Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



ENTRE TANCOS E SERRALVES UM PAÍS FALSO

por falcao, em 28.09.18

IMG_2250.JPG

UM PAÍS FALSO  - Nestes últimos dias vivemos entre as fábulas de Tancos e a de Serralves. O pano de fundo nos dois casos é a falsidade, as explicações mal dadas, a tentativa de fazer passar as pessoas por idiotas. Tancos e Serralves estão envoltos numa neblina de mentira e mistificação, de protecção de compadrios. Nos dois casos há laxismo e prepotência, que passam pelo encobrimento dos factos e por encenações de circunstância para esconder a verdade. Isabel Pires de Lima, ex-Ministra da Cultura, agora travestida de vestal porta-voz de Serralves, esteve ligada, enquanto membro do Governo PS, aos afastamentos de Paolo Pinamonti do São Carlos, de Paulo Cunha e Silva do Instituto das Artes, de António Lagarto do Teatro Nacional D. Maria II, de Dalila Rodrigues do Museu Nacional de Arte Antiga e de Ana Pereira Caldas da Companhia Nacional de Bailado - às vezes a memória das gentes é curta, por isso vale a pena recordar os efectivos currículos de actuação desta governante que teve uma concepção dirigista da Cultura, que se  imiscuíu repetidamente nas programações dos organismos que tutelava e que agora se arma em guardiã dos bons costumes. Ana Pinho, a Presidente de Serralves, revelou-se uma ilusionista da realidade, ignorando factos, procurando ocultar as suas próprias acções e dos seus pares e insinuando a sua inocência - bem protegida pelo extraordinário apego de Pacheco Pereira à defesa da ordem estabelecida. Ao pé deste triunvirato o sargento da GNR de Lagos e o Director da Polícia Judiciária Militar são meninos de côro que só tiveram êxito na récita porque o Ministro da tropa se tornou o maior especialista nacional em assobiar para o ar. Uma falsidade pegada, é o que isto é.

 

SEMANADA - Depois de ter prometido a mudança para compensar a derrota na instalação da Agência Europeia do Medicamento, o Governo deixou cair a passagem do Infarmed para a cidade do Porto; o número de inscritos em cursos técnicos superiores aumentou 40% em relação ao ano passado; mais de 15% dos acidentes verificados nos primeiros seis meses deste ano foram atropelamentos; Tino de Rans está a recolher assinaturas para formalizar um partido a que chamou RIR (Reagir, Incluir, Reciclar); já depois do caso Robles, o Bloco de Esquerda apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa uma proposta de investigação às decisões polémicas de Manuel Salgado, Vereador do Urbanismo, proposta que foi chumbada pelo PS e pela sua aliada arquitecta Helena Roseta; o desemprego de muito longa duração é para os portugueses o dobro do que representa para os estrangeiros que vivem em Portugal; o número de cidadãos estrangeiros a optar por viver em Portugal aumentou 83% no último ano e meio, resultado do regime fiscal português que visa atrair trabalhadores qualificados e reformados; no primeiro semestre de 2018 transacionaram-se 86.335 casas em Portugal, mais 19,8% do que no período homólogo - uma média de 474 casas vendidas por dia e as receitas atingiram os 11,6 mil milhões de euros, um crescimento de 30,5% face ao primeiro semestre de 2017;  as contas de Centeno são claras - fez aumentar a despesa do Estado em 1,2 milhões de euros e aumentou as receitas dos impostos em 2,6 mil milhões nos primeiros oito meses do ano.

 

PENSAMENTOS OCIOSOS - O que terá levado a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, a visitar a sede da Ryanair em Dublin em vésperas da greve europeia de trabalhadores da companhia, e depois partilhar nas redes sociais uma bem disposta fotografia com o polémico CEO da empresa, Michael O’Leary, acusado de não respeitar as leis laborais de uma série de países, entre os quais Portugal?

A puxar ao sentimento.jpg

A ESCRITA DO FADO - Vasco Graça Moura gostava de fado, estudou-o, escreveu para fadistas. Sabia a sua história e percebia onde ele está hoje em dia. Num artigo escrito em Novembro de 2011, para o “Diário de Notícias”, Vasco Graça Moura abordava a evolução do fado e  sublinhava: “Amália provoca uma revolução, fazendo entrar de pleno a grande literatura nos territórios do fado e forçando os paradigmas musicais a incorporar outros contributos que hoje reputamos essenciais, como o de Alain Oulman.” E mais adiante: “O público do fado é cada vez menos composto por saudosistas envelhecidos e sobreviventes das gerações anteriores (que, aliás, têm um papel de enorme relevo na transmissão de um saber, de uma sensibilidade e de um gosto de experiências feitos) e cada vez mais pelas novas gerações, abertas a um grande sincretismo de manifestações musicais.” Vasco Graça Moura tinha esta sensibilidade - e esta curiosidade - em relação ao fado. Não é de admirar: escreveu poemas para vários fadistas como Mísia, Kátia Guerreiro ou Carminho, para além de vários outros que lhe pediram autorização para cantar poemas seus. “A Puxar ao Sentimento: Trinta e Um Fadinhos de Autor” é um livro agora editado com  fados inéditos de Vasco Graça Moura. Termino com um excerto de um deles: «com um traço de amargura/ quis cantar o fado a sós/ e uma tristeza sem cura,/mais negra que a noite escura,/ pôs sombras na minha voz.»

 

a imagem da moda.jpeg

IMAGENS DA MODA - Estamos a atravessar bons tempos para a fotografia, em matéria de exposições. Em Serralves claro que está Robert Mapplethorpe e a notoriedade desta exposição foi aumentada pelo truque da bolinha vermelha que a administração da Fundação lhe decidiu atribuir. Polémicas à parte, e apesar das alterações impostas, é uma mostra de um dos grandes nomes da fotografia do século XX, que marcou a estética fotográfica norte-americana. A interpretação do corpo, sobretudo o masculino, como matéria prima é a sua imagem de marca. Em Lisboa, no Museu do Chiado, é mostrada a obra de Carlos Relvas, um fotógrafo amador que  na segunda metade do século XIX foi precursor de técnicas e formas de utilização da fotografia. Ainda em Lisboa Luisa Ferreuira tem duas exposições - uma na Galeria Monumental (Branco) e outra no Espaço Santa Catarina, na qual revisita algumas lojas históricas da cidade sob o título “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”. Finalmente em Cascais pode ser vista em estreia mundial uma exposição da obra de um dos maiores fotógrafos de moda do século XX, Norman Parkinson, sob o título “Sempre na Moda” com curadoria de Terence Pepper, que durante mais de 40 anos foi responsável pela área da Fotografia na a National Portrait Gallery, em Londres. A mostra estará patente no Centro Cultural de Cascais, de 28 de setembro a 20 de janeiro de 2019 e percorre seis décadas da obra de Parkinson, para revistas como a Vogue ou a Harper’s Bazaar, tendo fixado imagens de modelos e de estrelas do cinema, como a de Audrey Hepburn que aqui se reproduz.

 

Dentro da Chuva (png).png

O SOM DA CHUVA -  Aline Frazão nasceu em Angola, viveu em Lisboa, Barcelona e Madrid. A sua música cresceu num triângulo com pontas no Brasil, em Cabo Verde e em Angola. A influência do jazz vem de outras latitudes e é bem presente, convivendo com um ritmo quente, na voz e nos arranjos, no cruzamento das mornas com a bossa nova, na maneira de dizer as palavras. “Dentro da Chuva” é o seu quarto disco e marca o seu reencontro com Luanda, de onde esteve ausente dez anos. Luanda aliás é uma presença dominante neste disco, em temas como “Areal do Cabo Ledo”,  sinais locais em “Manifesto”, o apelo de África em “Um Corpo Sobre o Mapa” ou o desejo do regresso que “Fuga” conta. E depois as influências cruzadas, em parte trazidas por convidados como o violoncelo de Jaques Morelenbaum, a voz de Luedji Luna ou a guitarra de Gabriel Muzak. E o fio condutor é Aline Frazão, sempre inesperada como quando escolhe fazer uma versão de “Ces Petits Riens” de Serge Gainsbourg, ou quando vai explorar as composições de Danilo Lopes da Silva (o delicioso Peit Ta Segura”) ou as palavras de Ruy Duarte de Carvalho. É escaldante, este disco.

 

BRANCO FRESCO -  Tudo indica que até final da próxima semana continuaremos a ter dias quentes, e amenos fins de tarde. Portanto tudo continua a proporcionar a procura de um bom vinho branco. A casta cercial, originária da região do Dão e da Bairrada existe por todo o país. Normalmente é associada a outras castas de vinho branco, como por exemplo o arinto, a bical ou a malvasia fina. As principais características da cercial são a acidez e o aroma - daí usar-se em conjunto com uvas de outras castas. Fazer um monocasta de cercial é uma aventura rara, porque é tão marcante que pode tornar-se desequilibrado. Mas o Cercial 2015 da Quinta de S. Sebastião é uma excepção que merece ser conhecida. A fermentação decorreu em barricas novas de carvalho francês e o resultado é um vinho com uma cor dourada, aromas pronunciados, mineral, intenso e fresco, do qual foram apenas feitas 700 garrafas. A Quinta de S. Sebastião, da região de Lisboa (Arruda dos Vinhos), produz uma extensa gama de vinhos e tem sido desenvolvida por António Parente que ali cultiva as castas tintas Syrah, Merlot, Touriga Nacional e Tinta Roriz e as brancas Arinto, Cercial e Sauvigon Blanc. Uma curiosidade final - a casta cercial é a origem do famoso vinho generoso Sercial da Madeira, um vinho seco que depois de envelhecer adquire características excepcionais.

 

DIXIT - “‘É ao público que cabe avaliar se quer ou se deve ver ou não imagens com mais teor sexual explícito”- João Fernandes, ex-diretor artístico de Serralves, actual vice-director do Museu Reina Sofia, em Madrid.

 

BOLSA DE VALORES - As Edições do Limão, ligadas à Galeria Monumental, iniciaram a sua actividade com «Branco», de Luísa Ferreira, que tem por base o livro de artista com o mesmo título integrado na exposição que está naquela Galeria até 25 de Outubro. É uma edição de 50 exemplares, 20 dos quais numerados e assinados pela autora, ao preço de 65,00€. Está à venda na Galeria Monumental e na livraria STET e é um objecto lindíssimo, de colecção.

 

BACK TO BASICS - “Vejo as coisas de uma forma como não foram vistas antes. A Arte é uma declaração rigorosa sobre o tempo em que é produzida.” - Robert Mapplethorpe

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:30

SOBRE O IRRITANTE EM PORTUGAL

por falcao, em 21.09.18

IMG_2282.JPG

 O IRRITANTE EM PORTUGAL - Fala-se muito de um irritante que pelos vistos anda por aí, Mas o maior irritante de todos é a forma como Estado funciona. Temos um Estado que é uma vergonha - e que irrita os cidadãos sem nunca pedir desculpa. Está à vista o que se passou em Pedrógão, começa a estar à vista o que se anda a passar em Lisboa graças às denúncias do ex-vereador Nunes da Silva sobre a actuação de Manuel Salgado na Câmara Municipal e até o sonso Rui Rio fez estranhos malabarismos urbanísticos na zona da Arrábida quando dirigiu a autarquia do Porto. Mas há mais: esta semana um advogado amigo dizia-me que todos os timings da justiça tributária estavam a ser um pesadelo que se arrasta, muitas vezes, por uma década. E acrescentava que nas situações onde o cidadão já pagou, e em que a probabilidade de o Estado ter que devolver dinheiro é grande, então o atraso ainda é maior e ninguém responde a nada. Tudo isto é mais grave que a polémica sobre a roupa de António Costa e a sua falta de bom senso na chegada a Luanda. Esse é um incidente menor para gerar distração e galhofa. O pior é o resto, como o facto de Maria Manuel Mota, vencedora do Prémio Pessoa em 2013, ter ficado de fora dos 500 investigadores selecionados pela FCT para ter contrato de trabalho porque o júri achou o seu currículo pouco relevante e não considerou que o desenvolvimento da sua investigação sobre a malária, que faz há 20 anos e tem tido reconhecimento internacional, tem impacto sobre a saúde humana. Isto é que é o irritante em Portugal: o Estado, os seus burocratas, os seus parasitas.

 

SEMANADA - O ano lectivo arrancou com milhares de alunos à espera de professores ainda não colocados; a falta de funcionários de apoio ainda é maior e está estimada em cerca de três mil em todo o país; um quarto das escolas públicas não faz reutilização de manuais;  20% dos médicos com idade para dispensa continuam a efectuar urgências; 34% das casas do centro de Lisboa já são ocupadas por turistas e em algumas freguesias estima-se que possa vir a superar o número de residentes; duas ex-candidatas pelo PSD à autarquia Lisboeta criticam a falta de oposição do partido ao executivo camarário e dizem que Teresa Leal Coelho se comporta em muitas ocasiões  como o nono vereador de Fernando Medina;  este ano o número de matriculados, do pré-escolar foi o mais baixo dos últimos 12 anos ; o Governo anunciou que a integração dos trabalhadores precários não se fará em 2018 mas sim em 2019; em Julho houve uma quebra de 2,1% de turistas em relação ao mesmo período do ano passado; em Julho os bancos  emprestaram uma média de 20 milhões de euros por dia para crédito ao consumo; a atribuição de novas pensões de reforma já tem atrasos de nove meses.

 

SE TODOS FOSSEM ASSIM... - Marco Pierre White, um respeitado chef britânico, que em tempos já devolveu estrelas Michelin que tinha recebido, recusou a visita do Guia Michelin ao seu novo restaurante em Singapura, dizendo: "Eles vendem pneus e eu vendo comida."

 

image.png

UMA AVENTURA EM TEMPO DE GUERRA  - Klaus Kittel nasceu e morreu no Porto. Filho de alemães, tinha orgulho em dizer que era português, embora continuasse alemão no passaporte. E alemão na consciência, de tal forma que em finais de 1944,, contra todos os melhores conselhos, decidiu  responder à chamada para a Luftwaffe e para a frente de Berlim, quando tudo já estava perdido. Foi fechado num campo de prisioneiros de guerra americano, entregue depois aos franceses e, à semelhança de muitos outros milhares de soldados vencidos, foi condenado sem julgamento a trabalhos forçados - no caso de Kittel, nos campos agrícolas do Marne. Conseguiu fugir dois anos mais tarde e regressou a Portugal onde viveu meses ainda clandestino. Podia ser só mais um romance, mas Klaus Kittel foi um homem de carne e osso. E guardou as memórias de uma vida dactilografadas num molho de folhas fechadas numa gaveta de uma casa no Porto. Por um feliz acaso essas memórias voltaram a ver a luz do dia quase vinte anos depois da sua morte. São essas memórias o fio condutor do segundo romance de João Nuno Azambuja, que em 2016 venceu o prémio literário UCCLA. Os Provocadores de Naufrágios leva-nos pelo Porto dos alemães na primeira metade do século XX, pela devastação da guerra na alma dos homens, pela insensatez dos que mandam e dos nacionalismos, pela banalidade da barbárie de vencedores e vencidos. E estes naufrágios são os dos homens, das nações e da paz.

sem_titulo1 (1).png

QUAL O PESO DO SONHO? - Teresa Gonçalves Lobo nasceu no Funchal, estudou no Ar.Co e o desenho é o seu território natural, dominado por  linhas gestuais e formas caligráficas. Tem também feito escultura e projectado os seus desenhos em peças de mobiliário. Está presente em diversas colecções e tem exposto regularmente em Portugal, mas também em Inglaterra, França, Rússia, Áustria e Espanha. Por cá é representada pela Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12, no Bairro Alto). “Da Leveza do Sonho” é a sua nova exposição, patente nas Salgadeiras até 17 de Novembro. No catálogo, José Manuel dos Santosrecorda, a propósito dos  desenhos de Teresa Gonçalves Lobo o que Edgar Degas, “grande desenhador de movimentos e de marcações, de instabilidades e de instantes, de mimeses e de mímicas, de geometrias e de gestos, disse a Paul Valéry: O desenho não é a forma, é a maneira de ver a forma”. E concretamente sobre o trabalho de Teresa Gonçalves Lobo, José Manuel Santos afirma: “Esta obra é subtil e não simples. É fluente e não fácil. É leve e não ligeira. É densa e não dúctil. É sofisticada e não solene. É serena e não suave. É sustentada e não sobrecarregada. A sua autora desconfia instintivamente de tudo o que vem sobrepor vestes à nudez, atirar ruídos ao silêncio, trazer detritos à vida”. Os preços das obras expostas vão de 2200 euros dos desenhos mais pequenos até 7500 euros nos de maiores dimensões (como o que aqui é reproduzido).

Katia Guerreiro - Sempre (1).jpg

ISTO SIM, É FADO - “Sempre”, de Katia Guerreiro, é sério candidato a melhor disco de fado do ano. Com uma produção exemplar de José Mário Branco (cuja voz aparece fugaz num dos temas), o disco vale pela música, pelos músicos que acompanham a fadista, pelas capacidades que a sua voz evidencia nos 16 temas gravados, sobretudo pela versatilidade da sua interpretação, pelo sentir como canta os poemas escolhidos - e estes poemas são em muito boa parte a razão de ser da qualidade deste disco. Do ponto de vista musical aqui se correm fados tradicionais ( o Fado Belo, o Fado Menor, o Fado Mouraria, o Fado Freira, o Fado Carriche, o Fado Rigoroso, o Fado Bailado, o Fado Blanc e o Fado Pierrot), ao lado de temas originais entre os quais me permito destacar o extraordinário “Fora de Cena” com música de José Mário Branco e letra de Manuela De Freitas. Aliás convém dizer que Manuela de Freitas assina algumas das mais marcantes letras deste disco e saliento essa magnífica história do quotidiano que é “Dia Não”. Já agora, “Quem Diria”, o fado a caminhar para marchinha onde aparece a voz de José Mário Branco, é uma pequena maravilha, da autoria de José Rebola. Destaque também para o trabalho dos músicos que acompanham Katia Guerreiro - Pedro de Castro e Luis Guerreiro na guitarra portuguesa, João Mário Veiga e André Ramos na viola de fado , Francisco Gaspar na viola-baixo. A gravação e a mistura são de António Pinheiro da Silva, um dos melhores engenheiros de som portugueses.

 

UMA COMPOTA -  Esta é a época do doce de tomate fresco, acabado de preparar. Gosto dele artesanal, comido pouco tempo depois de ser feito, sem corantes nem conservantes. Tenho a sorte de ter ao pé de mim uma casa agrícola onde se podem comprar delícias regionais e, na semana passada, lá fui eu ver se já havia doce de tomate - e havia mesmo. Por cima de um pedaço de bom pão fresco ou de uma torrada, poucas coisas são melhor companhia para o começo do dia. O local em causa chama-se Loja Afinidades, na Quinta do Anjo, entre Palmela e Azeitão, e pertence à Casa Agrícola Horácio dos Reis Simões, também conhecida por produzir um premiado moscatel roxo. O doce de tomate da casa é denso, tem ainda pedaços de polpa, não vem triturado, não é enjoativo, tem a consistência certa. É um produto caseiro, sem adição de aromas, corantes ou conservantes artificiais, sem demasiado açúcar. Já tentei saber a receita mas não consegui - a conversa deste ano andou à volta de a produção ter sido mais pequena do que é costume porque houve pouco tomate. Mesmo assim, antes do doce aparecer , alma gentil ofereceu-me uns exemplares da raça coração de boi, bem maduros, ali comprados nas Afinidades, que fizeram umas belas saladas. Para fazer doce de tomate quer-se o dito bem maduro. É nessa parte, da compota,  que agora estou.

 

DIXIT - “Estamos num tempo de heróis politicamente correctos. Agora as personagens são todas feministas, ecologistas, defensoras dos animais e respeitadoras das minorias étnicas. E os leitores começam a ficar cansados disso” - Arturo Pérez-Reverte, escritor.

 

BOLSA DE VALORES - Já pensou em ter um azulejo de artista? Sim, um azulejo, essa peça tão portuguesa, mas feita a partir de uma obra feita por um artista plástico para ser reproduzida nesse suporte. A Galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C) apresenta obras de Júlio Pomar e Sofia Areal, em painéis e em azulejos individuais. No caso de Pomar os preços começam nos 60 euros dos azulejos múltiplos avulso, passam para os 215 euros em edições limitadas e o magnífico painel do “Palhaço” vale 4500 euros. No caso de Sofia Areal as obras expostas são todas deste ano, com painéis que vão dos dez mil aos 25 mil euros e os azulejos originais policromáticos valem 130 euros.

 

BACK TO BASICS - “É óbvio que existem políticos desonestos a nível local, mas é certo que também existem políticos desonestos a nível nacional “ - Richard Nixon.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:00

PORTUGAL É UM REALITY SHOW

por falcao, em 14.09.18

IMG_2031.JPG

PORTUGAL É UM REALITY SHOW - Caso ainda não tenham reparado estamos no meio de um reality show: Rui Rio dá o braço a Mariana Mortágua enquanto dispara para dentro do seu partido, António Costa sacode Catarina Martins e fica mudo com as denúncias sobre Manuel Salgado, Assunção Cristas reivindica a liderança da oposição, Jerónimo de Sousa introduz as galinhas poedeiras na discussão do Orçamento de Estado e o Ministro da Defesa faz sempre de distraído quando se fala do desaparecimento das armas de Tancos. Como se não chegasse o futebol está atolado em suspeitas e as investigações judiciais são palco de números de ilusionismo. Nem mesmo o argumentista mais brilhante se lembraria de um naipe destes. É coisa de arromba. Relações que azedam, acusações pelo ar, ressabiamentos, infidelidades e armadilhas. Ao pé disto “Pesadelo na Cozinha” é coisa de meninos. A política, a justiça e o futebol são os maiores reality shows portugueses. Todas as semanas há novos episódios, as revelações são surpreendentes, as personagens são conhecidas de todos. Têm audiências imbatíveis, situações surpreendentes, nunca se sabe o fim. Todos andam paredes meias com escândalos, a corrupção é coisa corriqueira, a falta de princípios é a linha condutora. É isto: temos um país que parece o palco de uma comédia bufa com péssimos actores.

 

SEMANADA - Todos os dias há cinco queixas de crimes sexuais contra crianças; o emprego em Portugal caíu 0,3 % no segundo trimestre deste ano, em comparação com o trimestre anterior; Nunes da Silva ex-vereador do PS na Câmara Municipal de Lisboa diz que o anterior proprietário do terreno da nova torre das Picoas foi vítima de uma fraude que favoreceu o BES e responsabiliza Manuel Salgado, num caso de que Fernando Medina e António Costa terão tido conhecimento; o Primeiro Ministro António Costa veio a público defender o Presidente da Câmara de Pedrógão, autarquia acusada de irregularidades no processo de reconstrução de casas destruídas pelos incêndios do ano passado e que foi alvo de buscas da Polícia Judiciária esta semana; Rui Rio alinhou com Mariana Mortágua em medidas adicionais de taxação de negócios imobiliários; a CP admitiu não ter material suficiente para cumprir os horários por si afixados quanto à circulação de comboios na linha de Cascais; dados de agosto indicam que 75% das consultas hospitalares do Serviço Nacional de Saúde têm esperas superiores a um ano e cerca de 20% superam os dois anos; um doente com cancro do centro hospitalar de Setúbal esperou quase meio ano pelo início do tratamento com radioterapia; é oficial, segundo a Marktest, em Portugal, pela primeira vez a utilização da internet via Telemóvel (57.9%) ultrapassou a utilização por PC (55.2%); o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas lançou uma pós graduação dedicada ao estudo da Igualdade de Género.

 

ARCO DA VELHA - No Parlamento Europeu o PCP votou contra um relatório que acusa o governo da Hungria de violação grave dos valores europeus, nomeadamente em matéria de direitos humanos e liberdade.

 

IMG_2245.jpg

O HOMEM DO PINHAL - Portugal provavelmente não teria sido o primeiro país globalizador se D.Dinis não tivesse mandado plantar o pinhal de Leiria, que deu a matéria prima para fabricar as caravelas que fizeram os descobrimentos. Mesmo que esta relação entre o pinhal e os descobrimentos seja um pouco forçada, a verdade é que D. Dinis deixou marca na nossa História. O seu pinhal ardeu em grande parte no ano passado - mais um sinal da nossa decadência - mas a sua memória continua a ser uma referência da História de Portugal. Da sua vida fazem parte a Rainha Santa Isabel, as suas poesias, e também uma tendência para escapadelas amorosas. Mas o seu papel é muito mais do que aquele que se revela nas lendas: instituíu o português como língua oficial em todo o território, fez a delimitação da fronteira nacional, traçou uma estratégia para fazer crescer o país por dentro, apostou na educação e no desenvolvimento, derrotou inimigos internos, reinou durante quatro décadas. “D.Dinis - Um Destino Português” é a sua biografia, factual onde é preciso, romanceada onde valia a pena. Foi escrita por José Jorge Letria e editada por estes dias. É um belo livro sobre a nossa História, num tempo onde tudo parece estar fadado ao esquecimento.

 

R0000579.jpg

A MEMÓRIA DO TEMPO - Quando o Lux abriu há 20 anos não nasceu do zero - era o segundo capítulo do Frágil, o bar do Bairro Alto fundado em 1982 por Manuel Reis, que morreu este ano. Manuel Reis adivinhou que o Bairro Alto estava a começar a sua fase descendente, queria um espaço diferente e com outro potencial, e soube ver as possibilidades que se abriam com a renovação da parte oriental de Lisboa, quando a Expo 98 começou a ser preparada. E assim o Lux, nascido num velho armazém daquele lado do Porto de Lisboa, frente à estação de comboios de Santa Apolónia, mudou a forma de ver a noite - já não era só bar, nem só discoteca, acolhia concertos, juntava tudo, tinha varandas e terraço, estava frente ao rio e criou uma legião de fiéis. Como sempre fazia Manuel Reis foi de uma coerência absoluta no projecto, na criação do espaço, na sua identidade gráfica e visual. Esta semana abriu no Hub Criativo do Beato uma exposição que permite não só recordar a actividade do Lux nestes 20 anos, com os seus programas, cartazes, peças de decoração e fotografias, mas sobretudo perceber como foi o processo de criação do local - o que está exposto da memória descritiva do projecto entregue por Manuel Reis é uma peça deliciosa, assim como os primeiros esboços e planos dos arquitectos Fernando Sanchez Salvador e Margarida Grácio Nunes, que, como já tinham feitos várias vezes antes, trabalharam com Reis. A exposição tem uma montagem fabulosa, concebida pelo designer Fernando Brízio, ainda escolhido por Manuel Reis. Chama-se Paradisaea e faz uma revisão da comunicação visual e sonora do Lux nestas duas décadas, dividido em três áreas:  a primeira mostra o projecto do Lux, as suas constantes mutações e a identidade visual; a segunda mostra uso do vídeo como espaço de experimentação; e a terceira faz ouvir a música, apresenta o Lux como espaço performativo e mostra os objectos que andaram por entre o público e foram usados ao longos dos anos. Até 11 de Novembro podemos sorrir de frente para a nossa história.

 

paul simon.png

PAUL SIMON DIZ ADEUS - À beira de fazer 77 anos, Paul Simon vai pôr fim à sua carreira no próximo dia 22, com um derradeiro concerto em Queens, o bairro de Nova Iorque onde cresceu. Há dias lançou o seu 14º álbum de originais, “In The Blue Light”. Este disco é o contrário do que costuma acontecer  a músicos com esta idade. Em vez de pegar nos grandes êxitos da sua carreira e dar-lhes um toque diferente, Paul Simon escolheu dez canções que considera terem sido injustamente esquecidas no meio da sua obra e reinterpretou-as, com a colaboração de nomes como Jack DeJohnette, Bill Frisell, Steve Gadd, Wynton Marsalis e da orquestra de câmara yMusic. Aqui não há êxitos, nada de “Graceland”, mas há quatro temas de “You’re The One”, o álbum de 2000 que Simon entende ter sido subavaliado. É o próprio Paul Simon que diz, em relação às dez canções aqui retomadas, que se limitou a dar uma nova camada de pintura numa velha casa de família pouco usada. Destaque para a forma como a orquestra de câmara yMusic refez “Can’t Run But” (do álbum The Rhythm of the Saints) e o injustamente pouco conhecido “René and Georgette Magritte With Their Dog After the War “(que apareceu em Hearts And Bones). Destaque ainda para a participação de Wynton Marsalis em “How the Heart Approaches What It Yearns” da banda sonora do filme “One Trick Pony”, de Bill Frisell em “Darling Lorraine” e de Jack DeJohnette em  “Some Folks’ Lives Roll Easy”.  “In The Blue Light”, editado no passado dia 7, já está disponível no Spotify.

 

O MOLHO DA ESTAÇÃO -  Como estamos na época das uvas deixo aqui um desafio: experimentem fazer um molho de uvas para acompanhar pratos de carne. Comecem por cortar as uvas em pedaços, e deixem-nas cozer (e desfazer) em um pouco de água, um pouco de vinho tinto de boa qualidade e um pouco de farinha de milho. Mexam bem no processo de cozedura, até ficar consistente, e no fim temperem com sumo de limão a gosto. Adicionem mais algumas uvas cortadas em quartos, mesmo antes de servir. O ideal para isto é, obviamente usar uvas vermelhas sem grainha. Ao princípio era um bocado desconfiado quando apareceram as uvas sem grainha, mas aos poucos comecei a descobrir que o seu sabor e as suas características não ficavam a dever nada às, digamos, uvas originais. Hoje em dia elas são vulgares e estão por todo o lado. A uva sem grainha é 100% natural e surge do não desenvolvimento do embrião em algumas variedade, existe há séculos e reza a história que era muito apreciada pelos imperadores turcos - a variedade sultanas ganhou o nome por essas paragens. Hoje em dia a Herdade Vale da Rosa tornou-se no maior produtor nacional de uvas destas e cultiva sete variedades de uva sem grainha em cerca de 100 hectares do total de 250 onde tem vinha. A maior parte destas uvas sem grainha é exportada para o norte da Europa.

 

DIXIT - “É preciso não contar com o ovo no dito cujo da galinha” - Jerónimo de Sousa, sobre a posição do PCO em relação ao próximo Orçamento de Estado.

 

GOSTO - O Parlamento Europeu adoptou a directiva que reforma os direitos de autor e os adapta à era digital, uma medida importante para os criadores culturais, para o jornalismo e para qualquer ideia de cidadania ativa.

 

NÃO GOSTO - As queimadas foram responsáveis por 60% dos incêndios florestais registados este ano.

 

BACK TO BASICS - “Um conservador é um homem que tem duas pernas em excelentes condições mas que no entanto nunca aprendeu a andar” - Franklin D. Roosevelt

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:15

A MENTIRA É UMA ARMA

por falcao, em 07.09.18

IMG_2125.JPG

A MENTIRA É UMA ARMA - No admirável mundo novo da geringonça o dinheiro não conta e a verdade é um dano colateral. Se confrontarmos as promessa de hoje com as palavras de ontem percebemos a extensão da utilização da mentira como arma eleitoral. Longe vai o tempo em que António Costa dizia que o dinheiro não chegava para tudo - como fez ainda este ano, em Junho, a propósito dos professores. Como se pode acreditar num primeiro-ministro que agora promete tudo mas que, em Novembro de 2017, dizia que era uma ilusão a ideia de que é possível “tudo para todos já”. Os próximos meses  não vão trazer propriamente a feitura de um programa eleitoral - vão ser o palco onde poderemos observar o despique entre as promessas que vão sendo feitas e o caderno de encargos e o rol de exigências que Bloco e PCP laboriosamente vão compilando. A maior das mentiras, que serve de colchão a todas as promessas, é a repetida afirmação de que tudo agora está bem e que o país avança no caminho do paraíso onde todos viverão sem se recordarem da crise, longe da austeridade - apenas com umas, digamos, pequenas cativações. Todos querem transportes mais baratos e acolhem de bom grado descontos para os passes dos filhos - mas como se vai vendo o reverso é a degradação da qualidade de todos os serviços públicos - da CP aos hospitais, da saúde à educação, passando pela segurança. Já se percebeu que este ano o défice público está acima das previsões e a Unidade Técnica de Apoio Orçamental do Parlamento veio dizer que o aumento da despesa pode descontrolar ainda mais as coisas - é o que vai acontecer graças ao orçamento eleitoralista que aí vem. Claro que a seguir virão mais impostos e o previdente Medina, espécie de arauto do que vai na cabeça de Costa, já foi dizendo que o melhor é aumentar a taxa do turismo em Lisboa.

 

SEMANADA - Em 100 euros gastos em Portugal, quase 12 vêm do bolso de turistas; as famílias portuguesas já estão a gastar o mesmo que na pré-troika e o segundo trimestre deste ano foi o que registrou maior consumo de bens duradouros dos últimos 17 anos; em Lisboa entram por dia 370 mil carros vindos dos concelhos limítrofes; a CP afinal só vai comprar metade dos comboios previstos no plano de investimentos do ano passado; os juros da dívida pagos pela CP davam para comprar 40 comboios novos;  o Bloco de Esquerda afirmou que recusa ser “penacho de um qualquer Conselho de Ministros” após as próximas eleições; o PCP declarou-se disponível para governar - mas para fazer “outra política”; metade da ajuda europeia aos incêndios florestais em Portugal de 2017, no valor de 50,6 milhões de euros, foi canalizada por António Costa para o próprio Estado, nomeadamente para a GNR, a Protecção Civil, o Instituto de Conservação da Natureza e Fundo Florestal Permanente, a Marinha, Força Aérea e o Exército; cada português produz em média 40 quilos de resíduos por mês e, por ano, o país acumula quase cinco milhões de toneladas de resíduos, o peso de três pontes Vasco da Gama; segundo o livro “Desperdício Alimentar”, de Iva Pires, cada português desperdiça uma média de 100 quilos de alimentos por ano; há 1350 portugueses à espera de cirurgia de tratamento de obesidade.

 

ARCO DA VELHA - O tribunal de Montemor-O-Novo libertou quatro indivíduos que tinham sido detidos em flagrante a fazer explodir uma caixa multibanco em Reguengos de Monsaraz.

 

IMG_2129.jpg

ESTE É DE OLHÃO  - O “este” a que me refiro é “O Centro do Mundo”, o romance de Ana Cristina Leonardo que este ano me fez querer conhecer melhor Olhão- e passar aí uns dias das minhas férias. Não me arrependo. Descobri uma terra que apenas conhecia de passagem e que tem uma zona central antiga, arruinada ao longo dos anos, mas que deve ter sido acolhedora e envolvente, e que agora começa a ser recuperada. Numa só rua vi três agências imobiliárias seguidas, umas coladas às outras, com ofertas de casas locais antigas para restaurar. Terra de pescadores e da indústria conserveira, com ilhas da Ria Formosa mesmo em frente, com um mercado antigo, recuperado, e uma marginal em que abundam restaurantes, Olhão já foi descoberta por estrangeiros que foram comprando casas, muitas com açoteias de onde se avista a Ria e as casas brancas em forma de cubo . “O Centro do Mundo”, de Ana Cristina Leonardo, é outra conversa -uma viagem através do tempo, que fala de como era Olhão, percorre a sua História sob o pretexto da evocação de um aventureiro de origem russa, fugido da revolução de Outubro, espião ocasional, vigarista regular, sedutor impenitente. Boris Skossyreff, assim se chama a personagem, acaba pois por funcionar como o guia que nos leva por Olhão ao longo de algumas décadas. O livro está editado pela Quetzal.

 

image.png

POLÉMICA: FESTIVAL DE VENEZA ACOLHE A NETFLIX - Depois de o Festival de Cannes ter cedido à pressão dos distribuidores de filmes franceses e ter impedido as produções da Netflix de ali se apresentarem, o Festival de Cinema de Veneza acolheu de braços abertos o gigante do streaming que levou as suas produções mais recentes - a começar por  “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, que foi o grande destaque da abertura deste 75º Festival de Veneza. A Netflix apresenta outros seis títulos, entre eles dois candidatos ao Leão de Ouro: “The Ballad of Buster Scruggs”, de Ethan e Joel Coen (na imagem), e “22 July”, de Paul Greengrass. “Roma” não tem elenco internacional, foi filmado em preto e branco e é falado em espanhol. “É um tipo de projeto que teria enormes dificuldades para encontrar espaço no mercado” – defendeu o diretor mexicano, elogiando a atitude da Netflix. Outras produções da Netflix presentes em Veneza são “On My Skin” do italiano Alessio Cremonini, o muito aguardado “The Other Side Of The Wind” - o derradeiro filme, inacabado de Orson Welles que a Netflix recuperou - e o documentário “They’ll Love Me When I’m Dead”, de Morgan Neville, exactamente sobre Welles e a epopeia que foi a rodagem do seu filme inacabado. Entretanto a Confederação Internacional dos Cinemas de Arte (Cicae) já criticou o Festival de Cinema de veneza por aceitar filmes estreados fora das salas de cinema - mas que chegam a uma enorme audiência garantida pelo crescente número de assinantes da Netflix em todo o mundo.

 

image (1).png

A CAÇADORA ANNA CALVI - Há cinco anos que a britânica Anna Calvi não lançava um disco novo - e estão agora a fazer sete anos que tocou no Lux, a seguir ao seu primeiro álbum. Este “Hunter” é o seu terceiro registo e cumpre à risca o que ela havia anunciado: uma colecção de canções pop com ar sério sobre o desejo, o controlo e o género - o que vai de encontro às conhecidas causas que Calvi vem defendendo publicamente. Mesmo que não sigam as letras ficarão contagiados pelo lado musical do álbum, pela forma como ela continua a explorar os limites da guitarra e a mostrar o seu virtuosismo, sem nunca recorrer ao exibicionismo fácil e gratuito - uma froma de tocar guitarra particularmente evidente em faixas como “Don’t Beat The Girl Out Of My Body” ou “Indies Of Paradise”. “Hunter”, a canção que dá título ao disco, é construída entre um fundo de sintetizador e uma guitarra que se conjuga com a  percussão, numa balada rock poderosa. Anna Calvi diz que este é o seu disco de referência, de entre os que gravou até agora - e é simultaneamente suave e enérgico, permancendo simples e envolvente. O tema “Swimming Pool”, aparentemente uma homenagem a David Hockney, explora explicitamente o prazer sem culpa e um terreno sonoro semelhante, mais ambiental ainda, é dado em “Eden”, o último tema do álbum. A produção é de Nick Launay, com quem Nick Cave gosta de trabalhar. Aqui, ele deixou espaço para que Calvi soasse mais autêntica, musicalmente menos polida, com, um registo de voz mais intimista, na verdade mais próxima da realidade ao vivo. Disponível no Spotify.

 

UMA BOA CERVEJARIA - Dantes era o Spianata, um restaurante de inspiração italiana e comportamento incerto, que ao longo do tempo foi ainda ficando mais incerto. O local é bom - na Travessa de Santa Quitério, perto da Pedro Álvares Cabral, com um amplo parque de estacionamento por baixo. A sala do restaurante prolonga-se num terraço enorme  que acolhe uma esplanada com uma bela vista sobre Lisboa e de onde ainda se vê o Tejo. Desde há uns meses ali está a cervejaria Sem Vergonha. Uma boa cervejaria, maioritariamente frequentada por portugueses, com um serviço simpático, e que está aberta ao Domingo, o que é sempre uma boa ideia. Tem marisco fresco, um tártaro de atum bem aprontado, choco frito a bater-se com muitos de Setúbal, peixinhos da horta acima da média, um picapau de novilho bem temperado e um belo bitoque do lombo. As batatas fritas são boas - e isto é crucial numa cervejaria. À entrada está um balcão de peixe fresco que o cliente pode pescar na altura. O serviço funciona bem, a carta de vinhos tem preços honestos e a imperial é bem tirada. Nas sobremesas figuram os gelados Artisani, que aliás têm loja própria ali perto. É aquele género de restaurante onde apetece voltar, com uma boa relação qualidade preço e onde os clientes se sentem bem. Que não se estrague é o meu desejo. Travessa de Santa Quitéria 38 D, telefone 21 385 0967. Fecha às segundas, aberto até à uma - mas sexta e sábado encerra às duas.

 

DIXIT - “É preciso extinguir o que só serve para enganar o povinho (...) Hoje a corrupção é um grande problema nacional e até é um problema endémico” - João Cravinho

 

GOSTO - A edição em jornal da Monocle Autumn Fashion Edition dedica duas páginas à indústria têxtil portuguesa, nomeadamente às empresas que têm introduzido inovação tecnológica e às que produzem para marcas de luxo.

 

NÃO GOSTO - O programa de obras em escolas de ensino básico de Lisboa, a cargo da autarquia de Medina, regista atrasos sensíveis a poucos dias da abertura do ano escolar.

 

BACK TO BASICS - “Aqueles que vos querem fazer acreditar em coisas absurdas, são os mesmos que podem levar os outros a cometer atrocidades” - Voltaire

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:15


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2004
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2003
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D