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SOBRE O RENDIMENTO MÍNIMO DA POLÍTICA

por falcao, em 25.06.21

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A MERCEARIA PARTIDÁRIA -  Desde há muitos anos que, dentro das minhas preferências políticas e ideológicas, vivo como independente no espectro partidário. Tenho votado de forma diversa nas várias eleições - presidenciais, legislativas e autárquicas - e mesmo aqui, por vezes, de forma diferente para a Câmara, a Assembleia Municipal ou a Junta de Freguesia. E muitas vezes votei até fora do que são as minhas opções mais recorrentes - dependendo de quem estava nas listas e da conjuntura. Vejo assim a política: isto não é um clube, não devo fidelidades se enquanto cidadão as não sentir da parte dos eleitos ou daqueles em quem votei. E já aconteceu mesmo aceitar ser candidato, como independente, numa eleição autárquica. E, recordando esse tempo, leio a carta que António Oliveira enviou explicando porque não se candidata afinal à Câmara de Gaia e devo dizer que o percebo perfeitamente. De certa forma sei do que fala, reconheço as pressões (embora o meu lugar fosse bem mais modesto), vejo os jogos de bastidores. Nessa altura senti que o papel dos independentes se esgota no dia das eleições, de flor na lapela passam rapidamente para ramos murchos descartáveis. Não conheço António Oliveira, não tenho opinião sobre ele, mas o que disse sobre o que se passou com as estruturas partidárias locais desde essa altura não me espanta. Infelizmente a política é dos aparelhos partidários, um monopólio protegido com unhas e dentes e que visa impedir novas ideias. Percebo bem o que António Oliveira escreveu quando disse, apesar de ser militante do PSD há muitos anos, que a sua atitude não era uma desistência, era uma questão de higiene: ”Ao longo de três meses fui sujeito a pressões, intimidações e ameaças. Tentaram impor-me o pior da “mercearia partidária” e tentaram envolver-me nas mais inacreditáveis negociatas de lugares. Enfim, quiseram obrigar-me a empregar os beneficiários do rendimento mínimo da política.” Rui Rio até agora não comentou. Há silêncios muito barulhentos.



SEMANADA - Sete em cada dez concursos para dirigentes do Estado são viciados; a Câmara der Lisboa entregou dados pessoais dos organizadores de 52 protestos e mnanifestações e a auditoria realizada mostra que na Câmara Municipal de Lisboa não existiram mecanismos de controlo interno, escrutínio e fiscalização do seu funcionamento, ou seja o Gabinete do Presidente da autarquia esteve em autogestão; Fernando Medina recusou-se a tirar consequências políticas do sucedido, mas encontrou rapidamente um bode expiatório que demitiu, demissão considerada ilegal pela Associação dos Profissionais de Protecção de Dados; mais de 40% das camas para estudantes universitários prometidas pelo Governo não têm ainda uma data prevista para poderem começar a ser usadas; no ano passado 61% dos portugueses não foram de férias para fora das suas residências habituais; em 2020 o número de portugueses que emigraram caíu para metade em relação ao ano anterior; o número de internados por Covid-19 mais que duplicou no espaço de um mês; Portugal é o 2º país com mais novos casos de covid-19, logo atrás do Reino Unido e  é o país da União Europeia com mais casos de Covid-19 por milhão de habitantes; já em matéria de finanças, Portugal perde para a Espanha e Grécia na comparação com o efeito no PIB dos fundos da bazuca europeia; como explicou João Miguel Tavares, o Primeiro Ministro António Costa definiu o projecto para Portugal, numa pergunta com apenas cinco palavras, que  dirigiu a Ursula von der Leyen: “Já posso ir ao banco?”; o rendimento médio anual dos portugueses caíu de 10.100 euros em 2019 para 9.100 em 2020.

 

O ARCO DA VELHA - A Segurança Social transferiu 788 mil euros, por engano, a título de subsídio de desemprego, o beneficiário alertou ele próprio para o erro e quis devolver o dinheiro, mas teve de responder à PJ por um alegado crime de abuso de confiança e branqueamento de capitais e ficou impedido de fazer operações bancárias.

 

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VER A QUATRO MÃOS - André Gomes e Pedro Calapez trabalham de forma bem diversa. Calapez com tintas e pincéis, Gomes com fotografia e digital. Em comum têm a capacidade de imaginar o que vão fazer com os seus instrumentos de trabalho e utilizá-los de forma criativa. Há uma relação de complementaridade bem evidente na exposição agora patente no Museu Berardo, da autoria de ambos, “Seja dia ou seja noite pouco importa”. De certa forma é como um recital de piano a quatro mãos. Pedro Calapez nos últimos tempos vem introduzindo na sua obra formas novas para mostrar o que vê e o que imagina. E André Gomes explora cada vez mais as possibilidades de encenação e de transformação que a imagem fotográfica digital permite - não para alterar a realidade, mas para visualizar o seu pensamento. No fundo prossegue o trabalho que iniciou com imagens em polaroid há alguns anos. No catálogo da exposição Alexandre Melo cita André Gomes sobre as possibilidades que as técnicas digitais lhe abrem: “permitem ir mais fundo dentro de mim, exteriorizar reminiscências que permitem uma especulação meditativa”. “As imagens visíveis-  diz Alexandre Melo  - que o artista connosco partilhou são o resultado de uma sofisticada negociação entre as imagens concretas - fotografias - que foi utilizando e as imagens abstratas do seu imaginário pessoal que, essas, o foram usando a ele.”  E, sobre o trabalho de Pedro Calapez, Alexandre Melo sublinha: “As pinturas (abstratas e informais, diríamos simplificando) que constituem o essencial do trabalho de Calapez no século XXI resultariam de uma radicalização do método de elisão da dimensão narrativa praticado desde o início da sua carreira, e que agora o liberta também da necessidade de explicitar qualquer enquadramento espacial ou referência objetual exteriores à materialidade da própria pintura.” A exposição, permanentemente colocando em diálogo a obra de ambos os artistas, começa por dois vídeos, um de André Gomes, outro de Calapez, que nos últimos tempos vem experimentando esta forma de expressão. 

 

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BOAS IDEIAS PARA PORTUGAL- Joaquim Miranda Sarmento é um economista, professor no ISEG, presidente do Conselho Estratégico Nacional do PSD. Nessa qualidade apresentou em 2020 um “Programa de Recuperação Económica”, na altura divulgado como uma alternativa dos social-democratas ao PRR do Governo. Como Luís Marques escreveu no “Expresso” da semana passada, esse plano “é das poucas coisas boas que Rio tem para apresentar como suposto líder da oposição”. Mas, sublinha ainda Luís Marques,  Rui Rio é “um político que não perde uma oportunidade de estragar, ou esquecer, uma boa ideia”. E assim como esse plano foi apresentado, desapareceu e nunca mais se ouviu falar dele. Felizmente Joaquim Miranda Sarmento juntou num livro, apresentado esta semana, “Portugal - Liberdade e Esperança”, a sua visão sobre o país e o que propõe fazer  para tentar resgatar Portugal de 20 anos de estagnação económica, com uma visão para Portugal no horizonte de 2023. O autor recorda que nos anos 70, 80 e 90, Portugal cresceu acima da média europeia mas, a partir do início do século XXI, estagnou e caiu para a cauda da Europa. Joaquim Miranda Sarmento defende que urge alterar este modelo económico, sob pena de virmos a ter mais 20 ou 30 anos com os mesmos resultados e defende uma atuação em quatro eixos: a reforma das instituições, a valorização do capital humano, a melhoria da competitividade da economia e o confronto com a questão demográfica. Pelo meio debruça-se sobre temas  como a necessidade de reformas estruturais na área fiscal, das finanças públicas, do sistema de justiça, dos serviços públicos, propondo, em resumo, uma nova visão para Portugal.

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SIMPLICIDADE EFICAZ - O nome de Francisco da Silva esconde-se por detrás da marca que criou para o seu projecto musical, o qual vem desenvolvendo desde 2002. O nome que escolheu, Old Jerusalem, vem de uma canção de Will Oldham, um músico americano que é uma das suas influências. Desde 2002 Francisco Silva tem trabalhado em várias etapas do seu projecto Old Jerusalem, a começar pela estreia discográfica em 2002, com “Old & Alla”. Depois foram publicados mais oito discos, o mais recente dos quais, agora lançado, é “Certain Rivers” - nome que Francisco Silva foi buscar a uma citação do poeta polaco Czeslaw Milosz, Nobel da literatura de 1980: “Quando sofremos, regressamos às margens de certos rios”. O conceito musical do projecto Old Jerusalem é geralmente minimalista, voz e guitarra como base segura, melodias delicadas, letras escolhidas e trabalhadas. Mas neste “Certain Rivers” a simplicidade é levada ao extremo - fazendo aliás viver as suas 10 canções com uma maior intensidade que o seu próprio despojamento amplifica. Numa entrevista recente Francisco Silva sublinhou que as suas canções “falam bastante sobre e sensação da passagem do tempo, e de regressarmos mentalmente aos pontos de tempo de conforto, as nossas referências, as memórias fundacionais, as coisas que são âncoras para a nossa existência”. Este é o retrato de “Certain Rivers” e de Old Jerusalem, um projecto que é dos melhores e mais consistentes da música portuguesa.

 

PETISCO PARA ESTES DIAS DE VERÃO - Oficialmente estamos no verão, de maneira que é boa altura de falar de um prato fácil de fazer e que combina tradições gastronómicas de várias geografias. A ideia é um couscous de carapau de conserva. Escusa de começar a franzir os olhos e leia mais um bocadinho. O início é sempre igual: começa-se por hidratar os couscous com água ou caldo aromático, depois adiciona-se hortelã picada, a laranja em gomos e tomate cherry cortado em quartos. Deve guardar a casca da laranja para utilizar a raspa respectiva que é então misturada no couscous já humedecido. Mexa duas ou três vezes para o couscous encorpar, verifique se necessita de mais caldo, tempere com sal, pimenta negra moída na altura, azeite e, se quiser, um pouco de vinagre de sidra. Por fim deixe repousar até absorver todo o líquido. Coloque um punhado de folhas de rúcula por cima e, no final, os filetes de carapau de conserva, tendo o cuidado prévio de escorrer bem o azeite em que vêm. Acompanhe com um rosé bem fresco.

 

DIXIT - “Não convergimos porque há pouca inovação. É de inovação que o país precisa para fazer produtos com maior valor acrescentado.” - Luís Valente de Oliveira

 

BACK TO BASICS - “A inovação é o que distingue um líder de um mero seguidor” - Steve Jobs

(Publicado no Weekend do Jornal de Negócios de 25 de Junho de 2021)







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publicado às 11:00

A GRANDE ILUSÃO

por falcao, em 18.06.21

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A RESPONSABILIDADE DA LIBERDADE - Ora adivinhem lá quem salvou Medina de um voto de censura na Assembleia Municipal, no caso dos dados pessoais de manifestantes fornecidos a embaixadas estrangeiras, entre as quais a da Rússia? Se disseram PCP acertaram. Estamos pois conversados - até o Bloco de Esquerda se pôs de fora da confusão e votou contra. Já que o caso envolveu igualmente o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Administração Interna, que também esconderam conhecer o assunto, espero que alguém apresente um voto de protesto pelo sucedido na Assembleia da República para ver o que lá acontece: quais os partidos que na casa da Democracia acham normal enviar dados pessoais a embaixadas estrangeiras e quais os que censuram o que se passou. E o que se passou foi que o Gabinete do Presidente da Câmara enviou nomes, moradas e contactos de manifestantes que protestavam contra as acções dos governos da Rússia, da Venezuela, de Israel e da China às respectivas embaixadas. O que se passou não foi um problema burocrático - não nos tomem por parvos - o atendimento não foi num guichet de um serviço anónimo mas no gabinete de apoio ao próprio Presidente da autarquia. O que verdadeiramente me preocupa é a maneira como o centro de poder da Câmara funciona. Um bom amigo chamou-me a atenção para uma evidência: este episódio atesta incompetência, mostra a falta de capacidade de Medina para gerir o seu próprio gabinete, evidencia uma acção que prejudica os lisboetas e a cidade e causa danos à reputação do país. Este é mais um caso que evidencia que o Governo da cidade necessita de mudanças profundas. Medina, no entanto,  escolheu fugir às suas responsabilidades políticas enquanto anda atarefado em inaugurações de obras incompletas. Na realidade o actual Presidente da Câmara de Lisboa  deixou de ter autoridade para se recandidatar. Este incidente foi a última gota de água para se perceber como Medina funciona - em modo exibicionista para celebrar, e em modo escondido para assumir responsabilidades. Medina e o PS preferem continuar entretidos a chuchar no dedo e a olhar para o lado, a ver se o assunto cai em esquecimento. A liberdade traz responsabilidades, não gosta de quem se esconde atrás de desculpas manhosas. 

 

SEMANADA - Um inquérito da organização Transparência Internacional indica que 60% dos portugueses classificam como “mau” o desempenho do Governo no combate à corrupção; o mesmo estudo coloca Portugal no terceiro lugar, entre os países da União Europeia, na percepção da gravidade da corrupção; quase 90% dos portugueses acreditam que há corrupção no Governo; o Conselho Superior da Magistratura considera que as propostas do PS, Bloco e PAN sobre a ocultação de riqueza têm efeito prático reduzido; da zona dos mármores no Alentejo são transportadas por ano 300 mil toneladas de pedra em 11.700 camiões e não está previsto um terminal de mercadorias ferroviário na zona, o que permitiria poupar 2600 toneladas de CO2 por ano; com autárquicas à vista o Parque Ribeiro Telles foi inaugurado no Domingo passado por Fernando Medina apesar de não estar concluído e de as obras continuarem; o programa de financiamentos ao desenvolvimento da economia baseada no mar só executou um quarto do orçamento em cinco anos e empresários do sector queixam-se de cativações e de ineficácia do sistema que está a gerir o processo; o Instituto Bruegel elaborou um estudo em que Portugal aparece como um dos países europeus mais lentos na sua planificação da utilização dos fundos da bazuca; segundo uma associação do sector das telecomunicações Portugal é dos países europeus mais atrasados em matéria de 5G.

 

O ARCO DA VELHA - A Câmara Municipal de Lisboa tem cerca de 13.000 funcionários, ou seja um por cada 38 habitantes da cidade. Entre os funcionários da CML contam-se 381 advogados, 159 relações públicas, 443 arquitectos e 168 historiadores, entre muitas outras profissões.

 

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A FORÇA DO DESENHO - Não há fome que não dê em fartura e Lisboa está cheia de boas exposições e hoje destaco duas delas. Começo pela Sociedade Nacional de Belas Artes onde decorre uma exposição dedicada à obra de Gaëtan, um artista português, desaparecido em 2019 aos 75 anos, cuja obra se desenvolveu essencialmente na área do desenho. No texto que apresenta a exposição, assinado pelos seus curadores, Alberto Caetano e Rui Sanches, sublinha-se que a obra plástica de Gaëtan ficou identificada com a auto-representação, “desenhando de forma regular e persistente o seu rosto, olhando-se no espelho”. Gaëtan era destro mas desenhava propositadamente com a mão esquerda para “evitar as armadilhas da representação correcta da factualidade do modelo que tinha perante si”. Gaëtan dava aos seus desenhos, em séries ou individuais, títulos que remeteram para referências literárias, musicais ou cinéfilas, muitas vezes com um humor especial, sempre com um traço marcante. Esta exposição tem uma montagem absolutamente exemplar, que nos ajuda a conhecer melhor o percurso de Gaëtan (na imagem). Outra exposição fundamental está na Gulbenkian - “Tudo O Que Eu Quero”, uma mostra dedicada à obra de mulheres que se destacaram no panorama das artes plásticas em Portugal entre 1900 e 2020. Com curadoria de Helena de Freitas e Bruno Marchand a exposição agrupa duas centenas de obras de 40 artistas portuguesas  como Maria Helena Vieira da Silva, Lourdes Castro, Paula Rego, Ana Vieira, Helena Almeida, Joana Vasconcelos, Maria José Oliveira, ou Fernanda Fragateiro entre muitas outras. Numa selecção é sempre difícil escolher, mas tenho pena que esteja ausente a obra de Maria Beatriz, uma artista portuguesa que fez da libertação e emancipação da mulher o tema de muitas das suas obras. Maria Beatriz morreu o ano passado na Holanda, onde vivia desde 1970, e o seu espólio está em Lisboa, guardado, ao que me dizem, em más condições de conservação.

 

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O POP E O ROCK - Liz Phair é uma cantora e compositora norte-americana, discreta mas com uma obra importante. E, acima de tudo, é uma grande escritora de canções - há mesmo quem diga que ele é das mais relevantes escritoras de canções dos últimos 30 anos, como a revista Rolling Stone. O seu último disco de originais datava de 2010 e agora publicou “Soberish”. Ela fez o seu percurso desde a primeira metade dos anos 90 no rock alternativo e o seu primeiro disco data de 1993, “Exile in Guyville”. Este novo álbum retoma temas que lhe são caros: a amizade, a descrição e o amor que ela deseja. Brad Wood, que produziu o seu álbum de estreia e o seguinte, “Whip-Smart”, foi chamado para trabalhar nas 13 canções deste “Soberish”, mais a meio caminho entre o pop e o rock que o caminho mais alternativo do início da carreira de Liz Phair. “Hey Lou”, o terceiro tema do disco bem pode servir como cartão de visita e mostra bem a forma como Liz ela usa as palavras: “No one knows what to think when you’re acting like an asshole/Spilling all the drinks, talking shit about Warhol.” Ou, como na abertura do tema “Good Side”: “There are so many ways to fuck up a life/ I’ve tried to be original”. Estas palavras duras são a face conhecida de Liz Phair, contrastam com o pop rock que ela adoptou em “Soberish” e o resultado é completamente inesperado. Sinal destes tempos.

 

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O PETISCO EXPLICADO  - Maria de Lourdes Modesto,  é uma das maiores estudiosas e divulgadoras da tradição culinária portuguesa, com numerosos livros publicados. Tornou-se popular graças a um programa culinário que apresentou na RTP desde 1958 e ao longo de 12 anos, depois de ter sido professora no Liceu Francês, em Lisboa. Foi a pioneira portuguesa do “live cooking”. Apaixonada pela cozinha alentejana e de outras regiões de Portugal,  escreveu vários livros de cozinha portuguesa, dos quais se destacam a Grande Enciclopédia da Cozinha, Cozinha Tradicional Portuguesa (o livro de culinária mais vendido em Portugal) e Receitas Escolhidas. Agora, aos 91 anos, acaba de lançar “Coisas Que Eu Sei”, que recolhe alguns artigos publicados na imprensa nos últimos anos, mas também material original. São 185 páginas que percorrem conselhos sobre sopas, recomendações sobre produtos sazonais, especialidades regionais como as bolas e folares transmontanos, o papel do gengibre ou da courgette, o tesouro dentro do mel, guloseimas do arroz doce à marmelada, culminando com recomendações para uma ceia de Natal bem sucedida. Neste novo livro, “Coisas Que Eu Sei”, Maria de Lourdes Modesto escreve: «Para o bem e para o mal, Portugal vive um momen­to de grande euforia gastronómica. Se é verdade que hoje, ao contrário do que acontecia há 50 anos, já é possível encontrar na restauração cozinha tradicional em todo o país, não é menos verdade que o risco de desfiguração e perda se tornou superlativo. Não pensem que têm pela frente a padeira de Al­jubarrota da cozinha tradicional, inflexível a qualquer mudança. Apenas se pede que separem as águas — a chamada cozinha de autor não tem memória, é por re­gra, irrepetível. A tradicional é factor de identificação de uma região, de um grupo, de um país, e quer-se bem copiada.»

 

GOSTO COIMBRÃO - Do Tacho é um pequeno restaurante no centro de Coimbra, pouco mais que meia dúzia de mesas no interior e uma mini esplanada na rua. O restaurante existe há poucos anos mas tem uma personalidade vincada, baseada em produtos sazonais e especialidades portuguesas. Na mesa, à chegada, estão azeitonas alentejanas britadas, azeite de Macedo de Cavaleiros, pão de abóbora e nozes e pão de mistura, ambos fresquíssimos e estaladiços. Destaco o serviço de vinhos, baseado em provas de pequenos produtores da região. De entrada provou-se um excelente espumante Alazão rosé, bruto, da Bairrada. E depois seguiu-se um tinto reserva da Casa do Canto, também da Bairrada. Os pratos escolhidos foram bacalhau confitado e favas com enchidos, e pelo meio apareceu em jeito de brinde tostas com cachaço em redução de vinho do Porto. As escolhas vieram perfeitas, a posta do bacalhau de boa qualidade e os enchidos superlativos numa confecção cuidada das favas, tenras, mas sem virem afogadas em molho. A costela era outra opção que numa mesa ao lado era apreciada, e tem um porte notável. O serviço muito simpático e eficaz. Reserva necessária. Rua da Moeda 20, Coimbra, telefones 911 925 961 e 239 197 830.

 

DIXIT -“Preciso das minhas memórias. Elas são os meus documentos.”- Louise Bourgeois 

 

BACK TO BASICS - “A liberdade tem um valor inestimável” - Cícero

 

 







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ELE HÁ QUEM SE APROVEITE...

por falcao, em 11.06.21

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FESTA É FESTA - A mais recente novela da TVI, que tem dado dores de cabeça à concorrência, chama-se “Festa É Festa” e é vista regularmente por mais de um milhão de espectadores. Mas não é de novelas que se trata e sim do que se vem passando no país após ano e meio de pandemia, confinamentos variados e uma acentuada quebra da economia portuguesa. É com este pano de fundo que os cidadãos assistem ao que se passa. Para começar com festa recordo que o Ministro da Economia, que tutela o sector do Turismo, achou por bem há algumas semanas ir passear num cruzeiro no Douro oferecido por Mário Ferreira, com quem o Estado tem um contencioso, devido à recusa de autorização em zona protegida da construção de um novo hotel no Douro, o local do passeio. O Ministro conviveu sorridente com o patrão da TVI e com a estridente Cristina Ferreira e ocorreu-me que um Ministro podia ter mais recato. Há dias soube-se também que a deputada do PS Ana Paula Vitorino foi a escolhida pelo ministro Pedro Nuno dos Santos para presidir à Autoridade da Mobilidade e dos Transportes com um salário superior a 12 mil euros mensais. Por falar em Pedro Nuno dos Santos soube-se esta semana que um seu ex-chefe de gabinete e ex-deputado do PS, Nuno Costa Araújo, entretanto colocado como Presidente dos portos do Douro,  Leixões e Viana do Castelo, é suspeito de corrupção numa investigação sobre ajustes directos de várias autarquias nos últimos cinco anos à empresa de que Araújo era sócio-gerente. Para continuar a festa Pedro Adão e Silva, ex Secretário Nacional do PS durante a liderança de Ferro Rodrigues e entretanto tornado comentador político em defesa do Partido Socialista, foi nomeado responsável pelas comemorações do 50º aniversário do 25 de Abril, durante cinco anos, seis meses e 24 dias, ou seja mais de dois anos depois de realizadas as comemorações. Assim a celebração dos 50 anos do êxito do Movimento dos Capitães, que restaurou a liberdade, o pluralismo político e que acabou com uma ditadura, foram entregues a um propagandista partidário. Se isto tudo não é uma festança, digam-me lá que nome lhe hei-de colocar?

 

SEMANADA - Três quartos da queda do PIB deve-se ao colapso do turismo; onze meses depois de aprovada a bazuca de fundos europeus continua no papel e durante a presidência portuguesa da comunidade a coisa não avançou; os espanhóis propuseram uma ligação de comboio directa entre Madrid e Lisboa via Badajoz e Elvas mas a CP prefere a ligação com passagem por Salamanca, Vilar Formoso e Guarda; a líder da bancada parlamentar do PS pediu sensatez ao ministro Pedro Nuno Santos por causa dos comentários do governante sobre a Ryanair; apesar de ter anunciado lucros o Novo Banco pretende receber mais 600 milhões de euros do Estado; a taxa de sucesso da Autoridade Tributária nos conflitos com os contribuintes caíu para o valor mais baixo dos últimos dez anos; o apoio do Estado para pagar rendas de casa a pessoas em dificuldades durante a pandemia chegou apenas a 769 famílias e com atrasos consideráveis, quer na resposta aos pedidos, quer no recebimento de apoios; o secretário-geral do PSD, José Silvano vai a julgamento por faltas na Assembleia da República acusado de falsificação da presença em plenário; o PAN anunciou querer chegar ao Governo em 2023; o novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henrique Araújo, no discurso de posse do cargo, acusou a classe política de inércia; argumentando falta de diálogo democrático, demitiram-se 7 dos 17 peritos nomeados pelo Governo para elaborarem a estratégia portuguesa para uma nova Política Agrícola Comum europeia; numa análise preliminar do instituto Bruegel, Portugal é dos países onde a componente ambiental tem menos peso nas escolhas dos projectos a executar com o dinheiro do fundo de recuperação europeu; durante a pandemia a produção de cannabis em casa para autoconsumo disparou devido à escassez de produto no mercado.

 

O ARCO DA VELHA - Numa só semana o Ministério dos Negócios Estrangeiros desentendeu-se com o Reino Unido e Espanha no contexto da pandemia segundo o velho princípio “depois de casa roubada, trancas à porta”.

 

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ARTE POLÍTICA - Ai Weiwei, cuja exposição “Rapture” inaugurou em Lisboa no início de Junho, é considerado um dos maiores artistas contemporâneos e, no ano passado, o site Artnews considerou-o o artista plástico mais popular e influente no mundo. Esta sua exposição é a maior que já fez na Europa e ocupa cerca de 4 mil metros quadrados na Cordoaria Nacional, onde apresenta 85 peças, até finais de Novembro. A exposição foi produzida expressamente para ser apresentada em Portugal por uma empresa privada que nos últimos anos tem trabalhado esta área, a Everything Is New, de Álvaro Covões. Assumir posições políticas  faz parte da  personalidade de Ai Wewei há muito - ele tem 63 anos, é filho de um poeta que foi amigo de Mao Zedong (e que foi perseguido no período da Revolução Cultural Chinesa). Weiwei tem sempre vivido combinando criativamente a política com a fantasia,  as suas obras são enormes, simbólicas, como as bicicletas que estão à entrada da Cordoaria ou as peças que criou para a Documenta na Alemanha ou para a Tate em Londres. Exilado desde 2015, Ai Weiwei vive hoje em dia em Portugal, em Montemor-O-Novo, depois de ter passado pelo Reino Unido e pela Alemanha. Apesar de ter sido um dos co-autores do emblemático estádio “Ninho de Pássaro” que marcou os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, Ai Weiwei foi detido em 2009 e em 2011 e viu o seu estúdio destruído pelas autoridades. Esta exposição, que junta peças de instituições oficiais e colecções particulares de diversos países, coloca também em confronto, pela primeira vez, algumas obras que nunca tinham sido montadas em simultâneo, além de quatro peças já produzidas em Portugal, com recurso a materiais como a cortiça ou o mármore alentejano. O brasileiro Marcelo Dantas é o curador desta exposição que mostra como o trabalho de Ai Weiwei reflecte sobre a privacidade, o controlo da informação, a desproporção entre o Estado, os poderes das corporações e a autonomia e liberdade dos indivíduos.

 

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UM EDITOR ESPIÃO - “Dr. B” é um fascinante livro sobre as atribulações de um editor literário. Passado em Estocolmo no clima da ascensão do nazismo  e da II Guerra Mundial, o livro tem como protagonista um jornalista judeu refugiado em Estocolmo, que se tornaria um «espião duplo», simultaneamente colaborador dos Serviços Secretos britânicos e alemães. Funcionário da célebre editora S. Fischer Verlag – a mesma que continuou a publicar na Suécia autores proibidos pelos nazis como Thomas Mann e Stefan Zweig – Immanuel Birnbaum entrou nos meandros do conflito que assolava a Europa. O autor de “Dr. B”, Daniel Birnbaum, é um prestigiado curador artístico e dirigiu as edições da Bienal de Veneza em 2003 e 2009, tendo sido director do Museu de Arte Moderna de Estocolmo. O protagonista desta aventura entre a literatura e a espionagem é um antepassado de Daniel Birnbaum e o título , “Dr. B.” evoca a assinatura que o editor-espião utilizava para assinar os seus artigos na imprensa, outras das suas actividades. Na década de 1940 Estocolmo era uma cidade de encruzilhada, entre emigrantes, expatriados, diplomatas e espiões. O livro é baseado em factos reais, reconstruído a partir de uma caixa de cartão repleta de documentos encontrada no sótão de uma casa de família. Uma narrativa cativante sobre a literatura e o cruzamento do jornalismo com a espionagem.

 

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BOWIE CANTA BREL - “The Width of a Circle” é o título de um duplo CD que reúne uma colecção de 21 temas de David Bowie, em versões até agora inéditas. As gravações foram efetuadas em 1970 e 1971, incluindo singles nunca agrupados em álbum, gravações feitas em programas da BBC, música composta para uma peça de teatro feita para televisão onde o próprio Bowie era actor, além de misturas inéditas de Tony Visconti, um dos músicos com quem Bowie mais trabalhou. Quatro canções mostram Bowie acompanhado pelos Hype, a sua banda da época, que incluía Tony Visconti no baixo e Mick Ronson na guitarra. O primeiro disco reproduz uma sessão de gravação feita para o “Sunday Show” de John Peel na BBC, gravado e emitido em Fevereiro de 1970. O primeiro tema é uma versão de “Amsterdam”, um original de Jacques Brel, em que Bowie toca guitarra acústica. Outras da curiosidades desta edição é uma versão de “I’m Waiting For The Man” dos Velvet Underground e dois inéditos de Bowie a solo, só voz e guitarra, em “Columbine” e “The Mirror”, temas compostos para a já referida peça teatral, intitulada “The Looking Glass Murder/ Pierrot in Turquoise”. Esta edição surge 50 anos depois do lançamento original de “The Man Who Sold The World”. Podem ouvir  “The Width of a Circle” nas plataformas de streaming.

 

A SARDINHA RECOMENDA-SE - Inaugurei esta semana a época das sardinhas, no Último Porto, um restaurante junto à Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos. A sua grelha nunca desilude e o peixe é variado e de primeira e nesta altura do ano as sardinhas ali servidas têm fama. A grelha aliás é um dos argumentos deste restaurante. O objectivo da escolha do restaurante era ir ao peixe da época e confesso que, estando nós ainda na primeira quinzena de Junho, tinha as minhas dúvidas sobre as sardinhas. Mas reconheço que o receio era injustificado. Vieram de bom porte, já avantajadas, saborosas, com boa textura. Até parece que as sardinhas este ano ganharam com o confinamento - talvez tenham andado menos barcos no mar e elas puderam crescer sossegadas. Estavam muito boas. Como acompanhamento o Último Porto é tradicionalista: batatas cozidas, salada de tomate, alface, cebola e pimento assado. Na mesa, estão azeitonas temperadas e, quando as sardinhas chegam, vem pão cortado às fatias grossas para que elas possam deixar a sua saborosa marca. Uma vez desaparecidas as sardinhas, o pão serve de petisco final. O Último Porto tem uma grande esplanada e duas salas e só está aberto ao almoço, escusa de pensar em ir lá jantar. Como a casa enche com frequência, o melhor é marcar. Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, telefone 213979498.

 

DIXIT - “Não gosto de viver num país que em nome do ‘interesse nacional’ trata pior os seus que os forasteiros de passagem” - Miguel Sousa Tavares

 

BACK TO BASICS - “Não estou aqui para agradar a ninguém com as respostas que dou” - William Shakespeare

 

 







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publicado às 11:00

SEM REI NEM ROQUE

por falcao, em 04.06.21

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O BURACO - O estado da nação resume-se a isto: a autoridade do Estado é um buraco. O próprio secretário de estado do desporto, face ao buraco, classificou como um sucesso a final da Champions no Porto. Indiferente às críticas de vários sectores políticos, sociais e desportivos,  o governante regozijou-se pelo comportamento dos que vieram assistir no estádio à final e que não cumpriram as regras em vigor no país sobre cuidados a ter em matéria de saúde pública em tempo de pandemia. Ficamos a saber que há um membro do Governo que entende que há dois critérios de aplicação da Lei e que se resume a isto: aos estrangeiros de visita tolera-se aquilo que aos portugueses é proibido. O próprio Primeiro Ministro foi suave na sua análise do sucedido e evitou comentar as críticas do Presidente da República à forma como os acontecimentos se desenrolaram e fugiu de falar  de um possível cenário de eventuais consequências políticas, que, a existirem, teriam que atingir o seu fiel escudeiro Cabrita. O que sucedeu foi grave, não só porque revela duas bitolas - até na forma de actuar das autoridades, que evitaram confrontos e terão mesmo recebido indicação para não dispersarem os visitantes britânicos se isso implicasse o uso da força. A saúde pública não pode ser uma moeda de troca na atracção do turismo. Não há lógica para permitir que quem nos visita possa estar sem máscara, sem distanciamento social, a consumir bebidas alcoólicas na via pública. Como salientou o médico Filipe Froes, o que correu mal foi o que era da responsabilidade das entidades oficiais. Não era má ideia começar a averiguar responsabilidades de quem deixa acontecer o impensável - porque não podemos ser todos a voltar a pagar os erros de alguns.

 

SEMANADA - A  Anacom recebeu 140 mil reclamações sobre serviços de comunicações entre 19 de Março de 2020 e 18 de Março de 2021; desde 2013 as rendas em Lisboa duplicaram e a capital portuguesa é agora a oitava mais cara da Europa; no último ano foram encerrados mais de 100 balcões bancários; 41 jogadores portugueses marcaram 175 golos nos principais campeonatos europeus durante esta época; entre Janeiro e Abril as multas por infracções ao código da estrada aumentaram 10% e atingiram o total de 30,7 milhões de euros, apesar das medidas da redução da circulação viária devido ao confinamento; mais de metade de arguidos em processos de cibercrime não são condenados; a escassez de materiais de construção provocou um aumento de preços que ultrapassa os 35%; as exportações de madeira e mobiliário para fora da Europa cresceram 24%; um estudo da OCDE indica que a reposição do PIB per capita em Portugal para os níveis pré-pandemia deverá demorar cerca de três anos, o que nos coloca como o terceiro país mais lento na recuperação entre os países mais desenvolvidos analisados; 90% das respostas ao Censos 2021 foram feitas pela internet; foi solicitada à Provedora de Justiça a averiguação de eventual inconstitucionalidade das isenções fiscais a entidades e pessoas envolvidas na final da Champions no Porto, isenções aprovadas pelo PS com uma abstenção maioritária e os votos contra apenas do Bloco e do PAN.

 

ARCO DA VELHA - O Ministério da Administração Interna autorizou que a GNR comprasse uma lancha que custou 8,5 milhões de euros e que duplica as funções de vigilância da Marinha portuguesa, sem disso dar conhecimento àquele ramo das Forças Armadas.

 

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DESCOBRIR - O catálogo digital da História das Exposições de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian recolhe toda a programação desenvolvida entre os anos de 1957 e de 2016, com dados sobre as 1343 exposições realizadas nesses 59 anos e com o acesso a cerca de 30.000 documentos associados, de convites a cartazes passando por  cartas, folhetos, catálogos, textos de imprensa, recensões e fotografias. São ainda incluídas cerca de duas mil publicações e o registo de 20 000 entidades associadas (entre artistas, curadores, emprestadores e organizações parceiras). Este enorme projecto foi desenvolvido entre 2014 e 2020 numa parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto de História da Arte (IHA), da Universidade NOVA de Lisboa, Sob a direção-geral de Helena de Freitas, que apresentou a ideia, e posteriormente de Leonor Nazaré, ambas pela Gulbenkian e de Raquel Henriques da Silva, pelo IHA. Dezena e meia de investigadores e cerca de 30 estudantes de diferentes instituições colaboraram também no desenvolvimento deste projecto digital. O website permite realizar pesquisas variadas. Será possível, por exemplo, ter um conhecimento aprofundado da regularidade com que um artista ou uma determinada nacionalidade foram representados, da frequência com que uma obra da Coleção Gulbenkian foi exposta ou da recorrência com que um tema ou tipologia foram abordados na história da Fundação. É uma base documental única na História de Arte em Portugal acessível a todos em www.gulbenkian.pt/historia-das-exposicoes

 

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O SELO DE CHAFES  - O destaque desta semana vai para a escultura em ferro “Início Permanente” criada por Rui Chafes propositadamente para o espaço da Galeria da Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101, 3º). Segundo Rui Chafes «Início Permanente é o tempo em suspensão onde a vida e a não-vida, a morte e a não-morte, encontram a sua origem, o seu ponto de partida. » A escultura em ferro está colocada no chão de madeira, na penumbra do espaço da galeria e remete para a forma feminina da origem do mundo (na imagem). Rui Chafes acredita que “a origem da arte foi a tensão entre o sagrado e o profano e que devemos saber qual o nosso destino na terra”. Há uma intenção de recolhimento na forma como a peça é apresentada, levando quem a vê a procurar o seu significado. A Galeria da Casa A. Molder é um projecto da artista Adriana Molder, que recuperou a zona de exposições da mais antiga casa de filatelia do país, criada em 1943 por August Molder. A exposição está patente até 25 de Junho, aberta ao público durante a semana, no horário da tarde da Loja, das 15h30 às 19h, e aos fins-de-semana e Feriados por marcação. Outra sugestão: um novo projecto imobiliário apresentou-se na semana passada através de uma exposição, “New Era For Humanity” no Marvila Art District, num edifício de cinco andares do início da Rua Fernando Palha, que vai ser reabilitado como parte da reconversão de todo um quarteirão onde em tempos existiram armazéns e oficinas. Na exposição estão representados 27 artistas de Portugal, Angola, Nigéria, Itália, Bélgica, São Tomé e Príncipe, África do Sul, Reino Unido, Moçambique e França. A exposição pode ser visitada até 7 de Agosto.

 

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BLUES DO MISSISSIPI - Os Black Keys fizeram em 2020 uma das derradeiras digressões nos Estados Unidos, antes do início da pandemia e do confinamento. Estavam a divulgar aquele que era então o seu novo álbum, “Let’s Rock”, após uma ausência de cinco anos das edições discográficas. Depois veio o confinamento e durante os meses de inatividade forçada dos concertos - que foram sempre uma base da actividade do grupo. E durante o confinamento este duo de músicos do Ohio dedicou-se à sua paixão - os blues do delta do Mississipi, a origem da sua produção musical. Dan Auerbach na voz e guitarra e Patrick Carney na bateria e produção constituem  os Black Keys. O duo com mais dois músicos convidados estiveram em estúdio, em Nashville, durante dez horas ao longo de dois dias e gravaram o seu décimo álbum e o repertório escolhido baseou-se em versões de temas de blues e rock que tinham aprendido quando estavam a começar a tocar. Assim nasceu este novo álbum, “Delta Kream”, acima de tudo uma homenagem a um dos expoentes dos blues do delta do Mississipi, Junior Kimbrough, que teve algum êxito no início dos anos 90 e que foi a inspiração directa de Auerbach e Carney. Nos discos dos Black Keys há várias versões de temas originais de Kimbrough e neste “Delta Kream” metade dos 12 temas são da sua autoria e dois foram compostos por outro bluesman, R.L Burnside. No disco há outra presença a evocar Kimbrough - o baixista escolhido pelos Black Keys, Eric Deaton, era um dos músicos que acompanhava regularmente o bluesman e para a slide guitar foi chamado Kenny Brown, uma lenda dos Mississipi Hill Country blues. Por curiosidade, uma das primeiras gravações dos Black Keys foi um original de Kimbrough, “Do The Rump”, que aparece de novo, numa nova versão, neste “Delta Kream”. Já agora, o tema inicial do álbum é “Crawling Kingsnake”, um original de John Lee Hooker, outra das suas referências. Se gostam de blues vão a correr ouvir a este disco a uma das plataformas de streaming.

 

CACHORRINHOS - Em 2017 nasceu no Porto a casa The Dog, dedicada aos cachorros quentes. A receita era simples: baguetes longas e finas, com salsicha e linguiça fresca, queijo que derrete quando vai à prensa quente, o pão um pouco tostado, salpicado no final com um fio de um molho levemente picante. Os amantes de sensações fortes podem pedir o molho mais puxado mas a receita standard já é magnífica. Os cachorrinhos vêm num prato comprido cortados em pedaços e acompanham com uma batatas fritas aos palitos finos feitas na hora. Como era de esperar a cerveja é a bebida de eleição no local, obviamente uma marca nortenha. The Dog tornou-se rapidamente um caso de sucesso na Rua 5 de Outubro, no Porto, com vendas diárias que por vezes ultrapassavam as 400 unidades. Além dos cachorrinho, que é a especialidade da casa, há várias variedades de pregos no pão, com carne da vazia,  um prego no prato servido com batata frita, queijo e fiambre e também um pica-pau que inclui a carne da vazia, linguiça e salsicha fresca, tudo aos pedaços e convenientemente temperado. Para emoções fortes há uma sanduíche de presunto com ovo estrelado no meio. The Dog abriu há poucas semanas em Lisboa, na Avenida Marquês de Tomar 25 B. O balcão, logo na entrada, tem duas dezenas de lugares, ao fundo há uma esplanada que pode acolher umas 30 pessoas e há ainda a possibilidade de encomendar e levar para casa. A equipa que dirige este prolongamento lisboeta veio do Porto, assim como a matéria prima para garantir que não há diferenças entre os dois restaurantes. O resultado é um petisco que pode ser viciante.

 

DIXIT - “Com a “Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital” o Estado prepara-se para pagar o funcionamento de uma rede infernal de delação, supervisão e vigilância (....) Salazar não faria melhor” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Nunca ensino os meus alunos. Limito-me a criar as condições para que eles possam aprender” - Albert Einstein.








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