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ELE HÁ QUEM SE APROVEITE...

por falcao, em 11.06.21

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FESTA É FESTA - A mais recente novela da TVI, que tem dado dores de cabeça à concorrência, chama-se “Festa É Festa” e é vista regularmente por mais de um milhão de espectadores. Mas não é de novelas que se trata e sim do que se vem passando no país após ano e meio de pandemia, confinamentos variados e uma acentuada quebra da economia portuguesa. É com este pano de fundo que os cidadãos assistem ao que se passa. Para começar com festa recordo que o Ministro da Economia, que tutela o sector do Turismo, achou por bem há algumas semanas ir passear num cruzeiro no Douro oferecido por Mário Ferreira, com quem o Estado tem um contencioso, devido à recusa de autorização em zona protegida da construção de um novo hotel no Douro, o local do passeio. O Ministro conviveu sorridente com o patrão da TVI e com a estridente Cristina Ferreira e ocorreu-me que um Ministro podia ter mais recato. Há dias soube-se também que a deputada do PS Ana Paula Vitorino foi a escolhida pelo ministro Pedro Nuno dos Santos para presidir à Autoridade da Mobilidade e dos Transportes com um salário superior a 12 mil euros mensais. Por falar em Pedro Nuno dos Santos soube-se esta semana que um seu ex-chefe de gabinete e ex-deputado do PS, Nuno Costa Araújo, entretanto colocado como Presidente dos portos do Douro,  Leixões e Viana do Castelo, é suspeito de corrupção numa investigação sobre ajustes directos de várias autarquias nos últimos cinco anos à empresa de que Araújo era sócio-gerente. Para continuar a festa Pedro Adão e Silva, ex Secretário Nacional do PS durante a liderança de Ferro Rodrigues e entretanto tornado comentador político em defesa do Partido Socialista, foi nomeado responsável pelas comemorações do 50º aniversário do 25 de Abril, durante cinco anos, seis meses e 24 dias, ou seja mais de dois anos depois de realizadas as comemorações. Assim a celebração dos 50 anos do êxito do Movimento dos Capitães, que restaurou a liberdade, o pluralismo político e que acabou com uma ditadura, foram entregues a um propagandista partidário. Se isto tudo não é uma festança, digam-me lá que nome lhe hei-de colocar?

 

SEMANADA - Três quartos da queda do PIB deve-se ao colapso do turismo; onze meses depois de aprovada a bazuca de fundos europeus continua no papel e durante a presidência portuguesa da comunidade a coisa não avançou; os espanhóis propuseram uma ligação de comboio directa entre Madrid e Lisboa via Badajoz e Elvas mas a CP prefere a ligação com passagem por Salamanca, Vilar Formoso e Guarda; a líder da bancada parlamentar do PS pediu sensatez ao ministro Pedro Nuno Santos por causa dos comentários do governante sobre a Ryanair; apesar de ter anunciado lucros o Novo Banco pretende receber mais 600 milhões de euros do Estado; a taxa de sucesso da Autoridade Tributária nos conflitos com os contribuintes caíu para o valor mais baixo dos últimos dez anos; o apoio do Estado para pagar rendas de casa a pessoas em dificuldades durante a pandemia chegou apenas a 769 famílias e com atrasos consideráveis, quer na resposta aos pedidos, quer no recebimento de apoios; o secretário-geral do PSD, José Silvano vai a julgamento por faltas na Assembleia da República acusado de falsificação da presença em plenário; o PAN anunciou querer chegar ao Governo em 2023; o novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henrique Araújo, no discurso de posse do cargo, acusou a classe política de inércia; argumentando falta de diálogo democrático, demitiram-se 7 dos 17 peritos nomeados pelo Governo para elaborarem a estratégia portuguesa para uma nova Política Agrícola Comum europeia; numa análise preliminar do instituto Bruegel, Portugal é dos países onde a componente ambiental tem menos peso nas escolhas dos projectos a executar com o dinheiro do fundo de recuperação europeu; durante a pandemia a produção de cannabis em casa para autoconsumo disparou devido à escassez de produto no mercado.

 

O ARCO DA VELHA - Numa só semana o Ministério dos Negócios Estrangeiros desentendeu-se com o Reino Unido e Espanha no contexto da pandemia segundo o velho princípio “depois de casa roubada, trancas à porta”.

 

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ARTE POLÍTICA - Ai Weiwei, cuja exposição “Rapture” inaugurou em Lisboa no início de Junho, é considerado um dos maiores artistas contemporâneos e, no ano passado, o site Artnews considerou-o o artista plástico mais popular e influente no mundo. Esta sua exposição é a maior que já fez na Europa e ocupa cerca de 4 mil metros quadrados na Cordoaria Nacional, onde apresenta 85 peças, até finais de Novembro. A exposição foi produzida expressamente para ser apresentada em Portugal por uma empresa privada que nos últimos anos tem trabalhado esta área, a Everything Is New, de Álvaro Covões. Assumir posições políticas  faz parte da  personalidade de Ai Wewei há muito - ele tem 63 anos, é filho de um poeta que foi amigo de Mao Zedong (e que foi perseguido no período da Revolução Cultural Chinesa). Weiwei tem sempre vivido combinando criativamente a política com a fantasia,  as suas obras são enormes, simbólicas, como as bicicletas que estão à entrada da Cordoaria ou as peças que criou para a Documenta na Alemanha ou para a Tate em Londres. Exilado desde 2015, Ai Weiwei vive hoje em dia em Portugal, em Montemor-O-Novo, depois de ter passado pelo Reino Unido e pela Alemanha. Apesar de ter sido um dos co-autores do emblemático estádio “Ninho de Pássaro” que marcou os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, Ai Weiwei foi detido em 2009 e em 2011 e viu o seu estúdio destruído pelas autoridades. Esta exposição, que junta peças de instituições oficiais e colecções particulares de diversos países, coloca também em confronto, pela primeira vez, algumas obras que nunca tinham sido montadas em simultâneo, além de quatro peças já produzidas em Portugal, com recurso a materiais como a cortiça ou o mármore alentejano. O brasileiro Marcelo Dantas é o curador desta exposição que mostra como o trabalho de Ai Weiwei reflecte sobre a privacidade, o controlo da informação, a desproporção entre o Estado, os poderes das corporações e a autonomia e liberdade dos indivíduos.

 

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UM EDITOR ESPIÃO - “Dr. B” é um fascinante livro sobre as atribulações de um editor literário. Passado em Estocolmo no clima da ascensão do nazismo  e da II Guerra Mundial, o livro tem como protagonista um jornalista judeu refugiado em Estocolmo, que se tornaria um «espião duplo», simultaneamente colaborador dos Serviços Secretos britânicos e alemães. Funcionário da célebre editora S. Fischer Verlag – a mesma que continuou a publicar na Suécia autores proibidos pelos nazis como Thomas Mann e Stefan Zweig – Immanuel Birnbaum entrou nos meandros do conflito que assolava a Europa. O autor de “Dr. B”, Daniel Birnbaum, é um prestigiado curador artístico e dirigiu as edições da Bienal de Veneza em 2003 e 2009, tendo sido director do Museu de Arte Moderna de Estocolmo. O protagonista desta aventura entre a literatura e a espionagem é um antepassado de Daniel Birnbaum e o título , “Dr. B.” evoca a assinatura que o editor-espião utilizava para assinar os seus artigos na imprensa, outras das suas actividades. Na década de 1940 Estocolmo era uma cidade de encruzilhada, entre emigrantes, expatriados, diplomatas e espiões. O livro é baseado em factos reais, reconstruído a partir de uma caixa de cartão repleta de documentos encontrada no sótão de uma casa de família. Uma narrativa cativante sobre a literatura e o cruzamento do jornalismo com a espionagem.

 

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BOWIE CANTA BREL - “The Width of a Circle” é o título de um duplo CD que reúne uma colecção de 21 temas de David Bowie, em versões até agora inéditas. As gravações foram efetuadas em 1970 e 1971, incluindo singles nunca agrupados em álbum, gravações feitas em programas da BBC, música composta para uma peça de teatro feita para televisão onde o próprio Bowie era actor, além de misturas inéditas de Tony Visconti, um dos músicos com quem Bowie mais trabalhou. Quatro canções mostram Bowie acompanhado pelos Hype, a sua banda da época, que incluía Tony Visconti no baixo e Mick Ronson na guitarra. O primeiro disco reproduz uma sessão de gravação feita para o “Sunday Show” de John Peel na BBC, gravado e emitido em Fevereiro de 1970. O primeiro tema é uma versão de “Amsterdam”, um original de Jacques Brel, em que Bowie toca guitarra acústica. Outras da curiosidades desta edição é uma versão de “I’m Waiting For The Man” dos Velvet Underground e dois inéditos de Bowie a solo, só voz e guitarra, em “Columbine” e “The Mirror”, temas compostos para a já referida peça teatral, intitulada “The Looking Glass Murder/ Pierrot in Turquoise”. Esta edição surge 50 anos depois do lançamento original de “The Man Who Sold The World”. Podem ouvir  “The Width of a Circle” nas plataformas de streaming.

 

A SARDINHA RECOMENDA-SE - Inaugurei esta semana a época das sardinhas, no Último Porto, um restaurante junto à Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos. A sua grelha nunca desilude e o peixe é variado e de primeira e nesta altura do ano as sardinhas ali servidas têm fama. A grelha aliás é um dos argumentos deste restaurante. O objectivo da escolha do restaurante era ir ao peixe da época e confesso que, estando nós ainda na primeira quinzena de Junho, tinha as minhas dúvidas sobre as sardinhas. Mas reconheço que o receio era injustificado. Vieram de bom porte, já avantajadas, saborosas, com boa textura. Até parece que as sardinhas este ano ganharam com o confinamento - talvez tenham andado menos barcos no mar e elas puderam crescer sossegadas. Estavam muito boas. Como acompanhamento o Último Porto é tradicionalista: batatas cozidas, salada de tomate, alface, cebola e pimento assado. Na mesa, estão azeitonas temperadas e, quando as sardinhas chegam, vem pão cortado às fatias grossas para que elas possam deixar a sua saborosa marca. Uma vez desaparecidas as sardinhas, o pão serve de petisco final. O Último Porto tem uma grande esplanada e duas salas e só está aberto ao almoço, escusa de pensar em ir lá jantar. Como a casa enche com frequência, o melhor é marcar. Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, telefone 213979498.

 

DIXIT - “Não gosto de viver num país que em nome do ‘interesse nacional’ trata pior os seus que os forasteiros de passagem” - Miguel Sousa Tavares

 

BACK TO BASICS - “Não estou aqui para agradar a ninguém com as respostas que dou” - William Shakespeare

 

 







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SEM REI NEM ROQUE

por falcao, em 04.06.21

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O BURACO - O estado da nação resume-se a isto: a autoridade do Estado é um buraco. O próprio secretário de estado do desporto, face ao buraco, classificou como um sucesso a final da Champions no Porto. Indiferente às críticas de vários sectores políticos, sociais e desportivos,  o governante regozijou-se pelo comportamento dos que vieram assistir no estádio à final e que não cumpriram as regras em vigor no país sobre cuidados a ter em matéria de saúde pública em tempo de pandemia. Ficamos a saber que há um membro do Governo que entende que há dois critérios de aplicação da Lei e que se resume a isto: aos estrangeiros de visita tolera-se aquilo que aos portugueses é proibido. O próprio Primeiro Ministro foi suave na sua análise do sucedido e evitou comentar as críticas do Presidente da República à forma como os acontecimentos se desenrolaram e fugiu de falar  de um possível cenário de eventuais consequências políticas, que, a existirem, teriam que atingir o seu fiel escudeiro Cabrita. O que sucedeu foi grave, não só porque revela duas bitolas - até na forma de actuar das autoridades, que evitaram confrontos e terão mesmo recebido indicação para não dispersarem os visitantes britânicos se isso implicasse o uso da força. A saúde pública não pode ser uma moeda de troca na atracção do turismo. Não há lógica para permitir que quem nos visita possa estar sem máscara, sem distanciamento social, a consumir bebidas alcoólicas na via pública. Como salientou o médico Filipe Froes, o que correu mal foi o que era da responsabilidade das entidades oficiais. Não era má ideia começar a averiguar responsabilidades de quem deixa acontecer o impensável - porque não podemos ser todos a voltar a pagar os erros de alguns.

 

SEMANADA - A  Anacom recebeu 140 mil reclamações sobre serviços de comunicações entre 19 de Março de 2020 e 18 de Março de 2021; desde 2013 as rendas em Lisboa duplicaram e a capital portuguesa é agora a oitava mais cara da Europa; no último ano foram encerrados mais de 100 balcões bancários; 41 jogadores portugueses marcaram 175 golos nos principais campeonatos europeus durante esta época; entre Janeiro e Abril as multas por infracções ao código da estrada aumentaram 10% e atingiram o total de 30,7 milhões de euros, apesar das medidas da redução da circulação viária devido ao confinamento; mais de metade de arguidos em processos de cibercrime não são condenados; a escassez de materiais de construção provocou um aumento de preços que ultrapassa os 35%; as exportações de madeira e mobiliário para fora da Europa cresceram 24%; um estudo da OCDE indica que a reposição do PIB per capita em Portugal para os níveis pré-pandemia deverá demorar cerca de três anos, o que nos coloca como o terceiro país mais lento na recuperação entre os países mais desenvolvidos analisados; 90% das respostas ao Censos 2021 foram feitas pela internet; foi solicitada à Provedora de Justiça a averiguação de eventual inconstitucionalidade das isenções fiscais a entidades e pessoas envolvidas na final da Champions no Porto, isenções aprovadas pelo PS com uma abstenção maioritária e os votos contra apenas do Bloco e do PAN.

 

ARCO DA VELHA - O Ministério da Administração Interna autorizou que a GNR comprasse uma lancha que custou 8,5 milhões de euros e que duplica as funções de vigilância da Marinha portuguesa, sem disso dar conhecimento àquele ramo das Forças Armadas.

 

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DESCOBRIR - O catálogo digital da História das Exposições de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian recolhe toda a programação desenvolvida entre os anos de 1957 e de 2016, com dados sobre as 1343 exposições realizadas nesses 59 anos e com o acesso a cerca de 30.000 documentos associados, de convites a cartazes passando por  cartas, folhetos, catálogos, textos de imprensa, recensões e fotografias. São ainda incluídas cerca de duas mil publicações e o registo de 20 000 entidades associadas (entre artistas, curadores, emprestadores e organizações parceiras). Este enorme projecto foi desenvolvido entre 2014 e 2020 numa parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto de História da Arte (IHA), da Universidade NOVA de Lisboa, Sob a direção-geral de Helena de Freitas, que apresentou a ideia, e posteriormente de Leonor Nazaré, ambas pela Gulbenkian e de Raquel Henriques da Silva, pelo IHA. Dezena e meia de investigadores e cerca de 30 estudantes de diferentes instituições colaboraram também no desenvolvimento deste projecto digital. O website permite realizar pesquisas variadas. Será possível, por exemplo, ter um conhecimento aprofundado da regularidade com que um artista ou uma determinada nacionalidade foram representados, da frequência com que uma obra da Coleção Gulbenkian foi exposta ou da recorrência com que um tema ou tipologia foram abordados na história da Fundação. É uma base documental única na História de Arte em Portugal acessível a todos em www.gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes

 

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O SELO DE CHAFES  - O destaque desta semana vai para a escultura em ferro “Início Permanente” criada por Rui Chafes propositadamente para o espaço da Galeria da Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101, 3º). Segundo Rui Chafes «Início Permanente é o tempo em suspensão onde a vida e a não-vida, a morte e a não-morte, encontram a sua origem, o seu ponto de partida. » A escultura em ferro está colocada no chão de madeira, na penumbra do espaço da galeria e remete para a forma feminina da origem do mundo (na imagem). Rui Chafes acredita que “a origem da arte foi a tensão entre o sagrado e o profano e que devemos saber qual o nosso destino na terra”. Há uma intenção de recolhimento na forma como a peça é apresentada, levando quem a vê a procurar o seu significado. A Galeria da Casa A. Molder é um projecto da artista Adriana Molder, que recuperou a zona de exposições da mais antiga casa de filatelia do país, criada em 1943 por August Molder. A exposição está patente até 25 de Junho, aberta ao público durante a semana, no horário da tarde da Loja, das 15h30 às 19h, e aos fins-de-semana e Feriados por marcação. Outra sugestão: um novo projecto imobiliário apresentou-se na semana passada através de uma exposição, “New Era For Humanity” no Marvila Art District, num edifício de cinco andares do início da Rua Fernando Palha, que vai ser reabilitado como parte da reconversão de todo um quarteirão onde em tempos existiram armazéns e oficinas. Na exposição estão representados 27 artistas de Portugal, Angola, Nigéria, Itália, Bélgica, São Tomé e Príncipe, África do Sul, Reino Unido, Moçambique e França. A exposição pode ser visitada até 7 de Agosto.

 

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BLUES DO MISSISSIPI - Os Black Keys fizeram em 2020 uma das derradeiras digressões nos Estados Unidos, antes do início da pandemia e do confinamento. Estavam a divulgar aquele que era então o seu novo álbum, “Let’s Rock”, após uma ausência de cinco anos das edições discográficas. Depois veio o confinamento e durante os meses de inatividade forçada dos concertos - que foram sempre uma base da actividade do grupo. E durante o confinamento este duo de músicos do Ohio dedicou-se à sua paixão - os blues do delta do Mississipi, a origem da sua produção musical. Dan Auerbach na voz e guitarra e Patrick Carney na bateria e produção constituem  os Black Keys. O duo com mais dois músicos convidados estiveram em estúdio, em Nashville, durante dez horas ao longo de dois dias e gravaram o seu décimo álbum e o repertório escolhido baseou-se em versões de temas de blues e rock que tinham aprendido quando estavam a começar a tocar. Assim nasceu este novo álbum, “Delta Kream”, acima de tudo uma homenagem a um dos expoentes dos blues do delta do Mississipi, Junior Kimbrough, que teve algum êxito no início dos anos 90 e que foi a inspiração directa de Auerbach e Carney. Nos discos dos Black Keys há várias versões de temas originais de Kimbrough e neste “Delta Kream” metade dos 12 temas são da sua autoria e dois foram compostos por outro bluesman, R.L Burnside. No disco há outra presença a evocar Kimbrough - o baixista escolhido pelos Black Keys, Eric Deaton, era um dos músicos que acompanhava regularmente o bluesman e para a slide guitar foi chamado Kenny Brown, uma lenda dos Mississipi Hill Country blues. Por curiosidade, uma das primeiras gravações dos Black Keys foi um original de Kimbrough, “Do The Rump”, que aparece de novo, numa nova versão, neste “Delta Kream”. Já agora, o tema inicial do álbum é “Crawling Kingsnake”, um original de John Lee Hooker, outra das suas referências. Se gostam de blues vão a correr ouvir a este disco a uma das plataformas de streaming.

 

CACHORRINHOS - Em 2017 nasceu no Porto a casa The Dog, dedicada aos cachorros quentes. A receita era simples: baguetes longas e finas, com salsicha e linguiça fresca, queijo que derrete quando vai à prensa quente, o pão um pouco tostado, salpicado no final com um fio de um molho levemente picante. Os amantes de sensações fortes podem pedir o molho mais puxado mas a receita standard já é magnífica. Os cachorrinhos vêm num prato comprido cortados em pedaços e acompanham com uma batatas fritas aos palitos finos feitas na hora. Como era de esperar a cerveja é a bebida de eleição no local, obviamente uma marca nortenha. The Dog tornou-se rapidamente um caso de sucesso na Rua 5 de Outubro, no Porto, com vendas diárias que por vezes ultrapassavam as 400 unidades. Além dos cachorrinho, que é a especialidade da casa, há várias variedades de pregos no pão, com carne da vazia,  um prego no prato servido com batata frita, queijo e fiambre e também um pica-pau que inclui a carne da vazia, linguiça e salsicha fresca, tudo aos pedaços e convenientemente temperado. Para emoções fortes há uma sanduíche de presunto com ovo estrelado no meio. The Dog abriu há poucas semanas em Lisboa, na Avenida Marquês de Tomar 25 B. O balcão, logo na entrada, tem duas dezenas de lugares, ao fundo há uma esplanada que pode acolher umas 30 pessoas e há ainda a possibilidade de encomendar e levar para casa. A equipa que dirige este prolongamento lisboeta veio do Porto, assim como a matéria prima para garantir que não há diferenças entre os dois restaurantes. O resultado é um petisco que pode ser viciante.

 

DIXIT - “Com a “Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital” o Estado prepara-se para pagar o funcionamento de uma rede infernal de delação, supervisão e vigilância (....) Salazar não faria melhor” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Nunca ensino os meus alunos. Limito-me a criar as condições para que eles possam aprender” - Albert Einstein.








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TEME- SE O PIOR

por falcao, em 28.05.21

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A DIREITA  -  Aqui há uns anos a esquerda portuguesa reformulou-se e o Bloco foi o grande obreiro desse movimento. Inicialmente à esquerda do PCP, acabou por se alojar entre PS e PC e foi habilidosamente alargando esse espaço. Pegou em novas bandeiras de acordo com os tempos, trouxe um léxico diferente para a política e novos protagonistas. Foi o Bloco, mais que o PS, que dinamizou o motor da geringonça e perceber isso foi a arte de António Costa. E foi o Bloco quem mais se aproveitou, explorando a necessidade de António Costa, e, sobretudo, alimentando o flirt que tem mantido com a ala esquerda do PS, visível no namoro descarado a Pedro Nuno dos Santos. Enquanto o Bloco conseguiu ser um iman à esquerda, à direita campeia a desagregação. O PSD perdeu identidade e posicionamento, como oposição tem sido um falhanço sob a batuta de Rio, da mesma maneira que o CDS, que em dado momento cresceu, entrou numa fase minguante de onde não parece ser capaz de sair. As novas forças surgidas desse lado do espectro político levantam em doses iguais curiosidade e repulsa nos eleitorados que não são de esquerda. O centro direita desapareceu, vencido pela direita e o populismo, e as sondagens mostram que assim o futuro sorri a Costa. Como se viu no encontro do MEL - Movimento Europa e Liberdade - há demasiados galos para esta capoeira. E não há nenhum discurso mobilizador a não ser aquele que menos interessa, baseado na demagogia e no ódio. À direita falta um líder, um político agregador, visionário, apostado no progresso e não no regresso. Teme-se o pior.

 

SEMANADA - A Agência Portuguesa do Ambiente não aprovou a construção de uma ponte pedonal de madeira para acesso à praia de Cabanas, hoje em dia apenas assegurado por barcos com motores poluentes; começaram as obras de construção de um hotel com 128 quartos e sete pisos acima do solo no antigo Convento das Mónicas, local inscrito na Carta Municipal do Património, numa Zona Especial de Protecção, projecto aprovado quando Manuel Salgado era vereador do urbanismo da Câmara de Lisboa, em despacho da sua autoria, sem discussão em reunião de Câmara; o programa de compras de dívida e outros activos engordaram o balanço do Banco de Portugal que vale agora 192 mil milhões de euros, quase tanto como o PIB anual do país; em 2020, ano em que Mário Centeno iniciou o seu mandato de Governador do Banco de Portugal, as compras líquidas de obrigações do tesouro português mais do que quadriplicaram; o presidente do Tribunal de Contas foi chamado ao Parlamento na sequêncvia de indícios de que a secretaria-geral do Ministério da Administração Interna, sob a tutela de Eduardo Cabrita, prestou alegações falsas ao TC sobre pagamentos a empresas que prestam serviços à rede de comunicações de emergência, o SIRESP, cujo contrato  tem 47 anexos, dez deles secretos; a EMEL encomendou em 2019 um estudo sobre o estacionamento em Lisboa que ainda não tem data para ser divulgado; o Estado passou a deter 97,8% da TAP e o Tribunal de Justiça da União Europeia considerou ilegal a ajuda de 1200 milhoes de euros do Estado à companhia aérea no ano passado; a PSP sugeriu alterações ao conteúdo e diálogos de uma série de televisão e, face à recusa dos autores em fazer essas alterações, bloqueou o aluguer de fardas para as filmagens, cuja entrega chegou a estar agendada.

 

ARCO DA VELHA - Um homem que arrastou a mulher pelo pescoço na rua foi absolvido porque uma juíza do tribunal de Paredes considerou não haver crueldade suficiente para o acto ser considerado violência doméstica.

 

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ARTE INTERROGATIVA  - Cristina Ataíde mostra  até 26 de Junho, na Galeria Diferença, obras feitas em diversas épocas. A série de esculturas agora expostas data de 1994, mas os desenhos, quer os que estão colocados na parede, quer os que integram o livro de artista que acaba por ser uma peça marcante da exposição, são de 2021. E existe um desenho em papel chinês, suspenso, intitulado “Yes I Am!” , feito entre 2015 e 2021. Boa parte das esculturas integravam a exposição “Oposições” que Cristina Ataíde fez em 1994 na Galeria Graça Fonseca. Três décadas depois as esculturas aparecem de forma diferente em “Who Am I? Who Are You?”, com curadoria de João Silvério, um título que, segundo a artista,  relaciona a duplicidade e a diferença com a proximidade e a cumplicidade. O livro de artista é baseado num questionário, que os visitantes da Galeria são convidados a preencher, cada página de questionário acompanhada por um desenho inspirado nas imagens dos testes de Rorschach. Esta é uma exposição de peças marcantes, que, entre si, mostram os eixos maiores do trabalho da artista e a sua permanente evolução ao longo do tempo. Outro destaque: inserida no conjunto de eventos ligados à comemoração do centenário do nascimento de Ernesto de Sousa, um dos mais importantes artistas portugueses do século XX, criador de uma obra multidisciplinar e responsável pela divulgação da obra de muitos outros artistas, o Museu Nacional de Arte Contemporânea apresenta  “Meu Amigo - Obras e Documentos da Colecção Ernesto de Sousa”, que estará patente até 26 de Setembro proporcionando o cruzamento entre documentação e obras de arte que foram oferecidas a Ernesto de Sousa, ao longo da vida, por alguns dos mais relevantes artistas nacionais e internacionais, entre as décadas de 40 e 80 do século XX. São cerca de 124 obras, de 62 artistas: pintura, desenho, gravura, escultura, fotografia, objetos e documentação diversa, do neo-realismo à década de 80, de Almada Negreiros a Wolf Vostell passando por Joseph Beuys.

 

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OUTROS TEMPOS -  “O Homem Do Casaco Vermelho” é o novo romance de Julian Barnes, agora editado em Portugal. Tudo começa no verão de 1885 quando três cavalheiros franceses chegam a Londres: um era príncipe, outro era conde e o terceiro era um plebeu com apelido italiano. Este último, Samuel Pozzi, médico da melhor sociedade, pioneiro da ginecologia moderna e livre-pensador, com uma vida privada conturbada, era acompanhado pelo conde Robert de Montesquiou e pelo Príncipe de Polignac. O título do livro vem do retrato de Pozzi, pintado em 1881 por John Singer Sargent e que está na capa da obra. Nenhum era muito conhecido fora do círculo social parisiense, mas cada um deles alcançaria um certo grau de notoriedade e contentamento nos anos seguintes. “O Homem do Casaco Vermelho” é um esclarecedor e bem documentado retrato da Belle Époque e de um homem à frente do seu tempo. Pozzi era nas palavras da Princesa do Mónaco “irritantemente bonito” e aproveitava-se bem disso. Ao longo da narrativa surgem personagens como Sarah Bernhardt, com quem Pozzi teve um caso. Esta nova obra de Julian Barnes defende que foi a frutuosa e duradoura troca de ideias através do Canal da Mancha que criou a grandeza da Europa. Como The Guardian escreveu, “Barnes liberta-nos da superficialidade do presente e lembra-nos que sabemos sempre menos do que pensamos que sabemos”. Segundo o próprio autor, ao escrever este livro ele mergulhou na sociedade parisiense da Belle Époque, “distante, decadente, desordenada, violenta, narcisista e neurótica”,  em parte como sinal da desilusão que para ele foi o que classifica como a saída masoquista da Grã Bretanha da União Europeia. 

 

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REVISÃO DA MATÉRIA DADA -  Chrissie Hynde, a carismática voz e líder dos Pretenders, é uma fã de Dylan. Em 1984 esteve ao seu lado em Wembley a cantar “It’s All Over Now, Baby Blue” e em 91 fez uma versão de “I Shall Be Released” que o próprio Dylan elogiou. Pois bem, durante o confinamento Hynde decidiu pegar em canções menos conhecidas de Dylan, juntou nove delas, e gravou um álbum com uma produção simples e crua, com a ajuda do guitarrista James Walbourne, a que deu o título de “Standing In The Doorway”. A quase totalidade das canções escolhidas de Dylan vem da primeira metade dos anos 80, como a muito politicamente incorrecta “Sweetheart Like You”, que hoje facilmente levará o rótulo de manifesto sexista. Da mesma época há uma canção de namoro, “Don’t Fall Apart On Me Tonight”, completamente transformada do original que Dylan gravou, inspirado no reggae. Outros pontos altos são a interpretação de Hynde para “You’re A Big Girl Now" onde a voz e a guitarra acústica trazem, sozinhas, outra dimensão à versão original. “Standing In The Doorway”, a faixa título, saída do álbum de 1997 “Time Out Of Mind” tem também uma nova dimensão, entre o piano, a guitarra e a voz. E é a voz de Hynde, fora do registo original de Dylan, que torna este disco tão interessante - e que faz sobressair talvez a melhor de todas as versões aqui incluídas, “Blind Willie McTell”, do álbum “Infidels”, onde o piano, a harmónica, a guitarra acústica e o bandolim de Walbourne se encaixam na intensidade colocada por Chrissie Hynde na forma de cantar.

 

COZINHADO PACIENTE - O arroz negro não é fácil de cozinhar e, sobretudo, requer muita paciência. Convém lavá-lo primeiro em água corrente, e depois deixar escorrer. Eu ponho um pouco de azeite no fundo do tacho, com gengibre em lâminas finas, que salteio ligeiramente antes de adicionar o arroz. Não faz parte da receita original, mas é este o ponto em que deito um pouco de vinho branco de boa qualidade e depois mexo a deixar evaporar. Entretanto junto duas folhas de louro, sal a gosto e adiciono água, cerca do dobro da quantidade de arroz. Dou uma mexidela e tapo. O arroz negro precisa de cozer muito tempo, para o meu gosto não menos de uma hora. Tem que ser vigiado, ver se é preciso adicionar água, usar lume muito brando. Originário da China, este arroz é conhecido naquele país como o arroz proibido, por o seu uso estar reservado para os imperadores. Não o deixem cru - coisa que acontece se não tiver mesmo uma cozedura demorada. Os aromas e o sabor delicado só se libertam quando ele está bem cozido. Uma vez chegado ao ponto ideal coloco os troços de tentáculos de polvo, entretanto bem cozidos, envolvo-os bem no arroz, tempero com pimenta preta a gosto, moída na altura, desligo o fogão e tapo, deixando a repousar uns cinco minutos. No final, quando vai para  a mesa, polvilho com cebolinho. Se as duas cozeduras estiverem ok - a do arroz e a do polvo - sentirão uma explosão de sabores e poderão surpreender os convidados. Como dizem cá em casa, é coisa muito instagramável.

 

DIXIT - “Definir-se como anti-qualquer coisa é sempre uma redução do espírito e uma armadilha de pensamento” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “A consistência é o derradeiro refúgio daqueles que não têm imaginação” - Oscar Wilde







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O MISTÉRIO DO BANCO

por falcao, em 21.05.21

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FRUTA APODRECIDA NO PARLAMENTO - O romance da resolução do BES e do nascimento do Novo Banco já teria dado uma série de televisão nos Estados Unidos. Por aqui temos que nos contentar com as conversas na Comissão de Inquérito do Parlamento. Esta semana foi fértil em desenvolvimentos com os depoimentos do ex-Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, de um actual Vice-Governador, Luís Máximo dos Santos,  do Actual Governador Mário Centeno, do actual CEO do Banco, António Ramalho, e, noutro contexto também parlamentar, do Ministro Pedro Nuno dos Santos. Começo por este último que admitiu que o PS fez mal grande parte das privatizações. Já Mário Centeno, agora Governador do Banco de Portugal, passou seis horas no Parlamento a gabar-se do bem que tinha feito na questão do Novo Banco enquanto foi Ministro das Finanças. Pertence-lhe um dos momentos mais divertidos destes dias, ao dizer que defendeu a venda à Lone Star porque “foi preciso fazer um bom banco”. E, mais adiante, disse, com o seu habitual sorriso, que nunca escondeu que havia riscos na venda: “Em abril de 2017 vim ao Parlamento e utilizei 24 vezes nessa audição a palavra risco”. Carlos Costas, ex-Governador do Banco de Portugal na altura da venda, foi mais terra a terra, comparando a operação realizada à “venda de um cabaz de fruta que está parcialmente apodrecida”. Meros pormenores quando se olha para o relatório da Deloitte e se vê que os 20 grandes devedores do Novo Banco são responsáveis por 54% das perdas totais de activos.  Face a isto já nem admira que a actual administração da instituição, nomeada pela Lone Star, tenha seguido o princípio de auto-aumentar os bónus de gestão apesar dos grandes prejuízos registados - aquela curiosa situação em que se premeia a capacidade de obter maus resultados. 

 

SEMANADA - Nos primeiros quatro meses do ano o trabalho suplementar de médicos e enfermeiros aumentou 73% face a igual período do ano passado; o número de contratos a prazo no sector da saúde subiu 90,5% no primeiro trimestre deste ano quando comparado com o período homólogo do ano passado; em Abril havia 865 mil cidadãos sem médico atribuído nos cuidados de saúde primários, dos quais cerca de 620 mil viviam na região de Lisboa; As Forças Armadas devem 53 milhões de euros a fornecedores de saúde; o Tribunal de Contas concluiu que as Parcerias Público-Privadas  hospitalares “foram genericamente mais eficientes do que a média dos hospitais de gestão pública, com custos operacionais por doente mais baixos e com padrões de qualidade mais exigentes”; no final de março existiam mais de 90 mil trabalhadores com contratos  a termo no Estado, o número mais elevado de sempre; o número de funcionários públicos no final de Março era de 725.775, um aumento de 3% em relação ao ano anterior, o que significa que os trabalhadores da função pública representam cerca de 14% da população activa; em 10 anos a população residente reduziu 3% e a ativa reduziu 6%; os ciberataques em Portugal aumentaram 79% em 2020 em comparação com 2019.

 

ARCO DA VELHA - Segundo o Governo há 541 imóveis do património público que estão ao abandono e sem serem utilizados, mas diversos autarcas afirmam que a lista está incompleta.

 

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AS COLÓNIAS - O passado colonial português é motivo de polémicas e interpretações, mas faz parte da História que é fundamental conhecer para nos situarmos no tempo e para podermos olhar para o presente de forma lúcida. O 60º aniversário do início da guerra colonial é o pretexto para duas exposições neste momento patentes em Lisboa, que ajudam a perceber como o tema pode ser abordado. Comecemos por “Herança”, de Ana Vidigal e Nuno Nunes Ferreira, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (na imagem). Através  de arquivos pessoais, os dois artistas revisitam as suas memórias familiares, a partir das heranças recebidas dos pais, que tomaram parte nesse momento da história que colocou Portugal num conflito armado com outros países, então suas colónias. São exercícios bem diferentes  os de Ana Vidigal e de Nuno Nunes Ferreira - mas complementam-se: Vidigal reinterpretando a realidade da época, Nunes Ferreira metodicamente documentando a vida e a morte nesse tempo. A outra exposição  está no Padrão dos Descobrimentos e é baseada no testemunho fotográfico do colonialismo português - “Visões do Império”, com coordenação de Miguel Bandeira Jerónimo e Joana Pontes. Outras sugestões da semana: no Centro Português de Fotografia a Bienal de Fotografia do Porto sob o lema”O que Acontece Com o Mundo, Acontece Connosco” e no Centro de Artes Visuais- CAV, em Coimbra, até 4 de Junho,  pode ver as exposições “No More Racing in Circles – Just Pacing Within Lines of a Rectangle” de Tris Vonna-Michell e “A Temperança e o Louco” de Catarina de Oliveira.

 

PH06-ERNESTO-DE-SOUSA-CAPA.jpgAS IMAGENS DE ERNESTO - A colecção Ph. é uma iniciativa da Imprensa Nacional e a sua direcção editorial está bem entregue a Cláudio Garrudo, que já lançou livros dedicados a Jorge Molder, Paulo Nozolino, Helena Almeida, Fernando Lemos, José M. Rodrigues e, agora, Ernesto de Sousa. Esta é a única colecção regular dedicada à obra de autores portugueses que trabalham com a fotografia como meio de expressão artística - e é um bom exemplo do que deve ser o serviço público desempenhado por uma instituição como a Imprensa Nacional, que cria condições para que esta colecção e estas edições possam surgir. Este novo volume de Ernesto de Sousa, que surge agora em sintonia com um conjunto de iniciativas que assinala o seu centenário, é uma boa introdução ao seu trabalho. Ernesto de Sousa foi um artista com diversas actividades paralelas, todas elas centradas em descobrir e mostrar e em trazer para Portugal as tendências que se desenhavam por toda a Europa nos anos 70 e ainda 80, quando a sua actividade explodiu. Ele foi curador, crítico e ensaísta, passou pela  fotografia, o cinema e o teatro. Mas no caso da fotografia, que é o eixo da colecção Ph., Ernesto de Sousa deixou uma obra marcante, documentando, vendo e interpretando. Usando a imagem pura e a imagem alterada, combinando grafismo com fotografia, mostrando a realidade mas também reinterpretando-a. Como Emília Tavares escreve no texto de abertura do livro, Ernesto de Sousa abriu” horizontes ainda hoje actuantes sobre o prodigioso significado da imagem na cultura contemporânea”.

 

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MELODIAS DE SEMPRE - Na primavera de 1970, tinha eu 16 anos, caíu-me em cima um disco com canções como “Helpless”  e “Our House”. Fazia parte de um álbum então recém editado, um LP, vinil antes de haver qualquer outra coisa. Na capa, quatro nomes: Crosby, Still, Nash & Young. Os três primeiros tinham feito um ano antes um outro álbum que foi uma pedrada no charco. Vinham dos Byrds (David Crosby), dos Hollies  (Graham Nash) e dos Buffalo Springfield (Stephen Stills e Neil Young). Para mim os Buffalo Springfield eram o grande segredo escondido, o génio misterioso do rock californiano dessa época. Os quatro músicos eram quatro talentos explosivos e de dificil coexistência num único projecto. Young, para mim, era genial - e após todos estes anos continua a ser. Está na minha galeria pessoal de deuses musicais. Os quatro juntos fizeram este único disco, tiveram digressões difíceis, concertos cancelados, histórias de tudo o que possam imaginar. Mas o meu primeiro exemplar de  "Déjà Vu”, com os seus dez temas, cinco em cada lado do LP, gastou-se de tanto ser ouvido. “Teach Your Children", “Almost Cut My Hair”, “Helpless”, “Déjà Vu”, "Woodstock" e "Our House” são canções únicas e marcantes. Nunca me abandonam. Dei agora por mim a perceber que se passaram 50 anos sobre a edição original do álbum. Tenho-o em todos os formatos - em vinil na edição original, copiado para cassette que andava no carro e no walkman, em CD quando apareceu o formato e, agora, em ficheiro digital. Acreditem que continuo a emocionar-me quando ouço estas canções - e não é por saudosismo: é pelas palavras cantadas, pela música tocada, pela explosão de talento que saía daquele grupo. Foram cerca de seis meses de gravação, pensa-se que à volta de 800 horas de estúdio. Agora, para assinalar o 50º aniversário, uma nova edição acrescenta 38 registos inéditos, provenientes das sessões de gravação, com várias versões de cada tema. São cinco LPs de vinil ou quatro CD’s com um LP, além de um livro. 50 anos, meio século, é muito tempo. “Wordlessly watching, he waits by the window and wonders/ At the empty place inside” - isto , “Helpless”, diz tudo, não é?

 

O ORIENTE É SELVAGEM - Andava já há algum tempo para experimentar o Sauvage, um restaurante que fica no Campo Pequeno e que se apresenta como um ponto de encontro de várias gastronomias, europeias e de outras procedências. Sala simpática, serviço eficiente e simpático, espaço com medidas de segurança. Era noite de quinta-feira e a casa estava mais que bem composta. Começo por constatar que éramos provavelmente os clientes mais velhos deste restaurante, que claramente está nas preferências dos mais novos que não querem apenas fast food. A ementa é curiosa e vai dos risottos a pratos orientais, passando por uma fusão tão estranha quanto bem sucedida: um nigiri de pato em que uma fatia do peito do dito é apresentada saborosamente fumada por cima do arroz. A lista tem sugestões portuguesas, que vão do arroz de lingueirão à empada de perdiz, mas o desejo de aventura levou-nos para outras paragens. Além do já referido nigiri de pato como entrada a escolha recaíu num nasigoreng de legumes e num Pad Thai de camarão - portanto uma escolha a lembrar a Indonésia e a Tailândia. O vinho a copo, um branco Ribeiro Santo, do Dão, foi sugestão da casa e fez bom par com os pratos escolhidos. O Sauvage fica na Rua António Serpa 9, quase a chegar à Avenida da República e no site sauvage.pt pode fazer a reserva. Já que estamos em maré oriental esta semana voltei por acaso e com satisfação ao Sumaya, na Rua da Escola Politécnica 40, que já tinha experimentado antes do confinamento deste ano. As suas propostas libanesas continuam a agradar.

 

DIXIT - “Gouveia e Melo demonstra que a captação do sistema político-administrativo pelos aparelhos partidários não apenas promove incompetentes, como afasta talento. Espero que se não esqueça a lição e que concluam que as Forças Armadas servem para alguma coisa” - José Miguel Júdice

 

BACK TO BASICS - “Ser curioso desenvolve a vontade de aprender e querer aprender é sempre mais importante que querer ter razão” -  Jony Ive, que durante anos dirigiu o design dos produtos da Apple.







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A PAISAGEM NACIONAL - O Ministro Eduardo Cabrita deu em fomentar ocupações de propriedades privadas, persistiu na sua teima, mais uma vez viu-se ultrapassado pelos acontecimentos e ficou envolvido em várias contradições, mas António Costa garantiu no Parlamento que tem um excelente Ministro da Administração Interna. Pelo seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa demorou cerca de uma semana a afirmar que é preciso tirar consequências políticas da situação em Odemira, considerando que existem problemas na inclusão de imigrantes. A propósito, toda a gente percebe a desgraça do que se passa em Odemira menos Cláudia Pereira, Secretária de Estado para Integração e as Migrações  que há um ano afirmou que “Odemira é um exemplo de integração de migrantes” mas que nas últimas semanas não deu sinal de vida. Mas a coisa não fica por aqui: Constança Urbana de Sousa, a antecessora de Cabrita na Administração Interna, que ficou conhecida pelo seu triste e cruel desempenho nos grandes incêndios de 2017, atirou-se com sanha às declarações de João Cravinho, que em 2018 tinha apresentado um plano de combate à corrupção, esquecido pelo governo de então, dirigido por José Sócrates. O mais curioso é que passados estes anos, e com o PS no poder, depois de todas as juras recentes de combate à corrupção, soube-se agora que este Governo de António Costa vai excluir do novo regime geral de prevenção da corrupção os gabinetes dos principais órgãos políticos e de todos os órgãos de soberania. Estamos pois conversados sobre a realidade dos factos. Nada que espante num Governo onde um dos seus membros, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, usou as palavras “estrume” e “asqueroso” para classificar um programa de informação da RTP que já colocou em causa a transparência das suas decisões na atribuição das concessões de exploração de lítio, sob a sua tutela.


SEMANADA - O impacto da pandemia no mundo do trabalho é quatro vezes maior do que aconteceu com a crise financeira de 2008; mais de dois milhões de portugueses, quase 60% dos trabalhadores por conta de outrem, têm uma remuneração mensal inferior a 800 euros; em dois anos o Estado recusou metade das candidaturas a cuidador informal; segundo um estudo da Universidade do Minho os professores consideram que o ensino à distância agravou as desigualdades entre alunos face às suas aprendizagens; segundo a Marktest, durante a pandemia e a alteração nos processos de trabalho e de ensino, verificou-se um grande aumento de utilização de auscultadores, que agora são utilizados por 4,7 milhões de portugueses;  desde o início da pandemia 55,8% dos migrantes viu os seus rendimentos mensais diminuídos, 53% sofreu um impacto negativo na sua atividade profissional e 32,4% estão em situação de desemprego; em 2020, durante a crise e a pandemia,  a carga fiscal em Portugal aumentou  para os 34,8% do PIB, um novo recorde; António José Seguro, ex-líder do PS, criticou os líderes europeus, incluindo António Costa, de “duplicidade” e de “matar a UE”; o juiz conselheiro José Manuel Quelhas disse no Parlamento que o Tribunal de Contas não tem dúvidas de que os financiamentos do Fundo de Resolução no Novo Banco são “dinheiro público” e “oneram os contribuintes”.

ARCO DA VELHA - Em 2017, Evgeny Kazarez assessorou o Banco de Portugal na venda do Novo Banco à Lone Star. Um ano depois, foi para o grupo americano, onde hoje é administrador. No Parlamento disse que não via conflito de interesses na situação.

 

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UM NOVO CALAPEZ - “Debaixo de Cada Cor” é o título escolhido por Pedro Calapez para o conjunto de novas obras que apresenta na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71) até 31 de Julho. São duas dezenas de obras onde Calapez explora várias técnicas, algumas delas pouco usuais na sua obra, ao mesmo tempo que regressa ao trabalho a óleo sobre tela e, noutros casos, explora possibilidades de desenho. De diferentes formatos, as obras têm valores que vão dos 975€ aos 22.755€, e as que aqui se reproduzem estão indicadas a 4.950€. Ao mesmo tempo, noutra sala da galeria está “Desarrumada”, uma nova exposição de Rita Gaspar Vieira. Outras sugestões: na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16), Alexandre Farto, Aka Vhils, apresenta até 12 de Junho a sua  exposição, “Fenestra”, uma instalação de vídeo onde fragmentos de diversas cidades são projectados nas quatro paredes da sala da galeria; na Galeria Francisco Fino (rua Capitão Leitão 76), uma exposição de fotografia de José Pedro Cortes, “Corpo Capital”, mostra até 24 de Julho uma selecção de trabalhos recentes em torno do corpo humano, da natureza e da arquitectura; na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) está a primeira exposição de Carlos Alexandre Rodrigues, “Shadows As Memories”, na qual o artista, a partir de uma fábrica de cerâmica, ficciona e encena peças que evocam um tribunal onde se esgrimem argumentos. Finalmente na Covilhã abriu a 14 de maio a primeira edição do Diafragma - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, que em quatro espaços da cidade apresenta até 6 de Junho trabalhos de duas dezenas de autores de seis países. Entre as presenças portuguesas destaque para Duarte Belo e Luísa Ferreira.

 

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O DETECTIVE DOS AMORES -  O caso é este: no início de 1989, em Havana, um detective cubano, Mario Conde, é acordado pelo seu chefe para investigar o desaparecimento de Rafael Morin, dirigente de uma empresa estatal, homem de carreira brilhante e futuro promissor, desaparecido desde as celebrações do Ano Novo. Coincidência: Morin fora colega de escola de Conde e a mulher do desaparecido, Tamara, fazia parte da sua lista de amores passados. A Porto Editora começou agora a editar “Quarteto de Havana”, que agrupa como o nome indica, várias histórias do detective Mario Conde, a personagem criada por Leonardo Padura. Neste primeiro volume estão “Um Passado Perfeito”, a investigação do desaparecimento de Rafael Morin, e também “Ventos de Quaresma”, o relato de como Mario Conde foi chamado para resolver o estranho homicídio de uma exemplar professora de Química do Pré-universitário que, anos antes, também fez parte da sua lista de casos sentimentais. Ao mesmo tempo, Conde conhece Karina, uma amante de jazz por quem se perde de amores. E assim, Mario Conde vive dias onde a investigação se cruza com prazeres diversos, alguns vícios, o tráfico de influências, a fraude e a lembrança dos tempos de juventude. O jornal “The Independent” sublinhou que o conjunto de romances de Leonardo Padura sobre o detective cubano Mario Conde mudou a literatura policial latino-americana. O autor nasceu em Havana em 1955, estudou Filologia, trabalhou como guionista, jornalista e crítico, mas foram as aventuras de Mario Conde que lhe trouxeram fama e proveito.

 

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CANÇÕES DE AMOR - Volta e meia, mas é raro, uma voz de que nunca tinha ouvido falar cai-me em cima como um raio de luz. Quando essa voz é acompanhada por arranjos inesperados e inteligentes, executados por músicos virtuosos mas com sentimento (uma raridade - o mundo está cheio de gente que toca bem mas não põe alma no assunto) tudo fica ainda mais fascinante. “The Bitter Earth”, o novo álbum de Veronica Swift, é exemplar. Ela tem 27 anos, vem de uma família musical - o pai pianista de jazz e a mãe cantora. Começou a gravar e a cantar em público cedo - vai com cinco álbuns gravados em nome próprio e participou como convidada em mais uma dezena. Já recebeu prémios e reconhecimento e fez digressões com o trio de Benny Green e com Wynton Marsalis. Tem uma capacidade vocal invulgar e nos 13 temas que integram este novo disco há sobejas provas disso mesmo. Em “This Bitter Earth” ela volta ao cancioneiro norte-americano e aborda-o de forma inesperada como é bem prova a faixa título, que é também a primeira do disco. "This Bitter Earth” foi um dos grandes êxitos de Dinah Washington em 1960. Mas logo a seguir, em “How Lovely To Be A Woman” ela mostra a sua enorme versatilidade - e alguma ironia nestes tempos da era me too. Uma das suas interpretações mais poderosas neste disco é “He Hit Me (And It Felt Like A Kiss)”, que ela encara como uma canção de amor, uma balada a que a guitarra de Armand Hirsch empresta um lado de balada, longe do original das Crystals. O pianista que acompanha Veronica Swift é Emmet Cohen, e o seu papel é decisivo em toda a estrutura musical do álbum. Ouçam este “This Bitter Earth",  disponível nas plataformas de streaming.

 

PETISCO RÁPIDO MULTI-REGIONAL- Hoje volto às receitas - não sem antes confirmar que no regresso à cidade comprovei que o Salsa & Coentros continua em grande forma e com a qualidade de sempre. Aquelas empadinhas, os ovos mexidos com túberas… é melhor não dizer mais nada. Vão lá experimentar. Mas passemos então à receita. É simples e faz-se rápido: puré de batata doce com filetes de atum de conserva em azeite virgem. Mas tem truque - que já direi à frente. Primeiro, convém que a batata doce seja de boa qualidade, de preferência com a polpa alaranjada. A ideia é uma batata doce média por pessoa. Primeiro descasca-se e parte-se às rodelas grossas e coze-se em água abundante, quando se picar bem com o garfo tira-se da água, escorre-se bem, e usando um garfo ou um esmagador, vai-se desfazendo a batata até ficar numa boa consistência - sem ser demasiado triturada. Nessa altura eu adiciono ao tacho com a batata já esmada uma colher de sopa bem medida de manteiga e misturo tudo muito bem em lume brando. No fim um pouco de pimenta preta moída de fresco e misturo bem tudo de novo. Emprato ao lado do atum (já digo qual) e polvilho o puré com cebolinho. E agora o atum: uma lata por pessoa, do açoreano Santa Catarina, variedade filete de atum temperado com gengibre (na Mercearia Açoreana existe esta marca em várias variedades). Vão ver que é uma bela refeição, rápida e cheia de sabores. Acompanha um encruzado do Dão. E remata com uns morangos de Palmela. Prato regional: batata doce de Aljezur, atum dos Açores, vinho do Dão e fruta de Palmela. 

DIXIT - “Como seria bom que a actual direcção do PSD, de vez em quando, pelo menos, apresentasse trabalho digno dese nome. Mas deve ser pedir muito” - Paula Teixeira da Cruz.

BACK TO BASICS - A educação é aquilo que fica depois de se esquecer o que foi ensinado  - B. F. Skinner, psicólogo e filósofo norte-americano.






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PARA QUE SERVE UMA COLIGAÇÃO? Creio que a ideia de uma coligação pré-eleitoral é garantir que os partidos que a integram tragam os seus melhores elementos para a lista de candidatos, contribuindo para que o objectivo de vitória nas urnas possa ser alcançado. Seria pois de esperar que o CDS, integrante da coligação que apoia a candidatura de Carlos Moedas à Câmara Municipal de Lisboa, trouxesse para o núcleo duro da contenda eleitoral aquele que foi o mais destacado vereador da oposição ao longo dos mandatos de Medina - João Gonçalves Pereira. Sem querer menorizar os evidentes méritos de Assunção Cristas nas últimas autárquicas de Lisboa, o resultado que ela obteve deveu-se muito ao conhecimento que João Gonçalves Pereira tem da cidade e dos seus problemas. Acontece no entanto que Gonçalves Pereira não é da facção de quem agora manda no CDS, Francisco Rodrigues dos Santos. E, por isso mesmo, o actual líder do CDS já deu sinais públicos de que não queria Gonçalves Pereira envolvido na próxima e dura disputa autárquica na capital. Eu tenho uma grande dificuldade em perceber estas coisas: porque é que os partidos políticos, em vez de se basearem em guerras internas, não se baseiam no reconhecimento do mérito e eficácia dos seus quadros? Fazem destas e depois queixam-se de que as pessoas não confiam nos políticos. As perguntas às quais o actual líder do CDS deve responder, são estas: qual a ideia de participar numa coligação se não se faz tudo para alcançar a vitória? Francisco Rodrigues dos Santos quer mesmo derrotar Medina, ou prefere ajudá-lo?

 

SEMANADA - Diogo Lacerda Machado, amigo e conselheiro do Primeiro-Ministro, é consultor de uma empresa britânica que tem um projecto de 3,5 mil milhões de euros em Sines, curiosamente anunciado com pompa por António Costa no passado dia 23 de Abril; uma sondagem recente indica que dois terços dos portugueses não confiam na justiça nem nos juízes; a meta estabelecida pelo Primeiro Ministro para entregar 26 mil casas a famílias carenciadas em Abril de 2024 vai derrapar mais de dois anos para o terceiro trimestre de 2026; o número de imigrantes em Portugal é agora cerca de 660 mil, mais setenta mil do que antes da pandemia; mais de 700 mil famílias deixaram de pagar os créditos no ano passado; a compra de automóveis está 40% abaixo do nível pré-covid; a adesão a contas bancárias de custo reduzido disparou 25% em 2020; segundo a Marktest no último ano duplicou o uso de apps em telemóvel para encomendar refeições; o Tribunal de Contas encontrou deficiências nos mecanismos de controlo dos pagamentos efectuados ao Novo Banco pelo Fundo de Resolução, na dependência do Banco de Portugal; a gestão do Novo Banco pretende receber um prémio de 1,9 milhões de euros depois de no exercício de 2020 ter registado um prejuízo de 1329 milhões; a dívida pública portuguesa alcançou novo máximo no final de Março, atingindo 275,3 mil milhões de euros; uma sondagem recente indica que só 10% dos portugueses consideram que vivem em plena democracia; em Portugal cerca de metade dos alunos de 15 anos não sabe distinguir factos de opiniões revela um relatório da OCDE.

 

ARCO DA VELHA - O Governo escondeu durante vários dias 1738 páginas de informações detalhadas sobre reformas e investimentos previstos no Plano de Resiliência, com datas e objectivos, entregues em Bruxelas, mas que só foram divulgadas em Lisboa após pressão pública.

 

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UM LONGO MISTÉRIO - “Tinta Simpática”, o novo livro de Patrick Mondiano agora editado em Portugal, foi publicado originalmente em 2019 e relata a investigação feita por um detective, Jean Eyben, sobre o desaparecimento de Noelle Lefebvre. A investigação parte de um cartão de identificação junto dos correios, que permitiria a Noelle levantar correspondência que lhe fosse endereçada para a posta restante. Um cartão com uma fotografia desvanecida, um nome e um carimbo dos correios eram a única pista que tinha. O jovem detective, então no início da carreira, falou com a porteira do prédio, foi verificar se existia correspondência, sentou-se no bar da vizinhança onde ela costumava ir. Zero pistas em todos os lugares. Ninguém a havia visto recentemente. Patrick Modiano, 75 anos, nasceu perto de Paris, escreveu para cinema, ganhou diversos prémios literários em França, incluindo o Goncourt, e em 2014 recebeu o Nobel da Literatura. Neste “Tinta Simpática” o autor mantém os leitores suspensos num mistério contínuo: uma mulher desapareceu, volatilizou-se em Paris, num caso que, mesmo 30 anos depois, continua a assombrar o detetive contratado para a encontrar. E o seu insucesso e frustração fazem-nos compreender até que ponto somos prisioneiros do nosso passado.

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DIZER POESIA - Marianne Faithfull é uma sobrevivente e não apenas musicalmente. Há uns anos lutou contra um cancro e, na primavera de 2020, esteve em estado crítico durante três semanas, nos cuidados intensivos, com Covid-19. Quando contraíu o vírus estava a começar a trabalhar no seu novo projecto com o produtor dos Radiohead e a colaboração de Warren Ellis, dos Bad Seeds. Trata-se de uma viagem pelos poemas românticos do século XIX que a marcaram, ainda estudante, no início dos anos 60, antes da sua viagem alucinante pelos bastidores e palcos do rock. O projecto deu num álbum, agora editado, “She Walks In Beauty”. Marianne Faithfull lê obras de Byron, Keats, Shelley, Tennyson, Wordsworth e Hood, ao todo onze poemas, com um pano de fundo musical delicadamente construído por Warren Ellis e a participação ocasional de nomes como Nick Cave, Brian Eno e Vincent Ségal. A sua voz é forte, a interpretação dos poemas é contida, mas marcante, com uma entoação envolvente. As paisagens sonoras desenhadas por Ellis nunca se sobrepõem à voz de Marianne Faithfull e procuram enquadrar e destacar a interpretação que ela faz dos poemas. A forma perturbante como ela diz “Ozymandias”, de Shelley, mostra a sua enorme capacidade. E vale a pena ver o vídeo disponível no YouTube para o poema de Lord Byron que dá o nome ao álbum, “She Walks In Beauty”. Os dois anteriores discos de Faithfull, “Give My Love To London” de 2014 e “Negative Capability” de 2018 já a tinham mostrado em grande forma e agora esta inesperada viagem pela poesia romântica, aos 74 anos, é um exemplo de como o talento pode ultrapassar todas as dificuldades. Disponível em CD e streaming e ainda numa edição especial em Vinil que inclui um pequeno livro com todos os poemas, à venda na FNAC.

 

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O QUE SE PODE VER - No Porto, na Galeria Nuno Centeno, pode ser vista até 5 de Junho uma exposição colectiva, Os Coniventes (na imagem), com curadoria de Pedro de Llano e obras de Alisa Heil, André Sousa, Ángela de la Cruz, Blake Rayne, Carolina Pimenta, David Lamelas, Dalila Gonçalves, Fernando José Pereira, Gabriel Lima, Gretta Sarfaty, Josephine Pryde, Mauro Cerqueira, Merlin Carpenter, Silvestre Pestana e Stephan Dillemuth. A Galeria Nuno Centeno fica na Rua da Alegria 598. Outras sugestões: na Galeria das Salgadeiras pode ver “Shadows As Memories”, de Carlos Alexandre Rodrigues. Em Lisboa, na Biblioteca Nacional, até 30 de Julho está “O Atlas Suzanne Daveau” que agrupa fotografias que ela efectuou ao longo da sua carreira e que registaram as sociedades rurais ocidentais e sociedades tribais de África. O Atlas Suzanne Daveau agrupa-se em quatro áreas - Rural, Humanidade,  Cidade e Natureza. A exposição resulta de uma pesquisa desenvolvida ao longo de um ano por Duarte Belo e Madalena Vidigal sobre o trabalho da geógrafa que foi casada com Orlando Ribeiro, o autor de obras de referência da geografia portuguesa. E entretanto eis que surge o primeiro NFT português - um Non Fungible Token, uma forma de arte digital. Leonel Moura, um artista plástico que tem explorado recursos tecnológicos, colocou à venda por 40.000 Euros na plataforma OpenSea um quadrado negro com 100 milhões de pixéis, criado por um algoritmo de Inteligência Artificial.

 

O JAPÃO NAS AVENIDAS NOVAS - Inaugurado já há alguns anos, o Go Juu começou por ser um clube privado de sócios que partilhavam o gosto pelo sushi, clientes fiéis de Mestre Takashi Yoshitake, o japonês que verdadeiramente mostrou aos portugueses a melhor tradição da cozinha do seu país. O Aya foi o restaurante que criou e onde formou vários sushimen que seguiram os seus ensinamentos. Alguns desses sushimen, herdeiros da tradição e do saber de Yoshitake san, ajudaram a criar a boa reputação do Go Juu. Aos poucos o conceito de clube privado evoluíu e hoje o restaurante é aberto ao público e a procura é grande. A qualidade e frescura do peixe utilizado é garantida e é uma das bases do sucesso. A sala dispõe de uma dezena de mesas, uma pequena sala reservada e um balcão que fora da pandemia era o ponto de excelência para os clientes se sentarem e assistirem ao trabalho dos sushimen enquanto faziam a sua refeição. A lista é abundante, com algumas especialidades que variam conforme o peixe que chega todos os dias. Num jantar recente, nas entradas distinguiu-se uma tempura de pequenos camarões do Algarve e houve oportunidade de provar uma das especialidades mais procuradas, um toro tataki, uma delícia feita a partir da melhor parte do atum. A sopa miso, servida com um misto de sushi e sashimi, merece também nota positiva. O vinho que acompanhou a refeição foi Um Quinta da Giesta, do Dão, e a presença da casta encruzado combinou muito bem com os pratos escolhidos. Pena que insistam em manter o vinho fora da mesa e que nem sempre haja a atenção suficiente para que ele não falte.  De resto o Go Juu continua a ser um dos melhores locais de Lisboa para quem gosta de sushi. Rua Marquês Sá da Bandeira 46A, telefone 218 280 704.

 

DIXIT - “Nunca me movi no sentido de ser famoso” - Julião Sarmento

 

BACK TO BASICS - Se o conhecimento pode causar problemas, não é certamente através da ignorância que os podemos resolver - Isaac Asimov

 




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A MONOCULTURA - Sempre me disseram que nenhuma organização deve depender de um único cliente e de uma única oferta. Que uma empresa que tem a maior parte da sua facturação proveniente de uma só entidade corre um sério risco se por qualquer razão o cliente deixar de querer os seus serviços. Este parece ser um princípio básico de gestão: alargar a carteira de clientes, diversificar, não deixar de procurar novas oportunidades. Pois foi exatamente neste erro, salta agora à vista, que Lisboa caíu. Vá-se lá saber porquê alguém convenceu quem manda que o turismo era a solução para todos os problemas da cidade. Trazia receitas, fomentava o consumo na hotelaria, na restauração e de uma forma geral no comércio da cidade. O orçamento da autarquia cresceu graças às taxas sobre o turismo e os turistas, mas apesar de tudo Lisboa continuava barata para os visitantes estrangeiros, o nosso clima era o nosso petróleo, e plataformas como o airbnb ajudaram a transformar tudo de forma muito rápida. Tal como as chinchilas na década de 60 e os croissant de chocolate na década de 70, o turismo era agora a nova galinha dos ovos de ouro. Mas como todos os galináceos, tem uma vida incerta. Neste caso não acabou no forno, mas caíu vítima da pandemia. Como essa era a grande fonte de receita do município e de facturação da cidade, quando se esvaíu, tudo se complicou. A única lição a tirar é que convém que uma cidade não dependa de uma só actividade. Por isso o futuro de Lisboa passa por criar mais pólos de atracção, não só para turistas estrangeiros, mas que tenha em conta outras possibilidades competitivas que os portugueses podem oferecer. O mal de Medina não esteve só nos imbróglios do urbanismo - que vamos ver se não acabam prescritos - nem no sistemático desprezo pelo conforto dos lisboetas. O grande mal de Medina foi a monocultura. E quem se enganou assim não é a melhor cabeça para mudar a cidade e fazê-la remoçar.

 

SEMANADA -  Até Março os consumidores portugueses gastaram mais 125 milhões de euros em supermercados, um aumento de 5,5% em relação a igual período do ano passado e as bebidas foram o sector com o maior crescimento, de 20,7%; o estudo  "Radar da Reciclagem" revelou que 46,4% dos portugueses afirmam reciclar mais quantidade de resíduos face há um ano e indica um aumento do lixo doméstico durante os períodos de confinamento; 47% é o peso dos impostos na fatura doméstica da electricidade em Portugal, o que significa que é o terceiro valor mais alto na Europa, apenas atrás da Dinamarca e Alemanha; um estudo da Marktest indica que em Portugal, em 2020, existiam cerca de 7,7 milhões de smartphones a serem utilizados, um crescimento de 14% face ao ano anterior; ainda segundo a Marktest cerca de 1,7 milhões de portugueses afirmaram ter ar condicionado, o que significa que mais do que um em cada cinco portugueses reside num lar com este tipo de instalações; o saldo orçamental das Administrações Públicas agravou-se em 2.358 milhões de euros no primeiro trimestre face ao mesmo período do ano passado; o consumo de combustíveis aumentou 24% em Portugal durante o mês de março face ao mês anterior, em consequência do desconfinamento; o Porto de Lisboa já tem anunciadas 308 escalas de cruzeiros para 2022 com um total de 700 mil passageiros; o estudo Vacation Rental indica que mais de metade dos portugueses que estão a planear as férias  prefere viajar dentro do próprio país e 31% planeia viajar para países europeus; o Primeiro Ministro António Costa inaugurou na segunda-feira uma obra ferroviária atrasada e inacabada na ligação entre Viana do Castelo e Valença.

 

ARCO DA VELHA  - No meio do actual debate sobre a corrupção de políticos, o ex-Ministro João Cravinho veio recordar que em 2006 tinha apresentado um plano anti-corrupção recusado “liminarmente” pelo governo da época, chefiado por José Sócrates.

 

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O DESAFIO DOS NOVOS -  A Galeria Módulo tem um trabalho consistente na descoberta e divulgação de novos artistas. Mário Teixeira da Silva, o galerista, admite que lhe dá particular satisfação acompanhar o início da carreira de um artista, algo que classifica de estimulante.  Até 15 de Maio a Módulo expõe o conjunto de obras “Ponto E Vírgula” de Fátima Frade Reis, que inclui guache, aguarelas e gravuras de exemplar único que a artista encara como “retratos, auto-retratos e ficções”. O trabalho baseia-se numa técnica exemplar e rigorosa que serve o que deseja mostrar. O galerista descobriu-a entre os finalistas da escola ARCO, em Lisboa e mostra-a agora na Módulo (Calçada dos Mestres 34, Campolide). Os preços oscilam entre os 220 e os 700 euros e uma grande parte da exposição já está vendida. Outras sugestões: na Fundação Carmona e Costa “É Só Uma Ferida” de Pedro Barateiro . Na Porta 14  (Calçada do Correio Mor), Pedro Calapez apresenta uma nova faceta da sua obra e em Guimarães até 4 de Julho apresenta no Museu da Sociedade Martins Sarmento uma seleção de obras nos últimos oito anos do seu trabalho. E na Galeria de Santa Maria Maior, (Rua da Madalena, 147), Corrêa dos Santos, 87 anos, repórter fotográfico, há 70 anos a percorrer os acontecimentos e as ruas de lisboa, tem uma exposição de vida.

 

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ENTRE GOSPEL E FOLK - Valerie June nasceu em 1982 em Memphis, Tennessee, e cresceu a ouvir folk, blues, muito gospel, soul e country nos seus vários géneros. Publicou agora o seu terceiro álbum, “The Moon And Stars: Prescription for Dreamers”. O disco anterior, “The Order Of Time”, data de 2017 e foi incluído pela revista “Rolling Stone” na lista dos melhores 50 discos desse ano. E exactamente em 2017, numa entrevista, Bob Dylan inclui o nome de Valerie June entre os artistas que ouvia e respeitava. O trabalho de Valerie é indiscutivelmente alicerçado na música popular norte-americana, numa mistura entre blues electrificados e folk tradicional, com toques de country e uma presença marcada de gospel, evidente na sua forma de cantar e fazer arranjos. Neste novo disco, ela é acompanhada pela grande Carla Thomas em “Call Me A Fool”, um clássico instantâneo que é um retrato perfeito daquilo que Valerie June gosta de criar. “The Moon And Stars: Prescription for Dreamers” é um disco marcado pelo sentimento de amor e de perda ao longo das suas 14 faixas, e a crítica tem afirmado que se trata do mais maduro e marcante trabalho - que tem no tema “Within You” o melhor exemplo da sua criatividade e capacidade. “You And I” sintetiza o espírito do álbum: “When the love left just a friendship/ That's when we found our greatest gift”. Ou seja, conseguir olhar para o passado e aproveitar o melhor para seguir em frente. Disponível nas plataformas de streaming.

 

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O LADRÃO SEDUTOR - Maurice Leblanc foi um jornalista e escritor francês que em 1905 criou a figura de Arsène Lupin, apresentado como um elegante cavalheiro ladrão, de monóculo e cartola e que era a sua resposta ao muito inglês Sherlock Holmes. Leblanc estava longe de imaginar que, mais de um século depois de ter escrito as primeiras aventuras de Lupin, o seu personagem se tornaria numa estrela planetária através de uma plataforma de streaming, a Netflix. “Lupin”, a série francesa de 10 episódios estreada em 2021, foi também um êxito em Portugal, fazendo muitos espectadores descobrir os encantos do cavalheiro ladrão nascido na Belle Époque, no século passado, a época que Paris viveu como nenhuma outra capital europeia. Este foi o palco onde se desenrolaram crimes fantásticos e intrigantes da autoria de Arsène Lupin, um ladrão hábil, carismático e sedutor, eternamente perseguido pelo inspector Ganimard. Aproveitando a notoriedade que a Netflix deu ao herói de Maurice Leblanc, a Porto Editora reuniu as primeiras nove aventuras do seu personagem em “Arsène Lupin, Cavalheiro Ladrão”, agora editado. Maurice Leblanc escreveu mais de duas dezenas de aventuras de Lupin e este volume é uma boa introdução ao personagem e aos expedientes a que recorre - para escapar à polícia ou praticar roubos arriscados. Um aventureiro chic. 

 

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O LEITÃO - A raça Bísara é uma das raças autóctones nacionais de suínos. Os seus leitões são alimentados exclusivamente de leite materno até à altura do desmame, que ocorre por volta dos 45 dias. Têm uma carne aveludada, com uma côr rosada e um sabor especial que o distingue de outras raças suínas. O leitão bísaro tem também características morfológicas diferentes dos demais - é mais comprido e delgado, o que permite nomeadamente uma maior penetração dos temperos na carne. Quando se fala de bom leitão assado, é da raça bísara que falamos - mas não é muito frequente encontrá-la, mesmo na zona da Mealhada onde a quantidade nem sempre rima com qualidade. Felizmente a quantidade não é a preocupação do Leitão da Vila, um paraíso para os apreciadores deste petisco, situado em Coina, perto do Barreiro. A casa tem menos de dez anos mas o seu proprietário, António José Rebocho, aprendeu há muito mais tempo o segredo da preparação, do tempero e do forno, para poder servir um leitão assado excepcional. A casa é pequena, menos de duas dezenas de lugares na conjuntura actual, só abre ao almoço e encerra ao Domingo. Faz take away mas em quantidades limitadas para não prejudicar o serviço da sala nem a qualidade do que serve. O leitão chega à mesa muito bem cortado, acompanhado de um competentíssimo molho, um arroz de miúdos e batatas fritas às rodelas, feitas na hora, além da indispensável salada de alface, fresca e viçosa, com rodelas de cebola crua. Antes disso chegam à mesa ou uns rissóis ou umas empadas, obviamente de leitão, e um queijo fresco de ovelha para quem quiser, ao lado de umas azeitonas tem temperadas. A lista de vinhos não é extensa mas tem preciosidades como o Coteis Grande Escolha, um daqueles vinhos intensos, de 16º, proveniente de Moura. No final, se quiser, há um pastel de nata caseiro, que vem quente para mesa, onde a massa e o recheio são perfeitos. A carta aceita reservas mas não vá com pressas que sobretudo ao fim de semana vai ter que esperar uma data disponível. Leitão da Vila, Rua Professora Rita Amaro Duarte, Coina, telefone 935849213.

 

DIXIT - Desde que este executivo assumiu o poder, ficaram por cumprir ou gastar mais de 3,5 mil milhões de euros em investimentos face ao que ficou definido nos vários Orçamentos de Estado” - Luís Reis Ribeiro

 

BACK TO BASICS - “A Liberdade implica responsabilidade e essa é a razão porque a maioria das pessoas a teme” - George Bernard Shaw

(Publicado no Weekend do Jornal de Negócios de 30 de Abril 2021)





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OS PECADOS URBANOS - Luís Afonso, o autor do Bartoon, é um dos grandes humoristas portugueses. Nesta semana, depois de se conhecerem as investigações em curso na Câmara Municipal de Lisboa por suspeitas de corrupção no urbanismo, o comentário do seu personagem central é demolidor: “Que mania de investigar crimes que não existem em Portugal”. Há muitos anos que os serviços de urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa são acusados de lentidão, critérios confusos e diferentes e, em diversas ocasiões, surgiram publicadas informações sobre processos recusados de forma incompreensível ou aprovados com suspeita de favorecimento. Seja como fôr há muito que a actual gestão da autarquia lisboeta devia ter resolvido a situação. Mas não  o fez e as acusações foram crescendo e envolvendo desde vereadores do pelouro a responsáveis e técnicos dos serviços. É uma situação insustentável. Segundo a Polícia Judiciária estão em causa suspeitas de práticas criminosas no exercício de funções públicas. Nos últimos anos, até ao eclodir da pandemia, houve uma explosão descontrolada de hotéis e Alojamentos Locais fazendo disparar o valor dos imóveis e rendas, que obrigou os lisboetas a abandonar a cidade. Este é o retrato da gestão Medina. O actual Presidente da Câmara havia prometido seis mil casas de renda acessível no seu mandato e 20 mil a longo prazo para jovens e famílias de classe média até 2021. Onde estão elas? Por outro lado a obsessão por obras marcou a governação de Medina, com um investimento excessivo e muitas vezes sem sentido em ciclovias, que contrasta com uma fraca aposta nos transportes públicos, os quais se tornaram incapazes de responder à procura durante o último ano de pandemia, com veículos lotados, fazendo perigar a saúde pública. Entre as grandes obras, as da segunda circular estão entre as que agora são alvo de investigação. Tal como os transportes públicos, os prometidos novos centros de saúde e escolas não passaram de promessas. Medina desdobra-se agora em inaugurações, novos prazos e novas promessas. Mas convém não esquecer a forma como ele tornou a cidade num parque de diversões para visitantes e num problema para residentes.



SEMANADA - O número de alunos que frequentam cursos técnicos superiores cresceu 6% neste ano lectivo, há quase 13 mil inscritos em mais de 400 cursos curtos e mais de metade dos que os concluem ingressam depois numa licenciatura; na última década duplicou o número de concelhos só com dois balcões bancários; Portugal tem hoje a mesma extensão de linhas de caminhos de ferro que em 1893; das cerca de três mil freguesias portuguesas apenas 370 são lideradas por mulheres; um inquérito da CIP indica que o Plano de Resiliência não terá significado para 48% das empresas; apesar de todas as declarações sobre a importância da Economia do Mar o PRR, dos cerca de 250 milhões de euros que lhe dedica, dirige cerca de 230 para investimento público, sobrando apenas 20 milhões para a economia real e desenvolvimento das empresas do sector; Março foi o quarto mês consecutivo de aumento dos inscritos nos centros de emprego, que agora totalizam 432 mil e em alguns concelhos o número de desempregados mais que duplicou no espaço de um ano; um estudo divulgado esta semana indica que desde o Natal que a mobilidade dos portugueses nos dias úteis não era tão alta e no último fim de semana a circulação da população aproximou-se do que acontecia no verão do ano passado; entre 16 de Março e 18 de Abril duplicou o número de pessoas que responde “não” ao SMS da vacinação contra o Covid-19;  a Sport TV registou um prejuízo de 5,7 milhões de euros no ano passado, um agravamento de 569% face ao período homólogo; os assinantes de TV paga em Portugal triplicaram em 20 anos e  agora 93% das famílias utilizam o serviço, metade delas através de fibra óptica. 

 

ARCO DA VELHA  - A Assembleia da República aprovou 52 recomendações ao Governo no primeiro ano desta legislatura e metade foram ignoradas, entre elas a requalificação das zonas ardidas em 2017 e a elaboração de um plano para evitar a seca do Tejo.

 

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ESCULTURA & FOTOGRAFIA - As esculturas de Alberto Giacometti e as fotografias de Peter Lindbergh coexistem na exposição “Capturar O Invisível”, que está até 24 de Setembro no Museu da Misericórdia do Porto, no centro histórico da cidade. Bronzes e desenhos de obras de Giacometti, selecionados por Lindbergh, que são apresentados ao lado das suas fotografias (na imagem). Lindbergh, que se tornou conhecido sobretudo pela fotografia de moda, é fascinado desde jovem pelo trabalho e pela personalidade de Alberto Giacometti. Em 2017 Peter Lindbergh foi convidado a fotografar na Fundação Giacometti em Paris,  foi-lhe dada carta branca e fotografou as peças de bronze de Giacometti, tratando-as como modelos. Utilizando close-ups e grandes ampliações Lindbergh revela através da fotografia aspectos das esculturas de Giacometti impossíveis de perceber a olho nu. Em simultâneo, ao associar obras de diferentes períodos nas suas imagens, o fotógrafo estabelece um diálogo através de períodos e estilos. Em Lisboa, Na Biblioteca Nacional pode ser vista até 30 de Julho a exposição “O Atlas Suzanne Daveau” que agrupa fotografias que efectuou ao longo da sua carreira e que registaram as sociedades rurais ocidentais, sociedades tribais de África, paisagens quase intocadas pela mão humana, e também as transformações ocorridas num mundo em progressiva mudança. O Atlas Suzanne Daveau agrupa-se em quatro áreas - Rural, Humanidade,  Cidade e Natureza. A exposição resulta de uma pesquisa desenvolvida ao longo de um ano por Duarte Belo e Madalena Vidigal sobre o trabalho da geógrafa que foi casada com Orlando Ribeiro, o autor de obras de referência da geografia portuguesa.

 

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CRUZAMENTOS SONOROS - “Uneasy” é o quarto registo em trio do pianista Vijay Iyer, entre os seis discos que já gravou  para o catálogo da ECM. Neste disco junta-se a Linda May Han Oh no baixo e Tyshaw Sorey na bateria. Esta nova formação reforça o sentido rítmico da sua música e abre novos caminhos em relação aos seus trabalhos anteriores, apresentando-se agora mais jazzy. Ao longo dos onze temas originais deste “Uneasy” desfilam as interpretações musicais que Vijay Iyer faz do mundo contemporâneo. Destaco temas como “Children On Flint”, “Combat Breathing”, a colaboração em “Touba” com Mike Ladd, um poeta e performer de Boston conhecido pelo seu trabalho no hip-hop e com quem tem colaborado ao longo dos anos. Vale a pena ouvir o seu solo de piano em “Augury” ou a evocação oriental em “Entrustment”. Saliento ainda a sua versão de standards do jazz como “Night And Day'' e “Drummer’s Song”. Vijay Iyer, que dentro em breve completa 50 anos, nasceu nos Estados Unidos filho de emigrantes Tamil vindos da Índia e desde cedo na sua carreira se interessou por cruzar experiências de diversas culturas. Edição ECM disponível em streaming.

 

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POLÉMICA À VISTA - Preparem-se para o choque e a polémica: “Teorias Cínicas” é um livro sobre como activistas académicos reduziram tudo a raça, género e identidade - e os efeitos que isso tem gerado nas sociedades ocidentais. A  ensaísta Helen Pluckrose e o matemático James Lindsay procuram desmontar algumas das teses mais polémicas dos movimentos intelectuais que se apresentam sob a capa da defesa da  justiça social e afirmam que os estudos activistas e radicais, com a sua cultura de guerra e de cancelamento, fazem mais mal do que bem às comunidades minoritárias que juram defender. Os autores analisam teorias  como «O conhecimento é uma construção social», «a ciência e a razão são ferramentas de opressão», «todas as interacções humanas são fontes do exercício opressor do poder”, que, dizem os autores, têm vindo a ser normalizadas e infiltradas na opinião pública por académicos activistas que julgam ter a receita para uma sociedade mais justa e paritária, particularmente no que diz respeito a questões de raça, género, sexo e sexualidade. Segundo os autores estes movimentos assumem uma visão do mundo dogmática «que coloca as mágoas sociais e culturais num lugar de destaque, transformando tudo numa luta política de soma zero à volta de marcadores identitários». Lançado em Agosto de 2020 no Reino Unido, e editado agora em Portugal pela Guerra & Paz,  o livro foi considerado o Ensaio do ano em vários jornais britânicos e  analisa, com racionalidade, a inconsistência das teorias identitárias, que ameaçam a democracia liberal.  Segundo Steven Pinker, professor de psicologia na Universidade de Harvard, «este livro expõe as raízes intelectuais surpreendentemente superficiais dos movimentos que parecem estar a engolir a nossa cultura.»

 

NO REGRESSO AO RESTAURANTE - Se passar pela Mealhada é inevitável que se cruze nos  restaurantes locais com um petisco que se chama iscas de leitão. Trata-se do fígado dos pequenos leitões usados tradicionalmente da Bairrada. As iscas de leitão, cortadas muito finas, têm um sabor e uma textura completamente diferente do fígado dos animais adultos, como é bom de ver. É verdadeiramente um petisco e mesmo algumas pessoas que torcem o nariz às iscas deixam-se conquistar. Na Mealhada são servidas à antiga (marinadas em vinho e alho e fritas em banha), mas também grelhadas ou então de cebolada. Eu prefiro quando são preparadas à antiga e são acompanhadas por boa batata cozida, que se deixa embeber no molho. Não é um petisco muito frequente em Lisboa mas volta e meia aparece n’O Apuradinho (Rua de Campolide 209) e neste regresso aos restaurantes foi um dos primeiros onde me deliciei - e em dose dupla: os seus magníficos pastéis de bacalhau com arroz de tomate num dia e as iscas de leitão com batata noutro. 

 

DIXIT - “Somos dominados por uma elite minúscula que vive em circuito fechado, pejada de conflitos de interesses. Isto é o sistema. Não foi criado por Sócrates” - João Miguel Tavares.

 

BACK TO BASICS - “Se não os conseguir convencer, o melhor é tentar confundi-los” - Harry S. Truman

 




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JUSTIÇA - O GRANDE PROBLEMA DO REGIME

por falcao, em 16.04.21

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O PUTATIVO CANDIDATO - Esta semana ficámos a saber, pela escrita do próprio José Sócrates, que a sua detenção e o processo subsequente foram desencadeados para, afirma convicto, impedir a sua candidatura à Presidência da República e também para criminalizar as políticas dos governos que liderou. Está escrito preto no branco logo nas primeiras linhas de um artigo que publicou na passada segunda-feira. Por um curioso acaso a decisão do juiz Ivo Rosa sobre Sócrates foi tomada na mesma semana em que se completavam dez anos sobre o pedido de ajuda externa. Cito, a este propósito, um desabafo do jurista João Gonçalves na sua página de Facebook: “o regime não apodreceu por obra e graça do Espírito Santo, o verdadeiro. Todavia, por entre prescrições e ajustes de contas entre magistraturas, um tribunal, pela primeira vez nestes mais de sete anos que a coisa leva, pronunciou alguém, com antigas responsabilidades de primeiro-ministro, pelos crimes de branqueamento de capitais e de falsificação de documentos, por causa e apesar dessas funções. Sócrates já tinha sido "removido da história". Não, como ele imagina, pelo PS. É o PS "dele", aliás, que anda pelo Governo e pelo Estado. Sócrates foi removido pela história da bancarrota de 2011, que obrigou o país a um ajustamento pretoriano de três anos, e pelo voto democrático. Pretender que isto tudo aconteceu para "beneficiar a Direita e atingir a Esquerda" é delirante. Ele que experimente "depender do voto do povo", coisa a que lhe repugnava voltar, e vai ver o que lhe acontece.” Desde há dias que Sócrates se apresenta como um mártir da democracia mas todo este caso é a prova provada das fragilidades da justiça em Portugal, das suas falhas, demoras, guerras internas, burocracias e contradições. Muito curiosamente soube-se também por estes dias que a Ministra da Justiça e o Governo  não quiseram incluir na Estratégia Nacional de Combate à Corrupção a proposta da Associação dos Juízes portugueses que eleva à categoria de crime a falta de justificação da origem do património dos titulares de cargos públicos - uma medida que por si só evitaria muita coisa. Quando se duvida da justiça abre-se caminho para duvidar da democracia.

 

SEMANADA - Segundo o CEO da Altice o contrato do sistema de comunicações de segurança SIRESP vai acabar a 30 de Junho, não existindo até à data negociações sobre o seu eventual prolongamento; a entidade que gere as certificações energéticas passou a ser abrangida pelas pelas cativações orçamentais; Portugal teve o terceiro crescimento mais lento da zona euro entre 1999 e 2016; no ano passado o total das remessas de emigrantes desceu 1,3% e as remessas dos emigrantes da Suíça superaram pela primeira vez as da França; no primeiro trimestre deste ano nasceram quase menos três mil bebés; quase 300 mil acidentes rodoviários fizeram na última década cerca de meio milhão de feridos e milhares de mortos; em 2020 o consumo de bacalhau caiu 12,6% devido ao encerramento de restaurantes durante a pandemia;  segundo a Marktest cerca de 33% do poder de compra está concentrado em apenas 12 concelhos e em Lisboa e Porto estão cerca de 12% do total do poder de compra de Portugal Continental; Portugal teve a pior queda comunitária nas vendas a retalho e o volume de negócios nos serviços caíu 20%; António Guterres renovou convite a Ivo Rosa para que este se mantenha numa bolsa de magistrados ligada às Nações Unidas; entre Março de 2020 e Fevereiro deste ano foram registadas mais 685 mil  mortes na União Europeia face à média dos três anos anteriores; um estudo recente indica que mais de metade dos portugueses não tenciona fazer férias este ano.

 

ARCO DA VELHA  - No dia em que se voltou a pagar estacionamento em Lisboa, a aplicação ePark da EMEL teve problemas de funcionamento devido a “sobrecarga pontual inusitada”.

 

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VER AS PAISAGENS - Volta e meia - mas é raro - acontece isto: entramos numa galeria para ver uma nova exposição e ficamos surpreendidos. Uma espécie de choque, como quando nos defrontamos com algo inesperado. Foi o que aconteceu com a inauguração, na semana passada, da nova exposição de Cabrita (Pedro Cabrita Reis) na galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18B). Intitulada "Pinturas de Paisagem” a exposição tem mais de 80 pinturas e uma escultura (na imagem), a grande maioria das obras foram feitas durante 2020. A exposição decorre até 22 de Maio. Cabrita tem um fascínio pela paisagem e esta série de novos trabalhos mostra também o que foi a evolução da sua maneira de ver ao longo do confinamento - com algumas surpresas na forma final encontrada.  Os preços oscilam entre os 10 e os 50 mil euros. Outros destaques: na Galeria Filomena Soares está “Places Of War” de Daniel Nave, um trabalho inspirado pelas destruições e cenários de guerra. E na Appleton está “Revolution My Body no.2”, o início de um ciclo de evocação da obra de Ernesto de Sousa. Fora de Lisboa destaque para “Caminhar Oblíquo”, de Duarte Belo, na Casa da Avenida e no Centro de Arte Contemporânea de Coimbra até 20 de junho de 2021 decorre a segunda exposição do ciclo “De que é feita uma coleção?”. E regressando a Lisboa no MAAT pode descobrir três novas exposições: as onze instalações de “Aquaria - Ou a Ilusão de Um Mar Fechado", as nove propostas de design e arquitectura e arte de  “X Não É Um País Pequeno” e uma grande instalação interactiva “Earth Bits- Sentir o Planeta”. Este conjunto de exposições, todas encomendas internacionais, constituem a primeira programação da responsabilidade de Beatrice Leanza, a nova diretora do MAAT e são a concretização da sua ideia dos novos eixos da programação e utilização do edifício, colocando em primeiro plano questões de  carácter social, ambiental e geopolítico.

 

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O SOM DA SAUDADE - Rhiannon Giddens, americana, e Francesco Turrisi, italiano, têm um percurso musical comum - ela no banjo, ele no acordeão e percussão. Ambos vivem na Irlanda, longe dos respectivos países, e o novo disco tem um título que retrata a emoção e intensidade que passa pelas 12 canções do novo álbum, "They're Calling Me Home”. Este é um disco sobre a saudade, sobre a vida e a sua precariedade. Nasceu e reflecte o espírito que Giddens e Turrisi sentiram durante esta pandemia que mudou o curso das suas vidas de uma forma que não teriam imaginado antes de 2020. As inspirações musicais vão do bluegrass ao folk anglo-saxonico, a canções tradicionais americanas, passando pelas tradições musicais italianas. Pelo meio existem alguns temas originais e é neles que mais se encontram as questões colocadas por estes tempos e pelo confronto com a possibilidade da morte. Há versões fantásticas como a que encerra o disco, uma revisitação de “Amazing Grace”, a forma como abordam “When I Was In My Prime”, um original dos Pentangle, ou ainda a incursão pelo século XVII e Monteverdi em “Si Dolci è’l Tormento “. Logo nos primeiros momentos do disco, na faixa-título “Calling Me Home”, a voz de Giddens destaca-se e transmite uma emoção incontornável. Ao longo de todo o disco o banjo, o acordeão e a percussão que são a imagem de marca da sonoridade de Giddens e Turrisi, evidenciam que a simplicidade é muitas vezes a melhor conselheira e a melhor forma de transmitir emoções. Disponível no Spotify.

 

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POEMAS DE AMOR - A poetisa grega Safo nasceu na segunda metade do século VII a. C., na ilha grega de Lesbos. Educada num meio aristocrático, os fragmentos da sua poesia são o testemunho da primeira autora da literatura europeia e considerados a síntese da perfeição lírica na Antiguidade. Nos seus versos é possível entrever o encantamento e o sofrimento amorosos, uma tensão constante entre juventude e velhice, marcados por um erotismo cuja aura chegou até hoje. Dos onze ou doze mil versos que são atribuídos à poetisa grega, chegaram até nós apenas uma ode completa e cerca de 200 fragmentos. Eugénio de Andrade dedicou muita atenção à obra de Safo e trabalhou as suas traduções. Foram esses 200 fragmentos que serviram de base para "Poemas e Fragmentos”, um olhar sobre a poesia de Safo pela mão de outro poeta. A nova edição retoma a versão revista em 1977 por Eugénio de Andrade  que sobre a obra assinalou no texto de abertura:  "os versos incomparáveis onde a experiência íntima e devastadora da paixão, aliada a um sentimento muito vivo da natureza, é comunicada sem ênfase e sem patetismo, com uma naturalidade até então desconhecida, e que a poesia ocidental não terá voltado a conhecer". E na mesma nota de abertura da obra, Eugénio de Andrade argumenta que a sua tradução é um ato de amor, sendo Safo uma das suas "fascinações mais antigas". Diz ainda Eugénio de Andrade que esperava que "o perfume a violetas das tranças de Safo" não estivesse de todo ausente dos versos por si traduzidos. "Os seus poemas de amor dirigiam-se frontalmente a mulheres", recorda ainda  Eugénio de Andrade, o que terá levado séculos depois a sua poesia, reunida em nove livros, a ser destruída pelos cristãos dos séculos IV e XI.

 

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PERDIZ EM BRIOCHE  - Ao fim de tantos meses a inventar alternativas de refeições que proporcionem alguma variedade a imaginação acaba por se esgotar. Estamos em casa com saudades de nos sentarmos à mesa de um restaurante, por mais modesto que seja, e sermos surpreendidos com um petisco ao qual não nos abalançamos. Esta semana Miguel Esteves Cardoso relatava na sua coluna diária a alegria de encontrar jaquinzinhos com arroz de tomate. Serve isto para dizer que à medida que o confinamento avançou o recurso a coisas simples foi crescendo. Aproveitando estes dias mais temperados e a circunstância de alma gentil me ter oferecido um brioche em pão de forma, uma iguaria de múltiplas utilizações, ocorreu-me que um patê seria a sua companhia perfeita. Com recurso a uma lata de patê de perdiz da marca Do Monte, elaborado em Penha Garcia, saíu um jantar leve e petisqueiro. Este patê de perdiz tem boa consistência e melhor sabor e acompanha muito bem a massa do brioche - como era do dia nem precisou de ser aquecido. Foi acompanhado  pelo tinto Dois Terroirs, de Cortes de Cima, da Vidigueira, com as castas aragonês, syrah e pinot noir. Devo dizer que deu muito boa conta do recado. Patê e vinho vieram desse local de boas surpresas que é a rua Acácio Paiva, em Alvalade - no caso da loja “dois dedos de conserva”. 

 

DIXIT - “Este Juiz ou é ingénuo, ou faz-se de ingénuo, ou vive num mundo à parte. Em qualquer um dos casos um homem assim é um perigo à solta” - Marques Mendes, sobre Ivo Rosa.

 

BACK TO BASICS - “Um juiz é um estudante de direito que faz o enunciado dos seus próprios exames” - H. L. Mencken

 

(A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS)

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LÁ VAI LISBOA - As eleições autárquicas são aquelas onde os eleitores se podem sentir mais próximos dos eleitos e, teoricamente, a governação feita nas autarquias, mais do que qualquer outra, deveria ter em consideração os desejos das pessoas e a existência de uma relação de proximidade. Lisboa é um caso gritante de abuso dos Paços de Concelho, que só não se revela pior graças à acção de várias juntas de freguesia que se preocupam, essas sim, com o bem estar das pessoas que lá vivem. Peguemos por exemplo na modernização administrativa. É inegável que a nível da administração central as coisas estão mais fáceis e fluídas e diminuiu, em muitas áreas, a burocracia. No entanto, numa cidade como Lisboa, é o contrário que acontece: a burocracia parece que aumenta a cada passo e apesar de muitas promessas de Fernando Medina, o licenciamento de obras continua a ser uma lotaria, as demoras são insuportáveis, os critérios não são uniformes. Em algumas áreas os serviços centrais da autarquia servem para sustentar o poder e não para servir os cidadãos - e essa é uma das maiores falhas da gestão de Medina. Mas pior ainda é, com o argumento de contornar a burocracia, a substituição de eleitos por nomeados - concentrando demasiadas funções e decisões em empresas como as Sociedades de Reabilitação Urbana, a EMEL ou a EGEAC, que aumentaram de poderes, competências e falta de controlo durante os últimos anos. Elas não são escrutinadas pelos eleitores, apenas pelos responsáveis políticos que as nomeiam. E hoje em dia poucos são os que não reconhecem que a gestão de Medina trabalhou mais para fazer uma cidade virada para fora e para quem a visita do que para dentro e para quem cá vive. Nada disto - decisões tomadas por não eleitos, aumentos de taxas, decisões contra os interesses locais de munícipes - foi a votos nas anteriores eleições. Mas é bom que, nas próximas autárquicas, quem concorre diga ao que vem.

 

SEMANADA - Três antigos assessores presidenciais, de diferentes quadrantes políticos, criticaram a decisão política de Marcelo Rebelo de Sousa no caso da Lei dos Apoios Sociais; João Ferreira, do PCP, que tem sido o candidato indicado pelo seu partido para vários cargos, está a iniciar a sua sexta campanha eleitoral nos últimos oito anos; segundo associações empresariais do sector do calçado em 2020 houve uma quebra de venda de cinco mil milhões de pares de sapatos a nível mundial; um estudo realizado pelo Sexlab, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, concluíu que quase metade dos inquiridos (47%) fizeram menos sexo durante a pandemia e 40% deram conta de uma diminuição da satisfação sexual durante o mesmo período; em 2020, segundo a APAV, 23 mulheres, 4 homens, 5 crianças e 4 idosos por dia foram vitimas de violência doméstica; desde o início da pandemia, mais de 116 mil pessoas foram já empurradas para o desemprego e o segundo confinamento agravou o desemprego em 78% dos concelhos do país; o Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2020 indica que a ciberespionagem cresceu no ano passado em Portugal - China e Rússia estão entre os países suspeitos; mais de metade (54%) dos portugueses ficaram em casa desde sexta-feira até domingo de Páscoa, uma diminuição em relação a 2020, quando 74% dos portugueses respeitaram o dever de confinamento; por causa da pandemia houve uma diminuição de 21% de transplantes de orgãos em 2020 e mais 24 pessoas morreram no ano passado enquanto aguardavam um transplante. 

 

ARCO DA VELHA   - Vários dias depois do início da venda de testes rápidos em farmácias os formulários para reportar os resultados desses autotestes não estavam disponíveis.

 

FS 1664_Jorge Molder_Sem título (da série Tang

MOLDER EM CINCO SÉRIES DE ÉPOCAS DIFERENTES - Esta foi a semana de abertura de museus e galerias. Até 3 de Outubro poderá ver, no mezanino da Biblioteca de Serralves, uma seleção de fotografias de Jorge Molder feita a partir do vasto conjunto de obras do artista que fazem parte do acervo da Fundação. São apresentadas fotografias das séries “T. V.” (1995), “La Reine vous salue” (2001), “Tangram” (2004/08), “Call for Papers” (2013) e ainda “Zizi” (2013). O trabalho de Molder é conhecido sobretudo pelas suas fotografias a preto e branco, em que o artista se auto fotografa (apenas o rosto, corpo inteiro ou as mãos) vestindo habitualmente fato escuro e camisa branca, ideia que é contrariada pelas duas séries mais recentes. As referências provenientes da literatura, do cinema, da música ou da história da arte, bem como o quotidiano, vida e a sua natureza incerta e imprevisível, são fundamentais na sua obra, na medida em que podem constituir o ponto a partir do qual se pode derivar e construir algo. Como a exposição tem lugar na Biblioteca, a mostra é complementada com um conjunto de referências bibliográficas importantes para o artista disponíveis para consulta e com a apresentação de alguns dos seus livros e catálogos de exposições. A curadoria é de Isabel Braga. A fotografia aqui reproduzida, do cartaz da exposição, é da série “Tangram”. Ainda em Serralves permanece até final de Junho a exposição dedicada ao trabalho de fotografia do cineasta Manoel de Oliveira. E, ainda no Porto e na fotografia, destaque também para a Galeria Salut Au Monde (R. Santos Pousada 620), até 8 de Maio, poderá ser visto o novo trabalho de Tito Mouraz, “Mergulho”, uma coleção de fotografias instantâneas tendo como ponto de partida as paisagens açorianas. 

 

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CANÇÕES AMERICANAS - Durante muito tempo torci o nariz à música country. Era um preconceito, reconheço, descabido ainda por cima. Os programas de rádio que Jaime Fernandes fez durante vários anos espicaçaram-me a curiosidade o suficiente para querer saber mais. Um dos nomes que descobri neste percurso foi o de Loretta Lynn, que agora está a fazer 89 anos e que tem uma carreira de seis décadas. Em 2002 ela lançou um livro com as suas memórias, “Still Woman Enough”, e agora um álbum com o mesmo nome, o seu 50º em estúdio, que revisita a sua carreira através de novas gravações de standards da country music, de êxitos seus e de um original, que dá o título ao álbum e que é a faixa de abertura, na qual é acompanhada por duas convidadas de peso na country  - Reba McEntire e Carrie Underwood. A canção - e o disco - relatam a carreira e a vida de Loretta Lynn desde o Kentucky até se tornar num dos grandes nomes da música popular americana. O álbum é co-produzido por John Carter Cash e pela filha de Loretta, Patsy Lynn Russell e nas suas 13 faixas encontramos interpretações de êxitos da carter Family e de Hank Williams, além de originais seus e êxitos popularizados por outros nomes da country. Os arranjos são simples, deixando espaço à voz de Loretta Lynn, como aliás se pode ver em “I Saw The Light”, um tema de Hank Williams ou em “Keep On The Sunny Side” e “I’ll Be All Smiles Tonight”, da Carter Family, privilegiando instrumentos acústicos. Já na versão do clássico “Honky Tonk Girl”, Loretta faz-se acompanhar por vários músicos, no tema que mais se aproxima do som de Nashville.  “I know how to love, lose, and survive,” canta Lynn em “Still Woman Enough” e dificilmente uma canção poderia resumir melhor uma vida como a sua.

 

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TEORIA POLÍTICA - “Que acontece à política e às suas instituições específicas quando o ambiente tecnológico se altera desta maneira? Que transformações políticas associamos à robotização, à digitalização e à automatização?” - esta é uma das muitas perguntas a que “Uma Teoria da Democracia Complexa”, o novo livro de Daniel Innerarity, vai respondendo, com hipóteses e raciocínios.  Innerarity foi considerado pela revista Le Nouvel Observateur como um dos 25 pensadores mais influentes da atualidade e nesta obra, agora editada em Portugal e que  que esgotou em dois dias em Espanha, o filósofo e investigador defende que a grande ameaça à democracia moderna é a simplicidade dos conceitos políticos que tomámos de empréstimo, ignorando a complexidade crescente em que a nossa organização social se desenvolveu. O autor sublinha que já não se trata de enfrentar os desafios dos séculos XIX e XX, mas sim os do século XXI.  Dividido em três grandes capítulos, “A Compreensão da Complexidade”, “O Governo das Sociedades Complexas” e “Democratizar A Democracia”,  este ensaio aborda questões como a representatividade actual dos sistemas democráticos, o comportamento das várias gerações na política e a democracia digital, entre outros. No fim do livro, citando Ulrich Beck, Daniel Innerarity sublinha que “a política não morreu, apenas emigrou dos clássicos espaços nacionais delimitados para os cenários mundiais interdependentes”. Daniel Innerarity é catedrático de Filosofia  Política e Social na Universidade do País Basco e diretor do Instituto de Gobernanza Democratica.

 

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PÃO À ANTIGA  - No regresso a Lisboa uma ida ao novo mercadinho que às terças feiras acontece em Campolide, no largo de onde agora sai o eléctrico 24. Aí, além de legumes e fruta do produtor, há uma banca de pães que chama a atenção - o Pão do João. O João na realidade é Johannes Rued, um alemão que há alguns anos veio viver para Portugal e se instalou em Torres Vedras, onde faz pão feito à mão, à moda antiga,  com massa mãe e com os componentes básicos: farinha, água e sal. Nalgumas variedades que foi criando incorpora frutos secos, sementes ou legumes. É sempre um produto inteiramente puro e sustentável com ingredientes 100% portugueses. O Pão do João, entrega ao domicílio em Torres Vedras, mediante contacto via as suas páginas no Facebook e Instagram, e em Lisboa aparece às terças em Campolide e ao sábado no mercado da Quinta das Conchas. Há pão integral de milho e de trigo barbela e pão foco de trigo e centeio, além de pão integral de centeio com sementes de girassol, vendidos em porções de quilo ou meio quilo. A experiência da semana foi feita com o pão de trigo barbela, que levemente torrado e devidamente untado de manteiga dos Açores se revelou uma grande companhia de pequeno-almoço. 

 

DIXIT - “A maior e mais triste lição que podemos retirar da actual pandemia, desde o seu início, é a forma abjecta como os seres humanos são capazes de desprezar os seus semelhantes” - António Araújo, jurista e historiador

 

BACK TO BASICS - “É mais fácil lutar por princípios do que viver de acordo com eles “ - Alfred Adler, fundador da psicologia do desenvolvimento individual.



 





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