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A MINISTRA SOBRESSALENTE - Nos últimos tempos tivemos um Ministro da Cultura que entrava mudo e saía calado; agora temos uma Ministra da Cultura que sofre de incontinência verbal. Em comum têm, entre eles, o facto de não dizerem uma palavra sobre política cultural. Acresce que esta Ministra da Cultura dá sinais de ser defensora de algo perigoso para quem ocupa o cargo onde foi colocada: uma política determinada pelo seu gosto pessoal - considera-se uma iluminada, coisa sempre perigosa em geral e, em especial, na área que tutela A isto junta um desprezo acentuado pela opinião dos outros - evidenciado nas suas declarações sobre o enfado que lhe causa seguir o que se escreve em Portugal, afirmação cinicamente proferida num certame literário, a Feira Internacional do Livro, de Guadalajara. Arrogante, a senhora prefere não ser incomodada e muito menos recordada de episódios desagradáveis - na sua auto-suficiência parte do princípio que relatos da  realidade são fake news. Graça Fonseca, um dos expoentes da mentalidade politicamente correcta na área do Governo, está a dar mostras de gostar de secar as ideias à sua volta e tem mostrado um assinalável vazio e desconhecimento sobre questões de política cultural. É uma Ministra sobressalente, calhou estar à mão quando foi preciso mudar as peças do tabuleiro. Está a revelar-se um problema de casting.

 

SEMANADA - Há dez anos que cada português anda a dar 15 euros por mês para salvar bancos; entre janeiro e outubro 2 milhões e 226 mil pessoas já recorreram ao crédito ao consumo, cerca de 26%  da população; um novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que mais de 60% dos contratos das câmaras municipais são feitos por ajuste direto sem concurso; entre 2013 e 2017 dez câmaras municipais não fizeram qualquer concurso público; 51 câmaras têm taxas de endividamento superiores a 100% ; 45 câmaras municipais não disponibilizam publicamente qualquer informação documental sobre as suas contas; no ano passado o número de greves em empresas cresceu 39% e o número de trabalhadores envolvidos em greves quase triplicou em relação ao ano anterior; no primeiro semestre o preço médio da electricidade em Portugal era a sexto mais caro da União Europeia e no gás o país ficou no quarto lugar; a carga fiscal representa 55% da fatura da luz, o triplo do que se passa em Espanha; o deputado Feliciano Barreiras Duarte, um fiel de Rui Rio, apareceu registado na votação do orçamento de Estado por a sua password ter sido utilizada, apesar de ter estado ausente do plenário; Portugal tem mais de mil novos casos de VIH registados no ano passado e a taxa de diagnóstico mais elevada regista-se nos jovens entre os 25 e os 29 anos.

ARCO DA VELHA - Em Braga um homem foi condenado a prisão efectiva por ter roubado seis euros; também em Braga um Tribunal libertou o núcleo duro de um gang violento relacionado com tráfico de droga e uma vaga de assaltos violentos, apesar de terem sido presos em flagrante delito.

 

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UMA VISÃO DO NOVO PODER EM ANGOLA - O que tem acontecido em Angola desde que João Lourenço se tornou Presidente, em finais de Setembro de 2017? O que mudou no dia-a-dia do país, dos bastidores, do próprio Palácio que é o símbolo do poder presidencial? O jornalista Luís Fernando, hoje secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e Imprensa do Presidente da República de Angola, faz um relato de tudo o que se foi passando desde então, entre a crónica e a reportagem, em “Notícias do Palácio” -  que relata o primeiro ano do mandato de João Lourenço. O livro, agora editado em Portugal, começa nos dias da transição de poder de Eduardo dos Santos para o novo Presidente, passando pelo primeiro Conselho de Ministros, descrições de viagens e visitas oficiais ou a primeira entrevista coletiva do novo Presidente a jornalistas nos jardins do Palácio. Mas também relata a presença de João Lourenço no encontro de Davos, a ida ao Parlamento Europeu, o encontro com Macron, a reunião com Putin, a visita à China e até a recente visita de António Costa a Luanda, relatos enquadrados nas suas circunstâncias, a partir do ponto de vista privilegiado de um colaborador próximo de João Lourenço. É uma visão necessariamente comprometida e parcelar, mas é um testemunho destes tempos de mudança, uma observação particularmente interessante para todos os que seguem o que se passa em Angola - uma viagem ao processo de tomada de decisão do novo poder de Luanda.

 

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O TEATRO DE REVISTA - O Parque Mayer hoje em dia diz muito pouco ou mesmo nada a quem tiver menos de 40 anos. Digamos que era a coisa mais parecida com a Broadway que por cá havia, tendo em consideração todas as diferenças de escala. Tinha quatro teatros construídos entre os anos 20 e os anos 50 do século passado (Maria Vitória de 1922, Variedades de 1926, Capitólio de 1931 e ABC de 1956). Além dos teatros, havia restaurantes, esplanadas, casas de fado, barracas de tiro, e até luta livre e boxe - era um local de boémia por excelência. Muitas das peças levadas à cena eram musicais e ali nasceram algumas das grandes canções populares e ali artistas ganharam fama e reconhecimento. O Teatro de Revista, assim ficou conhecido o género ali encenado,  tinha antes de 1974 alusões e indirectas à situação política que se vivia, num permanente jogo do gato e do rato com a censura. Local de muitas histórias o Parque Mayer marcou uma época de Lisboa e passou agora do teatro ao cinema, pela mão do realizador António-Pedro Vasconcelos e do produtor Tino Navarro. “Parque Mayer”, que estreia a 6 de Dezembro, mostra a cidade -  e através dela o país - no início do salazarismo. O filme, escrito por Tiago Santos, decorre em 1933, numa altura em que o Estado Novo começava a formar-se. A história segue a preparação de uma nova revista, os ensaios onde há de tudo: amores não correspondidos, dramas pessoais e tentativas de contornar a censura - no fundo a luta pela liberdade de criação numa altura em que as palavras e atitudes começavam a ser rigorosamente vigiadas. O engraçado é como o realizador, a partir da evocação daquele espaço entre a Avenida da Liberdade e a Praça da Alegria, faz um retrato de Portugal inteiro naquela época e da nascente resistência ao regime, com base num quadro da revista que é o centro de toda a acção. António-Pedro Vasconcelos continua  a ser um grande contador de histórias, o argumento de Tiago Santos cria momentos emocionantes e destacam-se grandes interpretações da estreante Daniela Melchior, de Francisco Froes, Diogo Morgado, Miguel Guilherme e Carla Maciel.

 

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O PODER DO SAXOFONE - Ricardo Toscano tem 25 anos e desde os 15 que estuda e toca jazz, tendo escolhido o saxofone alto como forma de expressão. O seu primeiro álbum de originais saíu agora na editora Cleanfeed - o disco é sobriamente intitulado Ricardo Toscano Quartet. Além do próprio, aqui estão João Pedro Coelho no piano, Romeu Tristão no contrabaixo e João Lopes Pereira na bateria. Dos seus temas, cinco são originais de Ricardo Toscano e um, “The Sorcerer”,  é a recriação de um original de Herbie Hancock. Numa recente entrevista Ricardo Toscano afirmou que o verdadeiro virtuosismo de um músico reside na sua capacidade de expressão e isso sente-se neste disco. Como Ricardo Toscano também reconhece uma das suas maiores influências é Coltrane e percebe-se ao longo deste álbum que o território musical dos blues é algo que o atrai e onde se sente à vontade - o tema “Lament” é prova disso mesmo. Ao longo de todo o disco Ricardo Toscano destaca-se como o pólo agregador, fomentando um diálogo permanente com os outros músicos do quarteto, por vezes até de forma inesperada. Por exemplo no tema final, “Grito Mudo”, é o saxofone que fala com a bateria, em paralelo com a relação que se cria entre o piano e contrabaixo. Destaco ainda a balada “Song Of Hope” e a declaração de intenções inicial, do tema de abertura, “Almeria”, onde o saxofone de Ricardo Toscano mostra o que vale. Em virtuosismo e em expressão.

 

COZIDO ILIMITADO -  Lembro-me que há uns anos tinha o hábito dominical de frequentar o cozido à portuguesa que nessa altura era servido na “Doca do Espanhol”, cuja cozinha era supervisionada por Justa Nobre ainda antes de ela ser conhecida por força da TV. Várias voltas da vida depois Justa e José Nobre estabeleceram-se no Campo Pequeno, no Spazio Buondi-Nobre e ali retomaram o buffet de cozido à portuguesa ao almoço de domingo. Claro que existe a lista habitual (que inclui até uma opção vegetariana), mas aquilo que os clientes procuram nesse dia é mesmo o cozido - abundante em tudo e como mandam as regras - carnes diversas de boa qualidade, legumes em fartura e cozidos no ponto, arroz do dito confeccionado como deve ser, enchidos das espécies requeridas e de boa qualidade. Tudo é permanentemente reabastecido e, no final, ainda existe uma sopa de cozido para quem quiser acabar de confortar o estômago. A acompanhar o cozido (25 euros por pessoa, bebidas à parte), veio o honesto vinho da casa, um Douro, da região de Mesão Frio, o “Consensual Justa Nobre”. Embora Justa e José Nobre façam questão de verificar como vão as coisas em todas as mesas, por vezes o serviço deixa a desejar, sobretudo nas zonas mais esconsas do restaurante. É o único senão.

 

DIXIT - “No país ideal de Graça Fonseca não havia notícias, havia comunicados” -  Pedro Santos Guerreiro

 

BOLSA DE VALORES - “Stardust”, a nova exposição de Nuno Gil tem 14 obras, reunindo um grupo de pinturas sobre tela e um conjunto de trabalhos em papel. Os valores de venda vão dos  1800 aos 8000 euros. A que aqui é reproduzida tem um preço de 3000 euros. Está na Módulo - Centro Difusor de Arte, Calçada dos Mestres 34, em Lisboa, até 29 de Dezembro.

 

BACK TO BASICS - “O mundo é um palco, só que a peça está pessimamente encenada” - Oscar Wilde

 

 

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publicado às 13:00

QUEM VIER ATRÁS, QUE FECHE A PORTA

por falcao, em 23.11.18

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UM PAÍS DESCONTROLADO - Cada vez que há uma desgraça neste torrão à beira-mar plantado destaca-se uma tendência fatal para ninguém assumir responsabilidades. Quem olhar para as fotografias das pedreiras de Borba e da estrada que se equilibrava de forma instável entre elas percebe que a falta de bom senso, o laxismo e o desprezo pela segurança dos cidadão é total. Desde quem devia fiscalizar as pedreiras (o Estado), até quem devia garantir as estradas (as autarquias),  todos lavaram as mãos como Pilatos, embora há vários anos existissem alertas para o perigo existente. O caso da estrada entre Borba e Estremoz e o rol de declarações produzidas por governantes e por autarcas é o retrato de um país descontrolado, o retrato de um país onde nenhum poder gosta de ser escrutinado e onde os políticos fogem da realidade e das consequências dos seus actos como o diabo da cruz. Fez-se uma descentralização que atribuiu competências às autarquias sem lhes proporcionar recursos e deixa-se que o Estado continue laxista sem exercer a vigilância que lhe compete. O resultado desta receita só pode ser mau. O caso da estrada, das mortes por intoxicação numa habitação sem condições, no meio da pobreza total, mostra o outro lado do país da web summit: um país onde a miséria coexiste com a irresponsabilidade, no meio da ostentação de Estado. Falta dinheiro para a saúde e para a educação, as cativações são o emblema desta legislatura  - mas não nos devemos preocupar: António Costa gosta da ideia de acolher o Mundial de Futebol de 2030 por cá. Sócrates trouxe o Europeu, ele quer mais, venha o Mundial. Em 2030 já Costa provavelmente não será governo - quem vier atrás que feche a porta e pague as contas. Assim, lá vamos cantando e rindo, de vitória em vitória, até à derrota final…

SEMANADA - O Governo de António Costa já fez em três anos mais cativações que o Governo de Passos Coelho nos quatro anos da legislatura; a Comissão Europeia considerou que a proposta de Orçamento do Estado de Portugal para 2019 coloca um “risco de incumprimento” do Pacto de Estabilidade e Crescimento;  na última década o porto de Lisboa perdeu 31,2% das escalas de navios de mercadorias; em compensação o porto de Lisboa registou em outubro o melhor mês de sempre em número de passageiros de cruzeiro, batendo o anterior recorde de Outubro de 2013e atingindo agora os 108.875 passageiros; o Parlamento prevê gastar no seu funcionamento  mais 3,2 milhões de euros em 2019 do que este ano; as dívidas dos hospitais a bombeiros e a privados estão a provocar problemas no transporte de doentes por ambulâncias; segundo a Marktest 22,6% dos portugueses viram filmes, séries ou documentários online nos últimos 30 dias, mas entre os espectadores até 34 anos este número sobe para 54,2%; a produção de vinho deverá ser este ano a mais baixa das últimas duas décadas e o INE prevê uma quebra de 20%; segundo uma sondagem do Guardian os partidos populistas europeus mais que triplicaram o apoio de eleitores nos últimos 20 anos; o número de jovens colocados à guarda do Estado por terem cometido crimes aumentou 85% no ano passado.

PRODUTIVIDADE PARLAMENTAR - Desde o início da legislatura já foram contabilizadas 4.576 ausências dos deputados nas 324 sessões plenárias realizadas, uma percentagem de faltas de 6,54% e 87 foram classificadas como injustificadas. As sessões de quinta-feira são as que registam mais faltas e com a entrada da Primavera e o bom tempo aumenta o número de ausentes.

 

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MISTÉRIOS POR RESOLVER - Uma mulher esteve presa 15 anos, cumprindo pena por um crime que sempre afirmou que não tinha cometido. Quando Casey Carter foi presa as redes sociais mal existiam, a circulação da informação era completamente diferente. Ao sair da prisão choca de frente com a nova realidade quando um site de mexericos mostra fotografias suas num centro comercial a comprar roupas, noticiando a sua libertação, poucos minutos depois de tudo acontecer. Ao ver um reality show de televisão,  sobre crimes não desvendados, convence a produtora do programa a investigar o seu próprio caso. “A Bela Adormecida Assassina” é o novo policial de Mary Higgins Clark em parceria com Alafair Burke. Relata a busca da acusada pela sua inocência, num novo mundo complexo a que tem dificuldade em se adaptar. Enquanto as pessoas que lhe são mais próximas querem evitar que ela se sujeite à lógica de um reality show, Casey persiste e a produtora responsável pelo programa começa a vislumbrar que ela pode de facto estar inocente, contrariando aliás o parecer de parte da sua própria equipa. É um policial fascinante, com um final completamente imprevisível. Mary Higgins Clark é autora de mais de trinta romances e vendeu em todo o mundo mais de 150 milhões de exemplares. Alafair Burke é uma antiga advogada de acusação, actualmente professora de direito criminal e autora de mais de uma dezena de livros. “A Bela Adormecida Assassina”  foi editado em Portugal pela Bertrand.

 

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AS POSES DE RODIN - Na galeria de exposições temporárias da Fundação Gulbenkian está uma imperdível exposição que reúne três dezenas de esculturas das coleções do Museu Calouste Gulbenkian e da Ny Carlsberg Glyptotek de Copenhaga sob o tema da pose na escultura francesa do século XIX. Feitas praticamente ao mesmo tempo, estas duas colecções, que mostram a escultura que se fazia em Paris no tempo de Rodin, são mostradas em conjunto pela primeira vez. Rodin, Carpeaux ou Dalou, são os autores representados nesta exposição que estará na Gulbenkian até 4 de Fevereiro, seguindo depois até à Glyptotek de Copenhaga. Na imagem “As Bençãos”, de Rodin. Nota: A exposição está aberta nas  sextas feiras até às 21h00. Outras sugestões: em primeiro lugar a nova exposição de Miguel Teles da Gama, Lux in Tenebris, que estará até 5 de Janeiro na Fundação Portuguesa das Comunicações; Cláudio Garrudo viajou num cargueiro em alto mar para criar o seu novo trabalho, a exposição de fotografia Trinus e o livro homónimo,  que serão apresentados neste sábado dia 24 de novembro, às 18h00 na Galeria das Salgadeiras  (Rua da Atalaia 12 a 16, Lisboa); finalmente no Museu Berardo “Saudade, China & Portugal – Arte Contemporânea”, com obras de artistas portugueses e chineses como André Sousa, José Pedro Croft, Luísa Jacinto, Joana Vasconcelos, Pedro Valdez Cardoso, Rui Moreira, Vasco Araújo,  Leng Guangmin, Tao Hui, Liu Jianhua, Rui Moreira, Cheng Ran, André Sousa, Guan Xiao, Sun Xun, Shi Yong, Xia Yu e Liang Yuanwei.

 

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O ENCANTO DO PIANO - O pianista norueguês Tord Gustavsen começou por estudar psicologia e tem uma tese publicada sobre os paradoxos da improvisação - ao mesmo tempo que estudava jazz. Mais tarde dedicou-se à musicologia e ensinou piano e jazz na Universidade de Oslo. O seu primeiro disco data de 2003 (“Changing Places”) e foi gravado com um trio. Mas foi na formação de quarteto que se fez mais notado com “The Well (2012) e “Extended Circle” (2014). Agora regressa à sua formação original de trio com o novo “The Other Side”, onde mostra temas originais , temas influenciados pela música folk do seu país e outros trabalhados a partir da música de Bach. A formação inclui, além de Tord Gustavsen no piano e teclados electrónicos, o baterista Jarle Vespestad que com ele tem tocado e o baixista Sigurd Hole, que se estreia com Gustavsen e que é o principal responsável pela inclusão de referências folk e de uma sonoridade diferente  - e basta ouvir os temas “Duality” e em “Re-Melt” para se perceber como traz um contributo ao grupo. Ao todo são doze temas - e a faixa de entrada, “The Tunnel” estabelece o ambiente musical, envolvente, que caracteriza a sonoridade poética de Tord Gustavsen - também evidente nos outros originais, como a faixa título “The Other Side”, “Left Over Lullaby no.4” e “Curves”, que encerra o disco e nos remete para memórias passadas do grupo. Tord Gustavsen Trio, “The Other Side”, ECM Records, no Spotify.

PROVAR -  Quando não se sabe o que podemos fazer para jantar, qual a solução? Ver se há ovos e o que se pode cozinhar com eles. Para mim ovos simplesmente mexidos são um prato magnífico - e podem vir sozinhos. Experimentem fazê-los muito bem batidos (usem uma varinha mágica em vez do garfo tradicional e sentirão uma diferença), cozinhados em manteiga - coloquem generosos pedaços de manteiga e os ovos ao mesmo tempo (sem deixar a manteiga derreter primeiro). O truque é cozinhar os ovos em lume o mais brando possível, mexendo sempre. Quando os ovos começarem a ficar mais sólidos desliguem a chama e acabem de mexer só com o quente residual da frigideira e sirvam logo de seguida. Estes ovos, muito batidos, mal passados em manteiga e cozinhados lentamente fazem toda a diferença. Se quiserem adicionem cogumelos que saltearam antes, ou pedaços de tomate com bocadinhos de um bom chouriço que também previamente cozinharam um pouco. Claro que tudo melhora ainda mais se tiverem à mão túberas ou, melhor ainda, trufa preta. Mas no fim do dia uns suaves ovos mexidos, cozinhados no ponto, acompanhados de um bom pão e umas lascas de presunto cortado fino fazem um belíssimo e leve jantar.

DIXIT -  “Portugal está para a Madonna como Lloret del Mar está para os putos” - Herman José

 

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BOLSA DE VALORES - Pedro Cabrita Reis criou para a Vista Alegre uma peça de porcelana, uma taça, que recebeu o nome “De Natura” e tem um preço de venda ao público de 600 euros.

BACK TO BASICS - “A lógica leva-nos do ponto A ao ponto B; a imaginação leva-nos a todo o lado” - Albert Einstein

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Esta semana destaco dois factos políticos. O primeiro é apenas curioso - o Bloco de Esquerda anunciou querer ser Governo, com o PS, claro, e apontou até nomes ministeriáveis. A partir de agora o suspense não é saber quem serão os próximos ministros após as eleições legislativas do próximo ano; o suspense é saber o que o PCP fará se o Bloco, ou alguma das suas margens, entrar para um futuro Governo de António Costa. O segundo facto político é importante, bem mais importante, e decorre de uma intervenção doutrinal do Presidente da República sob o tema “Portugal Independente - A partir da sua história, que futuro desejável para Portugal?”. Tratava-se o primeiro Encontro de reflexão promovido pela Fundação Batalha de Aljubarrota e nele Marcelo Rebelo de Sousa fez uma intervenção, escrita, cheia de alusões ao presente e carregada  de recados diversos virados para o futuro próximo. Numa alusão concreta a factos recentes o Presidente da República, no contexto do enquadramento dos actos eleitorais de 2019 (Europeias e Legislativas), pediu aos partidos “clareza dos propósitos” e “verosimilhança da solidez da sua base de apoio político  - para que as propostas não fiquem apenas como meras intenções sem capacidade de ser poder”. Depois fez uma alusão a alguns protagonistas políticos que têm estado, digamos, apagados, numa frase que parece destinada a alguma oposição:  “Quem se atrasar ou faltar mesmo à chamada para o encontro com os portugueses não se poderá queixar do destino nem da penosidade do recomeço da caminhada nos idos mais próximos”. Mas o Presidente não se ficou por aqui: reconheceu que existe um debate a aprofundar sobre o sistema eleitoral e aconselhou os partidos parlamentares a terem em conta o debate que sobre o tema já começou fora do Parlamento, na Sociedade Civil - uma discreta referência às ideias de um recente encontro da SEDES e da Associação Por Uma Democracia de Qualidade, onde Marcelo aliás esteve, e em que o tema central foi a revisão da Lei Eleitoral. E, finalmente, referindo-se à necessidade de manter a coesão do território, o Presidente da República foi claro a elogiar o trabalho desenvolvido nas Regiões Autónomas da Madeira e Açores, mas também claríssimo a deixar no ar que não será a criar novas regiões que o problema do desenvolvimento do país se resolverá. Sumário da lição parlamentar: partidos deixem-se de fantasias e sejam realistas, oposição faça o favor de trabalhar, Assembleia da República assuma a questão da revisão da Lei Eleitoral e senhores políticos desenvolvam a descentralização mas não fragmentem o país. Marcelo pegou na pá da padeira de Aljubarrota e não foi brando.

 

SEMANADA - 32% das crianças portuguesas entre os 2 e os 10 anos têm excesso de peso; o movimento de passageiros nos aeroportos portugueses atingiu os 52,7 milhões em 2017 e Lisboa destacou-se com o maior número,  26,6 milhões; de acordo com os dados de 2018 do Bareme Internet da Marktest, 526 mil lares de Portugal Continental possuem televisão com acesso à internet (smart TV) e a penetração deste equipamento duplicou nos últimos 3 anos; segundo a Marktest,  em termos musicais, em Portugal, as mulheres preferem o pop e os homens preferem o rock; durante a Web Summit deste ano registou-se, em Lisboa, um aumento de 20,5 por cento no número de compras e levantamentos nas redes de caixas automáticas e terminais de pagamento; os visitantes do Reino Unido ) foram os que mais operações efectuaram, seguidos dos cidadãos provenientes de França , Estados Unidos, Espanha e Alemanha; efeito colateral da  Web Summit: Lisboa foi citada em 8.195 notícias em meios online de mais de 110 países e segundo um estudo da Cision, os Estados Unidos foram o país que mais destaque deu ao evento seguido da Espanha, Reino Unido, França e Alemanha; a greve dos estivadores do porto de Setúbal está  a pôr em causa a capacidade de escoamento da produção  Auto-Europa ; no terceiro trimestre a economia portuguesa cresceu ao ritmo mais baixo do ano; a diminuição das exportações é a explicação avançada pelo INE para explicar os sinais de abrandamento que a economia portuguesa está a dar; na PSP há sindicatos com mais dirigentes que sócios.

 

ESTATÍSTICAS LISBOETAS - Lisboa tem actualmente 7230 edifícios “em mau ou péssimo estado de conservação”, a par de um total de 2626 imóveis total ou parcialmente devolutos.

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UMA HISTÓRIA DE ANGOLA - Aí está a nova edição de “Teoria Geral do Esquecimento”, um dos mais aclamados livros de José Eduardo Agualusa, editado originalmente em 2012, e que foi distinguido com o Prémio Literário Fernando Namora em 2013, finalista do Man Booker International em 2016 e vencedor do International Dublin Literary Award em 2017. “Teoria Geral do Esquecimento” relata, na personagem de Ludo - Ludovica Fernandes Mano - a história de uma Angola sem rumo no fim da época colonial e nos primeiros anos da independência. No meio de tumultos generalizados Ludo, uma portuguesa assustada pelo que vê passar-se à sua volta, decide proteger-se e isolar-se no seu apartamento, em Luanda, erguendo uma parede que separa o seu apartamento do restante edifício e do resto do mundo e assim vive num universo só seu durante quase trinta anos, costas viradas à realidade que se desenha à sua volta e a tudo o que nessa época se passou - das lutas internas pelo poder à guerra civil, passando por negócios pouco limpos . A ficção desenvolve-se a partir de um imaginário de notas, poemas, desenhos e prosa que Ludo escreveu nesse período, conhecidos depois da sua morte, num hospital, aos 85 anos. Este é um exercício de ficção que se confronta com o recordar de uma dura realidade da Luanda desses tempos, assim evocada por José Eduardo Agualusa.

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ARTES DE TODOS OS TEMPOS - Até dia 18 a Sociedade Nacional de Belas Artes acolhe pela primeira vez a nova Feira da Associação Portuguesa de Antiquários, que passa a coexistir, naquele espaço e nesta época, com a outra Feira da Associação, que decorre em Abril na Cordoaria e que ali se realiza há mais de duas décadas. No novo espaço estão presentes 15 expositores (na Cordoaria este ano estiveram 25). A ideia é proporcionar uma maior selecção das peças expostas, condições de montagem e iluminação mais interessantes e um espaço mais contido. O resultado é bom e a opção de incluir expositores de várias áreas cria um contraste interessante proporcionando a descoberta de peças de todo o mundo representativas de diferentes épocas, países e correntes artísticas, desde a arte antiga à contemporânea, passando pela moderna. Destaco a presença da Galeria Bessa Pereira com peças de mobiliário moderno de referência, nomeadamente as desenhadas por Le Corbusier para alguns dos edifícios do seu plano de criação da nova Chandigarh, a capital do Punjabe na Índia,  no início dos anos 50, em colaboração com Pierre Jeanneret. Mas existem outras peças , como as que estão na fotografia - uma magnífica secretária do arquitecto e designer brasileiro Sérgio Rodrigues, acompanhada por uma cadeira original de Gerrit Rietveld, da segunda metade dos anos 60. Destaque também para as peças de decoração e jóias expostas por Isabel Lopes da Silva, para as obras mostradas pela Galeria S. Mamede e para as preciosidades mostradas por Manuel Castilho. Esta nova Feira de Arte e Antiguidades da APA ficará na Sociedade Nacional de Belas Artes até dia 18 - hoje das 16 às 21h00, sábado das 14 às 21H e domingo das 12 às 19h00. Rua Barata Salgueiro 36.

 

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REVISITAR A SOUL - O cantor de jazz norte-americano José James tem feito carreira introduzindo alguma inovação em repertórios antigos de grandes nomes - a sua reinterpretação de temas de Billie Holiday editada em 2015 sob o título “Yesterday I Had The Blues” passou com distinção na sempre difícil tarefa de fazer versões de obra alheia. Mas é precisamente esse o território onde José James se sente mais à vontade. Reincidiu agora com “Lean On Me”, que pega nos grandes clássicos de Bill Withers, um nome da soul music injustamente pouco recordado. Withers, que ainda vive, gravou entre 1971 e 1985, ano em que se retirou de cena, desgostoso com o caminho que a indústria discográfica levava. Pelo meio ficaram temas como “Ain’t No Sunshine”, “Grandma’s Hands”, “Lean On Me”, “Use Me”, todos retomados neste  novo disco onde José James consegue duas coisas: prestar uma homenagem e, sobretudo, mostrar o talento de Bill Withers, bem exemplificado nas suas 12 canções aqui recriadas. Para além dos temas já citados, destaque para as interpretações de “Who Is He” ou “Hope She’ll Be Happier” e para os arranjos de “Better Off Dead” e de “The Same Love That Made Me Laugh” que são especialmente interessantes, assim como um dos pontos altos deste disco, o dueto de James com Lalah Hathaway em “Lovely Day”.

 

TINTO OUTONAL -  À medida que o Outono entra pelo calendário apetece comida de conforto, acompanhada por um vinho honesto. Esta semana recomendo um vinho facilmente disponível e com uma boa relação de qualidade/preço (cerca de 5 euros)  - o Marquês de Borba Colheita, 2017, feito por João Portugal Ramos a partir das castas Alicante Bouschet, Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional, Petit Verdot e Merlot, fermentação dividida por lagar de mármore e cuba de inox, com controle de temperatura e estágio de seis meses em meias pipas de carvalho francês. É um vinho tinto jovem e suave, recomenda-se que seja servido a uma temperatura entre os 14°C e os 16°C. Tem uma bom aroma, com destaque para os frutos vermelhos, com equilíbrio entre fruta, acidez e taninos suaves. Acompanha bem carnes vermelhas, queijos intensos, pratos de bacalhau ou o tradicional cozido à portuguesa. João Portugal Ramos produz seis milhões de garrafas por ano de várias regiões do país, que têm como destino o Brasil, Estados Unidos, China e Suécia, além de Portugal e o Marquês de Borba é uma das suas marcas mais antigas e mais vendidas.

 

DIXIT - “Estaremos  no Governo quando o povo quiser” - Catarina Martins

 

BOLSA DE VALORES - Hoje, amanhã e Domingo são as últimas oportunidades para ver o magnífico “Worst Of” da companhia Teatro de Praga na sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, uma revisitação do teatro português feita com humor  e uma encenação invulgar - bilhetes de 10 a 17 euros.

 

BACK TO BASICS - “Não há regras absolutas de conduta, quer na paz, quer na guerra. Tudo depende das circunstâncias” - Leon Trotsky

 

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VITAMINAS ABSTENCIONISTAS - Se o Parlamento não se respeita a si próprio, como podem os eleitores respeitá-lo e porque hão-de os abstencionistas querer votar? A pergunta surge numa semana em que se descobriu mais um caso no Parlamento, depois das moradas falsas que deputados indicaram para ganharem mais uns cobres em subsídios de deslocações. Desta feita a coisa desceu a um nível ainda mais baixo, com um deputado, que é secretário geral do maior partido da oposição, a vigarizar a folha de presenças no plenário, pedindo a um colega de bancada para assinar por ele - no caso electronicamente através de uma password de exclusivo uso pessoal que assim, contra todas as normas, foi desviada da sua finalidade. Nem parece que estamos num parlamento, a coisa assemelha-se a um recreio onde miúdos inconscientes fazem asneiras que pedem a amigos para depois ocultar. A pouca vergonha cometida vale 69 euros por dia - curioso número como em tempos disse um Presidente da Assembleia da República. O facto de um deputado entrar na batota - e o embaraço silencioso dos seus pares - diz tudo sobre o estado a que chegámos. A coisa chegou ao nível das anedotas do menino Tonecas, só que a asneira, em vez de punida exemplarmente pelo líder do partido a que pertence, é classificada por Rui Rio como uma “pequena questiúncula” sem importância. Tenciona ele manter José Silvano como Secretário-Geral do PSD ou vai reforçar a dose de vitaminas abstencionistas ao eleitorado? Este Parlamento está a entrar na idade das trevas. E ao PSD não há luz que o ilumine.

 

SEMANADA - Na semana da Web Summit em Lisboa, a capital grega, Atenas, foi designada Capital Europeia da Inovação; no caso de Tancos, desde que se realizaram as detenções de elementos da PJM, o Presidente da República e o Primeiro Ministro já se pronunciaram publicamente 19 vezes sobre o tema - 11 por parte do Presidente e oito pelo chefe do Governo; António Costa afirmou que o Presidente da República manifestava ansiedade em relação a Tancos; um estudo divulgado esta semana indica que dois em cada três portugueses lêem as notícias de actualidade on line; o total das transações imobiliárias realizadas em 2017, representou um investimento de 24,3 mil milhões de euros, mais seis mil milhões de euros que em 2016, uma variação homóloga de 33,5%; há 14 concorrentes à construção de uma base espacial nos Açores; 50 milhões de euros é o investimento para os próximos cinco anos do STARLab, um laboratório conjunto de investigação e desenvolvimento tecnológico para o Espaço e para os oceanos que vai ser criado por Portugal e a China;  o Governo anunciou 100 milhões de euros para startups tecnológicas provenientes do Fundo Europeu de Investimento Estratégico; a Liga dos Bombeiros Portugueses classificou esta quarta-feira como "completamente desajustada da realidade do país" a nova lei orgânica da Autoridade Nacional de Proteção Civil.

 

IDIOSSINCRASIAS SOCIALISTAS - Manuel Alegre escreveu uma carta-aberta a António Costa, a propósito da posição da Ministra da Cultura sobre as touradas, onde sublinha que “é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correcto”.

 

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ANA, EU GOSTAVA DE IR CONTIGO PARA ÁFRICA - “Metade da Vida”, de V.S. Naipaul, originalmente publicado em 2001 (o ano em que o escritor  ganhou o Nobel) é um romance absolutamente cativante em que parte da história se passa com referências a Moçambique, ainda no tempo em que era uma colónia portuguesa. As origens familiares de Naipaul, vêm da Índia - embora tenha nascido em Trindade e Tobago e ido cedo para Inglaterra, onde estudou. Este romance cruza o dilema da própria família de Naipaul, entre as tradições e castas da Índia e a descoberta de novos mundos. O romance gira à volta de Willie Somerset Chandran, fruto da união entre um pai brâmane e uma mãe de casta inferior. Willie vai estudar para Londres onde, entre várias peripécias e aventuras, publica um livro de contos e se defronta com a descoberta da sua sexualidade - afastada de qualquer sentimento. O amor descobre-o por acaso numa noite londrina com Ana, uma jovem mestiça, de Moçambique, que ali estudava e que lhe escreve elogiando esse livro de contos. Apaixonado pela primeira vez, Willie segue Ana até ao seu país, ainda sob domínio colonial. As páginas do livro em que Willie conta a sua experiência africana, relatadas do ponto de vista de um homem que não sabe de onde vem, são brilhantes. No fim, após 18 anos, em vésperas da independência, Willie decide que precisa de viver outra vida - a que deixou de viver. E parte, dizendo a Ana: “Tenho quarenta e um anos. Estou cansado de viver a tua vida”.  V.S. Naipaul, “Metade da Vida”, tradução de José Vieira de Lima, editado pela Quetzal.

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DE OLHOS NOS OLHOS - Pedro Calapez produziu quatro dezenas de novas obras para serem apresentadas de forma invulgar - a maioria delas cirurgicamente colocadas ao longo das salas da Casa Museu Medeiros e Almeida (na imagem). A exposição tem um percurso recomendado e sugere-se a consulta de uma folha informativa que permite ir seguindo sala a sala o que se passa - e aí procurando e descobrindo as obras (algumas delas em locais pouco evidentes). O título da exposição é “Olhos nos Olhos” : “Procurarmos perceber porque determinados olhares não se fixam no nosso é o que permite penetrar no interior da pintura” - escreve Pedro Calapez no texto que acompanha a exposição. A montagem é muito cuidada, cada obra de Calapez integra-se nuns casos e provoca noutros, no meio da colecção de preciosidades do local, desde a capela à biblioteca, passando pelas outras salas do 1º andar. Na realidade trata-se de uma dupla descoberta - a de visitar este espaço pouco conhecido com a memória que lá está salvaguardada e, paralelamente,  ver a nova produção artística de Calapez, que em várias peças abre pistas de desenvolvimento da sua obra. Para além da miscigenação com a colecção da Casa Museu, há um espaço onde várias obras se apresentam a solo, com destaque para um conjunto da série de onze telas “ A Dor passou Para Os Quadros” e a pintura a pastel de óleo sobre papel “Como Os Homens Se Metem Para Dentro”. Todas as obras seguirão depois para a Alemanha, onde Pedro Calapez terá uma mostra brevemente. A exposição pode ser vista até 21 de Dezembro na Casa Museu Medeiros e Almeida, Rua Rosa Araújo nº 41.

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MAGANICES  - Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Magano é quem demonstra pouca ou nenhuma responsabilidade e é dado à lascívia, quem é jovial ou gosta de se divertir ou ainda quem demonstra malícia ou malandrice. Dito isto é também o nome de um trio dedicado à música popular alentejana, sem conservadorismos e com arrojo. Francisco Brito no contrabaixo e teclados, Nuno Ramos na guitarra e voz e Sofia Ramos na voz e no harmónio constituem os Magano cujo disco de estreia acaba de ser editado. O disco tem ainda participações de André Sousa Machado na percussão (exemplares, por sinal) e André Santos na Viola de arame e braguinha. Das 13 faixas deste álbum a maioria é baseada em temas populares.alguns com intervenções nas letras de nomes como João Monge ou Vanda Rodrigues. Dois são originais - “Que É Feito Dos Velhos Montes” de José Borralho e o magnífico “Açorda d’Alho”, uma deliciosa receita cantada de Joaquim Marrafa e Joaquim Banza. Tenho para mim que uma das razões da importância deste disco está nos arranjos e na sua conjugação com a voz de Sofia Ramos - o expoente é o tradicional “Trigueirinha Alentejana”, mas “Promessas” não lhe fica atrás. Sofia Ramos é uma voz rara, pela sua capacidade de interpretação, pelo timbre, pelo ritmo, pela entoação. Não é frequente em Portugal encontrar uma voz assim e, só por si, ela é razão bastante para ouvir este “Magano” com muita atenção.

 

ÁGUA-PÉ E CASTANHAS -  De onde vem a tradição de S. Martinho? Remonta ao início do século V e evoca Martinho de Tours, que fundou o mais antigo mosteiro conhecido na Europa, na região de Ligugé. Conhecido pelos seus milagres, o santo atraía multidões, foi ordenado bispo de Tours em 371 e foi sepultado a 11 de Novembro de 397 DC em Tours, que, por isso,  poucos anos depois se tornou local de peregrinação. Manda a tradição que desde essa época, na véspera e no dia das comemorações, o tempo melhora e o sol aparece, o que está na origem da expressão “verão de São Martinho”. O dia de São Martinho é festejado um pouco por toda a Europa, de forma diferente. Por exemplo em Espanha matam-se porcos, tradição que deu origem ao ditado popular “a cada cerdo le llega su San Martín” (“cada porco tem o seu São Martinho”). Em Portugal é tradição fazer-se uma festa, o magusto, beber-se água-pé ou jeropiga e provar-se  o vinho novo saído das vindimas de Setembro - seguindo o ditado popular, “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”. Mas a grande bebida deste dia é a água pé - que resulta da adição de mosto remanescente das uvas pisadas para o vinho com água e o engaço esmagado - o resultado é uma bebida leve, frequentemente um pouco gasosa. As normas europeias e a cegueira dos burocratas nacionais arredaram a água pé da legalidade e ela passou a ser mais ou menos clandestina ou comercializada com outros nomes. Acompanha bem os petiscos naturais desta época do ano, na celebração do Outono - castanhas, marmelo nas suas várias formas, e romãs.

 

DIXIT - “Se pensam que me calam, não me calam” - Marcelo Rebelo de Sousa

 

BOLSA DE VALORES - A Balcony é uma das mais recentes galerias de arte de Lisboa que trabalha com jovens artistas. “Sanditosamente” é uma exposição de Philipp Schwalb e DeAlmeida e Silva com obras muito estimulantes cujos preços vão de 600 a 8000 euros, dependendo dos materiais e dimensões, a grande maioria entre os 1500 e os 2000 euros. Rua Coronel Bento Roma 12A, www.balcony.pt

 

BACK TO BASICS - Não é a morte que devemos temer, mas sim não sentirmos que devemos começar a viver - Marcus Aurelius Antoninus

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HALLOWEEN NO PARLAMENTO - Segundo a Wikipedia o Halloween, que se celebra na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro, caracteriza-se pela realização de festas onde se utilizam máscaras e fantasias, lanternas feitas a partir de cascas de abóbora, e onde decorrem assombramentos vários, relatos de histórias assustadoras e exibição de filmes de terror. Dia das bruxas, como também é chamado por vezes, o halloween é uma tradição que tem pouco a ver com Portugal mas que nos últimos anos aterrou nas montras e um pouco por todo o lado, mesmo nos locais mais sérios. Até o Parlamento escolheu estes dias para o encerramento do debate do Orçamento de Estado de 2019 e sua votação na generalidade - o que dá um significado inteiramente novo à junção de assombramentos com a utilização de máscaras. Este ano a rainha das bruxas foi papel que calhou ao Ministro Centeno, permanentemente a voar sobre o hemiciclo na sua vassoura voadora que usa para as andanças europeias, esbanjando promessas, auto-elogios e fazendo números de ilusionismo como o da diferença de 590 milhões de euros entre a versão do OE entregue dia 15 de Outubro em Lisboa e outra, no dia 16 de outubro, entregue em Bruxelas. Centeno quer outros vôos mais altos, o seu testamento político está no Orçamento que nos deixa - o único problema é que ninguém verdadeiramente sabe o que dali vai sair quando a realidade acabar com a fantasia.

 

SEMANADA - 32 mil brasileiros adquiriram nacionalidade portuguesa no ano passado e este ano já foram aprovados mais 23 mil pedidos;  o Governo decidiu suspender há dois meses a divulgação das subvenções vitalícias dos políticos sem pedir parecer a ninguém; a altura dos autocarros movidos a gás da STCP, encomendados no ano passado, não os deixa passar por baixo de alguns viadutos da área do Grande Porto, afectando cinco carreiras; a despesa da saúde em Portugal está 30% abaixo da média europeia em termos de PIB; o aumento da despesa pública em medicamentos nos últimos três anos rondou os 500 milhões de euros; o acesso dos doentes a medicamentos inovadores em Portugal pode demorar até 38 meses; a Federação Nacional dos Médicos (FNAM) critica o processo de informatização que provoca  falhas diárias nos centros de saúde e nos hospitais e que põe em causa a relação médico-doente; Marcelo Rebelo de Sousa responsabilizou a decisão do Governo de reduzir o horário semanal de trabalho das 40 para as 35 horas pelo acréscimo de 70 mil euros em horas extraordinárias registado nas contas da Presidência da República em 2017; segundo o INE o preço por metro quadrado de um alojamento familiar em Portugal é de 969 euros, no Porto é de 1460 euros e em Lisboa é de 2753 euros; um estudo europeu indica que três quartos dos portugueses temem falat de rendimentos na velhice;

 

BELEZA ORÇAMENTAL -  A deputada Isabel Moreira foi fotografada pela agência Reuters a pintar as unhas no plenário da Assembleia da República durante o debate sobre o Orçamento de Estado para 2019.

 

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BARRIGA INCHADA? - A nutricionista Cláudia Cunha tem mais um livro que aborda os problemas sentidos por quem tem frequentemente barriga inchada, cólicas, gases, obstipação e más digestões. Com o título “Livre Trânsito”, o livro é um guia de boa alimentação baseado num regime alimentar baixo em FODMAP, tema que estudou no King’s College, de Londres. Como a autora refere na introdução a dieta baixa em FODMAP baseia-se nos alimentos que podem provocar determinados sintomas, todos eles relacionados com desconforto no sistema digestivo e em particular no intestino. O nome FODMAP vem da conjugação das iniciais de  Fermentáveis, Oligossacáridos, Dissacáridos, Monossacáridos e Polióis. Os oligossacáridos, dissacáridos e monossacáridos são hidratos de carbono constituídos por moléculas de açúcar e os polióis são moléculas de açúcar com uma cadeia de álcool. Todos são fermentados pelas bactérias da flora intestinal, contribuindo nomeadamente para a formação de gases. Esta dieta baixa em FODMAP permite identificar os alimentos que podem ser prejudiciais para o intestino e perceber aqueles que são mais favoráveis para cada pessoa. O livro aborda as principais patologias intestinais, tem conselhos práticos sobre a dieta baixa em FODMAP, o processo de reintrodução de alimentos, os respectivos planos de dieta e uma série de receitas. Claúdia Cunha editara em 2016 o livro “Doce veneno - Plano de 21 dias para se livrar do açúcar de uma vez por todas”. Este novo “Livre Trânsito - O Regime Alimentar Baixo em FODMAP” é editado pela Esfera dos Livros.

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O CINEMA IDEAL MOSTRA FOTOGRAFIA - O Cinema Ideal existe graças à determinação da Casa da Imprensa, dona do espaço, em manter ali uma sala de cinema. Agora a Casa da Imprensa e o Cinema Ideal associam-se numa mostra de filmes a realizar anualmente onde os temas relacionados com a imprensa estarão em destaque. Nesta primeira edição o mote é a fotografia, com um conjunto de 6 filmes sobre fotógrafos e a antestreia de um filme que adapta um livro de um dos grandes repórteres de guerra do nosso tempo, “Mais um Dia de Vida” de Ryszard Kapuscinski. Ao longo de uma semana, de 1 a 7 de Novembro, com duas sessões diárias às 15:45 e 19:15, podem ser vistos  filmes sobre Robert Frank, Gérard Castello-Lopes, Robert Mapplethorpe, Robert Doisneau, Vivian Maier e Sebastião Salgado. Os bilhetes têm o preço único de 3 € e os filmes sobre os fotógrafos serão lançados em DVD (ao preço de 5€) e e disponíveis nos videoclubes das plataformas de televisão e na Filmin. São estes os filmes: “Mapplethorpe – Vejam as Imagens”, de Fenton Bailey e Randy Barbato; “Robert Frank, Não Pestanejes”, de Laura Israel; “Robert Doisneau, o Rebelde do Maravilhoso”, de Clémentine Deroudille; “À Procura de Vivian Maier”, de John Maloof e Charlie Siskel;  “Olhar / Ver – Gérard, Fotógrafo”, de Fernando Lopes; e “O Sal da Terra – Uma viagem com Sebastião Salgado” de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.

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EXIBICIONISMO OU INTIMISMO? - O novo disco de Annie Clark, aliás St.Vincent, é um exercício de disfarce e sedução. Vamos por partes: há cerca de um ano St. Vincent lançou Masseduction, um disco duro e cru, maquilhado de latex e carregado de insinuações sexuais, onde ela ensaiava contar pequenas mas vigorosas histórias de atracção,  envolvimento, ruptura - muito dele certamente autobiográfico após uma relação tempestuosa com a modelo Carla Delevigne. Um ano depois Annie Clarke fechou-se durante dois dias num estúdio em Nova Iorque para gravar novas versões desse álbum de 2017, mas em vez do som incisivo da banda com que trabalhou, agora usa apenas piano e por vezes guitarra acústica. Refez completamente, do ponto de vista vocal e musical, 12 dos 13 temas originais (só falta o pequeno interlúdio de “Dancing With A Ghost” que aqui se incorpora logo na faixa escolhida para abertura no novo alinhamento, “Slow Disco”. O nome escolhido para esta versão acústica é toda uma proclamação - em vez do ambíguo e provocante Masseduction, agora o conjunto destas revisitadas canções leva o título de MassEducation, como se o propósito fosse mostrar o primado da suavidade, do romance e da saudade. Continua a ser um disco pop, mas onde as palavras se tornam muito mais fortes, onde o dramatismo vocal se destaca e onde o intimismo se sobrepõe ao exibicionismo anterior. Toda uma conversão - ou como as versões acústicas são um passaporte sem destino anunciado. No Spotify.

 

SALSA RENOVADO - José Duarte começou as suas lides de restauração na Tia Matilde, há umas dezenas de anos. Cedo se interessou pela cozinha tradicional portuguesa, sobretudo pela Alentejana, foi trabalhando em diversos restaurantes conhecidos e ao mesmo tempo frequentou a Escola de Hotelaria de Lisboa. Em Agosto de 2005 abriu em Alvalade o Salsa & Coentros, na época com Belmiro de Jesus na cozinha. O restaurante rapidamente ganhou nome e merecida fama baseado num conceito: qualidade, serviço e preço honesto. 13 anos depois, no final deste verão, José Duarte resolveu refrescar a casa: foram-se as cores mais escuras, as paredes ganharam luz, as janelas ganharam vida e resguardo do exterior. A casa ficou mais alegre e ao mesmo tempo ganhou intimidade. Felizmente as mudanças são só de decoração, a qualidade da cozinha mantém-se, assim como um sensato equilíbrio de preços. A escolha de vinhos é cuidada e há sempre um vinho recomendado, que vale a pena experimentar. A casa fez fama com as suas entradas (as favinhas de coentrada, as empadas de galinha, os pimentos com coentros, a paiola de porco preto, o queijo de cabra de leite fervido), com petiscos como ovos mexidos com túbaras, ou coisas ainda mais sérias como a vitela Salsa & Coentros, o arroz de perdiz, o bacalhau confitado. Para além de doces conventuais, há sobremesas de época como é o caso, agora, do marmelo cozido. A nova decoração ajuda ao conforto da casa e ainda bem que a qualidade se manteve. Rua Coronel Marques Leitão, 12 (junto aos Bombeiros e Mercado de Alvalade), telefone 218410990, encerra aos Domingos.

 

DIXIT - “Aquilo a que estamos a assistir no Brasil é à dificuldade que há em pôr termo a um longo regime convencido de possuir a verdade, como é o caso do PT, e identificar as forças capazes de o substituir.” - Manuel Villaverde Cabral

 

BOLSA DE VALORES - Até 16 de Novembro pode ver a exposição “What Do They Feel?” do norte-americano Matt Mullican na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 33), com 16 obras, a maioria de grandes dimensões, com preços que vão dos 25.300€ a 80.500€. Duas delas estão reservadas. Obras de Mullican estão presentes em várias grandes colecções internacionais de arte contemporânea.

 

BACK TO BASICS - “O verdadeiro prazer está na descoberta e não no conhecimento” - Isaac Asimov

 

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