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CAVACO, AS MEMÓRIAS DE UM NARCISO - Esta semana Cavaco Silva resolveu, com estrondo, sair da sua sonsa reforma. Com o arrogante estilo de sempre veio contar a sua versão da História recente de Portugal - centrada nele próprio, narciso como é, em mais um volume da sua biografia política. Não é muito usual que um ex-Presidente da República, menos de três anos depois do fim do seu mandato, se ponha a revelar factos, teoricamente reservados, ocorridos durante o desempenho do cargo, ainda para mais relativos ao Governo em exercício e ao anterior Primeiro Ministro. Só por si esta pressa de moldar a História à sua própria versão é sinal da falta de elegância e de fair play, assim como do ressabiamento que caracterizaram a sua acção política ao longo dos anos. O lema de Cavaco, recorde-se, é “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, o que só por si é um manifesto de arrogância. E é, além disso, uma falsificação no que toca à parte do “nunca me engano”  (como aliás se pode comprovar pela sua acção enquanto Primeiro-Ministro e, depois, enquanto Presidente da República). Foi a partir do núcleo duro de Cavaco Silva que o BPN se criou, foi com ele que parte do PSD se refinou enquanto aparelho oportunista na política e nos negócios. Além disso, como hoje já se percebe bem melhor, o modelo que criou e estimulou de desenvolvimento para o país, à custa de betão e obras públicas, é polémico, serviu para enriquecer alguns, financiar a política e partidos e os resultados não são os melhores se compararmos com outros países - nomeadamente se olharmos para a liquidação da agricultura e da pesca. A sua actuação enquanto Presidente da República tem episódios lamentáveis, que ele omite naturalmente. O facto de haver quem veja nele o eterno D. Sebastião do PSD diz muito sobre uma geração de políticos que o continuam a colocar num pedestal e que vivem num registo de adoração elucidativo da pobreza das ideias que têm.

 

SEMANADA - Portugal mantém a terceira maior dívida pública da União Europeia (UE), em 2017; o Ministro das Finanças não revelou ainda o montante das cativações que prevê fazer no Orçamento de Estado de 2019; o ex eurodeputado socialista Vital Moreira afirmou que a redução das propinas proposta pelo Governo é uma medida eleiçoeira e reacionária; o montante das compras feitas com cartões bancários portugueses no estrangeiro durante o verão cresceu 24% em relação ao ano anterior e atingiu 1093 milhões de euros; os trabalhadores portugueses fazem uma pausa de almoço de 58 minutos em média, a maior de toda a Europa;  segundo a Marktest nos últimos anos triplicou o número de portugueses que utiliza serviços de mensagem instantânea através de várias aplicações; a rádio capta cerca de um terço dos seus ouvintes regulares entre as seis e as dez da manhã; está prevista a construção de 208 novos estabelecimentos hoteleiros em Lisboa, quase duplicando a capacidade existente; no último mês morreram oito pessoas em acidentes no mesmo troço do IC8; uma comissão parlamentar deu parecer desfavorável à nomeação do deputado socialista Carlos Pereira para vogal do conselho de administração da ERSE, para onde tinha sido indicado pelo Governo.

 

MELODIAS DE SEMPRE - Os actuais políticos podem ficar descansados que a sua influência perdura - uma candidata à liderança da JS apresentou um currículo académico com mentiras nas habilitações reais.

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O FASCÍNIO PELO NOVO  - A História de Portugal no período dos Descobrimentos dos séculos XV e XVI é absolutamente extraordinária e o novo livro de Onésimo Teotónio Almeida, “O Século dos Prodígios” aborda uma área particularmente interessante desse período - a evolução da Ciência no Portugal da expansão. Trata-se de uma série de ensaios, artigos e comunicações, feitos ao longo de vários anos e em diversas circunstâncias. Editados finalmente em conjunto, permitem, segundo o autor, “uma revisitação global do papel português na abertura à modernidade científica” traçando  uma história paralela à das descobertas e que mostra o fascínio pelo novo. Usando ainda as palavras do autor:”O núcleo duro da temática do livro circula em torno da ideia de que durante a Alta Idade Média foram surgindo sinais, alguns deles muito isolados e sem efeitos posteriores, de uma viragem de enfoque, cada vez maior, para a natureza e o conhecimento empírico dela. Outro aspecto desse núcleo duro é a noção de que um dos momentos da referida viragem (...) teve lugar em Portugal durante o período da Expansão”. E, num dos ensaios publicados: “A necessidade obrigou os portugueses de Quinhentos a reinventarem a roda. A verdade, porém, é que a reinventaram mesmo, e num contexto completamente diferente do grego e do medieval, ao terem de se largar Atlântico fora «por mares nunca dantes navegados», forçados a mapear metade do mundo, algumas partes completamente desconhecidas e outras, a maior parte, inteiramente desconhecidas dos europeus”.

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A ENERGIA DO CARVÃO - Vou começar com uma citação de Kandisky:  “De todas as Artes, a pintura abstracta é a mais difícil. Requer que saibamos desenhar bem, que tenhamos que ter um sentido elevado de composição e da cor, e que sejamos verdadeiros poetas. Este último ponto é essencial.” Esta citação está  na apresentação da exposição “A Dull Flask”, de Pedro Sousa Vieira, uma série inédita de desenhos de carvão sobre papel patentes na Galeria Belo-Galsterer até 21 de Dezembro (na imagem). Sousa Vieira, que nasceu e trabalha no Porto, desenvolveu nos últimos anos obra em vários meios, do desenho, à pintura, instalação e fotografia. Nesta nova exposição volta ao traço a carvão forte e simples que o caracterizou no início da sua carreira, com uma série de desenhos abstractos de uma grande intensidade. Outra sugestão é a exposição "O Material Não Aguenta: Júlio Pomar e Luisa Cunha", com curadoria de Sara Antónia Matos, no Atelier-Museu Júlio Pomar.  Esta exposição faz parte da série que tem vindo a ser apresentada e que procura cruzar a obra de Júlio Pomar com a de outros artistas, “de modo a estabelecer novas relações entre a obra do pintor e a contemporaneidade”.  A preparação desta exposição foi iniciada com o pintor ainda em vida e Júlio Pomar reconheceu na obra de Luísa Cunha “uma qualidade irónica e até mordaz em relação à realidade”, que, segundo o pintor, prometia uma aproximação inesperada entre a obra de ambos. Até 13 de janeiro.

 

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AS ESTRADAS SÃO PARA IR- Márcia é uma das mais interessantes vozes femininas da música popular portuguesa contemporânea. Faz parte daquela geração que estudou na escola de jazz do Hot Clube e isso nota-se no cuidado colocado na composição, nos arranjos e na forma como canta. A sua carreira começou no Real Combo Lisbonense (projecto de João Paulo Feliciano) mas mantém uma actividade discográfica a solo desde 2009 - no disco de estreia existia o tema que a tornou conhecida, “A Pele Que Há Em Mim”, que posteriormente teve uma versão em dueto com J.P.Simões. Do seu círculo de trabalho faz também parte Luis Nunes (que assina musicalmente Walter Benjamin) e Filipe C. Monteiro, que assina a produção da maior parte dos temas deste novo disco, e que musicalmente usa o nome Tomara. Esta geração aborda a canção portuguesa de forma diferente e Márcia gosta de cruzar colaborações - António Zambujo, Samuel Úria e Salvador Sobral são os convidados para duetos neste novo disco,  “Vai e Vem”. Márcia escreveu todas as 12 canções deste álbum, essencialmente intimista, a reflectir sobre si própria, sobre o amor, mas também sobre o seu tempo. Rodeando-se de bons músicos, com arranjos de uma diversidade atraente, Márcia consegue estabelecer um caminho muito próprio. As minhas canções favoritas são “Manilha”, “Emudeci”, “Do Que Eu Sou Capaz, “Corredor” e “Ao Chegar”, de onde aliás é tirada a expressão que dá o título a estas linhas : “Lembra-te ao chegar/ que as estradas são para ir/vemos sempre mais ao longe”.

 

A BELA GAROUPA - Volta e meia um amigo leva-me a descobrir um daqueles restaurantes lisboetas que se mantém fiel à clientela habitual sem cair em modas. Esta semana foi assim que descobri o Restaurante Manuel Caçador, que fica bem perto do Areeiro. Por sugestão desse meu amigo, que é cliente regular, fui pela garoupa grelhada. O restaurante tem uma belíssima banca de peixe logo na entrada, ao fundo do balcão, antes de se passar para a sala, simples, luminosa e confortável. O primeiro comentário vai para o pão da casa, cortado em nacos grandes, e que veio com umas azeitonas bem temperadas que serviram para entreter enquanto não chegaram as belíssimas postas de garoupa, grelhadas no carvão, no ponto certo. Vieram acompanhadas de feijão verde e batata cozida de boa qualidade. Devo dizer que não comia uma garoupa grelhada tão boa desde o tempo do falecido Senhor António do Restaurante A Paz, na Ajuda. Uma posta de garoupa alta, fresca, bem grelhada, é uma coisa única e esta do Manuel Caçador far-me-à lá voltar mais vezes. Do outro lado da mesa o meu amigo dizia-me que em próximas ocasiões devo experimentar o peixe espada grelhado ou a pescada cozida. O único conceito que existe neste restaurante é que o peixe é fresquíssimo e muito bem cozinhado. O vinho tinto da casa é honesto, o ambiente é muito simpático.  Restaurante Manuel Caçador, Rua Agostinho Lourenço 339 A, Telefone 218 486 965.

 

DIXIT - “A direita portuguesa hoje não existe”... “Rui Rio é uma anomalia no sistema político” - Vasco Pulido Valente.

 

BOLSA DE VALORES - As obras de Pedro Sousa Vieira da série A Dull Flask são desenhos a carvão em papel Hahnemühle William Turner, 100% algodão, 310g, com as dimensões de 31,5 x 22,9, com o preço unitário de  750 euros, sem moldura, com IVA incluído, na Galeria Belo-Galsterer Rua Castilho 71, RC, Esq.

 

BACK TO BASICS - Salta! Enquanto cais descobrirás como abrir as tuas asas - Ray Bradbury

 

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publicado às 13:00

O TRAULITEIRISMO REMODELATIVO

por falcao, em 19.10.18

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O TRAULITEIRISMO REMODELATIVO - Tancos ainda não acabou. Depois do Governo, vem a remodelação militar. O Chefe do Estado Maior do Exército mandou uma mensagem às tropas a dizer que se ía porque “as circunstâncias políticas assim o exigiam” e o Presidente da República, e Comandante Supremo das Forças Armadas, disse que o pedido de demissão do general Rovisco Duarte se devia a “razões pessoais”. Vai uma diferença grande entre uma afirmação e outra. Mas não foi a única peripécia de Marcelo esta semana: depois de há uns meses ter alertado para os perigos de orçamentos eleitoralistas, esta semana veio explicar, sob a sua habitual capa didáctica, que era normal a um ano de irem a votos os partidos terem tentações eleitoralistas. Difícil de perceber? Nem por isso. Chama-se a isto querer agradar a gregos e a troianos ou, numa outra versão,  querer tapar o sol com a peneira. E esta foi a semana da grande remodelação - sendo que o facto mais relevante foi a ascensão de uma estrela socrática, João Galamba, que se caracteriza por ser um dos mais vivos defensores do trauliteirismo no debate político e que se tornou um perito na manipulação dos factos. O folclore da remodelação foi apenas uma pastilha para a azia em época de Orçamento de Estado. Foi o segundo capítulo da pré-campanha eleitoral. Como Manuel Villaverde Cabral escreveu, a remodelação é sempre um sinal de fraqueza de quem escolheu mal.

 

SEMANADA - Segundo o  Eurostat Portugal é o país europeu com mais pessoas perto da exclusão - 2,4 milhões em risco de pobreza; as famílias portugueses continuam a pagar mais IRS do que antes da crise; em 2019 o Fisco prevê arrecadar a maior receita de sempre, mais de 45,6 mil milhões de euros na cobrança de impostos directos e indirectos; um relatório da Organização Internacional do Trabalho caracteriza como “precário e desigual” o emprego português no pós-crise; entre janeiro e setembro de 2018 chegaram ao Portal da Queixa cerca de 2034 reclamações dirigidas ao setor da Saúde, verificando-se um aumento na ordem os 72%, comparativamente com o período homólogo;  os dois ministérios que tutelam as entidades que previnem e combatem incêndios - Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural e Administração Interna são os dois únicos com  cortes no Orçamento de Estado; das 88 pessoas que já passaram pelo Governo de António Costa apenas 22 nunca mudaram de cargo desde o início e o ministério com maior número de mudanças é o da Cultura;  78.6% dos utilizadores de internet portugueses dizem aceder às redes sociais entre as 20 e as 22h00, em cima do período nobre tradicional dos canais de televisão.

 

PERGUNTA OCIOSA - O atraso de mais de meio ano no início de pagamentos das reformas pela Segurança Social e  Centro Nacional de Pensões é uma forma de cativação da despesa do Estado? O Governo e os seus aliados prevêem estabelecer um prazo máximo de resposta para o início do pagamento após o pedido ser efectuado?

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INSULTOS ILIMITADOS - Há um livro recente que certamente não entra na Biblioteca de Serralves. Chama-se “O Pequeno Livro Dos Grandes Insultos” e a sua substância foi recolhida por M.S.Fonseca. Já havia dicionários de calão,  mas não havia um repositório tão completo de insultos. Quando digo insultos os estimados leitores nem imaginam o que lá podem encontrar. Aconselho que o procurem nas livrarias e o espreitem. Dificilmente resistirão a levá-lo, uma vez constatada a enorme utilidade que pode ter no dia-a-dia. Por exemplo, depois de ouvir as audições sobre Serralves na Comissão de Cultura do Parlamento, apeteceu-me despejar em cima daquela gente o conteúdo total do livro. Este é também  o livro ideal para animar debates com o novo governante Galamba ou para qualquer programa de análise de ocorrências futebolísticas e em geral todas as outras de grau zero de bom senso. Também deve ser bom para uma conversa com pessoas como Ana Avoila ou Mário Nogueira, quando nos querem fazer passar por parvos. “A matéria deste livro é o palavrão, matéria com que se desfazem sonhos, reputações ou egos”, escreve o seu autor no texto de introdução, onde classifica o insulto como “a última fronteira da linguagem” ou, de forma mais explícita, “o palavrão é a linguagem em cuecas”.

 

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O RISO DOS OUTROS - Évora está cada vez mais no roteiro das artes. Depois da programação africana do verão do Palácio Cadaval, a Fundação Eugénio de Almeida pôr de pé uma das exposições que vale a pena visitar. Trata-se de “O Riso dos Outros”, de Pedro Proença, um exercício de construção de uma história, através de imagens, baseada em personagens ficcionadas. Na exposição desdobram-se as criações de Pedro Proença e das personagens que ele criou, John Rindpest, Sandralexandra, Sóniantónia, Rosa Davida, Pierre Delalande, Bernardete Bettencourt, que exibem palavras e objectos, biografias e bibliografias, desenhos e colagens, variações sobre a criação. Ao mesmo tempo Pedro Proença criou um livro, com o mesmo título da exposição, já editado pela Sistema Solar. É um livro-catálogo pensado ao pormenor por Pedro Proença, que gosta do trabalho gráfico, como gosta de desenhar em grandes superfícies uma espécie de bandas desenhadas gigantes - que na exposição coexistem com pequenos desenhos e grafismos. Até 31 de Março a exposição (na imagem) está no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida. Contemporâneo e correligionário de Pedro Proença no grupo dos homeostéticos Manuel João Vieira,  tem na Casa Atelier Vieira da Silva (ao Jardim das Amoreiras, próximo do bar Procópio), até 13 de janeiro, a exposição Theatro Natural. Outras duas exposições que vale a pena visitar são “A Vocação dos “Ácaros” de José Loureiro na Fundação Carmona e Costa e “How Do They Feel” do artista norte-americano Matt Mulican, na Galeria Cristina Guerra - até 23 de Novembro.

 

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A RAINHA DA SOUL MUSIC - Foi em 1967, tinha ela 25 anos, que Aretha Franklin teve o seu primeiro Top One na lista dos singles mais vendidos nos Estados Unidos com a canção “I Never Loved A Man (The Way I Love You”)”. Nos três anos seguintes ela passou do anonimato à fama, de uma cantora quase desconhecida de Memphis a uma voz reconhecida mundialmente. Uma nova colectânea, “The Atlantic Singles Collection 1967-1970” inclui 34 canções que são o retrato desse tempo em que ela cantou o amor, a felicidade mas também e perda e a amargura, tudo com uma voz e um estilo inconfundíveis. Trata-se de um duplo CD onde as canções surgem por ordem cronológica. A sua edição original foi em seis álbuns: I Never Loved A Man The Way I Love You (1967), Aretha Arrives (1967), Lady Soul (1968), Aretha Now (1968), Soul ’69 (1969), This Girl’s In Love With You (1970), e Spirits In The Dark (1970). A única excepção é a versão que Aretha gravou para Border Song, de Elton John, que primeiro foi editada como single em 1970 e só depois surgiu num álbum, Young, Gifted And Black, em 1972. A colectânea inclui originais da própria Aretha, como Prove It e Think, mas também uma versão pouco conhecida que ela gravou em 1968 de Respect, um original de Otis Redding, ou o grande êxito que foi a sua interpretação de I Say A Little Prayer. Uma das coisas interessantes é notar a capacidade de Aretha Franklin em interpretar canções alheias, como as já referidas mas também as suas versões de You Send Me, de Sam Cooke, The Weight que foi originalmente gravada por The Band, Eleanor Rigby ou Let It be dos Beatles, The House That Jack Built ou Son Of A Preacher Man.

 

OUSAR SANDUICHAR! - A sanduiche aberta é comum nos países nórdicos,  os espanhóis têm uma adaptação nas tapas e o torricado ribatejano pode ainda ser considerado primo afastado do conceito. De uma forma geral um pedaço de pão com alguma coisa suculenta em cima entra nessa família. Por cá estamos mais habituados a sanduíches fechadas, em que o recheio, normalmente modesto, fica entre duas fatias ou metades de uma carcaça. Para mim o ideal é usar um bom pão de centeio (o da Serra da Estrela feito pelo Museu do Pão é o que prefiro), levemente tostado. A partir daí é adicionar o que se quiser - mas comecemos por barrar o pão - e aí tudo depende daquilo que vamos usar. As minhas matérias primas preferidas são a de paiola de porco preto cortada muito fina ou lombo fumado, truta ou arenque fumado, ventresca ou muxama de atum e Queijo da Ilha. Como preparar o pão?  Se a sandes fôr de paiola (ou bom lombo fumado) barro com mostarda de Dijon; se usar a truta ou arenque prefiro requeijão espalhado temperado com endro e pimenta; para o atum prefiro uma boa maionese que tempero com ervas finas; e para o queijo nada melhor que um chutney. Em todos estes casos gosto de colocar por cima da matéria prima principal pickles de pepino e/ou cebola, tomate baby cortado em metades, basílico, frequentemente folhas de espinafre baby, agrião ou rúcula. Umas azeitonas ao lado também ficam bem. Com um ligeiro aquecimento o pão fica mais estaladiço e suporta melhor o que lhe pusermos em cima. Depois é pescolher o que se quer beber e comer uma refeição fácil de fazer e cheia de sabores.

 

DIXIT - “É aguinha de rosas servida em taça de prata para lavar as mãozinhas? Quem nos está a falhar na justiça? Quem nos está a tramar e a proteger bandidagem?” - Ana Gomes, eurodeputada do PS, sobre as penas suspensas aplicadas pelo Tribunal aos ex-gestores do Banco Privado Português.

 

BOLSA DE VALORES - Na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens 38, em Lisboa), a quarta exposição individual do arquitecto Álvaro Siza Vieira sob o título “À Mão Livre”, até 24 de Novembro. São 20 desenhos figurativos, inéditos, de 29,7x21 cm, e o preço de venda de cada obra é 2.700 euros.

 

BACK TO BASICS - Deus criou os homens, mas são eles que se escolhem uns aos outros - Nicolau Maquiavel.

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publicado às 13:30

COSTA, O PROMETEDOR

por falcao, em 04.10.18

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O ANDOR DAS OFERENDAS - Na tradição popular e religiosa, em muitas terras deste nosso Portugal, nas procissões que se realizam, há muitas vezes um andor que recebe as oferendas dos fiéis agradecidos, que assim pagam as promessas feitas. Na política também há um andor das oferendas, mas funciona em sentido contrário: é o governo que carrega às costas o andor com a figura do primeiro-ministro, tal santo milagreiro, e é de lá de cima que ele vai largando as oferendas para os fiéis, que neste caso são os eleitores. Em ano que precede eleições o saco das promessas vai cheio e assenta no orçamento de estado. Basta ver o que se tem passado nas últimas semanas para perceber como as coisas vão ser. Costa já se dá ao luxo de dar o dito por não dito, de hoje negar o que ontem achava possível e não se tem importado em irritar os seus parceiros de coligação, soprando-lhes que mais vale um pássaro na mão que dois a voar e contentando S. Jerónimo e Santa Catarina com umas migalhas face às expectativas criadas. Assim os vai envolvendo, sempre sorrindo, enquanto do andor distribui o que lhe apetece, como lhe apetece, quando lhe apetece, a quem lhe apetece. E vai ser assim até às eleições, neste jogo do dá e tira, alargando os cordões à bolsa quando é necessário para ganhar mais um tempo. Na realidade o que ele quer é ficar sozinho a fazer os seus milagres, sem ter que repartir os louros com mais ninguém. A ver vamos como vai terminar esta gaiola do orçamento de onde se vão soltando uns passarões...

 

SEMANADA - António Costa descartou a redução do IVA na luz e no gás; Jerónimo de Sousa afirmou que “não é com a política do PS que se resolvem os problemas do país”; a procura pelo ensino superior privado aumentou 17,5% no último ano;  os alunos com necessidades especiais aumentaram 41% em seis anos; a despesa do Estado com professores sobe 23% até 2023; segundo o FMI a dívida mundial, tanto pública como privada, subiu 60% desde 2007; o atraso nas listas de espera para cirurgias afeta 62 mil doentes; a Entidade das Contas alertou que as multas dos partidos entre 2010 e 2015 vão prescrever; os portos portugueses registam uma quebra de 2,7% nas mercadorias movimentadas no primeiro semestre deste ano; todos os anos, em média, 25 homens são condenados por violação mas ficam com a pena suspensa; em Vila Meã, Amarante, um juiz soltou um homem que agrediu de forma violenta e durante quatro anos a mãe dos seus dois filhos, mas o homem acabou por ser preso pela GNR  por não ter pago uma multa por guiar sem carta; segundo a Marktest 5,3 milhões de portugueses usam redes sociais e o Instagram é a que mais tem crescido nos últimos cinco anos; Lisboa tem 200 mil lugares de estacionamento e há 745 mil veículos que entram diariamente na cidade; em nove anos Portugal acolheu 23.767 estrangeiros, de 146 países, ao abrigo do Regime Fiscal para Residentes Não Habituais.

 

PERGUNTAS SOLTAS - Este ano a Emel já passou mais de 270 mil multas, das quais menos de 1,4% são por estacionamento em segunda fila. Esta desproporção será uma anedota ou é só prova do mau funcionamento da empresa oficial de multas da Câmara Municipal de Lisboa?

 

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CRÓNICAS DO MUNDO - “Atlas” foi o último livro publicado em vida de Jorge Luis Borges, já ele tinha perdido a visão. O livro é uma colecção de apontamentos, de cerca de uma centena de páginas onde se reproduzem diversas viagens feitas por Borges, muitos deles acompanhados por fotografias de Maria Kodama, que o acompanhou nestas viagens e nos últimos anos de vida. “As vésperas da viagem são uma preciosa parte da viagem”, escreve Borges que, entre Roma, Atenas ou Istambul acaba por confessar: “O meu corpo físico pode estar em Lucerna, no Colorado e no Cairo, mas ao acordar cada manhã, ao retomar o hábito de ser Borges, emirjo invariavelmente de um sonho que acontece em Buenos Aires”. No prólogo do livro, Borges escreve:  “Descobrir o desconhecido não é uma especialidade de Sinbad, de Erik, o Vermelho, ou de Copérnico. Não há um só homem que não seja um descobridor”. E no epílogo, diz Maria Kodama: “O que é um atlas para nós, Borges? Um pretexto para entretecer na urdidura do tempo os nossos sonhos, feitos da alma do mundo. Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 1899, desde cedo viajou pelo mundo e viveu em vários países, tendo morrido em Genebra, em 1986. “Atlas” foi editado originalmente em 1984 e foi agora publicado em Portugal pela Quetzal numa excelente tradução de Fernando Pinto do Amaral.

 

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AS MIL FLORES - Uma das mais interessantes exposições de obras originais que se podem ver em Lisboa actualmente está na Galeria 111 até 10 de Novembro. Tem por título Mille Fleurs é é da autoria de João Francisco - um artista de 34 anos que começou a expôr em 2008 e que agora apresenta um trabalho de uma grande consistência e criatividade, pintando acrílico sobre papel e sobre esquissos encontrados com mapas para bordados feitos a grafite, sobre papel. Há uma razão de ser para isto, que se prende com o título da exposição - mille-fleurs ou mil flores - o termo utilizado para agrupar um conjunto de tapeçarias produzidas no norte da França e na Flandres entre o final da Idade Média e o início do Renascimento, representando de forma repetitiva flores e plantas, com adição de figuras que podem ir de damas com unicórnios a caçadores e pequenos animais. O traço de João Francisco cria imagens fortes, umas vezes ricas de pormenor, como o painel que agrupa 160 pequenas pinturas, outras fortes e sugestivas, quer em retratos quer na evocação de ausências. Outra exposição em Lisboa que vale a pena conhecer é a Colecção Pinto da Fonseca, que mostra uma parte do acervo colecionado por António Pinto da Fonseca - cerca de sessenta obras de trinta artistas portugueses, provenientes das décadas de 1960 a 1980, como Álvaro Lapa, Júlio Pomar, Jorge Molder, Jorge Martins, Menez, Paula Rego, Dacosta, Vespeira, Rui Chafes, Vieira da Silva e Arpad Szenes, entre muitos outros. A exposição tem curadoria do filho do colecionador, Victor Pinto da Fonseca, ele próprio colecionador e galerista, e tem por título Educação Sentimental. Está na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, até 13 de Janeiro.

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CANÇÕES QUOTIDIANAS - O novo disco de Madeleine Peyroux é um exemplo de trabalho colectivo de uma cantora com os seus músicos, nomeadamente o produtor e baixista Larry Klein, o baterista Brian MacLeod , os guitarristas Dean Parks e David Baerwald, o pianista Patrick Warren, o organista Pete Kuzma e uma secção de metais de rara elegância. Hoje em dia não é frequente encontrar um disco de jazz vocal em que se fuja aos arranjos delico-doces e em que seja tão evidente este trabalho colectivo - enriquecido aliás por colaborações pontuais como as da harmónica de Gregoire Maret e as percussões de Luciana Souza. Todas as canções são originais de Peyroux, excepto a faixa título Anthem, que é um original de Leonard Cohen, e  Liberté, baseada num poema de Paul Éluard, musicado por Klein e Peyroux. A norte-americana Madeleine Peyroux nasceu em 1974, o seu primeiro disco foi editado em 1996, leva uma dezena de álbuns no activo e uma das coisas que desde o início me fascina nos seus discos é a forma como ela consegue transmitir nas gravações de estúdio uma vivacidade que se encontra no ambiente de um clube de jazz. Este “Anthem” é particularmente conseguido desse ponto de vista logo desde a primeira faixa, On My Own, o primeiro relato do quotidiano, que inclui outros momentos como On A Sunday Afternoon ou Down On Me, este a fazer uma transição para o relato dos tempos correntes na América, relato que tem o seu expoente em The Brand New Deal. Mas há momentos festivos, como Honey Party ou o delicioso We Might As Well Dance. E é justo referir que a versão de Anthem, o original de Cohen,  mostra o talento e a sensibilidade de Peyroux. CD Decca/Universal, já disponível em Portugal.

 

SABORES ORIENTAIS - Em Lisboa existem hoje em dia vários restaurantes que se reivindicam de inspiração oriental mas uma boa parte deles são do género excursões para turistas sem grande interesse nem alma (culinária, entenda-se). No caso tailandês há dois ou três - não mais - que merecem visita e frequência regular. Um deles fica por trás da avenida de Roma, na Rua Conde de Sabugosa, onde em tempos existiu o restaurante típico Arraial. Agora existe lá a Sala Thai, que mantém muita da decoração do velho Arraial, o que quer dizer que escapou à tentação de fazer uma decoração típica tailandesa. Decidiu investir na confecção dos pratos sem artifícios decorativos - e fez muito bem. É daqueles sítios onde apetece voltar, para descobrir mais pratos. Destaque nas entradas para os rolos primavera com noodles e legumes, os pastéis de peixe com especiarias ou as chamuças à moda tailandesa. A sopa tradicional tailandesa de camarão cozinhado com erva princípe, limão e malagueta é uma especialidade, mas comer alguma coisa depois não é fácil. Na área das massas os noodles fritos com camarão ou vegetais recomendam-se, assim como os caris de frango, vaca ou ou camarão, sobretudo o caril vermelho (também há verde…). Nas especialidades da casa destacam-se a garoupa em caril vermelho e o robalo cozinhado ao vapor com molho de limão. E nas sobremesas, para refrescar o palato, os gelados de gengibre e limão com manjericão cumprem bem a função. Sala Thai, Rua Conde de Sabugosa 13A, fecha às segundas, telefone 216 039 946.

 

DIXIT - Dá para sermos amigos, mas não dá para casar“ - António Costa sobre os seus parceiros da geringonça.

 

BOLSA DE VALORES - Até 20 de Outubro pode ver novos e marcantes trabalhos de Nádia Duvall na galeria MUTE, sob o título Abalo I. Cada uma das obras expostas está à venda por 1500 euros. Na Rua Cecílio de Sousa 20, em Lisboa.

 

BACK TO BASICS - “Existem dois pecados de onde todos os outros derivam: impaciência e preguiça” - Franz Kafka

 

 

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publicado às 14:00


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