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AFINAL QUEM ANDA A TRAMAR A CULTURA?

por falcao, em 26.02.21

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SOBRE O FINANCIAMENTO DA CULTURA - Na semana passada foi divulgada uma “Carta Aberta da Cultura a António Costa”. O documento critica a inexplicável omissão da Cultura no Plano de Recuperação e Resiliência e sublinha, com razão, que “numa época em que a coesão democrática é um tema de preocupação transversal, parece um erro grave que o nosso Governo opte por não investir no futuro de um sector tão fundamental para essa coesão”. Mais, os subscritores afirmam, também com razão, que a não existência de qualquer proposta relativa ao investimento na Cultura no PRR, terá a médio prazo consequências económicas, sociais e políticas. Partilhando eu deste diagnóstico, gostaria no entanto de propôr uma outra abordagem: esta poderia ser a altura ideal para que o Ministério das Finanças possibilitasse uma Lei do Mecenato atractiva para os privados e que criasse, à semelhança do que existe em tantos outros países, verdadeiros incentivos que permitam que o Estado tenha menos encargos na subsidiação e que os privados tenham maior papel no financiamento das artes e cultura. Não é uma visão utópica - ela é posta em prática em muitos países europeus e na América do Norte, onde a sociedade civil assume com gosto um papel, por vezes mais relevante que o do Estado, nesta matéria - e com bons resultados. O Ministério dos Impostos, conhecido vulgarmente por Ministério das Finanças, nunca quer prescindir da colecta. É medieval no pensamento mas moderno na tecnologia de extorsão - um paradoxo muito produtivo para o Estado e para todos os Governos, sem excepção, que protegem a máquina que abana os bolsos de cidadãos e empresas. Eu não defendo a diminuição dos subsídios, defendo que o financiamento à Cultura seja mais diversificado. Nunca vai ser um processo rápido, mas o Estado também não é rápido, muito menos neste sector cultural. Por isso, quanto mais cedo começar a ser possível diversificar financiamentos, melhor. Enquanto os subscritores do documento  se virarem só para o Governo, em vez de exigirem mais fontes de financiamento, nunca vamos sair da cepa torta nesta matéria. Como a eurodeputada Maria da Graça Carvalho afirmou num recente artigo, a União Europeia “integrou os sectores cultural e criativo numa lista de ecossistemas industriais prioritários para a recuperação económica.” Recorda ainda que, por isso, o Primeiro Ministro “não deve agora vir invocar supostos condicionalismos decorrentes da ligação obrigatória dos planos de recuperação aos pilares das transições verde e digital”. E culmina com uma evidência, que se aplica também à reacção de António Costa ao abaixo assinado já referido:  “Para passar por bom aluno, é preciso revelar melhor conhecimento da matéria dada.” 

 

SEMANADA - Mais de 80 por centos dos portugueses deseja que Marcelo seja mais exigente com o Governo, revela uma sondagem do Correio da Manhã - e mais de dois terços considera que o PR foi demasiado benevolente com o executivo nos meses que antecederam as eleições presidenciais;  um novo estudo indica que mais de três quartos dos portugueses estão pessimistas quanto à evolução económica, pelo que grandes decisões como mudar de emprego, casar, ter filhos, comprar casa ou carro estão fora dos seus planos para 2021; uma sondagem da Aximage indica que no actual confinamento o trabalho presencial está a superar o teletrabalho, nomeadamente fora da área metropolitana de Lisboa; uma equipa da Universidade de Coimbra fez um estudo onde 14% dos adolescentes, com idades compreendidas entre os 13 e os 16 anos apresentam "sintomatologia depressiva elevada" devido à pandemia com as raparigas a apresentarem valores mais elevados que os rapazes; existem actualmente mais 104 mil pessoas no desemprego do que há um ano; a DECO recebeu s 30.100 pedidos de ajuda em 2020 por parte de famílias sobre-endividadas; há mais de 1,3 milhões de portugueses ligados a plataformas de ensino à distância; os agentes e militares que fazem a triagem das chamadas de emergência do 112 não auferem gratificação desde setembro, sendo que o INEM transferiu dinheiro para a PSP e para a GNR em dezembro mas os agentes ainda não o receberam; no plano de recuperação e resiliência cerca de 70% dos dinheiros da bazuka vai para o Estado e 30% para o sector privado.

 

ARCO DA VELHA  - Um grupo de quatro dezenas de personalidades, entre elas professores universitários da área da comunicação, subscreveram uma carta aberta onde, em nome da democracia, apelam à ingerência nos critérios editoriais dos noticiários de televisão.

 

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O PROCESSO CRIATIVOAna Vidigal (na imagem), Alice Geirinhas, António Olaio, Cristina Ataíde, Rita Barros, Inês Almeida, António Faria,  e Manuel Botelho são alguns dos 25 artistas que já enviaram vídeos feitos pelos próprios, e que vão entrando em exibição nas redes sociais do Museu Nacional de Arte Contemporânea. Emília Ferreira, directora do Museu, solicitou a cerca de 130  artistas visuais que criassem pequenos vídeos sobre o seu processo de trabalho, para que fossem mostrados ao público, através do Facebook e Instagram do MNAC, durante estes tempos de confinamento. O desafio era o envio de vídeos feitos com o telemóvel, com o máximo de três minutos, Dos contactados uma centena respondeu afirmativamente, mais de duas dezenas já enviaram os seus vídeos que vão sendo publicados no Facebook e no Youtube, em visualização acessível ao público desde o início de Fevereiro. Dada a adesão, admite Emília Ferreira, é provável que a publicação continue para além do confinamento. O Facebook do MNAC é particularmente bem conseguido e além destes vídeos há uma bela série intitulada “Histórias do Bairro” onde são recordadas lojas históricas da zona onde o Museu está instalado, entre elas algumas das primeiras galerias de arte que nasceram em Lisboa na primeira metade do século passado. https://www.facebook.com/museunacionaldeartecontemporanea

 

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ARREBATADOR - Um dos discos que neste confinamento mais me sobressaltou é “For The First Time”, dos britânicos “Black Country New Road”. Trata-se de um septeto, cheio de talentos instrumentais e de uma voz que cria palavras e as interpreta como é raro alguém conseguir - Isaac Wood. Não é fácil catalogar esta música, que tem tantas influências culturais e vai beber   inspiração a tantas fontes. Mas uma coisa é certa, entre o saxofone, as guitarras, as teclas, a percussão e tudo o resto passa uma autenticidade e uma energia que hoje em dia são raras. O que aqui se desenha é um novo mapa do território da música popular, é uma alternativa às versões e às manobras de produção. Há aqui um lado libertino que envolve a criação musical do grupo. A forma como Wood escreve, fala e canta contribui para este sentimento de que alguma coisa de novo está a acontecer. E o álbum, “For The First Time”, nos seus 40 minutos divididos em seis longas faixas, às vezes obsessivamente envolventes, é um permanente abanão. Disponível nas plataformas de streaming, editado pela Ninja Tune.

 

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REVISITAR O PASSADO - Temos um problema em olhar para o passado, um trauma que se mantém quase meio século depois de 1974. Olhamos raramente para a nossa História do século XX e, as mais das vezes, mal. Felizmente não é isso que acontece com “Projectos Editoriais e Propaganda - Imagens e Contra-Imagens no Estado Novo”, uma edição do Instituto de Ciências Sociais, coordenada por Filomena Serra, Paula André e Sofia Leal Rodrigues. O livro aborda «projectos editoriais» do período entre 1934 e 1974, entendidos quer enquanto materiais impressos, com abundante documentação fotográfica sobre livros, catálogos, guias de viagem, álbuns ou fotolivros. Além disso mostra revistas como a Panorama, ou a produção documental de divulgação das várias exposições que o anterior regime promoveu. Logo no texto inicial dá-se conta da enormidade do que está em causa: Entre 1934 e 1947, segundo o Catálogo Geral das Edições do Secretariado Nacional de Informação, dirigido por António Ferro, foram publicados 1355 títulos de diversas áreas. Os autores sublinham que “os projectos editoriais são pensados enquanto objectos de mediação entre o poder político e o campo cultural e enquanto propaganda política e arte, pois os seus autores – fotógrafos, pintores, poetas, realizadores, produtores e designers – criam discursos imagéticos próprios a fim de responderem a objectivos comunicacionais de massas, estabelecerem relações e estratégias conceptuais e gráficas, produzirem diferentes suportes e novas formas de editar, publicar e circular pelo público. E, finalmente, esta obra aborda não só os projectos editoriais da propaganda visual do regime como em oposição a ele, depois da Segunda Guerra Mundial, aquilo a que os autores chamam «contra-imagens». Disponível em boas  livrarias que estejam abertas e na Wook.

 

SOPINHA DE INSPIRAÇÃO ORIENTAL  - Conhecida como couve chinesa, hoje em dia começa a ser fácil encontrar nalguns supermercados couve pak choi, na maior parte dos casos cultivada em Espanha. No meio deste confinamento a alternativa para variar o menu é procurar receitas que possam surpreender quem nos acompanha na clausura. Consegui isso um dia destes com uma sopa simples de fazer. A base é um caldo de galinha de boa marca, diluído em dois terços de um litro de água. Uma vez o caldo a ferver colocam-se duas peças de pak choi, desfeitas e cortadas grosseiramente e deixam-se uns cinco minutos a cozer. Adiciona-se pimenta moída na altura e molho de soja de boa qualidade, assim como pedaços de gengibre fresco cortado em lâminas finas e um pouco de óleo de sésamo. Quando a couve começa a ficar tenra, adicionam-se dois novelos de noodles de arroz e logo que a massa se esteja a separar deitam-se dois ovos a escalfar no caldo, separados um do outro para ser mais fácil de servir. Quando a clara dos ovos começar a ficar branca, opaca e consistente pode servir duas doses para dois pratos fundos. Polvilhe com cebolinho fresco cortado fino. Está feito o jantar. Bom apetite.

 

DIXIT - “A melhor forma de capitalizar é não retirar imposto das empresas que têm resultados e reinvestem” - Carlos Moreira da Silva num debate sobre o Plano de Recuperação e Resiliência.

 

BACK TO BASICS - “Os factos são o inimigo da verdade” - Miguel de Cervantes

 

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publicado às 11:00

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O uso das boxes dos operadores de telecomunicações permitem desde há algum tempo fazer gravações automáticas dos programas emitidos no espaço de uma semana. E hoje em dia já são medidas as audiências dessas gravações. O programa que mais frequentemente lidera a tabela dos mais vistos no espaço de 24 horas a seguir à emissão original é “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, que na semana passada foi visto por cerca de 150 mil pessoas nesse espaço de tempo. Também nas 24 horas seguintes ficou em segundo lugar a novela “Amor Amor”. E, entre os que mais espectadores obtiveram nos sete dias a seguir à emissão destacam.-se os programas da SIC “Totalmenmte Demais” e “A Máscara”. Desde o início deste ano a SIC esteve à frente das audiências todas as semanas e neste momento a sua média de share de audiência é 2% superior em relação à TVI. Na semana passada o programa mais visto foi emitido pela TVI, a transmissão do jogo entre o Sporting de Braga e o Futebol Clube do Porto, que ultrapassou o milhão e meio de espectadores. Em segundo lugar, com menos cerca de 200 mil espectadores, ficou a novela “Amor Amor”, da SIC. Na RTP1 os dois programas mais vistos foram “O Preço Certo” e o “Telejornal” e na RTP2 os dois programas mais vistos foram as séries “O Jovem Montalbano, que liderou, e “O Desertor”. Na SIC, para além de "Amor Amor” o segundo programa mais visto foi “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”. E, na TVI, o segundo programa mais visto depois do jogo da Taça de Portugal foi a novela “Bem Me Quer”.mNum universo televisivo em que os primeiros lugares de audiências são disputados por transmissões de futebol, telenovelas, Ricardo Araújo Pereira e alguns reality shows, os canais generalistas continuam estáveis mas, no conjunto, são vistos apenas por cerca de metade dos espectadores, enquanto a maioria da outra metade vai para os canais de cabo e o restante para as plataformas de streaming e jogos online.

(Publicado na revista  do Correio da Manhã SEXTA Guia do Lazer de dia 19 de Fevereiro)

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publicado às 09:55

O ECRÃ DO SERVIÇO PÚBLICO

por falcao, em 19.02.21

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O ECRÃ E O PÚBLICO - Neste confinamento estamos a assistir a um fenómeno interessante, sobretudo em comparação com o que aconteceu há um ano. Nessa altura, quando toda a gente foi para casa pela primeira vez, o consumo de televisão subiu brutalmente e em Março verificou-se mesmo a maior audiência do ano. Agora não está a acontecer isso e, na semana passada, o consumo até desceu em relação à semana anterior. Num universo televisivo em que os primeiros lugares de audiências são disputados por transmissões de futebol, telenovelas, Ricardo Araújo Pereira e alguns reality shows, os canais generalistas continuam estáveis mas, no conjunto, são vistos apenas por cerca de metade dos espectadores, enquanto a maioria da outra metade vai para os canais de cabo e o restante para as plataformas de streaming e jogos online. No meio de tudo isto cabe aqui destacar o que a RTP tem feito - quer em séries como a “Crónica dos Bons Maladros”, quer em documentários como “Deus Cérebro” ou “Artur Entre Paredes”, na RTP1. Mas também a RTP2 tem exibido documentários como “A Descolonização" e sobretudo tem programado séries  absolutamente exemplares como a alemã “O Desertor”, a australiana ”Operação Búfalo” ou o thriller belga “O Dia”. Melhor ainda, uma larga parte das emissões dos canais RTP mantêm-se disponíveis após exibição na plataforma de streaming gratuita RTP Play, onde os programas aqui referidos permanecem para serem vistos. Serviço público é isto também - apostar na produção nacional, fazer encomendas regulares, mostrar a produção audiovisual de outros países, Se não houvesse serviço público audiovisual em Portugal não teríamos esta gama de opções - nem aí, nem nos canais de rádio, todos eles (incluindo os regionais) também disponíveis no RTP Play, onde aliás alguns existem em exclusivo, como a rádio Jazz por exemplo. O consumo que fazemos de mídia está a mudar. E este último ano é bem prova disso.

 

SEMANADA - Em 2020 Portugal perdeu uma média de 45 mil turistas por dia, uma quebra global de 61% de visitantes estrangeiros face ao ano anterior; o número de passageiros nos aeroportos nacionais afundou 69% em 2020 face ao período homólogo e o movimento de carga e correio nos aeroportos em Portugal registou uma queda de 30%; o calçado perdeu 462 milhões em exportações nos últimos três anos; o novo presidente do Tribunal Constitucional, João Caupers, escreveu há 11 anos um texto com críticas ao “lobby gay” a propósito da alteração ao código civil, então aprovada, que permitia o casamento entre pessoas do mesmo sexo; as livrarias que só vendem livros continuam de porta fechada;  o sector livreiro estima perdas superiores a quatro milhões de euros sofridas no decorrer deste confinamento; no conjunto das administrações públicas, que inclui as autarquias, em 2020 entraram mais de 19.792 funcionários no Estado; o SNS perdeu cerca de 800 médicos desde o início da pandemia; em 2020 as vendas de computadores atingiram mais de 470 milhões de euros; o Sistema de Segurança Interna (SIS) elaborou um plano de combate ao extremismo em 2017 que nunca foi apresentado ao Parlamento; cerca de 90% dos documentos de inquérito da venda do  Novo Banco à Lonestar estão classificados como confidenciais; um inquérito agora divulgado indica que na Universidade de Coimbra 74% dos estudantes em confinamento pensaram em deixar de estudar e 66% revelam sentimentos de ansiedade; mais de 13 mil contraordenações foram levantadas pelas polícias em janeiro e fevereiro no âmbito do estado de emergência, um número superior ao total de 2020.

 

ARCO DA VELHA - O Governo já apresentou um plano de recuperação e resiliência baseado na distribuição de milhares de milhões de euros da basuka dos apoios europeus, mas um portal da transparência para acompanhar a execução desses fundos, aprovado no Parlamento  com os votos contra do PS, continua no esquecimento.

 

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FILME & FOTOGRAFIA -  Serralves tem a seu cargo a Casa do Cinema Manoel de Oliveira, um espaço integrado no parque da Fundação. E, na Casa do Cinema está desde finais do ano passado a exposição “Manoel de Oliveira Fotógrafo”, que junta cem fotografias, na sua maioria inéditas, tiradas entre os anos de 1930 e 1950.  A exposição baseia-se em tiragens originais da época, algumas com impressões feitas pelo próprio Manoel de Oliveira e outras que resultam de ampliações de negativos que existiam no acervo. Com base na exposição, que tem curadoria de António Preto, foi publicado um catálogo onde em edição bilingue se incluem cinco ensaios originais sobre o trabalho fotográfico do realizador, a par da reprodução de todas as imagens presentes na exposição e de uma série de outras fotografias que se dão, deste modo, a ver pela primeira vez.  Além de António Preto escreveram Bernardo Pinto de Almeida,  Emília Tavares,  Maria do Carmo Serén e David Campany. A este trabalho de reflexão e investigação acresceu-se, um texto escrito por Manoel de Oliveira no final dos anos 1990, intitulado “Angélica, um filme que não me deixaram fazer”, onde o realizador dá a conhecer o episódio verídico que inspirou o projeto do filme (escrito em 1952, mas só realizado em 2010, como “O Estranho Caso de Angélica”), que, de certo modo, marca o fim da sua relação com a fotografia como forma de expressão artística. No canal YouTube da Fundação de Serralves estão disponíveis conferências de Bernardo Pinto de Almeida sobre esta exposição, assim como uma visita guiada. E,  enquanto não se pode ver a exposição, podem encomendar o catálogo na loja online de Serralves.

 

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GUITARRADA SUAVE - Jakob Bro é um guitarrista dinamarquês que tem gravado para a etiqueta ECM e “Uma Helmo”, é o seu quinto álbum, desta vez com um novo trio que integra também o trompetista norueguês Arve Henriksen  e o baterista espanhol  Jorge Rossy, que trabalhou muitos anos ao lado de Brad Mehldau. Como curiosidade diga-se que a primeira vez que os três músicos tocaram juntos foi precisamente nas sessões de gravação deste álbum, que decorreram num estúdio da Rádio Suíça em Lugano. O álbum tem nove temas (oito originais, um deles com duas versões), cerca de uma hora de duração, momentos quase hipnóticos que passm por homenagens a outros músicos como o trompetista polaco Tomasz Stanko e ao saxofonista Lee Konitz, ambos músicos com quem Bro tocou. O tema de homenagem a Konitz, “Music For Black Pigeons” é aliás um dos mais interessantes de todo o álbum. Vale a pena sublinhar que a guitarra de Bro, como a revista “Downbeat” faz notar, é ao mesmo tempo luminosa e dramática. Na maior parte dos temas a iniciativa vem do trompete de Henriksen, que depois a guitarra de Bro segue de forma suave, bem pontuada pela bateria de Rossy. O álbum tem uma sonoridade homogénea, subtil e algo etérea, que se mantém ao longo de todos os temas. CD ECM, disponível em streaming.

 

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OBSERVAÇÃO HUMANA - Quando pego num livro novo vou logo ver a primeira página de texto. Se me desperta curiosidade, sigo. Se é um enfado, arrumo. “Morrem Mais de Mágoa”, de Saul Bellow começa pelo relato de uma conversa que, no fundo, é uma análise de uma banda desenhada, um “cartoon” de imprensa. O livro relata os dilemas de um especialista em literatura russa, Kenneth Trachtenberg, o narrador desta história. Ele  é um especialista em literatura russa, que deixa Paris rumo à América ao encontro do tio, Benn Crader, um botânico famoso com quem debate os temas mais diversos e reflete sobre a vida moderna. A relação entre o tio e o sobrinho, as longas discussões que mantêm sobre os desígnios do amor e do desejo, dão corpo a uma narrativa cheia de humor, inteligência e sabedoria, analisando a natureza humana com uma ironia fina, através da densidade de personagens que constrói. Editado originalmente há onze anos pela Quetzal, que agora o volta a publicar em edição revista e com nova capa, “Morrem Mais de Mágoa”, escrito em 1987, é considerado um dos  grandes romances de um dos  mestres da narrativa do século passado, Samuel Bellow, que foi Prémio Nobel da Literatura em 1976. Disponível onde ainda se puderem comprar livros.

 

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A IGUARIA DOS RIOS - O meu post de Facebook que obteve maior número de likes e de comentários dos últimos tempos foi um que fiz manifestando a minha tristeza pela dificuldade que é, na conjuntura do confinamento, provar um bom arroz de lampreia. Sou um devoto da polémica iguaria, que tanto tem de adeptos como de inimigos. Mas os adeptos são ferozes defensores do ciclóstomo e um deles, velho amigo, até me desafiou a organizar um partido da ciclostomologia na clandestinidade. Recordo-me com saudade das lampreias no Manel do Parque Mayer e do Apuradinho, da Rua de Campolide. E tive igualmente boas experiências no Solar dos Presuntos, na Adega Tia Matilde e na Tasca do João, ao Lumiar. Muitos dos meus dedicados amigos, sentindo as minhas saudades, disseram-me que estas três últimas casas fazem lampreia em take away e que a coisa funciona bem. E acrescentaram à lista a Imperial de Campo de Ourique, o Pinóquio, o Marquês de Palma e o Escadinhas da Cruz da Pedra, perto do Hospital da Cruz Vermelha. Dos vários géneros prefiro o arroz, vou pela bordalesa só na segunda prova da época, mas aqui há uns anos experimentei, no Solar dos Presuntos,  uma lampreia assada, confeccionada inteira, que é de se lhe tirar o chapéu. Fiquemo-nos então a explorar a possibilidade do take away de lampreia enquanto não chegam melhores dias. Outro grande e velho amigo recordou-me que é em Entre-Os-Rios que se come a melhor de todas. E já apalavrámos que, se o bicho permitir, para o ano lá nos encontraremos.

 

DIXIT - “A questão da vacinação é uma falha em toda a linha, não é nacional, é europeia. A política e a realidade industrial estão abissalmente separadas (…) A covid reflete as disfuncionalidades da União Europeia” - Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica.

 

BACK TO BASICS - “Há muitas mentiras à solta a serem espalhadas pelo mundo fora, mas o pior de tudo é que afinal algumas têm fundo de verdade” - Winston Churchill



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publicado às 11:00

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Na semana de 1 a 7 de Fevereiro o consumo de televisão manteve-se estável, sem aumentos, o que é um sinal de que o efeito do confinamento é menor que há cerca de um ano. Por outro lado a audiência dos canais generalistas subiu ligeiramente, e a dos canais de cabo e streaming desceu, também ligeiramente. Se olharmos com mais atenção para os canais de cabo vemos que o CMTV é lider em todo o país mas depois regionalmente há diferenças nos lugares seguintes. Por exemplo, no Norte a Globo aparece em segundo lugar do cabo e o canal Hollywood em terceiro, enquanto na região Centro a Fox lidera, seguida da Fox Life, em Lisboa a TVI Reality é o segundo canal do cabo, atrás do CMTV mas à frente da SIC Notícias e no Sul volta a Fox ao segundo lugar, seguida da SIC Notícias.

Nos canais generalistas o melhor resultado da SIC é conseguido no Norte, o melhor resultado da TVI é conseguido na Grande Lisboa e a RTP1 tem o melhor resultado na região Sul, onde fica em segundo lugar, à frente da TVI. O melhor resultado da RTP2 é conseguido na região Centro. A SIC liderou todos os dias da semana a nível nacional e colocou 14 programas nos vinte mais vistos, a TVI colocou três e a RTP1 mais três. O programa mais visto da semana foi o Jornal da Noite da SIC de Domingo passado, o da TVI foi a novela “Bem Me quer” , na RTP1 continua a liderar “O Preço Certo” e na RTP2 o mais visto foi “O Jovem Montalbano”. No cabo a CMTV teve os dez programas mais vistos.

(Publicado na revista CM Guia do Lazer) 

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publicado às 08:54

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OS SABE-TUDO - Portugal é um país de treinadores de bancada. A quantidade de programas com palpitadores sobre jogos de futebol e profundos analistas do chuto na bola criou uma legião de descendentes para todas as ocasiões. Não houve sítio por onde eu passasse profissionalmente em que não tivesse que ouvir palpites, que sempre escutei com atenção, sem me irritar nem rir. Mas a pensar para mim que estava a ouvir apenas palpites de quem não sabia do que estava a falar - sobre como deviam ser os jornais, sobre as  capas das revistas, sobre programação de canais de televisão, sobre audiências ou criatividade publicitária.  O mais recente treinador de bancada português é o fã da epidemiologia, o especialista da pandemia. De repente só vejo epidemiologistas por todo o lado, infectologistas em potência, intensivistas de sofá. Em abono da verdade se diga que os mais altos cargos da nação, Presidente da República e Primeiro Ministro, já tiveram o seu momento de brincadeira aos médicos. Deliberadamente pus de fora outro alto responsável da nação, o presidente da Assembleia da República, porque verdadeiramente acho melhor não recordar o ridículo de várias afirmações que fez no último ano.  Não abona a nosso favor ter tantos treinadores de bancada em tantas modalidades e sobretudo na pandemia. Ainda abona menos que quem de direito feche os ouvidos ao que os verdadeiros especialistas dizem e que os responsáveis políticos acabem por fazer uma gestão política oportunista da terrível situação pela qual estamos a passar. Não é certamente fácil ser Governo nesta altura. Mas um pouco menos de palavreado e um pouco mais de audição e bom senso não fariam mal a ninguém. 

 

SEMANADA - Um grupo de cientistas europeus, entre ele o português Manuel Carmo Gomes, defende um aumento radical dos testes e a adopção de  uma testagem “em anel”, em que todas as pessoas em redor de um caso diagnosticado sejam testadas rapidamente para que as infeções assintomáticas sejam encontradas; defendem ainda que  o número de testes deve subir tanto mais quanto mais acima se estiver de uma taxa de positividade superior a 5% — métrica usada pela OMS para avaliar se uma epidemia está ou não sob controlo; o mesmo grupo de especialistas considera que o objectivo para todos os países europeus, deve ser o de estar abaixo dos 10 novos casos por milhão de habitantes na primavera de 2021; no caso de Portugal, isso significa não ter mais do que 102 novos casos diários — o que não acontece desde 16 de março do ano passado; o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que esta semana deixou as reuniões de peritos do Infarmed, criticou a forma como Governo tem gerido a situação, considerando que as medidas têm sido oscilantes e tomadas com atraso; António Barreto afirmou numa entrevista que “a geringonça só conseguiu paz social, na economia foi um fracasso"; apesar da crise e do trambolhão da economia a receita fiscal do Estado em 2020 aumentou, nomeadamente no IRC e IRS que cresceram acima do previsto; com as aulas à distância a recomeçar, responsáveis das escolas afirmam que são necessários pelo menos 300 mil computadores para que todos os alunos possam acompanhar as aulas em condições.

 

ARCO DA VELHA - O Ministério da Saúde recusou aceitar o trabalho voluntário dos médicos reformados que se disponibilizaram a auxiliar no combate à pandemia, revela um abaixo assinado cujo primeiro subscritor é Gentil Martins.

 

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MUSEU VIRTUALPor estes dias não podemos lá ir, mas no grande hall de entrada do Museu Berardo está uma enorme peça de madeira, longa e curva, a face superior pintada de vermelho. É como se fosse a forma bruta, não trabalhada, do casco do barco, longilínio, negro, com o interior a vermelho, que é a peça central da exposição “Dar Corpo Ao Vazio”, de Cristina Ataíde, inaugurada em Novembro naquele Museu. A terra, a água e uma evocação da presença humana são elementos da exposição, entre esculturas, desenhos de grandes dimensões, uma instalação, fotografias e um vídeo - as áreas onde Cristina Ataíde tem trabalhado. A côr vermelha é uma constante na sua obra, do papel à escultura. Esta semana o Museu Berardo colocou no seu canal do YouTube o vídeo de uma visita de Cristina Ataíde a esta exposição, onde a artista e o curador Sérgio Fazenda Rodrigues falam sobre o que ali está exposto. À falta de podermos visitar, podemos ter uma ideia do que está nas cinco salas por onde a exposição se desenvolve. Quando o museu reabrir não deixem de a ir ver. Se quiserem podem ver o PDF do catálogo da exposição no site do Museu, na página sobre esta exposição. Para finalizar vale a pena seguir os sites das instituições e os Instagram de galerias - todos vão colocando online as abordagens possíveis que no confinamento nos permitem ter o prazer de ver a arte que não podemos ver ao vivo.

 

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O DISCO DE JANEIRO - Um dos grandes discos já editados este ano é o álbum de estreia de Arlo Parks, “Collapsed In Sunbeams”, lançado no final de Janeiro. Arlo Parks tem 20 anos, é inglesa, cresceu a ouvir a mãe a falar francês e o som da música soul a tocar. Cita Otis Redding e Jacques Brel como influências. Aos 14 anos começou a tocar guitarra e aos 18 foi editada a sua primeira canção, “Cola”, que teve mais de três milhões de streams no Spotify. Depois no ano a seguir editou “Super Sad Generation”, ainda antes da sua primeira grande actuação ao vivo - nesse ano esteve em vários festivais e depois, em 2020 foi apanhada pelo confinamento. Daí saíram as 12 canções do álbum de estreia, depois dos single e EP’s de 2018 e 2019. É ela que escreve as suas canções, música pop  simples, despretensiosa, descontraída mas com ideias claras. O disco é de uma simplicidade arrasadora, as palavras em primeiro plano, uma percussão minimalista, um teclado em fundo. A produção é discreta e o palco é tomado por Arlo Parks, pelas suas palavras, pela maneira como canta. Disponível em streaming.

 

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UMA NOVA REVISTA - Tyler Brulé, que já tinha inventado a Wallpaper e a Monocle, voltou a lançar uma novidade para as bancas este ano - a revista Konfekt, mais focada em moda, viagens, comida, design e cultura, maioritariamente em inglês, mas com uma parte final em alemão. No site da Konfekt podem subscrever uma newsletter e um podcast mensais. Sophie Grove, a editora. conta que nos meses de preparação com a equipa de Tyler Brulé, pensaram em muitas coisas mas não fizeram focus groups, preferiram explorar as suas próprias convicções. Já Steve Jobs fazia o mesmo na Apple, preferia a sua intuição e não se deu mal com o assunto. Adiante a Konfekt teve o primeiro número no final de 2020 e sairá quatro vezes por ano e esta edição inaugural tem cerca de 200 páginas. Sophie Grove trabalha com a Monocle há muitos anos e conhece o espírito da casa. Nesta primeira edição a revista visita um ceramista finlandês, uma pequena estalagem na Hungria, promove uma conversa em Roma sobre cozinha e moda, escolheu o Hotel Kindli, em Zurique, como cenário para uma entrevista com vários convidados, no Egipto visitou uma tradição familiar em Alexandria, em Estocolmo o tema é o design nórdico e no Porto há uma visita com diversas sugestões. A revista faz recomendações em várias áreas, da moda a bicicletas, passando por batons, tem uma secção com boas receitas culinárias e propõe uma detalhada viagem de fim de semana ao Funchal. Na parte das comidas e bebidas há uma interessante conjugação de recomendações de vinhos com sugestões de canções adequadas a cada um e uma série de receitas do chef suíço Richard Kâgi. A Konfekt pode ser encomendada on line no site da Monocle ou no seu próprio site onde também pode subscrever a respectiva newsletter. A propósito de Monocle, Tyler Brulê nesta mais recente edição da revista cedeu, ao fim de 14 anos, o seu espaço de abertura para o editor Andrew Tuck que assim passa a protagonizar a publicação. 

 

ENFRASQUEMO-NOS - Eu gosto de conservas, desde as nossas históricas conservas de peixe enlatadas, até às conservas em frasco de produtos confeccionados. Neste confinamento encomendei uma série de conservas em frasco elaboradas por José Júlio Vintém, do restaurante Tomba Lobos, em Portalegre. Apropriadamente ele chama-lhes “Enfrascados”. Há perdiz em escabeche, coelho em molho vilão, salada de pato assado com laranja, orelha de porco grelhada, e fraca (galinha de angola) de escabeche. Por vezes há petiscos especiais como chispe moreno, pézinhos de coentrada e galinha sacaninha - na verdade frango do campo assado no forno com limão e piripiri. José Júlio Vintém esclarece que os enfrascados estão todos prontos a ser consumidos e podem ser servidos com qualquer acompanhamento ou então de base para empadas, empadões, arrozes ou massas. Recomenda que se experimente a fraca, a perdiz, o pato o coelho e o frango ligeiramente tépidos e que  os pezinhos querem ser aquecidos em frigideira com um pouco de água, para de seguida serem servidos com pão frito em azeite e uma salada. Quanto à orelha e ao chispe podem ser aquecidos em banho maria. Cada frasco tem 200 gramas e com um acompanhamento condigno proporciona uma refeição para duas pessoas. Os enfrascados são ideais para aqueles dias de confinamento em que apetece um petisco mais elaborado mas em que não há já paciência para cozinhar nada de raiz. Por aqui entraram, com êxito, a salada de pato, a galinha de escabeche e o frango sacaninha. As encomendas podem ser  feitas para enfrascadostombalobos@gmail.com e será o próprio José Júlio Vintém a responder. A entrega é rápida. Podem ver informação actualizada no facebook do Tomba Lobos. Neste tempo de confinamento lá foi a pressurosa ASAE fazer uma prova e não encontrou nada por onde implicar. Os enfrascados são confeccionados sem qualquer aditivo ou conservante artificial e  podem ser consumidos com segurança num prazo de seis meses.

 

DIXIT - O governo, além de ser um monstro devorador do dinheiro dos contribuintes, perdeu qualquer credibilidade executiva; do lado das oposições, as «esquerdas» só gritam e as «direitas» só gemem - Manuel Villaverde Cabral

 

BACK TO BASICS - “A única forma de resolver uma situação é deixar a conversa e começar a fazer o que deve ser feito” - Walt Disney.



 




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Por estes dias não podemos lá ir, mas no grande hall de entrada do Museu Berardo está uma enorme peça de madeira, longa e curva, a face superior pintada de vermelho. É como se fosse a forma bruta, não trabalhada, do casco do barco, longilínio, negro, com o interior a vermelho, que é a peça central da exposição “Dar Corpo Ao Vazio”, de Cristina Ataíde, inaugurada em Novembro naquele Museu. A terra, a água e uma evocação da presença humana passam pelas cinco salas onde se desenvolve a exposição, entre esculturas, desenhos de grandes dimensões, uma instalação, fotografias e um vídeo - as áreas onde Cristina Ataíde tem trabalhado. A côr vermelha é uma constante na sua obra, nas suas várias facetas e nos suportes utilizados, do papel à escultura. Sérgio Fazenda Rodrigues, o curador da exposição, sublinha no texto que elaborou, que a produção de Cristina Ataíde “revela uma sede de experimentação e um fascínio pela descoberta que, entre outros, se ancora no impulso da viagem, na procura por outros sistemas de pensamento e numa busca pela expressão da matéria”. Nas cinco salas onde se desenvolve a exposição viaja-se pelos pilares da obra de Cristina Ataíde, com referências cruzadas mas sempre com a afirmação da sua identidade criativa. Quando o museu reabrir não deixem de a ir ver. Se quiserem podem ver o PDF do catálogo da exposição aqui . E entretanto também podem ver uma visita guiada pela artista no video abaixo.

 

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O MISTÉRIO DO CÉREBRO -  A RTP é a única estação de televisão que produz, promove e exibe regularmente documentários - não estou a falar de reportagens. Essa é uma parte muito importante do Serviço Público audiovisual. Se não for a RTP a fazer isso ninguém se preocupará com esse assunto e a produção de conteúdos audiovisuais de referência em língua portuguesa ficará ainda mais pobre. "Deus Cérebro” é uma série documental em quatro episódios, já todos transmitidos em horário nobre no primeiro canal, que conta como nos últimos 20 anos se deram passos de gigante na exploração do cérebro humano - mesmo se  a dimensão do que está para lá do nosso conhecimento permanece um enigma. À medida que se avança no conhecimento do cérebro, maior é a perceção de que há um vasto universo por descobrir. A série pretende descodificar os mistérios do cérebro humano. Produzida pela Panavideo, realizada por António José Almeida, com guião de Anabela Almeida e música de Carlos Maria Trindade, a série entrevista cientistas portugueses e estrangeiros e é um exemplo do que deve ser um documentário que de uma forma simples e eficaz aborda uma matéria tão complexa como o cérebro humano. Todos os episódios estão disponíveis na RTP Play, a aplicação de conteúdos do canal que é disponibilizada gratuitamente. 

 

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publicado às 10:33

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No final do mês de Janeiro as audiências de televisão indicavam que a SIC continua a liderar, com quase dois pontos percentuais de vantagem sobre a TVI em termos de share médio. No fecho do mês a  SIC ficou com 18,3%, a TVI com 16,4% e a RTP com 11,2%. No cabo a liderança continua a pertencer ao CMTV com 4,3%, seguido da SIC Notícias com 2,4, a Globo e a TVI24 com 1,6% e a Fox com 1,5%. Reflectindo os números sobre a circulação durante este confinamento não há variações sensíveis no consumo de televisão, nem em número de espectadores, nem em termos do tempo gasto frente ao televisor. O programa mais visto continua a ser “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, da SIC - canal que aliás tem 11 programas nos 15 mais vistos - a TVI tem três e a RTP tem um. As novelas mais vistas continuam a ser “A Máscara” e “Amor, Amor”, da SIC, que ficaram respectivamente na 4ª e 5ª posições globais. “Bem Me Quer”, a novela da TVI não conseguiu melhor que a 14ª posição global e o programa mais visto da RTP foi mais uma vez “O Preço Certo”. Se olharmos para o mês de janeiro os três programas mais vistos foram jogos da Allianz Cup, com o desafio entre Benfica e Sporting de Braga a liderar, seguido pela final entre o Sporting e o Sporting de Braga e depois pelo jogo entre o Sporting e o Futebol Clube do Porto. Futebóis à parte o 4ª programa mais visto de Janeiro foi o debate entre André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa e na 5ª posição ficou uma emissão especial da novela “A Máscara”.

(publicado nna revista SEXTA-GUIA DO LAZER do Correio da Manhã de 5 de Fevereiro)

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A MIRAGEM DAS VACINASO que se passa com o Plano de Vacinação contra a Covid-19 é um espelho do que tem acontecido no combate à doença: falta de planificação, improviso, atropelos constantes, desresponsabilização das autoridades. Algumas declarações de Francisco Ramos, ex- Coordenador do Plano de Vacinação, são patéticas e claramente extravasam as suas funções e dizem bastante sobre a sua competência para dirigir uma área com uma responsabilidade tão grande na defesa da saúde pública. O homem fazia análise política enquanto o plano de vacinação tinha falhas trágicas. Acabou por se demitir no início da semana, depois de nem ter conseguido controlar abusos na vacinação no Hospital que ele próprio dirige, a Cruz Vermelha. Estávamos à espera de um plano nacional de vacinação mas saíu-nos um plano nacional da confusão. Numa série de países, civilistas e democráticos, as forças armadas têm sido chamadas a auxiliar - e dirigir - com a sua experiência, competência, meios e logística, esta tão delicada e urgente acção de vacinação. As Forças Armadas têm um papel relevante em tempo de paz, a complementar a sociedade civil, usando a sua experiência em situações de crise e de urgência extrema. Em Portugal têm sempre respondido positivamente quando chamadas a ajudar. Recentemente soube-se que uma coronel médica da Força Aérea, Maria Salazar, coordena de forma exemplar uma força de 300 militares que prestam auxílio à formação de pessoal de lares de idosos no combate à pandemia. E é um bom sinal que seja agora um militar a tomar conta da operação de vacinação. A demissão de Francisco Ramos é uma oportunidade para endireitar as coisas.  Como disse o Presidente do Sindicato Independente dos Médicos, é preciso “mais trabalho e menos propaganda”. Espera-se que o novo responsável, vice-almirante Gouveia e Melo, fale menos que o antecessor e que mostre que a prioridade é mesmo vacinar as pessoas.

 

SEMANADA - Segundo a Direção Geral da Saúde registaram-se em Portugal um total de 19 490 óbitos em janeiro, o que corresponde a um aumento de 67% face à média verificada entre 2009 e 2020; a pandemia provocou uma queda histórica da esperança média de vida depois dos 65 anos; a meio da semana já tinham sido referenciados mais de 340 casos de vacinações indevidas feitas por favor ou graças a “cunhas”; o responsável dos serviços farmacêuticos do INEM que denunciou abusos na administração da vacina, foi afastado das suas funções; a dívida portuguesa ultrapassou os 270 mil milhões de euros em 2020, o que significa o valor recorde de 134,8% do PIB; o valor final da variação anual do PIB em 2020 foi de 7,6%, o mais negativo desde 1928; em 2020 o número de dormidas em estabelecimentos hoteleiros caíu 63% face a 2019, registou o pior número desde 1993 e a área metropolitana de Lisboa foi a zona mais afectada com uma quebra de 71,5%; Portugal desceu de categoria no Índice de Democracia elaborado anualmente pela revista The Economist, que teve em consideração, a par da reversão das liberdades democráticas por causa da pandemia, questões como a redução dos debates parlamentares ou ainda “a falta de transparência no processo de nomeação do presidente do Tribunal de Contas”;  Manuel Villaverde Cabral, Marçal Grilo e Pedro Santana Lopes pronunciaram-se a favor da nomeação pelo Presidente da República de um Governo de salvação nacional para gerir o combate à pandemia e a recuperação da economia; o parlamento europeu recomendou que pelo menos 2% dos planos de recuperação dos estados membros sejam dirigidos para o sector cultural e criativo mas o plano do Governo português não os identifica como uma prioridade.

 

ARCO DA VELHA  - Cristina Gatões, a ex directora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que durante meses não se pronunciou sobre a morte de um cidadão estrangeiro no aeroporto, em instalações do SEF, passou de directora demitida daquela entidade a assessora da nova direcção onde vai trabalhar na reformulação dos vistos gold. O mundo é mesmo cor de rosa.

 

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O MISTÉRIO DO CÉREBRO -  A RTP é a única estação de televisão que produz, promove e exibe documentários - não estou a falar de reportagens. Essa é uma parte muito importante do Serviço Público audiovisual. Se não for a RTP a fazer isso ninguém se preocupará com esse assunto e a produção de conteúdos audiovisuais em língua portuguesa ficará ainda mais pobre. "Deus Cérebro” é uma série documental em quatro episódios, já todos transmitidos em horário nobre no primeiro canal, que conta como nos últimos 20 anos se deram passos de gigante na exploração do cérebro humano - mesmo se  a dimensão do que está para lá do nosso conhecimento permanece um enigma. À medida que se avança no conhecimento do cérebro, maior é a perceção de que há um vasto universo por descobrir. A série pretende descodificar os mistérios do cérebro humano. Produzida pela Panavideo, realizada por António José Almeida, com guião de Anabela Almeida e música de Carlos Maria Trindade, a série entrevista cientistas portugueses e estrangeiros, como António Damásio (na imagem) e é um exemplo do que deve ser um documentário que de uma forma simples e eficaz aborda uma matéria tão complexa como o cérebro humano. Todos os episódios estão disponíveis na RTP Play, a aplicação de conteúdos do canal.

 

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BLUES E SAUDADE - Melody Gardot a cantar em português num dueto com António Zambujo? Sim - exactamente o segundo tema do seu novo álbum “Sunset In The Blue” editado em Janeiro. “C’Est Magnifique” é o encontro de estúdio entre Gardot e Zambujo - nada de admirar já que a cantora passa temporadas largas em Lisboa, onde não se cansa de dizer que gosta de estar. Nos últimos anos Gardot trabalha cada vez mais nesse território em expansão que é o cruzamento do jazz vocal com a música pop, percorrendo baladas e recorrendo a arranjos envolventes. Aqui a atracção latina é patente em vários temas, num disco onde os originais se entrelaçam com versões de canções de outros autores. E nesses temas latinos ela canta num português com toque de Brasil enquanto que ao longo dos 12 temas deste disco usa a sua voz em registos que, como a revista Down Beat escreveu, fazem lembrar Shirley Horn, Dinah Washington ou Edith Piaf, mostrando a extensão da sua capacidade vocal. O tema que dá título ao álbum foi escrito por Jesse Harris, um dos nomes que tem estado ao lado da carreira de Norah Jones. O que eu acho especial em Gardot é ela, em disco, conseguir transmitir a atmosfera de um clube de jazz, mesmo quando os arranjos são complexos. Este disco é um repositório de saudades de outros mundos, de viagens que estes tempos obrigam a que fiquem só no pensamento, tão evidente na sua versão de “From Paris With Love” quando canta “Maybe one day I will see you soon”. O single e vídeo desta canção serviu para recolher receitas para organizações de profissionais de saúde que estão a combater a Covid-19 e Gardot fez questão de gravar com uma orquestra como um sinal de apoio aos músicos que nestes tempos estão com o seu trabalho em risco. “Sunset In The Blue” está disponível nas plataformas de streaming e “From Paris With Love” pode ser visto no YouTube.

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A HISTÓRIA DO PETISCO - Alguns dos meus leitores já terão reparado como eu gosto de petiscar e de ler sobre comidas. Algumas das receitas  que aqui relato nasceram de newsletters que recebo e vou experimentando. Nestes dias de confinamento abri um livro, editado há pouco tempo, que é uma excursão pela História e pela gastronomia. Chama-se “História dos Paladares” e foi escrito por Deana Barroqueiro, uma portuguesa nascida em 1945 nos Estados Unidos, que aos dois anos veio para Portugal onde cresceu e estudou, na Faculdade de Letras de Lisboa. Tem ensinado  Língua e Literatura Portuguesa e Francesa. Autora de diversos livros e de guiões  para cinema e televisão tem vários romances históricos publicados. Este novo livro relata a história da evolução do gosto, a educação do paladar, o amadurecimento da gastronomia como uma arte. O percurso histórico desta evolução é narrado com acontecimentos passados em todo o mundo, ao longo de séculos, cruzando episódios com mitos, evocando personalidades que contribuíram para tornar a comida algo de especial para além das questões da sobrevivência. E, como neste livro a história do mundo se cruza com a história de Portugal, há numerosas indicações de como as influências dos territórios descobertos por portugueses se repercutiram na gastronomia lusitana. Este primeiro volume de “História dos Paladares”, com o título “Sedução”, será seguido pela “Perdição”, onde a gastronomia se liga ao cinema, ou ao prazer, à tentação, ao fausto e até à religião. E neste “Sedução” há mais de 250 receitas de diversas épocas e países. Um guia para estes dias.

 

NA PÚCARA - Esta receita é tirada do livro de Deana Barroqueiro”, “História dos Paladares”, referido nestas páginas. Trata-se de uma ideia para estes dias de confinamento invernais : frango na púcara, que a autora indica ter tido origem no século XIX, o equivalente português ao coq-au-vin. Aqui vai então: arranja-se o frango e corta-se aos pedaços, e salteia-se numa frigideira com 100 gramas de manteiga até ficar dourado. Ainda na frigideira rega-se com um cálice de aguardente e flameja-se. Os pedaços de frango devem então ser transferidos para um tacho com tampa (um bom tacho de barro ou um Le creuset nos dias que correm…). Adiciona-se 150 gramas de chouriço e presunto cortados às tiras pequenas, quatro tomates sem, pele nem sementes, uma meia dezena de cebolinhas, duas colheres de sopa de mostarda, dois dentes de alho esmagados, um cálice de vinho do Porto, um cálice de boa aguardente e um copo de vinho branco seco. A tudo isto adiciona-se salsa, tomilho, cravo, gengibre, noz moscada e pimenta e eventualmente cenoura cortada aos pedaços pequenos. Tudo isto se coloca no tacho intercalando com camadas dos pedaços de frango. O vinho do Porto, a aguardente e o vinho branco só entram no fim, para regar os ingredientes. Tapa-se o tacho e leva-se ao forno bem quente. Quando o frango estiver cozido destapa-se o tacho para o cozinhado corar à superfície. É servido no tacho, acompanhado de puré de batata ou arroz solto. 

 

DIXIT - “Neste momento a prioridade parece-me ser manter as empresas vivas e não o controlo do défice” - João Borges Assunção, professor da Católica, criticando o facto de a despesa pública ter ficado abaixo das verbas orçamentadas.

 

BACK TO BASICS - “A actividade política prática consiste em ignorar os factos” - Henry Adams



 

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