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O TRAULITEIRISMO REMODELATIVO

por falcao, em 19.10.18

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O TRAULITEIRISMO REMODELATIVO - Tancos ainda não acabou. Depois do Governo, vem a remodelação militar. O Chefe do Estado Maior do Exército mandou uma mensagem às tropas a dizer que se ía porque “as circunstâncias políticas assim o exigiam” e o Presidente da República, e Comandante Supremo das Forças Armadas, disse que o pedido de demissão do general Rovisco Duarte se devia a “razões pessoais”. Vai uma diferença grande entre uma afirmação e outra. Mas não foi a única peripécia de Marcelo esta semana: depois de há uns meses ter alertado para os perigos de orçamentos eleitoralistas, esta semana veio explicar, sob a sua habitual capa didáctica, que era normal a um ano de irem a votos os partidos terem tentações eleitoralistas. Difícil de perceber? Nem por isso. Chama-se a isto querer agradar a gregos e a troianos ou, numa outra versão,  querer tapar o sol com a peneira. E esta foi a semana da grande remodelação - sendo que o facto mais relevante foi a ascensão de uma estrela socrática, João Galamba, que se caracteriza por ser um dos mais vivos defensores do trauliteirismo no debate político e que se tornou um perito na manipulação dos factos. O folclore da remodelação foi apenas uma pastilha para a azia em época de Orçamento de Estado. Foi o segundo capítulo da pré-campanha eleitoral. Como Manuel Villaverde Cabral escreveu, a remodelação é sempre um sinal de fraqueza de quem escolheu mal.

 

SEMANADA - Segundo o  Eurostat Portugal é o país europeu com mais pessoas perto da exclusão - 2,4 milhões em risco de pobreza; as famílias portugueses continuam a pagar mais IRS do que antes da crise; em 2019 o Fisco prevê arrecadar a maior receita de sempre, mais de 45,6 mil milhões de euros na cobrança de impostos directos e indirectos; um relatório da Organização Internacional do Trabalho caracteriza como “precário e desigual” o emprego português no pós-crise; entre janeiro e setembro de 2018 chegaram ao Portal da Queixa cerca de 2034 reclamações dirigidas ao setor da Saúde, verificando-se um aumento na ordem os 72%, comparativamente com o período homólogo;  os dois ministérios que tutelam as entidades que previnem e combatem incêndios - Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural e Administração Interna são os dois únicos com  cortes no Orçamento de Estado; das 88 pessoas que já passaram pelo Governo de António Costa apenas 22 nunca mudaram de cargo desde o início e o ministério com maior número de mudanças é o da Cultura;  78.6% dos utilizadores de internet portugueses dizem aceder às redes sociais entre as 20 e as 22h00, em cima do período nobre tradicional dos canais de televisão.

 

PERGUNTA OCIOSA - O atraso de mais de meio ano no início de pagamentos das reformas pela Segurança Social e  Centro Nacional de Pensões é uma forma de cativação da despesa do Estado? O Governo e os seus aliados prevêem estabelecer um prazo máximo de resposta para o início do pagamento após o pedido ser efectuado?

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INSULTOS ILIMITADOS - Há um livro recente que certamente não entra na Biblioteca de Serralves. Chama-se “O Pequeno Livro Dos Grandes Insultos” e a sua substância foi recolhida por M.S.Fonseca. Já havia dicionários de calão,  mas não havia um repositório tão completo de insultos. Quando digo insultos os estimados leitores nem imaginam o que lá podem encontrar. Aconselho que o procurem nas livrarias e o espreitem. Dificilmente resistirão a levá-lo, uma vez constatada a enorme utilidade que pode ter no dia-a-dia. Por exemplo, depois de ouvir as audições sobre Serralves na Comissão de Cultura do Parlamento, apeteceu-me despejar em cima daquela gente o conteúdo total do livro. Este é também  o livro ideal para animar debates com o novo governante Galamba ou para qualquer programa de análise de ocorrências futebolísticas e em geral todas as outras de grau zero de bom senso. Também deve ser bom para uma conversa com pessoas como Ana Avoila ou Mário Nogueira, quando nos querem fazer passar por parvos. “A matéria deste livro é o palavrão, matéria com que se desfazem sonhos, reputações ou egos”, escreve o seu autor no texto de introdução, onde classifica o insulto como “a última fronteira da linguagem” ou, de forma mais explícita, “o palavrão é a linguagem em cuecas”.

 

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O RISO DOS OUTROS - Évora está cada vez mais no roteiro das artes. Depois da programação africana do verão do Palácio Cadaval, a Fundação Eugénio de Almeida pôr de pé uma das exposições que vale a pena visitar. Trata-se de “O Riso dos Outros”, de Pedro Proença, um exercício de construção de uma história, através de imagens, baseada em personagens ficcionadas. Na exposição desdobram-se as criações de Pedro Proença e das personagens que ele criou, John Rindpest, Sandralexandra, Sóniantónia, Rosa Davida, Pierre Delalande, Bernardete Bettencourt, que exibem palavras e objectos, biografias e bibliografias, desenhos e colagens, variações sobre a criação. Ao mesmo tempo Pedro Proença criou um livro, com o mesmo título da exposição, já editado pela Sistema Solar. É um livro-catálogo pensado ao pormenor por Pedro Proença, que gosta do trabalho gráfico, como gosta de desenhar em grandes superfícies uma espécie de bandas desenhadas gigantes - que na exposição coexistem com pequenos desenhos e grafismos. Até 31 de Março a exposição (na imagem) está no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida. Contemporâneo e correligionário de Pedro Proença no grupo dos homeostéticos Manuel João Vieira,  tem na Casa Atelier Vieira da Silva (ao Jardim das Amoreiras, próximo do bar Procópio), até 13 de janeiro, a exposição Theatro Natural. Outras duas exposições que vale a pena visitar são “A Vocação dos “Ácaros” de José Loureiro na Fundação Carmona e Costa e “How Do They Feel” do artista norte-americano Matt Mulican, na Galeria Cristina Guerra - até 23 de Novembro.

 

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A RAINHA DA SOUL MUSIC - Foi em 1967, tinha ela 25 anos, que Aretha Franklin teve o seu primeiro Top One na lista dos singles mais vendidos nos Estados Unidos com a canção “I Never Loved A Man (The Way I Love You”)”. Nos três anos seguintes ela passou do anonimato à fama, de uma cantora quase desconhecida de Memphis a uma voz reconhecida mundialmente. Uma nova colectânea, “The Atlantic Singles Collection 1967-1970” inclui 34 canções que são o retrato desse tempo em que ela cantou o amor, a felicidade mas também e perda e a amargura, tudo com uma voz e um estilo inconfundíveis. Trata-se de um duplo CD onde as canções surgem por ordem cronológica. A sua edição original foi em seis álbuns: I Never Loved A Man The Way I Love You (1967), Aretha Arrives (1967), Lady Soul (1968), Aretha Now (1968), Soul ’69 (1969), This Girl’s In Love With You (1970), e Spirits In The Dark (1970). A única excepção é a versão que Aretha gravou para Border Song, de Elton John, que primeiro foi editada como single em 1970 e só depois surgiu num álbum, Young, Gifted And Black, em 1972. A colectânea inclui originais da própria Aretha, como Prove It e Think, mas também uma versão pouco conhecida que ela gravou em 1968 de Respect, um original de Otis Redding, ou o grande êxito que foi a sua interpretação de I Say A Little Prayer. Uma das coisas interessantes é notar a capacidade de Aretha Franklin em interpretar canções alheias, como as já referidas mas também as suas versões de You Send Me, de Sam Cooke, The Weight que foi originalmente gravada por The Band, Eleanor Rigby ou Let It be dos Beatles, The House That Jack Built ou Son Of A Preacher Man.

 

OUSAR SANDUICHAR! - A sanduiche aberta é comum nos países nórdicos,  os espanhóis têm uma adaptação nas tapas e o torricado ribatejano pode ainda ser considerado primo afastado do conceito. De uma forma geral um pedaço de pão com alguma coisa suculenta em cima entra nessa família. Por cá estamos mais habituados a sanduíches fechadas, em que o recheio, normalmente modesto, fica entre duas fatias ou metades de uma carcaça. Para mim o ideal é usar um bom pão de centeio (o da Serra da Estrela feito pelo Museu do Pão é o que prefiro), levemente tostado. A partir daí é adicionar o que se quiser - mas comecemos por barrar o pão - e aí tudo depende daquilo que vamos usar. As minhas matérias primas preferidas são a de paiola de porco preto cortada muito fina ou lombo fumado, truta ou arenque fumado, ventresca ou muxama de atum e Queijo da Ilha. Como preparar o pão?  Se a sandes fôr de paiola (ou bom lombo fumado) barro com mostarda de Dijon; se usar a truta ou arenque prefiro requeijão espalhado temperado com endro e pimenta; para o atum prefiro uma boa maionese que tempero com ervas finas; e para o queijo nada melhor que um chutney. Em todos estes casos gosto de colocar por cima da matéria prima principal pickles de pepino e/ou cebola, tomate baby cortado em metades, basílico, frequentemente folhas de espinafre baby, agrião ou rúcula. Umas azeitonas ao lado também ficam bem. Com um ligeiro aquecimento o pão fica mais estaladiço e suporta melhor o que lhe pusermos em cima. Depois é pescolher o que se quer beber e comer uma refeição fácil de fazer e cheia de sabores.

 

DIXIT - “É aguinha de rosas servida em taça de prata para lavar as mãozinhas? Quem nos está a falhar na justiça? Quem nos está a tramar e a proteger bandidagem?” - Ana Gomes, eurodeputada do PS, sobre as penas suspensas aplicadas pelo Tribunal aos ex-gestores do Banco Privado Português.

 

BOLSA DE VALORES - Na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, em Lisboa), a quarta exposição individual do arquitecto Álvaro Siza Vieira sob o título “À Mão Livre”, até 24 de Novembro. São 20 desenhos figurativos, inéditos, de 29,7x21 cm, e o preço de venda de cada obra é 2.700 euros.

 

BACK TO BASICS - Deus criou os homens, mas são eles que se escolhem uns aos outros - Nicolau Maquiavel.

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publicado às 13:30

COSTA, O PROMETEDOR

por falcao, em 04.10.18

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O ANDOR DAS OFERENDAS - Na tradição popular e religiosa, em muitas terras deste nosso Portugal, nas procissões que se realizam, há muitas vezes um andor que recebe as oferendas dos fiéis agradecidos, que assim pagam as promessas feitas. Na política também há um andor das oferendas, mas funciona em sentido contrário: é o governo que carrega às costas o andor com a figura do primeiro-ministro, tal santo milagreiro, e é de lá de cima que ele vai largando as oferendas para os fiéis, que neste caso são os eleitores. Em ano que precede eleições o saco das promessas vai cheio e assenta no orçamento de estado. Basta ver o que se tem passado nas últimas semanas para perceber como as coisas vão ser. Costa já se dá ao luxo de dar o dito por não dito, de hoje negar o que ontem achava possível e não se tem importado em irritar os seus parceiros de coligação, soprando-lhes que mais vale um pássaro na mão que dois a voar e contentando S. Jerónimo e Santa Catarina com umas migalhas face às expectativas criadas. Assim os vai envolvendo, sempre sorrindo, enquanto do andor distribui o que lhe apetece, como lhe apetece, quando lhe apetece, a quem lhe apetece. E vai ser assim até às eleições, neste jogo do dá e tira, alargando os cordões à bolsa quando é necessário para ganhar mais um tempo. Na realidade o que ele quer é ficar sozinho a fazer os seus milagres, sem ter que repartir os louros com mais ninguém. A ver vamos como vai terminar esta gaiola do orçamento de onde se vão soltando uns passarões...

 

SEMANADA - António Costa descartou a redução do IVA na luz e no gás; Jerónimo de Sousa afirmou que “não é com a política do PS que se resolvem os problemas do país”; a procura pelo ensino superior privado aumentou 17,5% no último ano;  os alunos com necessidades especiais aumentaram 41% em seis anos; a despesa do Estado com professores sobe 23% até 2023; segundo o FMI a dívida mundial, tanto pública como privada, subiu 60% desde 2007; o atraso nas listas de espera para cirurgias afeta 62 mil doentes; a Entidade das Contas alertou que as multas dos partidos entre 2010 e 2015 vão prescrever; os portos portugueses registam uma quebra de 2,7% nas mercadorias movimentadas no primeiro semestre deste ano; todos os anos, em média, 25 homens são condenados por violação mas ficam com a pena suspensa; em Vila Meã, Amarante, um juiz soltou um homem que agrediu de forma violenta e durante quatro anos a mãe dos seus dois filhos, mas o homem acabou por ser preso pela GNR  por não ter pago uma multa por guiar sem carta; segundo a Marktest 5,3 milhões de portugueses usam redes sociais e o Instagram é a que mais tem crescido nos últimos cinco anos; Lisboa tem 200 mil lugares de estacionamento e há 745 mil veículos que entram diariamente na cidade; em nove anos Portugal acolheu 23.767 estrangeiros, de 146 países, ao abrigo do Regime Fiscal para Residentes Não Habituais.

 

PERGUNTAS SOLTAS - Este ano a Emel já passou mais de 270 mil multas, das quais menos de 1,4% são por estacionamento em segunda fila. Esta desproporção será uma anedota ou é só prova do mau funcionamento da empresa oficial de multas da Câmara Municipal de Lisboa?

 

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CRÓNICAS DO MUNDO - “Atlas” foi o último livro publicado em vida de Jorge Luis Borges, já ele tinha perdido a visão. O livro é uma colecção de apontamentos, de cerca de uma centena de páginas onde se reproduzem diversas viagens feitas por Borges, muitos deles acompanhados por fotografias de Maria Kodama, que o acompanhou nestas viagens e nos últimos anos de vida. “As vésperas da viagem são uma preciosa parte da viagem”, escreve Borges que, entre Roma, Atenas ou Istambul acaba por confessar: “O meu corpo físico pode estar em Lucerna, no Colorado e no Cairo, mas ao acordar cada manhã, ao retomar o hábito de ser Borges, emirjo invariavelmente de um sonho que acontece em Buenos Aires”. No prólogo do livro, Borges escreve:  “Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Sinbad, de Erik, o Vermelho, ou de Copérnico. Não há um só homem que não seja um descobridor”. E no epílogo, diz Maria Kodama: “O que é um atlas para nós, Borges? Um pretexto para entretecer na urdidura do tempo os nossos sonhos, feitos da alma do mundo. Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899, desde cedo viajou pelo mundo e viveu em vários países, tendo morrido em Genebra, em 1986. “Atlas” foi editado originalmente em 1984 e foi agora publicado em Portugal pela Quetzal numa excelente tradução de Fernando Pinto do Amaral.

 

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AS MIL FLORES - Uma das mais interessantes exposições de obras originais que se podem ver em Lisboa actualmente está na Galeria 111 até 10 de Novembro. Tem por título Mille Fleurs é é da autoria de João Francisco - um artista de 34 anos que começou a expôr em 2008 e que agora apresenta um trabalho de uma grande consistência e criatividade, pintando acrílico sobre papel e sobre esquissos encontrados com mapas para bordados feitos a grafite, sobre papel. Há uma razão de ser para isto, que se prende com o título da exposição - mille-fleurs ou mil flores - o termo utilizado para agrupar um conjunto de tapeçarias produzidas no norte da França e na Flandres entre o final da Idade Média e o início do Renascimento, representando de forma repetitiva flores e plantas, com adição de figuras que podem ir de damas com unicórnios a caçadores e pequenos animais. O traço de João Francisco cria imagens fortes, umas vezes ricas de pormenor, como o painel que agrupa 160 pequenas pinturas, outras fortes e sugestivas, quer em retratos quer na evocação de ausências. Outra exposição em Lisboa que vale a pena conhecer é a Colecção Pinto da Fonseca, que mostra uma parte do acervo colecionado por António Pinto da Fonseca - cerca de sessenta obras de trinta artistas portugueses, provenientes das décadas de 1960 a 1980, como Álvaro Lapa, Júlio Pomar, Jorge Molder, Jorge Martins, Menez, Paula Rego, Dacosta, Vespeira, Rui Chafes, Vieira da Silva e Arpad Szenes, entre muitos outros. A exposição tem curadoria do filho do colecionador, Victor Pinto da Fonseca, ele próprio colecionador e galerista, e tem por título Educação Sentimental. Está na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, até 13 de Janeiro.

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CANÇÕES QUOTIDIANAS - O novo disco de Madeleine Peyroux é um exemplo de trabalho colectivo de uma cantora com os seus músicos, nomeadamente o produtor e baixista Larry Klein, o baterista Brian MacLeod , os guitarristas Dean Parks e David Baerwald, o pianista Patrick Warren, o organista Pete Kuzma e uma secção de metais de rara elegância. Hoje em dia não é frequente encontrar um disco de jazz vocal em que se fuja aos arranjos delico-doces e em que seja tão evidente este trabalho colectivo - enriquecido aliás por colaborações pontuais como as da harmónica de Gregoire Maret e as percussões de Luciana Souza. Todas as canções são originais de Peyroux, excepto a faixa título Anthem, que é um original de Leonard Cohen, e  Liberté, baseada num poema de Paul Éluard, musicado por Klein e Peyroux. A norte-americana Madeleine Peyroux nasceu em 1974, o seu primeiro disco foi editado em 1996, leva uma dezena de álbuns no activo e uma das coisas que desde o início me fascina nos seus discos é a forma como ela consegue transmitir nas gravações de estúdio uma vivacidade que se encontra no ambiente de um clube de jazz. Este “Anthem” é particularmente conseguido desse ponto de vista logo desde a primeira faixa, On My Own, o primeiro relato do quotidiano, que inclui outros momentos como On A Sunday Afternoon ou Down On Me, este a fazer uma transição para o relato dos tempos correntes na América, relato que tem o seu expoente em The Brand New Deal. Mas há momentos festivos, como Honey Party ou o delicioso We Might As Well Dance. E é justo referir que a versão de Anthem, o original de Cohen,  mostra o talento e a sensibilidade de Peyroux. CD Decca/Universal, já disponível em Portugal.

 

SABORES ORIENTAIS - Em Lisboa existem hoje em dia vários restaurantes que se reivindicam de inspiração oriental mas uma boa parte deles são do género excursões para turistas sem grande interesse nem alma (culinária, entenda-se). No caso tailandês há dois ou três - não mais - que merecem visita e frequência regular. Um deles fica por trás da avenida de Roma, na Rua Conde de Sabugosa, onde em tempos existiu o restaurante típico Arraial. Agora existe lá a Sala Thai, que mantém muita da decoração do velho Arraial, o que quer dizer que escapou à tentação de fazer uma decoração típica tailandesa. Decidiu investir na confecção dos pratos sem artifícios decorativos - e fez muito bem. É daqueles sítios onde apetece voltar, para descobrir mais pratos. Destaque nas entradas para os rolos primavera com noodles e legumes, os pastéis de peixe com especiarias ou as chamuças à moda tailandesa. A sopa tradicional tailandesa de camarão cozinhado com erva princípe, limão e malagueta é uma especialidade, mas comer alguma coisa depois não é fácil. Na área das massas os noodles fritos com camarão ou vegetais recomendam-se, assim como os caris de frango, vaca ou ou camarão, sobretudo o caril vermelho (também há verde…). Nas especialidades da casa destacam-se a garoupa em caril vermelho e o robalo cozinhado ao vapor com molho de limão. E nas sobremesas, para refrescar o palato, os gelados de gengibre e limão com manjericão cumprem bem a função. Sala Thai, Rua Conde de Sabugosa 13A, fecha às segundas, telefone 216 039 946.

 

DIXIT - Dá para sermos amigos, mas não dá para casar“ - António Costa sobre os seus parceiros da geringonça.

 

BOLSA DE VALORES - Até 20 de Outubro pode ver novos e marcantes trabalhos de Nádia Duvall na galeria MUTE, sob o título Abalo I. Cada uma das obras expostas está à venda por 1500 euros. Na Rua Cecílio de Sousa 20, em Lisboa.

 

BACK TO BASICS - “Existem dois pecados de onde todos os outros derivam: impaciência e preguiça” - Franz Kafka

 

 

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publicado às 14:00

ENTRE TANCOS E SERRALVES UM PAÍS FALSO

por falcao, em 28.09.18

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UM PAÍS FALSO  - Nestes últimos dias vivemos entre as fábulas de Tancos e a de Serralves. O pano de fundo nos dois casos é a falsidade, as explicações mal dadas, a tentativa de fazer passar as pessoas por idiotas. Tancos e Serralves estão envoltos numa neblina de mentira e mistificação, de protecção de compadrios. Nos dois casos há laxismo e prepotência, que passam pelo encobrimento dos factos e por encenações de circunstância para esconder a verdade. Isabel Pires de Lima, ex-Ministra da Cultura, agora travestida de vestal porta-voz de Serralves, esteve ligada, enquanto membro do Governo PS, aos afastamentos de Paolo Pinamonti do São Carlos, de Paulo Cunha e Silva do Instituto das Artes, de António Lagarto do Teatro Nacional D. Maria II, de Dalila Rodrigues do Museu Nacional de Arte Antiga e de Ana Pereira Caldas da Companhia Nacional de Bailado - às vezes a memória das gentes é curta, por isso vale a pena recordar os efectivos currículos de actuação desta governante que teve uma concepção dirigista da Cultura, que se  imiscuíu repetidamente nas programações dos organismos que tutelava e que agora se arma em guardiã dos bons costumes. Ana Pinho, a Presidente de Serralves, revelou-se uma ilusionista da realidade, ignorando factos, procurando ocultar as suas próprias acções e dos seus pares e insinuando a sua inocência - bem protegida pelo extraordinário apego de Pacheco Pereira à defesa da ordem estabelecida. Ao pé deste triunvirato o sargento da GNR de Lagos e o Director da Polícia Judiciária Militar são meninos de côro que só tiveram êxito na récita porque o Ministro da tropa se tornou o maior especialista nacional em assobiar para o ar. Uma falsidade pegada, é o que isto é.

 

SEMANADA - Depois de ter prometido a mudança para compensar a derrota na instalação da Agência Europeia do Medicamento, o Governo deixou cair a passagem do Infarmed para a cidade do Porto; o número de inscritos em cursos técnicos superiores aumentou 40% em relação ao ano passado; mais de 15% dos acidentes verificados nos primeiros seis meses deste ano foram atropelamentos; Tino de Rans está a recolher assinaturas para formalizar um partido a que chamou RIR (Reagir, Incluir, Reciclar); já depois do caso Robles, o Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa uma proposta de investigação às decisões polémicas de Manuel Salgado, Vereador do Urbanismo, proposta que foi chumbada pelo PS e pela sua aliada arquitecta Helena Roseta; o desemprego de muito longa duração é para os portugueses o dobro do que representa para os estrangeiros que vivem em Portugal; o número de cidadãos estrangeiros a optar por viver em Portugal aumentou 83% no último ano e meio, resultado do regime fiscal português que visa atrair trabalhadores qualificados e reformados; no primeiro semestre de 2018 transacionaram-se 86.335 casas em Portugal, mais 19,8% do que no período homólogo - uma média de 474 casas vendidas por dia e as receitas atingiram os 11,6 mil milhões de euros, um crescimento de 30,5% face ao primeiro semestre de 2017;  as contas de Centeno são claras - fez aumentar a despesa do Estado em 1,2 milhões de euros e aumentou as receitas dos impostos em 2,6 mil milhões nos primeiros oito meses do ano.

 

PENSAMENTOS OCIOSOS - O que terá levado a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, a visitar a sede da Ryanair em Dublin em vésperas da greve europeia de trabalhadores da companhia, e depois partilhar nas redes sociais uma bem disposta fotografia com o polémico CEO da empresa, Michael O’Leary, acusado de não respeitar as leis laborais de uma série de países, entre os quais Portugal?

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A ESCRITA DO FADO - Vasco Graça Moura gostava de fado, estudou-o, escreveu para fadistas. Sabia a sua história e percebia onde ele está hoje em dia. Num artigo escrito em Novembro de 2011, para o “Diário de Notícias”, Vasco Graça Moura abordava a evolução do fado e  sublinhava: “Amália provoca uma revolução, fazendo entrar de pleno a grande literatura nos territórios do fado e forçando os paradigmas musicais a incorporar outros contributos que hoje reputamos essenciais, como o de Alain Oulman.” E mais adiante: “O público do fado é cada vez menos composto por saudosistas envelhecidos e sobreviventes das gerações anteriores (que, aliás, têm um papel de enorme relevo na transmissão de um saber, de uma sensibilidade e de um gosto de experiências feitos) e cada vez mais pelas novas gerações, abertas a um grande sincretismo de manifestações musicais.” Vasco Graça Moura tinha esta sensibilidade - e esta curiosidade - em relação ao fado. Não é de admirar: escreveu poemas para vários fadistas como Mísia, Kátia Guerreiro ou Carminho, para além de vários outros que lhe pediram autorização para cantar poemas seus. “A Puxar ao Sentimento: Trinta e Um Fadinhos de Autor” é um livro agora editado com  fados inéditos de Vasco Graça Moura. Termino com um excerto de um deles: «com um traço de amargura/ quis cantar o fado a sós/ e uma tristeza sem cura,/mais negra que a noite escura,/ pôs sombras na minha voz.»

 

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IMAGENS DA MODA - Estamos a atravessar bons tempos para a fotografia, em matéria de exposições. Em Serralves claro que está Robert Mapplethorpe e a notoriedade desta exposição foi aumentada pelo truque da bolinha vermelha que a administração da Fundação lhe decidiu atribuir. Polémicas à parte, e apesar das alterações impostas, é uma mostra de um dos grandes nomes da fotografia do século XX, que marcou a estética fotográfica norte-americana. A interpretação do corpo, sobretudo o masculino, como matéria prima é a sua imagem de marca. Em Lisboa, no Museu do Chiado, é mostrada a obra de Carlos Relvas, um fotógrafo amador que  na segunda metade do século XIX foi precursor de técnicas e formas de utilização da fotografia. Ainda em Lisboa Luisa Ferreuira tem duas exposições - uma na Galeria Monumental (Branco) e outra no Espaço Santa Catarina, na qual revisita algumas lojas históricas da cidade sob o título “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”. Finalmente em Cascais pode ser vista em estreia mundial uma exposição da obra de um dos maiores fotógrafos de moda do século XX, Norman Parkinson, sob o título “Sempre na Moda” com curadoria de Terence Pepper, que durante mais de 40 anos foi responsável pela área da Fotografia na a National Portrait Gallery, em Londres. A mostra estará patente no Centro Cultural de Cascais, de 28 de setembro a 20 de janeiro de 2019 e percorre seis décadas da obra de Parkinson, para revistas como a Vogue ou a Harper’s Bazaar, tendo fixado imagens de modelos e de estrelas do cinema, como a de Audrey Hepburn que aqui se reproduz.

 

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O SOM DA CHUVA -  Aline Frazão nasceu em Angola, viveu em Lisboa, Barcelona e Madrid. A sua música cresceu num triângulo com pontas no Brasil, em Cabo Verde e em Angola. A influência do jazz vem de outras latitudes e é bem presente, convivendo com um ritmo quente, na voz e nos arranjos, no cruzamento das mornas com a bossa nova, na maneira de dizer as palavras. “Dentro da Chuva” é o seu quarto disco e marca o seu reencontro com Luanda, de onde esteve ausente dez anos. Luanda aliás é uma presença dominante neste disco, em temas como “Areal do Cabo Ledo”,  sinais locais em “Manifesto”, o apelo de África em “Um Corpo Sobre o Mapa” ou o desejo do regresso que “Fuga” conta. E depois as influências cruzadas, em parte trazidas por convidados como o violoncelo de Jaques Morelenbaum, a voz de Luedji Luna ou a guitarra de Gabriel Muzak. E o fio condutor é Aline Frazão, sempre inesperada como quando escolhe fazer uma versão de “Ces Petits Riens” de Serge Gainsbourg, ou quando vai explorar as composições de Danilo Lopes da Silva (o delicioso Peit Ta Segura”) ou as palavras de Ruy Duarte de Carvalho. É escaldante, este disco.

 

BRANCO FRESCO -  Tudo indica que até final da próxima semana continuaremos a ter dias quentes, e amenos fins de tarde. Portanto tudo continua a proporcionar a procura de um bom vinho branco. A casta cercial, originária da região do Dão e da Bairrada existe por todo o país. Normalmente é associada a outras castas de vinho branco, como por exemplo o arinto, a bical ou a malvasia fina. As principais características da cercial são a acidez e o aroma - daí usar-se em conjunto com uvas de outras castas. Fazer um monocasta de cercial é uma aventura rara, porque é tão marcante que pode tornar-se desequilibrado. Mas o Cercial 2015 da Quinta de S. Sebastião é uma excepção que merece ser conhecida. A fermentação decorreu em barricas novas de carvalho francês e o resultado é um vinho com uma cor dourada, aromas pronunciados, mineral, intenso e fresco, do qual foram apenas feitas 700 garrafas. A Quinta de S. Sebastião, da região de Lisboa (Arruda dos Vinhos), produz uma extensa gama de vinhos e tem sido desenvolvida por António Parente que ali cultiva as castas tintas Syrah, Merlot, Touriga Nacional e Tinta Roriz e as brancas Arinto, Cercial e Sauvigon Blanc. Uma curiosidade final - a casta cercial é a origem do famoso vinho generoso Sercial da Madeira, um vinho seco que depois de envelhecer adquire características excepcionais.

 

DIXIT - “‘É ao público que cabe avaliar se quer ou se deve ver ou não imagens com mais teor sexual explícito”- João Fernandes, ex-diretor artístico de Serralves, actual vice-director do Museu Reina Sofia, em Madrid.

 

BOLSA DE VALORES - As Edições do Limão, ligadas à Galeria Monumental, iniciaram a sua actividade com «Branco», de Luísa Ferreira, que tem por base o livro de artista com o mesmo título integrado na exposição que está naquela Galeria até 25 de Outubro. É uma edição de 50 exemplares, 20 dos quais numerados e assinados pela autora, ao preço de 65,00€. Está à venda na Galeria Monumental e na livraria STET e é um objecto lindíssimo, de colecção.

 

BACK TO BASICS - “Vejo as coisas de uma forma como não foram vistas antes. A Arte é uma declaração rigorosa sobre o tempo em que é produzida.” - Robert Mapplethorpe

 

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publicado às 13:30

SOBRE O IRRITANTE EM PORTUGAL

por falcao, em 21.09.18

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 O IRRITANTE EM PORTUGAL - Fala-se muito de um irritante que pelos vistos anda por aí, Mas o maior irritante de todos é a forma como Estado funciona. Temos um Estado que é uma vergonha - e que irrita os cidadãos sem nunca pedir desculpa. Está à vista o que se passou em Pedrógão, começa a estar à vista o que se anda a passar em Lisboa graças às denúncias do ex-vereador Nunes da Silva sobre a actuação de Manuel Salgado na Câmara Municipal e até o sonso Rui Rio fez estranhos malabarismos urbanísticos na zona da Arrábida quando dirigiu a autarquia do Porto. Mas há mais: esta semana um advogado amigo dizia-me que todos os timings da justiça tributária estavam a ser um pesadelo que se arrasta, muitas vezes, por uma década. E acrescentava que nas situações onde o cidadão já pagou, e em que a probabilidade de o Estado ter que devolver dinheiro é grande, então o atraso ainda é maior e ninguém responde a nada. Tudo isto é mais grave que a polémica sobre a roupa de António Costa e a sua falta de bom senso na chegada a Luanda. Esse é um incidente menor para gerar distração e galhofa. O pior é o resto, como o facto de Maria Manuel Mota, vencedora do Prémio Pessoa em 2013, ter ficado de fora dos 500 investigadores selecionados pela FCT para ter contrato de trabalho porque o júri achou o seu currículo pouco relevante e não considerou que o desenvolvimento da sua investigação sobre a malária, que faz há 20 anos e tem tido reconhecimento internacional, tem impacto sobre a saúde humana. Isto é que é o irritante em Portugal: o Estado, os seus burocratas, os seus parasitas.

 

SEMANADA - O ano lectivo arrancou com milhares de alunos à espera de professores ainda não colocados; a falta de funcionários de apoio ainda é maior e está estimada em cerca de três mil em todo o país; um quarto das escolas públicas não faz reutilização de manuais;  20% dos médicos com idade para dispensa continuam a efectuar urgências; 34% das casas do centro de Lisboa já são ocupadas por turistas e em algumas freguesias estima-se que possa vir a superar o número de residentes; duas ex-candidatas pelo PSD à autarquia Lisboeta criticam a falta de oposição do partido ao executivo camarário e dizem que Teresa Leal Coelho se comporta em muitas ocasiões  como o nono vereador de Fernando Medina;  este ano o número de matriculados, do pré-escolar foi o mais baixo dos últimos 12 anos ; o Governo anunciou que a integração dos trabalhadores precários não se fará em 2018 mas sim em 2019; em Julho houve uma quebra de 2,1% de turistas em relação ao mesmo período do ano passado; em Julho os bancos  emprestaram uma média de 20 milhões de euros por dia para crédito ao consumo; a atribuição de novas pensões de reforma já tem atrasos de nove meses.

 

SE TODOS FOSSEM ASSIM... - Marco Pierre White, um respeitado chef britânico, que em tempos já devolveu estrelas Michelin que tinha recebido, recusou a visita do Guia Michelin ao seu novo restaurante em Singapura, dizendo: "Eles vendem pneus e eu vendo comida."

 

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UMA AVENTURA EM TEMPO DE GUERRA  - Klaus Kittel nasceu e morreu no Porto. Filho de alemães, tinha orgulho em dizer que era português, embora continuasse alemão no passaporte. E alemão na consciência, de tal forma que em finais de 1944,, contra todos os melhores conselhos, decidiu  responder à chamada para a Luftwaffe e para a frente de Berlim, quando tudo já estava perdido. Foi fechado num campo de prisioneiros de guerra americano, entregue depois aos franceses e, à semelhança de muitos outros milhares de soldados vencidos, foi condenado sem julgamento a trabalhos forçados - no caso de Kittel, nos campos agrícolas do Marne. Conseguiu fugir dois anos mais tarde e regressou a Portugal onde viveu meses ainda clandestino. Podia ser só mais um romance, mas Klaus Kittel foi um homem de carne e osso. E guardou as memórias de uma vida dactilografadas num molho de folhas fechadas numa gaveta de uma casa no Porto. Por um feliz acaso essas memórias voltaram a ver a luz do dia quase vinte anos depois da sua morte. São essas memórias o fio condutor do segundo romance de João Nuno Azambuja, que em 2016 venceu o prémio literário UCCLA. Os Provocadores de Naufrágios leva-nos pelo Porto dos alemães na primeira metade do século XX, pela devastação da guerra na alma dos homens, pela insensatez dos que mandam e dos nacionalismos, pela banalidade da barbárie de vencedores e vencidos. E estes naufrágios são os dos homens, das nações e da paz.

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QUAL O PESO DO SONHO? - Teresa Gonçalves Lobo nasceu no Funchal, estudou no Ar.Co e o desenho é o seu território natural, dominado por  linhas gestuais e formas caligráficas. Tem também feito escultura e projectado os seus desenhos em peças de mobiliário. Está presente em diversas colecções e tem exposto regularmente em Portugal, mas também em Inglaterra, França, Rússia, Áustria e Espanha. Por cá é representada pela Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12, no Bairro Alto). “Da Leveza do Sonho” é a sua nova exposição, patente nas Salgadeiras até 17 de Novembro. No catálogo, José Manuel dos Santosrecorda, a propósito dos  desenhos de Teresa Gonçalves Lobo o que Edgar Degas, “grande desenhador de movimentos e de marcações, de instabilidades e de instantes, de mimeses e de mímicas, de geometrias e de gestos, disse a Paul Valéry: O desenho não é a forma, é a maneira de ver a forma”. E concretamente sobre o trabalho de Teresa Gonçalves Lobo, José Manuel Santos afirma: “Esta obra é subtil e não simples. É fluente e não fácil. É leve e não ligeira. É densa e não dúctil. É sofisticada e não solene. É serena e não suave. É sustentada e não sobrecarregada. A sua autora desconfia instintivamente de tudo o que vem sobrepor vestes à nudez, atirar ruídos ao silêncio, trazer detritos à vida”. Os preços das obras expostas vão de 2200 euros dos desenhos mais pequenos até 7500 euros nos de maiores dimensões (como o que aqui é reproduzido).

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ISTO SIM, É FADO - “Sempre”, de Katia Guerreiro, é sério candidato a melhor disco de fado do ano. Com uma produção exemplar de José Mário Branco (cuja voz aparece fugaz num dos temas), o disco vale pela música, pelos músicos que acompanham a fadista, pelas capacidades que a sua voz evidencia nos 16 temas gravados, sobretudo pela versatilidade da sua interpretação, pelo sentir como canta os poemas escolhidos - e estes poemas são em muito boa parte a razão de ser da qualidade deste disco. Do ponto de vista musical aqui se correm fados tradicionais ( o Fado Belo, o Fado Menor, o Fado Mouraria, o Fado Freira, o Fado Carriche, o Fado Rigoroso, o Fado Bailado, o Fado Blanc e o Fado Pierrot), ao lado de temas originais entre os quais me permito destacar o extraordinário “Fora de Cena” com música de José Mário Branco e letra de Manuela De Freitas. Aliás convém dizer que Manuela de Freitas assina algumas das mais marcantes letras deste disco e saliento essa magnífica história do quotidiano que é “Dia Não”. Já agora, “Quem Diria”, o fado a caminhar para marchinha onde aparece a voz de José Mário Branco, é uma pequena maravilha, da autoria de José Rebola. Destaque também para o trabalho dos músicos que acompanham Katia Guerreiro - Pedro de Castro e Luis Guerreiro na guitarra portuguesa, João Mário Veiga e André Ramos na viola de fado , Francisco Gaspar na viola-baixo. A gravação e a mistura são de António Pinheiro da Silva, um dos melhores engenheiros de som portugueses.

 

UMA COMPOTA -  Esta é a época do doce de tomate fresco, acabado de preparar. Gosto dele artesanal, comido pouco tempo depois de ser feito, sem corantes nem conservantes. Tenho a sorte de ter ao pé de mim uma casa agrícola onde se podem comprar delícias regionais e, na semana passada, lá fui eu ver se já havia doce de tomate - e havia mesmo. Por cima de um pedaço de bom pão fresco ou de uma torrada, poucas coisas são melhor companhia para o começo do dia. O local em causa chama-se Loja Afinidades, na Quinta do Anjo, entre Palmela e Azeitão, e pertence à Casa Agrícola Horácio dos Reis Simões, também conhecida por produzir um premiado moscatel roxo. O doce de tomate da casa é denso, tem ainda pedaços de polpa, não vem triturado, não é enjoativo, tem a consistência certa. É um produto caseiro, sem adição de aromas, corantes ou conservantes artificiais, sem demasiado açúcar. Já tentei saber a receita mas não consegui - a conversa deste ano andou à volta de a produção ter sido mais pequena do que é costume porque houve pouco tomate. Mesmo assim, antes do doce aparecer , alma gentil ofereceu-me uns exemplares da raça coração de boi, bem maduros, ali comprados nas Afinidades, que fizeram umas belas saladas. Para fazer doce de tomate quer-se o dito bem maduro. É nessa parte, da compota,  que agora estou.

 

DIXIT - “Estamos num tempo de heróis politicamente correctos. Agora as personagens são todas feministas, ecologistas, defensoras dos animais e respeitadoras das minorias étnicas. E os leitores começam a ficar cansados disso” - Arturo Pérez-Reverte, escritor.

 

BOLSA DE VALORES - Já pensou em ter um azulejo de artista? Sim, um azulejo, essa peça tão portuguesa, mas feita a partir de uma obra feita por um artista plástico para ser reproduzida nesse suporte. A Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C) apresenta obras de Júlio Pomar e Sofia Areal, em painéis e em azulejos individuais. No caso de Pomar os preços começam nos 60 euros dos azulejos múltiplos avulso, passam para os 215 euros em edições limitadas e o magnífico painel do “Palhaço” vale 4500 euros. No caso de Sofia Areal as obras expostas são todas deste ano, com painéis que vão dos dez mil aos 25 mil euros e os azulejos originais policromáticos valem 130 euros.

 

BACK TO BASICS - “É óbvio que existem políticos desonestos a nível local, mas é certo que também existem políticos desonestos a nível nacional “ - Richard Nixon.

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publicado às 13:00

PORTUGAL É UM REALITY SHOW

por falcao, em 14.09.18

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PORTUGAL É UM REALITY SHOW - Caso ainda não tenham reparado estamos no meio de um reality show: Rui Rio dá o braço a Mariana Mortágua enquanto dispara para dentro do seu partido, António Costa sacode Catarina Martins e fica mudo com as denúncias sobre Manuel Salgado, Assunção Cristas reivindica a liderança da oposição, Jerónimo de Sousa introduz as galinhas poedeiras na discussão do Orçamento de Estado e o Ministro da Defesa faz sempre de distraído quando se fala do desaparecimento das armas de Tancos. Como se não chegasse o futebol está atolado em suspeitas e as investigações judiciais são palco de números de ilusionismo. Nem mesmo o argumentista mais brilhante se lembraria de um naipe destes. É coisa de arromba. Relações que azedam, acusações pelo ar, ressabiamentos, infidelidades e armadilhas. Ao pé disto “Pesadelo na Cozinha” é coisa de meninos. A política, a justiça e o futebol são os maiores reality shows portugueses. Todas as semanas há novos episódios, as revelações são surpreendentes, as personagens são conhecidas de todos. Têm audiências imbatíveis, situações surpreendentes, nunca se sabe o fim. Todos andam paredes meias com escândalos, a corrupção é coisa corriqueira, a falta de princípios é a linha condutora. É isto: temos um país que parece o palco de uma comédia bufa com péssimos actores.

 

SEMANADA - Todos os dias há cinco queixas de crimes sexuais contra crianças; o emprego em Portugal caíu 0,3 % no segundo trimestre deste ano, em comparação com o trimestre anterior; Nunes da Silva ex-vereador do PS na Câmara Municipal de Lisboa diz que o anterior proprietário do terreno da nova torre das Picoas foi vítima de uma fraude que favoreceu o BES e responsabiliza Manuel Salgado, num caso de que Fernando Medina e António Costa terão tido conhecimento; o Primeiro Ministro António Costa veio a público defender o Presidente da Câmara de Pedrógão, autarquia acusada de irregularidades no processo de reconstrução de casas destruídas pelos incêndios do ano passado e que foi alvo de buscas da Polícia Judiciária esta semana; Rui Rio alinhou com Mariana Mortágua em medidas adicionais de taxação de negócios imobiliários; a CP admitiu não ter material suficiente para cumprir os horários por si afixados quanto à circulação de comboios na linha de Cascais; dados de agosto indicam que 75% das consultas hospitalares do Serviço Nacional de Saúde têm esperas superiores a um ano e cerca de 20% superam os dois anos; um doente com cancro do centro hospitalar de Setúbal esperou quase meio ano pelo início do tratamento com radioterapia; é oficial, segundo a Marktest, em Portugal, pela primeira vez a utilização da internet via Telemóvel (57.9%) ultrapassou a utilização por PC (55.2%); o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas lançou uma pós graduação dedicada ao estudo da Igualdade de Género.

 

ARCO DA VELHA - No Parlamento Europeu o PCP votou contra um relatório que acusa o governo da Hungria de violação grave dos valores europeus, nomeadamente em matéria de direitos humanos e liberdade.

 

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O HOMEM DO PINHAL - Portugal provavelmente não teria sido o primeiro país globalizador se D.Dinis não tivesse mandado plantar o pinhal de Leiria, que deu a matéria prima para fabricar as caravelas que fizeram os descobrimentos. Mesmo que esta relação entre o pinhal e os descobrimentos seja um pouco forçada, a verdade é que D. Dinis deixou marca na nossa História. O seu pinhal ardeu em grande parte no ano passado - mais um sinal da nossa decadência - mas a sua memória continua a ser uma referência da História de Portugal. Da sua vida fazem parte a Rainha Santa Isabel, as suas poesias, e também uma tendência para escapadelas amorosas. Mas o seu papel é muito mais do que aquele que se revela nas lendas: instituíu o português como língua oficial em todo o território, fez a delimitação da fronteira nacional, traçou uma estratégia para fazer crescer o país por dentro, apostou na educação e no desenvolvimento, derrotou inimigos internos, reinou durante quatro décadas. “D.Dinis - Um Destino Português” é a sua biografia, factual onde é preciso, romanceada onde valia a pena. Foi escrita por José Jorge Letria e editada por estes dias. É um belo livro sobre a nossa História, num tempo onde tudo parece estar fadado ao esquecimento.

 

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A MEMÓRIA DO TEMPO - Quando o Lux abriu há 20 anos não nasceu do zero - era o segundo capítulo do Frágil, o bar do Bairro Alto fundado em 1982 por Manuel Reis, que morreu este ano. Manuel Reis adivinhou que o Bairro Alto estava a começar a sua fase descendente, queria um espaço diferente e com outro potencial, e soube ver as possibilidades que se abriam com a renovação da parte oriental de Lisboa, quando a Expo 98 começou a ser preparada. E assim o Lux, nascido num velho armazém daquele lado do Porto de Lisboa, frente à estação de comboios de Santa Apolónia, mudou a forma de ver a noite - já não era só bar, nem só discoteca, acolhia concertos, juntava tudo, tinha varandas e terraço, estava frente ao rio e criou uma legião de fiéis. Como sempre fazia Manuel Reis foi de uma coerência absoluta no projecto, na criação do espaço, na sua identidade gráfica e visual. Esta semana abriu no Hub Criativo do Beato uma exposição que permite não só recordar a actividade do Lux nestes 20 anos, com os seus programas, cartazes, peças de decoração e fotografias, mas sobretudo perceber como foi o processo de criação do local - o que está exposto da memória descritiva do projecto entregue por Manuel Reis é uma peça deliciosa, assim como os primeiros esboços e planos dos arquitectos Fernando Sanchez Salvador e Margarida Grácio Nunes, que, como já tinham feitos várias vezes antes, trabalharam com Reis. A exposição tem uma montagem fabulosa, concebida pelo designer Fernando Brízio, ainda escolhido por Manuel Reis. Chama-se Paradisaea e faz uma revisão da comunicação visual e sonora do Lux nestas duas décadas, dividido em três áreas:  a primeira mostra o projecto do Lux, as suas constantes mutações e a identidade visual; a segunda mostra uso do vídeo como espaço de experimentação; e a terceira faz ouvir a música, apresenta o Lux como espaço performativo e mostra os objectos que andaram por entre o público e foram usados ao longos dos anos. Até 11 de Novembro podemos sorrir de frente para a nossa história.

 

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PAUL SIMON DIZ ADEUS - À beira de fazer 77 anos, Paul Simon vai pôr fim à sua carreira no próximo dia 22, com um derradeiro concerto em Queens, o bairro de Nova Iorque onde cresceu. Há dias lançou o seu 14º álbum de originais, “In The Blue Light”. Este disco é o contrário do que costuma acontecer  a músicos com esta idade. Em vez de pegar nos grandes êxitos da sua carreira e dar-lhes um toque diferente, Paul Simon escolheu dez canções que considera terem sido injustamente esquecidas no meio da sua obra e reinterpretou-as, com a colaboração de nomes como Jack DeJohnette, Bill Frisell, Steve Gadd, Wynton Marsalis e da orquestra de câmara yMusic. Aqui não há êxitos, nada de “Graceland”, mas há quatro temas de “You’re The One”, o álbum de 2000 que Simon entende ter sido subavaliado. É o próprio Paul Simon que diz, em relação às dez canções aqui retomadas, que se limitou a dar uma nova camada de pintura numa velha casa de família pouco usada. Destaque para a forma como a orquestra de câmara yMusic refez “Can’t Run But” (do álbum The Rhythm of the Saints) e o injustamente pouco conhecido “René and Georgette Magritte With Their Dog After the War “(que apareceu em Hearts And Bones). Destaque ainda para a participação de Wynton Marsalis em “How the Heart Approaches What It Yearns” da banda sonora do filme “One Trick Pony”, de Bill Frisell em “Darling Lorraine” e de Jack DeJohnette em  “Some Folks’ Lives Roll Easy”.  “In The Blue Light”, editado no passado dia 7, já está disponível no Spotify.

 

O MOLHO DA ESTAÇÃO -  Como estamos na época das uvas deixo aqui um desafio: experimentem fazer um molho de uvas para acompanhar pratos de carne. Comecem por cortar as uvas em pedaços, e deixem-nas cozer (e desfazer) em um pouco de água, um pouco de vinho tinto de boa qualidade e um pouco de farinha de milho. Mexam bem no processo de cozedura, até ficar consistente, e no fim temperem com sumo de limão a gosto. Adicionem mais algumas uvas cortadas em quartos, mesmo antes de servir. O ideal para isto é, obviamente usar uvas vermelhas sem grainha. Ao princípio era um bocado desconfiado quando apareceram as uvas sem grainha, mas aos poucos comecei a descobrir que o seu sabor e as suas características não ficavam a dever nada às, digamos, uvas originais. Hoje em dia elas são vulgares e estão por todo o lado. A uva sem grainha é 100% natural e surge do não desenvolvimento do embrião em algumas variedade, existe há séculos e reza a história que era muito apreciada pelos imperadores turcos - a variedade sultanas ganhou o nome por essas paragens. Hoje em dia a Herdade Vale da Rosa tornou-se no maior produtor nacional de uvas destas e cultiva sete variedades de uva sem grainha em cerca de 100 hectares do total de 250 onde tem vinha. A maior parte destas uvas sem grainha é exportada para o norte da Europa.

 

DIXIT - “É preciso não contar com o ovo no dito cujo da galinha” - Jerónimo de Sousa, sobre a posição do PCO em relação ao próximo Orçamento de Estado.

 

GOSTO - O Parlamento Europeu adoptou a directiva que reforma os direitos de autor e os adapta à era digital, uma medida importante para os criadores culturais, para o jornalismo e para qualquer ideia de cidadania ativa.

 

NÃO GOSTO - As queimadas foram responsáveis por 60% dos incêndios florestais registados este ano.

 

BACK TO BASICS - “Um conservador é um homem que tem duas pernas em excelentes condições mas que no entanto nunca aprendeu a andar” - Franklin D. Roosevelt

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A MENTIRA É UMA ARMA

por falcao, em 07.09.18

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A MENTIRA É UMA ARMA - No admirável mundo novo da geringonça o dinheiro não conta e a verdade é um dano colateral. Se confrontarmos as promessa de hoje com as palavras de ontem percebemos a extensão da utilização da mentira como arma eleitoral. Longe vai o tempo em que António Costa dizia que o dinheiro não chegava para tudo - como fez ainda este ano, em Junho, a propósito dos professores. Como se pode acreditar num primeiro-ministro que agora promete tudo mas que, em Novembro de 2017, dizia que era uma ilusão a ideia de que é possível “tudo para todos já”. Os próximos meses  não vão trazer propriamente a feitura de um programa eleitoral - vão ser o palco onde poderemos observar o despique entre as promessas que vão sendo feitas e o caderno de encargos e o rol de exigências que Bloco e PCP laboriosamente vão compilando. A maior das mentiras, que serve de colchão a todas as promessas, é a repetida afirmação de que tudo agora está bem e que o país avança no caminho do paraíso onde todos viverão sem se recordarem da crise, longe da austeridade - apenas com umas, digamos, pequenas cativações. Todos querem transportes mais baratos e acolhem de bom grado descontos para os passes dos filhos - mas como se vai vendo o reverso é a degradação da qualidade de todos os serviços públicos - da CP aos hospitais, da saúde à educação, passando pela segurança. Já se percebeu que este ano o défice público está acima das previsões e a Unidade Técnica de Apoio Orçamental do Parlamento veio dizer que o aumento da despesa pode descontrolar ainda mais as coisas - é o que vai acontecer graças ao orçamento eleitoralista que aí vem. Claro que a seguir virão mais impostos e o previdente Medina, espécie de arauto do que vai na cabeça de Costa, já foi dizendo que o melhor é aumentar a taxa do turismo em Lisboa.

 

SEMANADA - Em 100 euros gastos em Portugal, quase 12 vêm do bolso de turistas; as famílias portuguesas já estão a gastar o mesmo que na pré-troika e o segundo trimestre deste ano foi o que registrou maior consumo de bens duradouros dos últimos 17 anos; em Lisboa entram por dia 370 mil carros vindos dos concelhos limítrofes; a CP afinal só vai comprar metade dos comboios previstos no plano de investimentos do ano passado; os juros da dívida pagos pela CP davam para comprar 40 comboios novos;  o Bloco de Esquerda afirmou que recusa ser “penacho de um qualquer Conselho de Ministros” após as próximas eleições; o PCP declarou-se disponível para governar - mas para fazer “outra política”; metade da ajuda europeia aos incêndios florestais em Portugal de 2017, no valor de 50,6 milhões de euros, foi canalizada por António Costa para o próprio Estado, nomeadamente para a GNR, a Protecção Civil, o Instituto de Conservação da Natureza e Fundo Florestal Permanente, a Marinha, Força Aérea e o Exército; cada português produz em média 40 quilos de resíduos por mês e, por ano, o país acumula quase cinco milhões de toneladas de resíduos, o peso de três pontes Vasco da Gama; segundo o livro “Desperdício Alimentar”, de Iva Pires, cada português desperdiça uma média de 100 quilos de alimentos por ano; há 1350 portugueses à espera de cirurgia de tratamento de obesidade.

 

ARCO DA VELHA - O tribunal de Montemor-O-Novo libertou quatro indivíduos que tinham sido detidos em flagrante a fazer explodir uma caixa multibanco em Reguengos de Monsaraz.

 

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ESTE É DE OLHÃO  - O “este” a que me refiro é “O Centro do Mundo”, o romance de Ana Cristina Leonardo que este ano me fez querer conhecer melhor Olhão- e passar aí uns dias das minhas férias. Não me arrependo. Descobri uma terra que apenas conhecia de passagem e que tem uma zona central antiga, arruinada ao longo dos anos, mas que deve ter sido acolhedora e envolvente, e que agora começa a ser recuperada. Numa só rua vi três agências imobiliárias seguidas, umas coladas às outras, com ofertas de casas locais antigas para restaurar. Terra de pescadores e da indústria conserveira, com ilhas da Ria Formosa mesmo em frente, com um mercado antigo, recuperado, e uma marginal em que abundam restaurantes, Olhão já foi descoberta por estrangeiros que foram comprando casas, muitas com açoteias de onde se avista a Ria e as casas brancas em forma de cubo . “O Centro do Mundo”, de Ana Cristina Leonardo, é outra conversa -uma viagem através do tempo, que fala de como era Olhão, percorre a sua História sob o pretexto da evocação de um aventureiro de origem russa, fugido da revolução de Outubro, espião ocasional, vigarista regular, sedutor impenitente. Boris Skossyreff, assim se chama a personagem, acaba pois por funcionar como o guia que nos leva por Olhão ao longo de algumas décadas. O livro está editado pela Quetzal.

 

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POLÉMICA: FESTIVAL DE VENEZA ACOLHE A NETFLIX - Depois de o Festival de Cannes ter cedido à pressão dos distribuidores de filmes franceses e ter impedido as produções da Netflix de ali se apresentarem, o Festival de Cinema de Veneza acolheu de braços abertos o gigante do streaming que levou as suas produções mais recentes - a começar por  “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, que foi o grande destaque da abertura deste 75º Festival de Veneza. A Netflix apresenta outros seis títulos, entre eles dois candidatos ao Leão de Ouro: “The Ballad of Buster Scruggs”, de Ethan e Joel Coen (na imagem), e “22 July”, de Paul Greengrass. “Roma” não tem elenco internacional, foi filmado em preto e branco e é falado em espanhol. “É um tipo de projeto que teria enormes dificuldades para encontrar espaço no mercado” – defendeu o diretor mexicano, elogiando a atitude da Netflix. Outras produções da Netflix presentes em Veneza são “On My Skin” do italiano Alessio Cremonini, o muito aguardado “The Other Side Of The Wind” - o derradeiro filme, inacabado de Orson Welles que a Netflix recuperou - e o documentário “They’ll Love Me When I’m Dead”, de Morgan Neville, exactamente sobre Welles e a epopeia que foi a rodagem do seu filme inacabado. Entretanto a Confederação Internacional dos Cinemas de Arte (Cicae) já criticou o Festival de Cinema de veneza por aceitar filmes estreados fora das salas de cinema - mas que chegam a uma enorme audiência garantida pelo crescente número de assinantes da Netflix em todo o mundo.

 

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A CAÇADORA ANNA CALVI - Há cinco anos que a britânica Anna Calvi não lançava um disco novo - e estão agora a fazer sete anos que tocou no Lux, a seguir ao seu primeiro álbum. Este “Hunter” é o seu terceiro registo e cumpre à risca o que ela havia anunciado: uma colecção de canções pop com ar sério sobre o desejo, o controlo e o género - o que vai de encontro às conhecidas causas que Calvi vem defendendo publicamente. Mesmo que não sigam as letras ficarão contagiados pelo lado musical do álbum, pela forma como ela continua a explorar os limites da guitarra e a mostrar o seu virtuosismo, sem nunca recorrer ao exibicionismo fácil e gratuito - uma froma de tocar guitarra particularmente evidente em faixas como “Don’t Beat The Girl Out Of My Body” ou “Indies Of Paradise”. “Hunter”, a canção que dá título ao disco, é construída entre um fundo de sintetizador e uma guitarra que se conjuga com a  percussão, numa balada rock poderosa. Anna Calvi diz que este é o seu disco de referência, de entre os que gravou até agora - e é simultaneamente suave e enérgico, permancendo simples e envolvente. O tema “Swimming Pool”, aparentemente uma homenagem a David Hockney, explora explicitamente o prazer sem culpa e um terreno sonoro semelhante, mais ambiental ainda, é dado em “Eden”, o último tema do álbum. A produção é de Nick Launay, com quem Nick Cave gosta de trabalhar. Aqui, ele deixou espaço para que Calvi soasse mais autêntica, musicalmente menos polida, com, um registo de voz mais intimista, na verdade mais próxima da realidade ao vivo. Disponível no Spotify.

 

UMA BOA CERVEJARIA - Dantes era o Spianata, um restaurante de inspiração italiana e comportamento incerto, que ao longo do tempo foi ainda ficando mais incerto. O local é bom - na Travessa de Santa Quitério, perto da Pedro Álvares Cabral, com um amplo parque de estacionamento por baixo. A sala do restaurante prolonga-se num terraço enorme  que acolhe uma esplanada com uma bela vista sobre Lisboa e de onde ainda se vê o Tejo. Desde há uns meses ali está a cervejaria Sem Vergonha. Uma boa cervejaria, maioritariamente frequentada por portugueses, com um serviço simpático, e que está aberta ao Domingo, o que é sempre uma boa ideia. Tem marisco fresco, um tártaro de atum bem aprontado, choco frito a bater-se com muitos de Setúbal, peixinhos da horta acima da média, um picapau de novilho bem temperado e um belo bitoque do lombo. As batatas fritas são boas - e isto é crucial numa cervejaria. À entrada está um balcão de peixe fresco que o cliente pode pescar na altura. O serviço funciona bem, a carta de vinhos tem preços honestos e a imperial é bem tirada. Nas sobremesas figuram os gelados Artisani, que aliás têm loja própria ali perto. É aquele género de restaurante onde apetece voltar, com uma boa relação qualidade preço e onde os clientes se sentem bem. Que não se estrague é o meu desejo. Travessa de Santa Quitéria 38 D, telefone 21 385 0967. Fecha às segundas, aberto até à uma - mas sexta e sábado encerra às duas.

 

DIXIT - “É preciso extinguir o que só serve para enganar o povinho (...) Hoje a corrupção é um grande problema nacional e até é um problema endémico” - João Cravinho

 

GOSTO - A edição em jornal da Monocle Autumn Fashion Edition dedica duas páginas à indústria têxtil portuguesa, nomeadamente às empresas que têm introduzido inovação tecnológica e às que produzem para marcas de luxo.

 

NÃO GOSTO - O programa de obras em escolas de ensino básico de Lisboa, a cargo da autarquia de Medina, regista atrasos sensíveis a poucos dias da abertura do ano escolar.

 

BACK TO BASICS - “Aqueles que vos querem fazer acreditar em coisas absurdas, são os mesmos que podem levar os outros a cometer atrocidades” - Voltaire

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UM FILME PORNOGRÁFICO

por falcao, em 31.08.18

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Tudo se conjuga para que nos próximos meses assistamos a cenas de uma autêntica orgia de demagogia, onde actuarão estrelas da política lusitana e que se desenrolará em cenários como o Parlamento e em discretos encontros secretos. Com o calendário de eleições em 2019 (Europeias, Regionais dos Açores e da Madeira e Legislativas) está pronto o palco para uma enorme sucessão de promessas que, obviamente, serão pagas mais tarde pelo denodado contribuinte com a sua cada vez maior carga fiscal - o preço final é sempre pago pelos mesmos. As primeiras cenas deste filme decorrem na preparação do Orçamento de Estado para 2019, que, já se percebeu, será um bacanal eleitoralista. Com medidas como a descida do IRS, do IVA na electricidade, com aumentos de pensões ou aumentos da Função Pública, quanto vai custar este Orçamento aos nossos bolsos? Claro que as promessas são música para os ouvidos de uma parte importante dos eleitores - mais investimento na saúde, na cultura, na educação, na cultura, além dos aumentos de pensões e de salários. Tudo isso é fantástico embora não perceba como vai acontecer com um Governo que é campeão das cativações, que tem o serviço do 112 sem meios, a CP à beira da ruptura, que não consegue médicos para os hospitais em especialidades críticas, que faz promessas a torto e a direito, para os que cá trabalham e até para os que foram trabalhar para fora. No fim a factura vai ser enorme - e em vez de procurar simplificar a fiscalidade, acabar com os abusos da autoridade tributária, como os que foram conhecidos esta semana, e deixar de punir os contribuintes, o Governo escreve descaradamente o enredo de um filme pornográfico em que o Ministro das Finanças faz o papel de dominador e o Primeiro Ministro protagoniza um D. Juan com vocação de vendedor de banha da cobra - ambos envolvidos sem pudor com um trio promíscuo que envolve os dirigentes dos parceiros da geringonça e o desaparecido líder do que já foi o maior partido da oposição.

 

SEMANADA - Segundo o Banco de Portugal há mais famílias a não conseguir cumprir os seus compromissos mensais no crédito ao consumo; em maio o Governo congelou mais 420 milhões de euros de despesa pública, reforçando cativações na ferrovia, no Ensino Básico e Secundário e na Saúde; ao contrário do que afirmou Mário Centeno, o valor dos cativos deixa de ser o mais baixo dos últimos cinco anos e passa a ser o terceiro mais alto de sempre, todos nos anos em que Mário Centeno foi o ministro das Finanças; António Costa disse no seu discurso recente que a carga fiscal diminuíu com o seu Governo, mas na realidade a carga fiscal em Portugal subiu para os 34,7% do PIB em 2017, impulsionada por contribuições sociais e impostos indiretos, o que é o valor mais elevado em 22 anos;  o chefe de Gabinete de Mário Centeno em Portugal atacou o Ministério Público na sua página do Facebook; antes de estar com Centeno tinha sido autarca em Lisboa e o seu post surge em defesa do mono do Rato; cinco novos partidos deverão apresentar-se nas eleições europeias do próximo ano; este ano em Portugal já existiram mais de 500 furtos a equipamentos de venda automática, o que representa um aumento aproximado de 60% face ao ano anterior, e quase 100% em dois anos; desde o início do ano já morreram 315 pessoas em acidentes de viação; as queimadas estiveram na origem de 66% dos fogos rurais verificados este ano; este ano já foram encerrados 56 lares ilegais.

 

ARCO DA VELHA - Os três helicópteros Kamov que o Estado contratou este ano, por cerca de 3,6 milhões de euros,  pertencem a uma empresa moldava, a Pecotox Air, que não tem autorização para voar no espaço europeu.

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UMA VISÃO DIFERENTE DE EÇA DE QUEIROZ - Conhecido como um dos grandes escritores portugueses do século XIX, Eça de Queiroz licenciou-se em Direito, em Coimbra, entre 1861 e 1866, e durante algum tempo exerceu a advocacia.  Já o pai e o avô haviam sido juízes e haviam também estudado em Coimbra onde, pela mão de um dos professores de Direito mais distintos dessa época, Vicente Ferrer Neto, se espalhava o krausismo - teoria que defende a tolerância académica e a liberdade do ensino perante o dogmatismo. Ora esta teoria influenciou fortemente a forma de pensar e de escrever de Eça de Queiroz - essa é a tese defendida por César Tomé no ensaio “A Construção Do Sujeito de Direito em Eça de Queiroz (ou Eça de Queiroz Krausista)”, agora publicado pela Guerra & Paz. O livro desenvolve-se ao longo de reflexões que fazem confluir a literatura, a arte, o direito, a filosofia, e a política que marcaram o rico e conturbado século XIX português. Cesar Tomé, o autor desta visão diferente sobre a obra de Eça de Queiroz, licenciou-se em Coimbra, na mesma Faculdade de Direito que conheceu o autor de “Os Maias” como estudante e ali exerceu a actividade profissional de advogado durante mais de trinta anos. Mais tarde desenvolveu formação superior diversa nas áreas do Direito, da Antropologia e da Filosofia. É doutorando em Antropologia, estudando temas que envolvem as emoções, os sentimentos, as neurociências e a biologia no processo, sempre complexo, de construção das decisões judiciais.

 

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A FOTOGRAFIA EM ARLES - Arles, um cidade no sul de França, tornou-se conhecida desde 1970 por promover e acolher os Encontros da Fotografia - que este ano vão na sua 49ª edição, inaugurada no início de Julho e que vai até 23 de Setembro. É a maior e mais diversificada mostra de fotografia que decorre na Europa, este ano sob o mote “Regresso ao Futuro”. A organização pretendeu fazer uma viagem através de diversas épocas com o objectivo de mostrar como a fotografia é o meio por excelência para captar todas as mudanças que acontecem no mundo ao longo dos tempos. Existem onze temas principais - desde o que é dedicado aos últimos 60 anos dos Estados Unidos, percorrendo imagens de autores como Robert Frank e Raymond Depardon (na imagem) , até registos do velho mundo - com fotografias de Maio de 68, por exemplo. Noutras secções aparecem mostras mais contemporâneas, como a de Cristina de Middel e Bruno Morais até uma viagem a Cuba sob o título “Yo Soy Fidel”. Há ainda espaço para novos autores, uma área para livros de fotografia e uma outra para autores convidados, além de dezenas de iniciativas  em programas associados, que vão desde uma evocação dos livros Photo Poche das edições Delpire, até aos galardoados do prémio Pictet ou uma playlist dos Encontros de Arles organizada pela Radio France Inter. São quatro dezenas de exposições e muitas iniciativas paralelas. Se este ano não fôr, comece a preparar a viagem do próximo ano.

 

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O CRUZAMENTO DA GUITARRA ELÉCTRICA COM MÚSICA AFRICANA - Os discos de jazz onde a guitarra surge em primeiro plano estão entre a minha lista de preferências musicais. A guitarrista alemã Leni Stern, que começou a gravar em 1985, desde há uma década aproximou-se da música africana e o seu novo disco, “3”, é  o terceiro que grava com o baixista Mamadou Ba e com o percussionista e multi-instrumentista Alioune Faye. Aqui, mais uma vez ela explora os caminhos do jazz, cruzando-os com blues, rock e com as sonoridades tradicionais do Senegal e do Mali. Além do trio - e Stern além da guitarra também canta - o disco tem as colaborações de Mike Stern, o seu marido,  também na guitarra eléctrica, de Leo Genovese no sintetizador, de Gil Goldstein no acordeão e de Muhammed e Princess Louise Faye nas vozes. A faixa de abertura, um instrumental, é um exemplo perfeito do cruzamento de culturas, entre a guitarra e a percussão e o baixo. A faixa “Spell” evoca as sonoridades dos blues do Mississipi pela guitarra de Mike Stern e a voz de Leni Stern. Mas a melhor surpresa chega no fim, com o tema “Crocodile”, onde a guitarra e o acordeão, se cruzam com coros, enquadrados por uma percussão exemplar. O álbum está disponível no Spotify.

 

AS RECEITAS TRADICIONAIS JÁ ESTÃO ONLINE -  Durante 12 anos, Maria de Lourdes Modesto apresentou o "Culinária", a seguir ao Telejornal, na RTP - um caso sério de qualidade e popularidade televisiva. Quando começou o seu programa, nos final dos anos 50, Maria de Lourdes Modesto  cedo sentiu que muitos espectadores diziam que determinada receita era feita de forma diferente na sua família. Em 1961 Maria de Lourdes Modesto teve a ideia de lançar um concurso e pediu aos espectadores que lhe enviassem receitas tradicionais das várias regiões de Portugal. Recebeu milhares de receitas, a maioria manuscritas e um júri, que ela integrava, selecionava em cada mês a melhor receita. Estes milhares de receitas recebidas estão agora disponíveis online. Maria de Lourdes Modesto entregou o acervo que guardava em casa à Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal (ACPP), que colocou as transcrições dos ingredientes e o modo de preparação no seu site, www.acpp.pt/maria-de-lourdes-modesto. O livro de referência da gastronomia nacional, “Cozinha Tradicional Portuguesa”, que Maria de Lourdes Modesto fez, recolhe a sua experiência e muitas indicações que recebeu dos seus espectadores nas receitas que enviaram. Com a disponibilização online deste arquivo todos podemos agora ter acesso a este manancial de informação - e na meia centena de milhar de pesquisas realizadas nas primeiras semanas a este site, as receitas mais consultadas foram, por exemplo uma Açorda à Transmontana, uma Tiborna e um Caldo Verde

 

DIXIT - “Deixe de andar aos pontapés aos seus companheiros de partido” - Carlos Carreiras, vice-presidente do PSD, referindo-se a Rui Rio.

 

GOSTO - José Mário Branco é a personalidade homenageada no arranque da Feira do Livro do Porto a 7 de Setembro.

 

NÃO GOSTO - Houve entidades oficiais, nomeadamente autárquicas,  que permitiram e até incentivaram a utilização fraudulenta dos donativos e fundos para a reconstrução de Pedrógão Grande

 

BACK TO BASICS - “Os livros têm os mesmo inimigos que as pessoas: fogo, humidade, animais, o mau tempo e o seu próprio conteúdo” - Paul Valery



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publicado às 13:15

UMAS FÉRIAS DIFERENTES

por falcao, em 24.08.18

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UMAS FÉRIAS DIFERENTES - Este ano decidi seguir o conselho de uma antiga campanha publicitária - “vá para fora cá dentro”. E assim fiz-me já diversas vezes à estrada, para norte, para o centro e agora para sul, para o Alentejo profundo. Onde quer que vá encontro turistas estrangeiros - muitos, e das mais diversas proveniências. Tem a sua graça ouvir falar inglês, russo, brasileiro, sueco ou francês, tudo no mesmo restaurante de Mértola, O Brasileiro, onde ao jantar as ofertas gastronómicas são, por exemplo,  escabeche de perdiz, sopa de cação ou entrecosto com migas de espargos bravos. Umas horas antes, ao almoço, vi frustrada a minha intenção de me deliciar com as iguarias do Botequim da Mouraria, em Évora, porque os únicos oito lugares da casa, ao balcão, estavam ocupados por duas famílias estrangeiras, cada casal com dois filhos, que se lambiam com os enchidos, os queijos, os ovos mexidos com espargos. Cocei a cabeça e lá procurei outro sítio que por acaso não correu bem. Por todo o lado - nos monumentos, nas exposições, no meio da rua -  sente-se a presença dos visitantes. E sente-se o seu impacto na economia local. Empregados de simples cafés ou de restaurantes tradicionais falam inglês como podem, e na maioria dos casos bastante razoavelmente. O inglês afirmou-se a língua do acolhimento a turistas - o que dá azo a cenas deliciosas como esta: um casal de clientes franceses, na casa dos 30-40 anos , a falarem no restaurante de Mértola com a empregada portuguesa, em inglês, numa evocação da série Alô Alô. E a jovem de Mértola falava inglês bem melhor que os franceses. Acabei as migas e sorri.

 

SEMANADA - As forças armadas perderam 20% dos efectivos nos últimos 17 anos; o número de inspectores na educação caíu 40% desde 2001; 14% dos imóveis do Estado, cerca de quatro mil prédios, estão vazios e sem utilização por parte de organismos públicos; no ano passado 25 mil passageiros queixaram-se de mau serviço e problemas nos comboios da CP; este ano, desde janeiro, há um aumento de 83% dos protestos sobre a CP  no Portal das Queixas; o preço médio da electricidade em Portugal, avaliado em função do poder de compra nos países da Comunidade Europeia, só é ultrapassado pela República Checa; uma universidade americana concluíu um estudo onde se afirma que passar horas no sofá a ver televisão, sobretudo os serviços de streaming, diminui o apetite sexual; segundo a Marktest 17% das pessoas ouve rádio pela Internet mas este número sobe para 30% nos ouvintes entre os 25 e os 34 anos; Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças grego, criticou o vídeo partilhado por Mário Centeno para assinalar o fim do resgate à Grécia dizendo que "parece propaganda norte-coreana"; João Galamba, do PS, e Mariana Mortágua, do Bloco, também criticaram o vídeo de Centeno; a dívida externa líquida portuguesa situou-se em 183,1 mil milhões de euros em junho, representando 93,4% do PIB, mais 0,9 pontos percentuais comparando com o final de 2017; o PAN quer limitar o uso de charretes e carroças.ú

 

ARCO DA VELHA - Um estudo realizado na Alemanha e que recolheu informação em 20 países, mostra que mais de 80 por cento das peças de roupa que as pessoas possuem não foram vestidas nos últimos 12 meses.

 

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UMA QUESTÃO DE TRÂNSITO -  De repente uma professora de escrita criativa, que vivia no campo, vê a sua vida dar uma reviravolta no meio de um divórcio e muda-se com os filhos para Londres. Este livro fala do percurso de mudança, dos cruzamentos, das dúvidas, das transições de hábitos, rotinas e comportamentos. “Trânsito” é o segundo livro de Rachel Cusk na sua trilogia que começou por “A Contraluz” e se concluíu com “Kudos”,  lançado em Maio passado no Reino Unido. Este “Trânsito” foi agora editado em Portugal pela Quetzal e a protagonista, Faye, uma mulher de meia idade, escritora, pode parecer ter uma evidente semelhança com a autora. Mas na realidade Faye é apenas uma espécie de porta voz do que Cusk vai achando do mundo - hilariante a parte em que Faye conta o assédio de que foi vítima num festival literário pelos seus colegas escritores ou a descrição de um jantar em que ela observa os comportamentos de uma família, digamos, moderna. Isabel Lucas, uma das poucas pessoas que vale a pena ler quando o tema são livros ou os seus autores, diz que  Rachel Cusk tem uma tremenda capacidade de “escrever sobre a banalidade fazendo disso grande literatura. Como se nada fosse.” E é isso. Simples, sem complicações.

 

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ÁFRICA EM ÉVORA (e na Vidigueira) - Em primeiro lugar uma boa notícia - a exposição Évora-África, sub-titulada Africa Passions, que estava prevista encerrar dia 25, deverá ser prolongada até final de Setembro. Esta exposição é uma das mais importantes deste ano, bem concebida, bem montada, verdadeiramente surpreendente, e está no Palácio Cadaval, mesmo no centro de Évora, junto ao templo de Diana. Começo por destacar a peça Osa Nla, a evocação de uma divindade, concebida por Romuald Hazoumè e que domina a magnífica Igreja dos Loios, com os seus riquíssimos painéis de azulejos (na imagem). A exposição apresenta essencialmente fotografia e pintura com particular enfoque em artistas de Congo e Mali, mas também moçambicano, como Filipe Branquinho e Mauro Pinto. A exposição mostra trabalhos fruto de formação académica nalguns casos, mas também da tradição popular. Destaco as magníficas fotografias de Malick Sidibé na Bamako dos anos 60, assim como os retratos fotografados e encenados por Omar Victor Diop, a pintura de JP Mika, de Filipe Branquinho, de Toussaint  Dembelé, de Amadou Sanago e ainda as obras de Frédérick Brulé Bouabré. Esta exposição tem uma extensão a três dezenas de quilómetros, no Centro de Arte Quetzal, em Vila de Frades, junto à Vidigueira. Drawing Africa on the Map, a exposição que está na Quetzal, junta artistas de diferentes regiões do continente Africano, que se exprimem através do desenho - e num caso, o de William Kentridge, através de espantosas animações, emocionantes.

 

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A VOZ DE ARETHA - É uma pena dedicarmos tão pouca atenção aos grandes nomes da música enquanto eles são vivos. Submergidos pela procura dos novos lançamentos, temos tendência a deixar para trás o prazer de ouvir os grandes intérpretes em grandes canções. Aretha Franklin por muitos considerada a maior cantora na música popular norte-americana, nasceu em Memphis, cresceu em Detroit e viveu o gospel, a soul, e o ryhthm and blues. Teve incursões no jazz, na pop e até na ópera. Começou a gravar em 1956 e o seu último disco foi de 2014 - quatro dezenas de álbuns em 58 anos. Gravou duetos com George Michael e George Benson, teve Lauryn Hill a produzi-la, fez discos de homenagem a grandes nomes da soul como Dinah Washington e gravou versões de dezenas de autores, desde Sam & Dave aos Rolling Stones. O seu legado musical é imenso. Se por estes dias quiserem ouvi-la, pesquisem o Spotify - já depois da sua morte, ocorrida há dias, o serviço de streaming fez uma compilação intitulada The Immortal Aretha Franklin que inclui 20 dos seus temas mais conhecidos. Podem também pesquisar o histórico registo de um concerto de 1972, em Filadélfia, “Oh Me, Oh My - Aretha Live in Philly”. Ou ouçam “Aretha Franklin Sings The Great Diva Classics”, que inclui versões de Aretha para dez temas de outros grandes nomes da música - foi o seu derradeiro registo em estúdio, em 2014, e é uma prova da sua grande voz.

 

CONCEITOS SEM SENTIDO -  Esta semana estive num restaurante em Évora, no centro da cidade, mesmo ao pé do Templo de Diana. Bem arranjado, bom serviço, empregados muito simpáticos. Évora está invadida por turistas, o que é uma coisa boa, desde que não se perca o que é característico de cada local. Creio que a gastronomia é das coisas que deve ser preservada. Nesse restaurante havia compreensívelmente algumas cedências turísticas, como uma salada césar e uma salada de camarão, mas havia também uma de figos com presunto e queijo fresco que podia ser uma boa possibilidade num almoço leve de dia de calor e além desta salada, para entrada pedi um carpaccio de atum. É certo que havia apenas duas mesas, entre uma dezena, que tinham portugueses. Quando pedi um pouco de pão apareceram-me uns pãezinhos redondos com ar de congelados e pré preparados, sem nada a ver com pão alentejano. Interrogado um dos empregados sobre tal assunto ele disse- me a sorrir que o chefe novo que tinha entrado substituíra o pão tradicional, que ali era antes servido, por aquela modernice sem sentido nem sabor. No carpaccio de atum era estranhamente utilizado um balsâmico (bem podiam propor uma muxama com azeite aromatizado e vinagrete de laranja ou até ventresca de atum de conserva, que a há bem boa). Na minha salada de figos o queijo fresco era industrial, de supermercado, sensaborão, o presunto era sem história e os figos teriam ganho em serem descascados. A umas lulas fritas a lista chamava tempura de lulas. O restaurante chama-se Cinco Quinas mas, pela amostra, não se preocupa muito com a imagem que dá da nossa gastronomia.

 

DIXIT - “A Cúria Romana é responsável por mais ateus do que Karl Marx, Nietzsche e Freud juntos.” - Anselmo Borges, padre e teólogo.

 

GOSTO - José Lourenço, que tem uma conta no Instagram onde partilha as suas obras e filmes de animação, foi convidado pelo Guggenheim de Nova Iorque  a fazer um teaser para a exposição de Giacometti que ali vai abrir proximamente.

 

NÃO GOSTO - Bruno de Carvalho comprovou ser um elemento de perturbação da equipa de futebol do Sporting ao voltar a enviar SMS aos jogadores onde se intitulava presidente do clube.

 

BACK TO BASICS - “A música faz muita coisa a muitas pessoas: transporta-nos, pode levar-nos anos atrás ao momento em que algumas coisas aconteceram nas nossas vidas - anima-nos, encoraja-nos e fortalece-nos “ - Aretha Franklin

 

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publicado às 12:02

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VOX POPULI - Temos um aeroporto em Lisboa que rebenta pelas costuras, uma rede ferroviária indigna de um país desenvolvido, transportes públicos claramente abaixo dos mínimos para poderem ser alternativa. Em suma, em matéria de equipamento e infraestruturas, o Governo navega ao improviso, sem saber bem para onde vai, sem mostrar qualquer estratégia. Da mesma maneira que há uns anos se pensava numa linha ferroviária de alta velocidade cheia de apeadeiros, aparece agora a ideia de fazer mais aeroportos (caso de Coimbra), como se isso fosse a solução e se como o exemplo da colossal asneira de Beja não fosse suficiente: construíu-se  ali um aeroporto que só é usado para manobras de relações públicas e como estacionamento de aviões, ao mesmo tempo que se acabava com a ligação ferroviária à cidade e se desistia de melhorar o acesso rodoviário. Como se faz a destruição de um país? Destruindo o seu sistema circulatório, de que as infraestruturas de transporte são peça fundamental. A desistência da opção pelo comboio em Portugal vai pagar-se cara. A CP é um caso raro de asneiras repetidas: se tivesse sido privatizada não havia de faltar protesto, assim quedam-se caladas as consciências dos suspeitos do costume. No Governo a incompetência nesta área tem um nome: Pedro Marques, um ambicioso político do PS que é ministro do Equipamento, cometeu o grave erro de, por mero sectarismo partidário,  ter deitado fora o dossiê do Aeroporto de Lisboa Sul (Montijo) deixado pelo governo anterior. Se tivesse dado OK para arrancar com o projeto estaria agora, passados 3 anos, a inaugurar uma importante infraestrutura - vital para o turismo de Lisboa e para a economia e o emprego em Portugal. Assim, para parafrasear um amigo meu, sem qualquer obra feita, Marques irá acabar o mandato como sendo o coveiro da CP.

 

SEMANADA - Em julho, o aeroporto Humberto Delgado ocupou a 10.ª pior posição no ranking de pontualidade da Official Airline Guide (OAG), entre 1194 aeroportos mundiais; as dormidas de turistas estrangeiros em Portugal diminuíram 5,1% em Junho;  nos últimos 12 meses, um em cada quatro residentes no Continente com 15 e mais anos viajou de avião, indica um estudo da Marktest; em Portugal três em cada quatro utilizadores de telemóveis usam smartphones; nos últimos 26 anos Portugal perdeu mais de meio milhão de jovens entre os 15  e os 24 anos; em 2070 Portugal só terá 4,2 milhões de pessoas em idade activa; no incêndio de Monchique foram destruídas 74 casas, das quais 33 são de primeira habitação; o Presidente da República afirmou que não é a ausência de vítimas em Monchique que traz consolo à população afectada e recusou triunfalismo; nos seis primeiros meses do ano a banca já concedeu empréstimos para a compra de casa no valor de 4774 milhões de euros; a idade média dos agentes da PSP aumentou, é agora de 45 anos e há comandos, como Castelo Branco, Bragança e Coimbra, em que a média de idade já ultrapassa os 50 anos; o Governo angolano criou a Agência de Petróleos e Gás, para acabar com o monopólio da Sonangol; a Nova Zelândia aprovou uma lei que proíbe a venda de casas a estrangeiros, como medida para travar o aumento de preços das habitações verificado nos últimos anos e tornar o mercado imobiliário acessível à sua população nacional.

 

ARCO DA VELHA - O tempo a voltar para trás: o aumento das comissões cobradas pelos bancos fez com que usar cheques seja compensador, em termos de custos, em muitas transferências.

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LER CLÁSSICOS EM TEMPO DE FÉRIAS - Nada como os clássicos para ler nas férias. Por estes dias lancei-me à nova edição de “As Rimas”, de Francesco Petrarca, traduzidas por Vasco da Graça Moura. Francesco Petrarca nasceu na Toscânia em 1304, ganhou fama como filósofo e poeta, viveu 70 anos, é considerado o pai do humanismo italiano e é-lhe atribuída a “invenção” do soneto. O amor é o tema principal destas “Rimas” , inspiradas na devoção do poeta por Laura, num crescendo de dimensão erótica e lírica onde as metáforas desempenham um papel essencial. Antes das “Rimas” já Vasco Graça Moura se havia envolvido com a obra de Petrarca, traduzindo o seu “Cancioneiro” e “Triunfos”. Vasco Graça Moura tinha tanto prazer em traduzir, nomeadamente os grandes clássicos, como em escrever ele próprio. Traduzir era, para ele, um acto criativo, baseado na recriação da obra original para português, sem perder o fulgor nem a intenção original. Traduzir não é uma tarefa fácil, traduzir textos clássicos ainda menos, traduzir poesia é um desafio. Na introdução que escreveu para esta edição das “Rimas” de Francesco Petrarca, Vasco Graça Moura sublinha: “Traduzir poesia é como tentar tirar uma ‘fotografia verbal’ a um objecto também verbal, com a preocupação de registar o que se viu através da objectiva com o mínimo de deformações. Entre estas encontra-se uma série de gradações que podem ir do preto-e-branco à cor e do respeito da morfologia originária a uma diferente configuração do objecto registado.” E, mais adiante:  “Tudo está na maneira de equilibrar as relações entre os vários ingredientes ou tonalidades…”. Vasco Graça Moura conseguiu fazer-nos chegar o fulgor da poesia de Petrarca, como esta edição da Quetzal bem demonstra.

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O ENCANTO DO LÁPIS - Proponho uma experiência diferente: visitar um dos locais em Portugal onde se produz um dos instrumentos fundamentais para qualquer artista - um lápis. Trata-se da Viarco, a sucessora da Fábrica de Lápis Portugália, fundada em 1907 e que continua a ser a única fábrica de lápis em Portugal. Hoje em dia ganhou nova vida em S. João da Madeira e além dos lápis tradicionais desenvolveu uma linha focada nas artes plásticas, a ArtGraf. Promove workshops com os seus produtos, acolhe residências artísticas em colaboração com a Oliva Creative Factory e a Câmara Municipal de São João da Madeira - é o caso da que decorreu com o Colectivo Laboratório, onde participaram, entre outros, Graça Pereira Coutinho, Beatriz Horta Correia e Ana Fonseca, a autora da obra que aqui se reproduz. Promove exposições como a que tem na Bienal de Cerveira deste ano, “Ar/Rendar A Terra” de Xana Sousa, ou, nas suas próprias instalações,  como “Debaixo da pele O Desenho” de Agostinho Santos. E além disso inova na criação de novos produtos - como a mesa de desenho Risko (que tem sido distinguida internacionalmente), e abre as suas portas a visitas de urban sketchers de todo o mundo. É um exemplo de uma empresa que está a criar uma rara e interessante ligação entre o seu negócio industrial e a arte e o design, reinventando-se ao mesmo tempo. Descumbram-na em www.viarco.pt ou agendem uma visita e vão até lá.

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OUVIR IMPROVISAÇÕES - Em tempo de férias há duas coisas que me salvam nas minhas andanças fora de casa: o Spotify e uma pequena coluna portátil JBL Go, que se liga por bluetooth a qualquer smartphone e permite ouvirmos o que queremos. Devo dizer que tenho lido as “Rimas”, de Petrarca, de que falo noutro ponto destas páginas, ao som do mais recente disco de Dave Holland, “Uncharted Territories”. Trata-se de um duplo CD, praticamente duas horas de excelente jazz, em 23 temas nos quais o baixo de Dave Holland é acompanhado pelo pianista Craig Taborn e o percussionista Ches Smith, com a presença histórica do saxofonista Evan Parker, que com ele explorou o desbravar do free jazz na década de 60, em Londres. Mais tarde Holland foi um dos cúmplices de Miles Davis na gravação de “Bitches Brew”. Desta vez Holland desafiou os músicos que o acompanham a juntarem-se em estúdio e dedicarem-se a fazer improvisações,  construindo um território muito próprio feito da forte ligação e entendimento entre eles ao longo de dois dias de intenso trabalho. Entraram em estúdio com apenas quatro temas compostos, todo o resto do material foi fruto da improvisação e da descoberta. Trata-se um uma gravação refrescante, inesperadamente provocatória , rara no panorama actual.

 

PROVAR -  Nada como o verão para experimentar umas conservas. Eu confesso-me um fã de enguias e as que são feitas na Murtosa são verdadeiramente excepcionais. Os nossos vizinhos espanhóis não hesitam, em muitos bares de tapas, em apresentar nas mesas e no balcão produtos saídos das latas de conservas das suas várias regiões - mas em Portugal isso é mais raro e é tempo de se pegar nessa ideia. As enguias em escabeche da Murtosa são um petisco ideal para uma entrada de um almoço de verão. Gosto delas em cima de uma boa fatia de pão fresco ou acompanhadas por uma salada. Mas mesmo sem mais nada, são uma delícia. Estas enguias de conserva em molho de escabeche são um dos produtos tradicionais da Ria de Aveiro, enraizado na tradição gastronómica local e nacional. A Comur – Fábrica de Conservas da Murtosa  - produz esta iguaria desde 1942, assente em métodos artesanais, mantendo a qualidade que lhe deu fama no mundo inteiro - aliás estas enguias em conserva são um produto único. Com a fábrica modernizada e a embalagem remodelada, manteve-se a tradição e o molho de escabeche, conservante natural das enguias que a Comur apresenta, mantém as mesmas características de sabor que tornam este produto um petisco único. E se por acaso forem à Murtosa, bem perto de Aveiro, não deixem de visitar o Museu Municipal, nas antigas instalações da Comur, uma bela homenagem à indústria conserveira.

 

DIXIT - “O simplex não pode ser a maneira mais rápida de chegar a burocracia” - Basílio Horta

 

GOSTO - Pedro Rebelo de Sousa disse que “ter uma percentagem excessiva de bancos espanhóis é mau para a economia portuguesa “.

 

NÃO GOSTO - A Universidade de Coimbra saíu do ranking das 500 melhores universidades mundiais

 

BACK TO BASICS - O bom gosto é o maior inimigo da comédia - Mel Brooks




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publicado às 13:15

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SOMOS GOVERNADOS POR UM CÍNICO - O cinismo na política significa total ausência de escrúpulos e não é a primeira vez que António Costa se faz notado por o usar - nos incêndios do ano passado recorreu ao mesmo expediente e foi chamado à pedra pelo Presidente da República. Quando um Primeiro Ministro vem dizer que existir apenas um incêndio com efeitos devastadores, o de Monchique, é prova de que as medidas de prevenção que o seu Governo ordenou funcionam, entramos no campo da pior demagogia. Bem sei que este é um terreno onde Costa se move com especial à vontade, mas as suas afirmações são uma ofensa a quem sofre, uma ofensa à inteligência e, em última análise, um iludir de responsabilidades de um Ministro da Administração Interna que é uma anedota, que permitiu meios de socorro mal equipados, uma estrutura de comando feita de “boys” da sua confiança numa Protecção Civil que não soube dirigir as operações, tudo amplificado por uma porta voz promovida - Patricia Gaspar - que continua a ser uma fábrica de fake news. Isto para nem falar das burocracias que impediram a prevenção e que agora são ocultadas pelos guardiões do templo ou do facto de a própria Autoridade Nacional de Protecção Civil não ter cumprido as novas regras que ela própria elaborou e que definem como se devem organizar as operações de socorro no terreno. Infelizmente aqui o cinismo, a incompetência e o laxismo mostram que Monchique não é uma excepção: é apenas, infelizmente, a confirmação do que funciona mal, muito mal. O cinismo num político é uma ofensa pública, sobretudo quando se manifesta depois de andar a fazer figuras parvas de imitador de Trump no twitter.

 

SEMANADA- Em 2017 Portugal foi o terceiro país com os preços da eletricidade e do gás natural mais caros da União Europeia, segundo dados do Eurostat; segundo a Marktest nos últimos 12 meses apenas cerca de um milhão de pessoas pagaram para ir ver futebol ao vivo, o que significa 12% dos portugueses com mais de 15 anos; dois contratos de PPP rodoviárias celebrados entre o executivo de Sócrates e o grupo Ascendi, que era da Mota Engil, já custaram 836 milhões de euros ao Estado, quando até 2009 não traziam nenhum encargo; segundo o INE a precariedade laboral voltou a subir no segundo trimestre e é agora mais elevada que no auge da crise, em 2011; quase 10% das vagas para recrutar médicos para o SNS ficaram vazias; nos primeiros sete dias de agosto morreram mais 512 pessoas com idade igual  ou superior a 75 anos, por comparação com o valor registado no ano passado; devido à falta de pessoal no fim de semana passado o atendimento do 112 registou esperas de três a 20 minutos e no domingo 173 chamadas ficaram por atender; ainda não abriu o concurso para 200 novos guardas florestais que o Governo tinha prometido realizar antes do Verão; no ano passado 25% dos incêndios não foram investigados por falta de pessoal; os helicópteros da  protecção civil para combate aos incêndios foram alugados sem sistema de  espuma retardante anti-fogo.

 

ARCO DA VELHA- O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas está há mais de sete meses para aprovar um projeto de intervenção na zona da Perna da Negra, precisamente o local onde deflagrou o incêndio da passada sexta-feira na Serra de Monchique.

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ARTE REGRESSA A  ALMANCIL - Mário Sequeira, um importante galerista de Braga (mais precisamente de Tibães), está a dar nova vida ao Centro Cultural de Almancil, no Algarve  - o antigo Centro Cultural de São Lourenço que foi fundado em 1981 pelo casal Marie e Volker Huber e que ao longo dos anos divulgou artistas plásticos, promoveu conferências com escritores (como Gunter Grass, amigo dos fundadores), concertos e recitais de música e de poesia. Situado a uma centena de metros da Igreja de Almancil, o espaço do Centro Cultural de São Lourenço foi o resultado de um minucioso trabalho de recuperação de cinco casas rurais com mais de 200 anos feito pelos fundadores e encerrou a primeira fase da sua existência em 2012 . Mário Sequeira renovou todo o espaço e apresenta até 31 de Agosto a exposição colectiva “Island In The Sun”, comissariada por Duarte Sequeira e André Butzer - que escolheu o título a partir de uma canção de 2001 da banda californiana Weezer. A exposição apresenta trabalhos de, entre outros,  Rui Algarvio, José Bechara, Sarah Bogner, André Butzer, Pedro Calapez, Gary Webb, Pedro Cabrita Reis, Luís Coquenão, Aneta Corovic, Cris Kirkwood, Maja Körner, Isaque Pinheiro, Christian Rosa, Fabian Schubert, Baltazar Torres, Thomas Winkler e Josef Zekoff. Na imagem estão obras de Pedro Calapez e Gary Webb. A norte o destaque vai para a XX Bienal Internacional de Cerveira, que decorre de 10 de Agosto a 23 de Setembro. Em Lisboa na activa Galeria Passevite, Rua Maria da Fonte 54 (perto da Graça), pode ver até 13 de Setembro “O Inimigo Exposto”, a partir dos desenhos e ilustrações que Nuno Saraiva tem feito para “O Inimigo Público”.

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UMA AVENTURA EM MARROCOS  - Paul Bowles passou grande parte da sua vida, mais de 50 anos, em Marrocos, na cidade de Tânger. Foi para lá viver no pós guerra, em 1947, e por lá ficou até morrer, em 1999. A sua casa tornou-se local de peregrinação de nomes como Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Truman Capote ou Gore Vidal,  entre outros. As obras mais conhecidas de Bowles têm Marrocos como pano de fundo - nomeadamente “O Céu Que Nos Protege” . Outra obra dedicada a Tânger, originalmente editada em 1952, é “Deixa A Chuva Cair”, que agora volta a estar disponível no mercado português através de uma edição da Quetzal. “O Céu Que Nos Protege” passa-se no deserto do Saara, mas este “Deixa A Chuva Cair” tem toda a acção centrada na Zona Internacional de Tânger, com uma multiplicidade de personagens, de prostitutas a contrabandistas, passando por espiões e negociantes diversos - todos eles gravitando em torno de Nelson Dyar, um jovem americano que chega à cidade para começar uma nova vida - Bowles dizia que Dyar era a única personagem totalmente inventada. Curiosidade final : o título, “Deixa A Chuva Cair”, foi roubado de uma frase de Macbeth.

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UMA RÁDIO NOVA - No Mixcloud há muito mais do que música, mas é a música que me faz usar muitas vezes esta plataforma de streaming britânica que difunde programas de rádio, playlists de DJ’s e podcasts de entidades como a revista Wired ou a Harvard Business Review. Existem aplicações para iOS e Android, o que a torna numa forma barata, eficaz e rápida de ouvir selecções musicais de diversas proveniências. Cruzei-me com ela de forma mais regular quando percebi que David Byrne coloca lá as playlists da sua rádio virtual - e que vão de música do norte de África a selecções de temas de verão, passando por música brasileira ou jazz do século XXI. Vários DJ’s colocam lá as suas playlists, como os portugueses João Vaz (“Dance Sessions”) e a radialista Mónica Mendes. O jazz tem lugar de destaque com o show semanal do clube londrino Ronnie Scott’s ou também The Jazz Pit. Outro português que aparece, focado na música africana, é Francisco Abadia, com a sua “A Hora da Kianda”. A navegação, por géneros ou autor,  é muito simples e intuitiva e abrange praticamente todos os géneros musicais. Na área dos talk shows pode encontrar podcasts sobre economia, política, tecnologia. É um mundo a descobrir - uma fascinante forma de ir seguindo o que se passa no mundo - na música e na palavra. E cada um pode fazer upload dos seus próprios programas ou das suas playlists. Toda a gente pode ter um programa de rádio!

 

DIFERENÇAS DE DEGUSTAÇÃO - Setúbal é uma bela terra para comer bom peixe. Basta ir ao histórico Mercado do Livramento e percorrer as bancas do pescado para se perceber que ali a frescura não é um conceito abstracto. Nos últimos anos têm-se multiplicado os restaurantes, nomeadamente na zona da Avenida José Mourinho, em frente à doca, onde se sucedem casas de pasto umas atrás das outras. No entanto este não é, na minha opinião, o melhor local para se ir. Um dos restaurantes mais afamados dessa zona é O Miguel - mas à semelhança de outros vizinhos seus, é infelizmente irregular. O serviço oscila entre o distraído e o apressado e embora o peixe seja fresco (era o que mais faltava se ali não fosse…) a confecção deixa a desejar e nalguns petiscos - como os percebes - nem sempre a coisa corre da melhor forma. Por isso ultimamente a minha preferência vai para a Marisqueira e restaurante Zagaia Mar. O chef João Soares abastece-se na lota e no já citado Mercado do Livramento e os clientes podem ver o que está disponível num balcão perto da sala interior. O serviço é atento, a lista de vinhos é simpática e tem bom senso nos preços, há uma aposta em vinhos verdes pouco conhecidos como o Alvarinho Quintas de Melgaço. Recentemente provou-se com agrado um robalo com puré de aipo, bivalves e ovo a baixa temperatura, assim como um belíssimo polvo assado e uma dourada grelhada acompanhada de legumes salteados. Para começar vieram umas ameijoas à Bulhão Pato a respeitar a tradição e umas ostras que estavam superiores. Se Agosto é a prova dos nove de como corre a vida num restaurante, e se um fim de semana de Agosto é prova ainda maior, o Zagaia passou com distinção.  Avenida Luísa Todi, 510, Setúbal. Tel. 937 172 255, encerra à terça-feira,

 

DIXIT - Se a CP fosse privada o BE e o PCP já andavam a distribuir panfletos nas estações e a exigir a nacionalização - Adolfo Mesquita Nunes

GOSTO - A Toca da Raposa, em Lisboa, já aqui louvaminhada. foi incluída na lista dos melhores novos bares da Europa, onde ocupa o segundo lugar.

 

NÃO GOSTO - Num relatório sobre o estado da circulação de comboios na europa apenas a Roménia e a Bulgária têm pior classificação que Portugal.

 

BACK TO BASICS - Quando há muita gente que concorda comigo sinto que provavelmente estou errado - Oscar Wilde

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