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SOMOS GOVERNADOS POR UM CÍNICO - O cinismo na política significa total ausência de escrúpulos e não é a primeira vez que António Costa se faz notado por o usar - nos incêndios do ano passado recorreu ao mesmo expediente e foi chamado à pedra pelo Presidente da República. Quando um Primeiro Ministro vem dizer que existir apenas um incêndio com efeitos devastadores, o de Monchique, é prova de que as medidas de prevenção que o seu Governo ordenou funcionam, entramos no campo da pior demagogia. Bem sei que este é um terreno onde Costa se move com especial à vontade, mas as suas afirmações são uma ofensa a quem sofre, uma ofensa à inteligência e, em última análise, um iludir de responsabilidades de um Ministro da Administração Interna que é uma anedota, que permitiu meios de socorro mal equipados, uma estrutura de comando feita de “boys” da sua confiança numa Protecção Civil que não soube dirigir as operações, tudo amplificado por uma porta voz promovida - Patricia Gaspar - que continua a ser uma fábrica de fake news. Isto para nem falar das burocracias que impediram a prevenção e que agora são ocultadas pelos guardiões do templo ou do facto de a própria Autoridade Nacional de Protecção Civil não ter cumprido as novas regras que ela própria elaborou e que definem como se devem organizar as operações de socorro no terreno. Infelizmente aqui o cinismo, a incompetência e o laxismo mostram que Monchique não é uma excepção: é apenas, infelizmente, a confirmação do que funciona mal, muito mal. O cinismo num político é uma ofensa pública, sobretudo quando se manifesta depois de andar a fazer figuras parvas de imitador de Trump no twitter.

 

SEMANADA- Em 2017 Portugal foi o terceiro país com os preços da eletricidade e do gás natural mais caros da União Europeia, segundo dados do Eurostat; segundo a Marktest nos últimos 12 meses apenas cerca de um milhão de pessoas pagaram para ir ver futebol ao vivo, o que significa 12% dos portugueses com mais de 15 anos; dois contratos de PPP rodoviárias celebrados entre o executivo de Sócrates e o grupo Ascendi, que era da Mota Engil, já custaram 836 milhões de euros ao Estado, quando até 2009 não traziam nenhum encargo; segundo o INE a precariedade laboral voltou a subir no segundo trimestre e é agora mais elevada que no auge da crise, em 2011; quase 10% das vagas para recrutar médicos para o SNS ficaram vazias; nos primeiros sete dias de agosto morreram mais 512 pessoas com idade igual  ou superior a 75 anos, por comparação com o valor registado no ano passado; devido à falta de pessoal no fim de semana passado o atendimento do 112 registou esperas de três a 20 minutos e no domingo 173 chamadas ficaram por atender; ainda não abriu o concurso para 200 novos guardas florestais que o Governo tinha prometido realizar antes do Verão; no ano passado 25% dos incêndios não foram investigados por falta de pessoal; os helicópteros da  protecção civil para combate aos incêndios foram alugados sem sistema de  espuma retardante anti-fogo.

 

ARCO DA VELHA- O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas está há mais de sete meses para aprovar um projeto de intervenção na zona da Perna da Negra, precisamente o local onde deflagrou o incêndio da passada sexta-feira na Serra de Monchique.

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ARTE REGRESSA A  ALMANCIL - Mário Sequeira, um importante galerista de Braga (mais precisamente de Tibães), está a dar nova vida ao Centro Cultural de Almancil, no Algarve  - o antigo Centro Cultural de São Lourenço que foi fundado em 1981 pelo casal Marie e Volker Huber e que ao longo dos anos divulgou artistas plásticos, promoveu conferências com escritores (como Gunter Grass, amigo dos fundadores), concertos e recitais de música e de poesia. Situado a uma centena de metros da Igreja de Almancil, o espaço do Centro Cultural de São Lourenço foi o resultado de um minucioso trabalho de recuperação de cinco casas rurais com mais de 200 anos feito pelos fundadores e encerrou a primeira fase da sua existência em 2012 . Mário Sequeira renovou todo o espaço e apresenta até 31 de Agosto a exposição colectiva “Island In The Sun”, comissariada por Duarte Sequeira e André Butzer - que escolheu o título a partir de uma canção de 2001 da banda californiana Weezer. A exposição apresenta trabalhos de, entre outros,  Rui Algarvio, José Bechara, Sarah Bogner, André Butzer, Pedro Calapez, Gary Webb, Pedro Cabrita Reis, Luís Coquenão, Aneta Corovic, Cris Kirkwood, Maja Körner, Isaque Pinheiro, Christian Rosa, Fabian Schubert, Baltazar Torres, Thomas Winkler e Josef Zekoff. Na imagem estão obras de Pedro Calapez e Gary Webb. A norte o destaque vai para a XX Bienal Internacional de Cerveira, que decorre de 10 de Agosto a 23 de Setembro. Em Lisboa na activa Galeria Passevite, Rua Maria da Fonte 54 (perto da Graça), pode ver até 13 de Setembro “O Inimigo Exposto”, a partir dos desenhos e ilustrações que Nuno Saraiva tem feito para “O Inimigo Público”.

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UMA AVENTURA EM MARROCOS  - Paul Bowles passou grande parte da sua vida, mais de 50 anos, em Marrocos, na cidade de Tânger. Foi para lá viver no pós guerra, em 1947, e por lá ficou até morrer, em 1999. A sua casa tornou-se local de peregrinação de nomes como Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Truman Capote ou Gore Vidal,  entre outros. As obras mais conhecidas de Bowles têm Marrocos como pano de fundo - nomeadamente “O Céu Que Nos Protege” . Outra obra dedicada a Tânger, originalmente editada em 1952, é “Deixa A Chuva Cair”, que agora volta a estar disponível no mercado português através de uma edição da Quetzal. “O Céu Que Nos Protege” passa-se no deserto do Saara, mas este “Deixa A Chuva Cair” tem toda a acção centrada na Zona Internacional de Tânger, com uma multiplicidade de personagens, de prostitutas a contrabandistas, passando por espiões e negociantes diversos - todos eles gravitando em torno de Nelson Dyar, um jovem americano que chega à cidade para começar uma nova vida - Bowles dizia que Dyar era a única personagem totalmente inventada. Curiosidade final : o título, “Deixa A Chuva Cair”, foi roubado de uma frase de Macbeth.

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UMA RÁDIO NOVA - No Mixcloud há muito mais do que música, mas é a música que me faz usar muitas vezes esta plataforma de streaming britânica que difunde programas de rádio, playlists de DJ’s e podcasts de entidades como a revista Wired ou a Harvard Business Review. Existem aplicações para iOS e Android, o que a torna numa forma barata, eficaz e rápida de ouvir selecções musicais de diversas proveniências. Cruzei-me com ela de forma mais regular quando percebi que David Byrne coloca lá as playlists da sua rádio virtual - e que vão de música do norte de África a selecções de temas de verão, passando por música brasileira ou jazz do século XXI. Vários DJ’s colocam lá as suas playlists, como os portugueses João Vaz (“Dance Sessions”) e a radialista Mónica Mendes. O jazz tem lugar de destaque com o show semanal do clube londrino Ronnie Scott’s ou também The Jazz Pit. Outro português que aparece, focado na música africana, é Francisco Abadia, com a sua “A Hora da Kianda”. A navegação, por géneros ou autor,  é muito simples e intuitiva e abrange praticamente todos os géneros musicais. Na área dos talk shows pode encontrar podcasts sobre economia, política, tecnologia. É um mundo a descobrir - uma fascinante forma de ir seguindo o que se passa no mundo - na música e na palavra. E cada um pode fazer upload dos seus próprios programas ou das suas playlists. Toda a gente pode ter um programa de rádio!

 

DIFERENÇAS DE DEGUSTAÇÃO - Setúbal é uma bela terra para comer bom peixe. Basta ir ao histórico Mercado do Livramento e percorrer as bancas do pescado para se perceber que ali a frescura não é um conceito abstracto. Nos últimos anos têm-se multiplicado os restaurantes, nomeadamente na zona da Avenida José Mourinho, em frente à doca, onde se sucedem casas de pasto umas atrás das outras. No entanto este não é, na minha opinião, o melhor local para se ir. Um dos restaurantes mais afamados dessa zona é O Miguel - mas à semelhança de outros vizinhos seus, é infelizmente irregular. O serviço oscila entre o distraído e o apressado e embora o peixe seja fresco (era o que mais faltava se ali não fosse…) a confecção deixa a desejar e nalguns petiscos - como os percebes - nem sempre a coisa corre da melhor forma. Por isso ultimamente a minha preferência vai para a Marisqueira e restaurante Zagaia Mar. O chef João Soares abastece-se na lota e no já citado Mercado do Livramento e os clientes podem ver o que está disponível num balcão perto da sala interior. O serviço é atento, a lista de vinhos é simpática e tem bom senso nos preços, há uma aposta em vinhos verdes pouco conhecidos como o Alvarinho Quintas de Melgaço. Recentemente provou-se com agrado um robalo com puré de aipo, bivalves e ovo a baixa temperatura, assim como um belíssimo polvo assado e uma dourada grelhada acompanhada de legumes salteados. Para começar vieram umas ameijoas à Bulhão Pato a respeitar a tradição e umas ostras que estavam superiores. Se Agosto é a prova dos nove de como corre a vida num restaurante, e se um fim de semana de Agosto é prova ainda maior, o Zagaia passou com distinção.  Avenida Luísa Todi, 510, Setúbal. Tel. 937 172 255, encerra à terça-feira,

 

DIXIT - Se a CP fosse privada o BE e o PCP já andavam a distribuir panfletos nas estações e a exigir a nacionalização - Adolfo Mesquita Nunes

GOSTO - A Toca da Raposa, em Lisboa, já aqui louvaminhada. foi incluída na lista dos melhores novos bares da Europa, onde ocupa o segundo lugar.

 

NÃO GOSTO - Num relatório sobre o estado da circulação de comboios na europa apenas a Roménia e a Bulgária têm pior classificação que Portugal.

 

BACK TO BASICS - Quando há muita gente que concorda comigo sinto que provavelmente estou errado - Oscar Wilde

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publicado às 13:15

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CIDADES SEM ROSTO - A paisagem das cidades portuguesas perde identidade com a proliferação de milhentos artefactos destinados a criar um cenário em vez de uma realidade. Muito do que hoje em dia vejo em Lisboa, no Porto, e, até em Coimbra, não vejo noutras cidades europeias com forte atracção de turistas, mas onde os habitantes locais são o destinatário preferencial dos cuidados de quem as governa. Noutras cidades europeias os visitantes são bem vindos mas os autarcas e as instituições não se vergam a eles. Pensam nos eleitores e não nos visitantes. Aqui está a dar-se o fenómeno contrário. A paisagem urbana está a degradar-se, não só pelo encerramento de lojas ou pela especulação imobiliária. No centro do problema está a atitude de quem tem poder. O mesmo se passa a nível nacional. Os trágicos acontecimentos do ano passado vieram pôr a nu aquilo que todos sabíamos mas que ninguém queria recordar: a cada vez maior desertificação do interior, o abandono de vilas e aldeias, o encerramento de tribunais, de estações de correios, de agências bancárias, a dificuldade em restabelecer coisas básicas como ligações telefónicas, a ausência de meios de socorro e a descoordenação dos existentes. A desertificação é tanta que, como um amigo me dizia, até já as lojas chinesas que encerram e fogem de vilas do interior. Se os serviços públicos encerram, porque hão-de os privados ficar? Há um dever do Estado em manter a vida no país. Esse dever anda a ser esquecido há décadas e nos últimos anos degradou-se para além do razoável. Depois da desertificação do interior começa a degradação das cidades. É a fase em que estamos.

 

SEMANADA - Um estudo divulgado esta semana indica que a plantação de eucaliptos tem cinco vezes mais apoios que a plantação de espécies da floresta nativa; em Portugal um casal com dois filhos e salários médios é sujeito a uma carga fiscal sobre o trabalho acima da média da União Europeia e de entre as economias comparáveis somos dos países que pior trata estas famílias; o Ministério da Saúde não conseguiu recrutar nenhum dos 67 médicos de que precisava para reforçar o quadro hospitalar do Algarve durante o Verão; apenas três das instituições de ensino superior públicas têm creche ou jardim de infância destinados aos filhos de professores, funcionários ou estudantes; um em cada quatro automobilistas que morreram em acidentes de viação tinha mais álcool no sangue do que a lei permite; em ano de seca extrema o consumo de água aumentou 4%; o Chefe de Estado Maior do Exército recusou informar os deputados da lista de material recuperado após o assalto a Tancos; a procura do ensino superior registou uma quebra de 9%; o PSD foi o partido parlamentar que mais donativos recebeu em 2017; segundo dados da Marktest um terço do investimento publicitário em Portugal vem dos sectores alimentar, automóvel e farmacêutico; segundo Madonna Portugal é o país do Fado, Futebol e Fátima e assemelha-se a uma Cuba algo pobrezinha mas pitoresca

e simpática.

 

ARCO DA VELHA - Na terceira sessão parlamentar desta legislatura os deputados deram 1500 faltas, apenas 32 dos eleitos nunca faltaram ao plenário e o PSD foi o partido com maior taxa de absentismo, com 42% do total de ausências verificadas.

 

 

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ALTA TENSÃO - O número 2 de “Electra”, a revista de crítica e ensaio publicada pela Fundação EDP e dirigida por José Manuel dos Santos, tem por tema de capa  a “Estupidez”, desenvolvido a partir de um artigo de António Guerreiro que no seu enigmático estilo habitual elabora sobre “A Nossa Querida Estupidez” e, ao longo das cinquenta páginas seguintes, apresenta várias variantes de pensamentos sobre estupidez e idiotia por diversos autores. Confesso alguma dificuldade de compreensão da escolha editorial e da urgência da discussão de tal tema, pese embora a existência de tanta estupidez na política e no exercício do poder, quer em Portugal, quer lá fora. Ora aqui está uma análise que seria interessante: como a estupidez afecta a actividade e o discurso político no poder e nos partidos em Portugal. Mas daí, foge Satanás! Do ponto de vista gráfico a revista melhorou em relação ao primeiro número e apresenta-se menos cinzenta, embora continue a mostrar menos do que podia e a elaborar mais do que era necessário. É  preciso chegarmos à página 137, das 192 da revista, para encontrarmos o primeiro artigo interessante - “Que diabo vêm os turistas ver a Barcelona?” do poeta catalão José Angel Cilleruelo; mais à frente outro artigo que vale a pena ler é “A Cidade Sitiada” do historiador de arte italiano Salvatore Settis. Duas dezenas de páginas francamente boas em quase duas centenas é uma percentagem reduzida. O facto de uma publicação de crítica e ensaio ser uma raridade no panorama nacional acrescenta-lhe responsabilidade, não a retira. “Electra”, publicação trimestral editada pela Fundação EDP.

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ESCULTURAS NUM JARDIM - A exposição incontornável deste ano passa-se no espaço do Museu e dos jardins de Serralves e é a primeira mostra em Portugal de Anish Kapoor, um dos mais importantes artistas contemporâneos. A exposição reúne uma seleção de trabalhos de exterior representativos das esculturas  de Kapoor, como a da imagem, onde estão sempre presentes a escala, o relacionamento com a arquitetura, a paisagem e o próprio observador. A sua escolha e a sua localização relativa no Parque de Serralves foram cuidadosamente definidas pelo artista para criar um itinerário através do tempo, do espaço, das formas de percepção e de atribuição de significado. A apresentação no espaço central do Museu de 56 maquetas de projetos executados e não executados concebidas nos últimos quarenta anos evoca a escala pessoal do ateliê do artista, como espaço de pensamento e de experimentação. Até 6 de Janeiro, em Serralves. Em Lisboa, no espaço Chiado 8, até 14 de Setembro, mostra-se a obra dos cinco finalistas da primeira edição do Prémio Navigator Arte Em Papel. Para além de Francisca Carvalho e Pedro Paixão a lista dos cinco finalistas inclui o libanês Haig Aivazian, o indiano Shreyas Karle e ainda Seulgi Lee, de origem sul-coreana, mas que reside e trabalha em Paris há já mais de duas décadas.

 

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SAMBA & JAZZ - O nome Salvador da Silva Filho provavelmente não vos diz muito. O nome Dom Salvador já pode dizer alguma coisa aos apreciadores de jazz que tenham seguido o que nessa área se fazia no Brasil nos anos 60 e 70. Pianista, compositor e produtor, na segunda metade dos anos 70 tocou predominantemente nos Estados Unidos, onde conviveu com nomes como Thelonius Monk e Charles Lloyd. Foi a época em que o samba e a bossa nova procuravam pontos comuns com o jazz e, no caso de Dom Salvador o samba era o principal ponto de ligação. O seu álbum Rio 65 Trio é um exemplo disso, contrastando com o que se passava na jazzificação da Bossa Nova e procurando, em alternativa, um caminho mais próximo da fusão. Raridade hoje em dia, esse foi o disco que serviu de inspiração ao baterista Duduka Da Fonseca, que tocou com Salvador em Nova Iorque nos anos 80. “Duduka da Fonseca plays Don Salvador”, o álbum agora editado, é uma boa revisitação dos temas originais do já citado Rio 65 Trio e de vários outros do músico. O tema “Farjuto” é um bom exemplo das diferenças existentes: não se trata de uma cópia, trata-se de uma nova versão feita por quem admira o autor original e o conhece bem - e aqui Don Feldman, que ocupa o piano originalmente de Dom Salvador, tem um desempenho notável. Outros destaques vão para os temas “Mariá” e “Para Elis”, duas baladas fora de série e para o arrebatador “Gafieira”. Resta dizer que além de Duduka da Fonseca na bateria e de David Feldman no piano, o trio completa-se com Guto Wirtti no baixo. Em “Para Elis” o violoncelo está nas excelentes mãos do convidado especial Jacques Morelembaum. Disponível no Spotify.



O COMENSAL - Há uns meses,  no restaurante de um dos chefs que apareceram nos últimos anos e tiveram passagens pela televisão, fiquei espantado com a boa qualidade da comida, o facto de a clientela ser maioritariamente portuguesa e de os preços serem razoáveis. O nome do chef em questão, ou melhor dizendo o  nome profissional, é Chakall. No fim do jantar, quando ele passou pelas mesas estivemos um pouco a falar e comentando eu a clientela maioritariamente portuguesa, ele explicou-me uma evidência: trabalhar para os clientes portugueses significa fazer as coisas de maneira a que voltem - a comida tem que corresponder às expectativas, o serviço tem que ser simpático e eficaz e a conta não pode ser agreste. Um estrangeiro está de passagem, vem cá hoje e não volta amanhã, por isso ele quer ter clientes que voltem e que, quando abrir outro restaurante noutro local, queiram experimentar o que lá faz. Infelizmente esta maneira de ver as coisas está a perder-se. Cada vez mais o serviço anda atabalhoado, os preços aumentam e a qualidade não corresponde ao esperado. Já vi casos em que, quando protestei com os preços em comparação ao que eram há uns tempos ouvi como resposta que aqueles são preços para turista, para os clientes portugueses o preço é especial. É isto que está a estragar tantas coisas boas que temos. Quem trabalha para turistas aposta muitas vezes no engano passageiro. Quem trabalha para os clientes do dia seguinte terá certamente vida mais longa.

 

DIXIT - “O que a direita faz é criar casos que minem todo o debate sobre o direito à habitação” - Catarina Martins, na RTP3, sobre a revelação dos negócios imobiliários de Ricardo Robles.

 

GOSTO - Da festa que é sempre a Volta a Portugal em bicicleta, a mais popular das competições desportivas.

 

NÃO GOSTO - Catarina Martins culpou os jornalistas e os orgãos de informação sobre a crise que assolou o Bloco por terem revelado as negociatas de Robles.

 

BACK TO BASICS - O mais radical dos revolucionários será um conservador no dia a seguir à revolução - Hannah Arendt.

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publicado às 13:20

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DIFERENÇAS IBÉRICAS - Portugal mudou de regime em Abril de 74. A Espanha teve igual mudança ao longo do ano de 1976 - dois anos depois. Hoje em dia a média de idade dos dirigentes dos principais partidos espanhóis é de 40 anos, enquanto a média de idade dos dirigentes dos principais partidos portugueses é de 55 anos. No caso espanhol a maior parte dos dirigentes nasceu depois da transição; no caso português a maior parte dos dirigentes nasceu no velho regime, há mais de 44 anos. Dos actuais dirigentes portugueses só Assunção Cristas tem 44 anos, Catarina Martins tem 45, Jerónimo de Sousa tem 71, Rui Rio tem 61 e António Costa tem 57. Em Espanha as contas são diferentes: Pablo Casals do PP  tem 37 anos, Pedro Sanchez do PSOE tem 46 anos, Albert Rivera dos Ciudadanos tem 39 anos e Pablo Iglesias do Podemos tem 40. A diferença da média de idades dos dirigentes partidários dos dois países é de 15 anos, significa praticamente uma geração. Esta diferença significa também uma visão diferente da vida, do país e do mundo. Em Portugal, excepção feita ao Bloco, que mesmo assim já leva 19 anos de existência, o resto vem de uma situação particular de transição, à excepção do PCP - que em Espanha já não existe na prática. Em Espanha o Ciudadanos foi fundado em 2006 e o Podemos em 2014. A Espanha retomou a democracia depois de Portugal, andou mais depressa, o regime modificou-se mais rapidamente. Portugal, na discussão do poder político, vive do passado e no passado, precisam-se líderes novos e organizações novas. Assim como estamos não vamos a lugar nenhum a não ser degradar ainda mais o que existe. A entrevista de Rui Rio na TVI esta semana foi o retrato da incapacidade da sua geração política. Há uma geração de políticos em Portugal que, para bem do país, deve saber sair de cena.

 

SEMANADA - Dos trinta maiores financiamentos atribuídos pelo programa comunitário 2020, 26 foram para o Estado e só 4 para empresas;  esta semana tornou-se notícia o maior avião do mundo ter aterrado no aeroporto com menos passageiros do mundo, em Beja; o número de caixas multibanco disponíveis para consumidores diminuíu ao ritmo médio de 467 por ano desde 2011; os portugueses pagam em comissões bancárias o dobro do valor suportado pelos vizinhos espanhóis; em seis anos foram encerradas 1895 agências bancárias; ficaram por preencher 1230 vagas de professores, mais de metade em Lisboa e Setúbal; mais de 85% da produção de electricidade tem subsídios; 22,9% dos portugueses recebem o salário mínimo; 54% dos pensionistas,  cerca de 1,6 milhões, recebe reformas abaixo do salário mínimo; o Conselho das Finanças Públicas considera que a probabilidade de a economia portuguesa se encontrar em recessão no decorrer dos próximos cinco anos é de aproximadamente 55%; a economia nacional tem um dos maiores défices da balança alimentar da Europa; a média das temperaturas até agora registadas no mês de Julho é a mais baixa dos últimos 30 anos.

 

ARCO DA VELHA - Um homem condenado e preso por fuga ao fisco usou cheques furtados e sem cobertura para pagar protecção a um outro detido com o objectivo de evitar mau tratos na prisão.

 

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UMA REVISTA DIFERENTE - “Mayday” (palavra que pode querer significar socorro em várias circunstâncias) é o título de uma revista independente nascida e criada em Copenhaga, na Dinamarca e que se publica duas vezes por ano. Apresenta-se como uma montra das mudanças que acontecem no mundo e que confrontam as pessoas, a cultura, a sociedade e a tecnologia, com especial incidência no pensamento independente. A ideia é ver o presente a olhar para o futuro e na sua origem está o Trouble, um laboratório criativo de novas ideias. A “Mayday” gosta de se apresentar como uma revista sobre cultura, sociedade, tecnologia e realidades imprevistas. Neste segundo número da “Mayday” o destaque vai para uma entrevista com a Comissária Europeia Margrethe Vestager, que se lançou numa cruzada contra os abusos de gigantes tecnológicos como o Google e Apple. É seguida por 250 mil pessoas no twitter e dirige uma equipa de 900 colaboradores que velam sobre o cumprimento das regras da concorrência na Europa. Uma das suas frases mais relevantes desta entrevista, que merece ser lida de fio a pavio, é esta: “a questão da identidade é algo que custou milhões de vidas ao longo de vários séculos e é por isso que se torna muito premente perceber como nos posicionamos e qual o nosso papel num mundo digital”. Outro ponto de interesse nesta edição é a entrevista com Ivan Krastner, o politólogo autor do livro “Depois da Europa”. A “Mayday” está disponível na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88, Lisboa. 

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IDEIAS FOTOGRÁFICAS - A fotografia que acompanha estas linhas é de Martin Parr, um dos nomes grandes da agência Magnum, e da fotografia contemporânea e refere-se a uma série sobre a transformação de Brighton nos anos 80. Faz parte da exposição “New Brighton Revisited”, que está na Open Eye Gallery daquela cidade. Se procurarem por ela na internet depressa darão com esta e outras imagens - não só de Parr (que há dois anos teve uma bela exposição em Lisboa na já extinta Barbados Gallery), mas também de Ken Grant e Tom Wood que documentam a vida naquela cidade costeira ao longo de três décadas. Um dos aspectos mais interessantes da fotografia contemporânea, sobretudo na Grã Bretanha, é a capacidade de mostrar e preservar o quotidiano de diversas épocas. Nos últimos anos o British Journal Of Photography tem lançado a série “Portrait Of Britain” que está a tornar-se um documento e testemunho incontornável. Várias cidades, sobretudo no norte da europa, convidam anualmente fotógrafos a mostrarem a sua visão dessas cidades e das pessoas que as habitam. E entretanto, em Portugal, só se fotografam desgraças, acidentes, catástrofes. O dia a dia, o quotidiano, está sempre ausente, desde há muitos anos. Com esta ausência perdemos a preservação da memória e abandonamos o registo das mudanças que vão ocorrendo. Lisboa, o Porto, e também várias outras cidades de Portugal precisavam destes registos, de iniciativas assim - uma gota de água nos orçamentos de festividades muitas vezes vazias e que não deixam património sobre o presente para ser interpretado no futuro. Em vez de investirmos no que fica, gastamos no que se esquece. É este um dos nossos grandes problemas.

 

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A LISTA DE SAKAMOTO - Uma das coisas mais enervantes em qualquer local público é música ambiente colocada de qualquer maneira, muitas vezes num volume estridente. Cada local deveria ter uma selecção musical cuidada e adequada ao seu estilo e às pessoas que o frequentam. Vem isto a propósito de um brilhante artigo publicado por estes dias no “New York Times” no qual se explica porque é que o grande músico e compositor Ryuichi Sakamoto se levantou da mesa e foi falar com o chef do seu restaurante japonês favorito em Nova Iorque, o Kajitsu. A questão tinha a ver com a falta de sentido da playlist existente, De modo que Sakamoto propôs-se oferecer uma playlist, sem cobrar nada por isso, para que pudesse ali continuar a ter as suas refeições num bom clima. Como diz o autor do artigo do NYT, quando se vai a um bom restaurante disposto a pagar uma fatura gorda a última coisa que apetece é que a playlist seja feita num vão de escada pelo filho do ajudante de cozinha ou do chefe de sala. Foi isso que Ryuichi Sakamoto se propôs alterar. Foi falar com o chef do Kajitsu, perto da Lexington Avenue, Hiraki Odo, e ofereceu-lhe a lista. É uma escolha de Sakamoto, que tem a particularidade de não ter uma única das suas composições, que vai do jazz à pop e à electronica, passando por várias épocas e diversas geografias. Se procurar no Spotify por “The Kajitsu Playlist” descobrirá a preciosidade que Sakamoto ofereceu a Odo. E que agora todos podemos partilhar.

 

RESTAURANTES & PESSOAS -  Além do chef (e das suas propostas culinárias) há duas coisas que fazem um restaurante: o serviço e as pessoas que o frequentam. É muito difícil encontrar o ponto de equilíbrio entre uma cozinha de que gostamos, um sítio onde nos sentimos bem e uma vizinhança que não indisponha. Em Lisboa juntar estas três peças é cada vez mais uma raridade. Os novos chefs e os seus conceitos olham tanto para os seus respectivos umbigos que se esquecem das pessoas. Estão interessados em ser adulados, em servir o que lhes apetece sem ouvir críticas - seja da qualidade, seja do preço. Eu não suporto, por exemplo, chefs que me querem oferecer uma experiência baseada num menu de degustação ao qual não posso fugir. Gosto de escolher o que me apetece sem ser forçado. Odeio a ditadura dos chefs e as suas imposições. Irrita-me um serviço que não sabe distinguir um bife mal passado de uma carne transformada em sola a preços de sapatos Church. Não gosto de olhar para uma sala e ver maioritariamente pessoas a quem não me apetece falar nem estar. Quando vou ao restaurante gosto de estar descansado. Muitas vezes, ao almoço, vou sozinho aos sítios mais diversos, só para observar pessoas, a maneira como falam umas com as outras. Um restaurante é um ponto de encontro, não é um ponto de desencontros. É por isso que cada vez mais desconfio dos restaurantes da moda e dos chefs carapau de corrida carregados de (pre)conceitos.

 

DIXIT - “Chegou ao Aeroporto de Beja uma avioa que vem prenhe” - comentário de um dos mirones que foi assistir ao aterrar do enorme A380 que tem um larguíssimo ventre aeronáutico.

 

GOSTO - Uma investigadora portuguesa na área do transplante renal, Margarida Carvalho, ganhou o prémio pela melhor tese de doutoramento na Europa.

 

NÃO GOSTO - Há 90 leis que não são aplicadas por não terem sido regulamentadas, algumas desde 2003, em áreas como a corrupção, as florestas e as secretas.

 

BACK TO BASICS - O estilo permite dizer de forma simples coisas complicadas - Jean Cocteau



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publicado às 15:47

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ADORMECIDO - Em Portugal há dois mundos: o das pessoas e o dos políticos e dos partidos. As pessoas são destratadas pelo Estado; os políticos e os partidos comportam-se acima da Lei e fazem o que bem lhes apetece. Vejam bem: vá-se lá saber a rogo de quem, o Tribunal Constitucional deixou prescrever processos contra irregularidades nas contas de partidos, na Assembleia da República um ex-ministro do PS, Manuel Pinho,  comportou-se de forma “despudoradamente anormal”, para citar as palavras da também socialista Ana Gomes. Já nem falo das gentilezas do fisco em relação aos partidos... É raro o dia em que os jornais não relatam novos casos de corrupções maiores ou menores, de suspeitas que envolvem os dois maiores partidos portugueses. No Parlamento os votos dos deputados oscilam como um pêndulo avariado e já não se consegue perceber quem defende o quê. O espectro partidário actual está esgotado - a continuar assim a abstenção só vai aumentar. Nada de novo se desenha no horizonte - apenas umas vagas imitações de réplicas do sebastianismo ou de, como ouvi dizer esta semana, políticos que parecem Paul McCartney a querer manter a fama fora de prazo. Ouço falar de regressos, mas não vislumbro novidades. O país está conformado, adormecido, anestesiado. Isto assim não vai lá: falta uma visão ambiciosa e realista, falta capacidade de mobilizar pessoas que estão fugidas da participação cívica, falta voltar a trazer emoção à política. O pior é que não se vê quem possa fazer isto.

 

SEMANADA - Segundo um estudo da Universidade de Coimbra a população idosa portuguesa tem baixos níveis de saúde, em comparação com a de outros países europeus; as refeições escolares servidas aos alunos, este ano letivo, motivaram 854 queixas, sendo as principais causas de reclamação a qualidade e quantidade dos alimentos e a falta de pessoal; mais de 300 mil portugueses têm autorização para ter armas em casa; o Ministro da Defesa foi ao Parlamento dizer que não sabia o que se passava com o armamento desaparecido em Tancos e disse desconhecer o que falta recuperar; PCP, Bloco e PS votaram contra a descida do preço dos combustíveis; Clemente Pedro  Nunes, professor do Instituto Superior Técnico, afirmou na comissão parlamentar de economia que as tarifas de apoio específico às renováveis lançadas nos governos de Guterres e Sócrates foram a “subversão do sistema” que levou ao disparar dos preços da electricidade; segundo a Marktest, no primeiro semestre de 2018, Marcelo Rebelo de Sousa foi a personalidade que mais tempo de informação protagonizou nos noticiários dos principais canais de televisão, tendo intervido em 946 notícias de 40 horas e 15 minutos, enquanto António Costa totalizou 39 horas e 10 minutos e Rui Rio ficou na terceira posição com 19 horas e 22 minutos de cobertura televisiva.

 

ARCO DA VELHA -  O Tribunal Constitucional deixou prescrever as multas que devia aplicar a partidos políticos, estimadas em 400 mil euros, referentes a irregularidades nas contas de 2009 dos partidos e assim ilibou 24 dirigentes partidários com responsabilidade financeiras.

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FOLHEAR - O Fogo é o tema central da nova edição da revista Egoísta, agora distribuída. No editorial Mário Assis Ferreira, depois de evocar a tragédia dos incêndios, recentra a questão, sublinhando que “no domínio das ignições existe um outro fogo, esse sem labaredas visíveis, tal como o cinta Camões: o amor é um fogo que arde sem se ver”. O grafismo de Joana Miguéis é logo, desde as primeiras páginas, absolutamente deslumbrante. Nesta edição destaco as ilustrações de Rodrigo Saias para um texto de Stieg Larsson adaptado por Patrícia Reis, e também os textos “Não Há Inferno” de José Eduardo Agualusa e “Cinza Que Arde Sem Se Ver” de Alexandra Lucas Coelho. O ensaio “Política a Ferro e Fogo” de Filipe Santos Costa, com fotografia de Alfredo Cunha, é uma visão diferente e inesperada de episódios e protagonistas do Portugal pós 25 de Abril. Mas o ponto alto desta edição é um texto extraordinário de Paulo Moura, que evoca os dias de 15 a 18 de Junho do ano passado, quando decorreram os grandes incêndios, um texto centrado nas vidas e esperanças de alguns dos que morreram e de outros que sobreviveram em três casas da aldeia de Pobrais - acompanhado por fotografias de João Porfírio trazem de regresso à memória esses dias terríveis.

 

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VER - A exposição 289, que abriu sábado passado em Faro, foi pensada por Pedro Cabrita Reis para juntar artistas, cruzando várias gerações e experiências. Ao todo são oito dezenas de artistas - uns estiveram presentes no projecto @British Bar, que decorreu desde Abril de 2017, nas 3 montras do British Bar, em Lisboa, por iniciativa também de Pedro Cabrita Reis e os outros integram os artistas e outros convidados do colectivo algarvio 289, em cujas instalações decorre a exposição. A todos juntaram-se ainda artistas que Cabrita Reis foi convidando ao longo do processo. Desde Abril passado começaram a ser feitos convites, começou a desenhar-se a exposição e, nas últimas semanas começaram a chegar as obras e os seus autores para acompanhar a montagem. O local da Associação 289 é uma antiga quinta, que durante uns anos serviu de sede à Associação de Comandos, que entretanto a desocupou. O sítio chama-se Pontes de Marchil e é aí que estão ateliers de artistas que integram esta associação cultural 289. Até 15b de Setembro, de quarta a domingo, entre as 17 e as 21 horas podem ser vistos trabalhos de Cristina Ataíde, Manuel Baptista, Xana, Pedro Calapez, Rui Chafes, Ângela Ferreira, Alexandra C., Rui Sanches, Patrícia Garrido, Vasco Futscher, Maria José Oliveira, Miguel Palma, Julião Sarmento, Ana Vidigal e Luis Campos, para só citar alguns. Esta exposição - um evento único na paisagem algarvia deste verão - é um exemplo de vontade, de querer fazer a diferença utilizando o empenho e a imaginação - e tudo gravitou em torno da energia com que Pedro Cabrita Reis se tem dedicado a desenhar projectos que são montras de divulgação de artistas de muitas proveniências.

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OUVIR - Um novo triplo CD, “Amália É Ou Não É” recolhe quase sete dezenas de canções e fados de Amália Rodrigues, em grande parte originalmente editados como EP’s de 45 rotações entre 1968 e 1975. Destes, 13 são versões inéditas de temas como ”Lá Na Minha Aldeia” a “A Rita Yé Yé”, passando por “Oiça Lá ó Senhor Vinho”, “O Cochicho” ou “Lavadeiras de Caneças”. Existe ainda um inédito, “Raminho de Loureiro” e quatro registos até aqui n\ao editados, gravados ao vivo em 1969, nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos: “Havemos de Ir A Viana”, “Povo Que Lavas No Rio”, “Formiga Bossa Nova” e “Vou Dar de Beber à Dor”. Este triplo CD é um exemplo da versatilidade e da capacidade interpretativa de Amália Rodrigues e também da diversidade dos géneros que abordou. Na nota introdutória, Frederico Santiago, que coordenou esta edição e que se tem dedicado a recuperar o arquivo de gravações de Amália na Valentim de Carvalho, sublinha: “Em 1968, com o êxito extraordinário de “Vou dar de beber à Dor”, de Alberto Janes, eclodem no repertório algumas cantigas, por alguns ditas “folcloristas” ou de natureza brejeira, mas que na voz de Amália, sempre segura da sua matriz popular e do seu erudito fraseado musical, nunca caem na vulgaridade”. O livro que acompanha o triplo álbum enumera os 45 RPM editados de 1968 a 1975, mostra fotografias da época (várias de Augusto Cabrita), evoca a relação de trabalho entre Amália e Alberto Janes (que conheceu quando ele lhe veio mostrar o fado “Foi Deus”), mas também o trabalho desenvolvido com Nóbrega e Sousa e Arlindo de Carvalho.

 

PROVAR -  O hábito de pedir um cocktail num bar ainda não é uma coisa vulgarizada entre nós, com o mercado dominado pelo Gin tónico. Constança Cordeiro, que aprendeu a arte do cocktail em Londres, apostou que conseguia mudar a falta de hábito com a “Toca da Raposa”, que criou há menos de um mês, entre o Carmo e o Chiado, perto das Escadinhas do Duque. Depois de ter regressado de Londres, andou meses a pesquisar ervas aromáticas a plantas nos campos alentejanos e criou as suas próprias receitas que geraram uma dezena de cocktails que estão na sua carta, todos a 11 euros, todos com o nome de bichos. O espaço pode acolher cerca de 30 pessoas - algumas em mesas, cadeiras e sofás e o resto, uma dúzia de convivas,  à volta de um grande balcão quadrado de bom mármore português. Nas receitas da Toca da Raposa entram ingredientes como o azeite, a meloa ou a flor do eucalipto. Além dos cocktails há alguns snacks ligeiros, de base vegetariana, criados por  António Galapito, o chef do Prado, com quem Constança Cordeiro trabalhou em Londres: grão frito com especiarias, vegetais da época crus com maionese de ervas, salada de pickles caseiros e piri piri e tosta de rabanetes com queijo da ilha de São Jorge com cura de 24 meses. A acompanhar precisamente uma destas tostas provei a sardinha, um cocktail de tequilla, manjericão, limão e cerveja, ideal para os dias mais quentes e, a conselho de Constança, rematei com um lobo - que leva whisky de 12 anos, flor de eucalipto e meloa. A Toca da Raposa fica na   Rua da Condessa 45 e está aberto de terça a domingo das 18.00 às 02.00.

 

DIXIT - “Estamos abaixo da linha de água há anos, é muito desmoralizante” - António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga

 

GOSTO - Está em curso um plano para a valorização do carapau, como alternativa à sardinha.

 

NÃO GOSTO - O Museu Nacional de Arte Antiga funciona há anos com um terço dos vigilantes necessários, o que leva a encerrar ao público várias salas de exposição.

 

BACK TO BASICS - Para prevermos o que será a actuação futura das pessoas devemos assumir que tentarão sempre escapar-se a situações desagradáveis utilizado o menos possível a inteligência - Friedrich Nietzsche

 

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AEROPORTO - Exercício de memória: em 2009, quando na campanha eleitoral para as autárquicas desse ano foi proposta a urgente construção de um novo aeroporto de Lisboa, na carreira de tiro da Força Aérea em Alcochete, António Costa (que venceu essas eleições), tomou posição contra a ideia e contra a urgência da decisão. Pedro Santana Lopes, que havia apresentado e defendido a proposta, perdeu as eleições, Costa venceu, e os trabalhos preparatórios do aeroporto não se iniciaram - em Alcochete ou em outra localização. Já lá vão nove anos - o tempo que os especialistas consideram razoável para a preparação, planeamento e construção de uma infraestrutura como um aeroporto moderno, feito de raiz. E que se passa agora? O aeroporto da Portela está caótico, as previsões de que ficaria saturado confirmaram-se devido ao enorme afluxo de visitantes, a solução do Montijo, que não resolve o problema de fundo, está atrasada. As queixas dos utilizadores do aeroporto aumentam, os atrasos nos voos também, as demoras na entrada e saída de passageiros atingem níveis brutais. Pelo meio a TAP e a Ana-Da Vinci estão em guerra permanente, atirando uns para cima dos outros culpas pelos atrasos.  As companhias aéreas queixam-se que a concessionária do aeroporto aumenta os preços sem prestar melhor serviço ( e foi anunciado novo aumento para o final do ano) e o membro do Governo que tutela a área limita-se a dizer que é difícil negociar com a Da Vinci. O país continua entregue ao improviso, só depois da casa roubada é que se colocam trancas na porta. Por este andar os turistas vão aborrecer-se de passar mais tempo no aeroporto e nos vôos atrasados do que a ver a cidade. E lá encontrarão outro destino mais confortável, por muitas fotos que Madonna coloque no Instagram. Lembram-se como começava “Airport”, uma canção dos Motors, em 1978? - So many destination faces going to so many places/ Where the weather is much better/ And the food is so much cheaper.”

 

SEMANADA - O Estado português tem a terceira dívida pública mais elevada do Mundo; pela primeira vez desde 2007, no ano passado, os hotéis de Lisboa ultrapassaram em receitas os do Algarve, por uma diferença de €36,2 milhões; no ranking da pontualidade do mercado da aviação a Portela ocupa a sexta pior posição num conjunto de 513 aeroportos a nível mundial; as reclamações dos utentes do aeroporto de Lisboa aumentaram 14% este ano; a frota da CP está envelhecida, há demasiados comboios avariados, as oficinas têm falta de pessoal e o concurso para compra de novo material circulante, identificado em Fevereiro do ano passado,  ainda não tem caderno de encargos; em 2017 o número de trabalhadores do Estado a recibo verde aumentou 14,6%; seis dos eurodeputados portugueses, quase um terço dos eleitos nacionais, acumula actividades paralelas com o exercício da actividade no Parlamento Europeu; os preços da habitação na União Europeia cresceram 4,7% no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, com Portugal a apresentar a quarta maior subida com 12,2%; no espaço de cinco anos a receita fiscal com a compra e venda de imóveis duplicou e a receita do IMT em 2017 aumentou 24% em relação à obtida no ano anterior.

 

ARCO DA VELHA - O Ministério da Saúde fez promoção nas redes sociais a uma aplicação para smartphone com a frase “tenha o cartão de atividade física da MySNS Carteira e seja tão forte como os jovens da Tailândia“.

 

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FOLHEAR - Uma das coisas de que gosto é olhar para a estante à procura de um livro que ainda não tenha lido. Esta semana dei com “Descalços em Tempos de Botas” - um título que vale tudo porque evoca uma época, não demasiado distante, em que ter sapatos, em muitos sítios de Portugal, era ainda uma miragem. O seu autor é um homem que adora escrever e que pratica outra profissão. Chama-se João Ferreira de Almeida, nasceu na aldeia de Souto de Lafões em 1955, concelho de Oliveira de Frades. Começou a trabalhar aos 12 anos, em Lisboa e aqui cresceu. Desde 1976 está todos os dias num dos restaurantes mais tradicionais da zona da Avenida de Roma e Areeiro, O Pote. Completou o ensino secundário aos 50 anos e este livro, editado em 2014, é a sua segunda obra, depois da estreia em 2007. Na introdução o autor sublinha: “Não é possível construir um futuro melhor sem conhecer o passado, as raízes de onde viemos, nem é possível avaliar o presente sem sabermos o que já fomos, o que tivemos, o que em tempos vivemos”. “Descalço em Tempos de Botas” é um testemunho do que era a vida no pós guerra, quase uma reportagem no passado, onde as histórias do dia a dia de então se cruzam com relatos de aventuras, encantos e seduções. É uma escrita sem época, sem artifícios nem condicionada por modas de estilo: faz-nos parar no retrato que desenha deste país onde afinal muitas coisas só mudaram à superfície.

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VER - Frida Kahlo nasceu no México em 6 de Julho de 1907, há 111 anos portanto. Morreu em 1954, aos 47 anos, depois de ter passado a vida adulta com sérias limitações físicas, provenientes de um gravíssimo acidente que teve aos 18 anos. Na morte de Frida Kahlo o seu marido, Diego Rivera, decidiu doar ao Estado mexicano a Casa Azul, onde Frida nascera e viveu, assim como o seu espólio de desenhos, pinturas, livros, objectos diversos e uma colecção de fotografias que ela recolheu ao longo da vida. O arquivo pessoal, onde estavam seis mil fotografias, só poderia ser aberto anos mais tarde - e o prazo dilatou-se tanto no meio de diversos incidentes que só ao fim de 50 anos ele foi tornado público. Foi a partir desse acervo que a Directora do Museu Frihda Kalo, instalado na Casa Azul, organizou e seleccionou as imagens que agora se apresentam, até 4 de Novembro, no Centro Português de Fotografia, instalado na Cadeia da Relação do Porto. “Frida Kahlo - As Suas Fotografias” apresenta  241 imagens, que a mostram à frente ou por detrás da câmara, evidenciam o seu olhar mas também a sua intimidade - Frida era uma apaixonada por fotografia, o seu pai e o seu avô eram fotógrafos profissionais. Ao longo da sua vida Frida Kahlo foi fotografada por grandes fotógrafos do século XX, como Imogen Cunningham, Edward Weston, Man Ray, ou Lola Alvarez Bravo. São fotografias que mostram a intimidade e os interesses da pintora ao longo da sua vida atribulada - a família, o fascínio por Diego Rivera, os múltiplos amores, os amigos e alguns inimigos, o corpo acidentado e a ciência médica, a luta política e a arte.

 

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OUVIR - Ao contrário do que se podia pensar este “Live In Europe” do trio de Fred Hirsch, não é o resultado de registos de uma série de concertos, mas sim uma gravação realizada no final do ano passado num espaço de acústica exemplar, um auditório do Instituto que tutela a  rádio pública Belga, perante uma audiência atenta. O CD começa e acaba com versões de composições de Thelonius Monk - a faixa de abertura é “We See”, um tema pouco conhecido de Monk, onde o piano de Hirsch, o baixo de John Hébert e a bateria de Eric McPherson improvisam e interagem de forma invulgarmente conseguida - com uma intensidade que se repete na faixa final, “Blue Monk”. Destaque também para as interpretações de dois temas de Wayne Shorter, “Miyako” e “Black Nile”. Os outros temas são da autoria do próprio Fred Hirsch, incluindo três homenagens - “Newklypso” (um tributo a Sonny Rollins), o bluesy “The Big Easy” ( em homenagem ao jornalista e escritor de Nova Orleães Tom Piazza) e “Bristol Fog”, uma balada onde o baixo de Hébert se destaca (dedicada ao compositor britãnico John Taylor). As restantes faixas mostram a boa forma deste trio e uma versão de”Skipping”  um dos temas do álbum de estreia da formação, datado de 2009, que é uma prova da evolução e progresso no entendimento entre os músicos. Disponível no Spotify.

 

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PROVAR -  Ao princípio era uma vez uma amêndoa que sonhava ser tarte. Agora a tarte teve uma mutação genética e virou bolacha - mas continua com a amêndoa. Segundo a Wikipedia o  termo bolacha deriva da fusão de bolo (bulla, objeto esférico em latim) com o sufixo diminutivo "acha". A primeira ocorrência do termo encontrada na língua portuguesa remonta a 1543. E assim, aquela tarte - A Tarte -  com massa crocante e um recheio carregado de boa amêndoa, passou a existir também como bolacha.  Em geral sou moderado no açúcar e não sou consumidor de sobremesas doces. Mas confesso, nesta matéria, um vício: um bom biscoito tira-me do sério, sobretudo se vier ao lado de um café. O caso agravou-se recentemente quando descobri estes novos biscoitos da Tarte. Feitos com a massa que serve de base à referida tarte, estas bolachas são produzidas à mão, com massa muito fina, areada e estaladiça, com o sabor da manteiga presente na proporção certa e com uma amêndoa cravada a meio do biscoito antes de ir ao forno ganhar côr. Este novo petisco da Tarte vem em embalagens com 10 bolachas e tem um preço de três euros e meio. O grande problema é que são tão boas que complicado mesmo é comer só uma.

 

DIXIT - “Temos a mania de avaliar as políticas pelas suas motivações e não pelos seus resultados” - Adolfo Mesquita Nunes

 

GOSTO - Do programa “Siga o Coelho Branco”, um novo magazine da RTP2 sobre cultura urbana, da autoria de Joana Stichini Vilela.

 

NÃO GOSTO - A Basílica Real de Castro Verde está em avançado estado de degradação, colocando em risco os 60.000 azulejos do século XVIII que forram as suas paredes.

 

BACK TO BASICS - Aquilo que é escrito sem esforço é geralmente lido sem prazer - Samuel Johnson.

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A PROPAGANDA É O ALIMENTO DE COSTA

por falcao, em 06.07.18

O ARAME - Resumo da semana política: em vésperas da feitura do Orçamento de Estado para o próximo ano o Bloco procura espaço, o PC dá vitaminas aos sindicatos e às suas greves, Costa sacode água do capote das negas que vai dando, Rio faz exercícios de aquecimento e Marcelo lança foguetes de sinalização. A geringonça está com falta de óleo nas engrenagens e Costa insinua a possibilidade de crise, deixa cair que pode ir a eleições tentar a maioria absoluta se a coligação de esquerda romper ou, se necessário fôr,  procurar encosto em Rui Rio. O país anda preso por arames - o endividamento aumenta, o crédito ao consumo voltou a disparar, a corrupção em organismos públicos grassa, a judiciária investiga partidos, o ministro da educação escolheu a época de exames para andar em parte incerta e deixar a liderança do ensino a Mário Nogueira, o aeroporto de Lisboa (que é o motor da galinha de ovos de oiro do Turismo) está num caos, houve mais greves nos últimos dois meses que no ano anterior inteiro. A única coisa que funciona verdadeiramente bem é a propaganda do Governo. O exercício de poder está a assemelhar-se ao desbobinar de um rol de promessas. Como ouvi numa conversa esta semana, deixem-nos lá entreterem-se uns com os outros.

 

SEMANADA - Seis organismos públicos foram alvo de investigações sobre corrupção no espaço de um mês; o valor em crédito ao consumo concedido pelos bancos aumentou 6,9% em Maio face a igual mês do ano passado; a dívida do Estado português subiu 300 milhões em maio, atingindo um novo recorde de 250.313 milhões; o número de reclamações dos passageiros do transporte aéreo aumentou 35% em 2017; o organismo que fiscaliza os subsídios atribuídos pelo Estado considera que os organismos públicos dão apoios sem rigor nem objectividade; o número de acidentes com automóveis sem seguro cresceu 14% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com período homólogo do ano passado; em 2017 foram concedidas 46.827 licenças de uso e porte de armas de caça, cerca de mais 11 mil que no ano anterior; a primeira análise às contas da gestão de Bruno de Carvalho no Sporting detectou dívidas a fornecedores de pelo menos 40 milhões de euros; soube-se esta semana que a mais valiosa colecção de fotografia portuguesa, do ex-BES, agora à guarda do Novo Banco, está em más condições de armazenamento e a deteriorar-se.

 

ARCO DA VELHA - Há 54 presidentes de associações juvenis que têm mais de 60 anos.

FOLHEAR - Um dos mais interessantes estudos sobre a história da fotografia em Portugal foi recentemente publicado em livro. Chama-se “Infâmia e Fama” e aborda “o mistério dos primeiros retratos judiciários em Portugal”, mais precisamente no período entre 1869 e 1895. Leonor Sá, a sua autora, desenvolveu este trabalho no âmbito da sua tese de doutoramento a partir de dois álbuns fotográficos, hoje pertencentes à colecção do advogado Francisco Teixeira da Mota, que os adquiriu em leilão, e que foram produzidos na Polícia Civil de Lisboa pouco depois da sua criação, em 1867. Filipa Lowndes Vicente, que é a curadora do Museu da Polícia Judiciária, escreveu no prefácio que “os tempos da fotografia judiciária são os tempos mínimos de colocar o detido, ou a detida, quieto, perante a lente. O momento imediato substitui a encenação e a verdade acaba por substituir o artifício”. E faz notar que enquanto o retrato encomendado a um estúdio fica na posse do fotografado ou da família, o retrato judiciário não fica com a pessoa que está representada e é mesmo provável que essa pessoa nunca o veja. “Nos anti-retratos - como lhes chama - os retratados não têm, à partida, direito a olhar para a sua imagem” - sublinha. Pelo seu lado Leonor Sá mostra e contextualiza os dois álbuns portugueses que são o centro do seu trabalho no que foi o desenvolvimento do retrato judiciário na europa do século XIX, mas também a  utilização da fotografia como instrumento da antropologia. Para além da investigação sobre os dois álbuns, mostra a evolução da iconografia de ilustrações sobre criminosos, desde as medievais até aos cartazes de “Wanted” do far west norte-americano, ou até às criações artísticas sobre o tema feitas, contemporaneamente, por exemplo por Andy Warhol ou Ai Weiwei. Este é um livro fascinante para os apaixonados pela história da fotografia e pelas evolução das utilizações que ela teve em nome da Lei.

 

VER - Uma das mais importantes exposições de fotografia deste ano abriu agora em Lisboa, no Museu Berardo, e estará patente até 7 de Outubro (na imagem). Trata-se de “Between the Devil and the Deep Blue Sea”, uma exposição do fotógrafo sul-africano Pieter Hugo, que se destacou pela forma como acompanhou e documentou o fim do apartheid na sociedade sul africana. Pieter Hugo  é conhecido pela forma como desenvolveu a sua técnica de retrato, num contexto de referências das comunidades do seu país e da estética da arte africana. Considerado um dos grandes documentaristas da sociedade sul africana contemporânea começou pelo fotojornalismo, foca-se tradicionalmente em grupos marginais e nesta exposição vemos vários exemplos desses seus ensaios fotográficos. O nome da exposição é inspirado numa canção de George Harrison e no fundo esta é uma retrospectiva de várias fases do seu trabalho, organizada em 2017 para o Kunstmuseum Wolfsburg, na Alemanha com curadoria de Uta Ruhkamp. Outros destaques: no British Bar a derradeira edição da série de 15 exposições que Pedro Cabrita Reis criou para serem exibidas nas montras do estabelecimento, e que apresentou mais de quatro dezenas de artistas ao longo dos últimos 15 meses. Desta vez os convidados foram Luisa Cunha, Rui Toscano, João Paulo Feliciano, Ricardo Bak Gordon e Tomaz Hipólito. Se passarem pelo Museu do Caramulo, além das exposições de carros (actualmente uma com a história da Porsche), poderão ver “Black Box - Passeios”, uma mostra de trabalhos de Francisco Tropa, Jorge Molder, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Manuel Botelho, Teresa Segurado Pavão, Luisa Cunha e Gonçalo Barreiros, com curadoria de Rui Sanches.

 

OUVIR - “Both Directions at Once: The Lost Album” é uma recolha de gravações, na quase totalidade inéditas, feitas pelo quarteto de John Coltrane no histórico estúdio de Rudy Van Gelder em 6 de Março de 1963. Do quarteto faziam parte Coltrane no sax tenor e sax soprano, McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria. Gravado um anos antes do referencial “A Love Supreme”, estas gravações, que totalizam 90 minutos,  mostram a vitalidade deste quarteto sensivelmente a meio da sua existência. O próprio estúdio ajudou à sonoridade: um pé direito de quase 13 metros, com tecto de madeira abobadado, inspirou os músicos e as gravações ali realizadas eram de facto diferentes. Como é que as bobines destas gravações ficaram tanto tempo ignoradas? A Impulse, a editora com a qual Coltrane tinha contrato, teria perdido as masters numa mudança de instalações e só recentemente os originais em mono foram encontrados em casa da primeira mulher de Coltrane, Juanita Naima Coltrane. Aparentemente esta sessão de gravação destinava-se a cumprir o compromisso de gravação de um álbum para a Impulse. Provavelmente teria sido preciso regressar a estúdio para finalizar esse álbum, mas o que se passou nesse ano de 1963 com estes registos tinha ficado até agora desconhecido. O resultado está aqui, e é aliciante:14 faixas, vários takes de cada tema, alguns originais sem título. 90 minutos do quarteto de Coltrane, ouvidos 55 anos depois de terem sido gravados: tudo parece agora tão simples e acessível, tudo tão natural - mas percebe-se como era um passo nas direcções que Coltrane tomou depois, até morrer em 1967. Se quiserem este é um registo de uma época de transição e de auto-descoberta. E é um documento maravilhoso de um dos maiores músicos de jazz. CD Impulse, no Spotify.

 

PROVAR - A fruta é uma coisa muito incerta. No ano passado tivemos boa cereja e figos abaixo do mediano. Este ano temos cerejas abaixo do mediano mas os figos estão supremos. As chuvas inesperadas deram cabo das cerejas mas o tempo, no geral, parece ter ajudado os figos. Eu sou um apaixonado por figos - desde estes que agora aí andam, escuros, grandes, carnudos, até aos mais pequenos, verdes, tenros, que hão-de aparecer- se o Verão se dignar surgir. Mas para já estes figos estiveiros, os figos de Junho ou de S. João, são magníficos. Poucas frutas são tão versáteis como os figos: gosto de os misturar numa salada, ou como entrada, divididos em quartos acompanhados por presunto cortado bem fino. E gosto deles como sobremesa, e gosto deles como lanche. Eu, de figos, gosto de todos, evocação das memórias de estar na sombra debaixo das grandes figueiras a colhê-los maduros para logo ali os provar. Quando chegar a agosto espero que os pingo de mel façam jus ao nome. Fruta, para mim, é fruta da época. Já que hoje em dia é difícil comer pêssegos em condições, atiremo-nos aos figos que ainda sabem a boas memórias. E ainda nem falei das passas de figo...

 

DIXIT - “O mito acabou” - Jerónimo de Sousa; “De repente, toda a gente acha que é possível fazer tudo já e ao mesmo tempo” - António Costa.  

 

GOSTO - Portugal é vice campeão europeu de satélites do tamanho de latas de refrigerantes.

 

NÃO GOSTO - O Fisco enviou multas relacionadas com a caixa postal electrónica de forma claramente abusiva, mostrando mais uma vez a sua falta de respeito pelos direitos dos contribuintes.

 

BACK TO BASICS - A música é o vinho que enche o copo do silêncio - Robert Fripp.

 

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TUTTI FRUTTI? REALIDADE OU PROPAGANDA?

por falcao, em 29.06.18

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INVESTIGAÇÕES - Quando olho para a pompa e circunstância das investigações judiciais, muito bem publicitadas, envolvendo extensos meios humanos e usando pomposos e imaginativos nomes, ocorre-me se tudo isto não será uma manobra de ilusão criadas pelas autoridades judiciais para mostrarem que, ao contrário do que se vê, fazem alguma coisa. Acho muito bem que se investiguem as actividades dos políticos e sobretudo a dos autarcas, nomeadamente dos que tomam decisões sobre o urbanismo nas maiores cidades do país e não apenas sobre os que decidem compras de serviços e adjudicações. A confiança das pessoas nos políticos está quase no grau zero e se existem suspeitas seja do que fôr é bom que se investigue. Mas desejo que essas investigações levem a algum lado e não a um beco sem saída, como tem acontecido tantas vezes nos últimos anos. Uma investigação ou descobre um crime e o prova, ou não o consegue fazer e apenas destrói ainda mais a pouca confiança que existe. Esta semana foram mais de 70 buscas a sedes partidárias, escritórios de advogados e serviços autárquicos, com o correspondente alarido. Não sei quem dá os nomes às operações mas deve ser um belo criativo - “Tutti Frutti” é um nome excelente, mas resta saber se vai servir para vender a ideia de que o mal está em todo o lado ou para servir de sobremesa a alguém que queira fazer de conta que se investiga. Nestes últimos anos ganhei uma certeza: se confio pouco nos políticos, confio ainda menos nas investigações da justiça. E nas suas intenções.

 

SEMANADA - Em 2017 ficaram por fazer mais de 233 mil consultas de oftalmologia; o tempo médio de espera por uma consulta de oftalmologia no Serviço Nacional de Saúde é de 180 dias e há hospitais onde a espera é superior a dois anos; enquanto os aeroportos nacionais movimentaram mais 11,9% de passageiros no primeiro trimestre deste ano, face a igual período do ano anterior, os portos marítimos movimentaram menos 9,8% de mercadorias; nos primeiros três meses do ano o aeroporto de Lisboa movimentou 22 aviões por hora; a dívida pública portuguesa será a 11ª maior do mundo no final do ano e vai continuar  acima dos 120% do PIB; a economia portuguesa teve o quarto pior crescimento do PIB por habitante em idade de trabalhar entre 1998 e 2017; os cinco partidos da Assembleia da República representam hoje menos 850 mil portugueses do que representavam em 1995; sem contar com a Tutti Frutti, nesta legislatura o Ministério Público já fez 19 deputados arguidos quer no caso das viagens oferecidas quer devido a investigações sobre autarquias; mais de metade da população do Algarve tem excesso de peso; Portugal é um dos países da Europa onde se consome mais álcool per capita, sobretudo a partir da meia idade; o padre José Tolentino de Mendonça foi nomeado responsável pelo arquivo e biblioteca do Vaticano.

 

ARCO DA VELHA - O líder do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP), Arnaldo de Matos, apelou segunda-feira, na sua conta no Twitter, à luta armada “contra a exploração capitalista”.

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FOLHEAR - Esta é a altura do ano em que a revista Monole publica a sua edição dedicada à lista das 25 cidades que considera melhores para viver. Este ano a lista das cidades é acompanhada por uma lista das dez pessoas (“dez heróis”, diz a revista) que mudam a vida nas urbes onde vivem. Comecemos pelas cidades - a avaliação é feita a partir de 60 métricas, que vão desde a extensão de ciclovias existentes, até à quantidade de lixo reciclada, passando pelo preço de um bom copo de vinho ou o custo da habitação. As cidades, diz a Monocle desde a sua fundação, são o futuro do mundo - em 2030 as áreas urbanas acolherão 60 por cento da população mundial. Portanto a classificação tem em conta aquilo que as cidades oferecem já actualmente e também o planeamento que está a ser feito para preparar o futuro. Munique foi a vencedora este ano  - pelas áreas verdes, pelo número de equipamentos culturais e estabelecimentos de ensino, pelo desenvolvimento de infraestruturas e a facilidade de ligações internacionais. Em segundo lugar aparece Tokyo, já a beneficiar do que tem sido feito para alojar os Jogos Olímpicos de 2020. E em terceiro lugar vem Viena. Nos lugares seguintes, por ordem, estão Zurique, Copenhaga, Berlim, Madrid, Hamburgo, Melbourne e, em décimo, Helsínquia. Lisboa aparece na 12ª posição. Já agora Amsterdão surge na 16ª, Barcelona na 19ª, Paris na 20ª. É nos heróis urbanos que Lisboa aparece melhor classificada com Pedro Borges, proprietário e programador do Cinema Ideal, distribuidor e produtor de filmes, na 4ªa posição. A revista elogia o papel desempenhado pelo Cinema Ideal, recuperado em 2014, sublinhando que uma sala dedicada à exibição de filmes de qualidade é uma componente essencial de qualquer cidade cosmopolita. E Vihls (Alexandre Farto) é outro português em destaque nesta edição, num artigo sobre Street Art.

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VER - Na quarta-feira à noite gostava de ter estado em Porto Brandão, na margem sul, quase frente ao MAAT, para ver o novo farol de Lisboa a acender-se. É um farol especial, uma escultura de alumínio e neon, num pontão antigo do porto, há muito desocupado (na imagem). Esteve para se chamar mesmo Farol, mas o nome que ficou foi Central Tejo, porque fica frente ao emblemático edifício industrial da antiga fábrica de electricidade, hoje em dia pertença da EDP.  Este farol foi imaginado e construído por Pedro Cabrita Reis, e as suas luzes acenderam no mesmo dia em que inaugurou a exposição da sua colecção, “Germinal”, agora apresentada pela primeira vez em Lisboa e que ficou a pertencer à Fundação EDP. A inauguração foi no mesmo dia em que o artista português foi tema em destaque no New York Times exactamente por essa colecção que construíu, focada em talentos emergentes surgidos ao longo de três décadas, obras que agora podem ser vistas precisamente na Central Tejo até 31 de Dezembro. Ao mesmo tempo, no MAAT, inaugurou a exposição “Pan African Unity Mural”, da Ângela Ferreira, uma poderosa afirmação de arte política focada na luta contra o colonialismo e o apartheid - até 8 de Outubro no Project Room do MAAT. Finalmente, num registo completamente diferente, destaque para a exposição de Teresa Pavão na galeria Appleton Square, uma revisitação das memórias de Alvalade enquanto bairro industrial no meio da Lisboa dos anos 60. No caso o pretexto é uma fábrica de passamanarias que funcionou onde hoje é a Appleton, fábrica que Teresa Pavão frequentava à procura de matéria-prima para os seus trabalhos. Aqui estão teares com fios de seda, vários materiais e produtos dessa época, manipulados e expostos pela artista numa encenação em que evoca a fábrica e mostra o que tem feito com os seus materiais. Na Appleton Square, Rua Acácio Paiva 27, até 11 de Julho.

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OUVIR - O pianista sueco Bobo Stenson ganhou fama ao lado do saxofonista Jan Garbarek ou do trompetista Tomasz Stanko. Bobo desde há uns anos utiliza a fórmula clássica do trio de jazz - piano, bateria, baixo. Actualmente Stenson é acompanhado no baixo por Anders Jormin e Jon Falt na bateria. “Contra La Indecisión”, o seu novo trabalho, agora editado pela ECM, e que surge seis anos depois de “Cantando”, o álbum anterior. O disco começa com “Canción Contra La Indecision”, uma bela composição do cubano Silvio Rodriguez na qual Bobo Stenson mostra a sua forma elegante e envolvente de tocar piano, subtilmente pontuado pela bateria e o baixo. O novo disco inclui ainda  um original de Stenson e cinco de Anders Jormin, além de brilhantes interpretações de composições de Eric Satie, Bela Bartok e Frederic Monpou. Destaque para a “Elegie” de Satie ou a “Cancion Y Danza VI” de Mompou e ainda para o tum tradicional do folclore eslovaco, “Wedding Songs From Poniky”, recuperado por Bartok. Dos originais, destaque para “Stilla”, “Three Shades Of A House” ou o trabalho colectivo de “Kalimba Impressions”. Este “Contra la Indecision” é um daqueles discos exemplares para mostrar como o encanto de um trio de jazz reside na simplicidade. Um dos grandes discos deste ano, Bobo Stenson Trio, Contra La Indecisión, edição ECM, no Spotify.

 

PROVAR - Por estes dias ofereceram-me a primeira edição de um livro interessantíssimo, “O Vinho - Propriedades e aplicações, resumo de comunicações e pareceres aprovados nos últimos congressos médicos”. Datado de 1936, foi escrito por Samuel Maia, médico, jornalista e escritor que viveu ao longo da primeira metade do século passado. “O vinho é bom, no bom momento, em boa conta” - escreve o autor logo no início da obra para mais adiante sublinhar: “Em resumo, fixemos que o vinho é uma bebida útil, agradável e inofensiva que deu as suas provas através dos tempos - os médicos devem recomendar o seu uso, conhecer as intolerâncias e combater o abuso”. Dito isto, e seguindo as recomendações do Dr. Samuel Maia lancei-me a provar os primeiros vinhos biológicos certificados da Quinta do Monte D’Oiro - o Lybra 2017, rosé e branco. O Branco é um blend de Viognier, Arinto e Marsanne, muito fresco e cítrico e o Rosé é integralmente feito a partir da casta Syrah, estruturado, muito fresco e seco, a merecer apreciação muito positiva. Para completar o ramalhete, destaco o Lybra tinto da colheita de 2015, também integralmente Syrah. Todos estes Lybra vêm assinados pela enóloga da Quinta do Monte d’Oiro, Graça Gonçalves. O Dr. Samuel Maia havia de ter gostado destes vinhos.

DIXIT - “Portugal não é bem os Estados Unidos da América” - Marcelo Rebelo de Sousa, respondendo a Trump, quando este lhe perguntou se Cristiano Ronaldo se candidataria a Presidente da República.

 

GOSTO - Em pouco mais de dois minutos Marcelo Rebelo de Sousa explicou a Donald Trump a história das relações entre Portugal e os Estados Unidos. Uma lição.

 

NÃO GOSTO - As queixas por maus tratos contra mulheres apresentadas em 2017 atingiram uma média de 14 por dia.

 

BACK TO BASICS - Não se pode confiar numa pessoa que não confia em ninguém - Jerome Blattner

 

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LIXO -  Nos últimos anos Fernando Medina gastou milhões a fazer o que entende serem alindamentos da cidadã de Lisboa: remodelou passeios, alterou o traçado de ruas e avenidas (geralmente para piorar a vida dos lisboetas), ajardinou a eito de tal forma que aos primeiros calores as plantas murcham e secam. Tinha dinheiro e fez o que quis: obras na fachada para receber as visitas, esquecendo-se dos que cá vivem. Fruto do trabalho de muitos anos e de muitos executivos camarários, e fruto também das circunstâncias, Lisboa entrou na moda e tornou-se um destino turístico procuradíssimo. O aeroporto rebenta pelas costuras, as politiquices autárquicas e de relação com o poder central levaram a que se perdesse a  oportunidade, há uma dezena de anos, de avançar para uma solução de futuro que a esta hora já estaria construída em Alcochete. Os trânsito habituou-se a ser caótico face à inexistência de transportes públicos eficazes. Mas o pior, o mais revoltante, é a forma como a autarquia encara a limpeza da cidade. Tudo está um nojo e sobretudo no centro, por sinal na zona mais visitada pelos turistas, a lixeira é completa. No Chiado e no Cais de Sodré o espectáculo ao longo de praticamente todo o dia é deplorável. Claro que a culpa reside também nos cidadãos descuidados, nos restaurantes que deitam lixo fora de qualquer maneira, nas sobras de comida que deslizam para fora de sacos de plástico mal fechados, de falta de recipientes apropriados de recolha com capacidade para o aumento do lixo produzido no centro da cidade, para os horários de limpeza inconstantes, para o desleixo geral. Desde a falta de campanhas de sensibilização, à ausência de fiscalização de prevaricadores e à incapacidade dos serviços de limpeza camarários, as causas da porcaria em muitas ruas são variadas. Mas nada limpa a ideia de que se gastaram milhões em retoques e se continua a deixar a limpeza ao abandono. D.Medina, o maquilhador, borrou a pintura.

 

SEMANADA -Lula da Silva comenta o Mundial de Futebol para uma estação de televisão brasileira a partir da cela de prisão onde está detido; o Banco Comercial Português decidiu não emprestar mais dinheiro a clubes de futebol; Portugal tem o pior desempenho em termos de mobilidade educacional entre pais e filhos dos quinze países analisados pela OCDE, apesar de ter uma despesa em educação, em % do PIB, superior à média dos países analisados; no ano passado cada família foi em média 127 vezes às compras em supermercados com um gasto médio de 224 euros por mês; entre 2014 e 2017 a despesa anual de cada português com medicamentos foi de aproximadamente 200 euros; Portugal recusou 64% dos pedidos de asilo que lhe foram apresentados em 2017; a CMVM recebeu, em 2017, mais 24% de reclamações comparativamente com o ano anterior, 51% das reclamações recebidas foram referentes a obrigações e 27% a ações; o inquérito a obras ilegais em terrenos camarários na construção das novas torres das Picoas ficou a meio e duas direcções gerais da autarquia lisboeta recusaram-se a terminá-lo; a lei da paridade aumenta de 33,3% para 40% a percentagem mínima de cada um dos sexos nas listas eleitorais e a Comissão Nacional de Eleições avisa que esta alteração pode prejudicar a apresentação de candidaturas pela "eventual ausência ou diminuta adesão" por parte de um dos géneros; o Bloco de Esquerda anunciou que quer integrar o Governo a partir de 2019.

 

ARCO DA VELHA - Em plena crise provocada pela greve e protestos dos professores o Ministro da Educação preferiu ir à Rússia ver o Mundial do que estar no debate quinzenal do parlamento.

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FOLHEAR - Trabalhei um pouco mais de dois anos literalmente lado a lado com o Pedro Rolo Duarte no Se7e. Dividíamos a direcção, partilhávamos uma sala onde todos os dias fabricávamos ideias para fazer ressuscitar o jornal e agitar as águas, que era uma coisa que nos entretinha bastante. Foram dois anos de intensas e produtivas discussões, de muita criatividade e de várias crises - e sempre nos apoiámos mutuamente dos ataques que íamos recebendo daqueles que eram criticados nas páginas do jornal - músicos, responsáveis de editoras, actores, realizadores, enfim o universo do Se7e. Estávamos no final da segunda metade dos anos 80, uma época em que tudo parecia ser possível. No rasgar da nova década cada um seguiu o seu caminho e para trás ficaram as boas memórias dos nossos tempos em conjunto. Ao longo dos anos mantivemos com prazer encontros regulares onde íamos falando do que fazíamos e dos projectos que tínhamos. O Pedro aparecia sempre com uma ideia nova, mesmo quando profissionalmente os tempos lhe foram adversos, no início da crise da imprensa. Mas estava sempre a pensar, sempre a ter ideias - para imprensa, para rádio, para televisão, para digital. Era multimedia mesmo antes de o termo se vulgarizar. Quando soube que estava doente continuou a ter ideias, boas ideias, ideas de vida. O livro que escreveu nos seus últimos meses não é um livro sobre o fim, é um livro sobre tudo aquilo que o preenchia. Não é um livro de memórias, é um livro de ideias, de ensinamentos, de reflexões construtivas, sobre os seus amigos, sobre aquilo de que ele mais gostava e que fez até ao último dia: comunicar. “Não Respire - Tudo começou cedo demais (e quando dei por isso já era tarde)”, o seu livro de vida,  é a melhor coisa que ele nos podia ter deixado.

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VER - Que lugar melhor para ver Pop Art que um centro comercial? Na oitava edição de “A Arte Chegou ao Colombo” apresentam-se alguns dos trabalhos mais marcantes  do norte-americano Roy Lichtenstein como Crying Girl (na imagem), Whaam! e As I Opened Fire. Esta exposição, dedicada a um dos nomes maiores da Pop Art e apresenta uma seleção das obras de Roy Lichtenstein, um dos criadores deste movimento artístico, que transformou imagens da cultura popular e de massas provenientes da publicidade, da banda desenhada e do quotidiano. Até setembro no Centro Colombo. Outros destaques: dois artistas que estavam com as suas carreiras arredadas das vistas públicas há vários anos fizeram quase ao mesmo tempo exposições marcantes: na Sociedade Nacional de Belas Artes  a Fundação Carmona e Costa apresenta “Clareira”, que mostra esculturas de Manuel Rosa (cujo nome nos últimos anos foi mais conhecido pelo seu trabalho na Assírio & Alvim e na Documenta), esculturas feitas entre 1984 e 2018. Até 21 de Julho; o segundo regresso é de Patrícia Garrido, que expõe na Galeria Miguel Nabinho pinturas, desenho e escultura até 31 de Julho. No Museu da Batalha inaugurou a exposição “Gentes da Batalha”, fotografias de António Barreto.

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OUVIR - Este não é um disco fácil mas é um disco entusiasmante. Desde os primeiros segundos há uma presença dominante do saxofone, ao duelo com tuba e percussões, por vezes umas vozes. Aqui o dominante é o saxofone de Shabaka Hutchings, compositor de todas as nove faixas deste disco dos Sons Of Kemet, que ele criou e dirige. “Your Queen Is A Reptile”, um título carregado de sentido político, que exprime o sentimento da comunidade oriunda de África e das Caraíbas e que já cresceu em Londres com um olhar crítico sobre a sociedade britânica. Os heróis musicais de Hutchings são claramente John Coltrane e Pharaoh Sanders e não deixa de ser curioso que este seu disco seja editado pela renascida Impulse, uma etiqueta decisiva na afirmação do jazz nos anos 60 e 70 do século passado e que lançou aqueles músicos. Os nove temas têm no título o nome de outras tantas mulheres que tiveram um lugar proeminente na herança da cultura negra no Reino Unido. Mas considerações políticas à parte, musicalmente este é um disco arrebatador como poucos hoje em dia, com um sentido de ritmo e uma capacidade de improvisção e combinação das sonoridades dos diversos instrumentos que actualmente é muito rao encontrar. Sons Of Kemet, “Your Queen Is A Reptile”, CD Impulse, dirstribuído por Universal Music.

 

PROVAR - É milagre conseguir encontrar quase no epicentro da zona mais turística de Lisboa um restaurante fiel à cozinha portuguesa, com preços acessíveis e boa qualidade, que não se tenha deslumbrado com a invasão nem cedido à tentação de viver para os estrangeiros, de costas voltadas para os portugueses. Mas tal lugar existe, no Cais do Sodré e chama-se Solar do Kadete. Já lá jantei várias vezes, ao longo dos anos e nunca me desiludi - já lá comi boas sardinhas, posta de garoupa fresca, grelhada no ponto, devidamente acompanhada de feijão verde, ovas grelhadas como manda a tradição e da última vez deixei-me tentar, em boa hora, por um coelho desossado, grelhado. A grelha, onde peixe e carne são preparados, é a carvão e bem manobrada. Com sorte apanha-se cabeça de garoupa para os apreciadores e o bacalhau é de primeira. O serviço é acolhedor, eficaz, o patrão pertence à confraria do Moscatel de Setúbal e orgulha-se da variedade de colheitas dessa espécie que tem em casa e que serve devidamente paramentado quando é o caso. Tem esplanada que nas noites de verão é particularmente agradável. Cais do Sodré 2, telefone 213 427 255.

 

DIXIT - “A bola não queima” - Marcelo Rebelo de Sousa comentando o Portugal-Marrocos

 

GOSTO - A empresa portuguesa Critical Software foi escolhida pela BMW para desenvolver soluções de Inteligência Artificial para os carros que marcaraão o futuro da marca alemã.

 

NÃO GOSTO - Da destruição do Sporting que tem sido levada a cabo pelo que sobra da direcção de Bruno de Carvalho, num caso impressionante de abuso de poder e desfasamento da realidade.

 

BACK TO BASICS - A ilusão é o primeiro de todos os prazeres - Oscar Wilde

 

 

 

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SOBRE O ILUSIONISMO NA POLÍTICA

por falcao, em 15.06.18

 

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O MÁGICO - Talvez na sequência de ter chamado o ilusionista Luís de Matos para ajudar na propaganda governamental, António Costa parece querer passar de hábil negociador a mágico ilusionista. É que Costa sabe que vai precisar de muitos golpes de magia para conseguir passar a prova do próximo Orçamento de Estado. A vantagem é que agora tem dois palcos. Num deles pode dançar com o Bloco perante o olhar crítico do PCP; e no outro palco pode ensaiar uma rábula com Rui Rio, que já se ofereceu várias vezes para o papel, sempre pronto a dar uma ajuda. A grande questão é saber o que lhe será mais interessante a médio prazo: manter o motor da geringonça a funcionar, embora com solavancos, ou dar uma facadinha na relação e provocar uma crise de ciúmes, passeando de braço dado pelo Rio. Resta um cenário ainda mais surrealista - acordos com o Bloco de um lado e com o PSD de outro, deixando de lado o PCP e o PP. Já houve casos assim noutros países europeus e Costa gosta de levar as suas experiências ao limite. A negociação e a conspiração são o oxigénio que o alimenta. No recente congresso do PS todos assistimos à forma como permitiu aos jovens turcos avançar, deixando-os tornarem-se alvos fáceis. António Costa tem prazer em imaginar cenários difíceis, estômago para alianças complicadas e habilidade para sair de becos sem saída. Vamos ver o que conseguirá agora com a ajuda da magia.



SEMANADA - A maioria dos financiamentos bancários às empresas tem valor abaixo dos 25 mil euros; o preço dos combustíveis está a subir desde 2004 apesar das variações de preço da matéria prima; o CDS vai apresentar no Parlamento uma proposta para eliminar a sobretaxa sobre os combustíveis criada em 2016 pelo actual Governo ; o imposto sobre gasóleo subiu 56% desde a liberalização; segundo dados da Comissão Europeia, na primeira semana de junho o litro do gasóleo custava em média 1,38 euros nos postos portugueses e 1,24 euros/litro nos espanhóis; 28% é a quebra estimada de empregados nas regiões de fronteira portuguesas entre 2015 e 2050, contra 13% nas suas vizinhas espanholas; em 2017 o investimento imobiliário em Portugal atingiu os 22 mil milhões de euros; nos cinco primeiros meses deste ano o número de espectadores de cinema reduziu 17,5% ; já há 23 sindicatos de professores e o mais recente é dirigido por um bloquista  cuja primeira proposta foi fazer greve aos exames; segundo a OCDE Portugal está fora dos melhores exemplos de formação e avaliação de professores; os portugueses gastaram 24,4 milhões de euros no ano passado em produtos destinados a fazer emagrecer; o sector público português demora 86 dias a pagar e é o segundo pior entre 29 países europeus; Portugal não utilizou 75% dos apoios comunitários destinados a fornecer fruta e vegetais as crianças nas refeições escolares; 32% dos portugueses já fizeram pelo menos uma vez compras online e

25% fizeram-no nos últimos 12 meses; só 133 das 1125 casas destruídas pelos incêndios do ano passado já foram reconstruídas; Marcelo Rebelo de Sousa afirmou preferir a “paciência dos acordos à volúpia das rupturas, mesmo que tentadoras”.

 

ARCO DA VELHA - O  presidente da Entidade de Contas e Financiamentos Políticos alertou para o risco de prescrição de muitos processos sobre contas dos partidos e das campanhas eleitorais porque o Estado não dá meios suficientes para desempenhar a sua missão.

 

FOLHEAR - “A Rosa do Adro” é um dos romances portugueses mais populares no final do século XIX e início do século XX. A primeira edição data de 1870 Teve dezenas de edições, várias adaptações para teatro e duas versões em filme - uma de 1919, ainda no tempo do cinema mudo, realizada por Georges Pallu e outra, de 1938, com realização de Chianca de Garcia e com Maria Lalande, Costinha e Tomás de Macedo no elenco. A história é a de uma costureira, pobre, de seu nome Rosa, que vive com a avó numa aldeia minhota e se enamora por Fernando, um filho de ricos lavradores e finalista de Medicina, a estudar no Porto, mas muito ligado à sua aldeia. António, um jovem camponês, modesto, ama Rosa, que não corresponde e que está cada vez mais envolvida com Fernando, um amor contrariado pelos pais do rapaz e criticado na aldeia. Depois de muitas peripécias Fernando e Rosa casam mas a felicidade dura pouco e ambos morrem - ela de tuberculose, ele na sequência de maleitas contraídas numa emboscada armada por António. A história não acaba aqui - mas o melhor é descobrirem o livro, agora reeditado pela Guerra & Paz. O autor de “A Rosa do Adro” é Manuel Maria Rodrigues, que começou como tipógrafo no Comércio do Porto, onde depois trabalhou como jornalista na segunda metade do século XIX. Foi um dos fundadores  da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e escreveu vários outros romances. Ignorado pela crítica. que menosprezava a sua obra, ele retratou a sociedade da sua época, dos amores e desamores entre gente modesta e outra mais abastada. Vergílio Ferreira considerava intrigante como um livro ignorado por todas as histórias da literatura portuguesa “perdure para o interesse de sucessivas gerações”.

 

VER - Como pode uma fotografia de casamento surpreender? Encontra a resposta na quase clandestina e mal divulgada Galeria de Exposições da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior (Rua dos Fanqueiros 170 ou Rua da Madalena 149) onde está uma exposição de fotografias de António Leitão Marques intitulada  “Jardim de Namorados - A Arte de Casar em Moçambique”. Como a galeria sublinha, “os casamentos populares em Moçambique são um ritual surpreendente e para poderem realizar esta cerimónia, muitos casais esperam anos até conseguir juntar os meios necessários para tal. Por vezes, o casamento ocorre numa fase tardia da vida fazendo-se os noivos acompanhar dos filhos ou mesmo dos netos. Mas, seja qual for a idade, a cerimónia realiza-se sempre com grande solenidade, sendo um acontecimento de grande importância para a família e para os convidados em que a fotografia, em jardins públicos ou na praia continua a ser um testemunho fundamental do evento. Outra sugestão a propósito de casamentos - na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (Jardim das Amoreiras) “O Outro Casal”, uma exposição baseada no trabalho de Helena Almeida e Artur Rosa que segue uma metodologia especial - “o processo quase sempre se inicia pelo desenho: Helena Almeida desenha primeiro as posições, os movimentos em que o seu corpo será registado e depois, em sessões a dois, faz-se fotografar pelo seu marido Artur Rosa. Mas por vezes Artur Rosa também entra na imagem. Esta exposição centra-se precisamente nesses registos em que os dois aparecem, tanto em fotografia como em vídeo.”

 

OUVIR -  Começo por avisar que “Live In Europe”, de Melody Gardot, apesar da sua capa, que aqui se reproduz, e da fama (e proveito) de algum jazz vocal, não é nenhum enfado delico-doce morninho e sem rasgo. Antes pelo contrário, é o fruto do trabalho de uma grande vocalista, especialmente talentosa e versátil, e dos músicos que escolheu para a acompanhar.  Melody Gardot navega nas águas do jazz, dos blues, do gospel e da soul e entre as suas confessadas influências estão nomes como Janis Joplin, Miles Davis ou Caetano Veloso. Melody Gardot Live In Europe recolhe num duplo CD 17 canções gravadas entre 2012 e 2016 numa série de concertos. Na realidade o álbum é o resultado da selecção de cerca de 300 gravações efectuadas em diversas ocasiões numa dezena de cidades europeias, entre as quais Lisboa. A selecção foi feita pela própria Melody Gardot e o único tema que não é da sua autoria é o clássico “Over The Rainbow”, aqui alvo de uma completa transformação para uma versão inspirada no samba, Os arranjos são bem diferentes das versões de estúdio, na maioria musicalmente inesperados e dignos de nota, sobretudo em temas como “The Rain”, “March For Mingus”, “Baby I’m A Fool” e “My One And Only Thrill”. Duplo CD Decca, distribuído por Universal Music.

 

PROVAR - O Bella Ciao é uma cantina familiar, que oferece comida caseira italiana, tradicional, com massas Cecco de boa qualidade e no ponto certo de cozedura. Até há poucos meses estava na Rua do Crucifixo e tinha uma sala bem mais pequena que nas novas instalações, ali perto, na Rua de S. Julião. O novo local é amplo, bem iluminado, mas mantém o aspecto tradicional e despretensioso que era a boa imagem de marca da casa. O vinho da casa, nomeadamente o tinto, é de boa estirpe, os preços são acessíveis. Nas entradas destaque para uma tábua de queijo pecorino de ovelha, pão e salame. O chefe Marcello manda frequentemente para a mesa um pratinho com atum temperado e uns farrapos de salada. Outra entrada apreciada é a tradicional vitella tonato - fatias finas, com um molho à base de maionese, alcaparras, atum, anchovas e salsa. Acompanhado por uma salada pode resolver uma refeição. Nas massas destaque para os penne primavera, para o linguine com salmão fumado ou os bucatini alla matriciana, tudo receitas tradicionais bem executadas. O meu prato favorito é  orechetti com brócolos, anchovas, alho e queijo grana padrano. Muito apreciados também são o risotto de cogumelos e os papardelle com funghi porcini frescos e autênticos. Nas sobremesas o tiramisú é afamado e para os viciados avisa-se que mousse é de Nutella. O serviço , a cargo do incansável Pina, é muito simpático. Restaurante Bella Ciao, Rua de S. Julião 24-26, telefone 308 803 844.

 

DIXIT - “Aprende-se muito sobre uma pessoa quando se partilha uma refeição com ela” - Anthony Bourdain.

 

GOSTO - A venda de sacos de plástico caíu 94% em três anos de taxa.

 

NÃO GOSTO - A espera média por uma primeira consulta da especialidade é superior a um ano em 20 hospitais públicos.

 

BACK TO BASICS - Seduzir é a forma de ouvir um sim, sem sequer formular uma pergunta - Albert Camus

 

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FLECHAS & ARQUEIROS - Sente-se no ar um ligeiro odor de fim de festa. António Costa, agora escudado na possibilidade de tomar o pequeno almoço com Rui Rio com maior frequência, começou a dar negas aos seus parceiros da geringonça. O Primeiro Ministro guia o Governo como se estivesse numa pista de ensaios de automóveis a testar os travões. Imagino-o a sorrir quando recebeu a notícia de que Rui Rio tinha retirado as setas do logotipo do PSD, pensando, com os seus botões, que já passou o perigo de uma batalha com arco e flecha lançada pelo líder da oposição. Como se viu nesta semana, com o porta voz do PCP para o ensino a clamar por auxílio de outros sectores profissionais na luta dos professores contra o Governo, a discussão sobre o próximo Orçamento de Estado para 2019 promete episódios picantes. Há uma clara marca partidária no sector escolhido para radicalizar a luta contra o Governo. O PCP decidiu voltar a posicionar-se, farto de estar nas trincheiras atrás do Bloco de Esquerda. O problema é que a pessoa que escolheu para dar cabo da vida aos alunos neste fim de ano escolar é alguém que há muito tempo não dá aulas. Chamar-lhe professor é um problema de expressão. Face à ocorrência, até agora, o Governo tem mostrado vontade de se distanciar do senhor Nogueira. Estamos politicamente na fase da dança e contra-dança. Com o Ministro da Educação a nadar em seco. 

 

SEMANADA - Há 541 anestesistas a menos nos hospitais públicos; um terço dos anestesistas formados nos últimos três anos optou por não ficar no Serviço Nacional de Saúde; há regiões, como o Algarve, que oferecem o dobro das remunerações normais para conseguirem atrair médicos; pelo segundo ano consecutivo 700 médicos não têm vaga para fazer a especialidade; no último ano e meio a administração pública contratou 13 652 pessoas e as autarquias foram responsáveis por cerca de metade do novo emprego público criado; em 2017 cada português foi responsável por criar 1,32 quilogramas de lixo por dia -  desde 2011 que não se produzia tanto lixo; segundo a União Europeia Portugal é dos países onde a população total mais vai encolher e terá a taxa de crescimento potencial mais débil da Europa; um estudo divulgado esta semana indica que quase metade dos alunos do 2º ano não consegue saltar à corda e 40% deles não conseguem dar uma cambalhota para a frente; as ajudas do Estado aos bancos nos últimos dez anos custaram o equivalente a 23 pontes Vasco da Gama; o preço das casas subiu 20% mais rápido que o rendimento das famílias; a taxa de empregabilidade dos alunos formados na rede de escolas de hotelaria e turismo subiu para 90%; o Museu da Presidência da República foi assaltado pela segunda vez; o ex~líder da Juventude Leonina foi detido; o Estádio da Luz e o Benfica foram alvo de mais uma busca da Polícia Judiciária.

 

ARCO DA VELHA - O programa Simplex apresentou no Porto o primeiro funcionário público que é um robô humanóide, chamado Lola, e contratou o mágico Luis de Matos para fazer videos sobre as novas funcionalidades. António Costa, presente na apresentação do mágico, afirmou que não trazia vacas voadoras.

Dicionario Enciclopedico de palavras Cruzadas_CAPA

FOLHEAR - Os dicionários definem cruzadismo como o gosto pela actividade de fazer ou construir palavras cruzadas. É um passatempo que muitas pessoas é a razão para escolherem o seu jornal em papel e comprarem-no regularmente. Fazer palavras cruzadas é um desafio, um vício que puxa pelos conhecimentos de vocabulário e de raciocínio. Mário Bernardo de Matos é um dos grandes especialistas portugueses nesta área e entre 1999 e 2005 foi colaborador do Jornal da Região, onde publicou problemas de palavras cruzadas de autor para todas as regiões onde o jornal foi distribuído. Em 1998 lançou o Dicionário do Cruzadismo, a primeira obra do género a ser publicada em Portugal. Agora, pela mão da editora  Guerra & Paz lançou o “Dicionário Enciclopédico de Palavras Cruzadas”, que reúne mais de 17500 entradas ao longo de cerca de 400 páginas. Para além do seu conteúdo enciclopédico e rico em sinomínia a edição oferece a possibilidade de uma busca prática: ao contrário dos dicionários tradicionais esta obra parte de uma definição para chegar a uma palavra, e não de uma palavra para chegar a uma edição.

 

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VER - É raro ver um filme português que conjugue uma qualidade técnica irrepreensível (na fotografia, no som, na montagem) com um desempenho de actores excepcional, com um elenco internacional, uma história e uma narrativa escorreita Cabaret Maxime, o novo filme de Bruno de Almeida, é um exemplo disso mesmo. Bruno de Almeida, que estudou cinema em Nova Iorque, por lá viveu e trabalhou vários anos, trouxe uma forma diferente de pensar um filme, desde o processo de produção à construção do argumento e dos diálogos. O filme é rodado em Lisboa, no Cais do Sodré, integralmente falado em inglês e a história passa-se em local não especificado. O antigo Cabaret Maxime, na Praça da Alegria, que inspirou o filme, foi gerido no final da sua existência por Manuel João Vieira (músico, artista plástico), e ele próprio é o responsável não só pela banda sonora do filme como pelas numerosas intervenções musicais que surgem ao longo da narrativa. O tema do filme é a transformação que ocorre nas cidades quando a gentrificação começa a deslocar do seu habitat os negócios tradicionais - no caso é o negócio do entretenimento. O Cabaret Maxime é habitado como um circo, por artistas que vivem como uma família. Michael Imperioli (que fez fama em os Sopranos) desempenha o papel principal e é o dono do local. Destaque para as interpretações de Ana Padrão (o seu melhor papel em cinema até agora), John Ventimiglia, Nick Sandow e Drena De Niro. No fim os bons vencem os maus, coisa que por vezes acontece nos filmes e mais raramente na realidade.

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OUVIR - José Mário Branco é conhecido por ser um dos mais importantes nomes da canção de intervenção, antes e depois de 25 de Abril de 1974. Além de autor de canções inesquecíveis e de ser um grande intérprete, José Mário Branco é também um músico excepcional e um dos melhores produtores e arranjadores da música popular portuguesa. Os seus trabalhos com José Afonso e Camané, para citar só os mais conhecidos, são provas disso. Mas a sua actividade inclui bandas sonoras de filmes e a  recuperação de temas populares e tradicionais, além de colaborações com grupos de teatro, quer como actor, quer como compositor. “Inéditos 1967-1999” é um CD duplo que inclui 26 temas seleccionados pelo próprio José Mário Branco, em vários casos restaurados a partir das bobines originais, incluindo temas que nunca foram editados em disco, singles raros e maquetes nunca antes divulgadas. Entre os temas raros destacam-se as seis “Cantigas de Amigo” editadas em EP antes ainda do álbum “Mudam-se Os Tempos Mudam-se As Vontades”, o notável tema inédito “Quantas sabedes amar, amigo (Mar de Vigo)”, que abre a colectânea, o quarteto instrumental em 3 andamentos “Fantaisie Languedocienne”, de 1987, que agora foi gravado pela primeira vez em estúdio, os cinco temas escritos para a banda sonora do filme Agosto” de Jorge Silva Melo e o arrebatador bolero “Alma Herida”, escrito para o filme “A Raiz do Coração”, de Paulo Rocha, e que encerra o segundo CD. Este segundo CD tem aliás vários motivos de interesse musical, com José Mário Branco a inspirar-se em temas de Eddy Mitchell, Adriano Celentano, Helmut Zacharias , os Conchas e The Shadows. Outros pontos saltos são a colaboração com João Loio na marcha “São João do Porto”, e temas incontornáveis como “Ronda do Soldadinho”, “Cantar da Viúva de Emigrante”, “Fuga do Mar” (baseado num poema de Alexandre O’Neil), “Remendos e Côdeas” (segundo Bertolt Brecht). Edição Warner já à venda.

 

PROVAR - Soão é o nome dado a um vento que sopra do oriente. É também o nome da  taberna asiática que pela mão do chef Luís Cardoso junta pratos oriundos da Índia, Vietname, Coreia, Taiwan, China, Tailândia e Japão. Fica no edifício do antigo cinema Alvalade, junto à praça de Santo António. No piso de entrada há meia dúzia de mesas e o balcão onde se pode ver a cozinha em acção; em baixo há o bar e quatro compartimentos reservados que podem levar entre seis a doze pessoas. A carta proporciona uma escolha ampla, que vai de diversas entradas como chamuças de cabra, algumas sopas orientais, dim sums, sushi e sashimis, além de propostas próprias do chef. A decoração é simples e confortável, o serviço é completamente informal mas funciona. A lista de vinhos é suficiente, há cervejas orientais, diversos chás, e até cocktails de whisky japonês com chás especiais. Nas comidas provou-se um dim sum de champagne, lavagante e gambas, na sopa esteve bem o Tom Yum, uma sopa temperada com erva princípe, lima kaffir, chili, cogumelos e camarão (ou frango). A rematar veio um caril de peixe com leite de côco, manjericão, pimentos, lima kaffir e arroz thai, que estava acima da média. A sobremesa foi um refrescante gelado de lemongrass, gengibre e manjericão. O Soão é propriedade do mesmo grupo que nasceu com o Sea Me e depois cresceu para o Prego da Peixaria e Barracuda. A experiência foi boa, é sítio para voltar. Avenida de Roma 100, telefone 210 554 499.

 

DIXIT - “Não há dinheiro” - António Costa, no Parlamento, sobre as reivindicações dos professores.

 

GOSTO -  O Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa colocou online os arquivos dos 50 anos de carreira de José Mário Branco.

 

NÃO GOSTO - 45% dos alunos do ensino secundário não foram capazes de situar Portugal no mapa da Europa.

 

BACK TO BASICS - Nunca ensino os meus alunos, apenas procuro que eles tenham condições para aprender - Albert Einstein

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