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O MANDRAKE DA POLÍTICA PORTUGUESA

por falcao, em 14.06.24

 

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SOBRE O ILUSIONISMO NA POLÍTICA -  Estava eu sossegado a seguir a noite eleitoral quando, na declaração final, Pedro Nuno Santos, todo ufano, reivindicou a vitória eleitoral nas europeias para a esquerda, não apenas para o PS. Dizia ele, logo no arranque da sua declaração, empolgado, que a esquerda tinha sido maioritária nestas eleições, iludindo a grande perda de votos dos seus parceiros de geringonça, Bloco e PC, além da perda de um mandato pelo PS, em relação às europeias de 2019. Sem pudores anunciou que, não contando com o Chega, a esquerda tinha sido vencedora no domingo passado. Eis o que ía na sua cabeça: se somarmos o resultado do PS ao BE, CDU e Livre temos um total de 45,01% dos votos; se por golpe mágico do líder do PS não se contar com o Chega e somarmos a AD à IL temos 40,1% dos votos. Portanto, tudo certo? Não - o malabarista político que dirige o PS colocou o Chega de fora das contas, porque se o somarmos à IL e à AD o total é de 49,9%. Pedro Nuno Santos passa a vida a colar o PSD ao Chega, mas quando lhe dá jeito à conversa, faz de conta que não é nada. Felizmente logo a seguir fez-se luz e percebi o raciocínio do ilusionista Santos: tão enlevado anda em votações conjuntas com o Chega que o colocou do seu lado. Assim os votos da Cheringonça de facto são maioritários, ultrapassando os 50%. Em matéria de finanças públicas já conhecia a contabilidade criativa do PS. Na noite eleitoral fiquei a saber que os seus matemáticos também são capazes de criatividade na interpretação dos resultados das eleições. Hoje em dia, mesmo quando pouca coisa me surpreende, há sempre lugar para me espantar com o descaramento de figuras como a que agora dirige o PS. Mas adiante e passemos para a Europa onde a abstenção foi de 49%, que compara com os 62,1% registados em Portugal. O balanço global na Europa é que a direita avança e a esquerda retrocede. No entanto o bloco central europeu, que agrupa populares, social-democratas, liberais e verdes, conseguiu 63% dos votos, retendo a maioria, apesar do avanço da ultradireita no tradicional eixo do mal europeu, o bloco franco-alemão, além da consolidação dos resultados que a direita obteve na Itália e na Áustria. Talvez Pedro Nuno Santos pudesse olhar para o que se passa na Europa e repensar a política de alianças do PS em Portugal.


SEMANADA - Estão referenciadas 2854 casas devolutas em Lisboa, que correspondem a 5,19% de um universo de 55.000 habitações em toda a cidade; nos últimos dez anos Lisboa perdeu 30% dos seus habitantes tradicionais; as previsões do Ministério da Educação apontam para que até final do ano se reformem cerca de 4700 professores dos vários graus de ensino; em quatro anos duplicou o número de imigrantes a trabalhar na agricultura e turismo; os alunos do secundário da grande Lisboa, Algarve e Alentejo são os que têm mais dificuldades em concluir os vários ciclos do ensino secundário no tempo previsto; entre janeiro e abril foram assaltadas 3867 casas, número que compara com os 4086 ocorridos em idêntico período do ano passado; no primeiro trimestre do ano o Estado arrecadou em impostos provenientes dos jogos online cerca de 86 milhões de euros, mais 36% que em igual período do ano passado; em Portugal a taxa de emprego de quem termina o ensino superior situou-se em 86,8% em 2023, abaixo da média europeia de 87,7%; e a Estónia, com 96,7% foi o país com média mais alta; se todos os planos industriais e de serviços  previstos para Sines forem para a frente representarão 60% de todo o consumo de electricidade feito em Portugal.

 

O ARCO DA VELHA - Nestas europeias a Comissão Nacional de Eleições quis proibir que jornalistas reportassem declarações de candidatos e que informassem sobre números de votações noutros países que estavam no site do Parlamento Europeu. 

 

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UMA COLECÇÃO  - O Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, foi distinguido pela Associação Portuguesa de Museologia como Museu do Ano em 2024. A sua Exposição de Longa Duração, reúne uma das mais importantes colecções de arte portuguesa do século XIX, ao todo 1133 peças distribuídas por 27 salas. Desde há algumas semanas o Soares dos Reis acolhe também o quadro “Descida da Cruz” (na imagem), cedido pela Fundação Livraria Lello que comprou a obra recentemente, numa feira de arte em Maastricht, depois de o Estado não ter feito nada para travar a sua saída do país. ‘Descida da Cruz’, uma pintura sacra datada de 1827, faz parte de um grupo de quatro pinturas tardias de Domingos Sequeira, executadas em Roma, onde o artista morreu em 1837. Domingos Sequeira é considerado como o mais talentoso e original pintor português do seu tempo, tendo desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da arte portuguesa de início do século XIX. o Museu Soares dos Reis dispunha já de alguns estudos preparatórios de Domingos Sequeira para a elaboração de “Descida da Cruz”. O quadro e os desenhos referidos estão na mesma sala onde se encontram  quatro óleos e um conjunto significativo de desenhos de Domingos Sequeira, que fazem parte da colecção do Museu. Filho de um barqueiro e nascido no seio de uma família pobre, em 1768, Domingos Sequeira foi educado na Casa Pia, onde frequentou o curso de Desenho e Figura. Depois, graça a uma  bolsa real concedida por D. Maria I estudou pintura e desenho com Antonio Cavallucci, em Roma. De regresso a Lisboa foi  nomeado por D. João VI,  pintor da corte e corresponsável da empreitada de pintura do Palácio da Ajuda. Foi ainda professor de Desenho e Pintura da Família Real e, em 1806, dirigiu a aula da Academia de Marinha, Porto. Aqui está mais uma razão para visitar este belo museu do Porto.

 

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ROTEIRO -  Até 3 de Novembro, no Porto, na Galeria Contemporânea do Museu e Capela da Casa de Serralves, Sara Bichão apresenta “Lightless” (na imagem), que apresenta como uma reflexão sobre a brevidade e fragilidade da existência humana, mas também da transitoriedade dos objetos, das matérias e da própria natureza, num trabalho que explora a luz e a escuridão com curadoria de Inês Grosso. Na Zet Gallery, em Braga, (Rua do Raio 175) até 6 de Julho, João Tabarra apresenta "Teimosamente persisto em adorar a liberdade livre.", um conjunto de quinze trabalhos, alguns dos quais inéditos, que exploram as possibilidades da fotografia e da imagem em movimento, com curadoria de Helena Mendes Pereira. Na Rialto ( Rua do Conde Redondo 6), duas exposições: “Outro” com pintura e escultura de  Fernão Cruz e “Verónica” de Rita Ferreira, ambas até 19 de Julho. Na Galeria Foco, (Rua Antero de Quental 55A), pode ver até 38 de Junho “Signals from Afar” de Clara Imbert, obras em metal e pedra. Na 3+1 Arte contemporânea Maria Laet apresenta até 29 de Junho Infinita Medida, Largo Hintze Ribeiro 3. Mo Museu Nacional de História Natural e da Ciência Margarida Lagarto apresenta “Uma erva e vinte pedras bordadas” até 30 de Junho. Finalmente em Évora, no Museu nacional Frei Manuel do Cenáculo, “Devir Paisagem” é uma exposição colectiva com obras de Cristina Ataíde, Liana Nigri, Luzia Simons, Marcelo Moscheta, Marlon Wirawasu, Moara Tupinambá, Patrícia Bárbara, Pedro Vaz, Renata Cruz, Renata Pandovan, Tatiana Arocha e Vera Mantero, com curadoria de Lilian Fraiji.

 

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RELER OS LUSÍADAS - É curioso notar como, ao contrário do Governo anterior, a iniciativa editorial portuguesa, dedicou especial cuidado ao lançamento de uma série de livros, importantes, sobre Luís de Camões e a sua obra, por ocasião do quinto centenário do seu nascimento, ocorrido a 10 de Junho.  Uma dessas recentes edições é Luis de Camões - uma antologia”, preparada por Frederico Lourenço. Esta antologia permite ler as passagens mais brilhantes de “Os Lusíadas” e das “Rimas”, além de uma selecção de outros poemas. Inclui ainda uma introdução de Frederico Lourenço onde é abordado o papel de Camões no seu tempo, como a sua obra tem sido interpretada e analisada, incluindo as questões mais contemporâneas relacionadas com a interpretação política actual das descobertas portuguesas. Conhecido pelo seu romance camoniano “Pode Um Desejo Imenso” e por estudos académicos sobre Camões, Frederico Lourenço explora, com elementos novos, a velha questão da presença clássica na obra camoniana, não deixando de enfrentar o problema de como lê-la à luz das mentalidades contemporâneas. Além da introdução, Frederico Lourenço preparou igualmente um conjunto de anotações, quer a “Os Lusíadas”, quer às “Rimas” e também anotações sobre episódios da vida do poeta. O livro termina com um delicioso e curto texto de ficção onde Frederico Lourenço traça “O retrato de Camões”. Edição Quetzal.

 

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UM CONCERTO FANTÁSTICO - O trompetista polaco Tomasz Stanko morreu em 2018 e em 2004, no auge da sua carreira fez uma digressão histórica na Europa e Estados Unidos, acompanhado pelo seu quarteto habitual. Em Setembro de 2004 deu um concerto em Munique que felizmente foi gravado e durante todos estes anos esteve guardado nos arquivos da ECM, que agora o editou sob o título “Suspended Night”. O trompetista, cuja forma de tocar por vezes faz lembrar Miles Davis, tinha constituído um quarteto que além dele próprio incluía músicos 20 anos mais novos que ele acarinhava, como o pianista Marcin Wasilewski, o baixista Slawomir Kurkiewicz e o baterista Michal Miskiewicz. A gravação reproduz esse concerto  no Muffathalle de Munique ao longo de 11 temas e mais de uma hora de excelente música. Os três jovens músicos de então permaneceram juntos depois da morte de  Stanko, no Marcin Wasilewski  Trio. Qualquer destes três músicos, na altura todos abaixo dos 30 anos, tem uma papel importantíssimo nesta gravação, com o piano fornecendo o apoio musical aos solos de Stanko e a secção rítmica a desbravar caminhos. O disco agora editado a partir da gravação do concerto de Munique teve produção do próprio fundador da ECM, Manfred Eicher. Disponível nas plataformas de streaming.


DIXIT - “Há muita gente que tem uma concepção parcial da liberdade de expressão. Quem sabe se também de outras liberdades e de outros direitos” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “A sabedoria dos mais velhos é uma grande falácia: não ficam mais sábios, apenas mais cautelosos” - Ernest Hemingway


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UMA CAMPANHA FRAQUINHA E VAGAROSA

por falcao, em 07.06.24

 

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EUROELEIÇÕES - Se na última semana da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu se  discutiram alguns temas europeus, nas semanas anteriores o foco foi em problemas domésticos, com a agenda a ser comandada sobretudo por pequenos partidos de esquerda, que preferiram a política paroquial. Foi assim que durante semanas as políticas da saúde, a questão do aborto ou da habitação foram chamadas à liça e ocuparam a maior parte do tempo de debates, com raras incursões nas políticas de emigração, ambientais e pouco mais. De início temas como a guerra da Ucrânia, assunto desagradável à esquerda do PS, esteve arredada de conversas, num silêncio cúmplice com Putin. Pelas mesmas razões, da política de defesa também pouco se ouviu falar. Mas se a política de imigração, os impostos e fundos europeus e o alargamento da União Europeia deram ar de sua graça na última semana, continuaram sem  discussão questões tão importantes como o renascer, pela mão de Macron, sob o pretexto da refundação da Europa, do eixo França- Alemanha, com a divisão por regiões das políticas industriais baseadas no reforço desse eixo. O pano de fundo destas eleições é  no entanto o aumento das intenções de voto na direita mais radical, sem que existam grandes reflexões sobre as suas causas. Nestas europeias, na Alemanha, pela primeira vez, a idade de voto desce para os 16 anos, numa altura em que a direita radical AfD é sobretudo apoiada pelos jovens. E há recomposições - como em França, onde um candidato que se apresenta como social democrata, Raphael Gluksmann, do novo Place Publique, ameaça ficar à frente de Macron, mas atrás de Marine Le Pen. Aqui ao lado, em Espanha, também o Vox ameaça ter um resultado significativo. Já em Portugal, onde é inevitável que o resultado obtido por PS e PSD proporcione leituras nacionais, uma coisa é certa: independentemente do resultado que Sebastião Bugalho obtiver nestas europeias, ele já construíu uma rampa de lançamento no interior do PSD, palmilhando concelhias e distritais que aposto, Europa à parte,  lhe serão úteis em futuros vôos.


SEMANADA - Nos últimos 16 anos foram registados 1011 casos de tráfico de pessoas em Portugal; o aumento de tráfico de pessoas, auxílio à imigração ilegal, crimes de ódio e violência entre grupos foram os principais indicadores do aumento da criminalidade e da violência em Portugal, no último ano; em 2023 a criminalidade violenta e grave representou 3,8 por cento de toda a criminalidade participada; extorsão, resistência e coação sobre funcionários, roubo por esticão, rapto, sequestro e roubo na via pública foram os crimes violentos e graves que mais subiram no ano passado; nas questões de criminalidade sexual, o maior número de ocorrências está associado aos crimes de abuso sexual de crianças, de violação e de pornografia de menores, perpretados em esmagadora maioria por indivíduos do sexo masculino contra indivíduos do sexo feminino, em ambiente familiar, e com vítimas entre os 8 e os 13 anos; Portugal tem os agricultores mais velhos da Europa, 51,9% das pessoas que se dedicam à agricultura no nosso país têm mais de 65 anos, e há apenas 1,9% com menos de 35 anos; em Portugal a população com 80 anos ou mais quase duplicou nas duas últimas décadas;  os bancos que operam em Portugal, bem como outras entidades financeiras, comunicaram no ano passado mais de 18 mil transações suspeitas de branqueamento de capitais.

 

O ARCO DA VELHA - Na estação Alto dos Moinhos o Metropolitano de Lisboa tapou os painéis de azulejo feitos por Júlio Pomar, evocando grandes figuras da literatura portuguesa,  com máquinas de emissão de bilhetes e outros aparelhos de grandes dimensões.

 

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UMA DESCOBERTA - Volta e meia descobrimos alguém com  uma obra considerável e até agora quase desconhecido. José de Almeida Araújo foi amigo de estrelas como Jean Simmons e John Wayne, privou com Le Corbusier e também com Picasso, Henri Salvador, André Malraux e Errol Flynn. Depois de viver em vários países, voltou a Cascais, como um quase desconhecido, para terminar os seus dias. Nasceu em 1924 e morreu no passado dia 8 de maio, pouco antes de celebrar um século de vida.  Filho de pai português e mãe alemã judia, José Harry de Almeida Araújo cresceu com a família materna, em Berlim, e na adolescência viveu em Cascais. No pós-guerra, descontente com o cenário português da época, emigrou, primeiro para Paris e depois para Londres. A exposição “Almeida Araújo: Fotografia e Pintura” que está no Centro Cultural de Cascais, integra 18 telas produzidas entre 1960 e 1994, entre retratos de familiares e amigos, como um retrato de Nureyev, e representações de paisagens portuguesas, francesas e brasileiras. A pintura completa-se com fotografias feitas por Almeida Araújo, registos do quotidiano de Londres, em Inglaterra, nos anos 50 e fotografou também personalidades da política e das artes como John F. Kennedy, Jeanne Moreau, Jean Cocteau e Roger Vadim. Para além do seu trabalho de pintura e fotografia, José de Almeida Araújo foi escultor, actor e arquitecto - projetou, por exemplo, o hotel Vilalara Thalassa, no Algarve. Foi também o artista escolhido para pintar o topo da maior galeria do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, onde realizou a “Adoração da Cruz”, uma grande pintura em óleo sobre madeira. Pintou ainda retratos de Winston Churchill e da Princesa Soraya do Irão. A exposição está patente no Centro Cultural de Cascais até 23 de Junho.

 

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ROTEIRO - Hoje começo pela exposição de Rui Algarvio na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos Lote F),  Intitulada “Os Passeios Com Caronte” (na imagem) na qual  Rui Algarvio aborda a relação entre o ser humano e a paisagem. A exposição fica patente até 14 de Setembro. Na No-No Gallery (Rua de Santo António à Estrela 39), Ana Pérez-Quiroga apresenta até ao início de setembro a exposição “Estonteante”. Na Galeria das Salgadeiras (nova morada- Avenida dos Estados Unidos 53D), Rita Gaspar Vieira apresenta até 14 de Setembro “Água Viva”. Na galeria Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147), Tomaz Hipólito apresenta até dia 29 a exposição “Tension”. Uma exposição a não perder, até 22 de Junho,  é “Release The Chicken”, da moçambicana Eugénia Mussa na Galeria Monitor (Rua da Páscoa 91). Na Fundação Arpad-Szenes-Vieira da Silva pode ser vista até 7 de Julho uma exposição sobre a obra gráfica de Maria Helena Vieira da Silva sob o título “Os Frutos da Liberdade”. Na Casa da Cultura de Setúbal está patente um trabalho do fotógrafo chileno Roberto Santadreu intitulada “Trabalhar no Estaleiro”, baseada na obra literária de Juan Carlos Onetti. E na Galeria das Tapeçarias de Portalegre (Rua Academia das Ciências 2) pode ser vista a exposição “Diálogos”, que apresenta cerâmicas de Beatriz Horta Correia em simultâneo com tapeçarias de  Cruzeiro Seixas, Cargaleiro, Menez e Vieira da Silva.

 

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OUTRA LISBOA - Neill Lochery é um historiador britânico que se tem debruçado em particular sobre os anos 40 e 50 no contexto da segunda grande guerra. Há alguns anos escreveu "Lisboa: A Guerra nas Sombras da Cidade da Luz, 1939- 1945" onde relatou os resultados da sua investigação sobre o papel central de Lisboa nos confrontos entre os serviços de espionagem dos aliados e da Alemanha nazi e as suas relações com as autoridades portuguesas de então. No novo livro "Lisboa II - Os Países Neutros e a Pilhagem Nazi", aborda o papel de Portugal, no pós-guerra.  Com base  em informação inédita, Lochery revela os meandros da fuga dos tesouros roubados pelos nazis e o papel que Portugal teve no desaparecimento de obras de arte de colecionadores judeus, como os Rothschild, e a galeristas importantes, como Paul Rosenberg, de Paris. Segundo Lochery durante a II Guerra Mundial os nazis saquearam cerca de 20 por cento da arte e dos tesouros europeus, entre elas obras dos artistas mais importantes de todos os tempos como Pablo Picasso e Vincent van Gogh. Este "Lisboa II" relata a fascinante história da corrida dos aliados para recuperar estes bens roubados antes que desaparecessem, e antes que a vontade de punir a Alemanha fosse substituída pelas considerações políticas da Guerra Fria, que se aproximava rapidamente. Neill Lochery dá a conhecer os meandros da fuga dos tesouros roubados pelos nazis e a passagem por Lisboa de muitos deles. Aborda também a relação entre os serviços secretos alemães e a PVDE e posteriormente a PIDE e a forma como Salazar seguia o que se passava. Com uma escrita empolgante, este “Lisboa II” permite  ter uma imagem que muitos desconhecem do que se passava em Lisboa nos anos do pós guerra. Edição Casa das Letras. 

 

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UM DISCO ESPECIAL  - A saxofonista Melissa Aldana nasceu em Santiago do Chile mas estudou e vive nos Estados Unidos. O seu primeiro disco data de 2010 e em 2019 foi nomeada para os Grammys com o álbum “Visions”.  Em 2022 gravou com o seu quinteto o álbum “12 Stars” e agora editou “Echoes of the Inner Prophet”. O disco é um espelho da evolução do seu grupo, onde, além de Aldana no sax tenor, participam Lage Lund na guitarra, Fabian Almazan no piano, Pablo Menares no baixo e Kush Abade na bateria. Este quinteto, que realizou uma extensa digressão, é já considerado uma das mais interessantes formações do jazz contemporâneo. Com arranjos e produção de Lund, que com ela trabalha há alguns anos, o  novo álbum é assumidamente uma homenagem a Wayne Shorter, por quem Aldana tem uma enorme admiração. A maior parte das oito composições são suas, mas há uma de Lund, “I Know You Know”e outra de Menares, “Ritual”, com a participação do brasileiro Guinga. Outros temas, como “Unconscious Whisper”, “The Solitary Seeker” e “A Purpose” ou “Cone of Silence”, mostram a forma muito particular com que Aldana cria a sua estética sonora, baseada em improvisações que depois evoluem de forma envolvente em perfeita articulação com os seus músicos. O disco está disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Hoje, o tema económico mais central na UE é a estagnação da nossa produtividade e a perda de terreno em relação aos outros grandes blocos económicos. Nos últimos 20 anos, a distância que separa a riqueza de um europeu médio em relação a um americano médio aumentou de forma considerável.” - Ricardo Reis

 

BACK TO BASICS - “Todos reivindicam mudanças desde que elas não os afetem pessoalmente” - anónimo 

 

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SOBRE A INVEJA NA POLÍTICA

por falcao, em 31.05.24

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O RADICAL DE FALINHAS MANSAS - Durante oito anos o PS esteve no poder, sozinho e coligado. Conseguiu contas certas com truques contabilísticos que se vão descobrindo e com um custo social enorme, instituindo uma austeridade mal disfarçada que degradou serviços públicos e atingiu os profissionais da saúde, da educação, da justiça e da segurança, entre outros. Paralisou-lhes as vidas e as carreiras, agravou assimetrias e criou o caos em várias áreas. Afastou gente das profissões para que tinha estudado, fomentou a ida de muitos  recém formados para o estrangeiro. O governo que agora lhe sucedeu começou a negociar com sectores profissionais e foi conseguindo traçar um caminho para a recuperação das situações mais complicadas. É neste quadro que o novo líder do PS, Pedro Nuno Santos, tem a supina lata de dizer que o governo de Luís Montenegro apenas está a fazer aquilo que o PS queria fazer - mas na realidade não fez. Diz que as medidas agora tomadas eram suas e, como um invejoso, clama que não há direito que outros as tomem. Não analisa as políticas, protesta apenas contra serem tomadas sem ser por ele. Pior, com falinhas mansas bloqueia a sua execução, dificulta a sua implementação e chama para o ajudar nessa tarefa o PCP e o Bloco de Esquerda, como se vê, nomeadamente,  em relação aos professores. No parlamento fomenta uma aliança tácita com o Chega com o único objectivo de dificultar a acção do Governo. Tal como António Costa nos últimos anos, Pedro Nuno Santos utiliza o Chega como ferramenta de combate ao PSD, extrema as posições, querendo eliminar o centro político e fazer crescer blocos nos extremos. E, no entanto, soube-se por uma sondagem divulgada esta semana, os eleitores socialistas são os mais entusiastas de um Governo apoiado no parlamento por PSD, CDS e PS. Pedro Nuno Santos não está interessado em melhorar a vida das pessoas, apenas em prosseguir a radicalização da sociedade portuguesa. 

 

SEMANADA - As indústrias tradicionais, que representam 60% das exportações portuguesas,  perderam 873 milhões de euros de facturação nas vendas ao estrangeiro realizadas nos últimos 12 meses; o preço do azeite aumentou 49% em relação a 2023; o número de alunos no ensino superior é 7 vezes maior que há 50 anos; a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens recebe 140 comunicações de menores em situação de risco; a maioria dos condenados por abuso sexual de crianças, nos últimos cinco anos, não foi alvo de pena acessória de proibição de lidar com menores de 18 anos; das 26 mil vítimas de violência doméstica que foram apoiadas no ano passado, 46% continuaram a viver com o agressor seja por falta de capacidade económica, falta de vagas em casas de abrigo ou dependência afectiva dos agressores; menos de 10% das câmaras municipais tem plano para a integração de migrantes; os preços dos imóveis comnerciais estão a subir há dez anos e em 2023 esse aumento foi de 5,5%, a maior subida desde 2009; nos últimos dez anos, cerca de 840 milhões de euros de água já tratada e não faturada foram desperdiçados devido a fugas na  rede de distribuição revela a revista da Deco Proteste; segundo a mesma publicação existem 87 municípios, dos 278 municípios do continente, com aumentos nas perdas reais de água; segundo a Sociedade Ponto Verde desde 1996 os portugueses já colocaram em ecopontos mais de 10 milhões de toneladas para reciclagem.

 

ARCO DA VELHA -  A linha ferroviária da Beira Alta está encerrada desde Abril de 2022, o prazo inicial das obras, que era de 9 meses, já foi em muito ultrapassado e não há indicação de quando voltará a funcionar.

 

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RETRATOS AMERICANOS  - Andres Serrano, um artista norte-americano que nasceu em 1950 e iniciou a sua carreira nos anos 80, estudou pintura e escultura e só depois se dedicou à fotografia, combinando a tradição clássica com a cultura pop. Em 2006 a então colecção de fotografia do BES (hoje colecção de fotografia novobanco), adquiriu a série “Des Américains II 2002-2004” , que integra 52 imagens. Estas imagens, baseada na técnica clássica da fotografia de estúdio, reinterpretada na edição digital e usando saturação de côr, apresenta retratos de pessoas das mais diversas origens e profissões, de bombeiros a actores, de anónimos a figuras como B.B. King. O autor apresenta este trabalho como uma reflexão feita após o 11 de Setembro de 2001, sobre as contradições da sociedade americana. Esta série de fotografias tinhas sido mostrada em duas ocasiões, uma em 2008 no Museu Coleção Berardo e outra na inauguração do campus da Nova SBE, em 2018. Nesse mesmo ano a colecção de fotografia novobanco, foi premiada no Parlamento Europeu  com o galardão:  “For Outstanding Photography Collection - XXI   Century Living Artists, Corporate Art Awards, que identifica, reconhece e promove a excelência e as melhores práticas na colaboração entre o mundo corporativo e a arte internacional , através de colecções corporativas.  Agora o trabalho de Andres Serrano pode ser visitado até final de Outubro nas instalações da colecção de fotografia do novobanco na Praça Marquês de Pombal 34 de 2ª a 6f das 9h às 18h.



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ROTEIRO -  Depois da agitada semana que a ARCO trouxe a Lisboa vale a pena retomar com calma o percurso das galerias privadas. Na Galeria Diferença Pauliana Valente Pimentel apresenta até 24 de Junho uma nova série de 18 fotografias sob o título New Age Kids (na imagem). Desde 2010 Pauliana Valente Pimentel tem concentrado o seu trabalho sobre situações culturais e políticas que afectam a juventude, documentando o quotidiano de jovens que integram grupos marginalizados. Na série New Age Kids a autora debruça-se sobre questões de género e foca-se em  jovens lisboetas que não se identificam com um género normativo. Na Fundação Carmona e Costa (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1- 6º, de quarta-feira a sábado, 15h – 20h ) Irene Buarque, uma artista brasileira que trabalha e vive em Portugal desde 1973 apresenta até 14 de Setembro, Uni Verso  Plural, com trabalhos de mais de 50 anos de carreira,  de pintura, serigrafia, gravura,  cerâmica, escultura em pedra, livros de artista, fotografia, cenografia, arte pública e instalação. Na Galeria Belo Galsterer (Rua Castilho 71 r/c) pode ser vista até 27 de Julho uma dupla exposição, “Delay” de Tomaz Hipólito e “Battered Fields “ de  Wolfgang Wirth. Tomaz Hipólito apresenta um trabalho de animação e desenho e Wolfgang Wirth explora através da pintura a óleo referências cartográficas. Na galeria “Arte Periférica” (lojas do CCB) Isabel Garcia apresenta até 20 de Junho  “Save Our Ship”, um trabalho de pintura que é uma reflexão não panfletária sobre a situação do planeta. Na Galeria das Tapeçarias de Portalegre (Rua Academia das Ciências 2) pode ser vista a exposição “Diálogos”, que apresenta cerâmicas de Beatriz Horta Correia em simultâneo com tapeçarias de  Cruzeiro Seixas, Cargaleiro, Menez e Vieira da Silva .

 

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A NOVA ORDEM Paulo Nogueira, jornalista brasileiro que colaborou regularmente com o extinto «Independente», e outros jornais portugueses, como o «Expresso», o «Público», ou o «Correio da Manhã», fala-nos de um ocidente em crise no seu novo ensaio, “O Cancelamento do Ocidente” , que tem um longo subtítulo «A sociedade que criou a democracia e o Estado de Direito está a autodestruir-se. Como? Porquê?» Segundo o autor, «a sociedade que criou avanços universais como a democracia debate-se não só com oposições externas, como os autoritarismos e os fundamentalismos orientais, mas com o fogo amigo entrincheirado nas suas próprias elites, que – ricas e mal-agradecidas – odeiam, envergonham-se e rejeitam todo o passado ocidental, cuspindo no prato em que comem caviar.» Paulo Nogueira critica a forma como o movimento woke tem vindo a assaltar a universidade,  fala-nos de uma identidade ocidental que definha, e que considera corrompida por uma erosão patológica na sua auto-estima. Sublinha Paulo Nogueira que, «em dez anos, fomos subjugados por uma estrambólica retórica: «teoria crítica da raça», «ideologia de género», «teoria queer», «pós-colonialismo», «masculinidade tóxica», «racismo estrutural», «fragilidade branca», etc.» e que hoje o Ocidente surge para os novos totalitários como  é o inimigo público número um. Contudo lembra os recursos inestimáveis da civilização ocidental: «do humor à democracia, da arte à meritocracia, da tolerância à ciência. Cabe aos ocidentais escolherem, enquanto ainda há liberdade de expressão.» Edição Guerra e Paz .

 

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A GUITARRA NA ORQUESTRA - Bill Frisell é um dos mais destacados guitarristas de jazz norte-americanos, com uma sólida carreira ao lado de nomes como John Zorn ou Paul Motian, além de numerosas colaborações em sessões de gravação. Muitas vezes colaborou com Michael Gibbs, que agora chamou para o seu lado no mais recente e ambicioso projecto - um álbum gravado com uma orquestra filarmónica e uma de jazz, intitulado Orchestras (Live). Gibbs fez os arranjos para os 59 músicos da Orquestra Filarmónica de Bruxelas e para os 11 da Umbria Jazz Orchestra, que acompanharam o trio de Bill Frisell: o próprio na guitarra, Thomas Morgan no baixo e Rudy Royston na Bateria. Nove temas com a filarmónica, sete com a Umbria Jazz. O resultado é brilhante e sente-se o contraste entre o som envolvente e frequentemente romântico da Filarmónica de Bruxelas e as sonoridades mais descontraídas e cruas da Umbria Jazz Orchestra. Logo no primeiro tema percebe-se o trabalho cuidadoso de Frisell a dedilhar a sua guitarra, como uma conversa sussurrada entre a sua guitarra eléctrica e a secção de cordas da filarmónica. Vale a pena ouvi o trabalho de Gibbs nas orquestrações de temas clássicos como Lush Life e Beautiful Dreamer, os seus arranjos em  composições de Frisell, como Strange Meeting, Lookout for Hope, Monica Jane ou o magnífico Throughout, ou, a encerrar, uma versão arrebatadora de We Shall Overcome. Existe também uma versão em vinil, um triplo LP, com o disco adicional baseado em gravações de concertos do trio de Frisell com temas como Be That as It May, Moon River ou What The World Needs Now is Love. A edição é da Blue Note e está disponível em streaming.

DIXIT - “ Se a liberdade de expressão consiste em pronunciar as frases aceites e os conteúdos admitidos, não há liberdade. Temos eventualmente um belo coro, mas liberdade, não” - António Barreto

BACK TO BASICS - “Os dois elementos mais comuns no Universo são o Hidrogénio e a estupidez” - Harlan Ellison

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O CANCELAMENTO DA CRIATIVIDADE

por falcao, em 24.05.24

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 TIRANETES - Há alguns meses, no âmbito da participação da Selecção Nacional de Futebol Feminino no Mundial da modalidade, o Banco que é o patrocinador da equipa portuguesa e da respectiva Federação fez uma campanha publicitária, desenvolvida pela Dentsu Creative, com o título “É Uma Menina!”. O spot publicitário conta a história da vida de uma rapariga que se supera, quer jogar futebol ao mais alto nível e atinge o seu sonho, de integrar a Selecção. No YouTube o filme teve mais de cinco milhões de partilhas. Com uma realização claramente emotiva, desde o nascimento e a reacção da família ao ver que era uma menina, até ao seu esforço e à sua presença no estádio integrada na  Selecção.  Esta é sobretudo a história de como não deve haver barreiras no desporto entre géneros e que, com esforço, tudo pode ser possível. Pois este filme  foi eliminado da shortlist dos prémios do Clube de Criatividade de Portugal porque parte do júri acusou a campanha de ser machista, instalando-se uma polémica sobre a igualdade de género que acabou por ditar a sua saída da shortlist final, apesar de uma decisão inicial em sentido contrário. Esta situação é o espelho daquilo que se está a passar hoje em dia, nas mais diversas áreas, quando opiniões ideológicas  prevalecem sobre a liberdade de expressão. O que agora lamentavelmente se passou, num júri publicitário, nasce do clima desenvolvido por pessoas que querem impôr a sua própria opinião acima de tudo o resto. E estas pessoas conseguem criar um clima de intimidação e desconforto que inclusivamente levou elementos do júri a mudar de posição, talvez receosos de serem esmagados pelo batalhão dos novos censores. Já tínhamos visto esta política de cancelamento em universidades, no cinema, na literatura. Chegou agora à publicidade, esse terreno de criatividade e liberdade. Quem diria que os criativos albergam censores em nome dos bons costumes?  É sempre em nome dos bons costumes que tudo de mau se passa no campo da censura. No passado, em nome dos bons costumes, também conhecemos censura precisamente nas áreas mais criativas, nos jornais, espectáculos e filmes, arredando jornalistas, músicos, actores, realizadores e argumentistas do trabalho com base em preconceitos ideológicos e da pureza das ideias. Há gente que deseja que a liberdade já não passe por aqui.

 

SEMANADA - Quase 7% dos bebés nascidos na última década foram de mães que já tinham ultrapassado os 40 anos e mais de 17% dos bebés nasceram de pais que não viviam juntos; segundo um estudo do ISCSP,  50 anos após o 25 de Abril o fraco desempenho da justiça e dos tribunais e a falta de combate eficaz à corrupção são as principais queixas dos portugueses; pela primeira vez o número de estudantes do ensino anterior que recebem bolsa de estudo ultrapassou os 80 mil; em 2023 existiam 575 mil idosos a viver sozinhos; apenas 5% das mensagens publicitárias divulgadas por influenciadores cumpre a lei; as mortes por doenças do aparelho respiratório e por tumores malignos representam quase metade dos óbitos registado em Portugal; Lisboa foi a terceira cidade do mundo com mais congressos em 2023; o número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção é o mais baixo dos últimos 18 anos; um em cada quatro utentes do SNS na  região de Lisboa e Vale do Tejo não tem médico de família; em Portugal, segundo o INE, 90% da população tem acesso à internet e, segundo a Marktest, há 6,3 milhões de portugueses que utilizam regularmente redes sociais, com o Facebook a liderar; em 2023 cerca de 70% dos portugueses usaram redes sociais, um valor acima da média da União Europeia; em 2022 foram dadas metade das licenças de construção de há 30 anos. 

 

O ARCO DA VELHA - Um estudo recente indica que em Portugal cerca de 20% dos trabalhadores referem sofrer ameaças ou outras formas de abuso nos seus locais de trabalho e sintomas de ‘burnout’ ameaçam quase 80%.

 

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A VIDA NO ATELIER - Devo começar por fazer uma declaração de interesse. Durante os últimos meses trabalhei com a equipa que acompanhou Pedro Cabrita Reis na exposição Atelier, uma viagem pelos seus 50 anos de carreira artística e que abriu na semana passada nos pavilhões da Mitra, em Marvila. Não serei a pessoa mais isenta a olhar para o resultado, mas creio que esta exposição, que é talvez a maior antologia de trabalhos de um artista contemporâneo já apresentada, pode surpreender os visitantes e dar uma visão da diversidade e qualidade da obra de Pedro Cabrita Reis. A exposição tem mais de 1500 trabalhos do artista, com várias técnicas e em diversos suportes, feitos ao longo desses 50 anos. Os primeiros datam ainda da adolescência, antes de ingressar em Belas Artes e os mais recentes foram feitos entre finais de Abril e início de Maio deste ano, no próprio local onde decorre a exposição. Podem ser vistas pinturas, desenhos, esculturas, cerâmica e fotografias que se sucedem sem ordem cronológica, replicando a ideia do trabalho em construção num atelier. Nalguns casos há imagens que mostram obras feitas  propositadamente para um determinado local, por exemplo, uma barragem, ou estudos para outras, como As Três Graças, expostas no Jardim das Tulherias, no Louvre, em 2022. A exposição desenvolve-se em oito pavilhões da Mitra e num jardim contíguo onde está uma escultura metálica e pode ser vista até 28 de Julho, de quinta a domingo, entre as 14 e as 18 horas.

 

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ROTEIRO -  Esta semana todos os caminhos vão ter à Cordoaria, na zona da Junqueira, em Lisboa. Até domingo 26 ali decorrerá a sétima edição da Feira de Arte Contemporânea de Lisboa, a ARCO. Nesta edição um dos temas fortes é a reflexão sobre a criação artística contemporânea e a descoberta de novos projectos e também “As Formas do Oceano”,uma secção que trará projectos centrados nas relações entre África e a diáspora africana. Na edição deste ano participam 84 galerias, de 15 países, que mostram obras de 470 artistas. Paralelamente à realização da ARCO decorre no Torreão Nascente da Cordoaria uma exposição organizada pelas galerias municipais e que mostra as aquisições de obras de arte realizadas pela Câmara Municipal Lisboa para a sua coleção. A ARCO Lisboa está aberta ao público de sexta 24 até domingo 26, entre as 12 e as 20 horas na sexta e sábado e entre as 12 e as 19 horas no Domingo. Em grande número de galerias de Lisboa realizam-se iniciativas complementares da feira durante toda esta semana. Mas há mais coisas em Lisboa e entre elas destaco a exposição que inaugurou na Cristina Guerra Contemporary Art, “Discipline of Subjectivity” (na imagem) . O  artista austríaco Erwin Wurm apresenta até 29 de Junho trabalhos recentes como esculturas em vidro Murano, alumínio,  poliéster, resina acrílica, bronze polido e pintura a acrílico sobre tela. Rua de Santo António à Estrela 33.

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O LIVRO MAIOR  - Aqui está uma edição de “os Lusíadas”  que surge no tempo certo - o novo aeroporto irá chamar-se Luís de Camões, cujo quinto centenário do nascimento tem sido ignorado pelos poderes do pensamento conveniente. A sua obra “Os Lusíadas” , que é hoje alvo dos que querem calar a realidade e travar o conhecimento, tem uma edição que celebra Luís de Camões, e que inclui também a reflexão com que Jorge de Sena intelectualizou e conceptualizou as emoções que o poema encerra. “Os Lusíadas de Luís de Camões e a Visão Herética de Jorge de Sena” é o nome desta edição. Na abertura está uma curta apresentação descritiva, que Sena escreveu para a Enciclopédia Britânica, em 1972, e a que se deu o título «Sobre os dez cantos de Os Lusíadas (1972)». Segue-se, “Os Lusíadas” de Luís de Camões na sua versão integral, e a edição fecha com um incontornável texto de Jorge de Sena, escrito em Fevereiro de 1972, para um simpósio camoniano na Universidade de Connecticut, por ocasião da comemoração do 4.º centenário de Os Lusíadas, intitulado «Camões: novas observações acerca da sua epopeia e do seu pensamento». Como Jorge de Sena escreveu, “Camões jamais perde uma oportunidade de sublinhar ou afirmar a sua mensagem de liberdade”. À falta de comemorações oficiais, esta é uma boa forma de assinalar o 5.º centenário do nascimento de Camões, que terá ocorrido em dia incerto, entre 1524 e 1525. A edição, da Guerra & Paz,  é feita com o apoio da Fundação Gulbenkian, um livro de capa dura, faces do miolo pintadas à mão, lombada à vista. Uma delícia, para ler, folhear e ver.

 

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SEDUÇÃO SONORA - É muito difícil ouvir a voz de Beth Gibbons sem pensar logo nos Portishead, apesar de o último disco da banda, “Third” ter sido editado em 2008, há 16 anos portanto. Agora, quando comecei a ouvir “Lives Outgrown”, o álbum a solo de Gibbons revelado neste mês, após anos de silêncio invadiu-me um misto de saudade e surpresa. Saudade porque esta voz e esta maneira de fazer música e cantar era há muito desejada; e surpresa, porque o resultado supera as expectativas, as minhas pelo menos. Fazer um regresso depois de um interregno tão grande nunca é coisa fácil, manter a coerência criativa num território musical que mudou muito ao longo de quase duas décadas tão pouco.  Em primeiro lugar a voz de Beth Gibbons continua a ser tão intimista como as letras que escreve para as suas canções. Em segundo lugar os arranjos, que ela própria e James Ford desenharam, são surpreendentes - e utilizam várias formas de percussão, um clarinete, violinos, um coro de vozes e um teclado Farfisa para não me alongar demasiado. Mas é talvez graças à percussão de um ex Talk Talk, Lee Harris, que as coisas verdadeiramente mudam de figura. Este disco esteve onze anos em preparação e sente-se que houve tempo para pensar a melhor forma de concertar o passado com o presente e abrir pistas para o futuro. Claro que há uma evocação da folk music, evocação em que as guitarras e cordas têm papel, como na faixa final, “Whispering Love” ou em “For Sale”, mas também há lugar a uma incontornável elegância pop em “Floating On a Moment”, ou  à percussão que se anuncia ao lado do piano na faixa de abertura, “Tell Me Who You Are Today” e reincide em “Beyond The Sun”, num exercício entre vozes e ritmos arrebatador. “Lives Outgrown” consegue ser inesperado, desafiante, elegante e sedutor. Não é pouca coisa. Disponível em streaming.

 

DIXIT - “ Destruir uma floresta para pôr painéis solares não é fantástico.” - João Manso Neto

 

BACK TO BASICS - “Estudem o passado se quiserem definir o futuro” - Confúcio



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AS ELEIÇÕES PARA O ALBERGUE - A campanha para as eleições europeias já está nas ruas, ou seja, melhor dizendo, nos ecrãs das televisões e nas feiras, festinhas e repastos de carne assada. Há uma coisa que salta desde já à vista: o PS pretende transformar esta campanha numa rampa de lançamento de António Costa para o Conselho Europeu e esse é o seu principal objectivo de comunicação. Assim o voto no PS nestas eleições será um voto em António Costa para ele dar o seu tão desejado salto para a Europa, seguindo o numeroso rol de políticos portugueses que se fartaram das maçadas lusitanas e foram arejar para organizações internacionais. Tirando António Costa, a avaliar pelos primeiros dias, os assuntos vão ficar centrados na política de defesa e no aumento do investimento europeu e de cada país nessa área, nas políticas sobre migração e no alargamento da União Europeia, nomeadamente a inclusão da Ucrânia. De fora está a ficar a questão das regulamentações ambientais e da crise climática que tem provocado fracturas consideráveis na Política Agrícola Comum e criado tensões políticas em muitos países. E, sobretudo, de fora fica a questão que paira sobre a Europa e que ninguém quer aprofundar: o que está a suceder no berço da civilização para que seja aí que a extrema direita floresça a olhos vistos e se arrisque mesmo a ser recordista no futuro Parlamento Europeu? Perceber as causas disto é olhar para os erros, fragilidades e contradições de uma União Europeia, coisa que quase ninguém quer fazer. Para o comum dos mortais a União Europeia é uma fornecedora de subsídios, uma fomentadora de corruptelas e um albergue de políticos em segunda mão e burocratas. Vai ser engraçado olhar para o número de abstenções - aqui e na média dos eleitores dos estados da União. 



SEMANADA - As reclamações contra operadoras de TVDE aumentaram 50% nos quatro primeiros meses deste anos, a UBER lidera as reclamações e cobrança indevida é a principal denúncia dos passageiros; nos últimos três anos o número de veículos registados que estão em circulação em Portugal aumentou quase meio milhão e actualmente o total já ultrapassa os 7 milhões; no final de 2022 existiam em Portugal 840 publicações periódicas, menos de metade das 1763 que existiam em 2000; mais de um quarto de publicações existentes são editadas no concelho de Lisboa, a que se seguem os concelhos do Porto, Oeiras, Coimbra e Sintra; apenas em 87 dos 308 concelhos portugueses é editada pelo menos uma publicação periódica; 83,5% dos utilizadores de internet em Portugal consomem áudio em formato digital, seja através de rádio, música ou podcasts;  nos últimos cinco anos quase 900 mil doentes faltaram a consultas que tinham agendado no SNS; o número de insolvências em Portugal cresceu 14% nos quatro primeiros meses do ano; 20% da população empregada em Portugal trabalhou a partir de casa no primeiro trimestre do ano; o número de trabalhadores despedidos até março aumentou 98% e o número de lay-offs duplicou no mesmo período; o mercado do arrendamento ganhou 145 mil casas nos últimos dez anos; crianças que vivem em contexto de violência entre os pais chumbaram quase cinco vezes mais e quase metade não termina o 12º ano.

 

O ARCO DA VELHA - Segundo o INE as rendas das casas por metro quadrado aumentaram em Abril 7,1% face ao mesmo mês de 2023. 

 

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A ARTE DAS LETRAS - É na literatura que as palavras, e as letras que as compõem, são tradicionalmente usadas no campo das Artes. Mas as letras, e o que elas representam, são também matéria prima para outras artes, como o desenho e a escultura. E foi exactamente com base em letras que Rui Sanches imaginou a sua mais recente exposição, “Words Don’t Come Easy”, que junta desenhos e escultura. No texto que escreveu para a exposição, Rui Sanches afirma que “o processo significativo da linguagem escrita é diferente da linguagem visual” e sublinha que “as letras são formas e, também, sinais simbólicos”. Rui Sanches conta também que esta exposição foi influenciada por “Le Chef-d’ouevre inconnu”, uma novela de Honoré Balzac que é “uma inspiradora meditação sobre o estatuto da obra de arte e o papel da subjectividade na sua realização”. Num dos episódios da novela surge o pintor Nicolas Poussin que Sanches diz ter exercido sobre ele “um grande fascínio”. Numa das obras principais de Poussin surge uma frase em latim, “Et in Arcadia Ego”,  frase que Sanches escolheu para trabalhar “criando uma forma escultórica para cada letra”, a escultura que está em destaque na exposição. A madeira e seus derivados continuam  a ser uma das matéria primas mais utilizadas por Rui Sanches e aqui ele utiliza contraplacado de pinho para construir as letras,  quer da frase já referida, quer das palavras “Love” e “Hate”, que foi buscar à tatuagem de Robert Mitchum no filme “The Night Of The Hunter”. Além das cinco esculturas a exposição apresenta também cinco desenhos onde a simbologia gráfica das letras é igualmente evocada. “Words Don’t Come Easy” está na Galeria Miguel Nabinho, Rua Ferreira Durão 18.

 

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ROTEIRO - Duas exposições a não perder no Centro Cultural de Cascais. Começo pela de Ruth Orkin (1921-1985), uma fotógrafa, foto-jornalista e cineasta norte-americana. Trabalhou para revistas como a “Life” e a “Look” e jornais como o “New York Times”, entre outros. Esteve muito ligada quer à cidade de Nova Iorque, quer a Hollywood, onde fotografou nomes como Marlon Brando, Tennessee Williams, Hitchcock , Lauren Bacall ou Ava Gardner. Foi também a primeira fotógrafa a expor no Museum Of Modern Art, quando a área de fotografia era dirigida por Edward Steichen. A imagem mais famosa de Orkin é “An American Girl In Italy”, aqui reproduzida. A fotografia foi feita em 1951 e nela aparece Ninalee Craig, de 23 anos, que na época era conhecida como Jinx Allen, uma pintora que lhe serviu várias vezes de modelo. A imagem fazia parte de uma série originalmente intitulada “Não tenha medo de viajar sozinha”, que foi publicada pela revista “Cosmopolitan”. Sob orientação de Orkin, Jinx passou várias vezes no mesmo local perguntando indicações a algumas pessoas que estavam naquela esquina, até a fotógrafa ter fixado este momento, que espelha a tensão entre os olhares dos homens centrados na rapariga e a atitude de Jinx. Sob o título “A Ilusão do Tempo”, esta é a primeira apresentação em Portugal da obra de Ruth Orkin. A exposição mostra  180 fotografias, além de filmes, documentos e objetos originais, como cartas, excertos de jornais e revistas, páginas do diário pessoal de Orkin, e uma câmara fotográfica. A exposição pode ser vista no Centro Cultural de Cascais até 7 de julho de 2024, numa iniciativa da Fundação D. Luís I e da Câmara Municipal de Cascais no âmbito da programação do Bairro dos Museus. No mesmo local pode também ser vista a exposição  “LUCIEN HERVÉ: Flashes do Homem na Cidade Moderna”, dedicada à obra do franco-húngaro Lucien Hervé, considerado um dos mais importantes fotógrafos de arquitetura do século XX.

 

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UMA HISTÓRIA DA GUERRA - Ian Kershaw é um historiador inglês, professor de História Moderna, cujo trabalho se centra em torno da História do século XX, nomeadamente na época da II Grande Guerra e em particular na História da Alemanha e das origens do conflito. “Decisões Fatais - Dez decisões que mudaram o mundo 1940-1941” é o título do livro originalmente publicado em 2007 e que agora foi editado em Portugal, numa tradução de José Mendonça da Cruz. Ian Kershaw revisita dez decisões críticas tomadas entre maio de 1940 - quando a Grã-Bretanha decidiu continuar a lutar em vez de se render - e o outono de 1941 - quando Hitler decidiu exterminar os judeus da Europa. Em Londres, Tóquio, Roma, Moscovo, Berlim e Washington, políticos e generais, muitas vezes trabalhando com base em informações de má qualidade e enfrentando graves problemas logísticos, financeiros, económicos e militares, tiveram de decidir como explorar ou combater a crise que se desenrolava. Estas decisões dão a conhecer ao leitor as enormes dificuldades enfrentadas pelos líderes, bem como a influência que as suas personalidades tiveram no decurso da guerra: Churchill resistindo à catástrofe de Calais, Hitler ordenando a invasão da URSS, Estaline a aliar-se a Hitler nos primórdios do conflito, a indecisão de Roosevelt e a decisão do alto comando japonẽs de atacar os Estados Unidos. Ao longo de cerca de 600 páginas  Kershaw relata o que se passava em Londres, Berlim e Tóquio em 1940, como a época foi seguida em Washington e Moscovo em 1941 e como no Outono de 1941, em Tóquio e Berlim, foi iniciada a guerra. Edição D. Quixote/Leya.

 

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GUITARRADA - Desde finais dos anos 60 T. Bone Burnett tem deixado a sua marca na música norte-americana, quer como guitarrista, quer como produtor, quer como compositor. Trabalhou com nomes como Bob Dylan, Greg Allman, Elvis Costello, Sam Philips, Los Lobos ou Roy Orbison, entre muitos outros. Compôs bandas sonoras para filmes e musicou até uma peça de Sam Shepard. A solo lançou dezena e meia de álbuns, o mais recente dos quais, o primeiro desde há quase duas décadas, é “The Other Side”, agora editado. O disco tem 12 temas e é um trabalho ficcional sobre um casal que se vai encontrando e desencontrando ao longo de uma viagem. A sua guitarra é omnipresente, excelente como se esperava, os músicos convidados fornecem o suporte a uma voz arrastada onde as palavras surgem cantadas de forma emotiva, ajudando a construir o clima da narrativa, desde o inicial e místico “He Came Down”, até uma canção de saudade como “Little Darling”, que finaliza o disco, passando por incursões no passado como “The Town That Time Forgot” ou canções de desamor como “The Pain Of Love” ou “Someday” - aqui com a participação de Roseanne Cash. Noutros cinco temas Burnett tem a seu lado as vozes de Lucius, um duo folk. A country e os blues são os territórios deste disco, um trabalho gravado em Nashville e que prova como T Bone Burnett é um músico e compositor de excepção. Disponível nas plataformas de Streaming.

 

DIXIT - “ A ideia onírica de abrir as portas a imigrantes sem acautelar as condições para os legalizar, acolher, encaminhar e proteger foi um crime contra o país e contra as pessoas” - Manuel Carvalho

 

BACK TO BASICS - Uma coisa essencial à justiça que se deve aos outros é fazê-la, prontamente e sem adiamentos; demorá-la é injustiça.” —  Jean de La Bruyere

 

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A LINHA VERMELHA MUDOU DE CÔR

por falcao, em 10.05.24

 

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A LINHA COR DE ROSA - De repente Pedro Nuno Santos e André Ventura deram as mãos e, obviamente por mero acaso, desataram a aprovar em conjunto propostas que contrariam as intenções e planos do Governo. Estão no seu direito e nada impede que se juntem.  No entanto, convirá recordar que para Pedro Nuno Santos,  durante a campanha eleitoral, havia uma linha vermelha em relação ao Chega. Agora, feitas as eleições,  no quadro parlamentar, a linha vermelha deixou de existir e PS e Chega convivem num mapa cor de rosa. Ora isto quer dizer que a partir daqui as críticas de Pedro Nuno Santos a quaisquer entendimentos parlamentares com o Chega soam a falso. Ficamos a saber que aquilo que é vermelho para os outros, é cor de rosa para o PS. Mas este entendimento com o Chega em relação às SCUT mostra uma outra coisa: sem sobressaltos Pedro Nuno Santos passou de líder do regresso da ferrovia para mentor de maior utilização do automóvel. Estes singelos episódios parlamentares entram naquele crescente rol de coisas que levam as pessoas normais a não acreditar no que os políticos dizem. Se não conseguem ser coerentes no que afirmam, como se pode ter confiança no que dizem querer fazer? Pedro Nuno Santos até já sugeriu que, mesmo estando na oposição, consegue tomar mais medidas que o actual Governo. Talvez ele se possa recordar que o PS, ao fim de oito anos de governo, deixou  por resolver as reivindicações de recuperação do tempo de serviço dos professores, o pagamento de suplementos de risco para as forças de segurança, a revisão salarial dos guardas prisionais, os suplementos e horas extraordinárias dos funcionários judiciais e os aumentos e revisão da carga horária de médicos e enfermeiros. Será que se esqueceu disto tudo?

 

SEMANADA - Para que seja possível, nas eleições  europeias de 9 de Junho, votar em qualquer lado o Estado adquiriu 29 mil computadores para os quais são necessários 12.000 técnicos, mas ainda falta contratar 2600 para que exista um em cada mesa de voto, como é obrigatório;  os pagamentos feitos no retalho durante 2023 alcançaram uma média diária de 11,6 milhões de euros; o excedente orçamental do Estado que existia em fevereiro transformou-se em saldo negativo no final de Março, segundo a Direcção Geral do Orçamento; um estudo divulgado na semana passada indica que o futebol contribui para a economia portuguesa com 667 milhões de euros, ou seja 0,26% do PIB; em 2023 as duas ligas profissionais de futebol pagaram 228 milhões de euros entre impostos e segurança social; segundo o INE o sector cultural no seu todo gera um volume de negócios anual superior a 8 mil milhões de euros num universo de 75 mil empresas que empregam quase 200 mil trabalhadores; uma em cada cinco autarquias cobra o valor máximo de IMI; a Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial está parada há seis meses e não tem sequer enquadramento legal para exercer as suas funções; Portugal é o 3º país da UE  com mais infecções hospitalares; apenas 8% dos doentes em hemodiálise  são tratados em hospitais do SNS; mais de 60% dos trabalhadores portugueses por conta de outrem ganham no máximo um salário-base até mil euros, de acordo com os valores declarados à Segurança Social; mais de metade dos crimes sexuais contra menores investigados pela Polícia Judiciária em 2023 foram cometidos no seio da família.

 

O ARCO DA VELHA - A agência para a migração tem 400 mil pedidos pendentes, é alvo de 7600 processos e gera 52 queixas judiciais por dia pelos atrasos na legalização dos migrantes.

 

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VER A SURPRESA  - Arte que não desafia nem surpreende pode ser agradável à vista mas fica-lhe a faltar uma parte importante da sua razão de ser. Quando numa exposição vejo uma obra inesperada, o meu primeiro reflexo é procurar pensar o caminho criativo que culminou naquele trabalho. Nalguns casos não se descortina a razão, noutros percebe-se o pensamento. A exposição que Patrícia Garrido inaugurou esta semana na Sociedade Nacional de Belas Artes, uma peça única que enche por completo o salão nobre do edifício, e que a fotografia aqui publicada mostra parcialmente, é um desafio que nos obriga a procurar as suas origens e é  uma afirmação pessoal de revisitação de memórias, que repetidamente surge na carreira da artista. Numa peça desta dimensão, que só pode ser vista de fora, o visitante é remetido ao papel de espectador  da evocação dessas memórias. Com o título “11 Casas (2024)” esta escultura, feita integralmente em cantoneira metálica, remete para a história de vida da artista, revisitando um tema que lhe tem sido frequente: os espaços que habitou. Aqui, Patrícia Garrido evoca onze das casas onde viveu, recriando os seus espaços  à escala real, misturando-os e fundindo-os num exercício de geometria variável, inspirado em memórias de uma vida, e que parte do desenho para a criação de formas e estruturas que se cruzam e sobrepõem num labirinto. A obra agora apresentada foi construída expressamente para o Salão Nobre da SNBA,  será depois desmontada e pode ser vista só até 1 de Junho. Este é um projecto da Fundação Carmona e Costa, coordenado por Patrícia Garrido e Manuel Costa Cabral.

 

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ROTEIRO - A Galeria Ratton, dedica-se à criação de obras de artistas contemporâneos em azulejo e tem ao longo dos anos mantido colaboração com uma grande diversidade deles. Agora apresenta painéis e azulejos inéditos de Manuel João Vieira e Pedro Proença, sob o título genérico “O Que Faz Falta e a Falta que Faz - 25 de Abril 50 anos” (na imagem). Apresenta também uma selecção de painéis de azulejo de de Bartolomeu Cid dos Santos, João Vieira, René Bertholo e Josephine King. A exposição fica patente até 6 de Setembro na Ratton, Rua da Academia das Ciências 2C, Lisboa. No MAAT, até 26 de Agosto, pode ser vista no uma mostra de fotografias, vídeos e peças escultóricas do fotógrafo francês Nicolas Floc’h, incluindo uma série que realizou no estuário do Tejo e nos Açores. O MAAT proporcionou a Floc’h  a residência que deu origem ao  mural “A Cor da Água – Rio Tejo”, composto por 408 fotografias das cores da água deste rio – no troço entre Castanheira do Ribatejo e Bugio –, e foi parceiro (com o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, Açores) da campanha que lhe permitiu registar as fontes termais subaquáticas ao largo da ilha de São Miguel. Na galeria Sá da Costa, ao Chiado, Catarina Pinto Leite apresenta até 26 de Maio a exposição “Palimpsesto”, um trabalho de colagens baseadas na recuperação de obras da artista danificadas numa inundação. E em Coimbra prossegue até 30 de Junho a 5ª Bienal com o título “Fantasma da Liberdade”.

 

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UM LIVRO QUE SE COME - Jim Harrison tem uma extensa obra literária, da poesia à ficção, passando pelo ensaio, mas aquilo que o tornou mais popular foi escrever sobre comida. A imprensa norte-americana, onde tanto escreveu sobre restaurantes e gastronomia, chamava-lhe “o poeta laureado do apetite.”Uma Grande Almoçarada” é o livro, agora editado entre nós, que reúne alguns dos seus melhores textos sobre comida, vinhos, e também a felicidade da partilha de uma refeição. Aqui, neste livro, está o relato de um almoço francês que tinha 37 pratos - e que dá o título ao livro - até um texto divertidíssimo sobre as colunas e os críticos de vinhos, as rivalidades entre o vinho branco e o vinho tinto, passando por recordações do seu convívio com outros apreciadores de comida como Orson Welles, Jack Nicholson e Anthony Bourdain. Jim Harrison, que morreu em 2016 aos 79 anos, é autor de três dúzias de livros, além disso escreveu argumentos de cinema, foi crítico literário e fez artigos sobre desporto, viagens e comida - que é o tema que nos traz aqui hoje. Com uma tradução exemplar de Isabel Lucas, o livro inclui 47 dos seus textos mais célebres. Pego no divertido “Apontamentos sobre vinho”, de onde roubo estas linhas: “A prova de vinhos presta-se a comédia, mas o mesmo acontece noutras profissões de grande valor intrínseco, desde cientistas loucos a strippers virtuosas e políticos cheios de boas intenções”. Num outro texto sublinha: “Nunca me contenho à mesa porque é mais divertido comer do que não comer”.E, um pouco mais à frente: “a invenção do supermercado tem sido, de um modo geral, desastrosa para a saúde humana”, para logo a seguir defender os mercados locais, as lojas que vendem boa charcutaria artesanal ou queijos de produtor em vez de pastas fabris - e declara, peremptório, que em Paris preferia os mercados locais às catedrais e museus. A descrição da infelicidade sentida num restaurante com estrelas Michelin, onde lhe serviram um frango sem as respectivas pernas, é outro monumento. Edição Quetzal.

 

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JAZZ COM HARMÓNICA - Se, como eu, são fãs da música que Ennio Morricone compôs para filmes, então aconselho que procurem “Ennio”, um álbum que reinterpreta alguns dos seus temas mais conhecidos, aqui interpretado pela harmónica de Grégoire Maret e o piano de Romain Collin. O primeiro dos 12  temas é o clássico “Once Upon a Time in America”, bem acompanhado por “ A Few Dollars More”, “The Good, The Bad And The Ugly”, “Once Upon a Time in the West”, “ Cinema Paradiso”, “ The Sicilian Clan” ou “Man With a Harmonica”, entre outros. Maret é um discípulo de Toots Thielemans, o músico que levou uma instrumento muitas vezes considerado um brinquedo, como a harmónica, para a primeira linha do jazz. Grégoire Maret trabalha regularmente com o pianista Romain Collin, com quem já havia gravado um outro álbum de versões, em 2020, “Americana”. No novo trabalho Maret e Collin percorrem repertório de Ennio Morricone, com temas das numerosas bandas sonoras que compôs. É muito curioso ouvir como os dois músicos dialogam entre a harmónica e o piano, desenhando versões que não são cópias dos originais, antes criam um universo sonoro distinto do ambiente orquestral criado por Morricone. Num dos temas, “Se Telefonando”, surge um dueto vocal entre Cassandra Wilson e Gregory Porter. E em todo o disco é patente a forma como Grégoire Maret e Roaming Collin transportaram para o jazz o trabalho de um compositor que admiram. Disponível nas plataformas de streaming.


DIXIT - “Qualquer fiscalista dirá que a tributação empresarial é o maior obstáculo ao crescimento económico e ao aumento dos salários em Portugal” - Manuela Ferreira Leite


BACK TO BASICS - “Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo.” —  Albert Camus


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E SE OLHÁSSEMOS PARA O FUTURO?

por falcao, em 03.05.24

 

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TRUQUES & FALSIDADES - A próxima campanha eleitoral já começou. A arrancada pré-eleitoral é notória na forma de actuação quer de governo quer da oposição. Qualquer situação transforma-se num caso, o que ontem se disse esquece-se hoje e amanhã é contrariado. Trabalha-se para a urna de voto , o que é bem diferente de trabalhar para o futuro do país e dos portugueses. Vivemos demais em função da propaganda e de menos em função dos resultados. Este país é avesso a reformas e sobressaltos quando se mexe na situação instalada. As reivindicações, por mais justas que sejam, fazem ressaltar o que ficou por fazer para trás - o eterno adiar de resolução de problemas e ausência de planos de futuro. Empurrar com a barriga foi o mantra de António Costa e do seu executivo durante a quase década em que brincou aos governos. Fez um primeiro ciclo de reversão de medidas do Governo anterior - o que é sempre uma característica dos anti-reformistas - e um segundo de inacção, outra marca genética do exercício de poder pelo PS. Resultado: noves fora nada. As sondagens feitas a propósito dos 50 anos do 25 de Abril mostram preocupações de grande parte dos portugueses sobre a situação em que estamos e as perspectivas de futuro. E mostram uma ainda maior preocupação pelo comportamento dos políticos, a corrupção que permitem, a mentira que praticam, o cinismo que ostentam, a falsidade que mostram, a vaidade e a presunção  que exibem- enfim o leque de características que infelizmente se tornou no emblema de boa parte da classe política e que é o alimento dos populistas. Pensar no futuro é um programa que ninguém quer, entretidos que andam na futura caça ao voto.

 

SEMANADA - A oferta de casas novas só cobre 17% da procura e essa é uma das razões dos preços do imobiliário; em 130 dos 308 concelhos portugueses o preço das casas aumentou mais de 10% em 2023; o Relatório Anual de Segurança Interna de 2023 registou uma subida de 67% nas queixas do crime de furto e uso abusivo de cartões bancários de débito e crédito, com um total de 10 386 ocorrências, face às 6219 de 202; na criminalidade escolar registou-se uma subida de 16% face a 2022, tendo sido registadas 5380 ocorrências; a violência praticada por gangues juvenis teve  6756 ocorrências e 2048 detenções, os números mais altos da última década; no ano passado o número de portugueses que viajou para o estrangeiro cresceu 21,5% e ao todo foram feitos por portugueses noutros países  pagamentos com cartões bancários  no valor de 6,4 mil milhões de euros; 35% do milhão de estrangeiros residentes em Portugal são brasileiros, o que os torna na principal comunidade imigrante; no indicador da OCDE que tem como referência a carga fiscal aplicada a um trabalhador solteiro e sem filhos, a ganhar o salário médio, Portugal subiu um lugar e ocupa agora a oitava posição nas três dezenas dos países da lista; as exportações portuguesas no primeiro trimestre caíram 4,2% em termos homólogos; em fevereiro os proveitos gerados pelo turismo em Portugal aumentaram 13% face ao mesmo período do ano passado, atingindo 276,4 milhões de euros; em 2023 Portugal foi o país que perdeu mais área de cultivo de vinha, uma diminuição de 11 mil hectares, tendo agora 182 mil hectares de área vitícola.



O ARCO DA VELHA - A segurança social tem 50 inspectores para fiscalizar 2606 lares de idosos registados, e existem para realizar as inspecções 22 viaturas, das quais 17 têm uma média de 24 anos de utilização e nunca estão todas operacionais.

 

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O OLHAR DE PAULA REGO - Até 6 de Outubro a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, apresenta “Manifesto”, uma exposição que evoca a primeira mostra individual de Paula Rego, realizada em 1965 na SNBA. O título da exposição baseia-se na obra “Manifesto (for a lost cause)”, que era reproduzida na capa do desdobrável dessa primeira exposição individual da artista (e na imagem nestas páginas). A exposição original incluía 19 obras, criadas entre 1961 e 1965, mas agora estão apenas expostas 18, porque uma das pinturas, "Cães de Barcelona", pintada em 1964, uma peça preferida da artista, fazia parte da colecção pessoal de João Rendeiro e está desaparecida desde 2008 - mas na exposição está patente uma reprodução dessa obra. Para além da peça que dá o título à exposição são apresentadas outras obras de referência da exposição original, como “Cães famintos” (1963), "Alegoria Britânica" (1962-63), "Tarde de Verão" (1961) e "Fevereiro 1907 (O Regicídio)” (1965). A exposição“Paula Rego: Manifesto” tem curadoria de Catarina Alfaro e Leonor de Oliveira e, para ressaltar a importância daquela exposição no panorama cultural português da época, integra documentos daquele período relacionados com a organização e a recepção crítica da mostra de 1965. Algumas das obras desta exposição foram localizadas apenas recentemente, depois de anos em paradeiro incerto. As obras em empréstimo são provenientes das coleções de instituições nacionais como a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação de Serralves, além de coleções particulares portuguesas, inglesas e francesas. A recriação da exposição original ocupa apenas 1 das 8 salas da Casa das Histórias Paula Rego e a segunda parte da exposição apresenta cerca de 60 obras que mostram o olhar de Paula Rego, sobre temas como o contexto pós-revolucionário, assim como a intervenção cívica da artista no seu país de origem. 

 

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ROTEIRO - O Padrão dos Descobrimentos tem produzido interessantes exposições, suportadas em trabalhos de investigação. Até 30 de Novembro poderá agora ver Álbuns de Família: fotografias da Diáspora Africana na Grande Lisboa”, com curadoria científica de Filipa Lowndes Vicente e Inocência Mata (na imagem). São “álbuns de família” com as imagens que os portugueses afrodescendentes e os africanos registaram de si próprios e das suas comunidades desde 1975, data das independências dos países africanos de colonização portuguesa. No edifício do Antigo Recolhimento das Merceeiras, na rua Augusto Rosa, 15, em Lisboa, o fotojornalista Mário Cruz, duas vezes premiado no World Press Photo e fundador da galeria Narrativa, apresenta “Roof” que resulta de uma investigação feita ao longo últimos dez anos, em que fotografou com regularidade prédios, fábricas, escolas que têm em comum o facto de estarem devolutos há muito tempo e que por vezes servem de abrigo a pessoas num contexto de falta de habitação condigna. Este trabalho deu origem a um livro e a esta exposição. Em Setúbal e até final de Maio a Casa da Cultura em Setúbal apresenta uma exposição de pinturas de Pedro Chorão. E por fim, por convite das Galerias Municipais de Lisboa e do Atelier-Museu Júlio Pomar, a artista Luisa Cunha realizou uma peça de som para as entradas dos seis Espaços de Arte Contemporânea da EGEAC: Galeria Avenida da Índia, Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, Galeria da Boavista, Galeria Quadrum, Pavilhão Branco e Atelier Museu Júlio Pomar. A instalação desenvolve-se em seis andamentos, e o usufruto completo da obra só é possível com a deslocação aos seis espaços onde se encontra instalada.

 

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POLÍTICA MODERNA - Rui Calafate deu os primeiros passos no jornalismo em 1995, começou a comentar a actualidade no extinto “Semanário”, a cuja redacção pertenceu, em 1996. Depois criou e dirigiu a revista “Política Moderna” entre 1998 e 2001. Mais recentemente fez comentário político, escrito, no jornal digital “ECO”, escreve actualmente no semanário “Económico” e, em televisão, é comentador na CNN desde o início de 2021. Além disso é um dos pioneiros de podcasts com  “Maquiavel para Principantes”, que continua a gravar. O seu primeiro livro foi publicado no final do mês passado, “10 Mandamentos da Política”. Nas palavras do autor o livro é sobre “luzes e sombras, verdade e mentiras, mitos e caricaturas” e aborda “casos lapidares sobre imagem, comunicação e poder”. Ao longo do livro combinam-se as observações sobre política, com evocações de filmes ou livros, mostrando o fascínio que o autor tem pelo cinema  e pela literatura. Não é por acaso que Calafate evoca uma cena de “Pedro, o Louco”, de Godard, na qual Samuel Fuller afirma: “O cinema é como um campo de batalha. Amor, ódio, acção, violência, morte. Numa palavra: emoção”. E Calafate acrescenta: “Troquem a palavra emoção por política e vão ver que é exactamente a mesma coisa”. Neste tempo em que o comentário político é omnipresente (segundo um estudo do Media Lab do ISCTE o número dos comentadores políticos nas televisões aumentou 47% nos últimos oito anos, de 53 para 78) , os “10 Mandamentos da Política” mostram como “o poder e a política continuam a ser fascinantes demais para impedir a ambição humana”. Uma leitura especialmente recomendável nestes atribulados tempos que vivemos. Muitos dos políticos no activo fariam bem em ler com atenção o que vem nestas páginas. Edição Oficina do Livro.

 

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UM OUTRO PIANO  - “Silent Listening”, o primeiro álbum a solo do pianista Fred Hersch para a editora ECM, foi gravado em Maio do ano passado e publicado já neste mês. Ao longo de 50 minutos e 11 temas, Hersch percorre um repertório diversificado de originais seus mas também de versões de clássicos, que mostram uma vontade de experimentar novas sonoridades e de estender os limites do piano solo. Entre os temas clássicos estão logo a faixa de entrada, popularizada por Duke Ellington, “Star Crossed Lovers”, The Wind” de Russ Freeman, “Winter of my Discontent” de Alec Wilder e, sobretudo, “Softly as in a Morning Sunrise”, uma balada escrita para a opereta “New Moon” e que teve dezenas de interpretações de nomes que vão de John Coltrane a Miles Davis, passando por Sonny Rollins, Chet Baker ou o Modern Jazz Quartet. A interpretação de Hersch desta balada é um exemplo de como se pode recriar um tema clássico sem o trair. As sete composições originais mostram o interesse que o pianista tem na improvisação, que se ouve na faixa-título “Silent, Listening”, mas também contida dentro de um conceito pré-estabelecido, como é tão bem mostrado na deliciosa “Little Song” que já tinha gravado anteriormente com o trompetista Enrico Rava. O álbum está disponível em CD, vinil e streaming. 

 

DIXIT - “Quem quer julgar, hoje, os reis e os escravos de há séculos, quer hoje qualquer coisa. E não se trata apenas de bons sentimentos; quer poder, bens e poleiro” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Saber esperar só custa a primeira vez” - Miguel Esteves Cardoso


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A INJUSTIÇA - Antes de 1974 a justiça serviu descaradamente o poder político, protegendo o Governo e combatendo a oposição. Nos últimos 50 anos a situação foi-se invertendo progressivamente, até se chegar ao actual estado das coisas, em que a justiça tenta - e por vezes consegue - competir com o poder político,  querendo ultrapassar a legitimidade do voto. Justiça e política andam de mãos dadas em Portugal há muitas décadas, mesmo que por vezes a posição relativa de ambas se inverta. Aquilo a que assistimos hoje é a um misto de arrogância, incapacidade e ineficácia, com abuso de direitos por quem os devia defender. O equilíbrio entre a defesa e os direitos dos magistrados e dos cidadãos deixa estes últimos à mercê do subjectivo. Decisões contraditórias, prazos rebentados, sentenças polémicas, o rol é extenso. Como António Barreto sublinhou há dias: “De todas as suas decisões, os magistrados deveriam esclarecer, argumentar e prestar contas. Mas não o fazem. Julgam ser seu direito não o fazer. Consideram que as sentenças e os acórdãos bastam – o que não é verdade.” Os magistrados confundem demasiadas vezes independência com autogestão e desresponsabilização. Há uns que cultivam o estrelato e a sua mediatização. Assistimos regularmente a operações que são mais perseguições que investigações, situações criadas para mostrar nas televisões buscas em directo. Insinuam-se acusações, não se faz depois o balanço do que aconteceu para que os processos ruíssem. Aos poucos vamos desacreditando dos tribunais, desconfiando dos juízes. Ao fim de 50 anos de democracia, muita coisa melhorou, excepto uma - continuamos a ter uma justiça que levanta suspeita. Não é bom sinal e é o problema estrutural mais sério da nossa democracia.

 

SEMANADA - Um estudo recente indica que o 25 de Abril de 1974 é considerado o dia mais importante da História de Portugal para 65% dos portugueses; no mesmo estudo, promovido pelo ICS/ISCTE ,  56% dos inquiridos consideram que se devem celebrar as datas de 25 de Abril e 25 de Novembro; Salazar, Salgueiro Maia, Mário Soares, Otelo e Ramalho Eanes são, por esta ordem os cinco nomes de figuras públicas que os portugueses mais associam à época do 25 de Abril; um em cada três empréstimos à habitação tem risco de incumprimento; desde 2021 já se verificaram 127 mortos em acidentes de tractor; nos últimos cinco anos foram registados 5600 processos de contraordenação por crimes ambientais; desde o início da Legislatura (que começou a 26 de março), já deram entrada nos serviços parlamentares 122 iniciativas legislativas; a Iniciativa Liberal (IL) é o partido que mais projetos de lei produziu (21), seguido pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP; a procura de estabelecimentos de ensino privados tem vindo a aumentar e as principais razões apontadas pelos encarregados de educação para não quererem as escolas públicas são falta de professores, más condições físicas dos edifícios  e sentimento de insegurança nos recreios por falta de assistentes operacionais; a agência anticorrupção, criada em 2023, tem menos de metade do seu quadro preenchido, só executou 37% do orçamento que lhe foi atribuído e até agora não aplicou qualquer multa; uma sondagem recente indica que a  ausência de resultados no combate à corrupção constitui a maior desilusão dos portugueses com a política.

 

ARCO DA VELHA - O pior retrato da evolução do regime e da opinião que os cidadãos têm sobre ele é o estudo do ISCSP que indica que, hoje em dia, 47% dos portugueses apoiariam um “governo de um líder forte, que não tenha de se preocupar com eleições”.

 

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HÁ FESTA NA CENTRAL  - “Hoje soube-me a pouco”, título de uma canção de Sérgio Godinho,  foi o nome escolhido para uma exposição que assinala os 50 anos do 25 de Abril de 1974, e que está patente no edifício da Central Tejo, do MAAT, até 26 de Agosto. A exposição reúne os trabalhos de cerca de 40 artistas, a maioria provenientes da colecção da Fundação EDP, outros de colecções privadas e institucionais, além de duas obras inéditas feitas propositadamente para esta ocasião: uma escultura de Inês Botelho, intitulada  “A revolucionada estática e a revolucionada revolucionária”, e uma pintura de Pedro Cabrita Reis, “Prometheus V”, um óleo sobre tela de grandes dimensões, pintado já em Abril deste ano (na imagem). Prometheus, um dos gigantes Titãs da mitologia grega, é um símbolo de revolta e liberdade. A exposição inclui várias das principais figuras da arte contemporânea portuguesa dos anos 1970 e 80, cruzando gerações, com nomes que vão de Ana Jotta a Gabriel Abrantes, passando por Maria Beatriz, Carlos Bunga, Fernando Calhau, Alberto Carneiro, Pedro Casqueiro, Lourdes Castro, Rui Chafes, Patrícia Garrido, Álvaro Lapa, José Loureiro, Paulo Nozolino, António Palolo, Paula Rego, Julião Sarmento, Ângelo de Sousa e Xana, entre muitos outros. Na parede de entrada os visitantes são acolhidos por uma montagem livre de obras de desenho, aguarela, pintura, colagem e vídeo, todas produzidas num período curto que abarca o antes e o depois do 25 de Abril de 1974. Nessa parede, que inclui trabalhos de Júlio Pomar, José Escada, António Sena, Eduardo Batarda, Jorge Martins e Ana Hatherly, entre outros, algumas obras fazem referência directa ao golpe de estado que derrubou a ditadura, outras surgem como comentários e outras ainda são testemunhos de alegria e esperança. A curadoria da exposição é de João Pinharanda e Sérgio Mah.

 

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ROTEIRO - Até 20 de Dezembro poderá ver no Palácio Anjos, em Algés, a maior exposição da obra de João Abel Manta, um dos maiores cartoonistas portugueses que antes e depois de 1974 publicou regularmente trabalhos emblemáticos da situação político-social portuguesa em jornais como o “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e “O Jornal”. Aqui reproduzimos um desses trabalhos, “Um Problema Difícil”, no qual um grupo de figuras, de Marx a Lenine, passando por Gandhi ou Sartre se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal. Arquitecto de formação, cartoonista por paixão, João Abel Manta desenvolveu ao longo dos anos um trabalho pluridisciplinar  que englobou pintura, desenho, ilustração, design gráfico, concepção de painéis de azulejos e tapeçarias, cenografia e figurinismo para teatro. A exposição mostra muitos trabalhos inéditos do arquivo pessoal do artista. Em Coimbra, até 30 de Junho, no Convento de Santa Clara A Nova e noutros espaços da cidade, decorre a 5ª edição da Bienal, este ano sob o título “Fantasma da Liberdade”. Com curadoria de  Ángel Calvo Ulloa e Marta Mestre a Bienal decorre em torno da ideia de liberdade e as estratégias da arte contemporânea para a desafiar. Finalmente, de regresso a Lisboa, “Amor I Love You” é o título da exposição que reúne quatro dezenas de trabalhos de 13 artistas, entre os quais Sara Bichão, Nádia Duvall, Daniela Krtsch e Carla Cubanas, entre outros, que ficará exposta até 8 de Junho na Galeria P28, Pavilhão 31 do complexo do Hospital Júlio de Matos.

 

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O POETA DE PORTUGAL  - Esta é uma boa semana para falar da indiferença com que o Estado português tem encarado o quinto centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões, o grande poeta da epopeia dos descobrimentos, uma das maiores figuras da literatura portuguesa e um dos grandes poetas da tradição ocidental. O vento de reescrita da História que varre muitos bens pensantes leva-os a querer ignorar Camões. Boa altura portanto para ler o que sobre Camões escreveu  uma das maiores figuras intelectuais do Portugal do século XX, insuspeito de ser simpatizante do regime anterior. Jorge de Sena fez vários ensaios sobre o poeta, agora reunidos num livro intitulado “O Pensamento de Camões”. O Camões que Jorge de Sena nos oferece é um Camões oposto ao das leituras dos políticos. O que Jorge de Sena faz, como se tivesse previsto o que iria acontecer em 2024, é resgatar Camões da actual perseguição ideológica, para mostrar aos leitores um poeta de uma grande erudição, «o maior poeta em português». No livro “O Pensamento de Camões”, que recupera quatro textos de Sena ele afirma que a lírica camoniana «transcende em muito o âmbito nacional de um destino histórico não-cumprido do seu mais alto sentido, para ser, na verdade, um aviso e um apelo que se dirige a toda a Humanidade». Jorge de Sena ensina-nos que Camões «deve ser lido nas entrelinhas e como um nosso contemporâneo»  e mostra-nos  um Camões  acima da pequenez de orgulhos nacionalistas e piedade cristã. Um Camões que nos fala «como só grandes poetas falam, acerca de angústias, esperanças e desesperos muito parecidos com os de hoje». Edição Guerra & Paz, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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A MUDANÇA - Hoje trago um disco de 1971, reeditado em 2017, actualmente disponível nas plataformas de streaming, que foi um marco na música popular portuguesa. Trata-se do álbum “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de José Mário Branco. O nome é inspirado num poema de Camões, mote para uma canção que é a última faixa do disco. Álbum de estreia de José Mário Branco, então exilado em França, conta com poemas de Natália Correia (“Queixa Das Almas Jovens Censuradas”), de Alexandre OŃeill (“Perfilados de Medo”), do já citado poema de Camões, dois do próprio José Mário Branco (destaco “Nevoeiro”) e de quatro de Sérgio Godinho (dos quais destaco “O Charlatão”). Pelas palavras cantadas neste disco respirava-se o desejo de mudança, o diferente correr dos tempos, conjugando a lírica de Camões com um país que já estava sobressaltado. Musicalmente o disco era uma revolução, arranjos completamente diferentes do que era usual, na época, na música portuguesa. Não por acaso, no mesmo ano, coube a José Mário Branco fazer a produção e os arranjos de “Cantigas de Maio”, de José Afonso, no mesmo estúdio francês, em Hérouville, onde tinha sido também gravado “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades”. E era neste “Cantigas de Maio” que estava “Grândola Vila Morena”, um arranjo igualmente inesperado, canção que para sempre havia de ficar ligada ao 25 de Abril. José Mário Branco gravou muitos outros discos (destaco “Ser Solidário” e essa canção extraordinária que é “Inquietação”), fez bandas sonoras para teatro e cinema, foi um dos mais importantes produtores responsáveis pela reformulação do fado, nomeadamente graças ao seu trabalho com Camané. 

 

DIXIT - “Em Portugal somos excelentes a respeitar todas as liberdades e garantias, menos esta: que se faça justiça em tempo útil para quem é rico e poderoso” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos.” —  Charles Louis Montesquieu 

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PARA QUE SERVE A LIBERDADE?

por falcao, em 19.04.24

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DESIGUALDADES - Todos o país prepara as comemorações do golpe de estado que derrubou a ditadura há 50 anos. É uma data importante para todos os que prezam a Liberdade. Mas isto acontece numa altura em que cada vez mais gente mostra desagrado por algumas opiniões e há até quem diga sem rodeios que o melhor seria silenciar algumas. Ora, o que o 25 de Abril trouxe foi liberdade de expressão, liberdade de opinião, cada um poder dizer o que lhe vai na cabeça sem temer por isso ser perseguido, desde que respeite a liberdade dos demais. Na realidade antes de Abril de 1974 liberdade de pensamento existia, dependia de cada um o que com ela fazia. Uns mostravam o que pensavam e eram perseguidos. Outros calavam-se e eram tolerados. Tenho reparado que muitos dos que hoje mais gritam contra as opiniões dos outros nunca souberam o que era dantes arriscar dizer o que pensavam. Os que se intitulam agora guardiões do templo têm da liberdade uma noção de posse exclusiva, não respeitam a diferença, fomentam a desigualdade como se a Liberdade fosse exclusiva de alguns. Uma das grandes mistificações nascidas, muito por obra e graça do PCP, é  confundir o exercício da liberdade com a defesa do socialismo. De tal maneira que ainda hoje se considera que os que pugnam pelo socialismo, nas suas diversas formas, são os únicos defensores  da liberdade, enquanto os que são contra a ideia do socialismo são classificados de inimigos da liberdade e, para alguns, são até considerados fascistas. Ora acontece que não se pode defender a liberdade pretendendo que deve ser total para uns e limitada para outros. E tão pouco é coerente celebrar a  democracia agitando no ar o espectro da censura de ideias. 50 anos depois de 25 de Abril de 74 a última coisa que precisamos é de polícias do pensamento e da liberdade de expressão.

 

SEMANADA - Em Portugal estão vagas 723 mil casas e há 1,1 milhões de residências secundárias; segundo o FMI, entre os estados da zona Euro, Portugal foi o país onde o custo dos empréstimos à habitação mais aumentou; em 2023 o montante angariado por startups portuguesas caíu 76%; no ano passado, foram apresentados 904 pedidos de patente de invenção, 35,9% dos pedidos  tiveram origem na região Norte e a Universidade de Aveiro liderou a lista com 34 patentes apresentadas; Portugal é o terceiro país da União Europeia com menos homens por cada 100 mulheres, a par da Estónia, e apenas ultrapassado pela Letónia e Lituânia; o Alentejo e o Algarve são as duas regiões onde se verificam maior número de reprovações dos alunos do 1º ciclo e nessas regiões 8%  reprovaram nos primeiros quatro anos de escola; este ano registam-se 54.454 vagas nos cursos do ensino superior, um novo máximo histórico; com mais de meio ano lectivo corrido há cerca de 32 525 alunos sem aulas a pelo menos uma disciplina e Lisboa, Setúbal e Faro lideram listas de horários por preencher; no ano passado desapareceram 4501 veículos em Portugal; metade do poder de compra dos 278 municípios de Portugal continental está concentrado em 26 concelhos, que representam apenas 6% da área total do continente, mas concentram 48% da sua população residente, 28% do parque habitacional, 42% das dependências bancárias, 48% da atividade do Multibanco, 46% dos estabelecimentos comerciais, 60% dos registos de automóveis e 44% do consumo de eletricidade.

 

O ARCO DA VELHA - Entre os dias 12 e 14 de abril, a Autoridade Marítima Nacional registou o salvamento de 249 pessoas e só na primeira quinzena deste mês, já se contam 17 vítimas mortais por afogamento. 

 

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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  - Até 29 de Setembro o Museu de Serralves apresenta “Yayoi Kusama: 1945 -hoje”, uma mostra que celebra o 95º aniversário da célebre artista japonesa e que é a maior retrospectiva da sua obra jamais realizada. A exposição foi concebida e organizada pelo M+, de Hong Kong, em colaboração com a Fundação de Serralves e o Museu Guggenheim de Bilbau. Yayoi Kusama tornou-se uma referência da arte contemporânea e ao longo das últimas sete décadas refinou uma singular estética pessoal, a par de uma filosofia de vida muito própria e de um posicionamento vanguardista. A obra de Kusama mostra aquilo que no seu entendimento é o espaço ilimitado, associando reflexões sobre os ciclos naturais de regeneração. “Yayoi Kusama: 1945 — Hoje” narra a história da vida e obra da artista, destacando o seu desejo de interconexão e as interrogações sobre a existência que orienta a sua criatividade. Com cerca de 160 trabalhos, incluindo pinturas, desenhos, esculturas, instalações e materiais de arquivo, esta exposição explora a carreira de Kusama desde os seus primeiros desenhos, feitos na adolescência durante a Segunda Guerra Mundial, às suas obras de arte imersivas mais recentes. Organizada cronologicamente e por temas, a exposição percorre toda a carreira da artista, dividida por grandes tópicos: Infinito, Acumulação, Conectividade Radical, Biocósmico, Morte e Força de Vida. “Yayoi Kusama: 1945 -hoje” tem curadoria de Doryun Chong e Mika Yoshitake, com a colaboração de Isabella Tam e a sua apresentação em Serralves contou com o acompanhamento e apoio da curadora Filipa Loureiro.

 

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ROTEIRO - Em Setúbal, na Casa da Avenida (Avenida Luísa Todi 286) pode ver até 26 de Maio “Intimidade”, uma exposição de fotografias de Luísa Ferreira (na imagem); na Appleton Square (Rua Acácio Paiva 27), até 4 de Maio, fotografias de António Júlio Duarte, sob o título genérico “Rumble Fish”;  no espaço Avenidas (Rua Alberto de Sousa 10A) pode ver até final de Maio a exposição "Rua da Beneficência, 175" que recorda os concertos realizados no Rock Rendez Vous, com fotografias de  Rui Vasco, Peter Machado, Pedro Lopes, José Faísca, Fred Somsen, Céu Guarda, e Álvaro Rosendo e que são a base para o livro “Rock Rendez-Vous, Uma História em Imagens”, coordenado por Luís Amaro e com textos de Ana Cristina Ferrão e Pedro Félix;  na Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4C), até 8 de Junho, “Lisboa, dez fotógrafos- uma escolha improvável” mostra trabalhos de nomes como António Homem Cardoso, Fernando Ricardo, Marc Sarkis Gulbenkian, José Manuel Costa Alves ou Luís Pavão, entre outros, e ainda fotografias vintage da cidade; até sábado  20 de Abril,  ainda pode ver uma  exposição de obras de Rui Sanches, “Espaços & Corpos”, no Arquivo Aires Mateus, (Rua Silva Carvalho 175). Rui Sanches baseou-se em plantas de espaços que de alguma forma lhe são familiares e em desenhos anatómicos de quando estudou Medicina. As obras, desenhos, pinturas e uma escultura foram feitas entre 2018 e 2023.

 

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UM ROMANCE PARA ESTES TEMPOS - Leram algum escritor turco recentemente? Pois eu também não tinha lido até encontrar “Pedra e Sombra”, de Burhan Sönmez, que é considerado como um dos mais inovadores autores da literatura turca e curda actual. Algumas das análises sobre a sua obra apontam para comparações de Burhan com realistas mágicos como Borges e García Márquez. Outros, como o diário parisiense “Le Figaro” , escrevem que “Pedra e Sombra”  “põe em cena, através de uma arte narrativa estrondosa, personagens cujos destinos se enlaçam com a tumultuosa história da Turquia do século XX.” Na realidade “Pedra e Sombra”  é um romance épico que traça o retrato de uma sociedade complexa, fruto do legado de cristãos, muçulmanos sunitas, dervixes, turcos, curdos, arménios e gregos. Neste romance Burhan Sönmez elabora uma construção narrativa com solavancos temporais de séculos, décadas e até mesmo de horas dentro de um único dia, imprimindo um ritmo e um mistério invulgares. «Quem não tem memória da sua infância não pode conhecer-se a si mesmo … Perder a própria terra quer dizer perder a memória», lamenta-se o protagonista desta história, homem simples, mas de profundo entendimento da condição humana. São dele também estas palavras, tão actuais hoje em dia: «A guerra vira a vida de pernas para o ar. Dá cabo das famílias, das cidades e dos estados. Depois, um dia acaba, mas nessa altura já nada é como antes». Esta proximidade geográfica e histórica aos mais recentes acontecimentos no médio oriente são uma razão suplementar para ler este romance. A tradução é de  J. Teixeira de Aguilar e a edição é da Livros do Brasil.

 

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UM TRIO INESPERADO - Fui ouvir “Owl Song” graças a um elogio que li sobre o disco. Já tinha ouvido alguma coisa de Ambrose Akinmusire, um trompetista e compositor americano nascido em 1982. Os seus primeiros passos no Berkeley High School Jazz Ensemble despertaram a curiosidade do saxofonista Steve Coleman que o convidou a integrar o seu grupo Five Elements numa digressão europeia. No regresso dedicou-se a aperfeiçoar os seus conhecimentos em algumas das maiores escolas de jazz nos Estados Unidos, em Nova Iorque e Los Angeles. Em 2008 gravou o seu primeiro disco e regressou a Nova Iorque onde tocou com alguns dos mais importantes nomes do jazz contemporâneo - Vijay Iyer, Aaron Parks, Esperanza Spalding ou Jason Moran. “Owl Song” é o seu oitavo disco em nome próprio e aqui escolheu dois nomes incontornáveis para o acompanhar: Bill Frisell na guitarra e Herlin Riley na bateria. É um trio absolutamente fora de série, os músicos dialogam uns com os outros com uma naturalidade impressionante e o trompete de Ambrose Akinmusire cria uma atmosfera musical única, demonstrando a razão pela qual, há já alguns anos, foi premiado e reconhecido como um dos mais relevantes trompetistas actuais. A guitarra de Frisell une-se ao trompete numa combinação inesperada , com o suporte certeiro da bateria de Riley. o tema título, “Owl Song”, nas suas duas versões, mostra isso mesmo, a fusão das sonoridades da bateria, guitarra e trompete, criando uma música comovente, empolgante e na realidade inesquecível. É um dos melhores discos que ouvi nos últimos meses. Um obrigado a Miguel Esteves Cardoso, que numa recente crónica me fez descobrir este trabalho. Edição Nonesuch, disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Sem profundas mudanças nas oligarquias partidárias, do PSD e PS, não se vai a lado nenhum e essas mudanças nos partidos não se dão porque não existem forças endógenas para o conseguir. Quem mais precisa dessa força é o centro político, e o partido onde ela é mais necessária é o PSD.” - José Pacheco Pereira

 

BACK TO BASICS - “A desobediência, aos olhos de quem estudou História, é a virtude original do homem. É através da desobediência e da rebelião que se tem construído o progresso” - Oscar Wilde.

 

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CONTEÚDOS RIGOROSAMENTE VIGIADOS

por falcao, em 12.04.24

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A COMUNICAÇÃO - Num curioso regresso ao passado o novo Governo retirou a comunicação social da tutela do Ministério da Cultura e passou-a para o centro político do executivo, na dependência do Ministro dos Assuntos Parlamentares, Pedro Duarte, um dos pesos pesados do núcleo duro de Luís Montenegro. Esta área passa a tutelar directamente a RTP, a Agência Lusa, e o enquadramento regulamentar e legal de um sector que é maioritariamente privado. Os argumentos para a mudança, ainda não enunciados publicamente, podem surgir como bondosos - por exemplo criar mecanismos que ajudem os mídia a ultrapassar a crise existente; mas podem também querer dizer uma maior interferência política - e não só económica - no sector, nomeadamente nas duas empresas acima referidas, de que o Estado é accionista. Creio que a actuação do Estado nesta área devia dar prioridade à nossa presença num mundo digital fortemente audiovisual, garantindo a existência de conteúdos que proporcionem a salvaguarda do peso da língua e cultura portuguesas nesse mundo, em clara ligação com o Instituto do Cinema e Audiovisual, ICA e com os privados do sector. E sinceramente, creio que se for dada importância a esses conteúdos, faz mais sentido a localização desta área na Cultura que nos Assuntos Parlamentares. As eventuais medidas de apoio aos privados têm mais a ver com uma política de incentivos fiscais do que com negociatas entre partidos na Assembleia da República e, na minha opinião, não devem passar por criar uma política de atribuição de subsídios que coloque os privados na dependência do Estado - e tão pouco na utilização geral e gratuita do serviço da Lusa que assim seria rebaixada a um canal de transmissão, sujeita ainda mais a todas as pressões. Mas faria sentido que um dos apoios ao sector tivesse a ver com incentivos à leitura e à compreensão digital, por exemplo, o que nos faz voltar à Cultura. Não me canso de dizer que o accionista Estado deve definir o que quer do serviço público audiovisual - nomeadamente se pretende que ele seja concorrente dos canais privados e que continue a investir mais em transmissões desportivas e concursos variados do que na criação de conteúdos estruturantes, em programas  que fiquem para o futuro e não se esgotem no momento em que são emitidos. 

 

SEMANADA - A concessão de crédito para habitação a famílias de menores rendimentos passou de 32% em 2018 para 3% em 2023; segundo o Eurostat o preço das casas na UE caíu pela primeira vez desde 2013 mas em Portugal continua a subir e regista o terceiro maior aumento da zona euro; as pensões médias encolheram 15% nos últimos 15 anos; 26,% dos pensionistas portugueses optaram por reforma antecipada; o mercado automóvel cresceu 13% no primeiro trimestre do ano em Portugal, para um total de 68.520 novos veículos e os carros com motor eléctrico representaram 16% dos automóveis ligeiros; em Fevereiro foram registados mais 7,2 mil desempregados no país; Em termos de PIB per capita expresso em paridades de poder de compra Portugal está no 18º lugar dos 27 países da UE, já foi ultrapassado pela Eslovénia, República Checa, Estónia e Lituânia e atrás de si tem países como a Polónia, a Hungria e a Roménia; mais de 65% dos jovens portugueses abaixo dos 30 anos recebem menos de mil euros líquidos mensais;  o SNS só presta tratamento adequado de reabilitação a 30% dos doentes que sofreram um  AVC.

 

O ARCO DA VELHA -  Um relatório do Tribunal de Contas acusou o anterior Governo de não ter seguido as suas recomendações em relação ao controlo de falhas nas matrículas dos alunos e na detecção de situações de risco de abandono escolar precoce.

 

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UM VELÁZQUEZ - Na Galeria Principal do Museu Gulbenkian pode ver até 9 de Setembro uma das mais importantes obras do pintor espanhol Diego Velázquez, integrada no programa Obra Visitante, desta vez proveniente da Frick Collection. A pintura do Rei Filipe IV de Espanha era uma das obras favoritas do grande colecionador americano Henry Frick e foi realizada na primavera de 1644, altura em que Velázquez acompanhou o monarca na sua incursão militar na Catalunha. Velázquez terá realizado esta pintura num curto espaço de tempo, em condições pouco habituais, num ateliê improvisado, em Fraga, quartel-general das tropas espanholas. Filipe IV é representado  no papel de chefe militar vitorioso após a reconquista da cidade de Lérida. Uma vez terminada, a pintura foi enviada para Madrid, a fim de representar simbolicamente o rei numa missa na Igreja de San Martín, que celebrou o acontecimento. Calouste Gulbenkian era um grande admirador da obra Velázquez - em 1919, adquiriu uma sua obra, Retrato de D. Mariana de Áustria, quadro que viria a ser doado ao Museu Nacional de Arte Antiga. O  ciclo Obra Visitante do Museu Calouste Gulbenkian, foi inaugurado há dois anos, com outra obra-prima da pintura europeia, o Autorretrato com Boina e Duas Correntes, de Rembrandt, então cedido pelo Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, de Madrid. 

 

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ROTEIRO -  Uma boa surpresa é a exposição “Escavar Uma Nuvem” (na foto), que apresenta trabalhos de Rui Horta Pereira, desenhos e esculturas feitas a partir de materiais recolhidos no Parque Natural da Arrábida,  mostrando vestígios d a acção da Natureza ao longo de anos, que pode ser vista até 24 de Maio na Galeria das Salgadeiras (Avenida dos Estados Unidos da América 53D). No MAAT pode ver “Shining Indifference” com pinturas de Luísa Jacinto e “Mar Aberto”, com fotografias, vídeos e peças escultóricas de Nicholas Floc’h.  De 12 a 27 de Abril Alfredo Cunha apresenta “Viva a Liberdade”, uma exposição de fotografias datadas de 1975 que mostram as paredes ocupadas por cartazes e pinturas de palavras de ordem (Rua Franciso Palha,  56 em Marvila). Se for a Paris poderá ver  até 9 de Setembro, no Centre Pompidou, a exposição “Amadeo de Souza-Cardoso/Sonia et Robert Delaunay- Correspondances”, com curadoria de Sophie Goetzmann, Helena de Freitas e Angela Lampe. Em Algés, no Palácio Anjos, pode ver uma exposição sobre a obra de João Abel Manta, nomeadamente com com pintura, cartoon, ilustração e design gráfico, além de outras áreas que o artista praticou. Em Castelo Branco abriu uma nova Galeria, Castra Leuca Arte Contemporânea, que até 21 de Abril apresenta a exposição “4 Elementos” com obras da ceramista Yola Vale (Rua de Santa Marta 129). E na Galeria Santa Maria Maior, o repórter fotográfico João Marques Valentim apresenta, numa dupla exposição,  imagens que recolheu em 1974, sob o título “ E Depois do Adeus” e “O Insubmisso” (Rua da Madalena 147).

 

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O ANTES E O DEPOIS - Estes dois livros, que hoje vos trago, entram na categoria de auxiliares de memória.  O “Era Proibido”,  de António Costa Santos, recorda o Portugal de antes do 25 de Abril numa nova edição revista e aumentada . Como o seu autor escreve, “os leitores nascidos em democracia poderão duvidar da realidade dos factos que aqui são narrados (...) quem viveu sempre em liberdade terá dificuldade em imaginar um país onde os filmes eram cortados aos bocadinhos para defender os bons costumes e se ía parar à cadeia por ouvir a BBC ou ler um determinado livro. Foi um tempo caricato, mas sem graça. Um tempo que convém reconhecer e recordar, porque, como dizia o filósofo espanhol George Santayana, os que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo”, o que não se deseja. O outro livro, “No Princípio Era O Verbo” recolhe alguns dos lemas, pinturas de parede e palavras de ordem, das mais diversas proveniências políticas, que invadiram as ruas depois do 25 de Abril de 1974, com texto de Manuel S. Fonseca e ilustrações de Nuno Saraiva. Manuel S. Fonseca começa por um preâmbulo onde visita e descreve, hora a hora, os incidentes e o suspense da noite de 24 de Abril, da madrugada de dia 25 e e da manhã e da tarde desse dia onde os militares de Abril derrotaram o estado a que isto chegara. A seguir, na segunda parte, saltam as ilustrações de Nuno Saraiva, a mostrar frases, palavras de ordem, diálogos que hoje podem parecer inacreditáveis, mostrando como da direita à esquerda, reacionários e  revolucionários, sociais -democratas e socialistas, comunistas, maoístas e anarquistas cruzaram com palavras a paisagem de Portugal. Os dois livros são editados pela Guerra & Paz.

 

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UM QUARTETO DE EXCELÊNCIA - O saxofonista e flautista Charles Lloyd é um dos nomes de referência do jazz norte-americano. Tinha nove anos quando recebeu o seu primeiro saxofone e já adolescente tocou com músicos de blues como Howlin’ Wolf e B.B. King. Aos 18 anos foi estudar música na Universidade da Califórnia e depois das aulas tocava em clubes de jazz com nomes como Ornette Coleman, Don Cherry, Charlie Haden ou Eric Dolphy.  No início dos anos 60 tocou ao lado de grandes nomes do jazz, mas também de bandas como os Beach Boys. Em 1966, aos 28 anos, formou o seu quarteto com músicos como o baterista Jack DeJohnette, o pianista Keith Jarrett e o baixista Cecil McBee, grupo que fez uma actuação histórica no festival de Monterey desse anos, registada no álbum “Forest Flower”.  Hoje com 86 anos Charles Lloyd continua a tocar e acabou de lançar um novo disco, “The” Sky Will Be There Tomorrow”, que recupera temas antigos que interpretou ao longo da sua carreira e também alguns inéditos e foi buscar para o seu lado músicos como o pianista Jason Moran, o baixista Larry Grenadier e o baterista Brian Blade.  Ao longo de 15 temas e hora a meia o novo álbum mostra como Lloyd é um saxofonista notável, capaz quer de improvisações, quer de seguir as melodias sugeridas pelo piano de Moran, como acontece em “Monk’s Dance”, um tema de homenagem a Thelonious Monk, ou na faixa de abertura, “Defiant, Tender Warrior”. Sugiro que ouçam com atenção o seu saxofone em “The Lonely One” e  a flauta em “Late Bloom”. “The Ghost Of Lady Day” é uma homenagem a Billie Holiday que nasce com o baixo de Grenadier, pontuado pela delicadeza de apontamentos rítmicos de Brian Blade, até o piano de Moran e o sax de Lloyd começarem a dialogar. Este tema é um bom exemplo da qualidade e entendimento dos membros deste quarteto que se juntou para esta merecida homenagem a Charles Lloyd. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “A qualidade do debate político aproxima-se a grande velocidade do mais perfeito cafarnaum” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Afirma com energia o disparate que quiseres, e acabarás por encontrar quem acredite em ti” - Vergílio Ferreira

 

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