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O PRESIDENTE DA JUNTA  - O Governo do PS dinamizou uma Film Commission que tenta, e bem, atrair para Portugal produções audiovisuais que sejam aqui filmadas. Quando foi Presidente da Câmara de Lisboa António Costa defendeu a importância de a cidade ser palco de rodagens de produções audiovisuais, aliás como vários seus antecessores No programa eleitoral do PS está inscrita a dinamização e o apoio às indústrias criativas, nas quais a produção audiovisual se insere. Acresce que em Portugal existem excelentes profissionais na área, desde técnicos de som a directores de fotografia, passando por responsáveis por guarda-roupa ou electricistas. Há muitas centenas de pessoas que vivem e trabalham no universo dos audiovisuais e para quem a existência, onde quer que seja no nosso país, de produções internacionais, significa trabalho e reconhecimento. Somos mesmo bons nisto - os nossos técnicos são competentes, falam várias línguas, estão a par das tecnologias mais recentes e são reconhecidos além fronteiras. Pois é com este enquadramento que um senhor presidente da Junta, no caso a Junta de Freguesia de Santa Maria  Maior, Miguel Coelho, se insurge contra as consequências das políticas defendidas por António Costa e o PS nesta matéria e apareceu a criticar as filmagens previstas de uma série da Netflix no seu território, que encara como um quintal. Este senhor, que aparece a queixar-se dos incómodos das filmagens, é o mesmo que fecha os olhos à degradação do edifício do Tribunal da Boa Hora e nem quer ouvir falar de planos para a sua recuperação. E, para rematar, há cinco anos os voluntários da Refood na freguesia de Miguel Coelho foram expulsos do espaço que o próprio autarca lhes cedera uns meses antes, para dali distribuir refeições aos pobres. Este senhor é o mesmo que foi dirigente nacional do PS, dirigente da sua concelhia de Lisboa e deputado à Assembleia da República. É doutorado em Ciência Política, matéria que leccionou, mas não passa de um apparatchik de segunda categoria na guerrilha do PS contra a actual presidência da Câmara de Lisboa. É um exemplo da incoerência. Imaginar que este personagem anda pelas universidades a ensinar Ciência Política é uma coisa que mete nojo. 

 

SEMANADA - As rações e forragens para alimentação de animais aumentaram 53% e podem fazer disparar o preço da carne; menos de um milhão de crianças recebem abono de família, o número mais baixo desde 2005; segundo o INE quase 11% das crianças portuguesas estão em privação material e social; em Janeiro o desemprego aumentou pelo segundo mês consecutivo; o PS acusou o PSD de irresponsabilidade e insensibilidade"  por ter querido que a lei fosse respeitada no caso da votação indocumentada dos emigrantes; 36% dos professores dizem não ter recebido qualquer formação para a utilização de tecnologia digital nas aulas; Vítor Ramalho, um histórico amigo e assessor de Mário Soares, afirmou que “não podemos deixar a gestão do Governo passar para o PS”; segundo ele o PS “não ouve as pessoas, não há um gabinete de estudos como devia haver”; de Bragança a Madrid, de comboio, leva-se uma hora para fazer os primeiros 45 quilómetros até se apanhar o comboio de alta velocidade espanhol que demora mais duas horas para fazer 334 quilómetros; as multas por condução com excesso de álcool no sangue subiram 141% no espaço de um mês; em 2021 mais de 24 mil automobilistas foram multados por utilizarem o telemóvel enquanto conduziam.

 

O ARCO DA VELHA - O “Avante!”, órgão central do PCP, descreve a situação na Ucrânia como uma “obscena campanha provocatória do imperialismo contra a Federação Russa” e o site do PCP  “denuncia a perigosa estratégia de tensão e propaganda belicista promovida pelos EUA, a NATO e a UE”.

 

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PINTURAS NATURAIS - Muito para ver esta semana. Começo pela exposição de Inez Teixeira (na imagem), que fica na Fundação Carmona e Costa até 21 de Maio (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1- 6º andar). Apresentada como uma antológica, que mostra obras de desenho feitas entre 1989 e 2021, a exposição inclui dois conjuntos de produção recente, pinturas a óleo sobre papel - Degelo e Paisagens, sendo que a primeira dá o título genérico à exposição. Estes dois conjuntos de pinturas feitas no final do ano passado são marcantes e mostram uma nova e interessante direcção no trabalho de Inez Teixeira, uma aproximação à pintura e à reflexão sobre a natureza e os desafios que ela enfrenta. O curador, Nuno Faria, destaca: “O conjunto de desenhos reunidos na exposição Degelo, realizados durante um extenso período de tempo, inédito na sua quase integralidade, revela um programa de pesquisa livre de constrangimentos formais e um entendimento do desenho como prática processual e experiencial. Da exposição constam cerca de uma centena de desenhos, sobretudo organizados em séries, pontuadas por surpreendentes exceções, e um singular conjunto de pequenas esculturas em que a artista integra pedras encontradas no espaço natural”. Outra das novas exposições apresenta trabalhos de Rita Gaspar Ferreira e António Olaio, e está até 30 de Abril  na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 r/c esq). Na realidade ali estão três exposições: "Sobrevoo" de Rita Gaspar Vieira, “Polka Dot Brain” de António Olaio e “Upstairs, Downstairs”, uma colectiva dos dois artistas. Finalmente, na Galeria Miguel Nabinho, Luísa Cunha apresenta até 2 de Abril, a instalação sonora “Partitura 4- op” (Rua Tenente Durão 18-B).



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UMA VISÃO DA AMÉRICA - John Steinbeck, californiano,  foi um dos grandes escritores americanos, observador atento do seu país. Assinalando os 120 anos do nascimento de John Steinbeck e os 60 anos da atribuição do prémio Nobel, surge agora em Portugal a edição de “A América e os Americanos e outros textos”. O volume reúne mais de 60 textos de não ficção, publicados em jornais e revistas entre 1936 e 1966. Neles, Steinbeck discorre sobre temas como as guerras do seu tempo, a pobreza, o racismo, mas também as suas viagens e os seus amigos. Durante trinta anos, a par dos seus famosos romances, como “As Vinhas da Ira”, escreveu vários trabalhos curtos de não ficção, que foram sendo publicados em jornais e revistas no seu país e no estrangeiro. Estes textos permitem uma visão singular de uma era de profunda transformação nos Estados Unidos. Esta antologia reúne mais de sessenta destes textos, desde artigos que serviram de inspiração para o célebre romance “As Vinhas da Ira”, até ao último livro que publicou, “A América e os Americanos”, de 1966. Nestas páginas  encontra-se o olhar do jornalista, cobrindo a Grande Depressão norte-americana, a Segunda Guerra Mundial e o Vietname. Aqui estão textos sobre o julgamento de Arthur Miller, o seu manual sobre como se faz um nova-iorquino, a sua reportagem sobre uma convenção do partido Republicano, a visão que um escritor tem dos críticos, o seu discurso de aceitação do Nobel, textos sobre personagens como o grande fotógrafo Robert Capa, o actor Henry Fonda ou o músico Woody Guthrie e ainda várias das suas reportagens de guerra. Entusiasmante da primeira à ultima página.

 

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REDESCOBRIR A LOVE SUPREME -  Na primeira metade dos anos 60 era raro fazer-se gravações de actuações ao vivo e assim se perdeu a oportunidade de comparar registos dos mesmos temas, tocados em ocasiões diferentes. Nesse tempo Coltrane compunha imenso e tocava ainda mais. Volta e meia ainda se descobrem gravações, que andaram muitos anos perdidas,  e que mostram o que Coltrane e a sua banda faziam. Uma dessas gravações, que agora veio à luz do dia, é uma interpretação de “A Love Supreme”, uma das peças de referência de Coltrane, editada originalmente no início de 1965, numa altura em que o músico sentia a necessidade de mostrar como tinha descoberto a religião e a espiritualidade. Seis meses depois da edição, Coltrane actuava em Seattle e a interpretação que ali fez de “A Love Supreme” foi gravada e depois perdida. Até há pouco tempo a única gravação ao vivo da suite “A Love Supreme” que se conhecia tinha sido gravada em Antibes, na França, e era muito contida, mantendo a forma do disco original. Esta que agora surgiu, gravada em Junho de 65 em Seattle, mostra muito mais espaço para improvisação. Em Seattle, mantendo a ligação à composição original, Coltrane deu muito maior espaço de liberdade aos músicos. Nesta gravação surge a formação que gravou “A Love Supreme” em estúdio - Coltrane no sax tenor, McCoy Tiner no piano, Jimi Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria. Mas a eles foram acrescentados um segundo baixista, Donald Garrett, Pharoah Sanders no sax tenor e Carlos Ward no sax alto - sendo que o próprio Coltrane e Sanders deram uma mãozinha nas percussões adicionais. Na realidade a versão de “A Love Supreme” nesta gravação tem quase 75 minutos, o dobro do tempo do registo original. Há uma energia muito maior, os próprios solos de Coltrane são bem diferentes.Se gostam de Coltrane e de jazz,procurem nos serviços de streaming esta edição - “A Love Supreme, Live in Seattle”.

 

CREME PARA PAPALVOS - Depois de dois anos de pandemia os restaurantes começam a voltar a funcionar e há mesmo alguns novos espaços que começam a surgir pela cidade. Nada de muito relevante, infelizmente. O que mais abunda nesta nova vaga é o restaurante de conceito, onde o essencial não é a qualidade da comida nem do serviço, e sim a vivência de um momento, de uma experiência de um apregoado conceito. Devo dizer que isto é uma coisa que me desagrada profundamente. Por via de regra evito deslocar-me a tais locais, sem alguns amigos em que confio me contarem antes o que lá se passa. Um dos casos que me fez mais rir nos últimos tempos foi o relato feito por um amigo de uma visita ao Rocco, um novo restaurante cheio de peneiras, conceitos e efeitos decorativos, no piso térreo do Ivens Hotel (Rua Ivens 14). Tudo começa pela dificuldade que é reservar uma mesa usando os meios tradicionais. Por fim, quando se consegue alguma coisa e lá se chega, a uma zona de balcão, descobre-se que a sala do restaurante está às moscas e que havia mais que lugares para a reserva que havia sido negada. Enfim, tudo isto é cómico e a única comida que ali servem é creme para papalvos que queiram armar-se em frequentadores de locais de moda. 

 

DIXIT -  “Não é expectável que o PCP possa ter a influência política e social que já teve” - António Filipe, ex-deputado do PCP

 

BACK TO BASICS - “Não se pode evitar uma guerra quando se faz tudo para a preparar” - Albert Einstein

 

 







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E A CULTURA?  - Que vai ser da Cultura no próximo Governo? Depois do quase interregno no desenvolvimento da política cultural durante a legislatura anterior é oportuno perguntar qual a estratégia que o Governo vai desenvolver na área cultural. É escusado irem procurar no programa do PS porque o que lá está é um rol de generalidades, com boa dose de banalidades. Reconheça-se, em abono da verdade, que neste processo de desertificação de ideias em matéria de política cultural o PS não está sozinho. A maioria dos partidos seguiu a sua bitola. Mas o que interessa agora é saber se o PS vai aproveitar, nesta como noutras áreas, a sua maioria absoluta para fazer reformas estruturais. Esta semana foi divulgado um importante estudo, promovido pela Gulbenkian, sobre as práticas culturais dos portugueses e o seu resultado dá muito que pensar a quem fôr ocupar a pasta da Cultura. Mas há coisas básicas: não vou mais longe do que reivindicar uma maior autonomia de gestão orçamental das instituições que conseguem captar financiamentos privados, a par com a atribuição de um financiamento público suficiente para travar a degradação do funcionamento dos museus nacionais e a conservação do património. Já agora, se não for demais, a anulação do acordo ortográfico seria também bem-vinda, assim como acções de promoção do livro e da leitura. E apesar de umas modestas recentes alterações, é imperioso conseguir flexibilizar e facilitar mais a Lei do Mecenato para que o financiamento privado à cultura possa ser estimulado e compensado, para além do que agora existe - seguindo o que de melhor e mais eficaz se faz noutros países. E, já que estamos nesta área, seria muito interessante rever o enquadramento fiscal das compras de obras de arte por empresas e cidadãos, por forma a incentivar o mercado. Uma política cultural diferente não é apenas um esperado aumento da dotação do Orçamento de Estado ao sector, é também a criação de mecanismos que recompensem os privados pelo que decidirem investir nesta área. Neste fim de semana foram muitas as notícias sobre o início da temporada cruzada Portugal-França. Mas será curioso ver, daqui a uns meses, quanto é que o Governo português atribuiu de facto à iniciativa - dizem-me que muito pouco, mas vamos esperar para ver. Uma das obras mais salientes, a reinterpretação da obra clássica “As Três Graças”, por Pedro Cabrita Reis, exposta nos jardins do Louvre, (na imagem) só foi possível, segundo declarações do autor numa entrevista, graças ao financiamento de entidades privadas - no caso três empresas francesas que actuam em Portugal - Altice, Engie e Vinci, e de outros apoios como o da corticeira Amorim e da Fundação Gulbenkian. Confesso que neste cenário custa um pouco ver figuras do Governo a pendurarem-se na obra como se tivessem feito alguma coisa por ela. Como diz um amigo meu, é o país que temos. 

 

SEMANADA - Grande parte das verbas previstas para as autarquias no processo de descentralização iniciado há cinco anos ainda não saíu do Estado central; foram anulados cerca de 80% dos votos de emigrantes do círculo da Europa nas eleições legislativas de 30 de Janeiro; entre os 230 deputados eleitos há apenas nove com 30 anos ou menos; até agora, nos executivos de António Costa um terço dos lugares foram ocupados por mulheres; cerca de 13 mil funcionários do estado pediram a reforma em 2021, sobretudo nas áreas da educação e saúde mas, apesar disso, o número total de funcionários públicos aumentou 3% para o total de 733 495 pessoas ou, se quisermos, perto de 20% dos votos expressos nas recentes eleições; nos últimos três anos, os portugueses terão consumido menos 25,6 toneladas de sal e menos 6256 toneladas de açúcar; segundo o estudo TGI da Marktest perto de um em cada três portugueses compra chocolates ou bombons em caixas; o impacto no défice do combate à pandemia foi maior em 2021 do que em 2020; as empresas portuguesas de ourivesaria e joalharia enviaram, no ano passado, 4,5 milhões de peças para os serviços de contrastaria, mais um milhão de peças do que em 2020, o que representa um crescimento de 28,6%; o preço das botijas de gás aumentou cinco vezes mais que a inflação; António Costa lamentou os erros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, do seu amigo Santos Silva, no processo eleitoral junto dos emigrantes portugueses na Europa e que levou agora à anulação de cerca de 80% dos seus votos; um estudo promovido pela Gulbenkian indica que 61% dos portugueses não leram um só livro no último ano.

 

O ARCO DA VELHA - O Ministro do Ambiente declarou de “imprescindível utilidade pública” uma central solar a construir no concelho de Gavião que implica o abate de mais de mil sobreiros.

 

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PRAZERES VISUAIS - João Maria Gusmão apresenta na Galeria Cristina Guerra “Lusque-Fusque Arrebol”, uma exposição individual (na imagem) que reúne, numa grande instalação, esculturas em bronze, fotografias e lanternas mágicas produzidas no último ano. Durante anos, entre 2001 e 2018, Gusmão trabalhou em parceria com Pedro Paiva e fez numerosas exposições em vários países, além de uma retrospectiva recente em Serralves. Desde 2020  tem vindo a desenvolver e apresentar várias exposições e projectos curatoriais e editoriais em colaboração com outros artistas como Alexandre Estrela, Mattia Denisse, Gonçalo Pena e Mauro Restife. “Lusque-Fusque Arrebol” pode ser visto até 9 de Abril na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 33). Outros destaques: na Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101-3º) Carla Rebelo apresenta até 18 de Março “Geologia de Um Lugar”; na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º), Joana Escoval apresenta até dia 12 de Março “Wind Dreams”; na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), Rui Castanho mostra  até 12 de Março “Once Upon A Time”, até 12 de Março; na Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva ( Praça das Amoreiras 56), Carlos Nogueira apresenta “Sombras de Vento, Entre Águas” ; e no Porto, a Galeria Nuno Centeno (Rua da Alegria 598), apresenta novos trabalhos de Secundino Hernández, Gretta Sarfaty e Gabriel Lima. Entretanto nos próximos dias todos os caminhos vão dar a Madrid, para a feira de arte contemporânea ARCO, de 23 a 27 de Fevereiro. 

 

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A FOGUEIRA DA JUSTIÇA - Em meados de 1895 o escritor Oscar Wilde foi preso e condenado a dois anos de prisão pela prática de sodomia, considerada um crime na Londres vitoriana. No tribunal onde o processo decorreu o escritor defendeu a sua obra maior,  “O Retrato de Dorian Gray”, retratada no julgamento como imoral e ofensiva, pelo seu teor alegadamente homossexual. Na sua defesa Oscar Wilde afirmou que um livro será sempre um bom livro «se estiver bem escrito, se provocar uma sensação de beleza, a mais pura sensação de que um ser humano é capaz. Se estiver mal escrito, a sensação é de repulsa”. “A Intransigente Defesa da Arte” é o livro que faz a transcrição quase integral do julgamento, que se presumia perdido nos arquivos da lei. No livro, recuamos a 1895 e assistimos ao julgamento mais sensacional do século XIX. Da sórdida exposição, na Londres vitoriana, da homossexualidade de Oscar Wilde, nasce um articulado e brilhante discurso da vida real do escritor: uma veemente e majestosa defesa da absoluta liberdade da criação artística. Termino com estas palavras de Oscar Wilde no tribunal: “O prazer de alguém criar uma obra de arte é um prazer puramente individual, e é para alimentar esse prazer que alguém cria. O artista trabalha olhando para o seu objecto. Nada mais lhe interessa. O que as pessoas possam dizer é algo que não lhe diz respeito”. Esta é a primeira publicação em Portugal deste texto, numa tradução de André Morgado, com a chancela da Guerra & Paz. 

 

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INESPERADOS CONVIDADOS -  Após uma década de silêncio o ex-líder dos Pearl Jam, Eddie Vedder regressa com um disco a solo, “Earthling”. A surpresa está na lista de convidados: Elton John, Ringo Starr e Elton John. Com treze canções e quase uma hora de duração, o álbum arranca com um quase hino, “Invincible”, mas as três canções que recolhem maior número de audições no Spotify são “Long Way”, “Brother The Cloud” e “The Haves”. O arranque do disco é festivo, Vedder solta-se de uma forma inesperada e a sua voz molda-se às melodias de uma forma quase pop, enquanto a produção usa coros, percussão bem marcada  (o baterista é Chad Smith, ex-Red Hot Chili Peppers) e guitarra eléctrica também ex-Chili Peppers é Josh Klinghoffer. Eles são essenciais para marcar a imagem sonora do disco. Aqui há 30 anos, no início dos Pearl Jam, ninguém se arriscaria a apostar que três década depois Vedder cantaria ao lado dos nomes que agora incluíu como convidados. Ringo faz o seu usual trabalho de bateria em “Mrs. Mills,” uma homenagem à pianista Gladys Mills, enquanto “Try” abre o som à harmónica de Stevie Wonder. E Elton John canta em dueto com Vedder em “Picture”. Numa das canções, “Try”, Vedder resume esta sua aventura: “Good men don’t have to pretend!”. Chega-se ao fim e a coisa foi divertida - mas não mais que isso.

 

PEIXE FRITO - Esta não é só a época da lampreia, já aqui abordada há umas semanas. É também a época de um magnífico peixe de rio que dá pelo nome de sável e que é uma das delícias destes meses de Fevereiro e Março. Cortado em postas muito finas e muito bem frito, depois de devidamente temperado, é um petisco fantástico. Uma fritura feita como deve ser vem enxuta para a mesa e foi feita a uma temperatura suficiente para neutralizar as numerosas e finas espinhas do peixe - que assim nem se sentem. O acompanhamento conveniente para esta maravilha é uma açorda tradicional, que poderá e deverá levar ovas do mesmo peixe. A tradição indica que os maiores especialistas deste prato estão no Ribatejo, o sável fresco pescado no rio e levado logo para o restaurante. Mas há sítios em Lisboa onde a sua tradição é respeitada, como o Pap’Açorda, onde a chef Manuela Brandão desde há muitos anos pratica o sável com saber e proveito dos comensais. Aconselha-se um branco a acompanhar, cítrico, fresco, envolvente.

 

DIXIT - “Os ciberataques são, infelizmente, o futuro que nos espera” - Marques Mendes.

 

BACK TO BASICS - “Devemos insistir em ser nós próprios e não em imitar os outros. Cada homem é um ser único” - Ralph Waldo Emerson

 




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OS VOTOS INÚTEIS - Há um estudo que indica que fazer reformas no sistema não dá votos a nenhum político. Mas a verdade é que manter o sistema eleitoral como está é uma estragação de votos. Ora vejam: nas recentes eleições legislativas mais uma vez foram diretos para o lixo cerca de 700 mil votos. Ou seja, quase 13% dos votos em território nacional (excluindo círculos da emigração) não foram convertidos em mandatos. Destes, cerca de 200 mil foram votos brancos, nulos ou para partidos que não alcançaram representação parlamentar. Mas depois ainda há mais de 400 mil que, apesar de terem uma cruz em partidos que vão estar representados na Assembleia da República, não tiveram qualquer contributo para essa eleição. Vejamos os números com maior atenção: para os dois maiores partidos, PS e PSD, bastaram cerca de 20.000 votos para eleger cada um dos seus deputados. O esforço foi muito superior nos partidos mais pequenos. O PAN, por exemplo, conquistou apenas um lugar no parlamento apesar de ter obtido 82 mil votos. Aliás, apenas pouco mais de 20 mil votos no PAN serviram para eleger a sua deputada única no círculo eleitoral de Lisboa, os restantes 60 mil votos foram dispersos pelo país e inconsequentes na eleição de qualquer deputado. Comparando com o partido mais votado, o PS teve 26 vezes mais votos (cerca de 2,2 milhões de eleitores) que o PAN, mas conquistou 117 vezes mais deputados. Já o CDS, apesar de ter conquistado 87 mil votos, mais do que o PAN e o Livre, e quatro vezes mais do que os votos correspondentes a cada deputado do PS e PSD, não teve nenhum deputado eleito e perdeu a representação  parlamentar. Outros dados mostram que, curiosamente, o sistema vigente é também uma forma de promover o centralismo: é melhor ter 2% de votos em Lisboa (cerca de 25 mil votos, que permite eleger um deputado) do que ter 100 mil votos espalhados por todo o país (não elegeria nenhum deputado). Repare-se num caso significativo: em Portalegre mais de metade dos votos não serviu para eleger nenhum deputado. Uma análise das eleições entre 1975 e 2019 revela que durante esse período uma média de 8,67% de votos válidos não foram convertidos em mandatos. Foram votos inúteis graças ao sistema que existe.

 

SEMANADA - Quase mil médicos de família vão atingir este ano a idade da reforma e o número de pessoas sem médico de família vai aumentar; as principais empresas de transporte recuperaram passageiros no ano passado, à excepção do Metropolitano de Lisboa e Transtejo; o Mosteiro dos Jerónimos, o da Batalha e o Convento de Cristo foram os três monumentos portugueses mais visitados em 2021; a taxa de inflação da zona euro tem um novo máximo de 5,1% e isto levanta uma questão: como será que a geração de gestores que nunca geriu sob inflação vai viver estes novos tempos?; o preço da gasolina em Portugal no final do ano passado era de 1,669 cent/l, a oitava mais cara da União Europeia; as famílias portuguesas gastaram mais de dez mil milhões de euros no supermercado em 2021; em 2021 os bancos fizeram empréstimos à habitação de mais de 15 mil milhões de euros, mais 34% que em 2020; segundo o Censos 21 existem em Portugal 3.573.416 edifícios, um aumento de 0,8% em relação ao recenseamento de 2011; o maior incremento no número de edifícios foi observado nos concelhos do Seixal (mais 2080), Barcelos (mais 1822) e Vila Nova de Famalicão (mais 1436); em termos relativos foi nos concelhos da Golegã, Madalena e Corvo que o número de edifícios mais aumentou entre Censos, respetivamente mais 12.6%, 12.4% e 7.7%; os concelhos do Porto, Lisboa e Funchal foram aqueles que mais parque edificado perderam: no Porto, foram contabilizados menos 5021 edifícios, em Lisboa menos 3273 e no Funchal menos 1226; 

 

O ARCO DA VELHA - Habitantes da Aldeia da Luz, em Mourão (Évora), ainda hoje pagam Imposto Municipal sobre Imóveis dos terrenos que possuíam e ficaram submersos na antiga povoação, 20 anos após o início do enchimento do Alqueva.

 

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UMA CASA VISTA DE FORA - Patrícia Garrido trabalhou ao longo de vários meses numa escultura que desde a semana passada, e até final de Abril, ocupa quase todo o espaço da Galeria Giefarte (Rua da Arrábida 54). A obra, no fundo a evocação de uma casa dentro das quatro paredes da galeria, é feita a partir de pedaços de cantoneira, que se entrelaçam de forma a que ninguém pode entrar no seu espaço, podendo apenas espreitar a partir do exterior (na imagem). O título da peça, “Interior”, é no fundo a descrição de uma realidade que se observa mas onde ninguém pode entrar. Entretanto, em Elvas, no Museu de Arte Contemporânea, é apresentada até 3 de Julho a exposição “Caminhos Cruzados”, que agrupa 62 obras de José Pedro Croft que estão incluídas na colecção António Cachola. Num salto mais a norte, Pedro Calapez e André Gomes apresentam no Museu Nacional Soares dos Reis, até 8 de Maio, uma nova montagem da exposição “Seja Dia Ou Seja Noite Pouco Importa”, que havia sido apresentada no final do ano passado no Museu Colecção Berardo; na Galeria Insofar, até 30 de Abril, o artista angolano Cristiano Mangovo apresenta “Black Rock Senegal”. Se gostam de anúncios luminosos do século passado não percam a exposição Brilha Rio, no Parque de estacionamento do Prata Riverside Village em Marvila, com 70 peças - pode ser visitada ao fim de semana até início de Março.

 

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O PIOR TEMPO DE ESPANHA -  Estudou geografia e história, tornou-se conhecida com uma novela erótica, “Las Edades de Lulu”, que ganhou o prémio “La sonrisa vertical” e inspirou um filme do realizador Bigas Luna. Almudena Grandes Hernández foi uma das grandes escritoras espanholas e morreu em 2021. A Mãe de Frankenstein , o seu derradeiro livro, publicado em 2020, é um romance histórico elaborado, a quinta parcela da série Episódios de uma guerra sem fim, e é por muitos considerada a novela mais intensa e emocional dessa série.Este título apresenta uma narrativa ambientada na Espanha do pós-guerra. Da mesma forma, o tema do livro aborda parte das consequências psiquiátricas causadas pela Guerra Civil e pelo regime de Franco. A acção começa em 1954, quando o psiquiatra Germán Velásquez regressa a Espanha para trabalhar no manicómio feminino de  Ciempozuelos, após 15 anos de exílio na Suíça onde foi acolhido pela família do doutor Goldstein. Naquela instituição psiquiátrica, Germán reencontra Aurora Rodríguez Carballeira, uma mulher inteligente e paranóica, tristemente célebre por matar a tiro a própria filha. Ali conhece também María Castejón, que cuida dela com enorme desvelo e gratidão. A amizade que acaba por nascer entre a jovem auxiliar e o doutor Velázquez leva o leitor a descobrir não apenas a sua origem humilde como neta do jardineiro da instituição, os anos de criada em Madrid e a infeliz história de amor que protagonizou, mas também o que levou Germán a abandonar a tranquilidade suíça e regressar a Espanha, país onde então os pecados se convertem em crimes, e o puritanismo – defendido pelo regime de Franco – encobre todo o tipo de abusos. Em A Mãe de Frankenstein, Almudena Grandes regressa ao período mais difícil da história de Espanha, destacando as feridas imensas que uma longa guerra provocou. 

 

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MÚSICA MARÍTIMA -  Mário Barreiros, baterista, já participou como músico ou produtor em mais de três centenas de discos de vários géneros musicais, além de ter integrado grupos que fizeram história na pop portuguesa, como os Já Fumega. Mas o jazz é desde há muito o seu terreno de eleição e o seu novo trabalho é prova disso mesmo. Nas palavras de Mário Barreiros trata-se de um regresso ao jazz e à música improvisada e este “Dois Quartetos Sobre O Mar”  é definido por Barreiros como uma homenagem ao mar e às pessoas que meritoriamente cuidam dele”. O disco está dividido em duas partes, cada uma interpretada por um quarteto,  em que o único elemento comum é o próprio Mário Barreiros, na bateria. O primeiro desses quartetos, Pacífico, conta com Carlos Barretto (contrabaixo), Abe Rábade (piano) e Ricardo Toscano (saxofone alto); o segundo quarteto, Abissal, é composto por Demian Cabaud (contrabaixo), Miguel Meirinhos (piano) e José Pedro Coelho (saxofone), e desenrola-se ao longo de oito andamentos. Mário Barreiros diz que os primeiros quatro temas são “mais românticos” e os restantes quatro “mais profundos e reflexivos”. Em comum as duas partes do disco têm o esboçar de paisagens sonoras - o que reforça este disco como sendo um álbum conceptual ligado ao tema dos Oceanos. Este é um dos mais interessantes discos portugueses na área do jazz  e merece destaque a qualidade da prestação dos músicos e a cuidada produção. 

 

PETISCAR - Um dos meus petiscos favoritos é fazer uma massa com brócolos, anchovas e alcaparras. A coisa é simples: cortem um pé de brócolos de forma a aproveitar só as flores, que devem cozidas em água com sal, a ferver, por três minutos. Uma vez cozidas, retirem e reservem. Aproveitem a água usada nos brócolos para cozer a massa, que deve ficar menos um minuto que o indicado na embalagem. Eu gosto muito desta receita com esparguete de boa qualidade (o de molde de bronze da Milaneza é óptimo porque capta bem os sabores do molho onde é misturado). Uma vez cozida escorram a massa e reservem, mas guardem uma chávena de chá da água da cozedura. Ao lado, numa frigideira funda coloque duas colheres de sopa de azeite, uma lata pequena de filetes de anchova escorridos e duas colheres de sopa de alcaparras passadas por água corrente, adicionem um pouco de gengibre fresco picado, e duas malaguetas pequenas esmagadas. Salteiem tudo durante uns três minutos, mexendo para as anchovas ficarem aos pedaços. A seguir coloquem os brócolos e a chávena de água da cozedura da massa  na mesma frigideira, mexendo sempre para as flores dos brócolos se desfazerem. Continue o processo até metade da água evaporar - deve demorar entre 5 a 7 minutos. No final deite por cima a massa escorrida e misture tudo muito bem para ficar envolvida no molho. Polvilhe a gosto com queijo parmesão e misture tudo mais uma vez, transferindo para uma taça que levará para a mesa. Bom apetite.

 

DIXIT - “Uma Marinha focada na sua missão, pronta para servir Portugal, útil para a afirmação do valor do mar, significativa nas suas capacidades e tecnologicamente avançada”  - Henrique Gouveia e Melo, Chefe do Estado Maior da Armada

 

BACK TO BASICS - “Quando a maré baixa é que se descobre quem andava a nadar nu” - Warren Buffett

 







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SOBRE A IMPORTÂNCIA DA TÁCTICA

por falcao, em 04.02.22

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DER NUTZLOS - Até Domingo passado, na cabeça de muita gente, num mundo perfeito o PS ganharia as eleições sem maioria absoluta, o PSD teria um resultado próximo, o berbicacho estaria em conseguir gerir alianças à esquerda e à direita conforme os assuntos e conveniências, sob a arbitragem do Presidente da República. Só que não foi isto que aconteceu. Costa, que desde o início tornou claro que preferia ter condições para governar sozinho, fez uma viragem táctica a meio da campanha, quando surgiam sondagens que pareciam indiciar uma hipotética vitória do PSD, deixou de pedir a maioria absoluta e, na prática, passou a pedir o voto útil que lhe permitisse afastar o espectro da direita. O resultado já se sabe qual foi: o povo de esquerda uniu-se em torno de Costa, deu-lhe a maioria absoluta e tirou o tapete a todos. O resultado das eleições ditou uma crise no PSD, com Rui Rio a questionar a sua utilidade, tirou o CDS do leque parlamentar e reconfigurou o Parlamento de forma significativa, atirando Bloco e PCP para o fim do pelotão. Em Belém Marcelo Rebelo de Sousa assistirá, se alguma coisa não mudar, a quatro anos de desfile de António Costa no tapete voador do PRR. Quando o resultado foi conhecido, Rui Rio questionou qual seria a utilidade da sua pessoa no PSD. De facto ele não tem sido útil. É impossível esquecer como Rui Rio foi, ao longo dos anos, inútil na oposição, abrindo espaço para quem o soube fazer à sua direita, como foi incapaz de dizer o que faria no pós eleições, como não se bateu por uma aliança eleitoral com o CDS, o que, percebe-se agora, facilitou a Costa a aritmética da maioria absoluta. Assim sendo, na sua próxima conferência de imprensa talvez alguém possa dizer “Rio ist nutzlos”, o mesmo é dizer “Rio é inútil”.

 

SEMANADA - Em Lisboa, nas legislativas, o PS conquistou mais 30 mil votos no concelho do que tinha tido nas recentes autárquicas; a Iniciativa Liberal foi o terceiro partido mais votado no Porto e em Lisboa; se fizermos as contas ao número de votos expressos e deputados eleitos por cada partido vemos como o sistema eleitoral português, baseado na Lei de Hondt, distorce a proporcionalidade: o PS precisou de 18.927 votos por deputado, o PSD de 20.930, o Chega de 31.636, a Iniciativa Liberal de 33.053, a CDU de 38.668, o Bloco de Esquerda de 47.351, o Livre de 67.776, o PAN de 80.8109 e o CDS obteve 85.786 votos mas não teve nenhum deputado eleito; se o PSD tivesse aceite fazer uma coligação com o CDS, de acordo com os resultados obtidos nestas eleições por cada partido, essa coligação teria conseguido eleger mais quatro deputados que o total obtido pelo PSD, retirando assim a maioria absoluta ao PS; à esquerda só o PS ganhou votos e o apuramento das contas dá aos partidos da esquerda parlamentar menos 36 mil votos que em 2029; a abstenção baixou, mas foi a terceira mais elevada de sempre; o PS venceu em todos os distritos do país nas legislativas mas de entre as dez cidades mais populosas de Portugal apenas cinco são dirigidas por eleitos PS nas autárquicas e de entre as dez mais ricas apenas 4 têm presidentes de câmara do PS; quase um terço dos deputados eleitos são estreantes no parlamento; em 2021 a economia portuguesa cresceu mais que o previsto mas ficou ainda aquém da recuperação da zona euro.

 

O ARCO DA VELHA - Em 2021 a violência doméstica fez 23 mortes, das quais 16 foram mulheres, duas crianças e cinco homens.

 

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POR DENTRO DAS MEMÓRIAS - “Loreto”, a exposição que a fotógrafa Luísa Ferreira inaugurou esta semana na Sociedade Nacional de Belas Artes, e que ali fica até 5 de Março, é um retrato da transformação da cidade de Lisboa nos últimos anos. Focada na zona onde Luísa Ferreira vive e trabalha, o Loreto, no coração da zona antiga da cidade, a exposição mostra como as transformações urbanas dos últimos anos afastaram pessoas das suas casas, dos locais onde viveram toda a vida (na imagem). Como diz a autora no texto que acompanha a exposição, as pessoas “foram empurradas para fora do seu ciclo de vida construído desde sempre, simplesmente perderam o direito à cidade”. João Silvério, no texto do catálogo, sublinha que este é um trabalho que cruza a ficção com o documentário, englobando fotografias, objectos de uso doméstico, notas visuais que mostram “os laços afetivos que se geram na experiência do lugar, na partilha da vizinhança e do tempo”. A exposição, agora em Lisboa, já passou pelo Festival de Fotografia do Barreiro e mostras internacionais de fotografia. Outras sugestões: na Galeria Filomena Soares, Rua da Manutenção 80, João Penalva apresenta até 19 de Março“Fernand Lantier e outros”; no Museu Nacional de Arte Antiga, até 10 de Abril, pode ser vista a coleção de Maria e João Cortez de Lobão, “O Belo, a Sedução e a Partilha”, que apresenta a obra “O Martírio de São João Damasceno”, Luigi Miradori, Il Genosevino (séc XVII).

 

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O NASCER DE UMA PENSADORA - Ao longo da sua vida Susan Sontag foi elaborando um diário, que sempre manteve reservado. Apenas em “Histórias”, um conjunto de pequenos textos que cruzam a ficção com a sua própria biografia, Sontag deixou espreitar a sua intimidade. Depois da sua morte, em 2004, o filho, David Rieff, recuperou os diários e apontamentos de Sontag, feitos entre 1947 e 1963, e editou-os sob o título “Renascer”. Ensaísta, Sontag foi uma das mais importantes intelectuais norte-americanas da segunda metade do século XX e teve presença assídua em publicações como The New Yorker, The New York Review of Books, The New York Times e The Times Literary Supplement, entre muitas outras. Este “Renascer” teve edição original nos Estados Unidos em 1992 e uma primeira edição em Portugal em 2010. O livro regressa agora com uma segunda edição pela mão da Quetzal e tradução de Nuno Guerreiro. A primeira nota publicada, escrita em 1947, é uma espécie de declaração de princípios que considera deveriam nortear a sua vida - por exemplo, a afirmação de que a única diferença entre os humanos é a inteligência”. E em 1948 declara: “as ideias perturbam o equilíbrio da vida”. Mais tarde, em Maio de 1949, aos dezasseis anos, deixa a frase que inspira o título do livro:«Tudo começa a partir de agora – Renasci.» Na introdução David Rieff, sublinha: «O que sei é que, enquanto leitora e escritora, a minha mãe adorava diários e cartas – quanto mais íntimos, melhor. Assim, talvez Susan Sontag, a escritora, tivesse aprovado o que eu fiz. Seja como for, assim o espero», escreve, em justificação pela divulgação destes textos íntimos, que se iniciam com os anos da adolescência, em 1947, atravessam os anos da faculdade, as primeiras experiências na escrita, a sua formação sexual e emocional, e terminam em 1963, quando Susan Sontag era já plena participante e observadora da vida da cidade de Nova Iorque.

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DANÇA IMPARÁVEL - A primeira grande surpresa portuguesa deste ano é o disco de estreia do Club Makumba, um projecto que vive de sonoridades multiculturais, com ventos do mediterrâneo e de África. O Club Makumba teve origem na parceria criada entre as guitarras de Tó Trips (Dead Combo e Lulu Blind) e a bateria e percussões de João Doce (Wraygunn), a que se juntam agora o saxofone de Gonçalo Prazeres e o contrabaixo e baixo de Gonçalo Leonardo. O álbum contém 11 temas contagiantes em que a sonoridade única da guitarra de Tó Trips marca de forma clara todo o ambiente do disco. Há coisas que vêm do trabalho “Guitarra Makaka” o segundo disco a solo que em 2015 fez parte das aventuras de Trips e em que já surgia a percussão pela mão de João Doce. O Club Makumba é um ambiente de festa, está feito como a banda sonora de um clube de dança exótico e arrebatador, um local onde apetece passar a noite. Gonçalo Prazeres (saxofone) e Gonçalo Leonardo (contrabaixo) que agora se juntaram à banda são músicos oriundos do jazz e que acompanharam a tour de Odeon Hotel, dos Dead Combo. Juntaram-se os quatro em estúdio, foram aproveitados temas do “Guitarra Makaka” em Novembro de 2019. A pandemia fez o adiamento, o disco saíu agora, a digressão pelo país arranca em Fevereiro e podem ouvi-los nas plataformas de streaming.

 

CAVALGADA ALTA - O restaurante Cavalariça nasceu na Comporta pela mão de Bruno Caseiro e Filipa Gonçalves. Em dezembro de 2020 veio para Lisboa parte da equipa do Cavalariça, com Bruno Antunes, o braço direito da dupla de fundadores, a comandar a operação na capital. O local escolhido, assumido como transitório até se encontrar outro mais central, fica na Rua da Boavista, onde já existira o restaurante Optimista, paredes meias com o espaço de galerias e ateliers Transboavista -VPF. A pandemia veio no entanto perturbar as operações e levou ao seu encerramento passado pouco tempo, tendo reaberto no Verão passado. O restaurante tem uma carta baseada em produtos sazonais, que ao almoço tem uma proposta de menu executivo, de 25 euros, sem bebidas, com couvert, entrada, prato principal e sobremesa. À noite, para além das opções da carta, há duas propostas de menu degustação, a que chamam Rédea Solta, uma de 5 e outra de 7 pratos. O nome de Rédea Solta vem do facto de a degustação depender do que o chefe encontrou no mercado e quis preparar. Os clientes apenas sabem o que é à medida que os pratos forem chegando à mesa. A visita foi à hora de almoço, o menu executivo como base. Destaque para a focaccia do couvert, muito boa a entrada escolhida, de cogumelos silvestres com ovo a baixa temperatura, espinafres e batatinhas, tudo sobre uma mousse também de cogumelos. O prato principal, frango do campo com couve coração assada, recheada com miúdos do frango, surpreendeu pela diversidade de sabores e o tempero acertado numa carne que nem sempre é fácil de manter apetitosa. Por fim a sobremesa foi marmelo cozido, acompanhado por uma espécie de granizado de romã e gelado de pão tostado - o ponto fraco foi o granizado, insípido. A lista de vinhos é curta e ostensivamente cara - algo que poderia ser revisto introduzindo maior escolha. Mesmo no menu executivo, duas pessoas que partilhem uma garrafa, não escapam a perto de meia centena de euros por cabeça. O Cavalariça fica na Rua da Boavista 86, telefone 213460629.

 

DIXIT - “Com ideias, sem protagonistas, sem populismo e com rigor, provámos que é possível tirar pessoas da apatia e crescer” - João Cotrim Figueiredo

 

BACK TO BASICS - “A melhor das vitórias é quando o opositor se rende antes de começarem as hostilidades.” - Sun Tzu

 

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