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DIFERENÇAS IBÉRICAS - Portugal mudou de regime em Abril de 74. A Espanha teve igual mudança ao longo do ano de 1976 - dois anos depois. Hoje em dia a média de idade dos dirigentes dos principais partidos espanhóis é de 40 anos, enquanto a média de idade dos dirigentes dos principais partidos portugueses é de 55 anos. No caso espanhol a maior parte dos dirigentes nasceu depois da transição; no caso português a maior parte dos dirigentes nasceu no velho regime, há mais de 44 anos. Dos actuais dirigentes portugueses só Assunção Cristas tem 44 anos, Catarina Martins tem 45, Jerónimo de Sousa tem 71, Rui Rio tem 61 e António Costa tem 57. Em Espanha as contas são diferentes: Pablo Casals do PP  tem 37 anos, Pedro Sanchez do PSOE tem 46 anos, Albert Rivera dos Ciudadanos tem 39 anos e Pablo Iglesias do Podemos tem 40. A diferença da média de idades dos dirigentes partidários dos dois países é de 15 anos, significa praticamente uma geração. Esta diferença significa também uma visão diferente da vida, do país e do mundo. Em Portugal, excepção feita ao Bloco, que mesmo assim já leva 19 anos de existência, o resto vem de uma situação particular de transição, à excepção do PCP - que em Espanha já não existe na prática. Em Espanha o Ciudadanos foi fundado em 2006 e o Podemos em 2014. A Espanha retomou a democracia depois de Portugal, andou mais depressa, o regime modificou-se mais rapidamente. Portugal, na discussão do poder político, vive do passado e no passado, precisam-se líderes novos e organizações novas. Assim como estamos não vamos a lugar nenhum a não ser degradar ainda mais o que existe. A entrevista de Rui Rio na TVI esta semana foi o retrato da incapacidade da sua geração política. Há uma geração de políticos em Portugal que, para bem do país, deve saber sair de cena.

 

SEMANADA - Dos trinta maiores financiamentos atribuídos pelo programa comunitário 2020, 26 foram para o Estado e só 4 para empresas;  esta semana tornou-se notícia o maior avião do mundo ter aterrado no aeroporto com menos passageiros do mundo, em Beja; o número de caixas multibanco disponíveis para consumidores diminuíu ao ritmo médio de 467 por ano desde 2011; os portugueses pagam em comissões bancárias o dobro do valor suportado pelos vizinhos espanhóis; em seis anos foram encerradas 1895 agências bancárias; ficaram por preencher 1230 vagas de professores, mais de metade em Lisboa e Setúbal; mais de 85% da produção de electricidade tem subsídios; 22,9% dos portugueses recebem o salário mínimo; 54% dos pensionistas,  cerca de 1,6 milhões, recebe reformas abaixo do salário mínimo; o Conselho das Finanças Públicas considera que a probabilidade de a economia portuguesa se encontrar em recessão no decorrer dos próximos cinco anos é de aproximadamente 55%; a economia nacional tem um dos maiores défices da balança alimentar da Europa; a média das temperaturas até agora registadas no mês de Julho é a mais baixa dos últimos 30 anos.

 

ARCO DA VELHA - Um homem condenado e preso por fuga ao fisco usou cheques furtados e sem cobertura para pagar protecção a um outro detido com o objectivo de evitar mau tratos na prisão.

 

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UMA REVISTA DIFERENTE - “Mayday” (palavra que pode querer significar socorro em várias circunstâncias) é o título de uma revista independente nascida e criada em Copenhaga, na Dinamarca e que se publica duas vezes por ano. Apresenta-se como uma montra das mudanças que acontecem no mundo e que confrontam as pessoas, a cultura, a sociedade e a tecnologia, com especial incidência no pensamento independente. A ideia é ver o presente a olhar para o futuro e na sua origem está o Trouble, um laboratório criativo de novas ideias. A “Mayday” gosta de se apresentar como uma revista sobre cultura, sociedade, tecnologia e realidades imprevistas. Neste segundo número da “Mayday” o destaque vai para uma entrevista com a Comissária Europeia Margrethe Vestager, que se lançou numa cruzada contra os abusos de gigantes tecnológicos como o Google e Apple. É seguida por 250 mil pessoas no twitter e dirige uma equipa de 900 colaboradores que velam sobre o cumprimento das regras da concorrência na Europa. Uma das suas frases mais relevantes desta entrevista, que merece ser lida de fio a pavio, é esta: “a questão da identidade é algo que custou milhões de vidas ao longo de vários séculos e é por isso que se torna muito premente perceber como nos posicionamos e qual o nosso papel num mundo digital”. Outro ponto de interesse nesta edição é a entrevista com Ivan Krastner, o politólogo autor do livro “Depois da Europa”. A “Mayday” está disponível na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88, Lisboa. 

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IDEIAS FOTOGRÁFICAS - A fotografia que acompanha estas linhas é de Martin Parr, um dos nomes grandes da agência Magnum, e da fotografia contemporânea e refere-se a uma série sobre a transformação de Brighton nos anos 80. Faz parte da exposição “New Brighton Revisited”, que está na Open Eye Gallery daquela cidade. Se procurarem por ela na internet depressa darão com esta e outras imagens - não só de Parr (que há dois anos teve uma bela exposição em Lisboa na já extinta Barbados Gallery), mas também de Ken Grant e Tom Wood que documentam a vida naquela cidade costeira ao longo de três décadas. Um dos aspectos mais interessantes da fotografia contemporânea, sobretudo na Grã Bretanha, é a capacidade de mostrar e preservar o quotidiano de diversas épocas. Nos últimos anos o British Journal Of Photography tem lançado a série “Portrait Of Britain” que está a tornar-se um documento e testemunho incontornável. Várias cidades, sobretudo no norte da europa, convidam anualmente fotógrafos a mostrarem a sua visão dessas cidades e das pessoas que as habitam. E entretanto, em Portugal, só se fotografam desgraças, acidentes, catástrofes. O dia a dia, o quotidiano, está sempre ausente, desde há muitos anos. Com esta ausência perdemos a preservação da memória e abandonamos o registo das mudanças que vão ocorrendo. Lisboa, o Porto, e também várias outras cidades de Portugal precisavam destes registos, de iniciativas assim - uma gota de água nos orçamentos de festividades muitas vezes vazias e que não deixam património sobre o presente para ser interpretado no futuro. Em vez de investirmos no que fica, gastamos no que se esquece. É este um dos nossos grandes problemas.

 

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A LISTA DE SAKAMOTO - Uma das coisas mais enervantes em qualquer local público é música ambiente colocada de qualquer maneira, muitas vezes num volume estridente. Cada local deveria ter uma selecção musical cuidada e adequada ao seu estilo e às pessoas que o frequentam. Vem isto a propósito de um brilhante artigo publicado por estes dias no “New York Times” no qual se explica porque é que o grande músico e compositor Ryuichi Sakamoto se levantou da mesa e foi falar com o chef do seu restaurante japonês favorito em Nova Iorque, o Kajitsu. A questão tinha a ver com a falta de sentido da playlist existente, De modo que Sakamoto propôs-se oferecer uma playlist, sem cobrar nada por isso, para que pudesse ali continuar a ter as suas refeições num bom clima. Como diz o autor do artigo do NYT, quando se vai a um bom restaurante disposto a pagar uma fatura gorda a última coisa que apetece é que a playlist seja feita num vão de escada pelo filho do ajudante de cozinha ou do chefe de sala. Foi isso que Ryuichi Sakamoto se propôs alterar. Foi falar com o chef do Kajitsu, perto da Lexington Avenue, Hiraki Odo, e ofereceu-lhe a lista. É uma escolha de Sakamoto, que tem a particularidade de não ter uma única das suas composições, que vai do jazz à pop e à electronica, passando por várias épocas e diversas geografias. Se procurar no Spotify por “The Kajitsu Playlist” descobrirá a preciosidade que Sakamoto ofereceu a Odo. E que agora todos podemos partilhar.

 

RESTAURANTES & PESSOAS -  Além do chef (e das suas propostas culinárias) há duas coisas que fazem um restaurante: o serviço e as pessoas que o frequentam. É muito difícil encontrar o ponto de equilíbrio entre uma cozinha de que gostamos, um sítio onde nos sentimos bem e uma vizinhança que não indisponha. Em Lisboa juntar estas três peças é cada vez mais uma raridade. Os novos chefs e os seus conceitos olham tanto para os seus respectivos umbigos que se esquecem das pessoas. Estão interessados em ser adulados, em servir o que lhes apetece sem ouvir críticas - seja da qualidade, seja do preço. Eu não suporto, por exemplo, chefs que me querem oferecer uma experiência baseada num menu de degustação ao qual não posso fugir. Gosto de escolher o que me apetece sem ser forçado. Odeio a ditadura dos chefs e as suas imposições. Irrita-me um serviço que não sabe distinguir um bife mal passado de uma carne transformada em sola a preços de sapatos Church. Não gosto de olhar para uma sala e ver maioritariamente pessoas a quem não me apetece falar nem estar. Quando vou ao restaurante gosto de estar descansado. Muitas vezes, ao almoço, vou sozinho aos sítios mais diversos, só para observar pessoas, a maneira como falam umas com as outras. Um restaurante é um ponto de encontro, não é um ponto de desencontros. É por isso que cada vez mais desconfio dos restaurantes da moda e dos chefs carapau de corrida carregados de (pre)conceitos.

 

DIXIT - “Chegou ao Aeroporto de Beja uma avioa que vem prenhe” - comentário de um dos mirones que foi assistir ao aterrar do enorme A380 que tem um larguíssimo ventre aeronáutico.

 

GOSTO - Uma investigadora portuguesa na área do transplante renal, Margarida Carvalho, ganhou o prémio pela melhor tese de doutoramento na Europa.

 

NÃO GOSTO - Há 90 leis que não são aplicadas por não terem sido regulamentadas, algumas desde 2003, em áreas como a corrupção, as florestas e as secretas.

 

BACK TO BASICS - O estilo permite dizer de forma simples coisas complicadas - Jean Cocteau



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publicado às 15:47

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ADORMECIDO - Em Portugal há dois mundos: o das pessoas e o dos políticos e dos partidos. As pessoas são destratadas pelo Estado; os políticos e os partidos comportam-se acima da Lei e fazem o que bem lhes apetece. Vejam bem: vá-se lá saber a rogo de quem, o Tribunal Constitucional deixou prescrever processos contra irregularidades nas contas de partidos, na Assembleia da República um ex-ministro do PS, Manuel Pinho,  comportou-se de forma “despudoradamente anormal”, para citar as palavras da também socialista Ana Gomes. Já nem falo das gentilezas do fisco em relação aos partidos... É raro o dia em que os jornais não relatam novos casos de corrupções maiores ou menores, de suspeitas que envolvem os dois maiores partidos portugueses. No Parlamento os votos dos deputados oscilam como um pêndulo avariado e já não se consegue perceber quem defende o quê. O espectro partidário actual está esgotado - a continuar assim a abstenção só vai aumentar. Nada de novo se desenha no horizonte - apenas umas vagas imitações de réplicas do sebastianismo ou de, como ouvi dizer esta semana, políticos que parecem Paul McCartney a querer manter a fama fora de prazo. Ouço falar de regressos, mas não vislumbro novidades. O país está conformado, adormecido, anestesiado. Isto assim não vai lá: falta uma visão ambiciosa e realista, falta capacidade de mobilizar pessoas que estão fugidas da participação cívica, falta voltar a trazer emoção à política. O pior é que não se vê quem possa fazer isto.

 

SEMANADA - Segundo um estudo da Universidade de Coimbra a população idosa portuguesa tem baixos níveis de saúde, em comparação com a de outros países europeus; as refeições escolares servidas aos alunos, este ano letivo, motivaram 854 queixas, sendo as principais causas de reclamação a qualidade e quantidade dos alimentos e a falta de pessoal; mais de 300 mil portugueses têm autorização para ter armas em casa; o Ministro da Defesa foi ao Parlamento dizer que não sabia o que se passava com o armamento desaparecido em Tancos e disse desconhecer o que falta recuperar; PCP, Bloco e PS votaram contra a descida do preço dos combustíveis; Clemente Pedro  Nunes, professor do Instituto Superior Técnico, afirmou na comissão parlamentar de economia que as tarifas de apoio específico às renováveis lançadas nos governos de Guterres e Sócrates foram a “subversão do sistema” que levou ao disparar dos preços da electricidade; segundo a Marktest, no primeiro semestre de 2018, Marcelo Rebelo de Sousa foi a personalidade que mais tempo de informação protagonizou nos noticiários dos principais canais de televisão, tendo intervido em 946 notícias de 40 horas e 15 minutos, enquanto António Costa totalizou 39 horas e 10 minutos e Rui Rio ficou na terceira posição com 19 horas e 22 minutos de cobertura televisiva.

 

ARCO DA VELHA -  O Tribunal Constitucional deixou prescrever as multas que devia aplicar a partidos políticos, estimadas em 400 mil euros, referentes a irregularidades nas contas de 2009 dos partidos e assim ilibou 24 dirigentes partidários com responsabilidade financeiras.

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FOLHEAR - O Fogo é o tema central da nova edição da revista Egoísta, agora distribuída. No editorial Mário Assis Ferreira, depois de evocar a tragédia dos incêndios, recentra a questão, sublinhando que “no domínio das ignições existe um outro fogo, esse sem labaredas visíveis, tal como o cinta Camões: o amor é um fogo que arde sem se ver”. O grafismo de Joana Miguéis é logo, desde as primeiras páginas, absolutamente deslumbrante. Nesta edição destaco as ilustrações de Rodrigo Saias para um texto de Stieg Larsson adaptado por Patrícia Reis, e também os textos “Não Há Inferno” de José Eduardo Agualusa e “Cinza Que Arde Sem Se Ver” de Alexandra Lucas Coelho. O ensaio “Política a Ferro e Fogo” de Filipe Santos Costa, com fotografia de Alfredo Cunha, é uma visão diferente e inesperada de episódios e protagonistas do Portugal pós 25 de Abril. Mas o ponto alto desta edição é um texto extraordinário de Paulo Moura, que evoca os dias de 15 a 18 de Junho do ano passado, quando decorreram os grandes incêndios, um texto centrado nas vidas e esperanças de alguns dos que morreram e de outros que sobreviveram em três casas da aldeia de Pobrais - acompanhado por fotografias de João Porfírio trazem de regresso à memória esses dias terríveis.

 

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VER - A exposição 289, que abriu sábado passado em Faro, foi pensada por Pedro Cabrita Reis para juntar artistas, cruzando várias gerações e experiências. Ao todo são oito dezenas de artistas - uns estiveram presentes no projecto @British Bar, que decorreu desde Abril de 2017, nas 3 montras do British Bar, em Lisboa, por iniciativa também de Pedro Cabrita Reis e os outros integram os artistas e outros convidados do colectivo algarvio 289, em cujas instalações decorre a exposição. A todos juntaram-se ainda artistas que Cabrita Reis foi convidando ao longo do processo. Desde Abril passado começaram a ser feitos convites, começou a desenhar-se a exposição e, nas últimas semanas começaram a chegar as obras e os seus autores para acompanhar a montagem. O local da Associação 289 é uma antiga quinta, que durante uns anos serviu de sede à Associação de Comandos, que entretanto a desocupou. O sítio chama-se Pontes de Marchil e é aí que estão ateliers de artistas que integram esta associação cultural 289. Até 15b de Setembro, de quarta a domingo, entre as 17 e as 21 horas podem ser vistos trabalhos de Cristina Ataíde, Manuel Baptista, Xana, Pedro Calapez, Rui Chafes, Ângela Ferreira, Alexandra C., Rui Sanches, Patrícia Garrido, Vasco Futscher, Maria José Oliveira, Miguel Palma, Julião Sarmento, Ana Vidigal e Luis Campos, para só citar alguns. Esta exposição - um evento único na paisagem algarvia deste verão - é um exemplo de vontade, de querer fazer a diferença utilizando o empenho e a imaginação - e tudo gravitou em torno da energia com que Pedro Cabrita Reis se tem dedicado a desenhar projectos que são montras de divulgação de artistas de muitas proveniências.

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OUVIR - Um novo triplo CD, “Amália É Ou Não É” recolhe quase sete dezenas de canções e fados de Amália Rodrigues, em grande parte originalmente editados como EP’s de 45 rotações entre 1968 e 1975. Destes, 13 são versões inéditas de temas como ”Lá Na Minha Aldeia” a “A Rita Yé Yé”, passando por “Oiça Lá ó Senhor Vinho”, “O Cochicho” ou “Lavadeiras de Caneças”. Existe ainda um inédito, “Raminho de Loureiro” e quatro registos até aqui n\ao editados, gravados ao vivo em 1969, nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos: “Havemos de Ir A Viana”, “Povo Que Lavas No Rio”, “Formiga Bossa Nova” e “Vou Dar de Beber à Dor”. Este triplo CD é um exemplo da versatilidade e da capacidade interpretativa de Amália Rodrigues e também da diversidade dos géneros que abordou. Na nota introdutória, Frederico Santiago, que coordenou esta edição e que se tem dedicado a recuperar o arquivo de gravações de Amália na Valentim de Carvalho, sublinha: “Em 1968, com o êxito extraordinário de “Vou dar de beber à Dor”, de Alberto Janes, eclodem no repertório algumas cantigas, por alguns ditas “folcloristas” ou de natureza brejeira, mas que na voz de Amália, sempre segura da sua matriz popular e do seu erudito fraseado musical, nunca caem na vulgaridade”. O livro que acompanha o triplo álbum enumera os 45 RPM editados de 1968 a 1975, mostra fotografias da época (várias de Augusto Cabrita), evoca a relação de trabalho entre Amália e Alberto Janes (que conheceu quando ele lhe veio mostrar o fado “Foi Deus”), mas também o trabalho desenvolvido com Nóbrega e Sousa e Arlindo de Carvalho.

 

PROVAR -  O hábito de pedir um cocktail num bar ainda não é uma coisa vulgarizada entre nós, com o mercado dominado pelo Gin tónico. Constança Cordeiro, que aprendeu a arte do cocktail em Londres, apostou que conseguia mudar a falta de hábito com a “Toca da Raposa”, que criou há menos de um mês, entre o Carmo e o Chiado, perto das Escadinhas do Duque. Depois de ter regressado de Londres, andou meses a pesquisar ervas aromáticas a plantas nos campos alentejanos e criou as suas próprias receitas que geraram uma dezena de cocktails que estão na sua carta, todos a 11 euros, todos com o nome de bichos. O espaço pode acolher cerca de 30 pessoas - algumas em mesas, cadeiras e sofás e o resto, uma dúzia de convivas,  à volta de um grande balcão quadrado de bom mármore português. Nas receitas da Toca da Raposa entram ingredientes como o azeite, a meloa ou a flor do eucalipto. Além dos cocktails há alguns snacks ligeiros, de base vegetariana, criados por  António Galapito, o chef do Prado, com quem Constança Cordeiro trabalhou em Londres: grão frito com especiarias, vegetais da época crus com maionese de ervas, salada de pickles caseiros e piri piri e tosta de rabanetes com queijo da ilha de São Jorge com cura de 24 meses. A acompanhar precisamente uma destas tostas provei a sardinha, um cocktail de tequilla, manjericão, limão e cerveja, ideal para os dias mais quentes e, a conselho de Constança, rematei com um lobo - que leva whisky de 12 anos, flor de eucalipto e meloa. A Toca da Raposa fica na   Rua da Condessa 45 e está aberto de terça a domingo das 18.00 às 02.00.

 

DIXIT - “Estamos abaixo da linha de água há anos, é muito desmoralizante” - António Filipe Pimentel, director do Museu Nacional de Arte Antiga

 

GOSTO - Está em curso um plano para a valorização do carapau, como alternativa à sardinha.

 

NÃO GOSTO - O Museu Nacional de Arte Antiga funciona há anos com um terço dos vigilantes necessários, o que leva a encerrar ao público várias salas de exposição.

 

BACK TO BASICS - Para prevermos o que será a actuação futura das pessoas devemos assumir que tentarão sempre escapar-se a situações desagradáveis utilizado o menos possível a inteligência - Friedrich Nietzsche

 

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publicado às 13:15

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AEROPORTO - Exercício de memória: em 2009, quando na campanha eleitoral para as autárquicas desse ano foi proposta a urgente construção de um novo aeroporto de Lisboa, na carreira de tiro da Força Aérea em Alcochete, António Costa (que venceu essas eleições), tomou posição contra a ideia e contra a urgência da decisão. Pedro Santana Lopes, que havia apresentado e defendido a proposta, perdeu as eleições, Costa venceu, e os trabalhos preparatórios do aeroporto não se iniciaram - em Alcochete ou em outra localização. Já lá vão nove anos - o tempo que os especialistas consideram razoável para a preparação, planeamento e construção de uma infraestrutura como um aeroporto moderno, feito de raiz. E que se passa agora? O aeroporto da Portela está caótico, as previsões de que ficaria saturado confirmaram-se devido ao enorme afluxo de visitantes, a solução do Montijo, que não resolve o problema de fundo, está atrasada. As queixas dos utilizadores do aeroporto aumentam, os atrasos nos voos também, as demoras na entrada e saída de passageiros atingem níveis brutais. Pelo meio a TAP e a Ana-Da Vinci estão em guerra permanente, atirando uns para cima dos outros culpas pelos atrasos.  As companhias aéreas queixam-se que a concessionária do aeroporto aumenta os preços sem prestar melhor serviço ( e foi anunciado novo aumento para o final do ano) e o membro do Governo que tutela a área limita-se a dizer que é difícil negociar com a Da Vinci. O país continua entregue ao improviso, só depois da casa roubada é que se colocam trancas na porta. Por este andar os turistas vão aborrecer-se de passar mais tempo no aeroporto e nos vôos atrasados do que a ver a cidade. E lá encontrarão outro destino mais confortável, por muitas fotos que Madonna coloque no Instagram. Lembram-se como começava “Airport”, uma canção dos Motors, em 1978? - So many destination faces going to so many places/ Where the weather is much better/ And the food is so much cheaper.”

 

SEMANADA - O Estado português tem a terceira dívida pública mais elevada do Mundo; pela primeira vez desde 2007, no ano passado, os hotéis de Lisboa ultrapassaram em receitas os do Algarve, por uma diferença de €36,2 milhões; no ranking da pontualidade do mercado da aviação a Portela ocupa a sexta pior posição num conjunto de 513 aeroportos a nível mundial; as reclamações dos utentes do aeroporto de Lisboa aumentaram 14% este ano; a frota da CP está envelhecida, há demasiados comboios avariados, as oficinas têm falta de pessoal e o concurso para compra de novo material circulante, identificado em Fevereiro do ano passado,  ainda não tem caderno de encargos; em 2017 o número de trabalhadores do Estado a recibo verde aumentou 14,6%; seis dos eurodeputados portugueses, quase um terço dos eleitos nacionais, acumula actividades paralelas com o exercício da actividade no Parlamento Europeu; os preços da habitação na União Europeia cresceram 4,7% no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado, com Portugal a apresentar a quarta maior subida com 12,2%; no espaço de cinco anos a receita fiscal com a compra e venda de imóveis duplicou e a receita do IMT em 2017 aumentou 24% em relação à obtida no ano anterior.

 

ARCO DA VELHA - O Ministério da Saúde fez promoção nas redes sociais a uma aplicação para smartphone com a frase “tenha o cartão de atividade física da MySNS Carteira e seja tão forte como os jovens da Tailândia“.

 

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FOLHEAR - Uma das coisas de que gosto é olhar para a estante à procura de um livro que ainda não tenha lido. Esta semana dei com “Descalços em Tempos de Botas” - um título que vale tudo porque evoca uma época, não demasiado distante, em que ter sapatos, em muitos sítios de Portugal, era ainda uma miragem. O seu autor é um homem que adora escrever e que pratica outra profissão. Chama-se João Ferreira de Almeida, nasceu na aldeia de Souto de Lafões em 1955, concelho de Oliveira de Frades. Começou a trabalhar aos 12 anos, em Lisboa e aqui cresceu. Desde 1976 está todos os dias num dos restaurantes mais tradicionais da zona da Avenida de Roma e Areeiro, O Pote. Completou o ensino secundário aos 50 anos e este livro, editado em 2014, é a sua segunda obra, depois da estreia em 2007. Na introdução o autor sublinha: “Não é possível construir um futuro melhor sem conhecer o passado, as raízes de onde viemos, nem é possível avaliar o presente sem sabermos o que já fomos, o que tivemos, o que em tempos vivemos”. “Descalço em Tempos de Botas” é um testemunho do que era a vida no pós guerra, quase uma reportagem no passado, onde as histórias do dia a dia de então se cruzam com relatos de aventuras, encantos e seduções. É uma escrita sem época, sem artifícios nem condicionada por modas de estilo: faz-nos parar no retrato que desenha deste país onde afinal muitas coisas só mudaram à superfície.

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VER - Frida Kahlo nasceu no México em 6 de Julho de 1907, há 111 anos portanto. Morreu em 1954, aos 47 anos, depois de ter passado a vida adulta com sérias limitações físicas, provenientes de um gravíssimo acidente que teve aos 18 anos. Na morte de Frida Kahlo o seu marido, Diego Rivera, decidiu doar ao Estado mexicano a Casa Azul, onde Frida nascera e viveu, assim como o seu espólio de desenhos, pinturas, livros, objectos diversos e uma colecção de fotografias que ela recolheu ao longo da vida. O arquivo pessoal, onde estavam seis mil fotografias, só poderia ser aberto anos mais tarde - e o prazo dilatou-se tanto no meio de diversos incidentes que só ao fim de 50 anos ele foi tornado público. Foi a partir desse acervo que a Directora do Museu Frihda Kalo, instalado na Casa Azul, organizou e seleccionou as imagens que agora se apresentam, até 4 de Novembro, no Centro Português de Fotografia, instalado na Cadeia da Relação do Porto. “Frida Kahlo - As Suas Fotografias” apresenta  241 imagens, que a mostram à frente ou por detrás da câmara, evidenciam o seu olhar mas também a sua intimidade - Frida era uma apaixonada por fotografia, o seu pai e o seu avô eram fotógrafos profissionais. Ao longo da sua vida Frida Kahlo foi fotografada por grandes fotógrafos do século XX, como Imogen Cunningham, Edward Weston, Man Ray, ou Lola Alvarez Bravo. São fotografias que mostram a intimidade e os interesses da pintora ao longo da sua vida atribulada - a família, o fascínio por Diego Rivera, os múltiplos amores, os amigos e alguns inimigos, o corpo acidentado e a ciência médica, a luta política e a arte.

 

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OUVIR - Ao contrário do que se podia pensar este “Live In Europe” do trio de Fred Hirsch, não é o resultado de registos de uma série de concertos, mas sim uma gravação realizada no final do ano passado num espaço de acústica exemplar, um auditório do Instituto que tutela a  rádio pública Belga, perante uma audiência atenta. O CD começa e acaba com versões de composições de Thelonius Monk - a faixa de abertura é “We See”, um tema pouco conhecido de Monk, onde o piano de Hirsch, o baixo de John Hébert e a bateria de Eric McPherson improvisam e interagem de forma invulgarmente conseguida - com uma intensidade que se repete na faixa final, “Blue Monk”. Destaque também para as interpretações de dois temas de Wayne Shorter, “Miyako” e “Black Nile”. Os outros temas são da autoria do próprio Fred Hirsch, incluindo três homenagens - “Newklypso” (um tributo a Sonny Rollins), o bluesy “The Big Easy” ( em homenagem ao jornalista e escritor de Nova Orleães Tom Piazza) e “Bristol Fog”, uma balada onde o baixo de Hébert se destaca (dedicada ao compositor britãnico John Taylor). As restantes faixas mostram a boa forma deste trio e uma versão de”Skipping”  um dos temas do álbum de estreia da formação, datado de 2009, que é uma prova da evolução e progresso no entendimento entre os músicos. Disponível no Spotify.

 

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PROVAR -  Ao princípio era uma vez uma amêndoa que sonhava ser tarte. Agora a tarte teve uma mutação genética e virou bolacha - mas continua com a amêndoa. Segundo a Wikipedia o  termo bolacha deriva da fusão de bolo (bulla, objeto esférico em latim) com o sufixo diminutivo "acha". A primeira ocorrência do termo encontrada na língua portuguesa remonta a 1543. E assim, aquela tarte - A Tarte -  com massa crocante e um recheio carregado de boa amêndoa, passou a existir também como bolacha.  Em geral sou moderado no açúcar e não sou consumidor de sobremesas doces. Mas confesso, nesta matéria, um vício: um bom biscoito tira-me do sério, sobretudo se vier ao lado de um café. O caso agravou-se recentemente quando descobri estes novos biscoitos da Tarte. Feitos com a massa que serve de base à referida tarte, estas bolachas são produzidas à mão, com massa muito fina, areada e estaladiça, com o sabor da manteiga presente na proporção certa e com uma amêndoa cravada a meio do biscoito antes de ir ao forno ganhar côr. Este novo petisco da Tarte vem em embalagens com 10 bolachas e tem um preço de três euros e meio. O grande problema é que são tão boas que complicado mesmo é comer só uma.

 

DIXIT - “Temos a mania de avaliar as políticas pelas suas motivações e não pelos seus resultados” - Adolfo Mesquita Nunes

 

GOSTO - Do programa “Siga o Coelho Branco”, um novo magazine da RTP2 sobre cultura urbana, da autoria de Joana Stichini Vilela.

 

NÃO GOSTO - A Basílica Real de Castro Verde está em avançado estado de degradação, colocando em risco os 60.000 azulejos do século XVIII que forram as suas paredes.

 

BACK TO BASICS - Aquilo que é escrito sem esforço é geralmente lido sem prazer - Samuel Johnson.

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publicado às 13:15

A PROPAGANDA É O ALIMENTO DE COSTA

por falcao, em 06.07.18

O ARAME - Resumo da semana política: em vésperas da feitura do Orçamento de Estado para o próximo ano o Bloco procura espaço, o PC dá vitaminas aos sindicatos e às suas greves, Costa sacode água do capote das negas que vai dando, Rio faz exercícios de aquecimento e Marcelo lança foguetes de sinalização. A geringonça está com falta de óleo nas engrenagens e Costa insinua a possibilidade de crise, deixa cair que pode ir a eleições tentar a maioria absoluta se a coligação de esquerda romper ou, se necessário fôr,  procurar encosto em Rui Rio. O país anda preso por arames - o endividamento aumenta, o crédito ao consumo voltou a disparar, a corrupção em organismos públicos grassa, a judiciária investiga partidos, o ministro da educação escolheu a época de exames para andar em parte incerta e deixar a liderança do ensino a Mário Nogueira, o aeroporto de Lisboa (que é o motor da galinha de ovos de oiro do Turismo) está num caos, houve mais greves nos últimos dois meses que no ano anterior inteiro. A única coisa que funciona verdadeiramente bem é a propaganda do Governo. O exercício de poder está a assemelhar-se ao desbobinar de um rol de promessas. Como ouvi numa conversa esta semana, deixem-nos lá entreterem-se uns com os outros.

 

SEMANADA - Seis organismos públicos foram alvo de investigações sobre corrupção no espaço de um mês; o valor em crédito ao consumo concedido pelos bancos aumentou 6,9% em Maio face a igual mês do ano passado; a dívida do Estado português subiu 300 milhões em maio, atingindo um novo recorde de 250.313 milhões; o número de reclamações dos passageiros do transporte aéreo aumentou 35% em 2017; o organismo que fiscaliza os subsídios atribuídos pelo Estado considera que os organismos públicos dão apoios sem rigor nem objectividade; o número de acidentes com automóveis sem seguro cresceu 14% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com período homólogo do ano passado; em 2017 foram concedidas 46.827 licenças de uso e porte de armas de caça, cerca de mais 11 mil que no ano anterior; a primeira análise às contas da gestão de Bruno de Carvalho no Sporting detectou dívidas a fornecedores de pelo menos 40 milhões de euros; soube-se esta semana que a mais valiosa colecção de fotografia portuguesa, do ex-BES, agora à guarda do Novo Banco, está em más condições de armazenamento e a deteriorar-se.

 

ARCO DA VELHA - Há 54 presidentes de associações juvenis que têm mais de 60 anos.

FOLHEAR - Um dos mais interessantes estudos sobre a história da fotografia em Portugal foi recentemente publicado em livro. Chama-se “Infâmia e Fama” e aborda “o mistério dos primeiros retratos judiciários em Portugal”, mais precisamente no período entre 1869 e 1895. Leonor Sá, a sua autora, desenvolveu este trabalho no âmbito da sua tese de doutoramento a partir de dois álbuns fotográficos, hoje pertencentes à colecção do advogado Francisco Teixeira da Mota, que os adquiriu em leilão, e que foram produzidos na Polícia Civil de Lisboa pouco depois da sua criação, em 1867. Filipa Lowndes Vicente, que é a curadora do Museu da Polícia Judiciária, escreveu no prefácio que “os tempos da fotografia judiciária são os tempos mínimos de colocar o detido, ou a detida, quieto, perante a lente. O momento imediato substitui a encenação e a verdade acaba por substituir o artifício”. E faz notar que enquanto o retrato encomendado a um estúdio fica na posse do fotografado ou da família, o retrato judiciário não fica com a pessoa que está representada e é mesmo provável que essa pessoa nunca o veja. “Nos anti-retratos - como lhes chama - os retratados não têm, à partida, direito a olhar para a sua imagem” - sublinha. Pelo seu lado Leonor Sá mostra e contextualiza os dois álbuns portugueses que são o centro do seu trabalho no que foi o desenvolvimento do retrato judiciário na europa do século XIX, mas também a  utilização da fotografia como instrumento da antropologia. Para além da investigação sobre os dois álbuns, mostra a evolução da iconografia de ilustrações sobre criminosos, desde as medievais até aos cartazes de “Wanted” do far west norte-americano, ou até às criações artísticas sobre o tema feitas, contemporaneamente, por exemplo por Andy Warhol ou Ai Weiwei. Este é um livro fascinante para os apaixonados pela história da fotografia e pelas evolução das utilizações que ela teve em nome da Lei.

 

VER - Uma das mais importantes exposições de fotografia deste ano abriu agora em Lisboa, no Museu Berardo, e estará patente até 7 de Outubro (na imagem). Trata-se de “Between the Devil and the Deep Blue Sea”, uma exposição do fotógrafo sul-africano Pieter Hugo, que se destacou pela forma como acompanhou e documentou o fim do apartheid na sociedade sul africana. Pieter Hugo  é conhecido pela forma como desenvolveu a sua técnica de retrato, num contexto de referências das comunidades do seu país e da estética da arte africana. Considerado um dos grandes documentaristas da sociedade sul africana contemporânea começou pelo fotojornalismo, foca-se tradicionalmente em grupos marginais e nesta exposição vemos vários exemplos desses seus ensaios fotográficos. O nome da exposição é inspirado numa canção de George Harrison e no fundo esta é uma retrospectiva de várias fases do seu trabalho, organizada em 2017 para o Kunstmuseum Wolfsburg, na Alemanha com curadoria de Uta Ruhkamp. Outros destaques: no British Bar a derradeira edição da série de 15 exposições que Pedro Cabrita Reis criou para serem exibidas nas montras do estabelecimento, e que apresentou mais de quatro dezenas de artistas ao longo dos últimos 15 meses. Desta vez os convidados foram Luisa Cunha, Rui Toscano, João Paulo Feliciano, Ricardo Bak Gordon e Tomaz Hipólito. Se passarem pelo Museu do Caramulo, além das exposições de carros (actualmente uma com a história da Porsche), poderão ver “Black Box - Passeios”, uma mostra de trabalhos de Francisco Tropa, Jorge Molder, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Manuel Botelho, Teresa Segurado Pavão, Luisa Cunha e Gonçalo Barreiros, com curadoria de Rui Sanches.

 

OUVIR - “Both Directions at Once: The Lost Album” é uma recolha de gravações, na quase totalidade inéditas, feitas pelo quarteto de John Coltrane no histórico estúdio de Rudy Van Gelder em 6 de Março de 1963. Do quarteto faziam parte Coltrane no sax tenor e sax soprano, McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria. Gravado um anos antes do referencial “A Love Supreme”, estas gravações, que totalizam 90 minutos,  mostram a vitalidade deste quarteto sensivelmente a meio da sua existência. O próprio estúdio ajudou à sonoridade: um pé direito de quase 13 metros, com tecto de madeira abobadado, inspirou os músicos e as gravações ali realizadas eram de facto diferentes. Como é que as bobines destas gravações ficaram tanto tempo ignoradas? A Impulse, a editora com a qual Coltrane tinha contrato, teria perdido as masters numa mudança de instalações e só recentemente os originais em mono foram encontrados em casa da primeira mulher de Coltrane, Juanita Naima Coltrane. Aparentemente esta sessão de gravação destinava-se a cumprir o compromisso de gravação de um álbum para a Impulse. Provavelmente teria sido preciso regressar a estúdio para finalizar esse álbum, mas o que se passou nesse ano de 1963 com estes registos tinha ficado até agora desconhecido. O resultado está aqui, e é aliciante:14 faixas, vários takes de cada tema, alguns originais sem título. 90 minutos do quarteto de Coltrane, ouvidos 55 anos depois de terem sido gravados: tudo parece agora tão simples e acessível, tudo tão natural - mas percebe-se como era um passo nas direcções que Coltrane tomou depois, até morrer em 1967. Se quiserem este é um registo de uma época de transição e de auto-descoberta. E é um documento maravilhoso de um dos maiores músicos de jazz. CD Impulse, no Spotify.

 

PROVAR - A fruta é uma coisa muito incerta. No ano passado tivemos boa cereja e figos abaixo do mediano. Este ano temos cerejas abaixo do mediano mas os figos estão supremos. As chuvas inesperadas deram cabo das cerejas mas o tempo, no geral, parece ter ajudado os figos. Eu sou um apaixonado por figos - desde estes que agora aí andam, escuros, grandes, carnudos, até aos mais pequenos, verdes, tenros, que hão-de aparecer- se o Verão se dignar surgir. Mas para já estes figos estiveiros, os figos de Junho ou de S. João, são magníficos. Poucas frutas são tão versáteis como os figos: gosto de os misturar numa salada, ou como entrada, divididos em quartos acompanhados por presunto cortado bem fino. E gosto deles como sobremesa, e gosto deles como lanche. Eu, de figos, gosto de todos, evocação das memórias de estar na sombra debaixo das grandes figueiras a colhê-los maduros para logo ali os provar. Quando chegar a agosto espero que os pingo de mel façam jus ao nome. Fruta, para mim, é fruta da época. Já que hoje em dia é difícil comer pêssegos em condições, atiremo-nos aos figos que ainda sabem a boas memórias. E ainda nem falei das passas de figo...

 

DIXIT - “O mito acabou” - Jerónimo de Sousa; “De repente, toda a gente acha que é possível fazer tudo já e ao mesmo tempo” - António Costa.  

 

GOSTO - Portugal é vice campeão europeu de satélites do tamanho de latas de refrigerantes.

 

NÃO GOSTO - O Fisco enviou multas relacionadas com a caixa postal electrónica de forma claramente abusiva, mostrando mais uma vez a sua falta de respeito pelos direitos dos contribuintes.

 

BACK TO BASICS - A música é o vinho que enche o copo do silêncio - Robert Fripp.

 

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