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A RODA LIVRE - Razão tinham aqueles que, há um ano, lançaram alertas sobre os perigos de uma maioria absoluta. Não se enganaram nem um bocadinho. Em vez da estabilidade anunciada, conhecemos a instabilidade, traduzida em 13 substituições de membros do Governo. Em vez de um gabinete coeso tivemos compadrios, indícios de corrupção, sordidez, desnorte, problemas éticos. Em vez de reformas que melhorem o país tivemos imobilismo, mais problemas na justiça, saúde e, sobretudo, educação. Em vez de aproveitarmos os recursos, temos de novo uma emigração portuguesa para o estraneiro, da geração em que o país mais investiu na formação, que é em termos absolutos, próxima do que se passou na década de 60 com, nessa altura, mão de obra desqualificada. Uma maioria absoluta, um ano de instabilidade. Perdeu-se tempo. Perdem-se recursos. Não se começou a resolver os maiores problemas. Esta semana, numa entrevista colocada no canal de serviço público de televisão, e que teve 770 mil espectadores, António Costa, garantiu que a legislatura é para chegar ao fim e até brincou:  “O meu médico diz-me que estou bem”. O problema, na realidade, não é a saúde de Costa, que todos desejamos que continue em boa forma, mas a adesão das suas afirmações à realidade. O problema é a sua capacidade de fazer coisas em vez de fazer habilidades. António Costa é uma pessoa divertida e um político habilidoso. Mas não é um fazedor. É um equilibrista, um trapezista da política. E quando se viu com maioria absoluta achou que já não precisava de ter a rede de segurança que a geringonça lhe deu. E entrou em roda livre, que é o actual estado da nação.

 

SEMANADA - Portugal tem cerca de quatro milhões de pessoas com idade igual ou superior a 55 anos; 2,6 milhões de portugueses vivem com menos de 660 euros por mês; em dezembro a taxa de inflação homóloga na zona euro foi de 9,2%, menos nove décimas que no mês anterior; 9,6% foi a inflação em Portugal em Dezembro, mais três décimas que no mês anterior; PS, PSD e Chega chumbaram a desclassificação de documentos militares da Guerra  Colonial; em 2022 registaram-se 103 escalas de cruzeiros no Porto de Lisboa, um aumento de 43% face a 2019; um estudo da Universidade Católica indica que sete em cada dez jovens discutem política mas preferem modos de participação sociais e cívicos em vez de modos formais; nove em cada dez jovens já votaram pelo menos uma vez, sendo as eleições legislativas aquelas que lhes suscitam maior participação; o Portal da Queixa identificou uma subida de 57% no número de reclamações dirigidas aos serviços de entrega de refeições ao domicílio, comparativamente com 2019 e a Uber Eats é a marca que recebe mais queixas dos consumidores; segundo a OCDE quase um quinto do dinheiro que sai do Estado em financiamentos e apoios volta ao Estado sob a forma de impostos e taxas; segundo o INE o alojamento turístico registou 26,5 milhões de hóspedes e 69,5 milhões de dormidas, em 2022, que correspondem a aumentos homólogos de 83,3% e 86,3%, respectivamente; a taxa de desemprego em Portugal subiu para 6,7% em dezembro, segundo o INE; um estudo da Marktest indica que o número dos portugueses que bebem café fora de casa está a cair e atingiu o valor mais baixo dos últimos dez anos.

 

O ARCO DA VELHA - No caos da educação contabilizam-se 40 ministros do sector , mas apenas um constante interlocutor, o português que mais vezes se sentou com governantes  - Mário Nogueira. 

 

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OS CÍRCULOS - A nova exposição da semana é, sem dúvida, “Et Sic in infinitum" de José Pedro Croft, que pode ser vista na Fundação Arpad Szenes -Vieira da Silva até 28 de Maio próximo. Incorporando a sua experiência de escultura, desenho e pintura, José Pedro Croft desenvolve o seu trabalho a partir de variações entre grafismo e geometria, muitas vezes desafiando noções de espaço. Se em momentos anteriores as linhas rectas e as formas lineares tinham uma presença recorrente, nestes seus trabalhos mais recentes o que ele ensaia é a exploração das possibilidades do círculo, das linhas curvas. Os trabalhos expostos foram feitos nos últimos dois anos, com excepção de duas obras, uma gravura de 1996 e uma escultura em calcário negro e ardósia, de 1987. O curador desta exposição, Sérgio Mah, faz notar que o título “Et sic in infinitum” é uma citação da frase que consta em cada um dos lados de um desenho do físico e cosmologista Robert Fludd, reconhecido como uma das primeiras representações da criação do universo. É também de Sérgio Mah esta síntese da exposição: “Em geral, estas obras distinguem-se pela sua sobriedade e elegância formal. Contudo, é importante frisá-lo, essas qualidades não visam o deleite formalista ou o mero conforto contemplativo. Pelo contrário, são atributos que estimulam a indeterminação, o carácter problemático e enigmático das obras, que espicaçam a perplexidade de quem as defronta”. Na semana passada, na Casa Atelier Vieira da Silva, foi inaugurada a exposição de novos trabalhos de  Catarina Pinto Leite, “O Grau Zero de todas as coisas”. Outros destaques: na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), Daniela Kirtsch apresenta “Take Me To The Dawn” até 18 de Fevereiro. E, também até 18 de Fevereiro, há uma exposição retrospectiva da obra em pintura de João Abel Manta, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Rua Barata Salgueiro, em Lisboa.

 

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LIBERDADE - Isaiah Berlin foi um filósofo, historiador de ideias e teórico político. Defendeu o liberalismo contra o extremismo político e o fanatismo intelectual. Em 2002 uma série dos seus ensaios foi reunida sob o título genérico “Liberty”. E foi a partir dessa edição que agora se edita em Portugal “Esperança e Medo, Dois Conceitos de Liberdade”, com tradução de Jorge Pereirinha Pires e Maria José Batista. Os textos levantam questões essenciais, tantas vezes incompreendidas por quem detém o poder: «Porque é que eu devo obedecer a outrem?» «Porque é que não hei‑de viver como quero?» «Tenho de obedecer?» «Se eu desobedecer, posso ser coagido?». Berlin foi claro quando escreveu: «Liberdade é um termo cujo sentido é tão poroso que existem poucas interpretações a que este pareça capaz de resistir. Não proponho discutir a história desta palavra proteiforme nem os mais de duzentos sentidos registados para a mesma pelos historiadores de ideias. Proponho examiná‑la em não mais do que dois desses sentidos, que considero serem os sentidos centrais e que têm atrás de si uma grande parte da história humana e, atrevo‑me a dizê‑lo, a história ainda por vir.». E esses dois sentidos são o negativo (ausência de coacção) e o positivo (o direito de se ser senhor de si mesmo). O livro aborda temas que vão desde a democracia liberal e dimensão e papel do Estado, até à esfera e limites da liberdade individual. Como disse John Gray, um filósofo político inglês,  «num mundo em que a liberdade humana se espalhou mais lentamente do que a democracia, os escritos de Berlin sobre liberdade e decência básica são mais instrutivos e úteis do que nunca». Edição Guerra & Paz.

 

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MÚSICA AVENTUREIRA - John Cale, aos 80 anos, surpreende mais que muitos músicos actuais cheios de espalhafato, mas vazios de ideias. Só para situar John Cale foi um dos pilares dos Velvet Underground na segunda metade dos anos 60, e, mais tarde, o produtor responsável por alguns dos melhores trabalhos dos Stooges, Patti Smith, Nico ou Modern Lovers. Ao mesmo tempo foi desenvolvendo a sua própria obra e ainda encontrou ocasião para meter a mão no tema “Hallelujah”, responsável por dar notoriedade a um Leonard Cohen, até aí pouco conhecido. John Cale lançou-se agora a um novo trabalho, “Mercy”, o seu 17º álbum de originais. Há temas que evocam e homenageiam amigos seus, como David Bowie e Nico, mas na maioria das canções ele assume frontalmente abordar o presente, como acontece em “ The Legal Status Of Ice”, enquanto chama para o seu lado uma geração de novos talentos, como a voz de  Weyes Blood, os provocadores Fat White Family ou os experimentalistas Animal Collective, a cantora colombiana Tei Shi, o duo de pop electrónico Sylvan Esso ou Laurel Halo, que já ganhou o título de álbum do ano da revista The Wire. É esta abertura de espírito e desejo de descobrir novos caminhos que torna o trabalho de John Cale fascinante. É como se em vez de lermos o relato de viagem de um explorador do início do século XX, estivéssemos a ouvir as descobertas sonoras possíveis neste século XXI, através de um aventureiro musical. “Mercy” e os seus 12 temas, uns instrumentais, outros cantados, estão disponíveis nas plataformas de streaming.

 

COMIDA CONCEPTUAL - Aqui há uns dias, ainda a noite era uma criança e a fome apertava, fui seduzido por umas luzes num pátio frente à Assembleia da República, onde surgiu a palavra “O Jardim”. Fui tentado a ver se a coisa funcionava, ou seja, se o que eu via, de mesas e cadeiras, correspondia à ideia de um restaurante. Uma vez entrados e simpaticamente sentados, eis que, quando analisámos a lista e fizemos o pedido,  o empregado, com um olhar inquisidor, perguntou-nos: “Explicaram-vos o conceito?”. Foi nesse momento que percebi que tinha caído num terrível equívoco. “O Jardim” não é um restaurante, é apenas um conceito. Eu, confesso, não gosto de conceitos em vez de restaurantes. É uma mania minha. O local tem imenso conceito, quantidades inversamente proporcionais, qualidades medianas e preços muito pouco conceptuais e bastante materiais. No fundo, ir lá é um tempo perdido. E se quiserem ir à casa de banho, cuidem-se que a sinalização é conceptual, daquelas onde não se percebe bem o género. Uma coisa meio woke, portanto - aliás, o local quer afirmar-se pela contemporaneidade, nada mais que outro conceito. Não percam tempo - o local assemelha-se em inutilidade gastronómica aos piores momentos dos debates que decorrem lá em frente, na Assembleia da República. 

 

BOM - “A Nova Paródia- Comédia Portuguesa”, criada por Hugo van der Ding para o Museu Bordalo Pinheiro, 16 deliciosas páginas, à venda no Museu.

 

MAU - A falta de coragem do PSD em se demarcar de acordos com o Chega

 

DIXIT - “Portugal tem um problema de corrupção grave” - Fernanda de Almeida Pinheiro, bastonária da Ordem dos Advogados

 

BACK TO BASICS - “Os homens são tão simplórios e obedecem de tal forma às necessidades presentes, que aquele que engana encontrará sempre quem se deixe enganar.” - Nicolau




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publicado às 11:00

O DINHEIRO NÃO DÁ PARA TUDO....

por falcao, em 27.01.23

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AS PESSOAS - Por muito que António Costa proclame a sua preocupação com o país, a verdade é que a melhor palavra para descrever a política social do PS é cativações. Em poucos anos, Costa, Centeno e Leão encheram o bolso do Estado à custa de cortes. O sucesso propagandístico das suas contas deve-se ao aumento da receita fiscal e à redução e cortes nas despesas de funcionamento de vários sectores. O Governo diz que investe mais, mas não é o que tem feito em relação às pessoas, nomeadamente em relação a professores, médicos, enfermeiros e tantas outras profissões. O resultado está à vista nos problemas daquelas que deviam ser as principais funções do Estado, a educação, a saúde e a justiça. Houve quem tivesse esperança que pelo menos algumas reformas surgissem com a maioria absoluta, depois do período de distrações e equilibrismos da geringonça. Mas a única coisa que a maioria absoluta trouxe foi arrogância, autismo político, cumplicidades e as corruptelas fruto de demasiados anos no poder. O que se tem passado só alimenta a distância entre eleitos e eleitores. Olhemos para o caso dos professores , uma lição de vida sobre as diferenças entre os comuns mortais e a classe política e seus apêndices. Para os que ensinam as próximas gerações oferecem-se dificuldades, incerteza, carreiras mal definidas, contagens de tempo de serviço vergonhosas e salários baixos. Para a classe dirigente o tempo de serviço é amplamente recompensado em indemnizações, encontra-se sempre uma sinecura para algum histórico militante do poder a necessitar de um aconchego. Para fazer os disparates que tem feito e que têm custado milhões, como na TAP, o Governo corta noutros lados. É nesta altura que me lembro sempre da história de uma pessoa influente que acumulou dívidas e que, quando um dos credores o viu com um reluzente carro novo e o inquiriu, se limitou a responder:  “o dinheiro não dá para tudo”. 

 

SEMANADA - 22 dias depois de se ter demitido Pedro Nuno dos Santos  descobriu que afinal tinha enviado um whatsapp a aprovar a indemnização de meio milhão de euros da TAP a Alexandra Reis; António Costa leva mais de 5760 dias, cerca de 16 anos, em cargos governativos, com oito nomeações, desde meados dos anos 90; nove dos dez titulares de cargos governamentais que os exerceram durante mais tempo são do PS; um estudo divulgado na semana passada coloca a economia portuguesa na 36ª posição entre 38 países no Índice da Competitividade Fiscal para 2022;  as greves em Portugal cresceram 25% no ano passado; em 2022 foram produzidos em Portugal mais de 320 mil veículos automóveis, um crescimento de 11,2% face ao ano anterior; o emprego na construção atingiu o valor mais elevado da ultima década mas o sector ainda necessita de mais 80 mil trabalhadores para responder às obras projectadas para os próximos anos; face à instabilidade nas escolas públicas regista-se um acréscimo significativo de procura pelos colégios privados; cerca de metade da população adulta portuguesa tem dois ou mais problemas de saúde, consequência de excessiva exposição a ecrãs, má qualidade do sono e stress, concluíu um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; o preço do arroz carolino quase duplicou no espaço de um ano; segundo as autoridades policiais há 53 crimes contra idosos cometidos por dia e o mais grave e frequente é a violência doméstica; um estudo divulgado na semana passada aponta para uma subida de 18,7% no preço das casas, a maior variação dos últimos 30 anos; segundo o BCE, Portugal está em último lugar do ranking da Zona Euro em matéria de literacia financeira.


O ARCO DA VELHA - O piso da linha ferroviária do Norte, que liga Lisboa ao Porto, sofreu quatro abatimentos em três semanas.

 

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A PINTURA - Não faltam exposições em Lisboa nesta altura do ano. Começo por “Água de Colónia" de Gonçalo Pena, com curadoria de João Maria Gusmão e que estará exposta até 11 de Março,  na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 23). Trata-se de um conjunto de 23 pinturas a óleo e cerca de noventa desenhos que têm óbvias ligações entre si, todos eles a remeterem para fragmentos de memórias, imagens fugidias, aventuras vividas (na imagem, foto da própria galeria). Há um misto de voyeurismo nos óleos e relato nos desenhos, que por vezes evocam a banda desenhada. Mas há uma história comum neste diálogo entre pintura e desenho. No MAAT, no edifício da Central Tejo, inauguraram exposições de Maria Capelo, Pollyana Freire e Jonathas de Andrade. Esta última, “Olho Faísca”, a mais impactante,  mostra as diversas facetas do autor brasileiro de braço dado com a propaganda de causas que assume. Para regressar à pintura e a coisas mais sérias recomenda-se a exposição de Pedro Chorão na Galeria  Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101). E termino com a derradeira exposição organizada por Mário Teixeira da Silva no seu  Módulo Centro Difusor de Arte (Calçada dos Mestres 34 A), inaugurada poucos dias antes de morrer, e que, com o título “Nocturna”, apresenta trabalhos de Nadya Ismail, Pedro Zhang, Vasco Maia e Moura e Xavier B. Tourais. Até ao fim Mário Teixeira da Silva dedicou-se sempre a descobrir novos talentos artísticos e esta exposição é ela própria um derradeiro testemunho da sua forma de estar como coleccionador e galerista.

 

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MISTÉRIO - A história é envolvente desde o início, quer na definição de personagens, quer na própria localização da acção, quer no inesperado desenrolar dos acontecimentos e no final que o autor imaginou. O livro chama-se “A Casa Do Outro Lado do Lago” e foi escrito por Riley Sager, pseudónimo de Todd Ritter, um dos mestres da literatura de mistério norte-americana. No centro da narrativa está Casey Fletcher, uma actriz recém-viúva que se refugia numa casa de família nas margens de um lago, no estado do Vermont, Canadá, para tentar escapar a uma onda de má imprensa devido ao seu alcoolismo. Aos poucos Casey observa os movimentos de Tom e Katherine Royce, uma ex-top model e um magnata da tecnologia, o casal de vizinhos que vive no outro lado do lago, numa casa de vidro. Com um par de binóculos ela espreita tudo o que se passa dentro das paredes de vidro. É essa observação que lhe permite perceber, um dia, que Katherine está prestes a afogar-se no meio do lago. Casey mergulha ela própria nas águas escuras e consegue salvá-la : ficam amigas a partir daí. À medida que a amizade se desenvolve percebe que o casamento dos seus vizinhos não é tão perfeito como inicialmente lhe parecia. Tudo se agrava quando Katherine desaparece de repente e começa a suspeitar que Tom pode estar envolvido nesse desaparecimento. Pelo meio entram novos personagens em cena,  peças de um mistério que fica cada vez mais denso e deixa no ar uma questão: até que ponto conhecemos alguém? O final, que não revelo, é uma reviravolta total e surpreende muita gente - a começar pela própria Casey. “A Casa Do Outro Lado do Lago” é uma edição da Guerra & Paz.

 

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AMBIENTE - O novo disco de  Ryuichi Sakamoto tem 12 temas e uma hora e um minuto de duração. Como título figura o número de temas e este “12” foi lançado há poucas semanas, no dia em que completou 71 anos. É  o seu 15º álbum  de originais, o primeiro em seis anos, depois de “Async” (de 2017). Cada um dos doze temas tem como título a data em que cada tema foi criado e a música é minimalista, uma primeira parte mais ambiental e outra mais clássica. Ryuichi Sakamoto, o seu piano e o seu sintetizador são os únicos protagonistas deste trabalho que reflecte muito o estado de espírito do músico. Em 2014 Ryuichi Sakamoto foi diagnosticado com um cancro da garganta, cancelou digressões agendadas e repensou o que fazia. E como disse em entrevistas de então, dedicou-se a fazer música que pudesse deixar para o futuro sem se envergonhar. Foi nesse contexto que nasceu “Async”. Nessa altura Sakamoto deixou de actuar ao vivo, mas fez vários recitais em streaming, o últimos dos quais em Dezembro,  que anunciou como sendo a sua derradeira actuação pública. Na altura explicou que lhe tinha sido diagnosticado um novo cancro e todo este disco foi feito depois de ter tido essa notícia. Há uma outra particularidade: não existe outra definição rítmica em todo o álbum à excepção do som da respiração intensa do músico enquanto toca. A parte final do disco, com peças mais curtas, é dedicada a Claude Debussy, que ele admite ter sido sempre a sua grande influência musical. De certa forma “12” é como um diário onde, em vez da escrita, se usam notas musicais para descrever o que se passa. Disponível nas plataformas de streaming.

 

A VER O MAR - Apesar de muita estragação arquitectónica, Sesimbra continua a ter um encanto especial. Tem o mar descaradamente à sua frente, um porto de pesca, uma marginal  magnífica se não olharmos para os edifícios e nos fixarmos no mar. E tem uma nova geração de restaurantes, que vieram ocupar o lugar de alguns dos clássicos que entretanto fecharam ou mudaram de vida. Um dos novos que vale a pena conhecer é o “Portofino”, um edifício discreto ao fundo da marginal, perto do porto de pesca, sem nada à frente a não ser o areal e o mar. O Portofino tem uma esplanada abrigada e a sala interior é ampla. Felizmente este é um daqueles restaurantes onde a coisa não se resume a grelhados. Há, por exemplo, lulinhas fritas com alho e coentros, polvo confitado com cebola frita ou o incontornável choco frito. Nas especialidades há uma feijoada de polvo e camarão, uma açorda de mariscos servida dentro de um pão escavado e um arroz do mar - foram pedidos nas mesas mais próximas e as pessoas estavam com cara satisfeita. Para os carnívoros há lombo do cachaço de porco preto com puré de castanhas e um entrecôte de novilho na tábua. Mas a parte dos grelhados não é descurada e na semana passada a escolha da mesa recaíu num pregado de bom porte, com batata a murro e grelos salteados. Estava muito bom e correspondeu à expectativa. De entrada vieram umas ameijoas à Bolhão Pato, um pouco abaixo das expectativas. Serviço muito bom e atento. A lista de vinhos é curta e tem preços decentes. O Portofino fica na Avenida dos Náufragos, na Praia do Ouro e o telefone é 919 480 282.

 

DIXIT - “Em vez de amadurecer a democracia portuguesa atravessa aguda fase de infantilismo" - António Barreto

 

BACK TO BASICS -"Tenho sido actor sempre e a valer. Sempre que amei, fingi que amei e para mim mesmo o finjo" - Fernando Pessoa,  Livro do Desassossego

 

 






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A SUSPEIÇÃO VAI CRESCENDO

por falcao, em 20.01.23

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A NATUREZA HUMANA - Há quem no Governo lamente aquilo a que chamam “a cultura de suspeição generalizada” sobre os políticos. O que eu acho extraordinário é que lamentem o clima, em vez de prevenirem que existam motivos de desconfiança em relação às pessoas e de descrença em relação às instituições. Todas as semanas surgem mais casos, que envolvem mais gente - agora começou a vez dos deputados, com o caso de Jamila Madeira, do PS, que, estando no Parlamento, era consultora da REN, ou com o caso de João Pinto Moreira, do PSD, que está a ser também investigado do caso da corrupção na Câmara de Espinho. São obviamente casos diferentes, e todos são inocentes até haver condenação em julgamento - embora se saiba que os julgamentos e investigações são histórias intermináveis. Mas aquilo que se passa mostra o grau de podridão de um regime onde quem escrutina os políticos são os aparelhos partidários onde eles cresceram, que frequentam e que em muitos casos dirigiram. Não deve haver juízes em causa própria, mas o que se passa tantas vezes nos maiores partidos é isso mesmo. A maioria dos aparelhos partidários são viveiros de teias de favores, dependências, compadrios, protecção de familiares, cunhas e interesses. Dirão muitos que os pecados e pecadilhos são fruto da natureza humana e não do funcionamento da política - e que, em última análise, são as falhas de carácter que proporcionam a ocorrência dos casos mais graves. Mas existe um clima de facilitismo combinado com uma convicção de impunidade, aliado a muita falta de bom senso, que são a explicação verdadeira para isto. Não é só o sistema político que precisa de ser reformado, os partidos são hoje o viveiro onde crescem os vícios e os problemas.

 

SEMANADAEm 2021, Portugal tinha 2801 pessoas com mais de cem anos, quase o dobro do que acontecia há uma década;  no ano passado foram vendidos 12.725.898 livros, por um preço médio de 13,75 euros, num total de cerca de 175 milhões de euros, um aumento de 16,2% face a 2021; o salário médio dos portugueses cresceu apenas 3% desde 2010; as multas por carta de condução caducada duplicaram em 2022 face ao ano anterior; o preço médio da produção agrícola na UE aumentou 24% em 2022; o Tribunal Constitucional demorou três anos a indicar a direcção da Entidade da Transparência, que tem por missão verificar as declarações de rendimentos e incompatibilidades dos políticos e titulares de altos cargos públicos; alguns ex-ministros de António Costa juntam-se regularmente num jantar convocado através de um grupo de whatsapp dinamizado por Matos Fernandes, intitulado “descamisados”; em 2022 foram apreendidas em Portugal mais de 16 toneladas de cocaína; as exportações de bicicletas fabricadas em Portugal ultrapassou em 2022 a barreira dos 800 milhões de euros; em 2022 foram criadas em Portugal 48.404 empresas, um aumento de 14% face ao ano anterior; um estudo do Ministério da Defesa indica que só 1,4% dos jovens portugueses se interessa por questões de participação e cidadania; a Sociedade Portuguesa de Matemática acusou o Ministério da Educação de atirar a aprendizagem da Matemática no ensino secundário para “mínimos históricos inexplicáveis”.

 

O ARCO DA VELHA - A Comissão para a reforma da Saúde Pública pediu a demissão porque, ao fim de três anos, não vê resultados práticos das análises e das propostas que apresentou.

 

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AS LETRAS DAS ARTES - S. Martinho da Anta, distrito de Vila Real, concelho de Sabrosa, foi a terra natal de Miguel Torga e tem um museu com o nome do escritor, projectado por Eduardo Souto Moura, com um amplo espaço expositivo. Desde sábado passado e até 26 de Março ali pode ser vista uma série de obras de João Vieira, que raramente têm sido expostas em conjunto. Com curadoria de Manuel João Vieira, a mostra revela pela segunda vez - a primeira foi nos Artistas Unidos, em Lisboa, há mais de uma década - uma das mais relevantes séries realizadas pelo artista, terminada pouco tempo antes de João Vieira morrer. A exposição mostra seis pinturas de grandes dimensões (450 x 250 cm) e estas obras de João Vieira, expostas no Espaço Miguel Torga, evocam outras tantas  artes:  “Dança” , “Teatro”, “Imagem”, “Pintura” , “Palavra”, “Música”. João Vieira fez cenografia para teatro, encenações, performances, filmes, e música, além de pintura.  Segundo Manuel João Vieira, "este é, depois do políptico 'Silêncio Chinês' ou da recriação em escala real dos painéis de S. Vicente, o maior conjunto articulado na obra de João Vieira." A carreira de João Vieira nasceu em 1934 em Anelhe, Vila Real,  começou a expôr em 1956, em 1960 fundou o Grupo KWY, juntamente com Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Gonçalo Duarte, Jan Voss e Christo e teve uma longa e diversificada carreira até à sua morte em  2009. (a imagem aqui publicada é do Centro Miguel Torga).

 

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DESENHAR - Pedro Cabrita Reis gosta de expôr fora dos grandes centros urbanos e de imaginar como a sua obra pode ser descoberta por públicos menos habituados a conviver com ela. Por isso aceitou um convite de Alexandre Baptista que organizou o ciclo “O Desenho como Pensamento” em Águeda.  “… queres que te faça um desenho ?...” foi o título escolhido por Pedro Cabrita Reis para a exposição que abriu na semana passada na Sala Estúdio do Centro de Artes de Águeda e que se prolongará até 22 de Fevereiro. Para esta exposição o artista escolheu 151 obras, todas em papel, desde desenho a grafite até aguarelas, e pinturas a óleo e acrílico. Todos os trabalhos expostos são recentes e foram feitos num período de dois anos. O trabalho mais antigo é a série de desenhos a grafite “Femmes”, de 2020. A exposição está montada como um Cabinet d’Amateur, a meio caminho entre um museu particular e o que se vê quando se entra num ateliê de artista durante o seu trabalho. Há obras encostadas à parede, algumas deixadas no chão (como a série de aguarelas feitas para a capa da revista “Colóquio”, da Gulbenkian), as paredes têm com todo o espaço disponível ocupado, como se pode ver na imagem (fotografia Centro de Artes de Águeda). “Gostei de imaginar e de fazer este trabalho, da mesma forma que gosto da  ideia de descobrir novos espaços e de mostrar o meu trabalho fora das grandes cidades: acharia um desafio expôr, por exemplo, numa colectividade recreativa” - afirmou Pedro Cabrita Reis. A exposição faz parte do segundo ciclo “O Desenho como Pensamento” , que integra 18 exposições individuais, três colectivas e seis conversas temáticas que decorrerão até 30 de Setembro.

 

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UM HOMEM SÓ - Frederik Beckman é um dos escritores suecos contemporâneos mais populares e a sua obra de estreia, “Um Homem Chamado Ove”, tornou-se um clássico e foi adaptado para o cinema num filme protagonizado por Tom Hanks. E de que fala o livro?  Ove não é o típico vizinho com quem nos apeteça cruzar na rua. É um velho solitário e antipático que aparentemente não gosta de pessoas. Protesta contra quem não respeita os sinais de trânsito, queixa-se de quem não sabe fazer reciclagem corretamente,  já para não falar sobre os que ignoram como preparar um café de cafeteira como deve ser. Ove é o tipo de homem que aponta o dedo a tudo o que não lhe agrada e que não consegue compreender aqueles que anseiam pela reforma: como pode alguém passar a vida inteira à espera do dia em que se torna desnecessário? Aos 59 anos, custa-lhe conceber que o mundo pula e avança, que ele não pode ficar agarrado ao passado, perigosamente sozinho e infeliz de tão rabugento, depois de ter perdido a única pessoa que dava cor aos seus dias. Esta é uma história de solidão e tristeza que o seu autor consegue transformar na redescoberta do prazer pela vida. Uma série de circunstâncias, a começar pela chegada de novos vizinhos, consegue devolver a Ove, aos poucos, a fé na humanidade. E, ao mesmo tempo, as pessoas que o rodeiam começam a perceber que o bairro não seria o mesmo sem ele: seria um lugar mais frio, menos solidário e, por mais estranho que pareça, também muito menos divertido. Fredrik Beckman foi colunista e blogger, este romance foi originalmente  editado em 2012 e depois disso já publicou mais seis romances, duas novelas e um livro de não ficção. Está traduzido em 46 línguas e, no total, já vendeu 19 milhões de exemplares de todas as suas obras. 

 

COMIDAS MAL ENCENADAS - O encerramento do restaurante dinamarquês Noma, criado e dirigido pelo chef René Redzepi, veio chamar a atenção sobre o mundo dos restaurantes de luxo, que praticam o que se convencionou chamar fine dining - refeições com extensos menus de degustação, preços altos e enormes equipas a realizar todo o trabalho, na maior parte dos casos com horários sobrecarregados e com salários diminutos ou, até, inexistentes, sob a capa de estágios. O que é certo é que aquilo que está a acontecer ao Noma começa a colocar em causa restaurantes onde o conceito é mais valorizado que a comida, em que o aparato é mais importante que a genuinidade. Investigações jornalísticas em vários restaurantes deste género, nos Estados Unidos, mostraram que afinal muitos produtos utilizados, ao contrário do que era anunciado, não vinham de produções próprias nem próximas e alguns eram até adquiridos em grandes superfícies. Um deles, o Willows Inn, perto de Seattle, parece ter sido o inspirador do filme “The Menu”. Tal como o restaurante cujo chef é representado por Ralph Fiennes, o Willow Inn ficava numa ilha, a que os comensais, que pagavam 500 dólares por cada jantar, acediam de barco. E, como no filme, os empregados não tinham horários e eram sujeitos a diversos abusos. Esta cultura de restaurantes teatralizados foi, na minha opinião, muito estimulada pelas perversas estrelas Michelin que por vezes dão mais importância à aparência que à realidade, privilegiando a decoração dos pratos e a exuberância do serviço. O bom sinal é que esta queda de reputação do fine dining está a trazer de volta a procura por restaurantes mais informais, mais acessíveis, onde os clientes podem escolher o que pretendem comer e não são obrigados a seguir uma lista que alguém imaginou. Termino a parafrasear um escrito recente de Miguel Esteves Cardoso sobre este assunto e que sintetiza o que eu também acho: “um bom restaurante é aquele onde se quer ir todos os dias almoçar”.

 

DIXIT - “As pessoas são escolhidas por quem de direito. Caso aceitem, não devem ser obrigadas a responder a questionários arbitrários e intrusivos” - António Barreto.

 

BACK TO BASICS - “A política é a arte de evitar que as pessoas participem em questões que as preocupam” - Paul Valéry

 

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POLÍTICA SEM VERGONHA

por falcao, em 13.01.23

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A 25ª HORA - Depois da mais atribulada semana de saídas do Governo eis que aquilo que se julgava impensável aconteceu: uma secretária de Estado recém nomeada para substituir uma das baixas governamentais durou 25 horas até se demitir, na sequência de informações sobre uma investigação onde estaria citada. Os casos do último mês são um retrato do funcionamento em circuito fechado, do laxismo na escolha de governantes, do autismo criado pela maioria absoluta no exercício do poder pelo PS. Em nove meses de maioria absoluta registaram-se 13 demissões. O estado em que isto deixa a democracia, a forma como abala a confiança dos eleitores, a instabilidade política que desencadeia, são um case study dos resultados da arrogância e insensibilidade por parte de quem dirige o Governo. Mas entretanto percebeu-se que não só vão para o Governo aqueles que têm telhados de vidro e nalguns casos têm mesmo o tecto todo esburacado. Nestes dias percebeu-se que também quem deixa o Governo  ignora as regras mais simples do que deve ser a separação entre funções oficiais e actividade privada. O caso de Rita Marques, que sai directa do Governo para uma empresa privada da área que tutelava, mostra outra faceta do perfil e carácter das pessoas que Costa escolheu para o círculo governamental. Como disse esta semana Adelino Maltez “o eleitorado nunca ameaçou o sistema e tem de ameaçar, os grandes partidos deviam ter medo de ser derrotados numas eleições. Funcionam melhor quando têm medo”. Para Viriato Soromenho Marques: “ É inaceitável o país ficar refém do partido a quem deu uma maioria absoluta. E o discurso de António Costa, mantendo sempre a ideia de que não se passa nada é inaceitável também”. Já agora, e só por curiosidade, “A 25ª Hora” é um romance de Virgil Georghiu que condena todo o tipo de totalitarismo.

 

SEMANADAEm 2021, Portugal tinha 2801 cidadãos com mais de cem anos e dez anos antes eram apenas 1526; 42% das crianças portuguesas têm peso a mais; o número de directores da TAP tem aumentado desde 2015, quando tinha 39 directores, número que neste momento é de 63; nos anos 80 a economia portuguesa teve um crescimento de 32,3%, nos anos 90 registou 29,4% e nas duas primeiras décadas deste século ficou nos 5,7 e 6,9% respectivamente; os preços das casas em Portugal sobem duas vezes mais que a média da Zona Euro; em Outubro, data da mobilização militar parcial, as entradas de russos em Portugal subiram 23% face a setembro e uma plataforma de arrendamento europeia diz que 94% das reservas de russos são para Portugal; no último ano e meio morreram cinco pessoas em acidentes com trotinetes eléctricas; o secretário de estado da Mobilidade, Jorge Delgado, diz que as trotinetas estão a ser diabolizadas; nos últimos dez anos seis concelhos registaram um aumento de utilizadores de bicicletas e 12 perderam; os cinemas portugueses recuperaram 60% do público de antes da pandemia e no ano passado registaram 9,5 milhões de espectadores; “Top Gun- Maverick” com Tom Cruise foi o filme mais visto em Portugal em 2022 com 714 mil espectadores e “Avatar: O Caminho da Água” registou 598 mil; o filme português mais visto foi a comédia “Curral das Moinas- Os Banqueiros do Povo” com 314 mil espectadores; em 2022, os consumidores portugueses registaram uma média de 526 reclamações por dia no Portal da Queixa; a rede de Cuidados Continuados tem uma lista de espera com mais de 1500 pessoas.

 

O ARCO DA VELHA - Rita Marques saíu do Governo para uma empresa cuja área tutelava e a quem o Governo a que pertenceu tinha atribuído 5,4 milhões de euros de apoio e um bónus fiscal de 266 mil euros.

 

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O ESTADO DO MUNDO - A actividade nas galerias regressa esta semana em força, marcando o arranque de uma série de novas exposições. O destaque vai para “New Age Dreams”, de Pedro Casqueiro, na Galeria Miguel Nabinho (na imagem), até 10 de Fevereiro. São dez pinturas de 2022, acrílico sobre tela, que mostram o olhar do artista sobre o mundo que o rodeia e sobre o que é suscitado na sua imaginação a partir da sua observação da natureza, das pessoas, dos animais, das paisagens e até da tecnologia. Mas há muitas outras exposições iniciadas esta semana. Comecemos pela fotografia com “Panorama”, uma nova mostra de Daniel Blaufuks, na Galeria Vera Cortês. Na Galeria Narrativa a sul-africana Lea Thijs, que vive e trabalha em Lisboa, mostra “Safe House” um ensaio fotográfico sobre o evoluir do transtorno bipolar do seu pai. Regressando à pintura, na Galeria Monumental Pedro Chorão apresenta até 25 de Fevereiro “Paisagem Continuada”. Outras sugestões: na Módulo, a colectiva “Nocturna” mostra trabalhos de Nadya Ismail, Pedro Zhang, Vasco Maia e Moura e Xavier B. Tourais. Na Galeria Uma Lulik, Carolina Serrano mostra os seus novos trabalhos em “Até Aos Ossos” e a Galeria Bruno Múrias mostra Obiustromos, a primeira exposição de Marco Franco. Fora do circuito das galerias está até 28 de Fevereiro uma interessante exposição, “O Apetrechar do Tempo”, de dois artistas com origens africanas, Francisco Vidal e Gonçalo Mabunda, patente no Instituto Camões, em Lisboa. Francisco Vidal teve recentemente uma importante exposição na Gulbenkian e Gonçalo Mabunda é dos mais importantes nomes da arte contemporânea moçambicana.

 

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O ARTISTA IRLANDÊS - Volta e meia faz bem reler um livro, voltar a percorrer páginas de boa memória. E perceber que obras que agora relemos, uns largos anos depois da primeira leitura, continuam  cheias de sentido.  James Joyce tinha 32 anos quando escreveu “Retrato do Artista quando Jovem”, em 1914, que foi o ano de publicação de “Gentes de Dublin”, uma colectânea de 15 contos que descreve a vida em Dublin no início do século XX. Retrato do Artista quando Jovem faz parte do tríptico a que pertencem também Ulisses e Finnegans Wake, e relata a formação espiritual do adolescente irlandês Stephan Dedalus e o processo de rebeldia em relação à rígida educação católica a que está sujeito. Trata-se aliás do primeiro romance de Joyce, publicado em 1916 e que desde logo conseguiu chamar a atenção para a inteligência e originalidade da sua escrita, ao mesmo tempo irónica e sensível. As diferentes fases da vida do protagonista, da infância à vida universitária, refletem-se em mudanças no estilo narrativo. Os aspetos biográficos são tratados com irónico distanciamento, num trajeto que culmina com a rutura com a Igreja e a descoberta de uma vocação artística. A obra é também um reconhecível auto-retrato da juventude de James Joyce, assim como uma homenagem universal à imaginação dos artistas. «Não continuarei a servir aquilo em que já não acredito, chame-se meu lar, minha pátria ou minha religião. E tratarei de exprimir-me em algum modo de vida ou de arte tão livremente como possa, tão plenamente como possa, usando para minha defesa as únicas armas que me permito usar: silêncio, exílio e astúcia.» Joyce viveu fora da Irlanda a maior parte da sua vida adulta, mas nunca perdeu a identidade irlandesa, dominante na temática da sua obra. Disponível nova edição na colecção “Dois Mundos” da “Livros do Brasil”, com tradução de Alfredo Margarido.

 

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ROCK ON - Inesperado, polémico, surpreendente - eis o novo álbum de Iggy Pop, aos 75 anos, o seu 19º, publicado agora no início deste ano. A revista norte-americana “Rolling Stone” elogia o trabalho e diz que demonstra o retorno de Iggy Pop à genialidade musical e o britânico “The Guardian” é mais céptico e afirma que “Every Loser” é mais do mesmo. Creio que a “Rolling Stone” está mais certa que “The Guardian”. É sem dúvida um disco inesperado, sobretudo porque é cheio daquela energia crua que é proporcionada por guitarras eléctricas em modo selvagem, uma imagem de marca de Iggy Pop. Mas os seus 11 temas são suficientemente variados para eliminar a imagem de monotonia ou de repetições. Na realidade esta intensidade estava ausente dos álbuns anteriores, “Préliminaires” de 2009, “Après” em 2012, “Post Pop Depression” de 2016 ou “Free” de 2019. Este novo disco, “Every Loser”, contém alguns dos temas mais rock’nroll de Iggy desde há anos, e a faixa de abertura “Frenzy”, é um exemplo disso mesmo e está muito bem acompanhado por “Modern Day Rip Off” , “Neo Punk” ou “All The Way Down”. Mas “New Atlantis” e “Morning Show” mostram outras direcções, enquanto “Strung Out Johnny” é talvez a mais conseguida canção de todo o disco. Como sempre as palavras destes temas são simples, directas, com humor e os dois temas apresentados como interlúdios, “The News For  Andy” e “Animus” são prova disso mesmo. Para este trabalho Iggy Pop foi buscar Dave Navarro, Eric Avery e Chris Chaney (Jane’s Addiction),  Chad Smith e John Klinghoffer (Red Hot Chilli Pepper), Duff McKagan ( Guns N’ Roses), Stone Gassard (Pearl Jam) e Taylor Hawkins (o baterista dos Foo Fighters entretanto falecido mas que ainda participou em “Every Loser”). Com músicos assim e a produção de Andrew Watt   a sonoridade obtida está explicada. O melhor é ouvirem, o disco está disponível desde 6 de Janeiro nas plataformas de streaming.

 

A ARTE DO ASSADO - Gosto de cenouras de qualquer maneira -  cozida, em puré, crua ou assada. E de entre os muitos legumes que ficam bem assados, a cenoura merece um destaque à parte. A cenoura é um legume para todas as situações mas hoje vou dedicar-me à versão cenoura assada para acompanhamento. Neste caso gosto de usar cenouras mais pequenas, a que é raspada a casca, sendo  depois cortadas em metade no sentido do comprimento. O passo seguinte é colocá-las numa assadeira com azeite quanto baste e temperá-las com sal, pimenta e ervas aromáticas. Gosto de colocar umas duas ou três folhas de louro espalhadas e idêntico número de dentes de alho inteiros, para perfumar. O forno deve estar a 150 graus e a assadura é coisa para demorar uns 45 minutos. De vez em quando, retire o tabuleiro e agite um pouco. Use um garfo para ver se já estão cozinhadas e tenras. O resultado produz um belo acompanhamento para carne feita de várias maneiras e fica muito bem como prato vegetariano, com fusilli envolvidos nos pedaços de cenoura assim assada. Bom apetite.

 

DIXIT - “A vergonha é um sentimento que desapareceu da política” - António Guerreiro

 

BACK TO BASICS - “Não temos senão a nossa história e ela não é só nossa” - Ortega Y Gasset.

 




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SOBRE O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO

por falcao, em 06.01.23

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LIBERDADE - Neste início de novo ano, dei comigo a pensar na relatividade das preocupações. Na maneira como Costa andou silencioso sobre a ruidosa guerra entre Pedro Nuno dos Santos e Fernando Medina; como o Ministro da Cultura segue o velho princípio do “quero, posso e mando”; de como Medina quer convencer o pagode que não sabia nada de uma pessoa que nomeou para sua Secretária de Estado. E olho para isto e tenho a sensação de estar no meio de uma comédia de muito mau gosto, com os governantes a desempenhar o papel de  actores que querem fazer de todos nós parvos. Todas estas aldrabices com que nos rodeiam são, afinal, pouca coisa comparado com o que se passa por esse mundo fora. Nós aqui temos uns fala-baratos que lá vão governando as suas vidinhas como podem à custa de não governarem o país. Vou aqui citar o que escrevi num depoimento que me pediram sobre 2023: “Num ano em que tanto se fala de revisão constitucional, o meu desejo é que ela facilite entrar no 50º aniversário do 25 de Abril com uma lei eleitoral mais justa, que não desperdice votos como a actual, que não beneficie uns partidos em detrimento de outros e que dê resultados que estão longe da proporcionalidade dos votos expressos, como aconteceu há um ano.” Olho à volta e vejo párias, que não conseguem fazer reformas, que preferem que a abstenção cresça a que as eleições possam reflectir melhor o sentido dos votos dos cidadãos. Mas, sobretudo, dou comigo a pensar que esta gente não é nada quando comparada com os heróis do nosso tempo na Ucrânia e no Irão, gente que resiste a uma invasão e que combate, arriscando a vida, pelos direitos básicos. Aqui gostaríamos apenas que tudo funcionasse melhor. Lá, lutam por poder falar, ter opinião, ser livres. São eles, na Ucrânia e no Irão, que defendem a fronteira da liberdade. Que o seu exemplo nos fortaleça para que possamos derrotar quem vive de nos enganar.

 

SEMANADA - Em 2023, com um país governado por Costa,  os salários reais vão valer menos que em 2014, quando Passos Coelho era primeiro ministro; os gastos com produtos alimentares sobem 22% em dez anos; desde 1995 três em cada quatro dias foram de governação do PS; mais de 600 mil euros foram roubados em assaltos a carrinhas de transporte de valores em dois anos; na prisão de Setúbal um drone que transportava um telemóvel, cartões de comunicações e carregadores foi detectado e apreendido pela GNR; em 2022 as queixas contra os serviços públicos aumentaram 41%; um estudo revelado na semana passada indica que a isenção de IVA nos alimentos essenciais permitira a uma família média poupar quase 400 euros por ano; Marcelo Rebelo de Sousa alertou para riscos de instabilidade da maioria absoluta;  diversos politólogos ouvidos pela imprensa atribuem remodelações sucessivas a uma falta de coordenação e controlo político do executivo;  João Galamba, envolto na área da energia em polémicas sobre a concessão da exploração de lítio e do projecto de hidrogénio verde em Sines, foi nomeado Ministro das Infra-Estruturas onde terá nas mãos o não menos polémico dossier da TAP; António Costa  justificou a nomeação de Galamba por ele não se embaraçar  “com as exigências da transparência e burocracia necessárias à boa contratação pública”; o Ministro da Cultura decidiu a extinção da fundação Colecção Berardo à revelia do respectivo Conselho de Administração e contra o parecer do Conselho Consultivo das Fundações; o mesmo Ministro da Cultura afirmou esta semana não ter informações sobre o desaparecimento de 94 obras da colecção de arte contemporânea do Estado.

 

O ARCO DA VELHA - Num acórdão recente os juízes do Tribunal Constitucional interrogaram-se sobre se as formigas podem ser consideradas animais de companhia.

 

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UMA CURIOSA MISTURA - Até 20 de Janeiro ainda pode ser vista no Espaço Fidelidade Arte, ao Chiado, a exposição “Mistifório”, o início do ciclo “Território”, que incluirá nove exposições coletivas, cada uma das quais concebida por um curador português convidado. Natxo Checa é o curador de "Mistifório", que inclui obras de Almada Negreiros, Anne Lefebvre, Ernesto Melo e Castro, Maria José Aguiar, Gonçalo Pena, Alexandre Estrela, Ana Hatherly, Mattia Denisse, António Areal, Pancho Guedes, Vespeira, Mané Pacheco, Malangatana, Salette Tavares, Fernando Calhau, Gabriel Abrantes ou Pedro Casqueiro,  entre outros, assim uma seleção de esculturas tradicionais, artefactos, mapas e objectos de proveniências diversas, de África à Ásia, passando pelas Américas. É uma mistura muito heterogénea de mais de uma centena de peças, montadas como um gabinete de curiosidades do século XIX, mas com a mira posta no presente e até no futuro que se abre à arte no universo digital. Natxo Checa é um dos fundadores da Galeria Zé dos Bois, onde continua a trabalhar e foi o comissário da representação portuguesa na Bienal de Veneza de 2009. Depois de estar no Espaço Fidelidade Arte (Largo do Chiado 8) até 20 de Janeiro, Mistifório seguirá para a Culturgest no Porto, de 11 de fevereiro a 14 de maio.

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OS ÁRABES NA PENÍNSULA - Em meados do ano 711, Tariq ibn Ziyad, governador do Magrebe, deu início a uma operação militar que, a partir de Ceuta, cruzando o estreito de Gibraltar, levou, até à baía de Algeciras, cerca de 12 000 soldados. Começava assim a invasão árabe da Península Ibérica, nessa altura dominada pelos visigodos, um povo que, desde o fim do Império Romano, se viu empurrado para a ocupação do único retalho imperial que restava dominar: a Hispânia. Marcos Santos, um especialista em História Militar, conta no seu livro  “Fath Al-Andalus – Os Muçulmanos na Península Ibérica (702-756)”, como foram os primeiros 45 anos de presença muçulmana no Ocidente.  O autor apresenta uma análise detalhada das operações militares, dos desenvolvimentos políticos, do armamento, da logística e do recrutamento, que permitiram a instalação de um povo, de uma cultura e de uma estrutura político‑militar que, ao longo de oito séculos, mudaram a face da Península Ibérica. O livro relata -nos também de que modo a máquina de guerra muçulmana se tornou poderosa, a importância da figura dos califas e, no período pós-ocupação, como foi consolidada a conquista dos territórios. A obra inclui mapas preparados propositadamente para esta edição e um glossário com termos maioritariamente árabes ou de origem árabe. Edição Guerra & Paz.

  

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UMA VOZ ÚNICA - Para o New York Times  o álbum “Ghost Song” , de  Cécile McLorin Salvant, é o melhor disco de jazz de 2022. Cécile McLorin Salvant é uma vocalista que escolheu o território do jazz que tem realizado versões inesperadas de temas conhecidos da música popular anglo-saxónica. Tem uma forma de cantar invulgar e um timbre vocal especial que a colocam num patamar à parte entre outros vocalistas. O seu estilo de reinterpretação é ousado, os arranjos que escolhe são inesperados. “Ghost Song” reúne 14 canções e começa por uma versão de “Wuthering Heights”, popularizada por Kate Bush em 1978. Mas a versão de Salvant é bem diferente, do ponto de vista vocal e musical, as palavras são cantadas de forma mais intensa, quase como se estivesse a enviar uma mensagem a alguém. Em “Optimist Voices/ No Love Dying” ela transita do tema que marcou o filme “The Wizard Of Oz” para uma das grandes baladas cantadas por Gregory Porter e editada em 2013. No tema “Until”, que Sting popularizou, Cécile entra num dueto com o pianista Sullivan Fortner, cruza-se com um solo de flauta de Alexa Tarantino, acompanhada por James Chirillo no banjo e Keita Ogawa na percussão e este tema é um exemplo do espírito aventureiro de Salvant. Mas ouçam-na também a cantar “The World Is Mean”, um original de Kurt Weil composto para a “Ópera dos Três Vinténs”, ou em canções como “The Moon Song”, “I Lost My Mind” ou ainda em “Dead Poplar”, inspirada numa carta do fotógrafo Alfred Stieglitz à pintora Georgia O'Keeffe. Em "Trail Mix” é Salvant que toca piano e em "Unquiet Grave” ela recupera uma canção tradicional inglesa numa versão a cappella, onde a sua voz se destaca e mostra todo o seu potencial. "Ghost Song” está disponível nas plataformas de streaming.

 

NA AVENIDA - O local é belíssimo, com uma iluminação indirecta vinda do tecto, confortável, a realçar a arquitectura do local, uma sala ampla com janelas rasgadas sobre a Avenida da Liberdade. Durante uns anos, no piso de entrada do Hotel Tivoli, em Lisboa, viveu a Brasserie Flo, substituída há já algum tempo pela actual Cervejaria Liberdade. Da lista anterior sobreviveu o bife tártaro, que continua a ser preparado junto ao cliente, com todo o preceito. A sala desenvolve-se em torno de um balcão central onde se podem apreciar alguns dos produtos frescos, como ostras de Setúbal ou do Algarve, lagosta ou lavagante. Nas carnes, além do já citado tártaro de novilho, pode provar um muito honesto pica-pau do lombo ou costeletas de borrego grelhadas. Nos peixes a escolha é vasta e vai de arroz de polvo ou de de garoupa e camarão até bacalhau à Brás. Numa recente visita, a assinalar o primeiro dia do ano, ao jantar, a casa estava cheia e o serviço de sala foi exemplar, em contraste com um mau serviço de acolhimento de uma recepcionista notoriamente pouco inclinada para dar atenção aos clientes. Nas entradas havia várias opções interessantes, desde croquetes de vitela a carpaccio de polvo mas a escolha recaiu numa casquinha de sapateira muito bem temperada, que veio acompanhada de fatias de bom pão levemente torrado. No prato principal brilharam os filetes de peixe galo acompanhado de arroz malandro de tomate com coentros - tudo belíssimo. A lista de vinhos é bem escolhida, preços acima da média mas mesmo assim com algumas boas opções ajustadas a não entrar em falência logo no início do ano. Há também uma lista de cervejas, boa companhia para o pica-pau ou o tártaro. Para quem quiser há opções vegetarianas e nas sobremesas brilham os crêpes Suzette, também feitos junto à mesa, no entanto sem o glamour de idêntico preparo no Gambrinus. Mas o facto não desmerece o serviço na sala que é atento, gentil e rápido.  A Cervejaria fica na Avenida da Liberdade 185,  telefone 933 001 457.

 

DIXIT - “ Este Governo não sabe governar: distribui o que pode. Arranja financiamentos europeus. Dá uns subsídios. Adia uns problemas. Cria mais umas comissões. Mas não sabe governar” - António Barreto.

 

BACK TO BASICS - “O que corre mal é frequentemente o resultado de mau planeamento” - Roald Amundsen



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NOVE MESES DE MAIORIA ABSOLUTA

por falcao, em 30.12.22

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NOTÍCIAS DA BOLHA - Não vejo melhor forma de analisar o que se passou em Portugal este ano do que fazer o balanço da maioria absoluta conquistada pelo PS no final de Janeiro passado. Todos sabemos que 2022 tem sido carregado de mudanças no executivo, de pequenos e grandes escândalos envolvendo governantes, familiares de governantes, amigos de governantes. No caso Alexandra Reis, que culminou agora na sua demissão escassas semanas depois de ter tomado posse,  o Primeiro-Ministro e os Ministros que directamente a tutelavam dizem que não sabiam o que se tinha passado na sua dança entre TAP, NAV e Governo, tudo na esfera pública. O facto abona pouco sobre a forma como são escolhidos os membros do executivo e é pouco credível. Fica a sensação de que, mais uma vez, se achou que o caso não tinha importância e talvez passasse despercebido. Mas lá veio a bolha mediática incomodar a maioria absoluta. Recordemos: António Costa já fez diversas mexidas no Governo a nível ministerial e de secretários de Estado, mudanças sempre empurradas por notícias relacionadas com o desempenho ou o passado de quem acabou substituído. O primeiro-ministro entende que a única instabilidade que existe é a provocada por aquilo a que chama “a bolha mediática”, essa incómoda mania de alguns jornalistas irem à procura de factos em vez de subscreverem os comunicados oficiais. É na realidade uma grande maçada haver jornalistas, notícias incómodas, investigações sobre a carreira dos governantes. E o que têm tantas vezes em comum as bolhas mediáticas nascidas deste executivo ? -  euros, maravedis, o vil metal. Parece que neste Governo o difícil é encontrar uma bolha mediática que não tenha a ver com negócios pouco claros. Se o objectivo de ter uma maioria absoluta era garantir estabilidade, isso não é o que está a acontecer. O caso da ex-secretária de estado do Tesouro, Alexandra Reis, é apenas mais um exemplo da forma como Costa anda a escolher pessoas para o seu Governo. Como bem escreveu João Miguel Tavares, “Isto é Gozar Com Quem Trabalha”. Termino a citar Joaquim Aguiar: “quando se está num contexto de maioria absoluta de um só partido, não se violam as normas da democracia pluralista, mas perdem-se defesas democráticas importantes.”  

 

SEMANADA - Este ano o poder de compra do salário mínimo caíu pela primeira vez desde 2012; segundo a DECO os produtos da lista de compras da ceia de Natal subiram 23% em relação ao ano passado; em 62% dos concelhos do continente já não há vagas nas creches do sector social; o preço das casas subiu 13% no terceiro trimestre deste ano; nos primeiros três trimestres deste ano a receita fiscal cresceu 20,6%; as rações para cães aumentaram 30% num ano e as rações para gatos tiveram um aumento de 25% no mesmo período; o mais recente boletim sobre combustíveis da Comissão Europeia indica que Portugal tem a 13ª gasolina 95 mais cara dos 27 países da União Europeia; em 2022 aposentaram-se 800 médicos do Serviço Nacional de Saúde; depois de ter anunciado, há seis meses, o recomeço das obras de  modernização da ferrovia da Linha do Oeste tudo continua parado; desde que a TAP é pública cinco administradores executivos saíram da empresa, mas só Alexandra Reis recebeu uma compensação; segundo um relatório sobre violência associada ao desporto, na época 21-22 registaram-se 335 adeptos impedidos de entrar em recintos desportivos, quase metade deles ligados ao Sporting; entre 30 de Dezembro e 2 de janeiro cinco blocos de partos vão estar encerrados: Caldas da Rainha, Barreiro, Loures, Beja e Portimão; segundo a Marktest em 86% dos lares portugueses consumiu-se bacalhau nos últimos 12 meses; o governo espanhol tirou o IVA ao pão, leite e ovos.

 

O ARCO DA VELHA - Nos primeiros nove meses de existência deste Governo já se demitiram oito dos seus membros.

 

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ARTE PARA CRIANÇAS - A sugestão que aqui deixo é uma exposição dedicada aos mais novos, “Dos Pés À Cabeça”, que pode ser vista no Museu Colecção Berardo ainda durante algum tempo. Com as alterações que vão ocorrer no Museu o calendário de novas exposições ainda não está divulgado, mas de qualquer maneira, pelo menos durante algum tempo em Janeiro a exposição poderá ainda ser vista. A exposição começa por uma cronologia sobre a presença da figura humana nas expressões artísticas ao longo dos séculos, depois aborda o desenho infantil da figura humana, seguida de uma sala dedicada às poses para a câmara fotográfica, um vídeo sobre o sonho de uma criança, os diferentes pontos de vista na abordagem de um tema, entre outros. Comissariada por Cristina Gameiro esta exposição proporciona a oportunidade de os mais novos poderem ver, expostas de forma que estejam no mesmo plano do seu olhar, obras da colecção Berardo de nomes como Henri Michaux, Jean Dubuffet, Henrique Pousão, Álvaro Lapa, Fernando Lemos, Pauliana Valente Pimentel, Ângelo de Sousa, Albuquerque Mendes, Julio González, Helena Almeida, Keith Haring, Nan Goldin ou James Turrell, entre outros. A exposição está no piso -1 do Museu Colecção Berardo, os adultos pagam 5 euros e as crianças têm entrada gratuita. Como escreve Cristina Gameiro, “pensada para os mais novos, esta exposição pretende dar a conhecer a forma como os artistas modernos e contemporâneos pensam, representam e apresentam o corpo humano”.

 

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OS HOMENS DAS AGÊNCIAS -  A história da comunicação e do jornalismo em Portugal não pode ser feita sem um olhar sobre a história das diversas agências noticiosas. Wilton Fonseca, que tem o jornalismo de agência no seu sangue, tem-se debruçado, a solo ou em conjunto com outros jornalistas, sobre este tema. Depois de, com Mário de Carvalho, ter escrito “História da Anop e da NP” e, sózinho, ter publicado “Da Monarquia ao Estado Novo: Agências Noticiosas em Portugal”, lançou agora, em co-autoria com Gonçalo Pereira Rosa o livro “ Jornalista, Espião e Empresário - A vida aventureira de Luís Lupi nos corredores do Estado Novo”. O livro, editado pela Âncora, permite levantar o véu sobre a história escondida das agências de notícias durante o Estado Novo. Descrito como jornalista, espião e empresário, Luis Lupi foi correspondente em Portugal das agências Reuters e Associated Press e fundador da agência Lusitânia, que imaginou poder rivalizar com a oficial ANI, Agência Nacional de Informação. O livro percorre a vida de Luís Lupi, conta como espiou na Guerra Civil de Espanha,  descreve-o como um comerciante de notícias que compreendia a importância das agências, personagem misteriosa, próximo de Salazar e Caetano sem nunca ter sido íntimo. O livro é sustentado em muita investigação e documentos inéditos de arquivos privados. Termino citando o que os autores escrevem numa espécie de prefácio: “A Academia conta com poucos docentes que exerçam ou tenham exercido o jornalismo, e ainda menos com “agencieiros”. Consequentemente os jornalistas portugueses são formados a ver as agências noticiosas como algo secundário, o que se reflecte nas suas investigações e trabalhos”. E mais à frente: “tal fenômeno de esquecimento encontra um paralelo imediato na imprensa portuguesa da actualidade. alguns dos nossos jornais de referência são capazes de publicar páginas e páginas sobre um determinado assunto sem mencionar uma única vez as agências noticiosas onde foram obrigatoriamente ler as informações que fornecem aos seus leitores”.

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REVISITAR HUNKY DORY - “Divine Symmetry" é uma edição especial, uma caixa de 4 CD’s, que inclui um folheto com textos e fotos da época, e que retrata o processo criativo do histórico disco “Hunky Dory”, o quarto álbum de estúdio de David Bowie, gravado no verão de 1971 e editado em dezembro do mesmo ano. Foi o disco que afirmou Bowie, que até aí tinha tido uma carreira incerta e oscilante. O processo de elaboração do álbum foi muito influenciado pela estada de Bowie nos Estados Unidos, onde descobriu a música de nomes como Lou Reed e Iggy Pop no início dos anos 70. Aparentemente o personagem Ziggy Stardust é fruto das reflexões em torno do que viu em Nova Iorque nessa época. Em Hunky Dory apareceram canções como “Song To Bob Dylan”, “Andy Warhol” ou “Queen Bitch”, uma evocação dos Velvet Underground. Hoje em dia “Hunky Dory” é considerado o ponto de viragem que permitiu a Bowie explorar novos caminhos. “Divine Symmetry" vem acompanhado pelo subtítulo “An Alternative Journey Through Hunky Dory”. De facto o que esta caixa de quatro CDs faz é proporcionar uma visão sobre o que Bowie andou a fazer desde o início de 71 - as demos iniciais das canções, versões alternativas de estúdio e ao vivo, alguns originais, gravações de uma sessão no programa de John Peel, além de um livro de 100 páginas com fotografias da época, reproduções de apontamentos do próprio Bowie e  comentários de várias pessoas envolvidas no trabalho. 

 

COZINHA INFLACIONADA - Nas últimas semanas algumas newsletters que subscrevo com receitas culinárias, e que muitas vezes são fonte de inspiração para as minhas experiências, começaram a publicar sugestões de aproveitamento de restos de outras refeições, sob o título “Day Before Payday”. Fruto da inflação, chega-se às vésperas do ordenado com a conta desfalcada, de modo que nada como combater a inflação com criatividade. Uma das sugestões de que mais gostei é arroz frito com legumes e carne. A coisa é simples: pega-se em arroz branco já cozinhado que sobrou e, por exemplo, em restos de peru (ou outra carne), na proporção de três partes de arroz para duas de carne cortada aos pedaços pequenos. A isto acrescenta-se uma cenoura grande aos cubos, um punhado de ervilhas congeladas, alho francês às rodelas, um pedaço de gengibre picado, três ovos, três colheres de sopa de azeite e outras tantas de molho de soja. Tenham um wok ou frigideira grande à mão. Comece por fazer os ovos mexidos e quando estiverem no ponto retire-os para um prato e reserve. Depois acrescente o resto do azeite e, com lume alto, coloque todo o arroz e deixe-o fritar um pouco. No fim acrescente os legumes, tape e deixe em lume médio durante cinco minutos. No fim acrescente os ovos e o molho de soja e deixe em lume brando mais um pouco até estar tudo bem envolvido e cozinhado - dois ou três minutos devem bastar. Veja se precisa de sal ou pimenta. Bom apetite.

 

DIXIT - “Tornámo-nos uma sociedade de surdos” - Tolentino de Mendonça

 

BACK TO BASICS - Um optimista fica acordado à espera de ver o novo ano chegar. Um pessimista espera para ter a certeza que o ano velho termina” - Bill Vaughan

 




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OS MALUCOS DA BOLA -  Como reage o país ao futebol? Se olharmos para o quadro de audiências dos canais de televisão, podemos ter uma ideia. Este ano, dos 25 programas mais vistos, 20 foram transmissões de jogos de futebol, quatro foram episódios do Big Brother e o outro foi um Telejornal. Está feito o retrato do país em termos televisivos. Destes 20 desafios de futebol que tiveram grande audiência, nove foram transmitidos pela RTP1, sete pela TVI e quatro pela SIC. O jogo que obteve maior audiência foi o Portugal-Suíça, visto por cerca de 3,7 milhões de espectadores. Em termos de comparação, o jogo da final do Mundial, entre a Argentina e a França, teve um pouco mais de dois milhões de espectadores. Destas 20 transmissões de desafios de futebol, doze foram do Mundial, nas suas várias fases, quase todas com jogos da Selecção Nacional. Os jogos do Mundial transmitidos pelos canais generalistas tiveram, no total, mais de 22 milhões de espectadores. Os números não iludem: o futebol continua a ser rei da televisão e, apesar dos elevados custos dos direitos de transmissão, as estações continuam a bater-se por eles. A RTP adquiriu há uns anos os direitos para este Mundial por 13,2 milhões de euros - e este valor não inclui as transmissões dos jogos da Selecção durante a fase de qualificação. A RTP acabou por revender parte dos direitos a outras estações e a SIC e a TVI transmitiram três jogos cada e a SportTV também fez transmissões. A RTP conseguiu assim diminuir o seu envolvimento financeiro, que ficou quase exclusivamente limitado aos jogos da Selecção Nacional. Agora que o Mundial acabou, seria curioso saber qual o valor total gasto pela RTP nas várias fases do Mundial e qual o valor de receitas publicitárias que arrecadou. Recordo que a RTP tem um limite máximo/hora de emissão de publicidade que é metade do dos canais privados. E, claro, isto volta a trazer à baila a questão de saber até que ponto é que as transmissões de futebol são serviço público. O Ministro da Cultura, que tutela a RTP e que já foi comentador futebolístico na televisão, que acha disto? Deve o serviço público investir mais no futebol que noutros conteúdos?

 

SEMANADA - Em dez anos foram atribuídos 10254 vistos gold a cidadãos estrangeiros, que resultaram na criação de apenas 20 postos de trabalho; os estrangeiros a viver em Portugal equivalem a toda a população de Lisboa; segundo a OCDE Portugal é um dos países com menos camas hospitalares por habitante; Portugal é o quinto país mais envelhecido do mundo o que se repercute nos cuidados de saúde que devem ser prestados; dos bebés nascidos no ano passado em Portugal, 14 % são de mãe estrangeira; segundo o Governador do Banco de Portugal, 40% das famílias serão colocadas em situação difícil em 2023 por causa da inflação e do aumento dos juros; o Ministro das Finanças declarou que no seu entender 2023 não terá um cenário de recessão; as dívidas a fornecedores do Serviço Nacional de Saúde estão no valor mais alto desde 2014 e já somam 2350 milhões de euros; o produto interno bruto per capita em Portugal, expresso em paridades de poder de compra, caiu pelo segundo ano consecutivo em 2021 e situa-se agora em 75,1% da média da União Europeia, o pior resultado desde 2009;  na zona euro só a Letónia, Eslováquia e Grécia estão piores do que Portugal; um estudo divulgado esta semana indica que seis em cada dez portugueses vivem pior que em 2021; segundo o Eurostat, em 2021 o ordenado médio mensal em Portugal era 634 euros mais baixo do que em Espanha.

 

O ARCO DA VELHA - O movimento dos jatos particulares nos aeroportos portugueses aumentou e até outubro foram registados mais de 18 mil voos privados em Portugal.

 

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IMAGENS CERTAS - Ao contrário do que acontece noutros países em Portugal a fotografia documental tem sido relegada para segundo plano, ultrapassada pela utilização da fotografia como ferramenta manipulável, mais do que como forma de expressão ou de ser um olhar sobre a realidade. No segmento a que se convencionou chamar “fine art photography” a fotografia é encarada como uma maneira de criar ilusão, quase que, nalguns discursos mais sectários, excluindo que a realidade possa ter valor artístico.  Felizmente, numa iniciativa da associação CC11 e da Narrativa, com o apoio da  Galeria Santa Maria Maior, foram desafiados 66 fotojornalistas a apresentarem outras tantas imagens na exposição “Edição Limitada”. As imagens expostas são olhares sobre a realidade do dia a dia, todas em formato 40x60, e são assinadas por nomes como  Alexandre Almeida, Alfredo Cunha, António Pedro Ferreira, Bruno Portela, Céu Guarda, Clara Azevedo, Enric Vives-Rubio, Fernando Ricardo, João Porfírio, José Pedro Santa-Bárbara, José Sarmento Matos, Luísa Ferreira, Paulo Alexandrino, e Tiago Miranda, entre muitos outros. Tiago Miranda, que é o coordenador deste projecto, sublinha que ele pretende reclamar um direito tão antigo quanto a própria invenção da fotografia" que é tornar a fotografia jornalística e documental um objeto adquirível e colecionável, por particulares e instituições. “Apesar de uma imagem fotojornalística nos ser por definição emocionalmente próxima, única, original e histórica, o circuito das galerias de arte e das coleções públicas e privadas, há muito tempo que em Portugal coexistem de costas voltadas para com o fotojornalismo", afirma. No texto de apresentação da exposição Emília Ferreira, Directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sublinha que “muitos dos representados nesta exposição veem há muito as suas imagens expostas e estudadas em espaços institucionais”, e deixa uma interrogação:  “Porque resistiremos a considerar arte esta disciplina da fotografia?- Não tenho resposta.”  “Edição Limitada” está patente na Galeria  Santa Maria Maior, Rua da Madalena 147, até 21 de Janeiro, de segunda a sábado, das 15h às 20h. E destaco o importante trabalho que esta Galeria tem feito na área da fotografia.

 

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OUTRA FOTOGRAFIA -  O décimo volume da Ph. , uma colecção de livros de fotografia da Imprensa Nacional, dirigida por Cláudio Garrudo, é dedicada à obra de António Júlio Duarte, mostrando a sua errância por espaços urbanos, de Hong Kong aos Estados Unidos, passando por Cabo Verde, Itália, Rússia, Japão e, claro, Portugal. O livro publica diversas obras inéditas do fotógrafo e tem uma estrutura cronológica, onde o autor revisita conceitos do seu trabalho e é perceptível a sua evolução. Sofia Silva, no ensaio publicado no livro sublinha as composições “cruas e rigorosas” de António Júlio Duarte e defende que “com ou sem flash as imagens são sempre ficção e o que está fora delas nunca existiu”, perguntando: “quem guardará memória das coisas que não existem, senão no fotográfico?” No fundo, e por coincidência, entre a exposição referida nestas páginas e este livro mostram-se os dois lados da fotografia, entre a realidade e a fantasia, entre o que mostra o que se passa e o que reflecte o que se pensa ou imagina. É uma curiosa coincidência que eles coexistam no tempo, provando que estes dois lados são como a cara e a coroa de uma moeda. Um tem tanto valor como o outro. António Júlio Duarte é, dentro da área em que trabalha, dos mais lúcidos e honestos autores na utilização que faz da fotografia, fugindo ao facilitismo e mostrando sempre um claro sentido de observação e oportunidade - e também por isso é interessante conhecer esta sua obra. António Júlio Duarte expõe com regularidade desde a década de 90 do século XX.

 

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TRIOS VARIADOS - Este ano o saxofonista Charles Lloyd editou três discos, todos utilizando a formação de trio e com músicos diferentes em cada um deles. “Sacred Thread”, “Ocean” e “Chapel” são esses três discos. Nos dois primeiros Lloyd é acompanhado pelo pianista Gerald Clayton e o guitarrista Anthony Wilson, no segundo pelo percussionista Zakir Hussain e pelo guitarrista Julian Lage e finalmente no terceiro, “Chapel”, gravado ao vivo, é acompanhado pelo guitarrista Bill Frisell e pelo baixista Thomas Morgan. A minha preferência pessoal vai para “Chapel”, que tem cinco temas, todos eles anteriormente gravados noutras circunstâncias e três deles são composições originais de Charles Lloyd e dois são versões. Frisell tem acompanhado Lloyd no seu quinteto ocasional The Marvels e Thomas Morgan é um velho parceiro de Frisell, quer em duo, quer em trio. As duas versões são“Blood Count”, de Billy Strayhorn, um exemplo perfeito do diálogo entre saxofone, guitarra e baixo e um tema cubano, a balada “Ay Amor” onde o saxofone de Lloyd assume o maior protagonismo. “Song My Lady Sings”, “Tone Poem” e “Dorotea’s Studio” são os três originais de Charles Lloyd. Destaque, em todo o disco, para a subtileza com que Frisell toca a guitarra de forma suave e melódica. 

 

UM PERU DIFERENTE - O peru faz parte do imaginário do Natal, na sua versão tradicional, inteiro, enorme, transbordante, recheado, a ficar temperado de um dia para o outro dentro de um grande alguidar. Mas muitas vezes o resultado de fazer um peru assado é que se fica a comer os restos durante dias a fio. Sugiro uma alternativa para quem não tiver muita gente à mesa: peito de peru assado no forno. Uma peça entre 1,5 e 2 kgs será o ideal. E agora uma heresia: nada de marinadas tradicionais: em vez disso barrem bem todo o peito de peru com limão e sal natural. Num tabuleiro de ir ao forno, que deve estar a 200 graus, coloque o peito de peru já temperado, reguem-no primeiro com um pouco de vinho branco,  depois com azeite e, finalmente, pimenta preta moída na altura. Finalize com mel espalhado por toda a superfície. No tabuleiro coloque raminhos de alecrim e folhas de louro, assim como alguns dentes de alho inteiros só para aromatizar. Vai a forno a 200 graus durante 20 minutos. Depois baixa-se o forno para 150 graus, altura em que o vai cobrir com uma folha de alumínio. Deixe ficar mais meia hora assim. Ao fim desse tempo verifique com uma faca afiada se a carne já está cozinhada e deixe-a repousar no forno desligado durante mais uns 15 minutos antes de servir. Aproveite o molho do tabuleiro, adicione mostarda e mais um pouco de mel, mexa tudo bem e coloque-o numa taça à parte para quem quiser. Acompanha com batata doce assada aos pedaços, salpicada de rosmaninho. Bom Natal!

 

DIXIT - “Não vejo diferença entre António Costa com sono e quando está acordado” - Rui Rocha, candidato a presidente da Iniciativa Liberal

 

BACK TO BASICS - “Digam o que disserem dos Dez Mandamentos, devemos sempre regozijar-nos que sejam apenas dez” - H. L. Mencken

 



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OS INCAPAZES - O uso da demagogia em política é uma coisa tramada. Nas inundações da semana passada o PS de Lisboa veio rápido atacar Carlos Moedas, acusando-o de diversas malfeitorias que teriam estado na origem de tudo o que aconteceu. Imputaram-lhe numerosas responsabilidades no assunto mas, certamente por esquecimento, ainda não o acusaram de ter feito a dança da chuva, seguindo o ritual dos índios Sioux. Neste farwest em que a política portuguesa se tornou, e no qual vive a oposição na autarquia lisboeta, vale tudo, até pelos vistos arrancar olhos. Se calhar por isso o PS lisboeta fechou os olhos ao tempo em que, enquanto António Costa e Fernando Medina dirigiram a autarquia, meteram na gaveta um projecto que aliviará os resultados das chuvas intensas, o túnel de drenagem que Moedas decidiu recuperar e iniciar. Quando António Costa entrou na presidência da Câmara de Lisboa, em 2007, já existiam os primeiros estudos e planos sobre esse túnel de drenagem, cinco quilómetros que vão de Campolide até Santa Apolónia, e que, uma vez acabado, permitirá que o que aconteceu nas últimas semanas não se repita. E, no entanto, durante os 13 anos em que o PS esteve à frente da Câmara de Lisboa, entre 2007 e 2021, nas mãos de Costa e Medina, nada se fez nem se avançou nessa obra fundamental para a cidade. Carlos Moedas, numa entrevista recente, garantiu que quando chegou à autarquia lisboeta  não havia planos de execução da obra, que ele próprio mandou avançar.  O arranque da obra, um  ano depois de Carlos Moedas ter entrado em funções, foi anunciado há semanas, antes de todas as chuvas recentes. Esta vai ser uma obra cara, longa, e incómoda para os lisboetas, tudo coisas que desaconselham um político a meter-se no assunto - e deve ter sido por isso que Costa e Medina nem quiseram ouvir falar de túneis. Muitas vezes não fazer nada e deixar as coisas arrastarem-se é o programa de acção dos políticos que vivem a fugir dos problemas e esperam com isso ganhar uns votos de quem não pensa no futuro. São os mesmos políticos que, a seguir, estimulam os seus seguidores a criticar quem fez o que eles não foram capazes de fazer.

 

SEMANADA - Em Lisboa o arrendamento de um T1 representa em média 63% do salário mensal, contra 45% em Madrid, 40% em Paris ou 24% em Viena;  Portugal registou  a maior subida dos juros de crédito à habitação de toda a zona euro; segundo uma sondagem divulgada no início da semana 37% dos portugueses vai cortar nos gastos de Natal; o cabaz de produtos alimentares essenciais já aumentou quase 20% desde o início do ano e peixe, lacticínios e carne foram os produtos que mais subiram; 96% dos portugueses assinam pacotes de televisão por cabo, serviço que chega a 4,5 milhões de lares; a segurança privada em Portugal já tem 60.000 profissionais e factura 945 milhões de euros por ano; segundo o Instituto do Cinema e Audiovisual  Lisboa tem 12,1% do total das salas de cinema do país; as salas de cinema em Portugal perderam 40% dos espectadores este ano, em comparação com o período pré-pandemia; nos primeiros seis meses do ano aumentou nos hospitais públicos o incumprimento dos tempos de espera para consultas e cirurgias de cancros e coração; só 52 dos 201 municípios do país aceitaram, no âmbito das medidas de descentralização, as competências na área da saúde e as razões para a recusa são a não transferência de verbas e garantia de condições e médicos por parte do Governo.

 

O ARCO DA VELHA - Um advogado, Rui Santana, condenado quatro vezes por enganar clientes e ficar com dinheiro que não é seu, continua em liberdade e a exercer e tem o seu nome e contacto disponíveis no site da Ordem dos Advogados.

 

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UM DESTAQUE NA MADEIRA - Lourdes Castro foi uma das mais importantes artistas portuguesas, com um percurso iniciado na Madeira, onde nasceu, e que passou por Lisboa, Munique, Paris e Berlim, locais onde viveu e trabalhou até regressar ao Funchal. Em Paris, no final dos anos 50, integrou o grupo KWY, que editou uma revista homónima, e que integrava nomes como João Vieira, Costa Pinheiro, René Bertholo, Jon Voss e Christo, entre outros. Viveu em Paris 25 anos, regressou ao Funchal em 1983 e a partir daí viveu na sua casa no Caniço. Pelo meio teve exposições em Serralves , na Gulbenkian e na Bienal de S. Paulo. Lourdes Castro morreu em Janeiro deste ano, com 91 anos, e agora abriu no MUDAS - Museu de Arte Contemporânea da Madeira, uma exposição que mostra não só obras de diversas fases da sua carreira artística, como abundante documentação que a curadora Márcia Sousa recolheu e começou a organizar depois da sua morte. A exposição “Como uma Ilha sobre o Mar: Lourdes Castro” (na imagem) abriu este mês, conta com 300 peças, entre obras e documentação, recolhidas a partir do espólio da artista mas também das colecções de diversas instituições, e ficará disponível ao público até Junho de 2023. É uma ocasião única para descobrir não só a obra mas também a forma como Lourdes Castro encarava o seu trabalho e momentos da sua vida. Do Funchal sugiro uma passagem pelo Porto, onde no renovado Cinema Batalha já se pode ver, restaurado, o grande painel que Júlio Pomar fez para esta sala e que durante muitos anos esteve escondido do olhar do público. 

 

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A ESCRITA DA MEMÓRIA -  Gosto muito de ler Bruno Vieira do Amaral. Escreve bem, com ritmo, humor, um raro sentido de observação e uma forma simples de nos fazer pensar em coisas que vemos todos os dias mas às quais nem ligamos. Não usa floreados,  não pratica estilos retorcidos, não atira erudição barata para cima dos leitores, apenas bom senso. É terra-a-terra num país em que há uma geração recente de escritores que gosta de se colocar nas nuvens, de onde os seus protagonistas vão caindo aos trambolhões. O seu novo livro, “O Segundo Coração”, reúne crónicas publicadas na imprensa. É um livro de memórias e Bruno Vieira de Amaral foi buscar o título do livro a uma citação de John Banville que adoptou como epígrafe desta obra: «O passado bate em mim como um segundo coração.» O livro fala das aspirações da juventude, dos amores e as desilusões, também das humilhações, dos ódios gratuitos e inexplicáveis, das noites solitárias da adolescência,de querer ver um filme sozinho no cinema. Aqui cruzam-se as memórias de infância, os hábitos familiares, as férias grandes,os primeiros amigos, um rol de afectos e recordações. Bruno Vieira do Amaral publicou o seu romance de estreia, “As Primeiras Coisas”, em 2013 e de então para cá escreveu, entre outras coisas, mais um romance, um livro de contos e uma biografia de José Cardoso Pires. No fim do livro, em “O adulto é o túmulo da criança”, Bruno Vieira do Amaral conta esta história: “Lembro-me que tinha cinco anos e o fotógrafo pediu-me para segurar uma maçã e aproximá-la da boca, como se a fosse morder, mas sem abrir a boca. Devia olhar para a câmara e sorrir. Obedeci. Vestido com o meu pullover azul seguro a maçã vermelha, inteira, e olho para a câmara com um sorriso”. Lindo, não é? Edição Quetzal 

 

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EMOÇÃO - Por estes dias descobri um disco que, na altura em que saíu,  em finais de Setembro deste ano, me passou despercebido. Tenho estado a ouvi-lo frequentemente e, quanto mais o ouço, mais me convenço que é um dos grandes discos do ano. Trata-se de “Angels & Queen Part 1”, dos Gabriels, um trio de gospel de Los Angeles em que as vozes fazem uma rara ligação entre ritmos e melodias. Há aqui influências tribais que se conjugam com subtilezas de percussão e manobras sábias de produção em estúdio. É extraordinária a forma como a invulgar voz de Lusk casa com os arranjos ao longo das sete canções deste disco. Baladas como “To The Moon”, “If Only You Knew” ou “Mama” são diferentes mas complementares ao impulso rítmico lançado por “Angels & Queens”, a faixa de abertura, ou esse empolgante desafio que é “Taboo”, ou ainda a marca soul de “Remember Me” e “The Blind". E assim, quase num repente, se esgotam os sete temas deste disco surpreendente. Mas, quem são os Gabriels? Em primeiro lugar vem Lusk, maestro de um côro de gospel  que participou em 2011 no programa de Tv “American Idol” e a seu lado estão Ari Balouzian, que é o compositor de serviço ao trio e, finalmente, Ryan Hope, que assegura  além da sua participação musical os originais vídeos da banda - foi aliás ele que encontrou nome para o grupo, Gabriels, em honra da rua onde cresceu em Sunderland. Lusk fornece o carisma e a voz poderosa e original mas este é um trio que funciona bem em conjunto, os talentos completando-se. Neste novo disco foram ajudados em estúdio por  Sounwave, que tem trabalhado frequentemente com Kendrick Lamar e que aqui assume a produção, conseguindo uma sonoridade de contrastes, ora tumultuosa, ora sossegada. “Angels & Queen Part 1”, dos Gabriels, está disponível nas plataformas de streaming, na primavera do próximo ano sairá a segunda parte.



MOÇAMBIQUE À VISTA - Aqui há uns dias provei umas das mais deliciosas chamuças de que tenho memória. A massa era finíssima, estaladiça, enxuta, sem gordura, e o recheio cremoso era feito à base de um camarão picado e bem temperado com o sabor dos coentros a revelar-se. A coisa passou-se no Kaia Kahina, um restaurante na Parede, Rebelva, que se dedica à cozinha moçambicana e ao qual gastrónomo amigo me levou. Do menu faz parte um leque de pratos de caril, muito bem confeccionados e com base em caranguejo, camarão e frango. A acompanhar vem um arroz basmati impecável, solto e saboroso. Outras opções da lista são Matapá de camarão à moçambicana feito com preceito com amendoim torrado, chacuti de cordeiro ou de frango, e esse templo da cozinha indo-portuguesa que é o balchão de vitela, assim chamado pelo condimento utilizado, o balichão. Resta dizer que um dos pratos mais procurados da casa é o sarapatel Nas sobremesas não podia faltar a bebinca, tradicional e séria, construída em nove camadas. A lista de vinhos é curta mas existem cervejas moçambicanas - as célebres 2M e Laurentina Kaia Khaina, para que saibam,  significa “a nossa casa” em changana, a língua mais falada em Maputo. Esta bela casa fica na praceta Lagoa de Óbidos  85, Parede, Rebelva, reservas aconselháveis pelos telefones  211 931 440 e 912 376 277, já que  a sala não é muito grande.



DIXIT - “Se a vanguarda só convive com a vanguarda, com públicos de vanguarda, não vale a pena. Temos que ser de vanguarda dentro do sítio mainstream”- Miguel Esteves Cardoso

 

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O DINHEIRO DA CULTURA

por falcao, em 09.12.22

 

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A SUBSÍDIODEPENDÊNCIA  - Um dos temas da semana passada foi o apoio financeiro do Estado à cultura e às artes. Foram revelados os resultados de seis concursos de apoio e a polémica nasceu de imediato. Quase 60 candidaturas contestaram os resultados e cerca de 800 estruturas e profissionais do sector da Cultura subscreveram um abaixo-assinado de apelo ao reforço de verbas dos concursos. Estamos a falar de um volume global de apoios no valor de 148 milhões de euros. Este é um protesto recorrente: o volume de apoios vai crescendo mas nunca chega para todos e há sempre queixas e insatisfeitos. Nasce assim um pântano que condiciona tudo. Creio que existem três problemas fundamentais a considerar: a existência de estruturas de produção artística que se desenvolveram com um modelo de dependência exclusiva, ou muito maioritária, dos subsídios do Governo ou das autarquias; a nula ou diminuta aplicação de mecanismos de avaliação que tenham em conta dados concretos de captação de novos públicos e da audiência conseguida, por forma a ter uma leitura, pelo menos nos casos das artes performativas, dos resultados práticos dos apoios recebidos; e a grande dificuldade dos agentes envolvidos na produção artística em conseguirem apoios privados - quer pela ineficácia da lei do mecenato, quer por razões conjunturais, nomeadamente porque as causas sociais e ambientais são hoje mais procuradas pelas empresas do que as culturais. Há uma parte do sector da produção cultural que se sente bem a não ter que depender do público, e ambiciona viver para sempre de apoios oficiais. A propósito José Pacheco Pereira escreveu no “Público” de sábado passado: “Quando se olha para o fundo dos cartazes de concertos, performances, acções culturais de todo o tipo, percebe-se que na sua esmagadora maioria são suportadas pelo Estado e pelas autarquias, o que levanta a questão maldita da “subsidiodependência”. Só nomeá-la suscita de imediato uma fronda de insultos, processos de intenção, acusações com sucesso garantido dada a facilidade com que este mundo chega à comunicação social e mais, a presunção de que há em matérias de cultura — entendida erradamente como sinónimo de criatividade — uma espécie de noli me tangere , que ninguém me toque, porque os “criadores” são intocáveis.” Em Portugal vive-se com a ideia de que os apoios do Estado são definitivos, eternos e que não podem mudar. Esse pensamento é paralisante, e, em última análise, prejudica o surgimento de novos valores. Quem o defende está no fundo a impedir a dinâmica de transformação e renovação da produção cultural.  

 

SEMANADA - Comparando com 1991 Portugal tem agora mais um milhão de pessoas acima dos 65 anos, segmento que no conjunto alcança quase 2,5 milhões, ou seja 23,4% da população; no mesmo período perdeu mais de um milhão de crianças e jovens até aos 25 anos, cujo total é já inferior ao de maiores de 65 anos; dos 12 mil médicos dentistas inscritos na Ordem cerca de 13% foram para o estrangeiro e, dos que trabalham em Portugal, 98,5% estão no privado; devido ao custo da habitação quase 60 mil pessoas foram forçadas a deixar Lisboa nos últimos três anos; a Banca portuguesa está a pagar em juros de depósitos quatro vezes menos do que a média da zona euro; segundo a DECO Proteste, o aumento da prestação de um empréstimo de 150 mil euros, com Euribor a 6 meses, é de 39%, entre junho e dezembro de 2022 e, com a Euribor a um ano, o aumento, de dezembro de 2021 a dezembro de 2022 chega mesmo aos 56%; em 2010 a nossa carga fiscal (impostos e contribuições sociais) era de 30,4% do PIB, mas em 2021 chegou a 35,8%, um valor acima da média da OCDE que é 34,1%; em Outubro deste ano o alojamento turístico teve mais 5% de dormidas do que em Outubro de 2019, antes da pandemia; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que os políticos portugueses são mais tolerantes em relação à corrupção do que os cidadãos; o mesmo estudo indica que 59,9% dos cidadãos consideram a honestidade o valor mais importante em democracia, mas menos de 20% dos deputados tem a mesma opinião; o mesmo estudo revela que a eficiência e o mérito são mais considerados entre os cidadãos do que entre os políticos.

 

O ARCO DA VELHA - Segundo o Eurostat os jovens portugueses são, em média, os que saem mais tarde de casa, aos 33,6 anos. Só 10% do crédito à habitação foi concedido a jovens até aos 35 anos.

 

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IMAGENS - Proponho uma deslocação ao Barreiro onde, no espaço do Auditório Augusto Cabrita, o fotógrafo José Manuel Rodrigues expõe seis dezenas de imagens reunidas sob o título “Amanhã Será Ontem”, onde o autor cria uma narrativa, aparentemente dispersa onde mostra o olhar do fotógrafo através de imagens observadas e de outras, encenadas. Todas estão aparentemente desligadas mas a montagem criada e o jogo de variações nas dimensões apresentadas conseguem estabelecer um fio condutor que nos leva a ligar vários tempos. Cito o texto de José Manuel Rodrigues sobre o trabalho que apresenta: “a rotação da terra define a vida, o nosso pensamento. Para eu encontrar essa continuação foram precisos milhares de milhões de anos, para enfrentar o que está agora à minha volta. (...) É a evolução do olhar até este sítio onde me encontro a escrever sobre a existência representada numa fotografia. A ligação de todos os tempos.”. A exposição apresenta inéditos, novas provas de autor, fotografias a preto e branco e a cor, em muitos formatos, alguns pequenos, abordando um grande leque de assuntos e que, nas palavras de Alexandre Pomar permite ver “uma grande diversidade de assuntos numa larga panorâmica do trabalho do JMR sempre em renovação”. A nona edição do Fotografia no Barreiro fica no Auditório Augusto Cabrita até 29 de Janeiro e se lá for pode também aproveitar e ver o trabalho de Patrícia de Melo Moreira, “Passado-Presente”.

 

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UM SUICÍDIO POÉTICO -  “Uma Temporada no Inferno”, de Arthur Rimbaud, é por si só um livro que proporciona uma leitura apaixonante. Começamos a lê-lo, surpreendemo-nos, voltamos atrás, temos a tentação de saltar umas páginas para depois regressar. Este livro é um vício. Como se não bastasse o texto de Rimbaud, a nova edição tem uma deliciosa introdução, de Manuel S. Fonseca, que nos leva à ligação entre Rimbaud e Paul Verlaine, nascida quando, em Setembro de 1871, o jovem Arthur Rimbaud, a um mês de completar 17 anos, bateu à porta do poeta Paul Verlaine. Ambos mergulharam numa vertigem de poesia, boémia e absinto. A relação de ambos viria a superar as barreiras da experimentação poética, e o escândalo gerado pelas extravagantes aparições públicas dos dois amantes levou-os a abandonar Paris, vivendo a paixão primeiro na Bélgica e depois em Londres, até à ruptura total, após Verlaine balear o seu amante num pulso. Sentindo-se rejeitado, Rimbaud – o adolescente Casanova, como um dia Verlaine lhe chamou – quis libertar-se daquela longa visita ao Inferno, expurgando num último livro as suas memórias e inquietações, antes de partir numa viagem de absoluto silêncio pelo deserto africano. Aos 19 anos Rimbaud decidiu deixar de publicar e fez o mais célebre “suicídio poético” da história da literatura. Nascia assim, em 1873,  “Uma Temporada no Inferno”. Controverso a raiar o escândalo, este é uma das grandes obras da poesia mundial, agora recuperada pela editora Guerra e Paz, numa edição bilingue (português e francês).

 

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DISCOS COMENTADOS - Bob Dylan começou a escrever “ The Philosophy Of Modern Song” em 2010 e editou-o este ano. Ao longo de 350 páginas Dylan mostra a sua visão sobre o que entende ser o melhor da música popular. São dezenas de ensaios sobre as canções de outros artistas, de Hank Williams a Nina Simone, passando por Elvis Costello. Aqui Dylan vai ao pormenor de cada canção, às palavras, às melodias, aos géneros musicais. E aproveita o que pensa sobre estas canções para, no fundo, escrever sobre a condição humana. Mais de seis dezenas de canções são contadas por Dylan neste livro, desde "Detroit City”, de Bobby Bare, de 1963, até “Where Or When”, de Rodgers e Hart, numa interpretação de 1959 por Dion And The Belmonts. O livro inclui centena e meia de fotografias escolhidas a pensar nas canções, com um grafismo cuidado que encerra ele próprio uma narrativa. The Clash, Who, Elvis Presley, Willie Nelson, Jackson Browne, Ray Charles, Grateful Dead, Platters, Johnny Cash, Peter Seeger, Eagles, Little Richard, Judy Garland, ou Sinatra, entre tantos outros, passam por aqui. Há os nomes que estão e os que faltam, que também são muitos - até podemos adivinhar  aquilo de que Dylan gosta e aquilo que não lhe interessa. Mas acima de tudo este é um livro que fala de canções, da época em que foram feitas e como Dylan as ouviu e descobriu. Não é um livro sobre intérpretes, é sobre a matéria prima da música popular - a canção. Edição original à venda na Amazon Espanha.

 

DEGUSTAR? - Há uns anos ia-se ao teatro ou a um concerto e depois comia-se alguma coisa. Juntava-se o espectáculo com um aconchegar do estômago. Depois, houve quem quisesse juntar dois em um: fez do jantar uma tentativa de espectáculo, coreografada, encenada, excessiva, provocadora. Da mesma maneira que não interferimos no que se passa no palco, limitamo-nos, nesses casos, a assistir. O chamado fine dining fez dos clientes dos restaurantes sujeitos passivos que se sentam e levam com um menu fixo, pomposamente intitulado menu degustação, uma expressão que diz que a escolha não é do cliente naquele local. É a ditadura do menu e do seu autor, o todo poderoso Chef. Por isso estou cheio de vontade de ver o filme “O Menu”, onde Ralph Fiennes desempenha o papel de Chef despótico, reproduzindo o ambiente de um restaurante estrelado pelo Guia Michelin. Leio que o filme tem um olhar acutilante sobre a natureza do serviço e que o menu de degustação é central à história,  apresentado como um exercício de exibicionismo. Uma das críticas que li diz o que eu acho que se aplica a muitos locais: “O filme retrata um Chef psicopata e autoritário que comanda um exército de assistentes submetidos ao seu absolutismo moral”. Já está em exibição em Portugal.

 

DIXIT - «Alunos que nem português sabem já querem usar o "todes". A linguagem inclusiva é, na verdade, um código para entrarmos no Lux. Corremos o risco de ela se tornar uma palavra-passe para mostrarmos se estamos in ou out» - Rui Zink

 

BACK TO BASICS - “Uma sociedade que coloca a igualdade acima da liberdade vai acabar por perder ambas” - Milton Friedman

 

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MANUAL DE ESTAGNAÇÃO

por falcao, em 02.12.22

 

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ULTRAPASSADOS - Visitei a Roménia no início dos anos 90, em trabalho. O regime de Ceausescu tinha caído há pouco e visitei várias zonas do país. Fiquei surpreendido com a pobreza que se via em todo o lado. Falo em pobreza ao ponto de, então, faltar comida nalgumas zonas do país. Isto foi há trinta anos. Passada uma década, no ano 2000, a Roménia continuava a ser o país mais pobre dos actuais 27 estados membros da União Europeia.  Portugal estava então na 15ª posição, atrás do Chipre e da Grécia, mas à frente de Malta e dos estados do antigo bloco de leste. Na semana passada foi conhecido um novo relatório de previsões económicas da União Europeia para 2024 que mostra como o nosso país empobreceu ao longo deste século. Se estas previsões se confirmarem Portugal terá então descido, 50 anos depois do 25 de Abril, para a 20ª posição em PIB per capita, sendo ultrapassado pela Roménia, Estónia, Chéquia, Lituânia e Eslovénia. A menos que haja alguma crise política, chegaremos a 2024 com 17 anos de governação do PS neste século e sete do PSD. António Costa, se entretanto continuar por cá, levará nessa altura quase uma década como Primeiro Ministro. Portugal, no início deste século, atravessou um período negro com a Troika, chamada pelo governo de José Sócrates, um executivo que em cerca de seis anos quase levou o país à falência. A governação do PS tem tido um padrão: estagnação e até recuo. Os sete anos que Costa já leva como Primeiro Ministro são marcados por fraco crescimento económico quando comparado, durante o mesmo período de tempo, com países de leste que estavam atrás de nós. Costa deixa também outra marca: a ausência de reformas efectivas em sectores como a saúde, educação, justiça e impostos e atrasos na execução de fundos europeus. Não há habilidade política que resista aos factos e aos números.

 

SEMANADA - Cerca de três mil escolas, públicas e privadas, não integram o Programa Nacional de Remoção de Amianto, lançado pelo Governo em 2020; um estudo europeu indica que 55% dos profissionais em Portugal já se sentiram discriminados no trabalho; a Câmara de Caminha contratou por 19.000 euros um parecer sobre um contrato que já foi anulado pela autarquia; um estudo recente indica que quase metade dos portugueses acredita em bruxaria; segundo o INE a prestação média do crédito à habitação registou um "aumento significativo" nos últimos meses, ficando em outubro 18,7% acima de outubro de 2021; a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima auxiliou, em 2021, "cerca de 28 mulheres e raparigas" por dia, vítimas de crimes como violência doméstica, difamação e perseguição, entre outros; mais de um milhão de portugueses vivem sozinhos; o número de alunos estrangeiros no ensino superior em Portugal atingiu o valor mais alto de sempre, cerca de 70 mil; na última década aumentou o número de partos em mulheres com mais de 50 anos; o interior do país perdeu 8,2% da população nos últimos dez anos; 20% da população portuguesa está amontoada em 1,1% do território; a Autoridade da Concorrência, dirigida por Margarida Matos Rosa, que completou seis anos no cargo, aplicou durante esse período coimas no valor de 1,4 mil milhões de euros.

 

O ARCO DA VELHA - O número de emigrantes por cada mil habitantes é, na última década, superior ao registado na década de 60.

 

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VER A MEMÓRIA - O trabalho de Ana Vidigal é feito da evocação de memórias e da utilização de pedaços de coisas que fizeram parte dos seus tempos - de brinquedos a recortes, de postais a fragmentos de objectos. A sua nova exposição, intitulada “Ana Beatriz”, evoca a forma como a mãe a chamava, pelos dois primeiros nomes, quando entendia que já estava a passar dos limites admissíveis, o que, aparentemente,  acontecia bastantes vezes. Sobre esta exposição Ana Vidigal sublinha que ela é feita da “memória que nos passa entre os dedos” e recorda que tudo o que ali está foi o que ela e os irmãos descobriram entre o que existia na casa onde cresceram. “What Can Be Shown Cannot Be Said” é a frase de Wittgenstein que Ana Vidigal escolheu para descrever esta sua primeira exposição na Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), que ali ficará até 25 de Fevereiro. O outro destaque da semana vai necessariamente para a exposição evocativa do centenário da morte da pintora portuguesa Aurélia de Sousa, no Museu Nacional de Soares dos Reis. Sob o título “Vida e Segredo” são apresentadas 92 obras  da artista, cuja obra é ainda relativamente pouco conhecida, apesar de ser um dos mais importantes nomes da arte portuguesa do final do século XIX e início do século XX. A exposição mostra diversos aspectos do trabalho de Aurélia de Sousa, nascida na Argentina mas que cresceu e sempre viveu no Porto, dividida em quatro grandes áreas que mostram retratos, cenas do quotidiano, paisagens, naturezas mortas. Esta é a maior mostra da obra de Aurélia de Souza e ficará no Museu Soares dos Reis (Rua de D.Manuel II 44, Porto) até final de Maio do próximo ano.

 

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PORTUGAL VISTO DE FORA - É sempre curioso ver como o país é visto e vivido por estrangeiros. “Portugal - The Monocle Handbook” proporciona essa visão e, embora nem sempre as sugestões da “Monocle “ sobre as coisas portuguesas sejam acertadas, o livro proporciona um bom roteiro a quem nos visita. Mas vamos à história do grupo Monocle. O primeiro número da revista Monocle foi publicado em Fevereiro de 2007, há 15 anos portanto. Em 2011 começou a emitir a Monocle 24, uma rádio em streaming que entretanto desenvolveu uma programação variada e passou a integrar uma componente vídeo. Em conjunto com a newsletter Monocle Minute estas são as únicas operações online do grupo, que ao longo da sua existência tem permanecido fiel ao papel. Para além das dez edições anuais do título principal, “Monocle”, tem também editado publicações regulares como a "Entrepreneurs" e a “Forecast” e algumas outras edições especiais, sazonais, em formato de jornal. Em 2013 iniciou uma área de edição de livros, que vão desde guias de cidades até ensaios, como “The Monocle Companion”. E, agora, estreou-se com a edição de uma nova colecção dedicada a países. E o primeiro volume desta nova colecção, agora apresentado, é sobre o nosso país, “Portugal - The Monocle Handbook”. O livro tem sugestões desde museus a lojas de design, de música ou de revistas, até locais no litoral e no interior, percursos a fazer, como no Douro, e indicações de restaurantes desde as mais simples tascas até aos mais na moda. E mostra também a diversidade cultural em todo o país, o cruzamento de influências de outros países, sobretudo os lusófonos. Na apresentação, que decorreu em Lisboa na semana passada, o criador do grupo Monocle, Tyler Brulé, sublinhou que Portugal surge em quarto lugar em número de exemplares vendidos da Monocle em quiosques, em sétimo global em livrarias e em 19º em assinaturas. Brindou-se a tudo isto com o Alvarinho Reserva Cortinha Velha, de Monção.

 

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PORTUGUÊS CANTADO  - Uma escritora, Maria do Rosário Pedreira, e uma fadista, Aldina Duarte, deram as mãos para, em conjunto, fazerem um livro, “Esse Fado Vaidoso”,  que recolhe poemas do fado tradicional, mas também de novos autores. Maria do Rosário Pedreira tem aliás trabalhado bom vários músicos músicos e contribuído para renovar o português que se canta, escrevendo para intérpretes como a própria Aldina Duarte, Camané, Carlos do Carmo ou António Zambujo. Aldina Duarte pelo seu lado,  fez o seu primeiro disco em 2004 e o mais recente já este ano e tem sido uma das vozes mais atentas a novos escritores e poetas. “Esse Fado Vaidoso” junta uma galeria de autores e intérpretes que transformaram o modo como o fado é visto e divulgado hoje em todo o mundo. É como que uma antologia monumental dessa poesia transcrita para o fado, dos trovadores medievais a Bocage, passando por Machado de Assis,  Teixeira de Pascoaes, Pessoa, Almada Negreiros, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, Sophia de Mello Breyner, Agustina Bessa-Luís, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, Ary dos Santos,  Vasco Graça Moura ou Hélia Correia, entre outros. Ali encontra poemas do fado tradicional, à volta dos temas da mitologia do fado, da melancolia, da paixão, do ciúme, da saudade, da separação ou da esperança desenganada. No final do livro há um útil guia das versões cantadas dos poemas que os autores ouviram e recomendam. Edição Quetzal.



MÁS PROVAS - Uma das minhas dúvidas mais persistentes em matéria de restauração é o porquê da incapacidade, generalizada, em servir batatas fritas aos palitos que estejam fritas em vez de cozidas. Digamos que não será o prato mais emblemático do mundo, mas metade do prazer de um bitoque está no acompanhamento, ou seja, nas batatas fritas. Raros são os restaurantes onde as fazem como deve ser, como os especialistas no assunto, belgas, ensinam: com duas frituras, para ficarem estaladiças por fora, cozinhadas por dentro, mas secas e saborosas. Em vez disso, o mais frequente é aparecerem molengonas, encruadas, com um aspecto que leva a suspeitar precisarem de viagra para se restabelecerem. Dentro do mesmo género de molenguice destaco também outro clássico que são as carcaças que parecem pastilha elástica. Normalmente quando isto acontece as azeitonas que acompanham estão igualmente molengonas, talvez por solidariedade, e, nas mais das vezes, sensaboronas. Outro tema muito comum é a tentativa de colocar uma charcutaria inteira em cima da mesa, à espera que um incauto debique alguma coisa, para agravar a conta. Tudo isto atinge o seu zénite quando apanhamos um daqueles empregados que aparece a toda a hora a perguntar se está tudo bem, a meio da nossa mastigação, e que desaparece quando efectivamente precisamos dele. Outra praga, que começa a proliferar, são os pré preparados congelados que são servidos como produtos caseiros, uma verdadeira ofensa aos verdadeiros pastéis de bacalhau, croquetes e chamuças. Um dos maiores enganos que um restaurante pode cometer é servir fast food disfarçada - e isso acontece cada vez mais. Salvam-se as tascas, onde se cozinha tudo à vista, num grande tacho, e o resultado sai bem apurado. Para a semana o tema vai ser essa coisa chamada “fine dining”.

 

DIXIT - “O país e as autoridades olham para o que acontece e limitam-se a deixar acontecer (…) Deixar correr é sempre a pior das políticas “- António Barreto.

 

BACK TO BASICS - “ Toda a gente tem um livro dentro de si, e é aí exactamente que, na maior parte dos casos, ele deve permanecer” - Christopher Hitchens.

 



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