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A ARTE DA PROPAGANDA

por falcao, em 29.07.22

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POLÍTICA & COMUNICAÇÃO - O debate sobre o estado da Nação, realizado na semana passada, veio colocar a capacidade de comunicação em primeiro plano. Há que reconhecer que o debate não correu bem ao novo líder parlamentar do PSD, Joaquim Miranda Sarmento, mas foi ele o autor da frase mais lapidar desse dia:  “Se o PS fosse tão bom a governar como a fazer propaganda, Portugal era o país mais rico do mundo”. Na realidade António Costa é exímio a comunicar e o PS tem a sua máquina bem montada, melhor que os outros partidos. Repare-se que o primeiro-ministro foi o primeiro a reconhecer que existem problemas na governação: “O que nos divide não é reconhecer se há ou não problemas. Claro que há. A grande diferença é que, perante os problemas a oposição fala em caos e o governo vê desafios”. Como João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, afirmou nessa ocasião,  “nem a habilidade do Primeiro-Ministro consegue esconder o caos em que estão os serviços públicos em Portugal”. Estas trocas de galhardetes parlamentares evidenciam uma coisa: a comunicação em política é baseada no uso de meias verdades e isto varre todo o espectro partidário, sem excepção. Mas a comunicação enganosa que resulta melhor é a que tem um fundo de verdade - cria confiança, aproxima das pessoas. E, além de tudo o mais, Costa é simpático, está sempre sorridente (às vezes até quando as circunstâncias, dramáticas, não o recomendariam). Mas cativa as pessoas e é exímio a apresentar promessas como se fossem soluções para os problemas, em deixar de falar das promessas que não cumpriu, das soluções que não se concretizaram, ou em reescrever a história como o PS faz quando fala da troika e da austeridade nascida quando o governo de Sócrates levou o país quase à bancarrota. Durante anos Rui Rio, porventura o mais inábil político em termos de comunicação que o país conheceu, deixou essa narrativa vingar. Adão e Silva, premiado por Costa para fazer o fecho do debate parlamentar, depois de o primeiro-ministro ter olimpicamente recusado responder a perguntas da oposição, saíu-se com esta afirmação: “não confundimos o mandato que temos para governar, com um governo enclausurado na sua própria maioria”. Querem melhor exemplo de ilusão?

 

SEMANADA - Nos últimos 40 anos os incêndios consumiram o equivalente a metade da área de Portugal continental; em sete meses a GNR já deteve mais suspeitos de incêndios do quem, todo o ano de 2021; Lisboa, Porto, Sintra e Gaia são os concelhos com maior número de desempregados; Lisboa concentra 22% de toda a habitação social portuguesa; um estudo da OCDE indica que os portugueses precisam do equivalente a 11,4 anos de salários para conseguir comprar uma casa com 100 metros quadrados; os lucros da Galp subiram 153% no primeiro semestre, face a igual período de 2021, para 420 milhões de euros; o crescimento da receita fiscal dos impostos indirectos levou a que o total previsto para este ano tivesse já sido alcançado em Maio; a receita fiscal do Estado aumentou 29,7% até junho face ao mesmo período do ano passado; a operação de manutenção da TAP no Brasil, anunciada como grande negócio pelos gestores brasileiros que levaram a TAP ao buraco onde está, perdeu quase 600 milhões de euros desde 2008; segundo a Pordata em 2021 estavam detidas 11.588  pessoas, das quais 10.774 eram do sexo masculino e 814 eram do sexo feminino e as prisões tinham uma ocupação de 91,8% da sua capacidade; o Instituto Nacional de Reabilitação recebe uma média de três queixas por dia de discriminação de pessoas com alguma deficiência; o Tribunal de Contas detectou que entre setembro de 2020 e agosto de 2021 o Estado pagou 1,3 milhões de euros por ligações à internet, destinadas a escolas e alunos, que não foram utilizadas.

 

O ARCO DA VELHA - Um pirómano que havia sido detido em Outubro passado pela Judiciária, e que então foi libertado pelo Tribunal, já ateou este ano seis fogos florestais na zona de Arruda dos Vinhos.

 

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CHAFES INVADE SERRALVES  - “Chegar sem partir” é o título da exposição de Rui Chafes em Serralves, que se estende do interior do edifício aos jardins exteriores. Cobrindo mais de três décadas de atividade, a exposição inclui trabalhos da fase inicial da sua produção escultórica e um conjunto de obras especificamente pensadas para o Museu e Parque de Serralves. No interior do edifício, “Sudário”, uma escultura de 2018, é a peça que primeiro recebe os visitantes, suspensa no corredor. A exposição apresenta um conjunto de obras significativas no percurso de Rui Chafes, algumas reconstituídas para esta ocasião como as instalações  “Medo não medo” (1988/98) — refeita e adaptada ao longo corredor desenhado por Álvaro Siza — e “A não ser que te amem”, (1987). Há peças novas, como “Sem nascer nem morrer” e outras mais antigas como “Burning in a forbidden sea”(2011), que é acompanhada por uma composição sonora e texto da artista irlandesa Orla Barry. O desenho, que Chafes raramente traz para a esfera pública, surge pela primeira vez ao lado das esculturas, como um fio condutor, da exposição. No hall do Museu, está uma sequência de mais de vinte esculturas pertencentes à série “Balthazar”  e a exposição prossegue nos jardins de Serralves, onde Chafes apresenta esculturas de diferentes períodos e outras criadas especificamente para este contexto — como é o caso de “Chegar sem partir” (na imagem), a escultura de 6 metros que dá título à exposição e que está logo na entrada do parque. A exposição inclui também uma obra que ficará permanentemente em Serralves, uma escultura subterrânea intitulada “Travessia”, um túnel escuro que termina numa câmara central iluminada por raios de luz natural, que são até ali conduzidos por um óculo, e revelam uma escultura de formas orgânicas que evocam um casulo em metamorfose. “Chegar sem partir” fica em Serralves até 26 de Fevereiro do próximo ano.

 

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GUIA PARA IR À PRAIA - Faz bem ir à praia? Os  banhos de mar são benéficos?, Não serão perigosos? Em 1876 estas perguntas andavam na boca do mundo e ir à praia não era coisa que agradasse a muita gente. Foi nessa altura que Ramalho Ortigão escreveu e publicou “As Praias de Portugal - Guia do Banhista e do Viajante”, agora editado na magnífica colecção “Terra Incógnita” da Quetzal. Ramalho Ortigão enaltece as vantagens e os benefícios biológicos e culturais da água do mar, do oceano e dos banhos de água fria: “Pelo simples facto da residência à beira-mar, como numa localidade muito elevada, o apetite aumenta, a digestão opera-se mais regularmente e mais rapidamente, a respiração exerce-se com mais actividade, o sistema nervoso sobre-excita-se: tais são, pelo menos, os fenómenos mais manifestos e mais gerais que se observam, e fazem com que o ar do mar seja tão salutar”. O escritor deixou em “ Praias de Portugal” um mapa da época balnear do final do século XIX, um clássico da literatura de viagem em Portugal. Ramalho Ortigão fala da Foz, de Leça e de Matosinhos, de Pedrouços e da Póvoa do Varzim, da Granja, de Cascais, de Vila do Conde, mas também de Espinho, Ericeira, Nazaré ou Figueira da Foz e ainda de Setúbal. Há também um capítulo sobre aquilo a que chama “as praias obscuras”, que inclui S. Pedro de Moel, S. Martinho do Porto, a Costa Nova ou Porto Brandão, entre outras.

 

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O ELOGIO DA SIMPLICIDADE  - O disco que mais ouvi esta semana é “Shifting Sands” do trio do baixista Avishai Cohen, com Elchin Shirinova no piano e Roni Kaspi na bateria. Cohen tornou-se notado quando tocou em 1997 com Chick Corea. Nos dez temas deste disco ele mostra bem a sua versatilidade como músico e como compositor, juntando influências que vão dos standards do jazz norte americano até  ao funk, passando pela música latina e  temas do folclore de Israel, o seu país natal. “Shifting Sands” é um exemplo de um trabalho colectivo, de um diálogo solto e criativo entre os músicos, com o piano de Shirinova a ser muitas vezes o pólo condutor que dá entrada ao diálogo entre o baixo e a bateria. A faixa título é um exemplo perfeito desta articulação - tanto mais curiosa quanto o baterista, com 21 anos, recém saído de Berklee, é uma revelação que integra  este novo trio de forma magnífica. Noutros temas, como em “Dvash”, o piano e o baixo, por si sós, estabelecem uma sonoridade marcante e outras faixas que merecem destaque são “The Window” e “Joy”. Há momentos em que Cohen quase desaparece, deixando o palco para o pianista e o baterista, como em "Intertwined",  a faixa de abertura. O mais impressionante é a simplicidade de tudo isto e a forma como o trio usa essa simplicidade para fazer grande música. Não tenho dúvidas em dizer que este é um dos melhores discos de jazz que ouvi este ano. “Shifting Sands” está disponível em streaming.


ESPLANADA SETUBALENSE  - Vou falar do Peixoco, em Setúbal, bela localização, frente à foz do Sado. As muitas notícias publicadas na imprensa criaram expectativa, e lá fomos nós. O sítio é simpático,  está bem arranjado e o serviço é atento. Apesar de tudo isto a realidade da comida fica parcialmente  abaixo da expectativa criada. Vamos lá a ver - não se pode dizer que uma experiência no Peixoco seja má, o problema é que se esperava mais, a começar por  maior criatividade na lista. Indo por partes: as ostras eram boas mas isso em Setúbal é obrigação. Uma boa surpresa foi a beringela assada, com tomate confitado e alcaparras, ingredientes bem combinados e confeccionados, tempero certo. Mas o tártaro de atum estava muitos pontos abaixo do que se podia esperar. Uma das apregoadas especialidades da casa, a salsicha de peixe com puré de batata doce, desiludiu na salsicha mas cumpriu no puré. O problema é que a tal salsicha estava seca, demasiado passada e francamente com um sabor indistinto. O local convida à partilha petisqueira, mais do que à escolha do formato tradicional de entrada e prato principal. Em resumo 50% da expectativa foi cumprida. é melhor que nada mas é pouco para o que o restaurante vem anunciando. A rematar uma boa surpresa:  um vinho da região, o sauvignon blanc de Aldeia de Irmãos, revelou-se uma boa escolha que fez atenuar os aspectos menos bons da refeição. Já me esquecia: a manteiga de algas do couvert é bem boa e é a melhor parte do dito. Telefone 265 105 268.

 

DIXIT - “Não rejeito nada” - Augusto Santos Silva

 

BACK TO BASICS - “A raça humana tem dificuldade em enfrentar a realidade” - T.S. Eliot



 




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UM PAÍS EM PONTO MORTO

por falcao, em 22.07.22

 

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ESTADO OU GOVERNO? -  Nesta semana os deputados cumpriram o ritual do debate do Estado da Nação. Em geral a coisa resume-se a isto: quem Governa diz que está tudo bem e que mesmo as falhas eventuais serão corrigidas; e quem se opõe diz que o Governo não governa. O maior problema é termos um Estado que é desprezado pelo Governo. Explico melhor: a quem é governo interessa ter poder e perpetuar esse poder o máximo de tempo que puder. Portanto não governa para resolver problemas estruturais, que podem sempre implicar decisões desagradáveis para o eleitorado, e em vez disso decide de forma a poder manter, e se possível ganhar, votos nas eleições seguintes. Assim governa-se para manter o poder e não para melhorar o Estado. Creio aliás ser essa a razão pela qual o PS tem negligenciado a capacidade reformista que a maioria absoluta em teoria lhe dá. Um exemplo: o Primeiro Ministro queixa-se da falta de cadastro das propriedades rurais que dificulta a gestão florestal. Mas depois não toma medidas para que o cadastro seja mais fácil. Esta semana, por causa dos incêndios, muitas pessoas vieram relatar o calvário - e a despesa - que é conseguir actualizar os registos. O problema não é das pessoas, é do Governo que não coloca o Estado a funcionar para servir os cidadãos. Proliferam organismos redundantes, taxas e taxinhas que desmoralizam qualquer um. Enquanto isso, no Parlamento discute-se o acessório e esquece-se o essencial, que faria a diferença: as mudanças e reformas que é necessário introduzir. Sem isso o país não vai sair da cepa torta.

 

SEMANADA- Duas sondagens conhecidas nos últimos dias indicam que, se houvesse hoje eleições o PS perderia maioria absoluta, meio ano depois de a ter alcançado; um estudo divulgado esta semana indica que a maioria dos portugueses já deseja uma remodelação governamental e que 63% considera que o estado do país está pior que há um ano; nos primeiros seis meses do ano os portugueses gastaram mais 220 milhões de euros em supermercados que em igual período de 2021; a inflação fez com que a receita fiscal do Estado em Maio já estivesse a aumentar 21%, quando o OE previa 6,7%; também até Maio a receita do IVA aumentou 25% quando a previsão era de 10,7%; e a receita do Imposto sobre Produtos Petrolíferos aumentou 12% em vez dos previstos 1,6%; o Ministro da Economia, António Costa e Silva, defende que o aumento do salário médio tem de ser acompanhado por baixa de impostos e avisou que não se pode “exigir às empresas aquilo que elas não podem pagar”; no mais recente concurso do Ministério da Saúde um terço das vagas para médicos de família ficou por ocupar; um estudo conhecido esta semana indica que a geração Z e os millennials portugueses sentem-se financeiramente ansiosos e que o custo de vida e o desemprego estão entre as suas principais preocupações; a área ardida este ano em Portugal, até à semana passada, já supera os valores totais de 2021, totalizando quase 40 mil hectares, a maior área ardida desde 2017.

 

O ARCO DA VELHA -  O Estado atribuíu a si próprio dois terços do dinheiro da bazuca do PRR e já auto-aprovou 50% dessas verbas, enquanto que o mesmo Estado aprovou menos de 6% do total das verbas destinadas às empresas privadas.

 

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UMA VIAGEM NO TEMPO - “Debaixo da Pele” é o título da exposição de Miguel Telles da Gama no Museu Berardo, uma viagem pela carreira do artista, que expôs pela primeira vez em 1990. A primeira obra desta exposição é datada de 1997 e na montagem não é seguida nenhuma ordem cronológica. Logo no início está “Azul Profundo”, de 2014,  e depois  os “70 ex-votos por uma vida sexualmente animada”, de 2021. A seguir está “Vanishing Act” de 2016, as armaduras de “Lux in Tenebris” de 2018, as imagens gráficas de  2003 e 2004, de novo a pintura de “Emotional Rescue” de 2007, para daí seguir com os Contos de Perrault, barrados a vermelho, em “Passing Through the Red”, de 2013, e, depois,  um teatro de personagens à procura de autor em “Encenações”, realizada entre 1999 e 2003. José Luís Porfírio, o curador da exposição, sublinha que esta é “uma antologia do trabalho do pintor que não pretende ser um resumo integral do seu percurso, mas antes apresentar-se como uma obra nova, construída a partir de um conjunto de fragmentos da sua obra anterior”. “Debaixo da Pele” fica no Museu Berardo até 6 de Novembro. Em Coimbra destaque para “Tale About Urban Piracy”, uma exposição que agrupa obras de 14 artistas representados na colecção da Fundação PLMJ. Integrada no 13º Festival das Artes QuebraJazz, a exposição, com curadoria de João Silvério, tem trabalhos de  Ana Janeiro, Adriana Molder, Carlos Guarita, Ilda David, Inês Botelho, Isabel Carvalho, João Pedro Vale, João Tabarra, Manuel João Vieira, Mauro Pinto, Pedro Calhau, Rosana Ricalde, Rui Chafes e Sara Bichão. Está no Museu Nacional de Coimbra, Edifício Chiado. Até 4 de Setembro.

 

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PARA ESTIMULAR O PENSAMENTO  - Ora aqui está um livro actual, um romance sobre uma mulher que desafiava convenções, era politicamente incorrecta, detestava preconceitos, falsos moralismos e ideias feitas. Esta é a história imaginada por Julian Barnes de Elizabeth Finch, uma professora que dava aulas de  Cultura e Civilização, contada por um aluno que com ela foi falando ao longo da vida. O aluno, Neil, descreve como ela se vestia, e os seus hábitos e sublinha que a professora atraia a atenção através da quietude e da voz. Era um tempo anterior aos computadores portáteis nas salas de aula e cedo Elizabeth Finch disse aos seus alunos: “não me peçam para vos ajudar, estou aqui para vos estimular a que, sozinhos, penseis, argumenteis e desenvolvais as vossas mentes”. O livro percorre a história do pensamento humano e as ideias de Finch evocam filosofias do passado e exploram acontecimentos que se reflectem no nosso presente. Por trás de tudo,  está a história de Juliano, o Apóstata, último imperador pagão de Roma, uma alma gémea da professora,  que desafiou o pensamento monoteísta institucional, que sempre ameaçou dividir a humanidade. "Monoteísmo, monomania, monogamia. monotonia - nada de bom começa assim” - diz ela aos seus alunos. Ao longo de quarenta anos Finch encontra-se regularmente com Neil, com quem tem longas conversas. Quando morre é a ele que deixa os seus papéis, os seus cadernos de notas, a sua biblioteca. Os cadernos onde registava o que lhe ía na cabeça, eram  escritos a lápis “porque todo o pensamento é provisório e pode ser apagado à borracha”. Neil estuda-os, fica ainda mais fascinado e acaba por decidir escrever a biografia de Elizabeth Finch. Este novo livro de Julian Barnes encaixa  como uma luva nos tempos que correm, tão dados à intolerância. Muito boa  tradução, de Salvato Teles de Menezes, edição da Quetzal.

 

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JAZZ AVENTUREIRO - Gard Nilssen é um baterista norueguês dado a aventuras invulgares. Em 2020 fez um disco intitulado “If You Listen Carefully The Music Is Yours” com uma formação de três bateristas e três baixistas. Nilssen tem uma actividade considerável, com participações em mais de 70 discos desde 2007, alguns com orquestras, outros com pequenas formações, nomeadamente trios. O seu novo disco é baseado num trio: Nilssen na bateria, Andre Roligheten no saxofone e clarinete e Petter Eldh no baixo, a Acoustic Unity. “Elastic Waves”, o novo disco, é de facto o quarto registo deste grupo e é uma estreia na editora ECM.  Os três músicos trabalharam em conjunto não só em estúdio, mas também na composição dos 11 temas. Há evocações de melodias tradicionais norueguesas, há improvisação, há baladas, há sons vibrantes com o saxofone tenor a assumir protagonismo como no tema “The Other Village”, há uma permanente marcação rítmica, por vezes a puxar mesmo para movimentos de dança. Os temas são curtos - os 11 em conjunto andam pelos 45 minutos, o que facilita a ideia de uma sucessão de composições que se encadeiam umas nas outras. Disponível nas plataformas de streaming.

 

ESPLANADA MEXICANA - Uma ida ao cinema foi o pretexto para ir ao andar Gourmet do El Corte Ingles de Lisboa e, percorrendo o local, escolher um sítio que parecesse simpático. A escolha recaíu na Barra Cascabel, que faz parte do grupo de restaurantes orientados por José Avillez. Na realidade esta é uma parceria entre Avillez e Roberto Ruiz o chef que se tornou notado com o restaurante Punto Mx, em Madrid.  A Barra  Cascabel dedica-se à cozinha mexicana e pode-se escolher entre petiscos ou pratos mais sérios, conforme o apetite. Como aperitivo para o cinema a opção foi petiscar. Assim tudo começou com um guacamole da casa, temperado a sementes de abóbora e pickles de jalapeno, com as necessárias tiras de milho, bem frescas e estaladiças. Seguiu-se uma Tostada de Bonito, em que um molho de hortelã e pepino temperava uma salada de milho e o próprio atum. Para rematar, uns tacos Tampiquña traziam carne de vaca aos pedaços, cozinhada com bom tempero, pedaços de abacate e pico de gallo (uma mistura de tomate, cebola, coentros e limão). A acompanhar cerveja mexicana - uma Corona e uma Atlantica - esta última é mais gastronómica e acompanha melhor a comida. Mas quem quiser tem uma boa lista de cocktails, mezcal e tequilas. Quem desejar coisas menos leves tem pratos cozinhados de galinha, porco e vaca, todos na brasa, todos receitas tradicionais.

 

DIXIT - “Portugal é hoje o país europeu onde o Estado mais se demitiu da presença real no mundo rural, liquidando velhas instituições de vigilância e salvaguarda das florestas” - Viriato Soromenho Marques 


BACK TO BASICS - “Os erros são a porta de entrada para fazer descobertas” - James Joyce

 

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NÓS POR CÁ TODOS BEM?

por falcao, em 15.07.22

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CARTA A UM AMIGO EMIGRADO - Perguntas-me no teu mais recente e-mail como estamos nós por cá. Para te responder podia citar o título de um filme, “Nós Por Cá Todos Bem”, do Fernando Lopes, lembras-te? Mas a coisa termina no nome do filme. Se queres saber, este rectângulo à beira mar plantado continua a ser disputado por estrangeiros que aqui procuram sol e pechinchas. Mas nós, que gostosamente aqui andamos há uma vida, não vemos grande razão para sorrisos. Recordas-te da nossa velha conversa, da última vez que aqui estiveste, sobre a necessidade de mudar, de fazer reformas? Pois não tenho novidades. Nem mudanças nem reformas, nada. A localização do novo aeroporto continua emperrada e a CP aconselhou as pessoas a não viajar de comboio nestes dias de calor, as urgências dos hospitais vão fechando, as notas de matemática vão descendo e as greves vão aumentando desde que a geringonça gripou. Como te recordarás, quando António Costa chegou a primeiro-ministro, prometeu mudanças. E, como saberás, escolheu para parceiros os dois partidos que menos mudanças querem para desenvolver o país e a economia: o Bloco e o PCP. O resultado dos quatro anos desse ménage à trois foi que nada se fez, a não ser recuar nos indicadores comparativos da União Europeia. Não é de admirar - as geringonças têm tendência para andar para trás, são primas dos caranguejos. Depois, este ano, quando o Costa ganhou com maioria absoluta, houve quem pensasse que agora é que ía ser - livre dos seus sócios anteriores, alguma coisa iria mudar. A coisa que mais mudou é que ele agora passa mais tempo no estrangeiro - está como tu, meu amigo. Quem cá fica é que anda pior. Não há sítio onde surja um sinalzinho de mudança - nem na justiça, nem na carga fiscal, nem na lei eleitoral. A coisa que mais muda nesta terra é o preço dos combustíveis e até já há quem tenha saudades de um litro de gasolina ser a dois euros. Não te maço mais. O rectângulo continua firme à beira mar. Imutável. E com a dívida a crescer. Esperemos que não afunde outra vez, como com o Sócrates.



SEMANADA - Em 2021 foram realizadas menos 700 mil cirurgias em comparação com o ano anterior e verificou-se um redução de 18,5% nos internamentos hospitalares; os hospitais privados pesam apenas 4% na despesa do Serviço Nacional de Saúde; até Maio foram comunicados 452 pré avisos de greve, valor semelhante ao que foi atingido em 2015; mais de metade dos alunos do 9º ano teve negativa no exame de matemática; o Fisco só ganha 23% dos processos que são julgados com recurso à arbitragem fiscal; o actual executivo já nomeou mais de 800 pessoas para os gabinetes dos vários membros do Governo;  o Estado tem mais de 400 organismos consultivos, alguns redundantes e outros sem actividade; segundo a Pordata a percentagem de pessoas em risco de pobreza aumentou de 16,2% para 18,4% entre 2019 e 2020; em 2020 um terço das famílias perdeu 25% do seu rendimento anterior; segundo a Marktest o número de portugueses que encomendam refeições por telefone ou aplicações quase triplicou desde 2018 e o MB Way é o método de pagamento mais utilizado em compras online; o Novo Banco vendeu casas a um preço tão abaixo do mercado que algumas delas valorizaram 200% no dia seguinte; 75% dos portugueses consideram que o Estado devia investir mais na cultura, revela um estudo promovido pela plataforma Gerador.

 

O ARCO DA VELHA - Em 23 meses o  Banco de Fomento, que ainda mal funciona, fez 73 contratos de aquisição de bens e serviços por ajuste directo, num total de cerca de seis milhões de euros, 47% dos quais a uma mesma entidade.

 

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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  - A minha sugestão desta semana é uma ida ao Museu Gulbenkian para visitar a exposição  “To Go To”, que coloca em confronto o trabalho do português Jorge Queiroz e do arménio Arshile Gorky. Jorge Queiroz concebeu a exposição como um cenário que permite o diálogo entre os trabalhos dos dois artistas. Gorky morreu em 1948, Queiroz nasceu em 1966. Claramente são de tempos diferentes e, como Jorge Queiroz refere, Gorky partiu da figuração e desejou a abstração, enquanto ele próprio passou da abstracção para a figuração. A forma como “To Go To” está montada e o cuidado posto no diálogo entre as obras dos dois artistas tornam-na numa exposição invulgar. A ideia desta mostra nasceu porque a Fundação Gulbenkian detém um depósito de 57 obras de Arshile Gorky, propriedade da Diocese da Igreja Arménia de Nova Iorque, e ainda três obras no acervo do Centro de Arte Moderna. Foi a partir deste conjunto que Queiroz selecionou as pinturas e desenhos de Gorky apresentados na exposição, todos pertencentes ao último período da sua obra, da década de 1940, considerada a sua melhor fase. A este conjunto veio ainda juntar-se o empréstimo de uma pintura excepcional, proveniente do Museo Thyssen-Bornemisza. Intitulada Last Painting (The Black Monk), inspirada pelo conto homónimo de Tchekov, esta obra é e datada de 1948, e é provavelmente a última pintura de Gorky, uma vez que foi encontrada no cavalete do estúdio quando o artista se suicidou. Em “To Go To” Jorge Queiroz mostra cinco telas realizadas para a exposição, nas quais pintou sobre linhas serigrafadas, como se fossem papel de carta, evocando a leitura que fez da extensa correspondência de Gorky recentemente publicada. A exposição inclui ainda três outras pinturas e um vídeo de Queiroz, expressamente realizados para este projeto, além de vários seus trabalhos anteriores, sobre tela e sobre papel. A curadoria é de Ana Vasconcelos e a exposição fica patente até 17 de Outubro. 

 

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ENTRE A VIAGEM E A AVENTURA  - Gosto muito de livros que relatam viagens e os policiais e livros de mistério também figuram nas minhas leituras preferidas. Por isso, à medida que fui avançando na leitura de “Nas Montanhas da Loucura”, percebi como o seu autor, H. P. Lovecraft, conseguia relatar uma expedição à Antárctida, escrevendo-a como um romance de terror. Devo dizer que o resultado é fascinante.  Stephen King considera  Lovecraft como o melhor escritor de romances de terror do século XX e  Jorge Luis Borges dizia de Lovecraft que “as imagens que cria são horrendas, mas as sensações que provocam não o são”. O romance e a obra de Lovecraft combinam a fantasia com a ficção científica e com elementos cósmicos, tendo como pano de fundo a fragilidade e a efemeridade do ser humano. Howard Philips Lovecraft morreu cedo, em 1937, com menos de 50 anos. “Nas Montanhas da Loucura”, publicado originalmente em 1931, é uma das suas obras mais importantes. Na expedição, cujos preparativos são descritos minuciosamente no romance, os cientistas, que procuram fósseis pré-históricos numa viagem atribulada, começam a testemunhar factos estranhos. A partir daí o livro cria um clima de mistério e suspense que se vai adensando, no meio do clima desafiante da Antárctida e das suas paisagens avassaladoras. “Nas Montanhas da Loucura” integra a nova colecção "Admirável Mundo do Romance” e foi agora editado pela Guerra & Paz, com tradução de Sónia Amaro.

 

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O JAZZ DO HOMEM DOS WEEKND - Benny Bock tem trabalhado com os Weeknd, compondo algumas das suas canções e, sobretudo, assegurando a produção de vários dos seus álbuns. A novidade é que Bock iniciou agora uma carreira a solo com o álbum “Vanishing Act” onde mostra a sua proximidade ao jazz, assumindo a referência do jazz ambiental. Bock teve a ajudá-lo Pete Min, um reputado engenheiro de som que trabalhou com nomes como Diana Ross ou The Strokes. “Vanishing Act” desenvolve-se a partir de sessões de improvisação onde Benny Bock tocou seguindo as indicações de Min, ambos explorando sonoridades. A primeira faixa do disco”Erwins Garden” é uma homenagem de Bock ao pianista de jazz Erwin Helfer, que foi seu  professor de música. O piano assume neste tema e em vários outros do álbum o papel principal, mas cedo se mistura com sons de electrónica. Em “Dynamo”, o tema seguinte, uma batida repetida estabelece o padrão sobre o qual se desenvolve o piano e também o trabalho dos teclados electrónicos, num contraste entre sonoridades clássicas e o improviso que percorre caminhos inesperados. Estes dois temas iniciais estabelecem o padrão que se vai desenrolando ao longo dos restantes oito que constituem este álbum, sempre avançando um pouco na direcção de ambientes que bem podiam fazer parte de uma banda sonora de filme,  de tal maneira cada um dos temas deixa no ar sugestões de imagens. No tema título, “Vanishing Act”, um baixo eléctrico surge de forma marcante e em “Eight Below Zero” um steel pedal sugere universos musicais alternativos ao pano de fundo do jazz ambiental que foi escolhido por Bock.  Disponível em streaming.


A SARDINHA SETUBALENSE  - Um amigo que vive há muitos anos em Setúbal desafiou para umas sardinhas na sua terra. Não indicou nenhum dos restaurantes mais conhecidos, disse apenas que era um sítio onde ele gostava de ir, mais frequentado por locais que por turistas. Durante o almoço, e enquanto as sardinhas estavam nas brasas, ele lá contou as transformações sofridas por Setúbal nos últimos anos e disse uma coisa que para mim foi novidade completa: Setúbal é um dos destinos portugueses mais procurados por norte-americanos de classe média para aí comprarem uma casa e, actualmente, essa é uma comunidade de estrangeiros que está a crescer e que por este andar será a que lidera a nacionalidade dos novos proprietários de Setúbal. Alguns dos americanos que compraram casa decidiram uns tempos depois abrir um negócio, que vai desde lojas diversas até uma livraria que já está em preparação. Voltando à mesa, com um piscar de olhos, o meu amigo explica que, para comer boa sardinha em Setúbal, o truque é não ir ao fim de semana e evitar os restaurantes de primeira linha junto ao rio ou na avenida Luísa Todi. É nas ruas mais interiores que há os melhores restaurantes, com as melhores grelhas e peixe de confiança. Na esplanada que ele escolheu as sardinhas, já de Julho, estavam aprimoradas no tamanho, na frescura e no preparo, a salada era abundante e a fatia de pão para embeber o rasto deixado pelas sardinhas recomendava-se. Até tenho medo de referir o nome do sítio, mas aqui fica: Tasca Xico da Cana, Travessa do Seixal 10, tel 265 233 255 ou 915 420 976.

 

DIXIT - “Na democracia portuguesa os partidos só estão preparados para a competição política e não para a cooperação” - Paulo Trigo Pereira

 

BACK TO BASICS - “Quem em tudo quer parecer maior, não é grande”  - Padre António Vieira

 




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HERANÇAS POLÍTICAS - Cada vez que o PSD dá um ar da sua graça vem logo alguém do PS recordar, em tom acusatório, os tempos de Passos Coelho. Esquecem-se sempre de referir que Passos Coelho recebeu um país à beira da falência, após anos de governo do PS, protagonizados por José Sócrates. Esquecem que quem chamou a troika foi o Dr Teixeira dos Santos, Ministro das Finanças de Sócrates, perante a iminência de o país colapsar. Mas esta é uma verdade que o PS e seus aliados geringôncicos preferem não recordar. A bitola de avaliação do PS em relação a dirigentes do PSD é a de rastrear se eram próximos de Passos Coelho. Imaginemos agora que o mesmo exercício se aplica ao PS. Para citar só dois casos relevantes tenhamos em conta que o actual Primeiro Ministro António Costa integrou um Governo de José Sócrates e o actual Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, idem. Pois apesar disto o actual Presidente do PS, sempre muito assertivo, veio comentar o Congresso do PSD  proclamando que  o novo líder do PSD, Luís Montenegro, é “uma espécie de “heterónimo político de Passos Coelho”. Este é o mesmo Carlos César que em Maio de 2018, em declarações ao “Observador”, lembrou a “marca muito positiva” que José Sócrates deixou no país como primeiro-ministro. Enquanto a política fôr feita assim o descrédito dos eleitores perante os políticos só terá tendência a crescer. Em matéria de heranças políticas vale a pena recordar que nos últimos 27 anos o PSD governou apenas sete, quatro dos quais para tirar o país da fossa em que o PS o deixou. Recordem-se disto nas próximas eleições.

 

SEMANADA - Dos 3300 milhões de euros do PRR já pagos por Bruxelas chegaram às famílias 51 milhões e às empresas apenas quatro milhões; 113 dos 308 municípios ainda não conseguiram concluir a estratégia local de habitação que lhes permitira concorrer aos fundos do PRR, o que poderá agravar as desigualdades no acesso à habitação; os pedidos de licenciamentos para reabilitação de casas caíram 45% nos primeirtos meses do ano face ao mesmo período do ano passado; a inflação provocará em 2023  o maior aumento de actualização automática das rendas de casa desde os anos 90 do século passado; o Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda, recebeu cerca de 15 mil visitantes no primeiro mês em que esteve aberto; a venda de automóveis novos caíu 9,4% no primeiro semestre deste ano; no primeiro mês de funcionamento os novos radares de Lisboa apanharam 1239 condutores em excesso de velocidade por dia; a Provedoria de Justiça recebeu no ano passado mais de 12 mil queixas de cidadãos e o maior número de reclamações tem a ver com a Segurança Social; a violência doméstica já provocou no primeiro semestre a morte de 16 mulheres, tantas quanto em todo o ano passado; a dívida pública portuguesa está a crescer ao ritmo de 42 milhões de euros por dia e atinge agora mais de 280 mil milhões, o maior valor de sempre; nos primeiros cinco meses deste ano a cobrança de impostos teve um valor médio de 117 milhões de euros por dia; um estudo da SEDES indica que os baixos salários, a corrupção e a situação na saúde são os motivos que levam portugueses que emigraram nos últimos anos a não quererem voltar ao país.

 

O ARCO DA VELHA - Desde que, em 1969, foi criado o Gabinete do Novo Aeroporto já foram  realizados estudos para 17 localizações diferentes do novo aeroporto de Lisboa. Em anos diferentes, foram aprovadas formalmente em Conselho de Ministros duas localizações: Ota em 1999  e Alcochete em 2008. Mas tudo continua por fazer.

 

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MUITO PARA VER - No espaço Gabinete, na Central Tejo, o MAAT, apresenta até 29 de Agosto as novas aquisições de obras de arte efetuadas em 2021 e 2022 pela Fundação EDP. As novas obras, bastante diversificadas em termos de origens, autores e data, são de nomes como Fernando Calhau, João Vieira, Miguel Branco, Ana Jotta (na imagem), Luísa Cunha, Jorge Naisbitt e João Gabriel. A exposição, de dezena e meia das novas obras da colecção, procura criar diálogos entre o trabalho dos autores representados. Mas há muito para ver. Neste momento em Lisboa o difícil é escolher o que se poderá querer ver já que a oferta é grande. Alguns destaques: Catarina Pinto Leite expõe na Galeria Diferença,  até 30 de Julho, um conjunto de obras sob o título “Rua de Mão Única”, o título de um livro de Walter Benjamim que em parte inspirou o trabalho da artista, feito em papel japonês, criando uma instalação pensada para o espaço da galeria. O espaço é moldado pelo papel japonês, suspenso, no qual se vislumbram transparências de desenhos, em confronto com pequenos quadros dispostos na parede e que desenham um outro percurso. A curadoria é de João Silvério. Outra sugestão é a mostra Poster Marvila, já na sua sétima edição. Até final de Agosto as ruas de Marvila acolhem posters de artistas como Paula Rego, Cristiano Mangovo, Graça Paz, o fotógrafo Mário Cruz, o humorista Hugo Van der Ding ou o músico Noiserv, entre outros, num total de 20 artistas convidados. Para terminar, na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), até 10 de Setembro, Inês d’Orey expõe uma série fotográfica realizada durante uma residência artística em Belgrado, em 2021, “Beograd Concrete”, que mostra a visão da fotógrafa sobre a cidade, especialmente na mistura de estilos e referências arquitectónicas, mostrando como edifícios públicos, construídos entre 1946 e 1980 se intersectam com outros edifícios datados durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Jugoslávia foi formada.

 

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UMA HISTÓRIA IMAGINADA - Este livro de que vos vou falar  começa com o relato da parte final de uma viagem que leva um jovem lisboeta a descobrir  a geografia original da sua família por força de um acaso. É a descrição de uma estrada, no Alentejo, da passagem por Monsaraz (um encanto) e Mourão (uma desilusão), até chegar ao destino prometido, a terra dos avós, uma aldeia ao lado de um riacho e que dá pelo nome de Gorda-e-Feia. É aí que o protagonista vai descobrindo pormenores do quotidiano que ignorava, tradições que estão esgotadas, maneiras de falar que desconhecia. O livro de que falo chama-se “Baiôa Sem Data Para Morrer” e é a primeira obra de Rui Couceiro. O autor  tem uma escrita surpreendente, cheia de detalhes, recheada de episódios, misto de observação e de sensação. O livro é na realidade a história da descoberta de uma outra vida fora da cidade, uma narrativa quase em jeito de diário, contando as experiências vividas pelo imaginado protagonista na companhia de uma mão-cheia de personagens castiças, tragicómicas, quase impossíveis. Nota-se o encanto pelos nomes invulgares, pelas situações até então desconhecidas, pela forma de falar e de viver de gentes para quem a cidade pouco significa, pelos episódios de vida e de morte que acontecem longe de tudo, no meio da planície. Há momentos em que se fica na dúvida se tudo é fruto de imaginação ou se existe algum assomo de realidade nas páginas que lemos, tão grande é a mistura entre dados objetivos e pensamentos dispersos. Construído como relato de pequenas histórias, à medida que o romance avança percebemos que elas se juntam num puzzle que se revela no final.  “Baiôa Sem Data Para Morrer” foi agora lançado pela Porto Editora.

 

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UM DISCO CERIMONIAL - O novo álbum de Nick Cave tem menos de 24 minutos de emoção pura com recurso exclusivo a voz, sintetizadores e piano. Estas são sete canções que não o são. São, sim, pensamentos falados, narrativas difusas mas intensas, onde se cruzam temas como o amor e a morte. À primeira vista pode parecer um exercício vazio, mas este novo “Seven Psalms” de Nick Cave é um trabalho de uma enorme sensibilidade e força perante o qual é muito difícil ficar indiferente. Totalmente desligado de modas ou de um estilo musical definido, Nick Cave vai progressivamente afastando-se do rock e aproximando-se de uma religiosidade sem religião definida. O disco consta de sete temas falados, com menos de dois minutos cada, em que as palavras têm um acompanhamento musical minimalista de Nick Cave e do seu colaborador de muitas aventuras Warren Ellis. Os sete temas culminam num longo instrumental que decorre das paisagens sonoras construídas ao longo do resto do disco. Os títulos dos sete salmos assim ditos por Nick Cave dizem tudo: “How Long Have I Waited?”, “Have Mercy On Me”,”I Have Trembled My Way Deep”, “I Have Wandered All My Unending Days”, “Splendour, Glorious Splendour”, “Such Things Should Never Happen” e, a terminar, “I Come Alone and to You”. Num disco anterior, “Carnage”, Cave já tinha trabalhado sobre o conceito de spoken word. Mas aqui leva a experiência mais longe e as palavras são o elemento essencial do álbum, mais que a própria música, palavras ditas de forma sóbria e solene com Cave a assumir-se como um narrador e não como um cantor. Disponível nas plataformas de streaming.

 

SANDUÍCHE INESPERADA - Já há pêssegos bons - esta semana tive a confirmação disso mesmo. Um carrinho de fruta frente à entrada principal das Amoreiras, que tem sempre fruta de muito boa qualidade, proporcionou-me essa experiência. Provar uns pêssegos em grande forma, a transpirar sabor, aconteceu ao mesmo tempo que vi uma receita que me intrigou e que resolvi experimentar. Trata-se de uma sanduíche. Que tem isso a ver com pêssegos? - perguntarão. É  uma sanduíche de pêssego, queijo e presunto. O segredo está em cortar o pêssego em fatias e temperá-las num prato largo com vinagre de cidra e flocos de peperoncino seco, a gosto. O vinagre e o peperoncino acrescentam sabores inesperados ao pêssego, marinado no molho do sumo que vai largando. Depois é tostar numa chapa uma baguette estaladiça, cortada ao meio no sentido do comprimento e aquecê-la apenas do lado do miolo. Uma vez retirado da chapa colocar fatias de queijo da ilha nas duas metades, a seguir adicionar dos dois lados, de forma generosa, fatias do pêssego já temperado, folhas de basílico também dos dois lados e, no meio, a rematar, uma boa quantidade de presunto cortado finíssimo. Feche a sanduíche e prepare-se para uma explosão de sabor num pão estaladiço. Não há razão para não sermos inventivos ...

 

DIXIT - “O que parece ser um gesto estouvado de um ministro presunçoso acaba por revelar toda a amplitude de um Governo menor e de um Estado fraco” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “O conhecimento é a melhor das coisas e a ignorância é a mais terrível” - Sócrates, o filósofo grego, não o outro…

 

 




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Confesso que me espantei com a forma tão veemente como o Bloco de Esquerda veio criticar o anunciado abandono, por parte do actual executivo autárquico, do  projecto da nova Feira Popular em Carnide. Vamos a factos: a Feira Popular em Entrecampos encerrou em 2003 e apenas em 2015 Fernando Medina, então Presidente da Câmara de Lisboa, autarquia que estava nas mãos do PS desde 2007, anunciou  a construção de um novo Luna Park em Carnide, orçado, na época, em 70 milhões de euros. Passaram-se quase 20 anos desde o fecho da Feira Popular e sete desde que o novo parque de diversões foi prometido. À excepção de umas terraplanagens em 2016, nada foi feito. Não existe plano, nem caderno de encargos nem abertura de concurso de concessão, Medina esteve na Câmara até final de 2021 e durante seis anos não deu um passo para concretizar o que anunciara. Carlos Moedas anunciou que o projecto teria que ser repensado, o que faz todo o sentido - tendo até em vista o seu programa eleitoral que dava prioridade a criar pólos de proximidade em detrimento de  grandes estruturas de difícil gestão. Que o Bloco de Esquerda e o PS andem de mãos dadas, neste caso, ainda  sob a benção do espectro do vereador Zé, não me causa espanto. Mas, na minha grande ingenuidade, pensava que no Bloco ainda eram lidas as reflexões de Guy Debord sobre “A Sociedade do Espectáculo”, “essa droga para escravos” que empobrece a verdadeira qualidade de vida:  o que existia na proposta de Medina era uma mega estrutura de espectáculo e aliás aquilo que o Bloco continua a reclamar é um grande equipamento de divertimento e entretenimento. Contradições, enfim… Mas deixemos Guy Debord de lado e passemos à realidade. O actual presidente da junta de Carnide, Fábio Sousa,  da CDU, afirmou, com lógica e razão, estar preocupado com o estado em que os terrenos do anunciado Luna Park se encontram: Segundo ele , “está tudo parado e os terrenos ao abandono”,  invadidos por mato, constituindo um perigo. E, nas mesmas declarações, afirmou-se mais interessado em que ali seja criado um parque verde.

Cancelar o que foi abandonado, rever as promessas falhadas e encarar novas soluções é um acto que revela coragem e um pensamento virado para o futuro. A  antiga Feira Popular, que frequentei desde miúdo, vivendo em Entrecampos,  era uma estrutura que funcionava em poucos meses do ano. Na maior parte do ano estava fechada, à excepção de alguns poucos restaurantes. A minha convicção é que os lisboetas ficariam melhor servidos com alguns parques de menor dimensão, sobretudo com equipamentos para os mais novos, distribuídos pela cidade. E com um ou dois pólos maiores que pudessem oferecer ofertas diferentes. Este ano no Rock In Rio existia uma roda gigante e diversos equipamentos de diversão que ajudavam à festa de quem ia ouvir música. O local onde decorre o Rock In Rio, o Parque da Belavista,  está infraestruturado e é utilizado  apenas durante um mês e meio, de dois em dois anos. Não seria de considerar que algumas das estruturas que são montadas possam ser mais perenes, complementando a oferta dos parques mais pequenos espalhados pela cidade? 

O cancelamento do projecto megalómano de um Luna Park em Carnide não é um problema, é uma oportunidade para repensar a cidade, promovendo alternativas de proximidade. Não valerá mais  a pena pensar desta forma em vez de ficar agarrado ao passado? 

(Publicado no Diário de Notícias de 6 de Julho)

 

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UM PAÍS, DOIS SISTEMAS - Não, não estou a falar da China. Refiro-me a este rectângulo à beira-mar plantado. Aqui coexistem dois sistemas: um, que regula as eleições legislativas, garante que cabe ao líder do partido mais votado formar um Governo constituído pelas pessoas que entender escolher; e outro, nas autarquias, onde o candidato mais votado tem que coexistir no órgão de governo local, a vereação, com pessoas que não escolheu, dos outros partidos - ou seja, não pode escolher uma equipa executiva que governe. Nas duas situações existe uma Assembleia - o Parlamento e a Assembleia Municipal (e a de freguesia) - que acolhem representantes dos partidos que concorreram, proporcionalmente aos resultados obtidos. E é nessas assembleias que se tomam as decisões sobre as grandes questões - desde logo o orçamento, mas também as medidas de fundo de quem governa. Temos assim, no caso das autarquias, um duplo filtro - na vereação e na respectiva assembleia - que permitem, em última análise, que o Presidente da Câmara eleito não possa aplicar o seu programa e tenha que aplicar o dos candidatos derrotados. É isso exactamente que se está a passar na Câmara Municipal de Lisboa onde o Presidente eleito, Carlos Moedas, se vê confrontado com a aprovação pela vereação de medidas que vão contra o seu programa eleitoral - foi o que aconteceu com a iniciativa do Livre que, sem estudos e por puro fundamentalismo, decidiu impôr limites de velocidade na circulação na cidade. O que isto significa é que uma minoria pode, no sistema actual, impôr a sua vontade ao representante escolhido pela maioria dos eleitores. Não se trata de pôr em causa o respeito pelas minorias, trata-se de respeitar que a vontade democrática da maioria não seja deturpada por minorias - porque é isso mesmo que está a acontecer. Ao fim de quase meio século vai sendo tempo de melhorar as leis eleitorais e adequá-las às mudanças técnicas, comportamentais e sociológicas da sociedade. A defesa da democracia também passa por aí.

 

SEMANADA - Segundo o jornal  “El País” para ir de Madrid a Lisboa de comboio são precisas quatro mudanças de composição e onze horas - nunca a viagem foi tão má desde que em 1881 foi inaugurada uma ligação directa entre as duas cidades; em Espanha o iva da electricidade vai baixar de 10 para 5%; em Portugal o consumo cresceu três vezes acima dos rendimentos nos primeiros três meses de 1922; mais de 30% dos utentes do SNS esperam por médico de família há dois anos; nos primeiros cinco meses do ano foram atribuídos mais de dois milhões de baixas médicas por doença, um aumento de 82% em relação ao mesmo período de 2021; a venda de casas a estrangeiros aumentou mais de 70% e os preços das habitações em Portugal subiram quase 13% nos primeiros três meses deste ano; a população de estrangeiros residente em Portugal aumentou em 2021 pelo sexto ano consecutivo, contabilizando agora cerca de 700 mil pessoas, mais 5,6% que no ano anterior; quase 800 mil portugueses fazem apostas on line e nos primeiros três meses do ano apostaram, 2,2 mil milhões de euros em casinos online e 370 milhões em apostas desportivas; a taxa de produtividade em Portugal é de 71,7% comparada com a média europeia; em 2021 aumentou em 60% o número de crianças em situação de risco que tiveram o seu direito à educação comprometido. 

 

O ARCO DA VELHA - Apesar de Portugal ter a terceira maior área marítima protegida da União Europeia as pescas e a aquicultura representam menos de  0,2% do nosso PIB. 

 

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O ENCANTO DA PEDRA - Para que serve a pedra? Entre outras coisas para deleite dos nossos sentidos - essa é a conclusão que se tem quando se visita a exposição”Primeira Pedra/First Stone”, que abriu na semana passada no Museu dos Coches,  em Lisboa, onde ficará até final de Setembro. Tudo nasceu em 2016 com o intuito de promover a pedra portuguesa, por iniciativa da Experimenta Design e da Assimagra, a Associação Portuguesa da Indústria dos Recursos Minerais. Guta Moura Guedes, que comissariou toda a iniciativa e esta exposição, convidou nomes nacionais e internacionais na área do design, arquitectura e artes visuais. Como sublinham os organizadores, a “Primeira Pedra juntou a produção à criatividade através do desenvolvimento de utilizações inovadoras deste material singular”. A exposição inclui 74 obras de 36 autores, com nomes como Álvaro Siza, Amanda Levete, Carla Juaçaba, Carsten Holler, Ai Weiwei, Eduardo Souto Moura, Julião Sarmento, Marina Abramovic, Carrilho da Graça, Michel Rojkind,  Fernanda Fragateiro, Vhils, Jorge Silva, Manuel Aires Mateus. Miguel Vieira Baptista, Pedro Falcão, Peter Saville e Philippe Starck, entre outros. A exposição desenvolve-se entre os jardins do museu, em todo o espaço exterior no piso térreo e, depois, no primeiro andar, convivendo com os coches do museu, como nesta Conversadeira, a peça de Eduardo Souto Moura que está na imagem.

 

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LÁ VOU EU DE VESPA  -  Em 1952 o filme “Férias em Roma” mostrava Audrey Hepburn e Gregory Peck numa scooter Vespa e a scooter ganhou estatuto de estrela. Por cá a Vespa chegou em 1947, no ano a seguir à sua apresentação em Itália. Fabricada pela Piaggio, o nome evoca o zumbido do seu motor original a dois tempos. A Vespa foi o modo de transporte de gerações. Tive a minha primeira Vespa, uma 150 S, quando entrei para a faculdade no início dos anos 70 e mantive-a durante muito tempo. E hoje em dia é ainda com uma outra Piaggio que me desloco na cidade. Tudo isto vem a propósito do novo livro de Pedro Pinto - “Vespa em Portugal, a beleza em duas rodas”, editado pela Quetzal e que esta semana chega às livrarias. Pedro Pinto é autor de outros livros, como  As Motos da Nossa Vida,  Motos Antigas em Portugal e Motorizadas 50cc Portuguesas. Foi membro fundador da Federação Nacional de Motociclismo e organizou a exposição As Motos do Século, o Século das Motos e o respetivo catálogo para a Expo 98. Neste novo livro conta como a história da Vespa ao longo de 70 anos está marcada pelo cosmopolitismo, pela inovação do design e por uma cultura romântica e urbana. Neste  livro Pedro Pinto conta a história das scooters Vespa em Portugal, desde o início da sua importação, até aos anos de ouro em que foi representada pela Sociedade Comercial Guérin e, depois, as  outras empresas que se lhe seguiram a importar a marca. O livro percorre os pioneiros da Vespa em Portugal, como a história fantástica de Orquídea Graça, uma vendedora do stand da Vespa na avenida da Liberdade em meados dos anos 50 - a história de uma mulher à frente do seu tempo. Mas fala também dos rallies e passeios - alguns além fronteiras - assim como da fundação do Vespa Clube de Lisboa ou do encontro internacional Eurovespa que Lisboa acolheu em 2004. O livro foi claramente escrito com paixão e reproduz numerosa documentação fotográfica e de imagens publicitárias da marca.

 

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A VOZ DA EMOÇÃO - Descobri a voz de Elizabeth Fraser nos Cocteau Twins e, depois, nos This Mortal Coil. A sua forma de cantar era emocionante e conseguia imprimir às palavras que entoava um sentimento que ainda não tinha ouvido antes. A versão que fez, com os This Mortal Coil, para “Song To The Siren”, de Tim Buckley, excede o original, transportando-o para uma nova dimensão. Agora, depois de ter passado anos sem ouvir falar de Fraser, descubro que editou um EP com Damon Reece, seu companheiro de vida, ex baterista dos Massive Attack, utilizando o nome Sun’s Signature, a designação que o duo escolheu para esta aventura. Os Cocteau Twins terminaram há 25 anos e durante este período Elisabeth Fraser manteve-se longe da ribalta durante a maior parte do tempo, tendo apenas editado dois discos. Sun’s Signature é o seu primeiro projecto em 13 anos e quando se ouvem estas canções percebe-se que a voz de Fraser mantém a magia que deixava no ar há décadas. Agora, aos 58 anos, Fraser canta de uma forma ainda mais intensa, estimulada talvez pelos arranjos envolventes que Reece fez com a participação de músicos com quem colaborou ao longo da vida, como Steve Hackett, que foi guitarrista dos Genesis. O som que sai deste EP relembra a sonoridade típica dos discos da editora 4AD, onde estavam os Cocteau Twins, os This Mortal Coil e Dead Can Dance, por exemplo. A primeira faixa, das cinco que integra este EP, chama-se “Underwater” e mostra como a voz de Fraser continua misteriosa. “Golden Air”, a segunda faixa, mostra Elizabeth Fraser a cantar sobre arranjos elaborados, num crescendo que se acentua na segunda metade do tema. Mas a minha preferida é “Apple”, intimista, tranquila, em que ao longo de sete minutos a voz de Fraser vai-se afirmando em todo o seu esplendor. Estes três temas já estão disponíveis em streaming. A edição original do EP, em vinil, inclui dois outros temas,  “Bluedusk” e “Make Lovely The Day”, bem diversas entre si. Estes dois temas estarão brevemente também disponíveis nas plataformas de streaming. Mas os 20 minutos das três faixas já disponibilizadas são uma inesperada lufada de ar fresco neste início de verão.

 

UM ALMOÇO NO CHIADO - Almoçar confortavelmente no Chiado, a preço razoável,  conseguindo escapar à fast food, não é tarefa fácil. Primeiro lembrei-me de ir à Cervejaria Trindade, mas está em obras. Depois espreitei o Bairro do Avillez mas a esplanada era dominada pela confusão e o mau cheiro de uns contentores de lixo inexplicavelmente próximos. De maneira que decidi ir à histórica Pastelaria Bénard e ver o que se passava. Pois passou-se uma boa surpresa. No interior havia sossego e um empregado simpático. Na parede um cartaz anunciava que a casa só utilizava produtos naturais e frescos, não recorrendo a pré-preparados. O balcão estava repleto de tentações. Os pratos do dia eram clássicos: pescada frita com salada russa e caldo verde. Além disso há as chamadas sopas residentes, emblemas da casa, que são a sopa de peixe e a canja de galinha. O menu tem muitas outras sugestões, do bitoque nas carnes aos filetes no peixe, passando por diversas saladas, além de uma grande variedade de salgados e de sanduíches, a que se podem acrescentar guloseimas como um excelente pastel de nata, quer no tamanho normal, quer em miniatura. Na primeira sala pode sentar-se e pedir o que lhe apetecer - por exemplo uma sopa e uma bela napolitana, esse mágico folhado com fiambre, queijo e alface. Fiz uma boa escolha - a sala da Bénard é um oásis no meio da confusão do Chiado. Fica na Rua Garrett, 104.


DIXIT - “A pior coisa que pode acontecer é adoecer ou ter acidentes em Agosto” - Graça Freitas, directora-geral da Saúde

 

BACK TO BASICS - “A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é um absurdo” - Voltaire




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