é que o que hoje se passa mostra o desfasamento entre os líderes políticos e as necessidades da sociedade - em termos de estabelecimento de prioridades de investimento em áreas como a ciência e a saúde. Passámos de uma fase em que os Ministros das Finanças faziam com que não houvesse dinheiro para nada, para a fase em que os governos disponibilizam milhões e milhões - esperemos que não seja tarde demais. A situação actual evidencia que é sempre melhor prevenir do que remediar. O remédio, como estamos a ver, é sempre mais caro que a prevenção. Esta é apenas uma das etapas - mas importante - da mudança global de estratégias que tem de ser feita. Fala-se muito de mudança e liderança nas empresas. Aquilo que hoje vivemos mostra que o sentido da mudança e um novo estilo de liderança são também fundamentais na sociedade e na política que é suposto governá-la. O fundamental é melhorar o sistema, e não abandoná- lo.

 

SEMANADA - O preço da carne subiu;  nas lotas os pescadores vendem peixe a metade do preço; foram detectados casos de especulação na venda de produtos como gel desinfectante, máscaras, luvas e até paracetamol; com o fecho dos parques de campismo 13 mil caravanistas ficaram desalojados; um estudo europeu revela que Portugal não tem habitação social suficiente para as necessidades; o mesmo estudo do Conselho da Europa aponta falhas graves na protecção de crianças e jovens; sem o retomar das competições à vista os responsáveis dos jornais desportivos portugueses estão apreensivos quanto ao futuro; 43,7% dos portugueses considera a actuação do governo na pandemia como “pouco eficaz”, 40,9% como eficaz e apenas 5,4% como “muito eficaz”; uma sondagem divulgada esta semana revela um reforço da imagem de António Costa, algum desgaste de Marcelo Rebelo de Sousa, e subidas assinaláveis do Bloco de Esquerda e Chega que ficam, respectivamente, na terceira e quarta posição, logo atrás do PSD e à frente da CDU, PAN e CDS; se a pandemia durar três meses o PIB português pode ter uma quebra de 10%; o valor médio das casas em Portugal subiu 21% em cinco anos; os preços da habitação em Lisboa são 35% superiores à média nacional; o preço de venda das novas habitações subiu cinco vezes mais que o da construção;  o Facebook registou esta semana um aumento exponencial de utilização mas as suas receitas publicitárias diminuíram e o maior aumento de utilização verifica-se nas áreas de mensagens da rede social e do whatsapp.

 

ARCO DA VELHA - Segundo informações da Ordem dos Solicitadores a venda de bens penhorados rendeu 1,6 mil milhões de euros em menos de quatro anos. 

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ARTES - Desde que as medidas de contenção do Covid 19 foram tomadas todos os espaços públicos foram sendo progressivamente fechados. Entre eles estão as galerias de arte privadas, local de eleição de apresentação de obras de artistas contemporâneos, novos ou consagrados. De um modo geral uma série de actividades culturais que por definição implicam a presença de públicos têm as portas fechadas. Muitos  artistas plásticos portugueses preparavam exposições para os próximos meses, em Portugal ou no estrangeiro. Algumas já não se poderão fazer, pelo menos nas datas indicadas. Os artistas plásticos vivem das suas obras que vendem. Se os locais onde as podem mostrar e vender estão encerrados, não há vendas, não há receitas. Não vai ser fácil para muitos. Independentemente das medidas conjunturais que estão a ser tomadas esta é uma boa oportunidade para pensar o que se pode fazer no futuro. E uma das mais simples e evidentes ajudas que o Estado pode dar é criar uma nova Lei do Mecenato , que seja mais fácil de usar para criadores, entidades e mecenas - privados ou empresariais. Há muitos modelos dignos de estudo no mundo e todos passam por uma mesma coisa - incentivos fiscais para os mecenas, taxas reduzidas para os criadores. No caso das artes plásticas há coisas tão absurdas como a dificuldade que é uma empresa comprar obras de arte, podendo considerá~las como custo - tal como outras partes do seu imobilizado. O efeito na receita fiscal do Estado é ridículo, mas esta medida, por si só, permitiria alargar o mercado. É nestas questões que vale a pena pensar para o futuro. Na imagem que acompanha estas palavras está a exposição de Sara Bichão na Galeria Filomena Soares, que foi montada mas nem sequer chegou a ser inaugurada. Podem ver mais em http://gfilomenasoares.com/

 

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PLAYLISTS - Embora em casa, não temos que ficar confinados nem aos nossos discos nem ao que o Spotify nos quiser dar . Sugiro-vos que naveguem pela plataforma Mixcloud, onde DJ’s de todo o lado (incluindo muitos portugueses) e algumas entidades ligadas à música fazem autênticos programas de rádio. A ideia é ouvirem selecções musicais, de vários géneros, playlists bem elaboradas. As possibilidades são imensas, por isso vale a pena explorar bem a plataforma - tem uma aplicação que funciona muito bem em smartphones. Lá poderá descobrir por exemplo o Ronnie Scott Radio Show, preparado pelo lendário clube de jazz de Londres, ou listas de DJ’s portugueses, como a Mixtape Nação Valente de MdeMonica Mendes, ou as Sleeping Dogs Lie de Miguel Santos, a Eclética de Lucinda Sebastião, a Estrada do Guincho de Lucio (José Lucio Duarte) ou ainda as Dance Sessions de João Vaz. Algumas destas listas têm dezenas e até centenas de emissões diferentes, muito moldadas obviamente aos gostos dos seus autores. Em todos estes exemplos a música é boa e as sequências apresentadas são muito bem pensadas. São programas de autor como já é raro ouvir hoje em dia na rádio. Nestes dias tenho acompanhado o trabalho diário de um DJ do Porto, há muito ligado à música e à descoberta de músicos, Pedro Tenreiro. A sua Quarentena Funky tem sempre capas bem escolhidas (como esta que aqui se reproduz) e o que ele propõe é soul e funk do melhor. Muito bom para animar o ritmo destes dias - uma sempre renovada pista de dança em casa.

 

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MISTÉRIOS NÓRDICOS - Bem sei que estes tempos já são bastante misteriosos. Mas por isso mesmo pode ser boa ideia pegar numa boa história dos tempos de guerra, ainda por cima baseada em factos reais. Henry Rinnan é a personagem central de “Léxico da Luz e da Escuridão” e torna-se odiado por ser um agente duplo que mata noruegueses para os nazis. O seu autor, Simon Stranger, é um prestigiado escritor norueguês e o presente livro, agora editado pela Quetzal, com boa tradução de João Reis,  foi galardoado com o Prémio dos Livreiros Noruegueses. A história desenrola-se a partir de uma acaso: a família da mulher do escritor, depois da guerra, vai morar para a casa que serviu de quartel general a Rinnan, onde ele próprio vivia e onde os resistentes noruegueses que ele entregava eram torturados. É uma visita a um passado sombrio, um retrato duplo de um traidor criminoso e de uma família que havia sido devastada pela guerra - o bisavô da mulher de Stranger morreu depois de ter sido entregue pelo próprio Rinnan. A família acaba por descobrir a história terrível da casa para onde foi morar, o que cria tensões enormes. Muito bem escrito, o livro é passado na cidade de Trondheim, que quase ficamos a conhecer pela minuciosa descrição dos locais. Envolvente do princípio ao fim, este é um daqueles livros que não se consegue largar até terminar.

 

OS MERCADOS - Na maior parte dos supermercados e nas grandes superfícies há filas e muitas vezes há falta de produtos, nomeadamente frescos. Nesta semana entrei num mercado tradicional e quase ninguém lá estava, além dos vendedores nas suas bancas. E as bancas estavam bem fornecidas - de peixe, de carne, de fruta, de legumes e até de alguns produtos regionais. Alguém me explicava que muitos restaurantes abastecem-se nos mercados e agora, com o encerramento dos restaurantes, os mercados tradicionais tiveram um decréscimo de actividade. Vale a pena lá ir - comprei peras como ainda não tinha provado este ano e tomate coração de boi absolutamente fantástico. O tomate, maduro, temperado com um pouco de flor de sal fez as minhas delícias e foi um acompanhamento fantástico do peito de frango no forno, temperado com mel. A entrada consistiu nuns bons rabanetes cortados em fatias finas e temperados só com sal. Na mesma ocasião comprei também umas sumarentas laranjas que foram a base de uma salada que brilhou noutra refeição. Por cima das rodelas de laranja descascada coloquei filetes de cavala de conserva a que escorri o azeite. A coisa foi acompanhada por uma boa fatia de pão de mistura cozido em forno de lenha, que também veio do mercado. E as peras garantiram a sobremesa. O regresso aos mercados vale a pena. E quem os mantém vivos bem merece.

 

DIXIT -  “É preciso investir mais. Agilizar mais os procedimentos. É preciso uma estratégia clara a nível europeu, que oriente, apoie e reforce as respostas que estão a ser dadas pelos diferentes países. Temos de subir a parada à escala da ameaça que enfrentamos” - Maria da Graça Carvalho, eurodeputada.

 

BACK TO BASICS - “A crise realça a fragilidade do nosso sistema global, mas a reacção correcta é melhorar o sistema em vez de abandoná-lo”- Yuval Noah Harari.

 

 

 

 

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O VÍRUS DEU CABO DAS FOLHAS DE EXCEL

por falcao, em 20.03.20

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A CRISE - Em duas décadas já tivemos três crises severas neste século. A primeira com os ataques de 11 de Setembro nos Estados Unidos; a segunda com a crise financeira de 2008; e agora, a terceira, com o COVID 19. No 11 de Setembro de 2001 lembro-me de estar à hora de almoço num restaurante e ver, perplexo, os aviões a derrubar as torres gémeas de Nova Iorque. Nessa tarde, já a perceber melhor o que se tinha passado, pensei que o mundo nunca mais iria ser igual ao que era antes. Não me enganei. A geração que tem agora entre 20 e 30 anos viveu sempre na incerteza e isso explica muito da sua forma de pensar e agir. A crise desencadeada em 2001 gerou medo e insegurança físicas. Anos depois, em 2008, a crise financeira gerou medo e insegurança económica; agora, esta crise do COVID 19 arrisca-se a gerar insegurança e medo físicos e pânico na economia. Esta é  a maior insegurança destas crises dos últimos 20 anos, é a primeira vez em que, a milhares de mortes e a uma sensação de impotência do Estado, se junta a hipótese de colapso de uma série de economias de diversos países. O retrato da Europa nestas semanas não é bonito de se ver. A Comunidade responde pouco, o Banco Central Europeu acordou tarde quando comparado com a Reserva Federal Americana e os alemães, mais uma vez, assobiam para o ar à espera que a coisa passe. Mas é certo que os rendimentos vão diminuir, que o consumo vai cair. Tudo vai ser diferente. Este vírus deu cabo de todas as folhas de excel e os burocratas não sabem o que fazer. O que se vai passar a seguir? Adopto a sigla de uma amiga minha, médica, em situações de grande crise: LSV - logo se vê. As prioridades são viver, ajudar, reconstruir. 

 

SEMANADA - Quase dois em três portugueses declaram ser optimistas, revela um estudo da Marktest divulgado esta semana; segundo o Telenews da MediaMonitor, o noticiário sobre o COVID 19 continuou a ser dominante na semana passada, tendo-se registado  um total de 1059 notícias e 42 horas de emissão sobre este tema; foram encontradas 1680 caixas de esteroides anabolizantes num descampado em Elvas; o Tribunal de Contas desconfia do regulador da aviação civil que tem à sua frente gestores da maior empresa regulada por esse organismo, a ANA; o Tribunal Constitucional defendeu que facilitar a prostituição não deve ser crime; os resultados líquidos dos CTT subiram 35,8% desde que a empresa mudou de liderança em Maio do ano passado e registaram lucro de 29 milhões de euros; o montante de novos créditos ao consumo aumentou cerca de 13% no final de Janeiro, em relação a igual período do ano passado; o Festival da Eurovisão foi cancelado; o Euro 2020 foi adiado para 21; o debate instrutório da Operação Marquês foi adiado sine die; a Auto-Europa suspendeu toda a produção até 29 de Março; o controlo de fronteiras foi reintroduzido em Portugal;  António Costa disse que o país não vai parar; Fernando Medina não disse nada sobre Lisboa.

 

BOA IDEIA - Na Índia várias operadoras de comunicações substituíram os toques de telefone (ring tones) por mensagens de 30 segundos com conselhos sobre como evitar o COVID 19.

 

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A PINTURA - Não podemos viajar, mas podemos ver belíssimas obras on line. Escolhi esta porque me parece adequada ao nosso estado de espírito. “The Night Watch”, “A Ronda da Noite”, é uma obra de Rembrandt, criada em 1642, e que tem a curiosidade de ser uma das primeiras pinturas a retratar um grupo de pessoas em acção, no caso diversos guardas que se preparam para actuarem. A utilização da luz é extraordinária, a dimensão da obra é imponente. A pintura mede 380 cm de altura e 454 cm de largura e mostra a milícia do capitão Frans Banning Cocq no momento em que este dá a ordem para marchar ao alferes Willem van Ruytenburch. Atrás deles aparecem os 18 integrantes da Companhia. Está exposta em Amsterdão, no Rijksmuseum. Graças à iniciativa da Google Arts & Culture pode não só visitar este e outros grandes museus, mas também, no caso desta obra, pode observar com atenção os pormenores, acompanhados por informação, que ajuda a compreender o tempo em que foi criada. Vale a pena visitar o site artsandculture.google.com, uma iniciativa feita em conjunto com a Unesco, e ver o que oferece em matéria de visitas virtuais a locais históricos, museus, colecções de arte e géneros artísticos, entre muitas outras coisas.

 

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A VIDA - O álbum “async”, de Ryuichi Sakamoto, foi editado em 2017, após quase oito anos sem discos do músico japonês. São 14 temas, muito ambientais, que retratam os anos difíceis de luta contra um cancro da garganta. As canções são sóbrias, como sempre,  com produção e arranjos discretos. Há uma canção em particular que é a razão desta escolha, “Life, Life” - um hino tranquilo à necessidade de superarmos os dias mais complicados, pensando na vida. A voz é a de David Sylvian, um colaborador de longa data de Sakamoto. É o décimo sexto álbum a solo do autor, bem diferente da fase mais pop de há alguns anos. Em “async”, disponível no Spotify, melodias e texturas sonoras - a grande matéria prima da obra de Sakamoto - desenvolvem-se de forma natural, colando os temas uns aos outros. Sakamoto, um homem que fez algumas das mais marcantes bandas sonoras para cinema (Merry Christmas Mr. Lawrence, The Last Emperor ou The Revenant), diz que concebeu este disco como uma banda sonora imaginária para um filme de Andrei Tarkovsky. “Life,Life”, a canção que marca o disco, foi feita a partir de um poema do pai do cineasta, o famoso poeta russo Arseny Tarkovsky. Aqui fica um excerto do que Sakamoto escolheu e Sylvian interpretou:

To one side from ourselves, to one side from the world

Wave follows wave to break on the shore

On each wave is a star, a person, a bird

Dreams, reality, death - on wave after wave

No need for a date; I was, I am, and I will be

Life is a wonder of wonders

 

O Velho Expresso da Patagónoa - Terra Incognita (

A VIAGEM - “O Velho Expresso da Patagónia”, uma das obras de referência de Paul Theroux, foi editado em 1979 e chega agora a Portugal pela mão da Quetzal na colecção Terra Incógnita, que a editora  criou para reunir “títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento.” Paul Theroux tinha acabado de publicar “O Grande Bazar Ferroviário”, em 1975, quando iniciou a escrita deste livro prodigioso: entrar na estação de metro mais perto de casa arrastando a mala, mudar para o comboio daí a pouco e percorrer dois continentes inteiros, a América do Norte e a América do Sul… até terminar às portas da Patagónia e da Terra do Fogo, onde chegava o pequeno e velho comboio que designa como Expresso da Patagónia”.

Este livro, que chega oportunamente quando viajar está a ficar um prazer proibido, é considerado uma referência central e indispensável que mudou a história da literatura de viagens. A narrativa relata a viagem, de comboio em comboio, de fronteira em fronteira, do México à Costa Rica, do Panamá à Guatemala e aos Andes até à mítica linha ferroviária da Patagónia argentina. «Theroux não embeleza nenhum cenário, não se comove com romantismos literários, não cede nunca: quer procurar histórias e entrevistar gente que não figura nos romances», escreve Francisco José Viegas o editor da Quetzal, na introdução ao livro.



A COZINHA - Estamos pois confinados às nossas casas, façamos o melhor da situação. Esta é uma boa ocasião para vasculhar a dispensa e despachar algumas das coisas que estão por lá. Hoje estou numa de latas e nesta semana dedico-me às conservas e começo pelas de atum. Desde que seja uma das felizmente numerosas boas marcas, qualquer serve e nem tem que ser atum ao natural (o Tenório em azeite é o meu preferido). Ingredientes para quatro pessoas: duas latas de atum, conteúdo escorrido e desfeito; uma lata de tomate em cubos (prefiro) ou triturado; gengibre fresco; alcaparras ou azeitonas aos pedaços; azeite; esparguete ou tagliatelle. Coloque pedaços finos de gengibre fresco no azeite, acrescente o tomate e deixe cozinhar em lume brando, até borbulhar. Não uso propositadamente cebola para a coisa ficar mais leve, mas, se quiserem, experimentem cortar umas rodelas finas de alho francês e usem-no como base, junto com o gengibre, antes de deitarem o tomate. Nessa altura, já a borbulhar deito o atum desfeito e as alcaparras ou azeitonas e mexo tudo bem.  Ao lado cozam em água abundante, já a ferver, temperada com sal e um fio de azeite, a quantidade de massa que entenderem necessária durante o tempo recomendado para cada marca (eu tiro-a sempre um minuto antes não só para ficar al dente, mas também para acabar de cozinhar no molho). Depois de escorrida a massa atirem-na para dentro do molho, envolvam-na bem e deixem acabar de cozinhar mais um minuto antes de a levarem para a mesa. Pimenta a gosto, um pouco de cebolinho também não fica mal. É um petisco simples e rápido de preparar. Cozinhar não deve ser um stress - mas sim um momento criativo. Juntem outros ingredientes, usem outras massas, coloquem outras coisas no molho. Divirtam-se.



DIXIT - "Só se salvam vidas e saúde se entretanto a economia não morrer" - Marcelo Rebelo de Sousa

 

BACK TO BASICS - “No caso de doença generalizada há duas coisas a fazer: ajudar a curar e evitar piorar as coisas” - Hipócrates

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