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A TEMPESTADE QUE VEIO DOS AÇORES

por falcao, em 30.10.20

 

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MAU TEMPO NO CANAL - No fim de semana passado o anticiclone dos Açores extravasou da meteorologia e entrou na política. Após décadas de domínio do PS, surgiu nos votos uma maioria que teoricamente pode fazer uma geringonça à direita. Se isso vai ou não acontecer é outra história. Mas, para memória futura convém registar que, coerente como é hábito, o autor da geringonça em exercício, António Costa, veio logo dizer que o mais votado no arquipélago foi o o PS, cabendo-lhe portanto o governo regional, num extraordinário exercício de amnésia sobre a forma como chegou ao poder apesar de ter perdido em votos para Passos Coelho em 2015. Em abono da verdade deve dizer-se que em 1998 essa incontornável figura do golpe palaciano que foi o Presidente Jorge Sampaio também recusou ao líder do PSD dos Açores de então, Carlos Costa Neves, a possibilidade de avançar para um governo suportado numa maioria do parlamento regional que não incluía o PS, que tinha sido o partido mais votado, mas não tinha a maioria absoluta dos deputados. Como se sabe, apesar das reticências colocadas na época, Cavaco não seguiu o exemplo de Sampaio e permitiu que o PS, com o Bloco, PCP e anexos fosse Governo. Escrevo estas linhas para que a memória não fique desvanecida na espuma dos dias, agora que o perfume da crise política percorre de novo os corredores do parlamento graças à disputa entre PS e Bloco de Esquerda. O que se passou nos Açores é um sinal de que há espaço para a mudança. E que o mau tempo pode chegar dos Açores ao Continente.

 

SEMANADASegundo o estudo da Marktest sobre a utilização da internet, não há diferenças entre os dois géneros no perfil dos utilizadores de redes sociais portugueses,  onde dois em cada três utilizadores têm menos de 45 anos e a maioria (54%) pertence às classes sociais mais altas, enquanto 36% reside nas regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto; em 2020 já foram identificados 6492 condutores com cartas de condução caducadas; uma sondagem divulgada esta semana indica que 85% dos portugueses são a favor do uso obrigatório de máscara na rua; António Costa acusou o Bloco de ter desertado da esquerda mas manifestou esperança no seu regresso; em Lisboa regista-se um aumento de furtos nomeadamente nas zonas de Belém e Areeiro; as próximas eleições presidenciais terão um custo para o Estado de 3,5 milhões de euros e as autárquicas deverão ultrapassar os 39 milhões; o grupo de peritos nomeados pelo Governo diz ser urgente uma revisão completa dos programas em todos os ciclos de escolaridade; 80% dos imóveis públicos vendidos nos últimos 11 anos foram alienados pelos governos de Sócrates; na proposta de Orçamento de Estado para 2021, entre a entrega da proposta e a votação, o Governo voltou a negociar com os partidos, mostrando abertura para medidas na especialidade que deverão custar pelo menos mais 300 milhões de euros; dos 740 aeroportos comerciais europeus perto de 200 estarão à beira da insolvência se o tráfego aéreo continuar reduzido, ameaçando mais de 250 mil postos de trabalho.

 

ARCO DA VELHA -  A proposta de Orçamento de Estado para 2021 contempla dez mil milhões de euros em “despesas excepcionais” não indicadas, gastos camuflados que representam cerca de 10% da despesa pública anual prevista, um aumento de 50% face a 2020.

 

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OÁSIS RIBEIRINHO -  No MAAT pode ver a partir desta semana e até 18 de Fevereiro a exposição “Um Oásis Ao Entardecer”, que assinala o 20º aniversário dos prémios Fundação EDP, mostrando o trabalho de 20 artistas, com 70 obras.  Lourdes Castro foi a primeira premiada em 2000 e nos anos seguintes seguiram-se Mário Cesariny, Álvaro Lapa, Eduardo Batarda, Jorge Molder, Ana Jotta, Artur Barrio, Joana Vasconcelos, Leonor Antunes, Vasco Araújo, Carlos Bunga, João Maria Gusmão+Pedro Paiva, João Leonardo, André Romão, Gabriel Abrantes, Priscilla Fernandes, Ana Santos, Mariana Silva, Claire de Santa Coloma e Diana Policarpo em 2019. João Pinharanda, que esteve na génese da iniciativa, sublinha que “os prémios são uma sala de espelhos na qual podemos ver multiplicadas algumas das possibilidades de entendimento da arte portuguesa ou feita em Portugal ou feita por artistas portugueses no mundo”. Inês Grosso e Rosa Lleó curadoras da exposição, afirmam que “Um Oásis Ao Entardecer” lança “um olhar para o futuro apontando para os desafios que nos esperam num mundo que sabemos transformado para sempre”. A exposição recorre a obras existentes na colecção da instituição e também a novas encomendas feitas pela Fundação EDP e junta os vencedores do Prémio Novos Artistas e do Grande Prémio Fundação EDP Arte. Outro destaque: no Atelier-Museu Júlio Pomar, abriu há dias a exposição “Os retratos”, que estará patente até 28 de Fevereiro de 2021. É uma mostra da exploração de Pomar do género do retrato ao longo de 70 anos (de 1940 até 2018, ano da sua morte). A exposição percorre as diversas fases da carreira do pintor, do neo-realismo do início de carreira a representações de caráter mais modernista, além de retratos de diversas personalidades nacionais e estrangeiras e também diversos auto retratos do pintor ao longo da vida. Entre os retratados nacionais estão nomes como Fernando Pessoa, Camões, Almada Negreiros e nos internacionais Baudelaire, Dante ou Samuel Beckett, entre outros.

 

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UMA CARTA MUSICAL - No dia 23 de Setembro Bruce Springsteen fez 71 anos. Lançou o seu novo disco nesse dia, “Letter To You”, com três temas inéditos, mas antigos, num total de 12 canções gravadas ao vivo em estúdio com a E Street Band, em Novembro de 2019. Não é por acaso que Springsteen lança um disco que é uma espécie de regresso aos seus manifestos do tempo de “Darkness On The Edge Of Town”, a pouco tempo das eleições presidenciais dos Estados Unidos. Nem é por acaso que autorizou canções suas em anúncios de televisão anti-Trump. O disco é uma viagem ao passado com evocações do presente, alguma parte dele a evocar a sua banda de adolescente, Castile e um dos seus companheiros da altura, que morreu recentemente, George Theiss - “The Last Man Standing”. Este era o disco que o guitarrista Steven Van Zandt andava há anos a insistir junto de Bruce para ser feito. É um registo cru - dois dos temas antigos,  “If I Was the Priest, e Janey Needs a Priest são dos mais poderosos. Na canção título, é deixado o recado- In my letter to you/ I took all my fears and doubts/ In my letter to you All the hard things I found out/ In my letter to you/All that I've found true”. Este álbum, uma hora e pouco de música, é uma conversa com a E Street Band que se desenvolve há mais de quatro décadas, e foi feito e gravado no estúdio da casa de Springsteen, em meia dúzia de dias com canções onde coexistem os comboios, os rios, os subúrbios e os amores e desamores que são a base do cancioneiro de Springsteen. Disponível no Spotify.

 

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ENSAIO FOTOGRÁFICO - Uma das áreas mais afectadas nos mídia nos últimos anos é a imprensa. Perderam-se receitas de venda e de publicidade e em consequência as reportagens extensas quase desapareceram e com elas os ensaios fotográficos. O fotojornalismo perdeu terreno, paradoxalmente numa época em que a imagem é cada vez mais usada noutros meios. Felizmente surgiram publicações que procuram retomar a importância da reportagem, da abordagem de temas de forma mais profunda e com recurso a imagem, sob a forma impressa. É nessas publicações que o ensaio fotográfico tem  ressurgido. Se a imagem do momento e do acontecimento continua a ser importante, a forma como a fotografia consegue abordar e mostrar um tema de forma abrangente é igualmente importante. “Point.51” é uma publicação de periodicidade anual, que desde o outono de 2018 percorre esse caminho. Os primeiros dois números foram dedicados aos fluxos migratórios e aos problemas que levantam e à situação criada no Reino Unido com o Brexit e tudo o que o envolve. A edição deste ano tem por tema a resiliência, “histórias de coragem em tempos difíceis” e espelha o que se tem passado ao longo destes últimos meses.

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Na edição de Outubro deste ano há um dossier fotográfico, “Cuidador”, trabalho espantoso e perturbante de Teresa Nunes, uma fotojornalista do Porto, que documenta o que é a realidade dos cuidadores informais a partir de um exemplo familiar. Com formação em direito e em fotografia, Teresa Nunes escreveu também o texto que acompanha as imagens que se estendem por 12 páginas da publicação. Teresa Nunes decidiu dedicar-se à fotografia, abandonou a carreira de advocacia, e tem fotografado para a imprensa local, mas também para publicações nacionais como o “Expresso” e o “Observador”. Podem segui-la no Instagram @teresanunesphotography ou no seu site www.teresanunesphotography.pt  Este terceiro número da Point.51 tem histórias de coragem e de resistência de toda a Europa, desde os países nórdicos à Albânia, passando por Espanha, Rússia ou Alemanha. A Point.51 pode ser comprada online, por exemplo através da página de Facebook da publicação.

 

COMIDA RÁPIDA- Para a série comidas do confinamento  hoje tenho uma nova sugestão. Os bolos do caco, de inspiração açoriana, são a melhor versão portuguesa para suporte de sanduíches robustas. O meu conselho é que barrem cada metade com uma mistura de maionese e mostarda, polvilhada de cebolinho e temperada com açafrão. Por cima de cada uma das metades coloque fatias finas de pepino cru, queijo da ilha de S.Miguel, com um toque de compota de pimenta da terra antes de colocarem fatias de presunto cortado finíssimo, com agrião a separar as duas metades. O essencial é que tudo seja cortado muito fino, bem espalhado em várias camadas. O segredo de uma boa sanduíche, não é demais repeti-lo, reside na base escolhida para barrar o pão, no corte fino e na abundância dos ingredientes escolhidos.  Assim todos os sabores são realçados. A ideia de que uma fatia transparente de fiambre de má qualidade e uma fatia irregular de queijo plástico são a base de uma sanduíche é um dos pecados nacionais. Deixo ao vosso gosto se querem aquecer um pouco o pão na torradeira, antes de iniciarem o processo. Eu pessoalmente prescindo. A coisa é bem acompanhada por uma cerveja preta robusta, a Sagres, na minha opinião, de entre as industriais, é a melhor. Garanto que isto vale por uma refeição completa, saborosa e reconfortante.

 

DIXIT - “Todo o governante que sugerir o despedimento de um comentador deve ser imediatamente despedido” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “Não temam ter opiniões exageradas, porque tudo o que agora é aceite como opinião já em tempos foi considerado exagero” - Bertrand Russell

 

 

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COMEÇOU O PERÍODO ELEITORAL - Passemos por cima do caso de diversão da semana que foi o topless presidencial.  Portugal tem certamente o maior número de casos de presidentes da república que se prestam a criar oportunidades fotográficas a subir a coqueiros, em calção de banho ou de tronco nu. Adiante nas distracções, vamos ao que interessa. Esta semana marca o início de um ciclo eleitoral com as eleições regionais dos Açores e Madeira, depois virão as presidenciais e, lá para o final do próximo ano, as autárquicas. Entrámos pois de facto num período de campanha eleitoral que se estende por um ano e não me consta que os protagonistas do assunto tenham tido vontade de aperfeiçoar o sistema político, o funcionamento dos partidos nem os processos eleitorais propriamente ditos. Com a abstenção nos números que se conhecem, ainda para mais numa conjuntura de pandemia, seria desejável que, em vez de se mostrar, o Presidente da República promovesse um debate sério sobre o assunto. Ao longo dos anos de exercício deste seu mandato não o fez, e é pena. É porventura a maior lacuna da sua actividade e, se as selfies ficam para a história, também a relutância de Marcelo Rebelo de Sousa em mudar o status quo ficará. Alguns países, como a Nova Zelândia, a Alemanha ou regiões do Reino Unido usam um sistema eleitoral misto em que cada eleitor dispõe de dois votos - um nominal para escolher o representante para o órgão a eleger e outro para indicar um partido político que considerem dever estar representado - pode nem ser o mesmo do candidato. Os lugares são preenchidos primeiro pelos candidatos mais votados e depois, os lugares sobrantes, são divididos pelos partidos concorrentes de forma proporcional aos votos obtidos a nível nacional ou regional. Assim os votos não se dirigem só a partidos políticos, mas a pessoas concretas e evidentemente que é mais fácil renovar os protagonistas políticos. O sistema tem a vantagem de privilegiar a confiança dos eleitores nos candidatos, em vez de se entregarem às máquinas partidárias. Temos ainda um longo caminho a percorrer, mas é sempre altura de o iniciar.

 

SEMANADA - Nos últimos cinco anos saíram do INEM 250 técnicos e as principais razões são os baixos salários e o risco na actividade, que levam muitos a abandonar logo no período experimental; 55% dos novos desempregados são trabalhadores precários; no Algarve o desemprego subiu 123%; no verão deste ano foram registados em Portugal menos 137 mil voos que no mesmo período do ano passado, uma quebra de cerca de 60%; quase 40% das empresas do distrito de Aveiro sofreram paragens devido à pandemia; o programa de acesso à habitação lançado pelo Governo há dois anos só executou 8% das verbas disponíveis; empresas chinesas de máscaras e equipamento hospitalar foram as principais fornecedores de serviços de saúde oficiais portugueses durante a pandemia; 253 ventiladores importados da China ainda não foram distribuídos aos hospitais do SNS porque aguardam inspecção; segundo a Marktest mais de quatro milhões de portugueses ouvem música online, com o YouTube em primeiro lugar e o Spotify em segundo a serem as plataformas mais usadas; a maioria dos contágios verificados em estabelecimentos do ensino superior foram causados por festas relacionadas com o programa Erasmus; cinco profissionais de saúde sofrem agressões todos os dias; o diretor nacional da Polícia Judiciária admitiu ter poucos inspectores e peritos para combater eficazmente a corrupção; a Câmara Municipal de Trofa é acusada de ter gasto quase 75 mil euros em votos telefónicos num concurso da RTP para eleger os Santeiros de S. Mamede do Coronado como uma das “7 Maravilhas da Cultura Popular”.

 

ARCO DA VELHA  - No serviço de Psiquiatria do Hospital de Viseu foram detectados ratos e serpentes.

 

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OUSADIA E TALENTO - A mais surpreendente e disruptiva exposição que me foi dado ver nos últimos meses está na Galeria Valbom , KWZero, feita pelo colectivo com o mesmo nome constituído por Manuel João Vieira, Pedro Portugal e Pedro Proença. O título é um tributo aos artistas do grupo KWY dos anos 50/60 do século XX e à Alternativa Zero, de Ernesto de Sousa. Vieira, Portugal e Proença são companheiros de longa data em aventuras como o Movimento Homeoestético. Nesta exposição, que se estende nos dois pisos da Valbom, são apresentados mais de seis dezenas de  objectos, esculturas, instalações, desenhos, aguarelas, fotografias, pinturas e videos, que na inauguração foram complementados por uma performance. Manuel João Vieira, Pedro Proença e Pedro Portugal, em nome próprio ou com as identidades alternativas que escolheram, complementam-se, não só na linguagem visual que cada um utilizou, mas também na abordagem criativa que desenvolvem. entre o humor e a provocação. As obras são desafiantes muitas vezes mas nunca desprovidas de sentido nem meramente exibicionistas ou gratuitas. Em paralelo com as intervenções e criações mais provocadoras estão trabalhos que mostram o talento e a criatividade de Manuel João Vieira,  Pedro Portugal ou Pedro Proença, desde quadros de grandes dimensões a óleo, até  esculturas e uma série de aguarelas, muitas das obras com um sentido de observação do presente, evocando mesmo, por exemplo, a  linguagem visual contemporânea de símbolos como os emojis. A exposição fica patente até 12 de Dezembro na Galeria Valbom, avenida Conde de Valbom 89A, entre as 13 e as 19h30, de segunda a sábado.

 

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O FADO VADIO  - Para além de artista plástico, Manuel João Vieira é verdadeiramente um músico dos sete instrumentos. Esta faceta musical tem uma particularidade rara - que é um grande conhecimento de diversos repertórios antigos, não só da música portuguesa, mas também do cancioneiro popular de outros países como a Itália , a França ou os Estados Unidos. Manuel João Vieira é um apaixonado pela canção, os clássicos românticos e os temas brejeiros. A maneira como os canta é sempre subversiva e muito própria. Desta vez, no novo disco “Anatomia do Fado”, atirou-se a este género musical, recorrente na sua actividade ao longo dos últimos anos. “Anatomia do Fado” é um CD duplo, editado pelo Museu do Fado, que inclui 32 faixas. Há numerosos temas originais de Manuel João Vieira e versões como a que fez, por exemplo “A Estação das Chuvas”, baseado em “La Saison Des Pluies” de Serge Gainsbourg. E clássicos como “Fado Boi” de Frederico Valério, “Duas Mortalhas” de Linhares Barbosa ou “Amor É Água Que Corre”, de Alfredo Duarte ou “Procuro E Não Te Encontro”, de Nóbrega e Sousa. E, depois, há os fados humorísticos, em grande parte do repertório original de Joaquim Cordeiro que Manuel João Vieira descobriu em discos que foi comprando ao longo dos anos na Feira da Ladra. A capa do disco reproduz um pormenor do quadro “Fado Vadio”, do pintor João Vieira, pai de Manuel João e ele próprio um apreciador de fado e da canção tradicional, que gostava de cantar e gravou até um disco de boleros. O livrinho que acompanha o disco tem desenhos do próprio Manuel João Vieira, que nas gravações canta e toca bandolim, acompanhado por Vital da Assunção na viola, Arménio de Melo na guitarra portuguesa, Múcio Sá no baixo e viola e Sandro Costa também na guitarra portuguesa nalguns temas. Manuel João Vieira não é um fadista, é um músico que canta o que lhe dá gozo, com um enorme sentido de humor e um jeito entre o brejeiro e sentimental. É raro hoje em dia  encontrar um disco tão divertido e sentido. Esta edição pode ser encontrada nas lojas da FNAC.

 

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ENTRE AS PALAVRAS E A IMAGEM  - Mário Cesariny é personagem marcante da cultura portuguesa do século XX e distinguiu-se na escrita, nomeadamente na poesia, mas também como artista plástico. Prosseguindo a recuperação da obra do autor, a Assírio & Alvim editou agora “Poemas Dramáticos e Pictopoemas”. Na primeira parte, que agrupa os poemas dramáticos,  estão reunidos textos não constantes de recolhas anteriores, como as peças “Consultório do Dr. Pena e do Dr. Pluma”, “Um Auto para Jerusalém”, “Titânia” e o guião cinematográfico “A Norma de Bellini”. Esta edição de “Poemas Dramáticos e Pictopoemas” inclui ainda três peças nunca antes publicadas em livro: “Projecto de Rebelião”, “O Processo” e “Projecto não Terminado para Teatro Radiofónico”. A segunda parte, Pictopoemas, agrupa em mais de 200 páginas uma série de obras plásticas,, nomeadamente desenhos e intervenções acutilantes feitas a partir de recortes de imprensa, juntando títulos, por vezes imagens. Mário Cesariny foi um dos principais fundadores do movimento surrealista português, contemporâneo ao lado de Cruzeiro Seixas, de António Maria Lisboa ou Mário-Henrique Leiria, entre outros. Não resisto a terminar com uma citação da peça “Titânia”, que espelha bem como Cesariny olhava em redor: “O diabo português é o diabo mais grosseiro que há, nunca se definiu. Apesar disso, dura, e é dos mais temidos. Saiba-se lá porquê! Muito desconfio ser o nosso diabo coisa tão junta à cabeça de baixo que nunca chegará à cabeça de cima, esse nobre capitel onde se aninham Faustos, Margaridas e as Seduções do Espírito”.

 

COMIDA RÁPIDA- Ao fim destes meses de pandemia a imaginação culinária já não é famosa. De modo que me vou inspirando em receitas de algumas newsletters. Aqui fica uma ideia para uma refeição pouco trabalhosa e rápida - vou chamar-lhe lasagna aldrabada. Primeiro escolhem uns ravioli de massa fresca pré preparados, por exemplo de espinafres e ricotta. eu gosto dos fabricados pela Rana. Depois uma embalagem de molho de tomate pré-preparado de tomate e manjericão, pode ser da marca Barilla, que deitam num recipiente de ir ao forno (que entretanto já puseram a aquecer a 200 graus). Por cima deitam os ravioli, mexem bem para serem envolvidos e tapados pelo molho, colocam uma camada de queijo mozzarella às farripas, por cima mais, uma camada de raviolis, temperam com um pouco de pimenta a gosto e no fim colocam mais molho de tomate com manjericão, queijo parmesão ralado numa quantidade generosa e levam ao forno quinze minutos, com o grill ligado nos últimos cinco. Está pronto. Bom apetite.

 

DIXIT - “Porque razão gostam tanto do povo e tão pouco do público” - António-Pedro Vasconcelos sobre a oposição à nova Lei do Cinema.

 

BACK TO BASICS - “Todas as gerações se imaginam mais conhecedoras que aquelas que a precederam e mais sábias que as que lhe vão suceder” - George Orwell

 




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UM DESTINO INCERTO

por falcao, em 16.10.20

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SINAIS CONFUSOS - Este ano tenho viajado cá dentro - quer dizer, tenho sobretudo andado por diversos pontos do país, de carro. Ao longo de todas as viagens deparei-me com um fenómeno constante: a sinalização e as indicações de destinos existentes nas estradas não são coerentes no espaço de poucos quilómetros, quase sempre são confusas e serão muito adequadas para quem conhece a estrada mas completamente inúteis para quem por lá passa pela primeira vez. Não creio que fosse muito difícil garantir que uma direcção se mantivesse presente, em vez de surgirem variantes que só servem para baralhar. Mas há uma novidade, vinda aliás do Governo e do Parlamento. A proposta de orçamento de Estado para 2021 parece uma estrada mal sinalizada. Surgem indicações contraditórias, há falta de consistência na informação, contradição entre as narrativas dos destinatários. E, o destino apresenta-se incerto: Bloco faz ultimatos, PCP esconde-se num tabu, o PAN baralha as contas, o PSD perdeu o GPS e não sabe para onde há-de ir, o PS ameaça com crise política e o Presidente da República coloca sinais de STOP por todo o lado, baralhando ainda mais o trânsito. A verdade é esta: o percurso está difícil, a viagem é acidentada e falta descobrir qual a melhor saída para o país prosseguir viagem. 



SEMANADA - Os gabinetes dos 70 membros do Governo actual têm ao seu serviço 1236 pessoas, um recorde desde 2011; as consultas de jovens até aos 19 anos motivadas por Covid-19 aumentaram de 2500 para 12500 por semana nos centros de saúde durante Setembro, o mês do regresso às aulas; quase metade do orçamento previsto para o Ministério da Cultura destina-se à RTP e RDP; um relatório da Transparência Internacional afirma que Portugal falha na aplicação da lei contra a corrupção no comércio internacional; nos primeiros nove meses deste ano nasceram mais bebés no Porto e menos em Lisboa; em 2020 aumentou o número de divórcios em relação ao ano anterior; no Orçamento de Estado para 2021 a receita prevista com taxas e multas cresce 35,2% para um total de 3175 milhões de euros; as taxas de notariado, registo predial, comercial e civil sobem mais de 200%; uma inspectora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras terá processado mais de seis mil vistos fraudulentos para uma rede de imigração ilegal que atingiu também funcionários da Autoridade Tributária e da Segurança Social; segundo o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, desenvolvido pela Marktest, o TikTok, que este ano é analisado pela primeira vez, entrou diretamente para a quinta posição, atrás do Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp que ocupam as quatro primerias posições.



NOTÍCIAS DO EIXO BELÉM-S.BENTO - Um erro na proposta de Lei do Orçamento motivou sobressaltos em Belém: previa-se para 2021 uma dotação para a Presidência da República que era o dobro da verificada em 2020, mas afinal era um erro e o valor para o próximo ano é o mesmo do ano em curso.

 

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SALA DE DESENHO -  Até domingo dia 18 vale a pena passar na Sociedade Nacional de Belas artes (Rua Barata Salgueiro, Lisboa), para descobrir trabalhos em papel que 20 galerias aí apresentam em mais uma edição de “Drawing Room”, um projecto focado no desenho contemporâneo em papel que junta 20 galerias portuguesas e estrangeiras. Em destaque estão galerias como as Salgadeiras, a Balcony, a Belo-Galsterer, a Módulo, Filomena Soares. 111, Fonseca Macedo e a Monumental, entre outras. José Loureiro, Sara Mealha, Paula Rego, Rita Gaspar Vieira, Francisco Mendes Moreira, Pedro Calapez, Sara Bichão, Paulo Brighenti, Pedro Barateiro, António Olaio, Rui Horta Pereira, Alexandre Conefrey, Jorge Queiroz e Manuel San Payo são alguns dos mais de cinquenta artistas que expõem e vendem as suas obras, através das galerias que os representam, nesta iniciativa que se realiza desde 2018. A Drawing Room foi o palco para a atribuição a Pedro Calapez do Prémio Projecto Artístico Destacado, atribuído pela Fundação Millennium. Outras sugestões: na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva pode ir  ver as obras feitas nos anos 70 por Eduardo Batarda; e no Museu Berardo há uma exposição incontornável, o Projecto MAP, um exaustivo trabalho de  pesquisa e mapeamento do universo da arte contemporânea em Portugal, que inclui obras dos artistas, conversas gravadas com eles, documentação que pode ser recolhida ao longo do percurso da exposição  (que tem uma muito boa montagem)  e guardada no final num pequeno dossier que acaba por ser um catálogo. Desenvolvido pela Associação Cultural Colectivo de Curadores, com a direcção de Alda Gaslterer e Verónica de Mello, esta exposição que mostra o trabalho de investigação e recolha feito ao longo de uma década e que pode ser visto até 10 de Janeiro.

 

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UMA GUITARRA NO JAZZ - “Conspiracy” é o nome do novo álbum de estúdio do guitarrista Terje Rypdal, que se faz acompanhar de mais três músicos noruegueses - o teclista Stale Storlokken, o baixista Endre Hareide e o baterista Pal Thowsen, que o acompanham ao longo de seis novos temas naquela que é a mais coesa formação com que trabalhou ao longo dos últimos anos. Trata-se do trabalho mais interessante do septuagenário guitarrista, que nos  num passado próximo fez incursões com orquestras, coros e electrónica,alguns deles de má memória. Aqui Rypdal regressa aos ambientes de fusão que marcaram a fase mais importante da sua carreira. O ambiente sonoro sobrepõe-se à melodia e a faixa de abertura, “As The Ghost…Was Me!?” mostra claramente a escolha desse caminho. Aqui, como noutros temas, nota-se a complementaridade entre a guitarra, o baixo e a bateria, com os teclados a proporcionarem o pano de fundo ambiental. Vários destes temas podiam fazer parte de bandas sonoras e não há-de ser por acaso que de repente vêm à memória imagens de filmes de David Lynch. Na faixa que dá título ao disco, “Conspiracy”, o quarteto exemplifica de forma clara a proposta deste disco: uma ruptura com um passado recente e uma declaração enérgica de afirmação da identidade que se associa à imagem de um dos mais importantes músicos do jazz europeu e nórdico em especial. Disco ECM, disponível no Spotify.

 

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ALMANAQUE DA LUSITÂNIA - Este “Weekend” do “Jornal de Negócios” que estão a ler tem a data de 16 de Outubro, o dia em que abriu ao público a EXPO em 1998. No dia anterior, 15, assinala-se a data da publicação do primeiro número da revista “Seara Nova”, em 1921. E no dia 17, no ano de 1817, ocorreu a execução do tenente-coronel Gomes Freire de Andrade, condenado por liderar a conspiração contra Beresford e a regência. Todas estas informações, e muitas outras, estão no curioso no “Almanaque da História de Portugal”, elaborado pelo Professor José Martinho Gaspar e agora editado. Ao longo de cerca de 200 páginas são percorridas, mês a mês, as principais datas da História de Portugal - indicação dos acontecimentos, das figuras, dos locais, de curiosidades. Aqui aparecem as batalhas, os marcos da cultura, quem nasceu em determinado mês e quem mais o marcou ao longo dos séculos da nossa História. Há ainda um resumo dos principais acontecimentos de cada século e notas sobre a origem de diversas expressões associadas à nossa História. “Neste livro dão-se notícias do passado, a História não é senão isso” - escreve o autor na introdução a esta edição da Guerra & Paz.



FALTA DE AMBIENTE  - Aqui há uns anos cresceu um género de restaurantes que se baseou em conceitos, modas e muito trabalho de relações públicas, investindo nestas áreas mais do que naquilo que torna um restaurante uma experiência a repetir: conforto do espaço, ambiente, criatividade e bom senso, serviço, boa relação qualidade-preço. É muito difícil conjugar tudo isto e foram poucos os que o conseguiram fazer - e menos ainda os que o conseguem manter. Eu tinha razoável impressão de Marlene Vieira e lá decidi ir experimentar o ZumZum Gastrobar, o seu novo restaurante, localizado na Doca do Jardim do Tabaco, junto ao terminal de cruzeiros de Lisboa. O local é bom, o estacionamento é fácil (duas coisas simpáticas). Já a decoração deixa a desejar, insípida e algo desconfortável. Ambiente, numa noite de quinta-feira, não havia, mesmo descontando o Covid. O serviço é atento mas por vezes demasiado intrometido, o que se torna incómodo - por exemplo vieram explicar-nos que umas pipocas incompreensivelmente colocadas num ceviche se destinavam a diminuir a pegada ambiental, evitando a importação de milho do Peru. O Ceviche de espadarte devia ter o peixe fatiado mais fino, podia bem dispensar o maracujá e as cinematográficas pipocas. No couvert os chips de moreia não resultaram e acabavam por ser desagradáveis, salvou-se o pão e a manteiga, anunciada como sendo dos Açores (mas amolecida demais). Os dois pontos mais positivos foram as filhós de berbigão à Bulhão Pato e a Mini Sanduíche de Rosbife em bolo lêvedo com maionese de beterraba. As sobremesas ficaram muito aquém das expectativas com um arroz doce que se anunciava como uma original versão e que surgiu sem graça, e um enrolado de ananás dos açores demasiado doce. A boa localização, a esplanada que há-de ser agradável nos dias bons e o serviço de vinhos que correu bem, com boas propostas, não chegam para atenuar os lados menos bons. Mixed feelings sobre este ZumZum, mas não me apetece lá voltar tão cedo.

 

DIXIT - “Quando o primeiro-ministro não encontra forma de se refrear, e quando em Belém e na São Caetano à Lapa há mais cumplicidade do que contrapoder, é todo o sistema democrático que fica desequilibrado” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “Quase todas as pessoas suportam a adversidade, mas se quiserem testar o carácter de alguém, dêem-lhe poder” - Abraham Lincoln



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CONTAS POLÉMICAS - Foi com perplexidade que li que Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio indicaram, em sintonia com António Costa, o nome de José Tavares para Presidente do Tribunal de Contas. O facto de ele, enquanto quadro dirigente dessa instituição, poder ter auxiliado o Governo Sócrates a contornar as regras existentes no Tribunal cria no entanto uma dúvida: quem aceitou validar o nome de José Tavares não sabia dessa situação, ou sabia e decidiu que não era relevante? Nenhuma das situações abona em favor dos intervenientes. Parece que Marcelo Rebelo de Sousa se transformou de encantador de serpentes em engolidor de sapos. De Rio pouco se espera e já nos habituou a fazer jeitos a Costa. Percebemos agora que o Presidente, refém do receio de  uma crise política, dá jeitos de contorcionista para evitar problemas antes das próximas presidenciais. Claro que no meio disto fica por esclarecer como é que o perfil de José Tavares se enquadra no critério que o próprio Marcelo definiu em declarações públicas como necessário para o sucessor de Vítor Caldeira:  “exatamente com o mesmo grau de exigência no combate a conluios, compadrios e corrupções” que o anterior Presidente. Vitor Caldeira não era um burocrata de uma instituição: esteve por três mandatos à frente do Tribunal de Contas Europeu e no seu mandato no Tribunal de Contas português não hesitou em confrontar membros do Governo e autarcas, colocando reservas às suas actuações, o que lhe valeu críticas públicas de diversos membros destacados do PS. A razão da sua não recondução tem a ver com isso e não com outras questões. A Secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, já veio alertar para o facto de um escrutínio muito apertado da aplicação dos fundos poder inviabilizar a sua aplicação prática. Está tudo dito, não está? A não recondução dos incómodos passou a ser o procedimento. Quem se mete com o PS, leva - esse velho lema acaba de ter mais uma confirmação prática. Com a conivência deste Presidente da República.

 

SEMANADA - A dívida espanhola pode chegar a 120% do PIB no final do ano e a portuguesa poderá ultrapassar os 130%; em Portugal existem mais de 4300 taxas que são aplicadas a empresas e às famílias; em oito distritos fixaram-se no ano passado mais estrangeiros do que o número neles registado de nascimentos de bebés; mais de 10% dos bebés nascidos em todo o país são de mães de outras nacionalidades que não a portuguesa; são cobrados 30 milhões de euros por ano de uma taxa de gás que devia ter acabado em 2017 mas cujo fim não foi regulamentado; as vendas de vinho do porto caíram cerca de 40% entre janeiro e agosto;  no último ano foram roubados 270 carros por mês; o Banco Alimentar já está a apoiar 440 mil pessoas, mais 60 mil do que antes da pandemia; a dívida portuguesa deve ultrapassar os 130% no final do ano, enquanto a dívida espanhola pode chegar a 120%; um estudo recente sobre hábitos de leitura revela que 70% dos alunos do básico e secundário não leem por prazer, 31% nunca viu familiares a ler, 31,5% nunca ouviram contar histórias em família e 57% admitem que em casa existe uma relação distante com os livros e a leitura; segundo a Marktest cerca de 62% dos portugueses com mais de 15 anos, quase cinco milhões e meio de pessoas, usa serviços de mensagens instantâneas, o triplo dos que o faziam em 2013 e o valor sobe para 95% entre os 15 e os 24 anos; nos últimos cinco anos as dez maiores sociedades de advogados do país efectuaram contratos com entidades públicas no valor total de 30 milhões de euros. 

 

ARCO DA VELHA - A cientista Elvira Fortunato está há mais de um ano a tentar adquirir para o Centro onde trabalha um microscópio electrónico que custa dois milhões de euros, verba que provém de uma bolsa de investigação que ela própria ganhou e não consegue desbloquear por dificuldades burocráticas.

 

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FOTOGRAFIASTodd Hido é um dos nomes mais importantes da fotografia norte-americana contemporânea. Com uma actividade editorial intensa (já produziu 17 livros), Hido começou a expôr em finais dos anos 90 e a editar no início deste século. A sua série “House Hunting”, fruto de viagens pelos Estados Unidos onde se focou em imagens nocturnas de casas em paisagens rurais e de subúrbios, deu-lhe notoriedade e reconhecimento e é um dos pontos fortes da sua primeira exposição em Portugal, no Imago Photo Festival. Patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, a exposição inclui também trabalhos da sua nova série “Bright Black World”, na qual Hido sai das paisagens americanas e passa para paisagens desoladas do norte da Europa. A exposição inclui ainda imagens da série de nus e de retratos que fez em paralelo com a série House Hunting e ainda colagens recentes. A exposição de Todd Hido fica até 3 de Janeiro no MNAC. Outra exposição em destaque neste Imago é “Novas Visões na Fotografia Contemporânea”, que está dividida entre as carpintarias de São Lázaro e o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, ambas até meados de Novembro. Outra sugestão: na Fundação Arpad Szènes-Vieira da Silva Ana Vidigal apresenta “Arpad e As Cinco”, com obras feitas propositadamente para esta mostra e que evocam Maria Helena Vieira da Silva, Ana Vieira, Paula Rego e Lourdes Castro.

 

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SEGREDOS BERLINENSES - Em 1960 Ella Fitzgerald, então com 43 anos, actuou em Berlim e dos concertos realizados resultou um disco histórico na sua discografia - “Ella In Berlin, Mack The Knife”. Dois anos mais tarde, em 1962,  Ella regressou de novo a Berlim para mais uma série de concertos e Norman Granz, o seu empresário (e fundador da Verve Records, a histórica etiqueta de jazz), gravou-os como era seu hábito- umas vezes porque as usava para posterior transmissão em rádios, outras para material de base para novas edições. Mas desde que foram feitas, as fitas com as gravações dessa série de concertos berlinenses no mês de Março de 1962, no Sportpalast da cidade, estiveram desaparecidas. Coisa rara na época, quase há 60 anos, foram feitas gravações em mono e em stereo em simultâneo, o que agora permitiu um trabalho de fundo sobre os registos, que originalmente têm muito boa qualidade sonora. Foi dessas fitas que agora nasceu uma nova edição, em CD e duplo LP - “Ella, The Lost Berlin Tapes”. Ao todo são 17 temas, desde o histórico “Mack The Knife” a “Summertime”, passando por  “Cry Me A River”, um fulgurante “Cheek To Cheek”, e versões de “Someone To Watch Over Me”, e “Wee Baby Blues”, entre outros. Ella estava em grande forma vocal e foi acompanhada por Paul Smith no piano, Wilfred Middlebrooks no baixo e Stan Levey na bateria. O trabalho de recuperação das fitas e de produção foi agora dirigido por Gregg Field que trabalhou com Ella nos anos 80 - a cantora morreu em 1996, com 79 anos.

 

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UM POLICIAL ARREBATADOR - Duas situações cruzam-se neste policial: a reabertura de uma investigação do assassinato de uma familia quase inteira e o tráfico de armas. O cenário é a Suécia contemporânea e o pano de fundo da acção, que decorre em vários países, mostra um retrato duro do efeito que emigrantes vindos de cenários de guerra desencadeiam numa sociedade como a sueca, um tema aliás que tem sido recorrente em muitos dos romances policiais nórdicos dos últimos anos. De um lado um polícia à beira da reforma que decide reinvestigar um caso, do outro um ex-agente infiltrado que com ele trabalhou e que se vê envolvido numa guerra de gangs. O livro chama-se “A Aniversariante” e o seu autor é o sueco Anders Roslund. O nome vem do começo da história: uma menina é a única sobrevivente de toda a sua família, morta quando se preparava para ir soprar as velas do bolo do seu quinto aniversário. Emocionante até ao fim, com uma escrita viva, personagens magníficamente traçadas, o livro é policial negro, ao mesmo tempo que um thriller socio-político.  Anders Roslund  foi jornalista durante década e meia antes de se dedicar exclusivamente à escrita, focado em policiais. Primeiro em dupla com Borge Hellstrom, um ex-criminoso que se tornou escritor e agora, desde a morte do seu parceiro em 2017, a solo. 

 

SOBRE O TÁRTARO - Tenho um amigo que me dá muito bons conselhos sobre restaurantes e a  sua mais recente indicação é um restaurante que nasceu no mercado Time Out e que, como vários outros, nos últimos tempos ganhou asas e voou para a rua, no caso para ali bem perto, na Rua da Boavista 12, junto à Ribeira. O restaurante, confortável, bem decorado, dimensão média, é o MISC by Tartar-ia. O serviço é absolutamente exemplar - acolhedor, informado, a ajudar a tomar a decisão. A ementa base é inspirada nas viagens que a sua fundadora, Maria Calheiros Machado, fez ao Médio Oriente, América do Sul e a alguns países europeus. O nome vem da oferta diversificada de tártaros: de salmão, de atum, de carne, de robalo e até de vegetais, tártaros que constituem o essencial da lista, onde não faltam também ceviche ou um bem português arroz de lingueirão. O menu inicial foi desenhado pelo chef Vítor Santos e agora é Maria Calheiros Machado quem dirige a operação da cozinha no dia a dia. O começo foi protagonizado por uns belíssimos croquetes de beringela com tahini de batata doce laranja. Depois vieram os tártaros. O de atum é  marinado com óleo de sésamo, coentros e raspa de lima e faz-se acompanhar de um puré de abacate com maionese e bolacha de sésamo, esponja de tinta de choco e rebentos de shiso. Depois apareceu o bife tártaro asiático com carne de vaca cortada manualmente  e marinada em sweet chili sauce, óleo de sésamo, coentros, pimenta e tabasco. Para uma próxima ocasião fica um tártaro de robalo com escabeche de beterraba, pasta de folha de wasabi e crocante de pele de robalo. A sobremesa foi uma tarte de queijo incontornável. A copo foi servido um espumante Filipa Pato que deu muito boa conta e um surpreendente tinto do Douro Superior, de Lucinda Todo Bom. O serviço é fantástico, talvez porque a fundadora começou por estudar Recursos Humanos antes de estudar hotelaria e restauração. Local a repetir. Rua da Boavista 14, tel. 218 051 457.

 

DIXIT - “A burocracia da Administração Pública é diabólica e é mentira que esteja relacionada com as regras europeias” - Elvira Fortunato

 

BACK TO BASICS - “O primeiro sinal de corrupção numa sociedade é defender que os fins justificam os meios” - Georges Bernanos







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A CORRUPÇÃO E O POPULISMO

por falcao, em 02.10.20

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A CORRUPÇÃOZINHA - Toda a gente anda muito entretida com a forma como a bazuca dos fundos europeus vai ser aplicada, como os dinheiros a fundo perdido vão ser utilizados e com a encenação em torno do dilúvio de dinheiro que aí vem e que esta semana teve um ponto alto com a visita da senhora Ursula von der Leyen a Portugal para benzer António Costa. Curiosa a agenda do Primeiro Ministro em termos de propaganda:  na semana passada apresentou o plano, nesta semana trouxe a mecenas. Tudo isto é muito bonito, tudo isto é muito interessante, mas restam alguns temas que o Plano de Recuperação Económica não contempla e o Estado ainda menos: medidas eficazes para combater a corrupção, medidas eficazes de fiscalização da aplicação das verbas que forem distribuídas e instrumentos de investigação e punição de eventuais culpados de má utilização do dinheiro. O Plano destaca-se pelos grandes projectos, alguns deles até consensuais, como a ferrovia, outros menos, como a estatização da economia. Mas infelizmente temos o histórico que se sabe na má utilização de fundos europeus, na permissividade face à corrupção e às negociatas que cresceram à sombra desses dinheiros. Sem instrumentos de fiscalização e justiça eficazes temo o pior. As boas consciências lusas indignaram-se, e justamente, pelas habilidades fiscais de Trump. Mas não conseguem ser tão veementes a combater a corrupção que sabem que acontece em Portugal em várias áreas - da economia, à justiça, à actividade partidária e até, ainda esta semana se viu, a oficiais de alta patente das forças armadas. Sem rigor, fiscalização e justiça vamos ter certamente muitos planos que podem ser imensas oportunidades douradas para muita gente. A corrupção é uma chaga social que marca o país e é responsável por alguns dos maiores problemas que se repetem ao longo dos anos. E isto acontece com a complacência do sistema político que temos: no fundo o populismo que cresce nasce do comportamento dos dois partidos que alternadamente governam Portugal desde 1976 - o PSD e o PS e permitiram o ponto a que se chegou.


SEMANADA - Desde o início do ano até Agosto os hospitais do SNS realizaram menos 12,6% de consultas que no ano passado e menos 22% de cirurgias; entre 2 de março e 30 de agosto houve mais 6312 óbitos que no período homólogo dos últimos cinco anos e apenas 1822 foram por covid-19; o PSD e o PS reduziram os debates parlamentares sobre a União Europeia para dois por semestre em vez de ocorrerem, como até agora, antes de cada reunião do Conselho Europeu; 63% dos professores do quadro do Ministério da Educação têm mais de 50 anos; faltam funcionários em dois terços das escolas portuguesas e somos o segundo país da OCDE com mais falhas de pessoal não docente; as insolvências de particulares representam cerca de 80% de todos os processos do género decretados pelos tribunais; a taxa de desemprego superou em Agosto a barreira dos 8%; a taxa de poupança das famílias portuguesas saltou de 10,6% nos meses de abril a junho de 2019 para 22,6% no mesmo trimestre deste ano; o sector do táxi perdeu entre 70 a 80% das receitas desde o início da pandemia; segundo o estudo TGI da Marktest 2 em cada 3 portugueses têm máquinas de café com sistema de cápsula; a capacidade de produção de hidrogénio em Portugal quintuplicou no espaço de um ano; só estão a funcionar quatro dos 12 drones, que deviam ter sido entregues à Força Aérea até 4 de agosto para a vigilância de incêndios florestais e que tiveram um custo total de 4,5 milhões de euros; a Marinha comprou ao mesmo fornecedor um destes aparelhos por um custo cerca de três vezes superior ao pago pela Força Aérea, mas também surgiram problemas técnicos.

 

COISAS DA POLÍTICA - O Ministro dos Negócios Estrangeiros elogiou Marcelo Rebelo de Sousa e o Ministro das Infraestruturas respondeu a elogiar Ana Gomes. 

 

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PSICÓLOGA OBSERVA UM PERIGOSO FAMILIAR- Mary L. Trump é uma psicóloga experiente, doutorada em psicologia clínica pelo Derner Institute Of Advanced Psychological Studies. “Demasiado E Nunca Suficiente- Como A Minha Família Criou O Homem Mais Perigoso do Mundo” é o livro que escreveu sobre o seu tio Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos,  agora editado em Portugal. O livro vendeu no primeiro dia  950 mil exemplares nos Estados Unidos, apesar de Donald Trump ter tentado impedir judicialmente a sua publicação. A autora conta ao pormenor as dinâmicas privadas de uma das famílias mais poderosas, visíveis e disfuncionais do mundo, hoje a habitar a Casa Branca. Recorrendo à sua memória mas também a documentos legais, extratos bancários, diários privados, correspondência vária e fotografias, entre outros registos, a autora procura desconstruir o que considera serem as mentiras, deturpações e fabricações que alicerçam a projeção planetária do que classifica como a  figura mitómana de Trump. Mary L. Trump, filha de um dos quatro irmãos do Presidente, relata  eventos familiares com detalhe, descreve como Donald Trump sempre procurava ser o centro das atenções da família e conta como ele, que foi o filho favorito de Fred Trump, despediu e maltratou o pai quando adoeceu. É um relato duro, que percorre a história da sua família, as ruinosas aventuras empresariais em que Trump se envolveu e a forma como ele procura construir um universo próprio, distante da realidade.

 

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A INDISCRIÇÃO DO OLHAR - Pedro Calapez começou a expôr no final dos anos 70 e mantém uma actividade regular, trabalhando com galerias em Portugal e em outros países. A sua obra está presente em importantes colecções institucionais e privadas  expõem com frequência. “Olhares Indiscretos” é o título da sua nova exposição que está patente na Galeria Fernando Santos, no Porto, pelo menos até 19 de Dezembro. É composta por 11 obras datadas deste ano, todas inéditas, na maioria de grandes dimensões, a acrílico sobre tela ou alumínio. Na imagem está um acrílico sobre tela, datado de 2020, com 196x146 cms. Na galeria estão ainda duas obras em papel, de menores dimensões, que foram mostradas numa recente da exposição na Fundação Carmona e Costa e que de certa forma abrem pistas para estes novos trabalhos. E está também patente um pastel sobre papel de grandes dimensões que esteve numa exposição realizada na Fundação Medeiros e Almeida. No texto que escreveu para est exposição Pedro Calapez sublinha que “provavelmente a apreensão completa do objecto olhado nunca será conseguida, nem pelo seu próprio autor. Em boa verdade é esta inacessibilidade que confere a liberdade que o objecto artístico intrinsecamente reivindica”. E, mais adiante: “ Indiscretos seremos, pela intromissão sem maneiras e sem vergonha nas imagens que surgem no nosso caminho. Queremos conhecer e conhecermo-nos. Arrastamo-nos numa inevitável e indefinível solidão.” Ainda no Porto e no Espaço 531, ligado à Galeria Fernando Santos, Daniela Krtsch expõe “À Procura De Um Outro Continente”, um conjunto de trabalhos recentes de dimensões variadas e suportes diferentes onde mistura o desenho e a pintura, num ciclo dedicado a exposições de mulheres artistas e que já teve mostras de Francisca Carvalho e Ana Vidigal, segundo um projecto de Pedro Quintas.

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A OBSERVAÇÃO DA PAISAGEM - João Queiroz estudou filosofia e ao mesmo tempo começou a descobrir o desenho e a pintura.Tem nestas áreas uma carreira já longa, que data dos anos 80, está presente em várias colecções, foi prémio EDP de desenho em 2000 e também foi vencedor, em 2011, do prémio da Associação Internacional dos Críticos de Arte. A sua obra mais recente caracteriza-se por uma abordagem da natureza muito baseada na observação da paisagem. Até 7 de Novembro tem na Galeria Vera Cortês, em Lisboa, um extenso conjunto de obras inéditas sob o título “Passeio”, onde mais uma vez percorre o olhar sobre as paisagens em vários ângulos. É um conjunto de obras, 72 pinturas expostas em vários segmentos (na imagem). No texto que escreveu para a exposição, e que parte de uma citação de Platão, João Queiroz escreve: “Os passeios do filósofo, do poeta, do músico, do cineasta, do pintor são diferentes mas compartilham algo de semelhante: uma especial relação com o lugar onde o ofício é privilegiadamente executado. O filósofo passeia no campo com a Ágora na mente, o pintor com o Atelier”. Outra sugestão: a exposição “Dissonâncias” que abriu no Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, inclui  85 obras de 45 artistas, dando a conhecer uma seleção das recentes aquisições e doações de artistas e mecenas para o Museu. E para finalizar a Galeria Miguel Nabinho apresenta “Suite J - A Vida É Um Palco”, uma exposição de novos trabalhos de Ana Jotta.

 

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RECITAL ESCOLAR - Em Outubro de 1968 o quarteto de Thelonius Monk fez um concerto no auditório da escola de Palo Alto, na Califórnia. A história é curiosa - foi Danny Scher um dos alunos da escola, então com 16 anos, e que sonhava promover concertos, que convenceu o agente de Monk a trazer o quarteto até Palo Alto por um cachet irrisório e a tocar num anfiteatro de 350 lugares para que a venda dos bilhetes angariasse fundos para uma iniciativa da escola - diga-se de passagem que mais tarde Scher veio a ser um importante produtor de espectáculos. Outra curiosidade: um dos porteiros da escola propôs a Scher afinar gratuitamente o piano em que Monk iria tocar, desde que pudesse gravar o concerto. Durante muitos anos as fitas com uma cópia dessa  gravação, que o porteiro deu a Danny Scher, estiveram esquecidas dentro de uma caixa. Há pouco tempo Scher descobriu-as, contactou o filho de Monk que concordou com a sua edição, feita agora pela etiqueta Impulse. O que está no disco são seis temas, com cerca de uma hora de música, num ponto alto da carreira do quarteto - Thelonius Monk no piano, Charlie Rose no saxofone tenor, Larry Gales no baixo e Ben Riley na bateria. O resultado é este álbum “Palo Alto”, que permite, à distância de meio século, sentir a enorme energia e criatividade de Monk numa actuação descontraída, cheia de swing, baseada em alguns dos seus temas clássicos e que permite perceber a enorme qualidade de todos os músicos e a direcção segura que Thelonius Monk discretamente imprimia. Disponível no Spotify.

 

DIXIT - A corrupção não escolhe alvos e varre todos por igual - Eduardo Dâmaso

 

BACK TO BASICS - A ilusão é o primeiro de todos os prazeres - Oscar Wilde

 

 

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