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O PODER DA MINORIA - A coisa mais engraçada que saíu das eleições europeias do passado fim de semana foi a reviravolta da arrumação partidária, com o Bloco a subir, o PCP a descer, o CDS a esvair-se e o PAN a crescer. O cenário é de tal monta que António Costa iniciou os trabalhos de produção do novo reality show que vai dominar a política portuguesa até Outubro. Chama-se “Quem Quer Casar Com o Primeiro” e tem um concurso complementar intitulado “A Roda da Geringonça”. Os canais disputam os formatos e multiplicam-se os interessados.  No Domingo surgiu mais um candidato surpresa ao casamento do reality show - o PAN, que entrou na lista dos candidatos a charneira do regime - e que já está a ocupar o espaço mais esverdeado aproveitando o facto de o partido melancia estar cada vez mais vermelho por dentro e menos verde por fora. Piadas à parte a realidade é dura: os directórios partidários choram sobre a abstenção mas a última coisa que querem é mudar a lei eleitoral, adequando-a a novos tempos - nomeadamente estudando alternativas ao método de Hondt que protege os partidos instalados e dificulta a entrada de novas organizações no círculo do poder. Feitas as contas e tendo em consideração que a abstenção ficou pouco abaixo dos 70% a verdade nua e crua é esta: se tomarmos como base o total dos recenseados o PS obteve 10,47% dos votos dos eleitores, o PSD ficou nos 6,88, o Bloco vive com 3,08%, a CDU está reduzida a 2,16%, o CDS a 1,94%. Na verdade menos de 25% dos eleitores optou por um qualquer dos partidos que se apresentaram. 45 anos depois de 1974 o regime considera-se legitimado com a participação de apenas um quarto dos cidadãos. A coisa está reduzida aos diretórios partidários e seus adeptos mais próximos. O regime não consegue chamar as pessoas a participar nas decisões do país, governado por uma ruidosa minoria que só olha para si própria. Este é o triste resultado dos políticos que temos e das campanhas eleitorais como  aquela a que acabámos de assistir.

 

SEMANADA - O PCP desceu em todas as eleições realizadas desde a formalização da geringonça e nestas europeias perdeu em Setúbal e Beja para o PS; os 11 partidos mais pequenos recolheram apenas 10% dos votos; Barrancos, localidade conhecida pelas suas touradas com touros de morte, foi o único concelho onde o PAN não obteve um único voto; segundo um estudo da Marktest os eleitores da freguesia de Fundada (concelho de Vila de Rei) foram os mais participativos, pois 65.38% dos 520 inscritos foram votar; segundo o mesmo estudo os residentes em Morgade (concelho de Montalegre) foram os mais abstencionistas, pois apenas 4 dos 323 eleitores aí inscritos votaram; as cativações aumentaram nos três primeiros meses deste ano cerca de 10 milhões de euros face ao mesmo trimestre de 2018; em 2018 cerca de 28% dos partos foram feitos por cesariana, um novo aumento em relação ao ano anterior; o número de crianças vítimas de abusos sexuais continua a aumentar e há uma média de 22 novos casos reportados por mês; segundo a Entidade Reguladora da Saúde ao longo de quatro anos o hospital de Vila Franca de Xira teve doentes  internados em refeitórios, havendo também casos de doentes internados em casas de banho; entre 2013 e 2017 fecharam quase metade das lojas históricas de Lisboa; Joe Berardo manifestou intenção de processar os deputados que o interrogaram na Comissão Parlamentar de Inquérito.

 

ARCO DA VELHA - Os vinte habitantes de Marinha de Vale do Carvalho, uma aldeia na Sertã, continuam sem internet e sem telefone fixo desde os incêndios de Outubro de 2017, há 20 meses portanto.

 

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PORTUGAL NA MONOCLE - A Monocle publica duas vezes por ano edições especiais. “The Forecast” no final de cada ano e que explora tendências futuras; e “The Escapist”, no início de cada verão, para abordar viagens, sítios ou, como na mais recente edição vem bem em destaque: “The Travel Top 50” e Portugal aparece referido sete vezes: a linha aérea com a tripulação mais bonita é a TAP; o aeroporto hub de voos intercontinentais com a melhor localização é Lisboa; os melhores consumíveis de hotel são os da Claus, do Porto; um refúgio de excepção é São Lourenço do Barrocal; os melhores quartos de hotel são os do Belmond Reid’s Palace no Funchal; o destino ideal para um fim de semana é a Madeira; e o melhor buffet de hotel é o do Ritz Four Seasons de Lisboa. O portfolio de moda desta edição foi fotografado na Madeira num especial de 14 páginas, a área comercial do aeroporto de Lisboa vem em destaque com a loja O Mundo Fantástico das Conservas Portuguesas e a do Porto com os Sabonetes Confiança, a música dos Deolinda, os Galos de Barcelos e os vinhos do Esporão. Os dois outros destaques portugueses vão para as toalhas de praia Abyss & Habidecor de Viseu, para o Hotel Memmo Baleeira em Sagres (e para a Feijoada de chocos do Restaurante carlos na mesma localidade). Mas o prato forte da edição é uma entrevista ao presidente da Câmara de Florença onde Dario Nardella recorda como proibiu a abertura de cadeias de fast food, cafés de internet e lojas de telemóveis no centro histórico da cidade, como está a tomar medidas para controlar empresas como a Airbnb, para fomentar turismo que traga valor á cidade e aos seus negócios e como todas as receitas das taxas de turismo e pernoita são aplicadas em actividades culturais, manutenção dos parques e zonas verdes e nos transportes públicos.

 

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TERRITÓRIOS URBANOS - O título da exposição de fotografia do argentino Alberto Picco na Galeria Diferença é “Arquivo Território (Paisagem)”. O autor vive há muitos naos em Portugal, integrou a área de fotografia de O Independente  e as 14 imagens que apresenta, feitas em filme preto e branco no início deste século, mostram simultaneamente uma visão que conjuga o efeito do passar do tempo nas nossas memórias e na forma como percepcionamos a paisagem urbana, em pormenores dos territórios da cidade que por vezes parecem banais mas que ganham significado especial quando são vistos fora do tempo, ganhando uma dimensão de imaginário fora da estrita realidade fotográfica. Ainda na Diferença e até finais de Junho está também a colectiva “de passagem”, com fotografias de André Gomes (realizadas com smartphone), José Francisco Azevedo, André Carapinha e Monteiro Gil (Rua São Felipe Neri 42, segunda a sábado das 13 às 19). Outro destaque vai para a exposição patente na Underdogs,  “Faces of Society” dos iranianos Icy e Sot, que actualmente vivem e trabalham em Nova Iorque e que têm realizado trabalhos nas ruas de diversas cidades em todo o mundo (terça a sábado, até meados de Junho, Rua Fernando Palha, Armazém 56, em Marvila). Recordo ainda que no Torreão Nascente da Cordoaria está “ponto De Fuga” , com obras da Colecção António Cachola, e no Museu de Lisboa (Palácio Pimenta, Campo Grande) está “Ni Le Soleil Ni La Mort” de João Louro. Finalmente, no Museu do Fado, abriu uma exposição que traça a história da guitarra portuguesa ao longo de dois séculos e mostra cerca de meia centena desses instrumentos musicais.

 

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MORRISSEY SONGBOOK -  As mais recentes posições de Morrissey a favor do Brexit levaram grande parte da imprensa inglesa a encarar o seu novo álbum mais do ponto de vista político do que musical. Trata-se de uma escolha de 12 temas de autores norte-americanos dos anos 70 e 80, muitos deles conotados com canções de protesto, o que não deixa de ser curioso tendo em conta o posicionamento mais recente do fundador dos Smiths. E, no entanto, o disco é musicalmente revigorante, com versões surpreendentes de alguns temas. O produtor foi Joe Chiccarelli e permito-me destacar o tratamento que deu a “Don´t Interrupt The Sorrow”, um original de Joni Mitchell, aos arranjos de “Only a Pawn In Their Game” de Bob Dylan, a “Suffer The Little Children” de Buffy Sainte Marie (que ganha uma outra intensidade), a “Days Of Decision” de Phil Ochs e sobretudo a “It’s Over”, de Roy Orbinson. Outros autores representados nesta versão do American Songbook de Morrissey são Melanie, Carly Simon, Jobriath (um expoente do glam rock dos anos 80), Tim Hardin, Gary Puckett, Laura Nyro (bela versão de “Wedding Bell Blues” ou Dionne Warwick. Uma coisa é certa: a escolha das canções é curiosíssima, os arranjos são surpreendentes e a interpretação supera os originais frequentemente mostrando que Morrissey, o cantor, está num bom momento.“California Son”, de Morrissey, está disponível no  Spotify.

 

O ALVARINHO - Com o aumento das temperaturas chega a altura de experimentar os vinhos verdes da mais recente vindima. O vinho Alvarinho da colheita de 2018 que João Portugal Ramos agora colocou no mercado merece ser provado com atenção. Feito a partir de uvas da região de Monção e Melgaço, com as vinhas localizadas num vale, este Alvarinho é um bom exemplo da conciliação da tradição da região do Minho com técnicas de vinificação contemporâneas. O resultado é um vinho de cor citrina, aroma intenso, elegante, floral e frutado ideal para acompanhar um aperitivo num fim de tarde estival. Fica muito bem com pratos de marisco e de peixe e com sushi ou ceviche. Para além deste  100% Alvarinho João Portugal Ramos lançou também um outro verde, com 85% da casta Loureiro e 15% Alvarinho, mais simples e leve, e que funciona particularmente bem com saladas ou o incontornável aperitivo.

 

DIXIT -  “Estamos preparados para assumir mais responsabilidades” - Inês Sousa, do PAN

 

BACK TO BASICS - “Ignorância e confiança é tudo o que é necessário para se obter sucesso” - Mark Twain





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publicado às 12:30

COMO VOTAR, NO DOMINGO?

por falcao, em 24.05.19

 

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UM VOTO NULO - Esta semana vi um tempo de antena do PS em que um actor deambula num monólogo mal escrito, que no final é comentado numa simulação de mesa redonda protagonizada pelo candidato Pedro Marques. Trata-se de um exemplo de manipulação completa a meio de uma campanha eleitoral e nada do tempo de antena tem a menor relação com o sentido das eleições deste fim de semana e muito pouco cola com a realidade objectiva e a história recente. É uma espécie de fake news, publicidade enganosa por junto. Estamos num paradoxo: Domingo há eleições mas na campanha eleitoral não se debateu o que está a votos: o Parlamento Europeu e o seu papel na União Europeia. Apresentadas pelo Governo e pela oposição como um referendo ao exercício do poder por António Costa, estas eleições são, no fundo, um retrato da disfunção da própria UE. Recordo aqui o que António Barreto acertadamente disse sobre este assunto: “Alguém sensato acredita que um Parlamento com 750 deputados, vindos de 28 países e falando 24 línguas oficiais seja capaz de defender os direitos dos cidadãos?”. Na realidade esta é a questão que não foi discutida e que toda a gente quer evitar. Olho para o que se passou na campanha eleitoral e fico enjoado com o fraseado dos cinco maiores partidos e nos novos partidos não me revejo - até porque eles próprios posicionaram-se submissos face ao sistema vigente do exercício de poder na União Europeia. O voto útil é uma coisa que cada vez me agrada menos - é um ritual de conformismo, é aceitar que não se pode fazer nada. A abstenção, já se sabe, deve atingir níveis históricos e não tenciono alimentá-la. Mas tenciono votar nulo, com um risco a toda a largura do boletim do voto, uma expressão do meu desagrado. Este é, nesta altura, o único voto que para mim faz sentido - e tenho pena que os votos brancos e nulos sejam contabilizados em conjunto, e não separados,  na nossa caduca lei eleitoral, ela própria incentivadora desta redoma de imobilidade do sistema.

 

SEMANADA - O Ministério da Educação revelou que desde o início do ano lectivo já recebeu 600 reclamações contra refeições servidas em refeitórios escolares concessionados; as doenças sexualmente transmitidas estão a aumentar e os casos de gonorreia subiram 48% no ano passado; uma advogada candidata a juíza foi acusada por tráfico de droga, apanhada em flagrante à entrada de um estabelecimento prisional; em 23% dos concelhos portugueses há mais reformados que trabalhadores; mais de 40% das famílias têm um rendimento anual inferior a dez mil euros; a OCDE reviu em baixa a estimativa para o PIB para 1,8% (abaixo dos 2,1% que antecipava)  e agravou a previsão do défice para 0,5% (contra 0,2% previstos em novembro); nos primeiros três meses do ano os cinco principais bancos do sistema tiveram em conjunto um lucro de 373 milhões de euros, o equivalente a 4,1 milhões de euros por dia; o Novo Banco registou prejuízos de 93 milhões de euros, o único dos cinco com contas no vermelho; os bancos concederam, em março, 617 milhões de euros aos consumidores só para o crédito ao consumo, dos quais 238 milhões foram destinados ao crédito automóvel; em 2018 o regulador da saúde aplicou 487 multas, o dobro das aplicadas em 2017;as telecomunicações ocupam o primeiro lugar há mais de 12 anos no ranking das reclamações que chegam à DECO; num relatório sobre um descarrilamento a Infraestruturas de Portugal afirmou não ter meios para fazer melhor manutenção das linhas ferroviárias.  

 

MILAGRES DO REGIME - Hortense Martins, líder do PS no distrito de Castelo Branco e mulher do atual presidente da Câmara local, conseguiu em 2010 um subsídio de 171 mil euros para a construção de um projecto familiar turístico que já estava em funcionamento há 24 meses e em 2013 obteve mais 105 mil euros para uma unidade de turismo em espaço rural que também já estava a funcionar à data da aprovação da respetiva candidatura.

 

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LEITURAS JUVENIS - Já vai no número cinco a “Electra”, criada pela Fundação EDP  como uma “revista de pensamento, arte, literatura, ciência e crítica cultural” - um caso único no actual panorama editorial português, dirigida por José Manuel dos Santos. Um dos pontos altos desta edição é um ensaio sobre Marcel Proust onde Michel Erman fala da relação de Proust com o dinheiro e do que ele representou na sua obra e na sua vida. “Da herança que recebeu dos pais ao uso que fez dela para afirmação literária, da comédia mundana a meio facilitador de relações amorosas e sexuais, o dinheiro foi para Proust um instrumento de compreensão do mundo e do lugar de cada um, nele”. Mas o prato forte desta edição é o especial “Jovens Para Sempre”, dedicado aos ideais da juventude, apresentados “como um dos motores da história social, cultural e política” recente. Cuidadosamente paginado e ilustrado, este especial destaca, num texto de António Guerreiro, que “a juventude como categoria sociológica é uma invenção do século XX”. Num outro texto o crítico de música, escritor e cineasta inglês Jon Savage, autor de “Teenage: The Creation Of Youth Culture”, escreve sobre “A Era da Adolescência” e sublinha: “os filhos do pós-guerra geralmente pensam que inventaram tudo, mas todos os elementos do que hoje consideramos ser uma cultura da juventude já existiam na cultura swing” dos anos 30. Mais dois textos a merecer especial atenção nesta edição da “Electra” - “Esplendor na Relva”, de Daniel Jones, que partindo de exemplos cinematográficos reflecte sobre a sua experiência de lidar com jovens em idade escolar, e “Pasolini e a possibilidade de exceder o poder”, onde Vinicius Nicastro Honesko analisa a relação entre Pasolini e os jovens estudantes das revoltas de 1968, apontando para a diferença entre o intelectual clássico e os estudantes que então marcaram essa época.

 

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IMAGENS DA NATUREZA NUMA GALERIA - Passada a euforia do ARCO e de todas as manifestações paralelas, regressemos ao que de bom existe nas galerias lisboetas. Há uma exposição, inaugurada há duas semanas, que merece toda a atenção: “Cascata”, que assinala a estreia de Paulo Brighenti na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 R/C Esq) e que ali pode ser visitada até 27 de Julho. Esta “Cascata” representa uma evolução em relação às exposições anteriores de Brighenti, um artista que está representado em algumas importantes colecções privadas e institucionais. Mais uma vez Brighenti ultrapassa o universo mais habitual da pintura e do desenho, mas sem o abandonar, e mostra algum do seu trabalho em escultura, desde delicadas peças até outras de maiores dimensões, todas com alguma relação com a natureza e com a presença humana - como aliás as pinturas que também integram esta exposição, em suportes que vão do papel ao linho. No texto de apresentação da exposição Miguel Mesquita sublinha: “Partindo desta analogia da transformação de plano para volume, podendo considerar-se de superfície para objecto, Paulo Brighenti tem recentemente desenvolvido, de forma discreta mas intensa, um campo de experimentação sobre a relação entre pintura e escultura.”

 

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A CANTORA DE JAZZ - Nalguns momentos a música de Norah Jones esteve associada a pano de fundo sonoro para jantares românticos e, em determinado ponto da carreira, a sua originalidade como intérprete de jazz esbateu-se. É no entanto injusto considerá-la apenas como uma voz delico-doce e este seu novo disco vem mostrar um outro lado, de estilos diversificados. Na realidade não se trata de um álbum de originais mas de uma colectânea de singles que Norah Jones lançou ao longo dos últimos dois anos, canções gravadas com a colaboração de nomes como Jeff Tweedy dos Wilco, Thomas Bartlett (que colabora regularmente com St. Vincent) ou Billie Joe Armstrong, dos Green Day. O leque é portanto diversificado e longe de fórmulas tradicionais, ao mesmo tempo que, por exemplo em “It Was You”,  retoma a vocalização intimista que a caracteriza, e onde voz, teclado, metais e secção rítmica criam um ambiente musical especial. Os melhores momentos são quando ela sai da rima, por exemplo ao ser arrastada por Billie Joe Armstrong para a country em “A Song With No Name”, na faixa final, “Just a Little Bit”, onde se solta do seu estilo mais conhecido e sobretudo na canção que dá título a esta colectânea, “Begin Again”, forte e afirmativa, com um arranjo musical inesperado que combina violinos, piano e guitarra eléctrica. CD Blue Note já disponível em Portugal e no Spotify.

 

OS CARACÓIS DO POMAR - Apesar de a primavera estar hesitante a época dos caracóis já começou. Um dos locais incontornáveis para os apreciadores do petisco é o Pomar de Alvalade, na Rua Marquesa de Alorna 21. Criado pelo pai de Paulo Bento, o local está recheado de referências ao futebol. A lista inclui uma série de pratos tradicionais, das pataniscas aos secretos, mas o que atrai muita gente a este local ao fim da tarde é a petisquice dos caracóis. Têm fama (e na minha opinião) proveito de serem dos melhores de Lisboa - um tempero certo. A imperial é bem tirada e surge rapidamente na mesa quando o copo anterior se esvazia. Para rematar há quem peça um prego ou uma bifana no pão - eu acho que esta última é a opção mais acertada. Serviço simpático, casa sempre cheia, o Pomar de Alvalade é um daqueles pequenos restaurantes populares de bairro em que o conceito principal é a qualidade.

 

DIXIT - “A União Europeia é um daqueles temas em que mais vale não tocar muito” - Luciano Amaral, a propósito das eleições para o Parlamento Europeu.

 

BACK TO BASICS - “A política é um conjunto de interesses mascarados como defesa de princípios” - Ambrose Bierce

 





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HÁ PATRIMÒNIO PARA ALÉM DA PEDRA E DO PAPEL - Nos dias que correm parte importante, mas menosprezada,  da preservação do património passa pela preservação das imagens e dos conteúdos audiovisuais. Ter a memória das imagens é tão importante como ter a memória do pensamento. Património não é só pedra e papel, ao contrário do que pensam ainda hoje muita gente. Um país sem produção audiovisual relevante não existe em termos internacionais; um país que não preserva os seus arquivos de imagens está a desprezar o conhecimento de gerações futuras. Vem isto a propósito de notícias recentes sobre as dificuldades que atravessa a Cinemateca Nacional e o seu Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM), criado há mais de  20 anos e que é uma organização exemplar e de referência a nível internacional. Cinemateca e o ANIM têm feito um trabalho contínuo de salvaguarda do património de filmes portugueses dos mais diversos géneros e formatos, restaurando-os, digitalizando-os, preservando originais e disponibilizando para consulta os seus arquivos, programando e exibindo-os ao público na sala da Cinemateca, na Rua Barata Salgueiro. A Cinemateca é apenas mais um dos casos dos efeitos da austeridade cativante de Centeno e da incapacidade de sucessivos governos em conseguirem criar na área da Cultura modelos de funcionamento que garantam maior autonomia financeira e uma gestão mais de acordo com as exigências específicas de cada instituição. Fiquei a saber pelo Expresso da semana passada que o Ministério da Cultura entende que em ano de eleições não é altura de mudanças - porque o Ministério das Finanças não quer ouvir falar do assunto. Ligado a tudo isto está a falta de adequação e actualização da Lei do Mecenato que continua pouco competitiva quando comparada com outros países - e mais uma vez o assunto esbarra no Ministério das Finanças. Eu por mim acho que ano de eleições é o ideal para discutir estas questões. Mas já se sabe que elas não dão votos, que é a única coisa que interessa a este sistema cada vez mais distante dos problemas reais  do país e da sua resolução.

 

SEMANADA - Portugal está entre os países que mais devem a fornecedores e o Ministério da Saúde é o que apresenta mais dívidas; há 50 mil pedidos de pensões pendentes e o prazo médio de resposta ultrapassa muitas vezes os seis meses; segundo o Instituto Nacional de Estatística em 2018 a carga fiscal aumentou 6,5% em termos nominais e representou 35,4% do PIB, o valor mais alto desde 1995; no ano passado 3758 cidadãos estrangeiros foram impedidos de entrar em portugal pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e 76% eram oriundas do Brasil; o número de nepaleses em Portugal triplicou em quatro anos e já ultrapassa os 11 mil;  jovens portugueses são dos que mais tarde saem da casa dos pais, quase aos 29 anos, acima da média da União Europeia; as famílias monoparentais cresceram 12% em cinco anos; o acesso a cirurgias no Serviço Nacional de Saúde piorou em 80% dos hospitais e os prazos máximos definidos por lei continuam a não ser cumpridos; um quinto dos doentes com cancro com indicação para cirurgia ultrapassaram os tempos de espera previstos; os atrasos e dificuldades na emissão do Cartão de Cidadão provocaram um aumento de 133% de reclamações de utentes no Portal da Queixa; segundo a Marktest Cristiano Ronaldo é a figura pública mais conhecida dos portugueses e Ricardo Araújo Pereira é quem gera mais empatia.

 

SINAIS DOS TEMPOS - Espanha, Marrocos e França são os três maiores fornecedores de sardinha ao mercado nacional e  o número actual de pescadores em Portugal é menos de metade do que existia em 2001.  

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JEO, A HISTÓRIA DE UMA GALERIA - No início deste século, em 2002, abriu, no Chiado, a Galeria João Esteves de Oliveira - Trabalhos em Papel. O seu promotor era um quadro do sector financeiro que mudou de vida, passando da banca para galerista, ele que já era coleccionador. Agora decidiu pôr um ponto final na sua galeria e ali abriu esta semana a derradeira exposição, “Not For Sale”, que é a mostra de uma pequena parte da sua colecção privada. A exposição decorre em todo o espaço da Galeria, na Rua Ivens 38, até ao dia 25 de Maio. Em simultâneo foi editado o catálogo “Moderno e Contemporâneo: A Colecção de João Esteves de Oliveira”, que reúne ao longo de cerca de 400 páginas reproduções das obras, enquadradas nas áreas Moderna e Contemporânea por textos de João Pinharanda. Numa nota introdutória o galerista conta como começou a coleccionar obras de arte aos 25 anos e como desenvolveu a sua paixão com um critério maioritariamente português e sobretudo com trabalhos em papel. Ao longo das quase duas décadas de actividade a Galeria João Esteves de Oliveira ganhou um lugar único, enaltecendo o desenho e as obras de artistas e arquitectos que ali expuseram obras inéditas e estudos de projectos. Numa separata do catálogo, que inclui também textos de vários artistas, Alexandre Pomar escreve que João Esteves de Oliveira era “o comissário seguro das suas exposições, feitas de visitas aos ateliers, relações pessoais, desafios, cumplicidades.” E, mais à frente, recorda como o galerista “assegurava critério e, para os frequentadores da Rua Ivens, garantia qualidade, valor, segurança”.

 

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ARTES DE MAIO - A ARCO Lisboa domina inevitavelmente o panorama das artes plásticas esta semana. Está na Cordoaria até Domingo e ali se pode ver a actividade de artistas portugueses e estrangeiros, muitos dos portugueses com obras inéditas e até mostrando novas direções no seu trabalho. Ao todo são 71 galerias, 50 das quais portuguesas, as restantes de mais 16 países. Destaque para a aposta na presença de galerias africanas, ao todo seis, de Angola, Moçambique, África do Sul e Uganda - e vale a pena ver os trabalhos inéditos de Ângela Ferreira na Arte de Gema, de Maputo ou, também ali, os desenhos de Rodrigo Mabunda. A Fundação EDP continua a ser o mecenas principal desta edição lisboeta da ARCO e, como já aconteceu no ano passado, o MAAT fez coincidir a inauguração de um novo ciclo de exposições com a abertura da feira. As novas exposições apresentam os trabalhos dos finalistas do Prémio Novos Artistas Fundação EDP,  o envolvente trabalho de Pedro Tudela na sala das Caldeiras combinando escultura com um meticuloso trabalho de sonorização, um incontornável conjunto de obras - quase se poderia dizer de intervenção - de Carla Filipe intitulado “Amanhã Não Há Arte” (na imagem) e, finalmente, “Servitudes Circuits”, a instalação de Jesper Just na Galeria Oval do MAAT e que é até à data a mais conseguida intervenção realizada naquele espaço. Ainda em relação à mostra de Carla Filipe vale a pena reter o jornal ali distribuído onde se apresentam uma série de informações sobre as condições em que os artistas visuais desenvolvem a sua prática. Como já aconteceu no ano passado, no Museu da Carris (na Rua 1º Maio em Alcântara) decorre a Just LX, que agrupa uma meia centena de galerias (predominantemente portuguesas mas com uma dezena e meia de vários países) e que se apresenta como uma alternativa aos critérios de seleção da ARCO.

 

The Garden of Earthly Delights - Cover - High-res

BOSCH JAZZ - André Carvalho é um músico de jazz português, contrabaixista e compositor, que desde 2014 trabalha em Nova Iorque. Para o seu terceiro álbum inspirou-se no pintor holandês Hieronymus Bosch e compôs “The Garden of Earthly  Delights” que esta semana foi distribuído em Portugal. Ao lado de André Carvalho tocam neste disco, gravado em Abril de 2018 em Nova Iorque, os saxofonistas Jeremy Powell e Eitan Gofman, o trompetista Oskar Stenmark, o guitarrista André Matos e o baterista Ruben Recabarren. Nos dois discos anteriores como líder de uma formação André Carvalho combinava o jazz contemporâneo com referências da música portuguesa. Neste novo trabalho Carvalho criou uma suite em vários andamentos, pensada em torno do tríptico de Bosch. Há ao longo do disco, com um constante pano de fundo no jazz contemporâneo, um alternar entre música improvisada e música composta e cada uma das faixas consegue viver por si, mantendo uma coerência no conjunto da obra. O disco inclui onze temas e André Carvalho destaca “The Forlorn Mill”, já perto do fim do álbum, como uma das suas composições preferidas, inspirada “num dos momentos mais alucinantes do painel que representa o Inferno de Hieronymus Bosch, momento em que todas as almas pecadoras parecem dirigir-se para um moinho. Julgo que toda esta intensidade transparece neste movimento da Suite, visto que há fortes influências rock, de música contemporânea e improvisada, que lhe dão esse carácter cru e áspero”. Disponível em CD editado pela Outside In Music, à venda na FNAC e disponível no Spotify.

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UM QUEIJO EXCEPCIONAL - Eu gostos de queijos a sério. Dos que se cortam à faca em vez de se comerem (quase) à colher. Gosto deles curados, temperados. Que exalam odor e deixam nas mãos, ao cortar, um rasto da sua gordura natural. Por estes dias tive ocasião de me deliciar com um queijo destes, quase uma raridade nos tempos que correm, dominados pela pasta mole. Um queijo sério, um queijo de ovelha curado, velho, feito como deve ser - apenas com leite cru de ovelha, sal e flor de cardo. É um queijo com uma cura mínima de 120 dias e esta raridade, com a crosta temperada com azeite virgem e colorau, é produzida em Mangualde pela Queijaria Vale da Estrela. Esta queijaria, que só usa leite de ovelha proveniente dos rebanhos que pastam na Serra da Estrela, baseia-se nas técnicas antigas e na vontade de fazer um trabalho conjunto com os pastores que asseguram a mais importante matéria prima - o leite cru das ovelhas. Talvez por se basear no saber tradicional e no respeito pela qualidade do que é utilizado, os produtos do Vale da Estrela são diferentes e, numa petisqueira roda de amigos, quando saltam as lascas do curado, as exclamações de surpresa e elogio são constantes. Além do queijo curado a queijaria Vale da Estrela  produz também um queijo não curado, mas com consistência suficiente para se comer à fatia, como deve ser, e um requeijão - além de ter doces (destaque para o mirtilo) e mel natural. Mais informações em www.valedaestrela.pt .

 

DIXIT - “Alguém sensato acredita que um Parlamento com 750 deputados, vindos de 28 países e falando 24 línguas oficiais seja capaz de defender os direitos dos cidadãos?” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “A vulgaridade nasce quando a imaginação se deixa vencer pela realidade explícita” - Doris Day

 

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publicado às 13:00

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MATRAQUILHOS NA ASSEMBLEIA - A política portuguesa começa a assemelhar-se a uma partida de matraquilhos jogada ao fim da tarde em que os vários partidos vão sendo eliminados ao longo de um torneio fictício com batotas avulsas pelo meio. O que se passou recentemente na Assembleia da República sobre a recuperação do tempo de serviço dos professores assemelha-se, na sua displicência, a uma disputa entre adolescentes em torno de uma mesa de matraquilhos, cada um a ignorar regras. Se a Assembleia da República já é considerada um local pouco recomendável por muitos eleitores, a degradante cena agora exposta ao olhar público mais incita o eleitorado a descrer não só dos deputados, mas também dos dirigentes dos seus partidos. Segundo a as regras estabelecidas pela Federação Portuguesa de Matraquilhos no jogo de matraquilhos uma bola é considerada morta quando pára completamente o seu movimento e não está ao alcance de qualquer boneco de nenhum jogador. Depois dos movimentos iniciais isto foi o que sucedeu. A bola ficou parada e agora ninguém a quer. Lamentável todo o processo - um case study de oportunismo político e insensatez que mostra como a falta de uma estratégia bem pensada produz desvarios tácticos. Um resultado lamentável, poluído de declarações ainda mais lamentáveis vindas de todos os intervenientes.

 

SEMANADA - Segundo o Instituto Nacional de Estatística 1,78 milhões de portugueses vivem com menos de 467 euros por mês, o que significa 17,3% dos portugueses; segundo o Banco de Portugal o país está mais pobre face à Europa do que antes da adesão à moeda única e a falta de produtividade compromete a melhoria de bem-estar sustentável dos portugueses no futuro;  constrangimentos financeiros fizeram o IPO recusar análises a doentes com cancro e vários acabaram por morrer; um relatório da Deloitte, relativo à primavera de 2019, indica que em relação ao semestre anterior a percentagem dos que arriscam uma evolução positiva para o PIB nacional afunda de 70% para 45%;  segundo o mesmo relatório três em cada quatro responsáveis financeiros de empresas assumem que este não é um bom momento para assumir riscos maiores no balanço; mais de 150 autarquias em todo o país estão a ter atrasos significativos no pagamento a fornecedores; Portugal só usou 25% das verbas europeias para integrar refugiados e imigrantes; as queixas por atrasos nos pedidos de reforma, que nalguns casos podem chegar aos três anos, dispararam 88% nos últimos seis meses;  Rui Rio afirmou que o PSD não recuou na questão dos professores e que foi tudo uma enorme confusão provocada por jornalistas; Mário Nogueira anunciou estar a considerar se continua no PCP depois do que se passou com a questão da contagem do tempo de serviço dos professores.

 

ARCO DA VELHA - A ASAE ficou em abril sem 30 viaturas utilizadas nas acções de fiscalização e perdeu as únicas cinco carrinhas frigoríficas que asseguravam o transporte de alimentos apreendidos.

 

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NO PRINCÍPIO É O DESENHO - Depois de ter estado em Guimarães, a exposição antológica de desenhos de Rui Chafes está até 19 de Maio na Casa da Cerca, em Almada. Com o título “Desenho Sem Fim” a exposição apresenta trabalhos que vão de 1980 a 2017 e mostra uma faceta menos conhecida do trabalho de Rui Chafes, conhecido sobretudo como escultor. A sequência da exposição não respeita a cronologia dos trabalhos, reunindo-os em núcleos onde, como sublinha o texto que acompanha a exposição “existem alguns aspectos que são recorrentes e que extravasam os núcleos independentes para se repetirem, por vezes com grandes hiatos temporais: o uso repetido de materiais que não pertencem ao domínio dos materiais “de arte”, como remédios, tinturas, chá, flores esmagadas e que convocam uma inescapável ligação ao corpo e à sua permanente queda”. A curadoria é de Nuno Faria e Delfim Sardo e em simultâneo decorre no Convento dos Capuchos uma exposição de esculturas de Rui Chafes. Entretanto assinalem nas agendas que no dia 18, sábado da próxima semana, Vera Mantero e Rui Chafes apresentam na Casa da Cerca a sua performance  “Comer o coração nas árvores”, uma colaboração entre os dois artistas na qual a coreógrafa e bailarina se cruza com as esculturas de Rui Chafes. Inicialmente concebida para a Bienal de São Paulo 2004 e com o título inicial de “Comer o coração”, a performance teve nova versão em 2015 e 2016 e a sua evolução passou pela criação de uma nova escultura de Rui Chafes pensada para suspensão em árvores de grande porte. De apresentação muito esporádica, esta possibilidade de descobrir o trabalho conjunto de Vera Mantero e Rui Chafes no próximo dia 18 é uma ocasião a não perder.

 

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RENASCER NO MEIO DE RUÍNAS - Um homem parte da sua terra para um país distante que está a sair de uma guerra devastadora. O ponto de partida é a Islândia, o destino é um dos países dos balcãs onde vizinhos lutaram contra vizinhos. O homem tem como objectivo suicidar-se e para isso escolheu um hotel outrora famoso e agora decadente no meio de destroços da guerra. Envolvido pela população local que descobre as suas habilidades como reparador de pequenas coisas, o homem reconstrói casas e a sua própria vida. Na Islândia não tinha vida social nem sexual, trabalhava numa loja herdada do pai. Decide vendê-la e partir sem avisar ninguém. Tinha decidido suicidar-se quando soube que não era o pai biológico da sua filha, decidiu afinal viver depois de fazer reviver uma aldeia e da atracção consumada por uma ex-estrela de cinema à procura de novo rumo. Esta é a  história de “Hotel Silêncio” (originalmente Ör, que significa «cicatriz») A autora é  Auður Ava Ólafsdóttir, a mais premiada escritora islandesa. Este livro agora editado em Portugal ganhou o Prémio de Melhor Romance Islandês, Prémio dos Livreiros Islandeses e Prémio de Literatura do Nordic Council. A autora já escreveu cinco romances, é dramaturga, contista e professora universitária. E tem um humor fino e incisivo.

 

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INSTANTES DECISIVOS EM CASCAIS - Robert Doisneau, o retratado nesta imagem com uma Rolleiflex nas mãos, dizia, sobre a fotografia, que «as maravilhas da vida quotidiana são tão entusiasmantes que nenhum realizador consegue encontrar o inesperado que se encontra nas ruas.» Doisneau é um dos grandes fotógrafos presentes na exposição “Instantes Decisivos”, que está patente até 14 de Julho no Centro Cultural de Cascais. A exposição inclui algumas das fotografias mais célebres de Man Ray, Robert Doisneau, Alfred Stieglitz, Carlos Saura, Elliot Erwit, Alberto Korda e Henri Cartier-Bresson, entre outros,  tudo obras pertencentes à «Colleción Himalaya», do colecionador espanhol Julián Castilla.

 

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18 NOVOS HINOSDepois de uma pausa de seis anos sem novos discos os Vampire Weekend regressam com “Father Of The Bride”. A produção é de Ariel Rechtshaid  e do líder da banda,  Ezra Koenig, e entre os convidados estão Dave Longstreth (Dirty Projectors), Steve Lacy (The Internet), Danielle Haim, e Jenny Lewis. O novo álbum, o quarto da banda, é um cruzamento entre a angústia e o optimismo, como The Guardian o classificou e evidencia um olhar pop atento sobre os tempos que vivemos. Tem 18 canções, quase todas surpreendentes e exemplares - a começar por “Sunflower”. Irresistível.

 

PROVAR - O Kook In ideia foi de Pedro Batista, que tem restaurantes Kook em Luanda, e que se associou a  Rui Oliveira e Francisco Bessone, os fundadores do Nómada. O Kook In está aliás no local onde o Nómada estava inicialmente, Avenida Visconde de Valmor 40A. Propõe um menu de almoço a 18 euros mas que não inclui couvert, bebida ou café - apenas entrada, prato do dia e sobremesa. Na verdade o menu de almoço com couvert, um copo de vinho e café não ficará abaixo dos 27 euros - o que está fora dos preços usuais para este tipo de oferta. O preço desajustado é aliás o principal problema deste restaurante  onde o serviço tem alguma tendência a impingir mais uma coisinha, sempre com a maior simpatia. A ideia é entrar no campo da comida portuguesa contemporânea, onde o empratamento compensa o que falta no resto, como se estivesse num concurso de instagrams. A cozinha é chefiada por Lázaro Glória, 28 anos, que com esta idade, antes de entrar neste projecto, já estagiou no Ritz, cozinhou no Penha Longa e no Mandarin Oriental de Londres e passou uma  temporada na Austrália. De entre as propostas do Chef provei o bacalhau assado com ovas grelhadas e migas de feijão frade com chouriço e couve cortada para caldo verde (18€) - o bacalhau era bom e estava bem, as ovas eram insípidas e as migas estavam secas demais. No couvert destaco a qualidade das azeitonas e do pão da casa, que evoca uma focaccia, além de um broa honesta. A lista de vinhos é bem escolhida mas com preços altos. Uma refeição completa (couvert, entrada, prato, sobremesa) para duas pessoas, com vinho, dificilmente ficará abaixo dos 70 euros. É demais para o sítio e a qualidade.

 

DIXIT - “O nosso homem continua a confundir a família do Rato com o país” -  Vasco Pulido Valente sobre António Costa.

 

BACK TO BASICS - “Corrijam-me se estiver enganado, mas creio que a delicada linha entre a sanidade e a loucura está a ficar cada vez mais ténue” - George Price.

 

 





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OS VENTOS DE ESPANHA

por falcao, em 03.05.19

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LIÇÕES ESPANHOLAS - Aprende-se sempre alguma coisa a olhar para a relva do vizinho. Vem isto a propósito das eleições espanholas e do seu resultado. Há quem veja no desfecho uma possibilidade de exportação da geringonça lusitana e quem já imagine António Costa numa cátedra de negociação política numa das grandes  universidades madrilenas, com Pedro Sánchez, embevecido, a beber as suas palavras na primeira fila do auditório. Por muito que esta imagem possa ser simpática para alguns, ela não representa, porém, a verdadeira questão que o resultado das eleições gerais em Espanha evidencia. Para além do tema das soluções governativas possíveis, e antes de se chegar à exportação da geringonça, vale a pena olhar para o que se passou e que provocou uma queda brutal do Partido Popular e uma alteração da paisagem política espanhola, com a entrada em cena, forte, da extrema direita. A minha interpretação pessoal é que a causa do rápido fortalecimento da extrema direita espanhola radica na fraqueza do PP, no resultado da sua governação e na sua inconsequência, e não num mero problema de táctica de campanha eleitoral. Visto daqui, parece-me que foi o PP que abriu a porta à extrema direita ao descurar a Espanha fora das grandes regiões urbanas e industriais - o voto nas regiões mais rurais explica muito do que sucedeu e uma análise da geografia eleitoral merece atenção. Este fenómeno do peso eleitoral do voto não urbano é aliás comum noutras eleições - na Europa e, por exemplo, nos Estados Unidos na eleição de Trump. Quando toca a votos os países não são o que o eleitorado urbano pretende. Em Portugal criou-se um vazio na direita tradicional que deixou, pelo menos por agora, de ser umas alternativa de poder. O descontentamento do seu eleitorado vai procurar uma alternativa de voto - foi o que aconteceu em Espanha e será o que, a continuarem as coisas assim,  mais cedo ou mais tarde, aqui acontecerá. A responsabilidade não será dos eleitores. Será de quem os ignorou e, assim, os perdeu.

 

SEMANADA - Nos últimos 24 anos a Igreja em Portugal perdeu quase mil padres; há quatro dioceses (Porto, Lamego, Funchal e Santarém) contra a criação de comissões para analisar queixas de abusos sexuais feitos por padres;   um homem que cumpriu dez anos de prisão por crimes sexuais reincidiu e violou quatro mulheres em Lisboa no primeiro mês após a sua libertação; a receita fiscal cresceu cerca de 10% no primeiro trimestre face a igual período do ano passado; o crédito à habitação concedido pelas instituições financeiras a particulares até fevereiro cresceu 13,1% face ao mesmo período de 2018 e totaliza já 1,5 mil milhões de euros; o valor do metro quadrado de habitação já aumentou 7% em termos médios nacionais, face ao final de 2018; os reembolsos da ADSE estão a demorar cerca de seis meses; os vistos gold dão ao Estado cerca de 24 milhões de euros por ano; as zonas do interior do país perderam mais de uma centena de farmácias nos últimos seis anos; o ensino superior privado ganhou dez mil alunos em quatro anos; as viagens dos portugueses motivadas por férias e lazer aumentaram 4,2% no ano passado; a percentagem de trabalhadores por conta própria em Portugal é de 15%, superior à média da União Europeia; 88,6% dos pagamentos realizados em estabelecimentos comerciais em 2018 foram feitos com cartão bancário; as autarquias lideram as queixas por recusa de acesso a documentos oficiais.

 

AO QUE ISTO CHEGOU - A Polícia Judiciária de Leiria deteve um homem de 34 anos que falsificava notas de 20 euros para pagar serviços sexuais de prostitutas; o tribunal condenou-o a pena suspensa.

 

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COMO FUNCIONA A MENTE? - O processo criativo é algo que me fascina - e perceber como ele varia de pessoa para pessoa e de caso para caso ainda mais. “Devoção”, de Patti Smith, agora editado em Portugal pela Quetzal, é um livro sobre o processo criativo, sobre os pequenos passos que antecedem uma ideia, sobre o caminho que leva da ideia à sua concretização. “A inspiração é um mistério recorrente e invisível”, avisa logo Patti Smith nas primeiras linhas. E, mais à frente: “O destino dá uma ajuda, mas não a ajuda toda. Eu andava à procura de uma coisa e encontrei outra muito diferente” - conta, para recordar como lhe surge uma ideia. Este é um diário que mistura notas de viagem com referências a locais ou autores que marcam a autora e, também, de forma  fascinante aliás, o relato do quotidiano e das rotinas para além da sua faceta pública. Além deste lado de relato, há uma envolvente short story, que dá o nome ao livro, “Devoção” (e o texto inicial do livro “Como funciona a mente” esclarece a forma como nasceu essa história), alguns poemas, notas e fotografias. “Um sonho não é um sonho” é o texto que resume o sentido do livro: “porque escrevemos?- pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve. Porque não nos podemos limitar a viver”. Boa tradução de Helder Moura Pereira, a partir da edição original, de 2017.

 

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ENTÃO E A ESCULTURA? - Gosto do espaço físico da Galeria Valbom - com a ampla sala térrea, e a grande mezzanine. Até 22 de Maio ali pode ser vista uma exposição que mostra um lado relativamente pouco conhecido de Júlio Pomar, o de escultor. “Então e a escultura?” é o título da exposição que mostra um conjunto de esculturas em bronze, produzidas em Paris em 2003 e 2004 - ao todo 22. Além das esculturas estão expostas sete assemblages, seis serigrafias e um conjunto de 73 desenhos apresentados em vários núcleos, com início em 1946 e que vão até 2006. Em muitos destes desenhos reconhece-se a preparação de outras obras - desde logo algumas das esculturas aqui presentes, mas também estudos para alguns dos seus quadros. Estão ainda presentes 75 publicações ilustradas por Júlio Pomar e ainda alguns livros de artista. A obra de Pomar tem vindo a valorizar-se em termos do mercado de arte  em Portugal e praticamente todas as peças ali expostas estão disponíveis para coleccionadores. A Galeria Valbom, que organizou a exposição, editou também um catálogo e comercializa igualmente uma peça produzida pela Vista Alegre com base num desenho de Pomar. A Valbom está aberta entre as 13 e as 19h30, de segunda a sábado, na Avenida Conde de Valbom 89-A.

 

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VOZ ARMÉNIA - Arani Agbabian tornou-se conhecida quando trabalhou com Tigran Hamasyan, um músico de jazz arménio, fortemente influenciado pela tradição musical das suas origens. Arani Agbabian é também de ascendência arménia, embora tenha nascido na Califórnia, em Los Angeles. Começou a estudar piano aos sete anos e foi cantando sobretudo com base no repertório folk do seu país e também com grupos vocais búlgaros. Foi como vocalista que trabalhou com Tigran Hamasyan, para além de ter desenvolvido uma carreira a solo, em áreas como a ópera contemporânea, a dança e performances multimédia. Em 2014 gravou o seu primeiro disco a solo, “Kissy” e este ano surgiu “Bloom”, que assinala a sua estreia na ECM. É um trabalho baseado exclusivamente no piano e voz de Arani e na percussão de Nicolas Stocker. A produção foi do próprio fundador da ECM, Manfred Eicher, e a sonoridade adequa-se ao carácter envolvente das melodias tradicionais arménias, que são a base deste trabalho. Em “Bloom” Areni Agbabian reinterpreta hinos sagrados, temas tradicionais e também composições próprias dela própria e em colaboração com Stocker, onde a proximidade ao jazz improvisado é assinalável. Destaque para os temas “Patience”,  “Mother”, “The River” , “Full Bloom”, para o tradicional “Anganim Arachi Ko” e “The Water Bride”. O disco evidencia os desafios vocais e rítmicos da tradição musical arménia e é fruto de uma conjugação exemplar do delicado trabalho do piano, da voz e da percussão. “Bloom”, edição ECM, no Spotify.

 

UM PRAZER PICANTE - Quando mais leio press releases de restaurantes com conceito e de chefs que só pensam em menus degustação, mais me apetece descobrir restaurantes simples e despretensiosos. Já tinha ouvido falar do “Tentações de Goa”, um restaurante em plena Mouraria, perto do Martim Moniz, na Rua S. Pedro Mártir, uma ruela escondida por onde se entra a partir do fundo da Rua da Madalena. O espaço não é muito grande, a sala é simples mas vibrante de luz, a clientela é completamente diversificada, com boa dose de turistas. O serviço é muito simpático, os preços são honestos, quer na comida, quer nos vinhos. A confecção é naturalmente a puxar para o picante, mas nalguns casos pode indicar-se a intensidade pretendida. Comecemos pelas entradas - foram provados uns bons bojés, acompanhados do correspondente chutney de coentos, e umas surpreendentes chamuças de camarão. Nos pratos testou-se o caril de camarão com quiabos , o caril de caranguejo e o biryani vegetal - tudo acima do que é a média de muitos restaurantes indianos da capital. A sobremesa, partilhada, foi uma babinca tradicional, talvez um pouco mais adocicada do que se esperava. Por mim o destaque foi para as chamuças de camarão (que são bem picantes) e para o caril de caranguejo, que estava superior. O arroz basmati estava no ponto. As Tentações de Goa encerram aos Domingos e feriados, o telefone é o 218 875 824 ou 914 814 043 e aceita reservas.

DIXIT - “O oportunismo eleitoral actualmente dominante faz-me lembrar uma imagem televisiva em que o actual primeiro-ministro português, pouco antes das eleições de 2015, confessava ao jornalista que lhe perguntara se iria aliar-se ao PSD: Ainda se o líder fosse Rui Rio…- Manuel Villaverde Cabral

 

BACK TO BASICS - “Anda tudo desequilibrado, o mundo devia parar mas segue em frente” - V S Naipaul

 





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