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O OFF - As conversas em off com políticos são um terreno armadilhado há muito tempo. Os políticos mais experientes desenvolveram competências extraordinárias nesse domínio. Alguns recusam-se a falar sobre determinado tema e depois dizem alguma coisa do género: “eu disso não falo mas em off sempre lhe digo que é uma escandaleira”; outros falam do assunto mas controlam as palavras e a mensagem - estão no seu direito, claro. O pior é quando no fim da conversa, na despedida, dizem - “sobre aquele assunto, já agora, eles são uns patifes”. Costa é um político muito experiente, veterano de guerras internas em off e on dentro do PS e com doutoramento em mudanças de posição e em insinuações. Acontece que, na minha opinião, quando um jornalista ouve o que agora se sabe, à saída, nas escadas de S. Bento, não lhe ficava mal dizer: “Senhor Primeiro Ministro, esqueci-me de lhe fazer uma pergunta, mas agora responda em on: entende que no lar de Reguengos houve falta de coragem dos profissionais de saúde e foi por isso que a situação se terá deteriorado?”. A pergunta é legítima, podia ter sido feita antes, por qualquer razão não a colocaram. Mas devia ter sido feita a seguir. O mais que se arriscavam era a ter uma resposta como “Não comento”. E claro que teriam irritado um pouco mais o Primeiro Ministro que, como se percebe pelo som da entrevista, estava particularmente irritado com a situação - o que nele também não é invulgar. Como temos visto, António Costa ganhou o hábito, de cada vez que ele próprio cria um problema (como foi o caso com as declarações que fez a propósito da Ministra Godinho), corre a dar uma entrevista para tentar limpar a imagem. Foi o que tentou fazer mais uma vez. Saíu-lhe o tiro pela culatra e a culpa não foi de quem divulgou o off, foi dele próprio. Para piorar as coisas, depois de falar com o bastonário da Ordem dos Médicos chamou os jornalistas para ouvirem o que tinha a dizer sobre a conversa, sem direito a fazerem perguntas. O Bastonário afirma que as declarações que Costa fez no final da reunião não correspondem ao que  foi dito à porta fechada. António Costa é daquele género que nunca erra nem nunca vê razão para apresentar desculpas. Como mais uma vez se viu.

 

SEMANADA - Há 528 estações e apeadeiros activos na rede ferroviária portuguesa que movimentam 24 milhões de passageiros por mês e dez estações, em Lisboa e no Porto, concentram 38% do tráfego total; a ligação ferroviária entre os dois extremos do Algarve, de Olhão a Faro, demora quase três horas, o mesmo que há quase 40 anos; a Via do Infante foi a autoestrada portuguesa que mais tráfego perdeu no segundo trimestre deste ano, e em Abril, durante o estado de emergência registou uma queda da circulação média diária de 81% face ao período homólogo; segundo o Instituto da Mobilidade e dos Transportes em Abril circularam no conjunto das concessões rodoviárias pouco mais de 6 mil veículos, menos cerca de 13 mil do que em Abril do ano passado; segundo um estudo TGI da Marktest nos últimos 12 meses triplicou o número de portugueses que encomenda refeições por aplicações de telemóvel de serviços de entrega e pizza é a comida mais consumida desta forma; segundo o estudo Mediamonitor da Marktest, a situação no lar de Reguengos, entre 17 e 23 de Agosto,  foi referida em 428 notícias de canais televisivos, num total de  14 horas de emissão sobre este tema; em 2019 as fábricas de automóveis em Portugal geraram 2,2% do PIB e só a Autoeuropa gerou 1,7% do PIB nacional, tendo já voltado a produzir 890 automóveis por dia, a um ritmo pré-Covid; Gomes Cravinho, Ministro da Defesa, autorizou uma adjudicação direta, sem concurso, no valor de de 2,1 milhões de euros em vestuário de combate e o Tribunal de Contas considerou que o governante tinha violado a Lei.

 

ARCO DA VELHA - Uma exposição do Museu de Arte Contemporânea, de obras adquiridas nos últimos dez anos, e que está pronta há mais de dois meses, arrisca-se a fechar sem ser aberta ao público por falta de verba para resolver questões técnicas como iluminação e sinalética.

 

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PASSEAR - A pandemia fez-nos redescobrir Portugal. Voltei este Verão a locais onde não ía há mais de 40 anos e devo desde já esclarecer que fiz as reservas com apenas duas semanas de antecedência, estritamente em nome pessoal, pagando o que nos sites respectivos surgiu como proposta. Gabo-me de conhecer bem o país, mas reconheço que, após várias décadas, regressar ao mesmo local, de maneira diferente, faz-nos ver tudo de outra forma. Lembro-me que no final dos anos 70 fiquei tão encantado com Trás os Montes e o Alto Douro que uns anos mais tarde regressei lá numas férias sem destino, só a descobrir. Desde essa altura, no início dos anos 80, nunca mais aí voltara. Tinha algum receio de, agora, ficar desiludido,  mas isso não aconteceu. Primeira constatação: muitos portugueses a visitar Portugal; segunda constatação: muitos espanhóis a descobrirem os territórios da fronteira, em hotéis, restaurantes, nos percursos mais turísticos; terceira constatação: há empresários que em cada local desenvolveram hotéis com bom acolhimento, restaurantes nalguns casos excepcionais e os locais têm uma gentileza e boa disposição a acolher forasteiros que ultrapassa o dever profissional. No norte, do Minho a Trás os Montes, fiquei em bons sítios com menor custo que em sítios menos bons mais a centro. Já aqui falei na semana passada na desilusão que foi a Pousada da Ria, do Grupo Pestana, junto a Aveiro. Foi mais cara e desconfortável que qualquer outro local destas férias. Um dos mais baratos, no Baleal, a Silver Coast Beach Residence, foi um exemplo de bom acolhimento e teve um dos melhores pequenos almoços de toda a viagem. A Casa da Calçada, em Amarante, com um conforto e serviço excepcionais teve um custo menor que a Pousada do Grupo Pestana. Noutro registo,  o Hotel Boega em Vila Nova da Cerveira, informal e acolhedor, faz-nos querer ficar a provar os cozinhados tradicionais que provámos num jantar. E na G Pousada, em Bragança, um empresário local oferece o que noutras pousadas não existe: competência e bom serviço. Se fizesse um ranking do pão servido ao pequeno almoço, a G Pousada arrebatava o primeiro lugar. Nesta viagem descobri quartos com vistas magníficas, como esta imagem que aqui fica de Amarante, onde, se puder, mais vezes regressaremos. 

 

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VER - A primeira surpresa que registo, em todos os locais, é a afluência de público. Por todo o lado onde estive - de Vila Nova de Cerveira a Bragança, vi as exposições com gente, nalguns casos à espera de vez para entrar. Em Cerveira a Bienal, que vai na sua XXI edição, tem propostas muito diversificadas. Destaco a exposição “De Casa Para um Mundo”, que junta obras de artistas plásticos com músicos e escritores, um desafio sempre arriscado e que muitas vezes pode ser penoso. Embora no centro da cidade, o espaço onde é mostrada é ingrato, mas as obras de Ana Fonseca, Cristina Ataíde, Graça Pereira Coutinho e Pedro Calapez, para só citar alguns dos nomes propostos pela curadora Fátima Lambert, suscitam a curiosidade de quem passa. Já Amarante, e o Museu Amadeo Souza Cardoso, são uma conversa à parte: o galerista Fernando Santos pediu a um conjunto de artistas obras que se enquadrassem no título “Fuck Art, Let’s Eat”. E assim Ana Vidigal, José Loureiro, João Jacinto, Julião Sarmento (na imagem), Manuel Baptista, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Pedro Proença e Rui Sanches, entre outros, responderam ao desafio e as suas obras estão perto das de Amadeo Souza Cardoso, que ali nasceu. A terminar quero deixar uma referência a dois locais em Bragança - o primeiro é o Centro de Interpretação da Cultura Sefardita que, com poucos recursos mas num belo projecto de Souto Moura, mostra a importância dos judeus em Portugal desde o nascimento da nacionalidade; e o outro é o museu Abade de Baçal - onde além de obras de arte sacra se destaca a colecção de pinturas de Abel Salazar, os desenhos a tinta da china de Almada Negreiros e, sobretudo a magnífica exposição de fotografia de Duarte Belo, “Sabores da Terra”, a olhar para o território de Trás Os Montes de uma forma que, espero, possa ser mostrada por todo o país. Uma nota final - não planeiem visitar museus municipais à segunda-feira, estão fechados, vá-se lá saber porquê.

 

SABORES - Quando o restaurante da Casa da Calçada, em Amarante, está em jogo no meio de outros locais fica difícil fazer comparações. Galardoado várias vezes com uma estrela Michelin, o Lugar do Paço é uma referência da restauração em Portugal. Sob a direcção do Chef Tiago Bonito, está aberto de quinta a sábado ao jantar e ao Domingo, ao almoço. Quer os menus de degustação, quer a carta, são aliciantes. Nos menus degustação o serviço de vinhos adequado a cada prato é exemplar, revelando pequenos produtores da região com um sommelier que sabe falar do que serve e do porquê das suas propostas. Toda a refeição, e a sua envolvente, são especiais. Não sou um grande fã de menus degustação, mas admito que este superou as minhas expectativas. Os destaques vão nas entradas para o caviar com gema de ovo fumado e para o carabineiro do algarve com açafrão. Nos pratos principais o cherne esteve magnífico e o borrego cheio de sabor e no ponto exacto. A melhor sobremesa foi a beterraba a envolver maracujá. Em Bragança quero destacar a melhor posta mirandesa que já comi: uma carne extraordinária de textura e sabor, bem temperada, cozinhada no ponto, tenríssima, acompanhada por saborosas batatas assadas, enquanto do outro lado da mesa uma desejada truta minhota se revelou um pouco mais seca que o desejável - no restaurante Geada, uma referência local, que aliás depois se expandiu para a Pousada (que já tem uma estrela Michelin) e, mais recentemente para o Gastrobar ComTradição, dirigido pela nova geração da mesma família. Junto ao castelo de Bragança, no ConTradição provaram-se bons pastéis de massa tenra com recheio invulgar em tempero, uma muxama de atum com salada bem temperada e vieiras com panceta de porco bísaro. Tudo satisfez, acompanhado por um espumante local e por um branco da região.



DIXIT - “Muita gente quer convencer-nos que estar sempre a falar de corrupção é uma forma de populismo. O maior truque do diabo é convencer-nos que não existe” - João Miguel Tavares.

 

BACK TO BASICS - “Aquilo que foi feito não pode ser desfeito” - William Shakespeare

 

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ERA MELHOR O SILÊNCIO ? - José Manuel Fernandes fez, no Observador, o melhor resumo do caso do lar de Reguengos: “a morte de 18 seres humanos em Reguengos sobressaltou menos o país do que a morte dos animais em Santo Tirso”. Isto diz tudo sobre o estado da nação. E é com base nesta insensibilidade pela vida humana, sobretudo dos mais fracos e desprotegidos, que o Primeiro Ministro afirma que as críticas à Ministra Ana Mendes Godinho são polémicas artificiais e que entidades ligadas à Igreja vieram pressurosas defender essa “dedicada militante católica” que mostrou a insensibilidade que está à vista de todos e que esperou três semanas, depois dos primeiros avisos e após 16 mortes, para começar a fazer perguntas. Em vez de polémicas artificiais prefiro pensar que há ministros artificiais. Ana Godinho é um case study nesse género. Passou de andar à boleia da mina do turismo em tempo de vacas gordas para o desagradável mundo real onde a miséria se revela. A rápida resposta do Primeiro Ministro neste caso comprova Como gosta pouco de críticas e prefere o silêncio, como bem recentemente se viu no caso da alteração da periodicidade dos debates parlamentares. As palavras incomodam imenso, como se sabe. O pensamento de António Costa sobre as críticas chega longe, dentro do Estado. Por exemplo, a direcção da PSP foi  ainda mais longe e resolveu processar um jornal por um cartoon satírico onde surgiu uma farda daquela polícia numa manifestação racista; azar dos Távoras, poucos dias depois uma página do Facebook ligada a elementos da Polícia de Intervenção, pertencentes à PSP, criticava a decisão de ser dada protecção policial a activistas e políticos ameaçados por uma organização racista.  A decisão de processar o conteúdo humorístico foi a primeira atitude pública de intervenção na sociedade da equipa do novo Diretor Nacional da PSP, Magina da Silva, nomeado pelo Governo de Costa em Janeiro passado. Com um responsável policial que não suporta o humor e não vê o que se passa em casa e com um Primeiro Ministro que elogia uma Ministra da SolidariedadeSolidariedade insensível a mortes estamos bem desgovernados.

 

SEMANADA - O responsável pela autoridade regional de saúde no Alentejo garante ter condições para continuar no cargo mesmo depois de tudo o que já se sabe sobre a incúria com que geriu o caso de Reguengos; Portugal continua entre os 20 países europeus com mais casos novos registados por 100 mil habitantes; António Costa nomeou para seu chefe de gabinete um dos implicados no caso Galpgate, o dos convidados com viagens e bilhetes à borla para assistirem a jogos de futebol da Seleção ; durante a pandemia, foram feitas 88 alterações a leis da área laboral; há 242 mil doentes à espera de cirurgia, cerca de 100 mil destes já ultrapassaram o prazo definido para a sua patologia e 45 mil estão à espera há mais de um ano; segundo a Marktest  a percentagem dos leitores de jornais  que lêem exclusivamente as edições em papel é de 15%, inferior à dos que lêem apenas online (21%), mas a maioria dos leitores, 38% utiliza ambas as plataformas; segundo o  estudo de audiências de rádio da Marktest o auto-rádio é o principal suporte de escuta de emissões de rádio, com 6 milhões e 441 mil utilizadores, e o streaming através de telemóvel é agora o segundo suporte com mais utilizadores com 22.8%, enquanto o rádio portátil baixado para terceiro, com 16%; o mesmo estudo indica que no total, um milhão e 954 mil portugueses ouvem rádio no telemóvel e mais de metade destes ouvintes, 52,6%, têm entre 25 e 44 anos; o cadáver de um cavalo foi abandonado no Estádio Universitário, junto ao hipódromo do Campo Grande, onde esteve alguns dias sem ser detectado.

 

ARCO DA VELHA  - Um homem de 73 anos vendia numa feira de Mirandela uma mistura de sumos industriais que anunciava como remédio infalível contra a COVID-19, a dez euros cada frasco. Vendeu vários antes de a GNR lhe ter acabado com o negócio.

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A VER O MAR - Nestas férias de desconfinamento rumei a norte para rever alguns locais onde não ía há muitos anos. Um deles, bem perto de Lisboa, foi o Baleal e, de uma forma mais geral a zona de Ferrel e de Peniche. A transformação é imensa, sobretudo em torno de actividades ligadas ao surf, mas, apesar da pressão turística que estas coisas sempre trazem, a boa conservação do património natural é assinalável. Fiquei emocionado quando voltei ao Cabo Carvoeiro e revi as rochas, a forma como estão envolvidas no mar, a sua cor, a sua forma. Toda a zona, com aquela enorme baía, e as rochas estratificadas que lhe vão servindo de adorno, é um dos melhores pedaços da costa atlântica portuguesa. O Baleal em si é uma preciosidade, com as suas casas bem conservadas, todas a olharem para o mar, com as pequenas enseadas entre rochas. É curioso ver como coexiste uma população familiar, frequentadora habitual, com surfistas de várias nacionalidades e adeptos de pesca à linha ou de pesca submarina. Mesmo ao Domingo, onde se nota uma enchente de quem ali vem de propósito passar umas horas à praia do Baleal norte, a zona tem um ar tranquilo. Numerosas lojas de material de surf estão por todo o lado, assim como alojamentos locais para surfistas. A escolha da pernoita, aleatória, recaíu no Silver Coast Beach Residence, que ultrapassou as expectativas e onde a estadia rematou com um belo pequeno almoço. A primeira etapa das férias foi bem conseguida.

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A VER A RIA - A segunda etapa das férias teve por destino a zona da Ria de Aveiro. O contraste com a costa da zona de Peniche é total e prova a enorme diversidade de paisagens e experiências de que se pode desfrutar em Portugal em distâncias pequenas. Aveiro é uma cidade especial, nos últimos anos marcada para bem pela Universidade Local, por actividade económica intensa e, para mal, pela silhueta do estádio de futebol proveniente da megalomania socrática do Euro 2004, hoje em dia um espantalho que desfeia a paisagem e ali jaz sem utilização. Bem perto de Aveiro está a Costa Nova, essa língua de terra que atravessa a Ria, maravilhosa. A Costa Nova está bem preservada, com poucos acidentes arquitectónicos estranhos, no geral com estragos controlados. Bons locais para comer, como o renovado Clube de Vela, onde um rodovalho foi o prato forte. O destino final desse dia foi a Pousada da Ria, numa localização absolutamente única, literalmente em cima da água. Esta aera uma das emblemáticas Pousadas de Portugal, uma iniciativa lançada por ideia de António Ferro e que se desenvolveu sobretudo nas décadas de 50 e 60 com construções sólidas e em locais escolhidos a dedo, como esta. Localizada na freguesia da Torreira, e que  faz parte do núcleo Pousadas da Natureza. Também conhecida por Pousada da Murtosa, pode lá chegar-se por estrada, ou num ferry que sai da zona portuária de Aveiro. Há á uns anos um processo de privatização colocou a rede das Pousadas de Portugal nas mãos do Grupo Pestana. Este ano é a segunda vez que vou a uma destas Pousadas e tenho a mesma sensação - a gestão global das pousadas dentro do grupo Pestana tem sérios problemas. Aqui, na Pousada da Ria, os poucos empregados são incansáveis e simpáticos. Esforçam-se mesmo. Mas há falhas graves, que mostram falta de cuidados na administração da propriedade e na sua direção. O quarto tinha uma vista deslumbrante, mas a rede anti mosquitos estava furada e não funcionava - e estando em cima da Ria isso é um problema. E ficava por cima da sala de refeições - onde a porta de ligação à cozinha chiava de cada vez que alguém passava, ouvindo-se tudo no quarto logo bem cedo, quando se preparava a sala do pequeno almoço. Entre melgas e chiadeira o (des)conforto do quarto não valia o preço a que é cobrado. Em tempos as pousadas já foram uma referência de hotelaria e da gastronomia regional, mas já não são. Na cozinha a matéria prima é má (no peixe ou na carne) e a confecção deixa muito a desejar até nos acompanhamentos simples. A cozinha não funciona e a pobreza da oferta estende-se ao pequeno almoço. Se não fosse a diligência dos empregados a estadia na Pousada da Ria teria sido um pesadelo. Assim foi só um caso para esquecer - e a culpa é de quem dirige a organização, não de quem, neste caso, está no terreno a fazer o melhor que pode e com poucas condições.

 

A SABER  A MAR - Na zona de Peniche, onde não faltam sítios para petiscar, sugestão amiga encaminhou-me para o restaurante Profresco, perto do cabo Carvoeiro. A entrada faz-se pela zona da peixaria onde se pode comprar para levar para casa, ou então escolher o peixe que se comerá na zona de restaurante. O preço é o de peixaria, a que acresce, no caso do restaurante, uma taxa de confecção de 9 euros por quilo do peixe pretendido. A escolha recaíu num sargo, fresquíssimo, que foi grelhado no ponto certo, bem acompanhado por batatas assadas (muito boas)  e uma generosa salada. Antes disso tinham vindo para a mesa uns búzios, daqueles que sabem mesmo a mar. Da lista fazem parte como entradas saladinhas de ovas, de búzios ou de polvo, lapas na chapa, mexilhão ao vapor, ostras e sapateira ou santola recheada. Só com entradas destas estaria o petisco feito. Peixes grelhados à parte as opções incluem caldeirada tradicional, pica pau de atum, arroz do mar ou açorda de gambas. A sobremesa foi uma torta de pera rocha, a saber ao fruto e sem demasiado açúcar, que foi acompanhada por uma ginjinha de Óbidos. O serviço é atencioso, a sala é confortável, o vinho da casa é estimável e o preço final é justo. O telefone é o 262 785 186.

 

DIXIT -  “A ministra da Solidariedade e Segurança Social demonstrou insensibilidade social e uma certa sobranceria, o que não é próprio de uma Ministra da Solidariedade” - Marques Mendes

 

BACK TO BASICS - “É preciso ler todos os relatórios” -  Marcelo Rebelo de Sousa

 



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QUAIS PRESIDENCIAIS?  - Em Portugal muita gente interessa-se sobre as presidenciais norte-americanas, sobre a indicação de Kamala Harris para vice-presidente de Joe Biden, sobre as sondagens que são desfavoráveis a Trump e não falta quem emita opinião sobre as eleições presidenciais nos Estados Unidos. É bom querermos saber o que acontece no mundo e termos posição sobre o que se passa noutros países,  mas seria também bom se as preocupações sobre as presidenciais se estendessem igualmente a Portugal, onde as mesmas irão decorrer dentro de poucos meses. Marcelo Rebelo de Sousa continua a manter o tabu sobre a sua recandidatura, mas a coisa arrisca-se a ser a piada mais gasta de todas pelo caminho que as coisas levam. A decisão de não falar do assunto não é um segredo bem guardado: é uma atitude calculada para evitar que o debate se centre já, nestes próximos meses, no que tem sido a presidência de Marcelo, no que ele tem feito como Presidente, para além dos afectos. O tabu, que não é inédito, teve em Cavaco um expoente e é uma arma cínica usada em demasia na política portuguesa. E o tabu tem geralmente como função querer controlar o calendário de debate, forçando que seja o mais curto possível. Marcelo Rebelo de Sousa, que tem uma vantagem esmagadora nos estudos de opinião, não está interessado em que surjam pessoas a apontar que o rei vai nu, mostrando o que correu menos bem. E, se olharmos com detalhe, muitas coisas correram mal - desde as suas primeiras reacções à tragédia de Pedrógão, até às hesitações na abordagem à pandemia e aos efeitos de um desconfinamento mal executado, passando pelo permanente jogo de cumplicidades com António Costa. Se ninguém quer um foco de desestabilização em Belém, também depois deste mandato há quem pense que ficamos vacinados para um permanente baile de máscaras com S.Bento, um jogo de ilusões e seduções. Vamos passar anos terríveis para conseguir sair com o mínimo de dores da situação caótica - económica, social e psicológica - criada pela pandemia. O que precisamos é de alguém que ajude a encontrar um caminho, que o torne desígnio nacional, que vigie a sua execução. O objectivo não pode ser remendar, tem que ser criar as bases para desenvolver. Vamos querer que Belém continue a ser um cenário de selfies ou que se torne num posto de vigilância com autoridade?

 

SEMANADA - Em Portugal, segundo um estudo da Marktest, 3,2 milhões de pessoas têm cães em casa e 2,7 milhões têm gatos; um outro estudo divulgado esta semana indica que o stock de bicicletas esgotou em Portugal no final de Julho passado, tendo a venda dos diversos tipos de velocípedes aumentado 500% depois do desconfinamento; com as regras excepcionais dos exames em tempos de pandemia as notas de 19 e 20 no secundário quase duplicaram e 45% dos alunos tiveram 15 ou mais valores a matemática; os pedidos de subsídio de desemprego atingiram o maior número dos últimos 15 anos e os distritos de Viana do Castelo e Faro são os mais penalizados pela pandemia; as insolvências aumentaram 12,6% nos primeiros seis meses do ano; o passado mês de Julho, com 25,08º de média, foi o mês mais quente desde que há dados de temperatura ambiente, iniciados em 1931; o número de condutores sem carta detectados nos sete primeiros meses foi de cerca de 3000, um aumento de 22% em relação a igual período do ano passado; segundo a Organização Internacional do Trabalho em termos globais 73% dos jovens que estudavam ou combinavam os estudos com o trabalho antes da crise viram as escolas encerrar devido à pandemia e em muitos casos, nem todos conseguiram fazer a transição para o ensino remoto: um em cada oito jovens (13%) ficou sem qualquer tipo de acesso a aulas, ensino ou formação; sobre a festa do Avante! a Ministra da Saúde afirmou que  “não será permitido o que está proibido nem proibido o que está permitido” .

 

ARCO DA VELHA - Há linhas ferroviárias onde os comboios têm dificuldade em circular por causa dos ramos de sobreiros que invadem a via e que não se podem podar por serem espécie protegida, vigiada pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.

 

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ROCK EXPO - “Velvetnirvana” é o título da exposição que agrupa fotografias, livros, cartazes, capas de discos, fanzines, flyers, revistas e memorabilia diversa da colecção de António Neto Alves, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez. O material exposto inclui centenas de peças que vão desde 1965, data das primeiras aparições dos Velvet Underground, a 1994, ano da morte de Kurt Cobain.  Na imagem está a reprodução de um desenho de Patti Smith, de 1972. A exposição está articulada em quatro grandes núcleos (Velvet Underground; Nova Iorque experimental; Incandescência punk e Pós?) e é uma viagem pela ligação entre a música e as artes visuais, desde a banana de Warhol na capa do primeiro disco dos Velvet Underground e retrata uma época em que a colaboração entre designer gráficos e bandas era frequente e muitos músicos desta geração tinham formação na área de belas artes. Em “Velvetnirvana” podem ver-se  também trabalhos de portugueses, como uma obra inédita do fotógrafo Paulo Nozolino (Brixton, London, 1979) apresentada num conjunto de painéis com cinco polaroids ampliadas, imagens de Pedro Fradique do concerto dos Sonic Youth no Campo Pequeno, em 1993 e, a culminar, fotografias do concerto dos Nirvana em Cascais, em 1994, da autoria de Rita Carmo. A exposição está no Pavilhão Branco (Campo Grande 245) de terça a domingo, entre as 14h30 e as 19h00, até 27 de Setembro.

 

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CONTOS FANTÁSTICOS - "Ficções" é  talvez o livro mais reconhecido de Jorge Luis Borges e tem agora  nova edição portuguesa, da Quetzal, numa tradução de José Colaço Barreiros. Esta é a primeira edição de uma série que a Quetzal vai fazer com obras do autor argentino que foi uma das mais importantes figuras da literatura do século XX.  Publicado pela primeira vez em 1944, Ficções inclui contos fundamentais para entender o universo de Jorge Luis Borges, como «O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam», «As Ruínas Circulares» ou «A Biblioteca de Babel». Há narrativas de natureza policial, como «A Morte e a Bússola», a história de um detetive que investiga o assassinato de um rabino e outras, que recriam livros imaginários como «Tlön, Uqbar, Orbis Tertius», reflexão extraordinária sobre a literatura e sua influência no mundo físico. Outras  podem ser consideradas fundadoras do moderno género fantástico, como «O Sul», que, nas palavras do próprio autor, é talvez a sua melhor história. A capa  desta edição reproduz um pormenor de uma obra de  Hieronymus Bosch, As Tentações de Santo Antão, que faz parte da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga. Tal como as pinturas de Bosch, o universo de Borges é povoado de sonhos, delírios, labirintos, geometrias obscuras, referências a espelhos, animais, abismos e a textos apocalípticos.

 

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CANÇÕES & HISTÓRIAS - Assim de repente, sem grandes avisos prévios, Taylor Swift saíu-se com novo álbum, o oitavo da sua carreira, intitulado “Folklore” e que é uma colecção de 16 canções simples, directas, narrativas, que são do melhor que ela tem feito ao longo da sua carreira. A realidade é que Swift aproveitou o confinamento para se dedicar a este projecto, que é publicado um ano depois de o anterior álbum, “Lover” ter sido aclamado. Mas este é melhor, mais canções com história, mais envolventes, mais fortes. Guitarra acústica e piano são dominantes neste “Folklore”, que em grande parte foi feito em conjunto com o guitarrista dos National, Aaron Dessner. Com os planos de 2020 alterados devido à pandemia, Swift à falta de concertos,  começou a escrever estas pequenas histórias que resultam tão bem e gravou-as. Além de Dessner, numa das canções há a participação de Bon Iver em “Exile” - um dos momentos incontornáveis do disco e também do seu tradicional colaborador Jack Antonoff. O que não falta neste álbum são boas canções, como “The Last Great American Dinasty”, “Seven”, “August”, “Invisible String”, “Betty” ou “Hoax”, para só citar algumas mais marcantes. Mas o mais extraordinário é a qualidade de todas as canções, a riqueza do seu conteúdo, a simplicidade da música - uma combinação rara nos dias de hoje. Há quem já tenha escrito que este é o seu melhor disco e é bem possível que seja assim. Disponível no Spotify.

 

PETISCOS - O take away entrou definitivamente nos nossos hábitos e agora começam a surgir mais empresas que confeccionam e entregam elas próprias a comida que preparam sem terem porta aberta para a rua. Francisco Completo tem uma carreira na restauração com casas como a Tasca Urso, a Tasca República, o Ah! e o Veneno. Agora criou o “Despacha-te Xico”, que confecciona diversos pratos que depois entrega. Os pedidos podem ser feitos na página facebook.com/despachatexico/ ou no instagram em despachatexico - em ambos podem consultar o menu, que em breve será alargado. Não há ponto de venda, a entrega é feita na morada indicada pelo cliente todos os dias das 10,30 às 20,30, num círculo alargado dos concelhos da grande Lisboa - a encomenda deve ser feita de véspera. As tartes são a sua especialidade - de pato, de requeijão e espinafres, de perdiz, de camarão, de galinha do campo e de bacalhau, além dos pastéis de massa tenra de lombo de novilho. Há várias sobremesas e vinhos alentejanos, da Espargueira. Recentemente tive ocasião de testar o serviço e provar a tarte de bacalhau, acompanhada de ervilhas à francesa. Foi tudo entregue em casa no horário combinado, a tarte deu bem para seis convivas e todos elogiaram o petisco, ervilhas incluídas. Os preços são honestos, mas destaco que a confecção é apurada e que a matéria prima (no caso o bacalhau) era boa e abundante. Coisinha para repetir - ou ir experimentando outras variedades. 

 

DIXIT - “Ouço professores catedráticos dizerem coisas que antes ouvia dizer a abades minhotos” - Pedro Mexia.

 

BACK TO BASICS - “Quando pedimos um conselho geralmente é porque procuramos um cúmplice” - Marquis de la Grange

 







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POLÍTICOS ESFEROVITE - Quando fiz o liceu gostava da disciplina de trabalhos manuais, aprendi lá uma série de coisas que me têm sido úteis ao longo da vida. Uma delas foi trabalhar com esferovite. Cedo descobri que é um material que se desfaz com facilidade e que se derrete quando se aplica cola celulósica para juntar pedaços. Ocorreu-me que há uma enorme semelhança entre políticos e esferovite. Sabem porquê? Quando os políticos não têm ideias e se desfazem em palavreado incongruente, qual o material que me vem à cabeça ? A mim parece -me que a esferovite domina a política portuguesa. O partido com maior dose de dirigentes esferovite parece-me ser o PSD e estou em crer que Rui Rio é o rei da esferovite - desfaz-se por pouco, derrete-se cada vez que se quer colar a Costa. Pelo caminho que as coisas levam, segundo vou lendo, está a comprar uma cola especial para se juntar a André Ventura e ao Chega. É o mais rápido caminho para se dissolver de vez. Rui Rio tem tido uma habilidade invulgar em destruir os valores da marca PSD - já na Câmara Municipal do Porto tinha dado sinais disso e agora como Presidente do partido tem mesmo excedido essa capacidade. Ele é um homem que se gaba de não olhar para a ideologia, de preferir andar aos zigue-zagues a percorrer linhas rectas e despreza a estratégia a favor da táctica. É sério candidato a ganhar o oscar de pior dirigente partidário desde 1974. Por estes dias Artur Torres Pereira, um respeitado autarca e quadro social-democrata, deu uma entrevista cujo título diz tudo sobre Rui Rio, que frequentou em novo uma escola privada alemã: “Rio devia ter frequentado uma boa escola pública portuguesa”. Não é preciso dizer mais nada.

 

SEMANADA - As consultas presenciais nos centros de saúde sofreram uma quebra de três milhões entre Março e Maio; este foi o mês de Julho com mais mortes em 12 anos e o covid-19 só explica 1,5% dos óbitos;  o aumento de óbitos em julho foi de 26% face ao mesmo mês de 2019 e especialistas apontam falhas no acesso aos serviços de saúde por causa da pandemia e a onda de calor como as principais causas; o número de veículos detectados em contramão nas autoestradas subiu 37% em 2019; segundo a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares, a impossibilidade de suportar os encargos habituais, nomeadamente pessoal, rendas, energia e fornecedores, leva 43% das das empresas de restauração e bebidas em Portugal a ponderar a insolvência a curto prazo; mais de cem câmaras municipais foram multadas por falta de limpeza do mato; até final de Julho chegaram ao Portal da Queixa mais de 9 mil reclamações relacionadas com compras online, um aumento de 213%; devido à pandemia a Mealhada já cancelou os desfiles do Carnaval de 2021; segundo o Instituto Nacional de Estatística 644 mil pessoas não trabalharam no emprego principal nem em casa nem em outro local durante a pandemia e 23,1% da população empregada trabalhou a partir de casa durante esse período; as emissões de dívida pública portuguesa no primeiro semestre do ano atingiram 97,7% do inicialmente orçamentado para todo o ano, totalizando 9693 milhões de euros.

 

ARCO DA VELHA - Na Figueira da Foz uma mulher tentou pegar fogo ao marido, depois de o regar com um líquido combustível, no seguimento de uma discussão conjugal.

 

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ESCULTURAS ANIMADAS -  Na Grã-Bretanha foi criado no início dos anos 80 um movimento chamado New British Sculpture e Julian Opie é, entre os artistas que lhe estão ligados, um dos mais conhecidos. Ganhou notoriedade na década de 80 e o seu estilo foi evoluindo, primeiro de silhuetas de metal para mais tarde utilizar figuras feitas em painéis luminosos com um traço minimalista. Até final do mês de Agosto pode ver obras inéditas do artista no Museu Colecção Berardo numa exposição onde as crianças são bem vindas e que pode ser uma boa porta de entrada no mundo da arte contemporânea. As obras estão expostas nos pátios e jardins interiores do CCB e nas galerias dedicadas à arte contemporânea do Museu. Esta é a primeira exposição individual de Julian Opie em Lisboa e a maioria das obras que se apresentam no Museu Coleção Berardo foram produzidas especificamente para esta exposição e galeria, permitindo tirar partido das paredes de oito metros de altura e também do teto, ainda mais alto. As pessoas são o tema central da exposição, retratadas de várias formas e com vários materiais: ora estáticas, ora em movimento; ora pintadas, ora esculpidas. Também há lugar para alguns edifícios e animais, por forma a alargar a temática. Na segunda sala, diferentes animações de computador usam LED intermitente para mostrar pombos estilizados pulando sem rumo e saltando de uma tela para a outra. Para a última sala, foi produzida uma instalação gigantesca que, com inspiração na belíssima Torre de Belém, nos remete para a arquitetura manuelina. O serviço educativo do Museu possibilita visitas orientadas e atividades para escolas e famílias, podendo as marcações ser feitas pelo telefone 213 612 800.

 

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A CONQUISTA DE  PARIS - Para assinalar os 100 anos de Amália Rodrigues, a Valentim de Carvalho lançou mais uma cuidada edição  do espólio da fadista, organizada por Frederico Santiago, e que inclui várias raridades e inéditos. Trata-se da caixa "Amália em Paris",  composta por cinco discos gravados ao vivo e um livro de 94 páginas com fotografias raras, uma cronologia das actuações de Amália na capital francesa, e um texto do historiador Jorge Muchagato que enquadra a época em que estas gravações foram feitas e o ambiente que se vivia na capital francesa. O primeiro disco foi gravado no Olympia em 1956, o segundo reúne registos ao vivo inéditos feitos pela rádio francesa entre 1957 e 1965, o terceiro tem um recital inédito no Olympia em 1967 e, por fim, um disco duplo com a gravação, também  inédita, de um espectáculo nessa mesma sala em 1975. Ao todo são 88 faixas. Frederico Santiago recorda que em meados dos anos 50 Amália já tinha ido actuar ao Brasil frequentemente desde 1944, recorda as suas actuações nos concertos do plano Marshall em 1950 e as séries de espectáculos em nova Iorque e no México em 52, 53 e 54. Mas, sublinha, “foi o triunfo parisiense, em 1956, que fez o mundo de então reconhecer em Amália uma das maiores cantoras do século.” Quando Amália se apresentou em Abril de 1956 no Olympia de Paris, deparou-se com um público culto e sofisticado habituado a grandes nomes internacionais, mas também com um mundo que renascia das cinzas de 1945, com toda a esperança que a prosperidade do pós-guerra permitiu. “Foi esse público que a arte e a coragem de Amália tocaram tão profundamente. E digo coragem porque Amália mostrou-se a essa plateia, tão rigorosa e exigente, com uma arte arriscada e autêntica, sem orquestrações ou coreografias, sem muletas. Apenas uma guitarra e uma viola. Apenas a voz e o negro. Negro no vestir, no cabelo, no olhar” - assim resume Frederico Santiago a forma como Amália conquistou Paris. Disponível em caixa de CD’s e no Spotify.

 

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RELATOS DOS PALCOS DO ROCK’N’ROLL - O mais recente livro de Patti Smith começa na noite de fim de ano, após um concerto na mítica sala do Fillmore em São Francisco, com a chegada da cantora ao motel Dream Inn em Santa Cruz, Califórnia, no início de um novo ano:  terminava 2015 e 2016 ía começar,  Patti Smith iria fazer 70 anos e continuava na estrada a fazer concertos, a recitar poesia e a fazer as suas declarações políticas entre canções, cada vez mais intensas. Este livro, “O Ano do Macaco”, publicado originalmente em 2019 e agora editado em Portugal numa boa tradução de Hélder Moura Pinheiro, é um registo itinerante do que Patti Smith sentia ao longo da digressão, dos episódios que mais a marcaram, desde a morte de amigos ao recordar de canções dos Grateful Dead, entre concertos e noites de sono leve em quartos de hotel. Este “O Ano do Macaco” é já  o seu terceiro livro de memórias, que como sempre inclui fotografias feitas pela própria Smith, conversas imaginadas e citações como esta, de Gerard de Nerval: “o sonho é uma segunda vida” ou ainda esta de Antonin Artaud: “abate-se sobre o mundo uma loucura fatal”. E é entre estas duas citações que a narrativa se desenvolve, com uma meditação sobre a morte, a política e a arte. O livro relata uma sua passagem por Portugal em 2016, quando tocou no Coliseu de Lisboa, e depois fez uma visita à casa Fernando Pessoa e se sentou na Brasileira do Chiado a tomar um café, bebida que ela adora. De Lisboa, Patti Smith  diz que é «a cidade ideal para nos deixarmos levar pelo tempo». O livro começa depois de um concerto em S. Francisco e  é lá que acaba, mais uma vez no Fillmore, depois de correr mundo. «Subimos ao palco na esperança de que o entusiasmo que vamos pôr na nossa atuação possa dar às pessoas alguma alegria», assim resume ela a sua vida.



DESILUSÕES RESTAURATIVAS - Quando os restaurantes começaram a abrir, após o confinamento, procurei voltar aos locais que mais me agradavam. Um dos primeiros a que regressei foi ao Nómada, onde a equipa de sempre me serviu bem e a refeição correspondeu. Algum tempo depois voltei lá, num contexto diferente, de um almoço de trabalho com mais duas pessoas, e tive uma das piores experiências de serviço da minha vida. Um empregado que ficava melhor a vender carros avariados em segunda mão, e que por felicidade nunca antes me havia surgido à frente, resolveu alterar todo o pedido que já tinha sido feito ao empregado que primeiro nos atendeu e, para além de uma sugestão que foi aceite, adicionou pedidos sem avisar nem alterar os anteriores, num abuso que, creio, tem até a ilegalidade de colocar em cima da mesa o que não havia sido pedido. Assim se estraga a confiança que havia sido depositada num restaurante - e a culpa não foi da cozinha nem do atendimento inicial. Fica-se com a impressão que o objectivo agora é aumentar as facturas, sem olhar a meios. Nesse dia o Nómada foi uma desilusão e a minha confiança nele ficou bem abalada. Nunca me tinha acontecido, lá ou em outro restaurante. São estes incidentes que me fazem gostar ainda mais dos locais onde não tenho más surpresas, dos valores seguros. 

 

DIXIT - “Eu digo tudo nas linhas e quase nada nas entrelinhas” - Marques Mendes

 

BACK TO BASICS - “Se uma pessoa começa por ter certezas acaba a ter dúvidas, mas se começar por ter dúvidas terminará a ter certezas” - Sir Francis Bacon

 





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