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COSTA NA ENCRUZILHADA - Além das crises familiares no Governo, duas coisas incomodam António Costa:  o Novo Banco e a União Europeia. A venda do Novo Banco já foi feita pelo seu Governo e o que se está a passar mostra que os termos da venda foram, digamos, mal calculados. E assim, por mais ginástica que Mário Centeno faça, por mais exercícios de contorcionismo que consiga, uma coisa é certa: estamos todos a pagar, seja de que forma fôr, e isto não estava nada no programa - quem decidiu não mediu as consequências, não há volta a dar ao texto. A outra coisa, a Europa, fia mais fino porque mexe nas convicções fundamentais da geração de dirigentes socialistas portugueses e europeus que antecedeu o actual Primeiro-Ministro no processo de construção da União. O seu mal estar foi notório na entrevista em que colocou reservas face ao Euro, aos equilíbrios de Bruxelas e face ao processo de construção da Europa. As ideias que manifestou conseguem, com a habilidade que se tem de lhe reconhecer, um equilíbrio entre o anti-federalismo, as críticas à forma de criação do Euro e o desejo de ter uma voz mais activa no futuro - está tudo ligado aliás. É uma entrevista muito mais significativa que um mero exercício de propaganda no horizonte das eleições para o Parlamento Europeu. É a entrada de António Costa na disputa de cargos internacionais de primeiro plano, querendo demarcar-se dos erros da geração anterior, propondo-se mudar o que nem sequer ainda anuncia e colocando-se na primeira linha do combate a horizontes que assustam, com razão, muita gente. Esta entrevista é o anúncio de que Costa pretende ser uma voz que está a querer falar mais alto que Macron. Apesar dos incidentes internos quer parecer um estadista. Promete e pensa melhor que executa. Voltando à fértil questão da proliferação do governamental convívio familiar mão amiga fez-me chegar um livrinho chamado "Families and how to survive them" de Robin Skynner (psiquiatra) e de John Cleese, e que tem capítulos maravilhosos como “Why did I have to marry you?”, “Who's in charge here?” ou “What are you two doing in there?”. Boas perguntas, não é?

 

SEMANADA - A carga fiscal atingiu novo máximo em 2018 com o peso das receitas de impostos e contribuições sociais a atingir 35,4% do PIB; a Agência para a Segurança da Aviação detectou falhas em helicópteros do INEM e recomendou a sua paragem; avarias em veículos do INEM põem em causa socorro nas zonas do Porto, Gaia e Coimbra; há mais de dois mil doentes à espera da realização de um transplante porque o envelhecimento de dadores faz baixar a recolha de orgãos; em 2018 a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima foi chamada a ajudar três crianças por dia; as zonas norte e centro têm 65,5% das novas construções para habitação; em 2018 foram transaccionados quase 180 mil imóveis num montante global de 24,1 mil milhões de euros, o maior valor de sempre; em apenas um ano o preço médio das habitações aumentou 10%; Catarina Martins disse que deve haver uma reflexão no Governo e no PS sobre a existência de relações familiares e Carlos César denunciou que no Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda são abundantes e directas as relações familiares; o publicitário Manuel Soares de Oliveira descreveu a situação no Facebook: “Finalmente temos um Governo que defende os valores da família e a direita ataca”; uma mulher acusada de violência doméstica mordeu o polícia que a ía deter; ilustrando a justiça que temos, alguns dos crimes de que o sucateiro Manuel Godinho era acusado no processo Face Oculta já prescreveram, entre eles três de corrupção e cinco de tráfico de influências.

 

FENÓMENOS CONTEMPORÂNEOS - A lei que impede abates deixa canis superlotados e várias câmaras municipais admitem que a saúde pública pode estar em risco devido ao aumento de animais vadios nas localidades.

 

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AS POLÉMICAS DO FADO - Cada vez que a música muda de figura aparece sempre alguém a reclamar. Foi assim com os grandes compositores clássicos, com os pioneiros da música contemporânea, com o abanar de ancas do rock’n’roll. Num novo livro Alberto Franco lembra que também por cá se passou o mesmo: «Os ataques ao fado começaram pouco depois do seu aparecimento. Alguns intelectuais oitocentistas associavam‑no ao crime. Achavam-no mórbido, lutuoso, indigno duma nação civilizada».  O autor destas palavras, Alberto Franco, é um homem incómodo - jornalista, escreveu sobre História, regiões, gastronomia e esse pecado hoje mortal que é a arte tauromáquica. Também escreve letras para fados e por isso mesmo se dedicou a fazer a história dos sobressaltos que o canto da Severa atravessou: “Nascido nas franjas marginais de sociedade, baseado em fórmulas poéticas e musicais aparentemente pouco elaboradas, distraído do respeito pelos bons costumes, irreverente para com os poderes constituídos, o canto fadista não poderia deixar de atrair as censuras dos mais diversos quadrantes”. Na realidade, como recordas,  Fernando Lopes Graça considerava o fado uma canção bastarda e Salazar não gostava de Fado. Mas isso não impediu que o Fado fosse confundido com a propaganda do Estado Novo e que muitos opositores vissem o género como um instrumento da ditadura. Muito antes de se ter tornado Património Cultural Imaterial da Humanidade, o fado recolhia ódios e descrenças de todas as áreas da sociedade em Portugal - até mesmo na medicina - o médico Samuel Maia acusou-o, inclusive, de fazer mal ao fígado. Alberto Carvalho recorda o incómodo que Amália causou quando decidiu cantar Camões, a forma como o Fado foi associado ao “escoadouro que temos de tudo, o que temos de pior, a uma verdadeira descida aos infernos da vida portuguesa”, num escrito de António Osório que classificava a Severa a uma meretriz iletrada e que reflectia o que um pensamento de esquerda considerava em Junho de 1974 no seu livro “A Mitologia Fadista”. A resposta a esse panfleto surge agora pela mão de Alberto Franco, neste “As Guerras do Fado”, editado pela Guerra & Paz, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores.

 

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IMAGENS ARQUITECTÓNICAS - Para assinalar os 30 anos do Photoshop o MAAT escolheu obras de meia centena de artistas que constroem e manipulam imagens feitas a partir de objetos e espaços arquitetónicos, numa exposição intitulada “Ficção e Fabricação” ( e que inclui a imagem de James Welling aqui reproduzida). Com o Photoshop proliferaram ferramentas digitais na produção fotográfica e esta exposição mostra o imaginário da arquitetura como tema fulcral de uma prática expandida da fotografia na arte contemporânea. Podem ser vistas obras de nomes como Andreas Gurski, Thomas Ruff, Jeff Wall, Thomas Demand e criações ficcionais de Beate Gütschow, Oliver Boberg ou Isabel Brison. Até 19 de Agosto poderá ver uma viagem a  “um panorama da fotografia de arquitetura que contorna abordagens objetivas e privilegia as efabulações sobre o real entre o olhar cinematográfico, a desconstrução da imagem ou as narrativas mais politizadas.” Outras sugestões: no Porto, no novo Espaço 531, dedicado a obras de pequeno formato na Rua Miguel Bombarda e que passa a integrar a Galeria Fernando Santos, Pedro Calapez expõe até 27 de Abril 44 placas no formato 42 x 30 cm, todas diferentes, todas com movimentos circulares, um bom exemplo da obra do artista. No Atelier-Museu Julio Pomar, em Lisboa, até 17 de Abril está a exposição coletiva “muitas vezes marquei encontro comigo próprio no ponto zero” , um projecto de Marta Rema que reúne trabalhos que abordam o desejo de pensar o silêncio nas suas várias dimensões e que inclui obras de, entre outros, nomes como Ana Pérez-Quiroga, Cecília Costa, Fernando Calhau, Helena Almeida, Jorge Molder, Rui Chafes, Sandro Resende, Sara & André e do próprio Júlio Pomar, de quem são mostrados os desenhos da prisão realizados no Forte de Caxias, onde o artista esteve detido de 27 de abril a 26 de agosto de 1947.

 

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PODE A MÚSICA SER UM POEMA? - Comecemos por imaginar dois pianos a falar um com o outro. Neste caso os dois pianos, ou,  melhor dizendo, os dois pianistas, Vijay Iyer e Craig Taborn, encontraram-se há uns quinze anos quando ambos tocavam com o saxofonista Roscoe Mitchell. Na altura estavam  no início das respectivas carreiras e procuravam abrir horizontes - que é o que têm feito ao longo destes anos. Vijay Iyer é talvez o mais conhecido dos dois e o que mais tem editado, quer com outros músicos, quer a solo. Mas ao longo deste tempo continuaram a tocar em conjunto sempre que possível. “The Transitory Poems” é o disco agora editado pela ECM e que reproduz um concerto que deram em Março de 2018 na Franz Liszt Academy, em Budapeste. Aqui está um exemplo raro do que pode a improvisação, a capacidade inventiva, quando se juntam dois músicos de excepção. As influências de outros pianistas como Cecil Taylor ou Geri Allen são evidentes e deve dizer-se que os estilos de Iyer e Taborn são bem diferentes: o primeiro é  contido e preciso, o segundo é sugestivo e aberto. O resultado é magnífico.

DIXIT - “O que eu gostava mesmo era de desenhar livremente; com lápis, com caneta, com cores, com o que tivesse à mão, colecionando vistas, sobreposições, acidentes, deformações, insólitos bocados de arquiteturas existentes” - Manuel Graça Dias

BACK TO BASICS - “As campanhas criam fantasias que permitem ganhar as eleições mas nenhuma se traduz num progresso real para os eleitores” - Bill Clinton



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publicado às 16:00

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UM EXEMPLO QUE VEM DOS ANTÍPODAS - Uma das séries da Netflix que mais me interessou nos últimos tempos foi “Secret City”, um thriller político passado na Austrália e onde, ao longo das duas temporadas já disponíveis, o centro da história é a forma como membros do Governo tentam iludir os eleitores, com a ajuda das agências de informação e serviços secretos, que repetidamente abusam do seu poder e violam direitos dos cidadãos. A série é uma crítica dura ao funcionamento do Estado. Acontece que a produção desta série foi financiada por um conjunto de entidades governamentais e departamentos oficiais da Austrália, uma política integrado de financiamentos e benefícios que são o elemento chave da reviravolta que o audiovisual australiano sofreu nas últimas duas décadas e meia. Desde meados dos anos 90 a Austrália implementou, sem recuos, uma política e mecanismos de desenvolvimento da produção local que foi dando os seus frutos e agora está madura. O facto de uma série tão crítica em relação ao funcionamento dos responsáveis do Estado ser fortemente financiada por esse mesmo Estado mostra apenas que o sistema funciona muito bem. Em Portugal infelizmente passou-se o contrário e a cedência a lobbies diversos, acompanhada por uma sistemática falta de empenho no desenvolvimento continuado e coerente de uma indústria audiovisual, tem os resultados que estão à vista. Por cá raramente se leva um plano até ao fim. E, como esta semana se viu no parlamento, o debate sobre o audiovisual preocupa-se mais com futebóis do que com outras coisas...

SEMANADA - As Câmaras Municipais de Lisboa e Porto realizaram cerca de mil despejos de habitação social ao longo da ultima década a maior parte por rendas em falta; o Governo anunciou redução dos preços dos transportes públicos para 85% dos eleitores; o presidente do Supremo Tribunal de Justiça reconheceu numa entrevista que não foi possível promover um pacto para a reforma da justiça entre os partidos parlamentares; o Conselho Geral da ADSE acusou a instituição que fiscaliza de não dar suficiente importância à situação dos beneficiários nas zonas mais desfavorecidas; segundo o Presidente da República “não há instituições europeias fortes com líderes fracos e não há líderes europeus fortes com líderes nacionais fracos”; no Hospital de Santa Maria a falta de enfermeiros reduziu o serviço de neonatologia a metade; nos últimos dois anos, o número de pedidos de nacionalidade portuguesa aumentou cerca de 50%, atingindo 176.285 em 2018;  Esta legislatura os pedidos de levantamento da imunidade parlamentar aos deputados quase duplicaram em relação à anterior; Portugal continua bem acima da média europeia na incidência de casos de tuberculose; 1,9 milhões de portugueses têm o hábito de fazer apostas em jogos online.

PENSAMENTOS ACERTADOS - “Fingir que a União Europeia é democrática, com aquele patético Parlamento e estas eleições, ou é inútil, ou é prejudicial”- António Barreto

 

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AS OPORTUNIDADES E AMEAÇAS DO FUTURO - Editada pelo Copenhagen Institute for Futures Studies, a “Scenario” é uma revista sobre tendências, ideias e perspectivas de futuro, publicada seis vezes por ano. A primeira edição de 2019 dedica a capa a Martin Rees, que criou e coordena um grupo de investigadores da Universidade de Cambridge no Centre for the Study of Existencial Risk (CSER). Este centro dedica-se a estudar as ameaças globais que podem colocar a humanidade e a civilização em risco. A entrevista com Martin Rees surge a propósito do seu novo livro, “On The Future: Prospects For Humanity”, uma abordagem aos grandes desafios e oportunidades que irão moldar o nosso futuro colectivo. Outros temas de interesse nesta edição são um artigo sobre a quarta revolução industrial, caracterizada pela ascensão da inteligência artificial e da robótica. O impacto da inovação social na organização das empresas, desde os recursos humanos ao local de trabalho, é um dos temas abordados nesta área. A robótica e a inteligência artificial, sublinha a revista,  colocarão cenários inesperados, muito para além do trabalho, entrando na vida de cada um - a nível do comportamento e até da sexualidade. No entretanto, algumas casas de alta costura, como a Balmain e a Fenty começaram a utilizar modelos virtuais digitais em 3D em vez de pessoas nas suas campanhas publicitárias. Cameron James Wilson criou Shudu, o primeiro supermodelo digital e a Scenario entrevistou-o. A revista está à venda na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88b.

 

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O LADO LUNAR DA METADE DO CÉU - Qual é a metade do céu? Segundo Mao Tsé-Tung é aquela que toda e qualquer mulher sustenta. Este foi o ponto de partida assumido por Pedro Cabrita Reis para criar a exposição que assinala os 25 anos de actividade do Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, escolhendo obras de 60 mulheres artistas portuguesas, simbolicamente com início numa natureza morta de Josefa D’Óbidos, do século XVII, até à maioria das obras apresentadas, produzidas entre meados do século XX e a actualidade. “A metade do céu” é pois um projecto de Pedro Cabrita Reis que decorre entre 21 de Março e 23 de Junho e que, nas suas próprias palavras, é uma exposição que procura “trazer ao encontro de Vieira da Silva uma perspectiva singular – pessoal, afectiva, decerto apaixonada” de obras de outras artistas. E ainda: “esta exposição perscruta o lado lunar de cada artista, dando a ver, sempre que possível, o que menos se espera dela – uma ou outra obra não tão frequentemente mostrada, talvez até desfasada, de algum modo inusitada”. Uma outra sugestão adicional: por iniciativa do Sindicato dos Pintores Pedro Calapez aceitou a ideia de por em contacto dois artistas de gerações diferentes e escolheu Carlos Correia. Sob o título “Sem Fim/Endless”, apresentam-se cerca de 50 trabalhos sobre papel de Carlos Correia e um video de Pedro Calapez. Na Box da Appleton, Rua Acácio Paiva 27, entre 23 a 30 de Março. E no dia 29, pelas 18h, uma conversa junta Pedro Calapez com Alberto Caetano e Joaquim Sapinho, numa abordagem à obra de Carlos Correia, morto no ano passado.

 

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UM PIANO ENCANTADO - O trio clássico de jazz (piano, bateria e contrabaixo) é uma das minhas formações preferidas e o piano é claramente o instrumento que muitas vezes move a escolha do que quero ouvir. Aaron Goldberg é um pianista de jazz norte-americano que ao longo da sua carreira, iniciada em finais dos anos 90, trabalhou com nomes como Joshua Redman ou Wynton Marsalis. O novo disco do trio do pianista norte-americano Aaron Goldberg, o seu sexto, chama-se  “At The Edge Of The World” e foi editado no final do ano passado. Alem de Goldberg tocam o baterista Leon Parker e o baixista Matt Penman. O disco começa com uma versão de “Poinciana”, um standard composto por Nat Simon no final dos anos 30, que teve numerosas versões, uma das mais conhecidas sendo a de Ahamad Jamal - aqui recriada de forma marcante, com uma intervenção vocal de Parker que ajuda a criar todo o ambiente do disco. O segundo tema, “Luaty” é um original de Goldberg dedicado ao activista angolano “Luaty Beirão”, composto enquanto ele esteve em greve da fome.  Destaque também para o clássico brasileiro “Manhã de Carnaval”, e sobretudo para a versão de um tema de McToyTyner (“Effendi”) e para as duas homenagens ao vibrafonista Bobby Hutcherson, “Isn’t This My Sound Around Me” e “When You Are Near”. “En La Orilla Del Mundo”, do cubano Gonzalo Rubalcaba, popularizado por Charlie Haden, é o único tema onde Goldberg toca sózinho, ao piano. E a finalizar “Tokyo Dream” é uma abordagem do próprio Aaron Goldberd a um blues, proporcionando um dos pontos altos da participação do baterista Leon Parker. Disco Sunnyside, disponível no Spotify

IGUARIAS FLUVIAIS DA ESTAÇÃO - Todos os anos por esta altura combino com um dos meus melhores amigos a estreia da época da lampreia. Às vezes a partir de finais de Fevereiro já se consegue uma lampreia decente -  mas este ano a falta de chuva não ajudou os rios e ainda menos as lampreias, que precisaram de mais algum tempo para estarem em boa forma. A estreia de 2019 ocorreu na semana passada num dos locais da minha confiança quando se trata de cozinha portuguesa - o Apuradinho, na Rua de Campolide. A lampreia que ali se serve é de confiança, não é importada nem congelada, como já me aconteceu nalguns locais. Além disso a casa sabe preparar bem o ciclóstomo para que ele não fique contaminado com nenhum sabor estranho. Aquele arroz de lampreia é temperado no ponto, leva a dose certa de vinagre, retém o sabor do bicho e o preparo é feito de forma a que os nacos surjam no ponto de consistência. Convém  encomendar o petisco e acertar uma data. Para quem goste há vinho verde tinto,mas eu geralmente passo nesse capítulo. Se tudo correr como previsto ainda há -de haver segunda lampreia este ano e pelo meio estou certo que terei ocasião para provar o outro petisco da época - o sável frito em fatias finíssimas, acompanhado por uma açorda genuína - que no Apuradinho também é excelente. Apuradinho, Rua de Campolide 209, telefone 213 880 501.

DIXIT - “A democracia portuguesa está a tornar-se um asilo de loucos” - Vasco Pulido Valente

BACK TO BASICS - “A aritmética consiste em saber contar até 20 sem ter que tirar os sapatos dos pés” - Rato Mickey



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publicado às 15:50

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O MUNDO MUDOU E A LEI ELEITORAL NÃO - Quando se fala da necessidade de mudar o funcionamento do sistema político não é só de modificar o sistema eleitoral (círculos uninominais, número de deputados ou número de câmaras, por exemplo), nem o sistema partidário. O funcionamento da democracia representativa em Portugal foi enquadrado por uma lei eleitoral que regula questões de propaganda política e de comunicação, decisões tomadas numa altura determinada, em circunstâncias especiais, em 1974. As actualizações e aperfeiçoamentos posteriores foram pequenos e não relevantes. O maior desfasamento tem a ver com o que mudou no mundo, na Europa, em Portugal e na comunicação entre as pessoas e entre o Estado e os eleitores nestes 45 anos - basta dizer que a world wide web foi imaginada há 30 anos. Nestes 30 anos tudo mudou menos o edifício eleitoral. A polémica surgida esta semana em torno das recomendações da Comissão Nacional de Eleições é elucidativa disto mesmo. O actual sistema trabalha desde há décadas para ter obras prontas a tempo de serem inauguradas em ano eleitoral. As inaugurações fazem parte da propaganda e das campanhas. Quem está no poder quer mostrar o que fez e quer esconder o que prometeu e não realizou; e quem não está no poder quer criticar o que considera estar mal-feito e denunciar promessas não cumpridas. As redes sociais e os jornais online aceleram o processo da comunicação dos políticos, que cedo aprenderam a usá-los. Tudo isto tornou anacrónicas uma série de disposições sobre o acesso a orgãos de comunicação e tempos de antena. Outro caso: a Lei Eleitoral proíbe publicidade - e hoje em dia essa proibição foi ultrapassada pelos acontecimentos. A proibição vinha do tempo em que as campanhas eram feitas por militantes a colar cartazes, coisa rara hoje em dia. Agora existem empresas de publicidade exterior que trabalham com os partidos nestes períodos, teoricamente como se fizessem parte deles mas na realidade sendo pagas. O mal profundo do sistema político começa na Lei Eleitoral, completamente desfasada da realidade. O próprio funcionamento da Comissão Nacional de Eleições precisa de ser mudado - até na comunicação que ela estabelece com os eleitores.

 

SEMANADA - Quase metade das instituições de ensino superior não têm acessos para deficientes; o Observatório Judicial da Violência Doméstica e de Género, anunciado há um ano pelo Conselho Superior da Magistratura ainda não avançou; o pedido de levantamento de imunidade a José Magalhães, num processo em que é acusado de peculato, esteve parado seis meses por falta de um parecer de um deputado do PS; a falta de material circulante da CP, que era tutelada pelo candidato do PS ao Parlamento Europeu, Pedro Marques, tira cinco comboios por dia dos carris; um gang de quatro pessoas que raptou uma menor por uma dívida de droga de 45 euros, e cujos membros foram detidos em flagrante pela GNR,  ficou em liberdade a aguardar julgamento; o preço médio de arrendamento das casas em Portugal em 2018 aumentou 37% face a 2017, fixando-se nos 1106 euros em termos de valor médio; na madrugada de terça-feira um drone transportou telemóveis para a cadeia de Custóias; a Ministra da Justiça admitiu no Parlamento que o Governo só soube pelos ‘media’ das festas privadas, sem a presença de qualquer guarda, ocorridas na prisão Paços de Ferreira e divulgadas em vídeos nas redes sociais; uma empresa que ganhou um concurso de fornecimento de serviços de saúde para as prisões faliu, deixou de pagar a fornecedores, e descobriu-se que era co-gerida por um detido que estava na cadeia de Sintra e tratava dos assuntos da empresa por um telemóvel que teoricamente não podia ter na sua cela; o presidente da Câmara Municipal de Braga quer colocar pulseiras electrónicas aos funcionários da autarquia para controlar a sua assiduidade; a estreia do programa da SIC “Quem Quer Casar Com o Agricultor” teve quase tantos espectadores como a transmissão do jogo entre o Benfica e o Dínamo de Zagreb.

 

DITOS PIEDOSOS - “Não é um secretariozeco ou um qualquer ministro que vai afastar os órgãos sociais democraticamente eleitos” - Padre Vitor Melícias sobre a situação no Montepio e em defesa de Tomás Correia.

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O QUE É A ARQUITECTURA?  - A revista “Kinfolk” publica-se quatro vezes por ano em Copenhaga e a edição desta Primavera, a nº 31, é dedicada ao tema do design, entendido de forma lata, e em particular à arquitectura. No editorial a Kinfolk destaca que a arquitectura é a disciplina do design mais ambiciosa, que define as forças que moldam os locais e ambientes onde vivemos. Num dos vários textos sobre o tema sublinha-se que na Europa, na segunda metade do século passado, “a arquitectura foi a forma de construir algo de positivo a partir das ruínas da guerra”. Destaque nesta edição para os trabalhos sobre a arquitecta francesa Charlette Perriard que defendia que o seu trabalho era conceber espaços funcionais na crença de que um design melhor ajuda na criação de uma sociedade melhor, e também para uma casa construída na Rivieira Francesa pelo arquitecto irlandês Eileen Gray, hoje considerada como um dos símbolos do modernismo. Nesta edição de Primavera da Kinfolk merece atenção uma entrevista a Kyle Abraham, o coreógrafo do New York City Ballet cuja ambição é conseguir um dia reproduzir numa das suas coreografias o movimento das flores, e para uma conversa com pintora Fabienne Verdier que esteve dez anos na China a estudar a caligrafia com velhos mestres que sobreviveram à reeducação imposta pela Revolução Cultural a quem se dedicava a esta arte milenar. Finalmente o prato forte é uma entrevista fascinante com Ryuichi Sakamoto onde o músico confessa que para si o silêncio ganha importância à medida que envelhece e que admite que ouvir música pode ser uma perda de tempo quando há sons tão belos na natureza - por isso, revela, cada vez que chove abre a sua janela e grava o som da chuva. A Kinfolk está à venda na Under The Cover, Rua Marquês Sá da Bandeira 88b.

 

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VER O CÉREBRO POR DENTRO  - O título da exposição “Cérebro: mais vasto que o Céu”, que esta semana inaugurou na Gulbenkian, inspira-se num poema de Emily Dickinson, “The brain is wider than the Sky”, no qual a poetisa norte-americana descreve o cérebro humano como “mais fundo que o mar” e “com o exato peso de Deus”.  À entrada está uma instalação vídeo com um ambiente sonoro original da autoria de Rodrigo Leão e imagens da obra “Self-reflected” do artista e neurocientista norte-americano Greg Dunn. A partir daí a exposição desenvolve-se ao longo de três núcleos temáticos, enquanto  vários robots pintores do artista Leonel Moura executarão telas em tempo real durante todo o período da exposição. O primeiro módulo, “No princípio não havia cérebros” aborda a origem dos cérebros, enquanto processo de evolução biológica, destacando a complexidade do cérebro humano como parte dessa evolução.  Aí existe uma monumental escultura de um neurónio com 12 metros de comprimento suspensa do teto e iluminada com leds que simulam disparos neuronais em reação à presença de visitantes. O segundo módulo, “Pense no Cérebro” tem como peça central uma Orquestra de Cérebros, que consiste numa instalação multimédia na qual quatro visitantes podem visualizar e ouvir, em simultâneo, a sua atividade cerebral. Os sinais, captados por um capacete, são projetados numa tela de grandes dimensões e a sua tradução em sons foi desenvolvida por Rodrigo Leão. Um quadro de Bridget Riley, da Coleção Moderna do Museu Gulbenkian, ilustra como os princípios perceptivos por detrás das ilusões ópticas foram utilizados pela corrente artística OpArt. O terceiro módulo, “Mentes Artificiais” mostra como o desenvolvimento da tecnologia na área da inteligência artificial e da robótica tornou possível replicar a complexidade de organização do cérebro e do seu modo de processamento de informação em sistemas artificiais. Aqui há mais experiências para os visitantes - por exemplo o Mindball, um jogo de futebol mental em que dois visitantes se defrontam movimentando uma bola em direção à baliza do adversário com base nas suas ondas cerebrais. Estão também expostas várias peças interactivas, como uma aplicação em tablet sobre dilemas éticos levantados pela utilização de carros autoguiados. Ao longo da exposição há obras de artistas como Greg Dunn, Bridget Riley, David Goodsell, Leonel Moura e desenhos científicos do início do século XX que mostram o cérebro humano, de Santiago Ramón Y Cajal. “Cérebro: Mais Vasto Que O Céu” tem curadoria científica de Rui Oliveira, estará exposto na Galeria Principal da Gulbenkian até 10 de Junho e o catálogo sairá na próxima semana.

 

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CANÇÕES SOBRE A VIDA- Sharon Van Etten lançou o seu primeiro disco aos 28 anos e ao longo de uma década editou cinco álbuns - o mais recente já este ano, “Remind Me Tomorrow”. A preparação deste novo disco coincidiu com o desenvolvimento dos seus estudos na área da psicologia no Brooklyn College. Van Etten, que criou uma imagem de marca em torno de canções melancólicas, muitas vezes apontadas como exemplos de ilustração sonora da tristeza, muda de forma considerável neste disco, quer do ponto de vista musical, quer nos textos das canções. Logo na faixa de abertura, “I Told You Everything” ela evoca a conversa inicial que teve com o seu actual parceiro: “Sitting At A Bar/ I told you everything/ you said “holy shit, you almost died”. Mas temas como “Malibu”, “Comeback Kid” ou “No One’s Easy To Love” abrem portas para uma evolução na sua forma de encarar a vida e o mundo que a rodeia. Do ponto de vista musical, comparado com os anteriores, o disco é menos acústico, mais orquestral, mais estridente, com maior recurso à electrónica e à percussão. O facto de o produtor ter sido John Congleton, que tem trabalhado com St Vincent, influenciou certamente a soonoridade deste “Remind Me Tomorro”, disponível no Spotify.

 

DIXIT - “A transparência é um empecilho para os políticos” - José António Cerejo, sobre a forma como o regulamento de protecção de dados está a ser usado para ocultar informações sobre contratações públicas.

 

BACK TO BASICS - “A realidade é a maior causa de stress para os que têm que lidar com ela” - Jane Wagner







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publicado às 13:00

 

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GEPETTO, PINÓQUIO E O GRILO FALANTE  - A fábula de Pinóquio está cheia de ensinamentos políticos nestes tempos das fake news. Sonhei que Marcelo era o carpinteiro Gepetto, que Costa era Pinóquio e que o papel de Grilo falante estava reservado para José Magalhães. Cá para mim o Gepetto da actualidade portuguesa deixa Pinóquio à vontade nas suas brincadeiras: o Governo prometeu que os contribuintes não iriam pagar mais para salvar bancos e está-se a ver o que acontece; Pedro Marques, que era mesmo o maior descendente de  Pinóquio do Governo, foi mandado espalhar mentiras no território natural da ilusão que é a União Europeia; João Galamba, seu rival directo no campeonato dos jovens Pinóquios, já está num Ministério. E Costa superintende em tudo, sempre com transbordante imaginação e uma cativação orçamental na mão. Para a história ficar completa José de Magalhães, assume com galhardia o papel de Grilo falante. Magalhães descobriu que o maior perigo das campanhas eleitorais que se sucedem este ano reside no proliferar das fake news e propõe-se, no Parlamento,  tomar medidas para as combater. Aguardo ver como irá  ensinar Costa, Marques e Galamba a evitarem que os narizes lhes cresçam. Este Grilo vai ter muito que fazer com Pinóquios assim debaixo da sua alçada, à solta pelos ministérios e pela sua própria bancada parlamentar. É que, em matéria de fake news, o Governo não tem rival.

 

SEMANADA - No Porto há senhorios que pressionam os inquilinos, sobretudo os mais idosos, para abandonarem as suas casas, usando métodos que vão de ameaças até cortes de água; o juiz Neto de Moura anunciou ir processar os seus críticos aproveitando a isenção de taxas de justiça de que pode beneficiar; Tomás Correia pôs em acta que será o Montepio a pagar as multas que lhe foram aplicadas pelo Banco de Portugal, no valor de 1,25 milhões de euros; o Palácio Foz foi utilizado gratuitamente pela Secretaria Geral da Presidência do Conselho para uma festa de Carnaval onde colaboradores do Primeiro Ministro usaram disfarces - uma mascarou-se de Che Guevara e outro de Donald Trump; no ano passado o PIB cresceu 2,1% quando a estimativa do governo era 2,3%; em 2017 a produtividade caíu 0,2%; nos primeiros dois meses do ano foi apreendida quase tanta cocaína como no total do ano passado e Portugal está a tornar-se numa das portas de entrada da droga na Europa; os apoios dados pelo Estado aos bancos já atingem um montante de 1800 euros por cada português; a escola básica Patrício Prazeres, em Lisboa, tem 29% de alunos estrangeiros de 22 nacionalidades e há turmas onde são a maioria e os com melhores notas; um coronel que liderou os comandos na altura em que morreram dois instruendos, em 2017, é arguido por falsificação de provas relacionadas com o caso; até à data não houve ninguém a pedir apoio à linha de crédito criada pelo Governo para ajudar na limpeza de matas e o prazo termina no próximo dia 15.

 

PERGUNTAR NÃO OFENDE - Que terá acontecido na  vida do juiz Neto de Moura que o levou a fazer as considerações que fez e a tomar as decisões que tomou? Com que situações marcantes terá sido pessoalmente confrontado? Em que é que um trauma psicológico pode condicionar a decisão de um juiz?

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A PAIXÃO DAS VIAGENS - Tenho um fascínio por literatura de viagens e um dos livros que mais me marcou foi “O Grande Bazar Ferroviário”, de Paul Theroux, originalmente editado em 1975 e que, por cá, foi editado em 2008. A Quetzal, que já havia feito a primeira edição portuguesa, lançou agora uma nova colecção “Terra Incógnita” e escolheu reeditar a obra de Theroux. O formato é próximo do livro de bolso, bom para levar em viagem. O bom livro de viagens não é um roteiro turístico, esse é o princípio inspirador do escritor. Num segundo prefácio a esta sua obra,  publicado nesta edição, Theroux conta como o livro nasceu e demarca-se de uma escrita sobre férias e confortos, preferindo contar verdadeiras viagens e relatando o passar do tempo, incluindo os atrasos e os transtornos. O Grande Bazar Ferroviário, é o relato emocionante que Paul Theroux faz da sua viagem de comboio entre a Europa e a Ásia: “O livro de viagens em que estava vagamente a pensar tinha algo a ver com comboios, mas não fazia ideia de para onde queria ir - a minha ideia era simplesmente uma longa viagem solitária”. Partiu de Londres a 19 de setembro de 1973 e lá regressou quatro meses depois, tendo viajado no Expresso do Oriente, ido até Teerão, depois Deli, Kuala Lumpur ou o Transiberiano. Uma aventura que Theroux partilha, descrevendo lugares, culturas e as pessoas que conheceu ao longo dos milhares de quilómetros que percorreu. Como diz Francisco José Viegas na introdução a esta nova edição, “num mundo assim, como ele está, os livros de Theroux continuam a expor o mistério prodigioso de conhecer os outros”.

 

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O OLHAR DE LUÍSA - Uma das pessoas que melhor tem fotografado os protagonistas das noites lisboetas, nas mais diversas áreas, ao longo das últimas décadas, é Luísa Ferreira. O seu trabalho no entanto vai muito para além disto - como se viu recentemente na Galeria Monumental com a exposição “Branco” ou, noutro género, em “Há Quanto Tempo Trabalha Aqui?”, sobre lojas históricas de Lisboa. Mas voltando às pessoas e às noites, Luísa Ferreira tem sido sempre uma persistente observadora de quem foi passando em casas como o Frágil e o Lux, com o acesso que Manuel Reis lhe proporcionou e que ela soube sempre respeitar e enquadrar - são imagens que retratam o espírito do tempo e as mudanças que o mesmo tempo provoca. Desta vez  Luísa Ferreira veio mostrar como olha para quem habita os palcos e, para assinalar o aniversário do Teatro do Bairro (Rua Luz Soriano 63), montou uma mostra de imagens que fez ao longo dos anos e que animaram a festa do referido aniversário. mas vão poder ser vistas por todos quantos a partir de dia 20 lá forem ver a nova produção da companhia, “Terror E Miséria no III Reich”, de Bertolt Brecht, que estreia no próximo dia 20 - uma escolha aliás oportuna para os tempos que correm. As imagens da Luisa Ferreira que encontrarão nas paredes do Teatro do Bairro integraram a exposição “Ouro Azul”, que Luisa Ferreira teve em 1996 na Mitra e também uma outra que mostrou no Teatro Viriato, em Viseu, em 2002 e incluem um conjunto de provas de contacto de trabalhos que fez à volta do teatro e da noite onde ele se desenha.

 

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O NOVO PIMBA- Nunca fui fã do Festival da Eurovisão e não sou dos que acham que aquilo é coisa que valha a pena. Sou mais do que acham que aquilo tudo é uma foleirice que raras vezes adiantou alguma coisa à música e deixou sons que perdurassem. Também não embandeirei em arco com a cosmética aplicada ao Festival RTP da Canção há uns anos e dedico-lhe pensamentos idênticos aos que acima escrevi sobre a Eurovisão. No caso português reconheço alguns méritos, sobretudo a Simone de Oliveira há uns anos largos e a Salvador Sobral há pouco tempo. Na generalidade, nestes certames, pratica-se má música, péssima música pop sem imaginação e cheia de pastiches. Este ano já percebi que existe alguma emoção em torno de Conan Osiris e pessoas que estimo até o acham semelhante a António Variações. Para mim este novo cançonetista é o contrário do que Variações foi: é um amalgamado de cópias provenientes de diversas origens, é uma construção plastificada, é uma demonstração de falta de talento e de originalidade construída sobre um cenário falso. Fala-se muito de fake news - Conan Osiris é fake music making fake news, uma espécie de banda sonora da mentira. E é a prova de que na vida tudo se transforma - o pimba também.  

 

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O OLHAR DE ÁFRICA - Uma das melhores exposições que podem ser vistas em Lisboa está na Galeria Underdogs (Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila). “Nha Fala” é o título da exposição que integra 19 marcantes fotografias do guineense Abdel Queta Tavares - onde a influência de nomes incontornáveis da fotografia africana como Seydou Keita ou Malick Sidibé são notórias.  “Nha Fala” significa “Minha Voz” em crioulo - e neste caso significa a forma como Abdel Queta Tavares encena o que vê, interpretando personagens e tornando o vulgar em único e indo além das influências onde se poderá ter inspirado. Os preços das obras expostas variam entre os 600 e os 5000 euros. Outras sugestões: no Pavilhão 31, localizado no parque da saúde que funciona onde era o Hospital Júlio de Matos, vive um espaço que concilia a mostra de obras de artistas consagrados, com aulas de artes plásticas aos utentes do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. “Arte de Furtar/ Furto na Arte” inclui obras de Ana Pérez Quiroga, João Louro, José Luis Neto, José Maçãs de Carvalho, Claudia Fischer, Pedro Cabral Santo e Sara e André, entre outros. Na Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4C) Pauliana Valente Pimentel mostra “A Vida É Feita de Likes”, um mero registo do seu quotidiano pessoal feito em instagram.

 

DIXIT - “Ele tinha imensas namoradas” - Fernanda Tadeu, mulher de António Costa, falando sobre ele, enquanto o marido cozinhava cataplana de peixe no programa de Cristina Ferreira.

 

BACK TO BASICS - Nunca confio numa pessoa por aquilo que ela proclama, mas sim pelos actos que pratica - Ann Radcliffe

 




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EUROPA: UM BARCO À DERIVA

por falcao, em 01.03.19

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CONFIANÇA ZERO -   As próximas eleições para o Parlamento Europeu decorrem sob o duplo signo de uma crise profunda na União Europeia - de que o Brexit e a ascensão dos populismos é apenas a ponta do iceberg e, no caso de Portugal, que este ano acolhe três eleições - as europeias, as regionais dos Açores e Madeira e as legislativas - o ciclo eleitoral decorre perante um descrédito cada vez mais acentuado no funcionamento do sistema político. As eleições para o Parlamento Europeu estão marcadas para 26 de Maio e neste momento ninguém pode garantir se o Reino Unido nessa altura ainda estará dentro da União ou se o Brexit já se terá então concretizado. Melhor dizendo - ninguém neste momento pode garantir que não haverá adiamento, que não haja segundo referendo, que a Europa não engula uma tonelada de sapos e não volte atrás em tudo o que jurou sobre o Brexit. Enfim, o panorama geral é o de que nada está certo e que mais uma vez os políticos meteram os pés pelas mãos ao induzirem os cidadãos em erro e ao não conseguirem encontrar uma solução para a situação que eles próprios fabricaram. Na realidade o perigoso poker jogado por Cameron, quando convocou o referendo sobre o Brexit, transformou-se num pesadelo que assusta o sistema financeiro, cria graves problemas às economias do Reino Unido e de uma série de países da Europa e voltou a colocar na ordem do dia a questão da Irlanda - com a hipótese, até há pouco impensável - de ressurgir nova fronteira de arame farpado entre o norte e o sul da ilha, com todo o provável retomar e agudizar de conflitos que isso trará. Mas, passando para o caso português, uma sondagem, realizada a pedido da União Europeia, conhecida esta semana, indica que apenas 17% dos portugueses confiam nos partidos, somente 37% no Parlamento e só 43% manifestam confiança no Governo. Trocado por miúdos a maioria não acredita em nada disto. É um balanço terrível do funcionamento do sistema, que cada vez se parece mais com um barco desgovernado que partiu amarras e saíu desarvorado sem destino.

 

SEMANADA - Segundo a Provedoria da Justiça os portugueses estão a esperar dez meses para ter a reforma atribuída quando a lei prevê resposta em 90 dias e o número de queixas por atrasos na atribuição de pensões triplicou em 2018; no ano passado os portugueses gastaram 2.431,8 milhões de euros em apostas desportivas e jogos de fortuna e azar online; os preços da banda larga móvel caíram em 2018, mas em Portugal estes custos ainda são mais caros do que a média da União Europeia; 47% dos portugueses não foram ao dentista em 2017; entre 2001 e 2017 o número de pescadores diminuíu 56%; em 2018 foram apreendidos 1938 telemóveis nas cadeias e segundo o sindicato dos guardas prisionais o número não reflete a dimensão real do problema, que é muito maior;  em Portugal cerca de 915 mil mulheres trabalham ao sábado, mais de 538 mil trabalham ao domingo, 382 mil trabalham por turnos e 162 mil à noite, o que lhes dificulta a conciliação do trabalho com a família; o juiz Neto de Moura, conhecido por evitar condenar a violência doméstica, resolveu eliminar as medidas coercivas aplicadas a um homem que rebentou o tímpano da mulher ao soco; mais de 219 mil pessoas receberam o Rendimento Social de Inserção em janeiro, o valor mais elevado dos últimos três meses; o actual Governo efectuou mais cativações financeiras em três anos que o anterior executivo em quatro; esta semana encerrou a Tema, a maior loja de revistas e jornais estrangeiros de Lisboa, localizada nos Restauradores, devido à perda de clientes portugueses que praticamente desapareceram da zona, substituídos por turistas.

 

PENSAMENTOS OCIOSOS- Enquanto a Amazon procura afinar um sistema de entrega por drones, alguns reclusos portugueses já conseguiram introduzir telemóveis e drogas nas prisões precisamente com recurso a drones: Portugal sempre precursor na adopção de novas tecnologias...

 

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UMA EDIÇÃO FRACA - Já se sabe que a revista “Monocle” é uma grande utilizadora criativa do conceito de conteúdos patrocinados, frequentemente dissimulados de forma editorial elegante e sedutora. O grafismo da revista continua contemporâneo apesar de não ter tido muitas evoluções desde que foi lançada em 2007. Em contrapartida o espaço ocupado por conteúdos patrocinados tem vindo sempre a aumentar, por vezes demais, até se chegar a esta edição sobre França que é insultuosamente dedicada a propagandear aquele país quase sem deixar escapatória aos leitores para outros assuntos. Tyler Brulé, um misto de canadiano com nórdico, é um admirador confesso de Macron, deposita nele as esperanças da Europa e fez aliás questão de afirmar que a sua revista vai deixar de ser impressa no Reino Unido por causa do Brexit. Mudou a sede das suas operações para a Suíça e passa a imprimir na Alemanha - desta edição em diante. Talvez por ser excessivamente dedicada a um país que passou o século XX, nos seus grandes conflitos, a claudicar e render-se,  esta edição da “Monocle” é fraca e muito pouco interessante. Não há muitas coisas que me agradem em França, a pose arrogante e o discurso pretensioso de muitos franceses faz-me espécie e provoca-me uma rejeição natural - Macron não é excepção. Uma nota de humor, mas que reflecte algum desleixo editorial, surge numa página dedicada a citar Mário Centeno a propósito do Brexit, com a particularidade de a sua fotografia estar trocada. Ainda pensei que fosse fruto de alguma cativação que lhe tivesse alterado as feições, mas é mesmo erro.

 

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AS VISTAS DO PAÍS - Nos últimos anos têm surgido um pouco por todo o país galerias e centros, muitas vezes ligadas de alguma forma a autarquias, onde com poucos recursos se vai fazendo um trabalho importante de divulgação da obra de artistas contemporâneos portugueses fora do circuito das grandes cidades, dos museus de maior dimensão e das mais activas galerias comerciais. Por exemplo o Centro de Artes de Águeda apresenta trabalhos de Pedro Calapez sob a designação comum “Terra” (na imagem uma das obras) que ali estarão expostos até 17 de Março. “O desenho é uma das formas mais antigas e perfeitas de interpretação e criação do mundo” - este é o mote para o conjunto de exposições designadas por “O Desenho como Pensamento” onde a presente mostra de Pedro Calapez está integrada. Até há poucos dias, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães, em Guimarães, esteve patente uma mostra de trabalhos de desenho de Rui Chafes, muitos deles inéditos. E em Famalicão, na Ala da Frente, uma galeria municipal, está uma exposição de 29 desenhos a carvão sobre papel de Alexandre Conefrey, sob o título “Anima Mea”, que ali ficará até 18 de Maio. Bem recentemente esta galeria acolheu trabalhos de nomes como José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Alberto Carneiro, Rui Chafes ou Jorge Molder.

 

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SEMPRE O PIANO - Tenho uma atracção especial pelo som do piano e pela sua utilização no jazz. Esta semana descobri o novo disco do quarteto do pianista alemão Florian Weber, “Lucent Waters”, e fiquei fascinado desde as primeiras notas. Ao longo dos oito temas os músicos criam uma tensão permanente, sempre com o piano em local central a articular o diálogo com os outros instrumentos, criando uma relação próxima com todos, mas destacando de forma especial o trabalho elegante do trompetista Ralph Alessi, sobretudo num belo solo em “Buttelfly Effect”. Destaque também para a discreta baixista Linda May Han Oh em “Honestlee” e para o subtil baterista Nasheet Waits em “Time Horizon”. Finalmente “Fragile Cocoon” é um bom exemplo do entendimento entre todos os músicos deste quarteto. Duas influências marcantes de Weber são Paul Bley e Lee Konitz, detectáveis em vários pontos deste registo. CD ECM, disponível no Spotify.

 

O SABOR DE DOIS MUNDOS - Na avenida Conde Valbom há um restaurante que junta dois mundos: a gastronomia da Índia e a de Marrocos. Quando abriu, há uns anos, o Restaurante Marrakesh dedicava-se só à cozinha de inspiração árabe e era rigoroso: não disponibilizava bebidas alcoólicas aos seus clientes. Entretanto já há uma escolha limitada de vinho, o que sempre ajuda a acompanhar tagines e couscous que continuam cheios de sabor e de aromas. Quando os clientes se sentam à mesa surgem dois menus - o árabe e o indiano. Ambos têm múltiplas escolhas com os pratos mais tradicionais de cada origem. Há um enorme cuidado na confecção. Depois de ter aprovado tagines e couscous em visitas anteriores, esta semana deliciei-me com um prawn karahi, camarão picante num molho intenso, que antecedeu - numa refeição partilhada - um chicken tika, que chegou fumegante e cheio de bons aromas. O arroz basmati foi o acompanhamento escolhido e a refeição terminou com um gelado de gengibre, artesanal, e que tinha mesmo gengibre. Serviço atencioso, paladares intensos, preço honestíssimo para a qualidade. Restaurante Marrakesh, Avenida Conde de Valbom 53, junto à Avenida Miguel Bombarda.

 

DIXIT - “O primeiro-ministro e o ministro das Finanças ora fazem de polícia bom, ora de polícia mau” - Assunção Cristas sobre a estratégia negocial do Governo com os sindicatos

 

BACK TO BASICS - “Gosto de jornais, mas alguns têm um grande problema - não são bem escritos; a sobrevivência dos jornais diários em papel depende muito da forma como as pessoas escrevem” - Karl Lagerfeld.

 

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