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por falcao, em 11.06.06
LISBOA E AS FESTAS


A ideia das Festas de Lisboa, com centenas de acontecimentos concentrados em Junho, muitas vezes a sobreporem-se, tinha sido abandonada nos últimos quatro anos. Em vez disso optou-se por um conceito, «Lisboa em Festa», que decorria entre meados de Maio (com a abertura da Feira do Livro) e meados de Setembro, assegurando que ao longo dos quatro meses com maior afluxo de turistas existisse um conjunto diversificado de eventos, exclusivamente de iniciativa autárquica ou feitos em parceria com privados, que promovessem o diálogo com públicos de municípios próximos (como acontecia nos concertos de Monsanto do auditório Keil do Amaral), que revelassem tendências novas (como o «Cosmopólis») ou que aprofundassem o conceito de placa giratória multi-cultural de Lisboa, como o Africa Festival. Para Junho ficavam as marchas populares, os arraiais, o Fado e meia dúzia de iniciativas de dimensão maior. Este conceito teve aliás por base uma constatação simples: Em Maio e Junho concentram-se já naturalmente iniciativas privadas de grande envergadura, sobretudo na área da música popular – não faz sentido fazer-lhes concorrência mas sim complementá-las.

Do ponto de vista dos custos o que acontecia era diluir o orçamento de actividades ao longo dos quatro meses, seleccionar e co-participar em parcerias co-produzindo eventos, garantir uma grande exposição de artistas portugueses de várias gerações, assegurar alguns nomes internacionais mais arredados do circuito comercial, procurar não fazer concorrência desleal aos promotores privados de concertos e sobretudo garantir a existência de animação na cidade nos meses (meados de Julho a meados de Setembro) onde a actividade dos produtores privados sofre uma quebra sazonal até porque em parte se desloca para os festivais de Verão e para outras iniciativas no litoral e interior do país. Lisboa tinha pouco a oferecer nesses meses e o objectivo traçado para a animação cultural era que ela fizesse parte integrante da atracção turística de Lisboa – daí por exemplo mega-exposições ao ar livre no Terreiro do Paço, apesar das limitações actuais do local devido às eternas obras do Metro; e daí também garantir que Monsanto se tornasse num pólo natural de actividades, o que aconteceu. Facto: em 2005 nesses quatro meses, tudo incluído, foram gastos 3,5 milhões de euros. Este ano voltou-se ao modelo antigo, muito igual ao de João Soares, e, essencialmente em Junho (na realidade de 1 de Junho a 9 de Julho) serão gastos 3 milhões de euros. São formas diferentes de planear, de fazer as contas e de procurar resultados.

O que é facto é que se conseguiu, sobretudo em 2003, 2004 e 2005, que este panorama funcionasse e fosse entendido não só por quem vive na cidade, mas também por quem a visita – desde o turismo exterior até ao turismo interno. As Festas de Lisboa deixaram de ser uma amálgama de acontecimentos em Junho e passaram a ter uma programação estruturada multi-disciplinar que se prolongava ao longo de 120 dias e que envolvia desde colectividades populares até à Orquestra Gulbenkian. O que se procurou foi criar a imagem de uma cidade onde a criatividade fazia parte do quotidiano e não apenas de algumas semanas com agitaçãozinha fabricada. Além disso desenvolveram-se acções específicas para as comunidades estrangeiras de emigrantes – desde africanos aos provenientes do Leste, que nos últimos anos alteraram o panorama de Lisboa, tornando-a de facto numa metrópole multi-étcnica e multi-cultural. Na realidade, sobretudo em 2004 e 2005, a actividade autárquica estendeu-se, numa série de outras acções complementares, ao longo de meses onde tradicionalmente não existia, entre Setembro e Abril – sempre em parcerias com privados, mas estimulando a existência e viabilizando ciclos de música, exposições e festivais de diversa natureza e origem: basta ver o que surgiu e se consolidou nesse período, como a Lisboa Photo e o Indy Lisboa. Às vezes convém forçar a memória para que algumas coisas não fiquem no esquecimento.

Existe um curioso documento sobre a importância das políticas culturais nas cidades, «The Memphis Manifesto», que não resisto a citar: «A criatividade é parte fundamental da natureza humana e é um bem essencial para a vida individual, das comunidades e da economia. As comunidades onde a criatividade se sente são locais vibrantes e humanizados, que estimulam o crescimento dos indivíduos, proporcionam avanços culturais e tecnológicos, criam empregos e riqueza e aceitam uma grande diversidade de estilos de vida e de cultura. Acreditamos que o futuro é construído pela força das ideias e as ideias são o motor do crescimento de amanhã – portanto acarinhar comunidades onde as ideias se possam desenvolver é um factor chave para o sucesso. As ideias nascem onde a criatividade é estimulada de forma permanente e a criatividade implanta-se e desenvolve-se onde as comunidades acarinham e estimulam as ideias».

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