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DESENCONTROS GOVERNAMENTAIS - Nos últimos dias houve duas crises, mais duas, no Governo. Uma foi ética e envolveu a Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa - mas, acima de tudo, envolveu uma deputada do PS, Isabel Guerreiro, que propôs que as perguntas de outros deputados sobre a atribuição de fundos europeus a empresas participadas pelo marido da Ministra fossem apagadas das gravações da comissão parlamentar em que foram feitas - como se não existissem. O PS lançou há poucos dias, com pompa e circunstância, uma Academia Socialista que bem pode integrar questões básicas não só sobre o socialismo, mas sobre o significado de democracia, debate parlamentar e, já agora, ética. Se Ministros e deputados reprovam nestas matérias o melhor é rever o programa dessa Academia. O outro caso tem a ver com a capacidade de o PS gerir independentes no seu Governo. Costa e Silva, agora Ministro da Economia, levado em ombros por António Costa quando elaborou o estudo para o Plano de Resiliência, teve o pouco cuidado de sugerir em público uma medida que muita gente ligada à economia real defende - a baixa do IRC. Meteu-se com a pessoa errada, ou seja, o Ministro dos Impostos, também conhecido por Ministro das Finanças cargo de cobrador ocupado, nesta conjuntura actual, por Fernando Medina, um dos anunciados delfins de Costa. Enquanto Costa e Silva se preocupa com o estado da Economia, a sobrevivência de empresas e o seu crescimento, Fernando Medina preocupa-se com a forma de fazer crescer a receita do Estado. Historicamente são visões incompatíveis porque o Estado atavicamente não quer saber do bem estar da economia, apenas de si próprio. Fernando Medina é daqueles habilidosos que se especializou em arrancar dentes sem anestesia, Costa e Silva é mais adepto de curar o doente e dar-lhe vitaminas. É o Governo que temos. A mentira e o fingimento são a pior coisa da política e Costa e Silva pecou por não embarcar nesse jogo.

 

SEMANADA - O ex-Ministro do Trabalho e Segurança Social, Vieira da Silva, disse que preferia que a aplicação da fórmula de actualização das reformas, de que foi autor, fosse suspensa em vez de ser alterada; ao longo de um ano empresas de supermercados e de distribuição foram multadas pela Autoridade da Concorrência em 675 milhões de euros por concertação de preços; a indústria da carne antecipa aumentos de preços entre 15 a 20% nos próximos meses; 48% dos portugueses dizem que já vivem com dificuldades; o cabaz essencial alimentar da DECO teve uma subida de preço de 13% desde o início da guerra, bem acima da inflação; a execução dos fundos europeus nas grandes obras públicas do Portugal 2020 é inferior a metade do que devia ser; os novos créditos à habitação têm os juros mais altos dos últimos 13 anos; o preço das casas vendidas no segundo semestre deste ano aumentou mais de 13%, a subida mais acentuada desde que há registos; ao contrário do que a empresa garantiu, o ciberataque à TAP expôs os dados privados dos clientes, entre eles 15 dos 17 Ministros, do Presidente da República, de líderes partidários e responsáveis de forças de segurança; o trânsito automóvel em Lisboa e no Porto já supera o nível de 2019; Portugal exporta bicicletas para 90 países, mas por cá elas são utilizadas por menos de 1% da população; segundo o Conselho das Finanças Públicas a forga orçamental daria para descer o IRC para 13 ou 14% durante um ano; quase metade da população de Cascais já usa transportes públicos gratuitos; a Câmara Municipal de Lisboa aprovou 22 medidas de combate à inflação dirigidas às famílias e empresas da cidade; há 100 mil aunos sem aulas por falta de professores.



O ARCO DA VELHA - A máquina ATM de bitcoins da Sociedade Filarmónica Recreio Alverquense, em Alverca do Ribatejo, é uma das mais concorridas do país, a par de uma outra que existe num café-lavandaria da zona dos Anjos, em Lisboa.

 

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CONTRATEMPO  - José Maçãs de Carvalho expõe na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos Lote F r/c, Lisboa) uma série de fotografias sob o título genérico “Contratempo” (na imagem), uma visita visual a arquivos, seus e alheios, que cruza visões sobre o tempo, o corpo, a vida e a morte, mas também sobre o peso da História. Um dos  momentos mais curiosos é a série “Sem Título (after gerard r.) onde se revisitam alguns dos 48 Portraits de Gerard Richter, num conjunto de fotografias onde as mãos que seguram as molduras ganham elas próprias uma nova dimensão que tem a ver com as imagens que abraçam. "Contratempo" é essencialmente o regresso de José Maçãs de Carvalho à fotografia como meio principal que exibe, evitando o facilitismo da proliferação de vídeos, desta vez centrando-se num único desses objectos, “Video Killed The Painting Stars”, a meio caminho entre Man Ray e o primeiro videoclipe exibido pela então nascente MTV, sobre uma canção das Bangles. De resto as imagens da morte, refletidas nos corpos de animais embalsamados, e da vida, na rua e metamorfoseada em estúdio num contraste entre a pele do corpo e um arranjo floral, são inequivocamente pontos altos desta exposição. Ainda na fotografia vale a pena visitar a exposição sobre a obra da canadiana Margaret Watkins. “Black Light” reúne 136 imagens realizadas entre 1914 e 1939 por Margaret Watkins, um dos nomes incontornáveis da fotografia do século XX e que é a sua primeira grande exposição em Portugal - uma iniciativa da Fundação D. Luís no Centro Cultural de Cascais, até 8 de Janeiro. Por último, no Parque dos Poetas, em Oeiras, com entrada livre, pode ser vista a selecção das melhores fotografias do ano, na já tradicional mostra do World Press Photo, que ali ficará até 16 de Outubro.

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ROMPER ESPAÇO  - Mesmo quando achamos que já poucas coisas nos podem surpreender aparece de repente uma obra que desafia os sentidos, o espaço e o local onde foi colocada. A peça em questão, “Isto Não Sou Eu” é o desafio lançado por Rui Chafes na exposição “Desabrigo”, que apresenta na Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva até 15 de Janeiro  próximo. “Isto Não Sou Eu” (na imagem) , criada já este ano expressamente para o local, é um bloco feito de ferro que atravessa duas salas do museu, obrigando a ter uma nova perspectiva do seu espaço e a uma circulação que leva até às outras três peças de “Desabrigo”, todas de 2020, que completam a mostra. O ferro, em contraste com as paredes e o soalho, rompe a arquitectura do edifício,preenchendo um vazio. Como João Barrento escreveu no texto de apresentação da exposição “a obra verdadeiramente digna desse nome não abre passagens fáceis nem óbvias, suscita desde logo interrogações.”Outra exposição a ver está na Galeria Cristina Guerra, “What Is Yet To Take Shape Will Protect Me”, de Christian Andersson, um artista sueco que trabalha entre Malmo e Paris. A exposição mostra um contraste entre a tecnologia, na série “Cache” que são como colagens de um novo tempo que evocam as memórias escondidas dos computadores, até à representação de uma impressora laser esventrada, culminando, ao virar da esquina da sala, com “Marrow”, revisitação de uma escultura gótica funerária. Na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art , Rua de Santo António à Estrela 33, até 29 de Outubro.



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ENSAIOS SOBRE O ESTILO  – «O mundo em que estes ensaios foram escritos já não existe», escreveu Susan Sontag no posfácio de “Contra a Interpretação e Outros Ensaios”, trinta anos após a primeira edição da coletânea em 1966, reavaliando a pertinência dos textos à luz do tempo da sua escrita, do «estado da arte» e do mundo passadas três décadas: «Olhando para trás, como tudo isso parece maravilhoso. Quem nos dera que algum desse arrojo, desse otimismo, desse desdém pelo comércio tivesse sobrevivido.» Este posfácio foi escrito em 1996 e refere-se aos 27 ensaios escritos e publicados originalmente entre 1964 e 1965. A colectânea inclui ensaios de Susan Sontag sobre  Ionesco, Sartre, Camus ou Simone Weil e mostra o seu pensamento sobre a cultura e a nova sensibilidade artística que nasceu, por exemplo, com os filmes de Robert Bresson, Godard ou Resnais, entre outros que a autora destaca. O livro inclui ainda o célebre ensaio “Sobre o Estilo”, publicado na  Partisan Review. Sontag salientava, em 1966: «Escrevi na qualidade de entusiasta e partidária, com o que parece-me agora, certa ingenuidade. Não me apercebi do imenso impacto que a escrita sobre novas atividades artísticas, ou pouco conhecidas, pode ter na era da “comunicação” instantânea». E conclui:  «Escrever textos críticos veio a revelar-se um acto tanto de libertação intelectual como de expressão das minhas próprias ideias. Mais do que ter resolvido, para mim mesma, uma determinada quantidade de problemas fascinantes e perturbadores, tenho a sensação de os ter gasto.» Esta nova edição de “Contra a Interpretação e Outros Ensaios” foi agora lançada pela Quetzal.

 

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WELCOME BACK - Com 56 anos Bjork regressa em grande forma com o seu 10º álbum de originais, “Fossora, o primeiro desde “Utopia”, de 2017. A sua discografia a  solo, depois de se ter destacado nos Sugarcubes no final dos anos 80, iniciou-se em 1993 com “Debut”. Tem sido um longo e irrequieto caminho, muitas vezes com incursões inesperadas, cada vez mais elaborado, mas também permanentemente aberto à utilização de novas sonoridades, que vão do reggaeton até melodias indonésias, No Instagram, Bjork revelou o processo criativo que levou a “Fossora”, escrevendo que todos os seus álbuns começam com um sentimento que tenta transformar em som. “Desta vez, o sentimento foi o de aterrar e enterrar os meus pés no chão”, afirmou. Numa entrevista ao jornal britânico “The Guardian”, Björk afirmou que a sonoridade do disco pode ser descrita como “techno biológico”. No álbum colaboram os Gabber Modus Operandi, um duo indonésio, Serpentwithfeet e os seus filhos, Sindri e Ísadóra e ainda um sexteto de clarinetes.  A  voz de Bjork, inconfundível, continua ao mesmo tempo gutural  e envolvente . No disco destacam-se canções como a faixa título, “Fossora”, "Sorrowful Soil”, “Ancestress”, “Atopos”, “Ovule”, “Freefall” ou “Her Mother’s House”, entre a dúzia de novos temas incluídos neste novo disco. Mais uma vez os visuais, das fotografias aos vídeos são cuidadíssimos.

 

DIXIT - “O que se está a passar com o falhanço no combate aos incêndios, cinco anos após as tragédias de 2017, é difícil de explicar sem recorrermos ao conceito de «irresponsabilidade organizada»”- Rui Gonçalves, presidente da FlorestGal

 

BACK TO BASICS - “Querem a democracia? Ocupem-se da justiça!” - António Barreto 


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SOBRE A RAZÃO E OS SENTIMENTOS

por falcao, em 23.09.22

 

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SEM PAPAS NA LÍNGUA - Recentemente um dos grandes escritores espanhóis, Arturo Pérez-Reverte, esteve em Portugal para acompanhar a edição do seu mais recente livro, “Linha da Frente”. Na ocasião deu uma entrevista à revista “Visão”, da qual tomo a liberdade de fazer algumas citações porque elas retratam, bem, o mundo actual. Então aqui vai a primeira: “ Um dos grandes problemas em Espanha - também em Portugal, mas creio que ainda mais em Espanha - é a incapacidade de vermos virtudes nos inimigos e defeitos no nosso lado. É tudo muito bom ou muito mau. Essa radicalização é muito perniciosa. Os excessos e populismos da esquerda levaram aos excessos e populismos da direita.” E mais adiante: “O que vejo é que os mais jovens políticos espanhóis,  portugueses e europeus têm uma grande carência intelectual. Ideologicamente não têm uma base sólida. São mais de declarações rápidas, de tweets… vendem-nos uma simplicidade muito perigosa”. E prossegue: “No Ocidente trocámos a razão pelos sentimentos. Agora “sentimos”: as focas, as baleias, os golfinhos, os touros, os sem-abrigo, a pobreza. Trocámos Voltaire, Montesquieu, Tocqueville, Rousseau e Kant pelo espírito das Organizações Não Governamentais. Não tenho nada contra as ONG, mas isso é um sinal de que nos falta um sustento, um alicerce intelectual. A nova ideologia não passa pela razão, a nova ideologia é o coração”. E, por fim: “Creio que o Ocidente está a perder a batalha intelectual e a barbárie é isso. O Ocidente foi sempre a luz do mundo, com a gesta atlântica e índica  dos portugueses, a expansão dos espanhóis, o iluminismo em França, o parlamentarismo inglês, a Alemanha e o seu racionalismo filosófico. Tudo isso está a ser varrido, mesmo nas escolas. Não interessa nada se um  jovem conhece ou não Voltaire, tem é de sentir que pode ser homem ou mulher, tem é de respeitar os seus sentimentos, mas os sentimentos têm de estar baseados na razão! Essa é a batalha que está a perder o Ocidente e nos torna débeis.” 

 

SEMANADA - Existem 2,3 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a 22,4% da população;o preço do pão subiu 15% no último ano;  no primeiro semestre do ano registaram-se 15.500 acidentes rodoviários que provocaram 210 mortos e 1120 feridos graves; um em cada três alunos inscritos no ensino superior público está deslocado fora da sua residência habitual; 36,5% dos funcionários públicos portugueses têm mais de 55 anos; temos a quarta Administração Pública mais envelhecida da OCDE; a tributação do tabaco já deu este ano mais 58,6 milhões de euros do que estava previsto; incêndios de agosto geraram prejuízos de 85 milhões de euros, abrangeram 14 municípios e queimaram 57 mil hectares, 28 mil dos quais no Parque Natural da Serra da Estrela; a entidade das contas já deixou prescrever este ano os processos relativos às contas dos partidos políticos de 2013 e 2014; 60 mil alunos não têm professores pelo menos a uma disciplina; em cerca de dez anos o programa dos vistos Gold já foi usado por 1123 brasileiros com investimentos imobiliários que ultrapassaram 860 milhões de euros; segundo a Marktest o Tik Tok já é a quarta rede social com mais notoriedade em Portugal e o Instagram a rede com maior penetração entre os mais jovens; 92% dos portugueses afirmam que a crise já os fez diminuir a ida a restaurantes e a compra de roupa; nos últimos dez anos os bancos fecharam metade dos balcões que existiam. 

 

O ARCO DA VELHA - O Primeiro Ministro afirmou em Junho na CNN que iria cumprir integralmente a Lei das Pensões, não avisou para qualquer problema de sustentabilidade na Segurança Social, e três meses depois anunciou que as reformas vão ter cortes e a Lei vai ser revista.

 

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UM CLÁSSICO - A nova exposição de Paulo Nozolino, “Oracle”, é uma viagem por temas que têm estado presentes na sua obra, ao longo dos anos: a vida e a morte, o sagrado e o profano, a força da natureza e a espiritualidade, o poder e a resistência humana. O olhar de Nozolino é característico e a diversidade dos temas que explora em “Oracle” reforça como esse olhar se exerce de forma coerente sobre situações tão diversas e geografias tão distantes umas das outras. As nove fotografias constituem uma das grandes exposições deste ano. Todas  foram enquadradas na vertical, numa fuga deliberada ao que é o ângulo de visão do olho humano, distorcendo de imediato a nossa percepção das coisas e forçando-nos a adoptar a visão do autor. A fotografia de Nozolino  aqui reproduzida, de Cefalu,  na Sicília, está colocada em local destacado na Galeria Quadrado Azul, e como que liga os mundos mostrados nas outras oito imagens. Já este ano Paulo Nozolino expôs no Centro Georges Pompidou, em Paris, sob o título “Le reste est ombre”, ao lado de Pedro Costa e Rui Chafes. A Galeria Quadrado Azul fica na Rua Reinaldo Ferreira 20A, em Alvalade e a exposição “Oracle” permanecerá até 12 de Dezembro. Outra nova exposição aberta na semana passada é “Patrícia”, de José Pedro Cortes, na Galeria Francisco Fino. Trata-se um trabalho centrado na actividade de Patrícia Mamona enquanto atleta - uma instalação de quatro vídeos, cada um com 16 minutos, onde as rotinas de treino são a matéria prima das imagens obtidas ao longo de quase três anos. O resultado pode ser visto até 15 de Outubro na Galeria Francisco Fino, Rua Capitão Leitão 76, a Marvila.

 

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UMA BELA HISTÓRIA - Tenho o velho hábito de considerar que os primeiros parágrafos de um livro são decisivos para lhes destinar o futuro nas minhas leituras. Se fico curioso e acho a ideia sensacional, é garantido que vou ler; se me parece um pouco hesitante mas ainda levanta curiosidade, entra para a lista de possibilidades; e se nem desperta entusiasmo nem curiosidade, passo à frente e está o caso arrumado. “Adeus Casablanca”, de João Céu e Silva, entrou directamente para a primeira categoria. Logo no primeiro parágrafo nasce a curiosidade quando, nos anos 40 do século passado, um polícia recomenda a uma banhista que use uma roupa mais comportada: “Não quero mulheres quase despidas nesta praia” - assim sintetizou o agente da Lei o seu pensamento. É o retrato do Portugal dessa época e é o ponto de partida para “Adeus, Casablanca”, um romance histórico que combina a espionagem internacional com base no Estoril, a oposição ao regime de Salazar e os caminhos da diplomacia no Estado Novo. O livro centra-se no relato de uma argumentista norte-americana que é encarregue de escrever a sequela do filme “Casablanca” e que decide fazer nascer o seu guião a partir do desvio de um avião da TAP que em 1961 Henrique Galvão tomou de assalto em Marrocos e que, depois, usou para espalhar cem mil panfletos anti-regime pelos céus de Portugal. Aqui Casablanca e Marrocos, são o palco onde se fala dos exilados políticos portugueses no norte de África, mas também da recriação da vida marroquina dos tempos em que Paul Bowles vivia em Tânger. “Adeus, Casablanca”, de João Céu e Silva, é uma edição da Guerra & Paz.

 

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BAÚ MÁGICO - Em Maio de 1965 Lou Reed, então com 23 anos, sentou-se com John Cale e gravou uma dezena de “demos” de canções, várias delas mais tarde interpretadas pelos Velvet Underground. Feito num gravador de bobine, o registo é de uma simplicidade total, a voz de Reed, por vezes a de Cale nos coros, guitarra acústica, uma vez ou outra, uma harmónica. Quase folk music estas gravações, são sempre precedidas pela voz de Lou Reed, a dizer o nome da canção e a explicitar “words and music by  Lou Reed”. Quando a gravação terminou Reed colocou a bobina na sua caixa original, meteu tudo num envelope e enviou-a a si próprio por correio, dirigindo-a a Lewis Reed, o seu nome verdadeiro - uma espécie de registo de copyright caso no futuro houvesse algum problema sobre a autoria destes temas. Nessa altura os Velvet Underground já existiam, davam os primeiros passos, embora o seu disco de estreia, “Velvet Underground & Nico” seja de 1967. A fita repousou durante décadas nos arquivos pessoais de Reed e a caixa, ainda por abrir, só foi descoberta depois da morte de Reed, em 2013. Quando a New York Public Library  comprou o seu espólio à viúva, Laurie Anderson,  os arquivistas finalmente ouviram a fita e perceberam que ali estavam as primeiras gravações de canções que mais tarde seriam bem conhecidas. Dez das canções dessa fita foram agora editadas em “Words & Music, May 1965”, e aí é possível descobrir as versões originais de temas como “I’m Waiting For The Man” (em duas versões, bem diferentes), “Heroin”, “Walk Alone”, “Wrap Your Troubles in Dreams”, “Too Late” ou uma versão de “Men Of Good Fortune” que não tem nada a ver com a canção do mesmo nome que Reed gravou no álbum “Berlin”. É um disco extraordinário? Não, mas é um documento soberbo do nascer de um talento, da junção de duas forças criativas como Reed e Cale. Disponível nas plataformas de streaming.

 

MAIS UMA SANDUÍCHE  - Experimentar novas sanduíches é uma das coisas que gosto de fazer. Fruto de estival incursão pelo Algarve trouxe um frasco de creme de alfarroba, uma iguaria que nunca tinha experimentado apesar de ser confessadamente devoto do sabor da alfarroba. Após algumas experiências, voz amiga, sabendo das minhas preferências sugeriu-me que experimentasse usá-la com queijo numa sanduíche. Vamos por partes - o pão é uma peça fundamental numa sanduíche e as minhas preferências actuais vão para o pão de espelta integral da Pachamama, feito a partir de massa mãe e sem fermento. Duas fatias de espessura média, levemente tostadas são a base. A seguir veio o creme de alfarroba, barrado generosamente nas duas fatias - a textura é espessa, o sabor é intenso e envolvente, combina-se bem com o pão. A parte final é o queijo. Gosto muito de queijo da ilha de S. Miguel de nove meses de cura, sobretudo cortado em lascas finas, à temperatura ambiente. Uso uma boa quantidade de fatias muito finas, uma camada em cada fatia de pão, Depois é como fazer um lego: junto as duas fatias, comprimo um bocadinho para ficarem bem encaixadas e delicio-me. Acompanha bem com uma cerveja preta, a minha preferência, entre as nacionais,  vai para a Sagres. 

 

DIXIT - “Não há anteriores governos, nem guerra, nem pandemia que justifiquem o estado das coisas. Nada justifica a incompetência, a ausência de visão e a ausência de sentido prático da vida” - António Barreto

 

BACK TO BASICS -”A Arte existe porque a vida não basta” - Ferreira Gular.

 

 




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COSTA, O REVERTEDOR ILUSIONISTA - António Costa passou o seu primeiro mandato a reverter, com a ajuda prestimosa do Bloco e do PCP, muitas das medidas tomadas pelo governo de Passos Coelho. Nessa altura foram tomadas medidas duras na sequência do descalabro em que o país foi deixado por um executivo do PS, liderado por Sócrates. Se o PS não tivesse empurrado o país para a beira do precipício não teria sido necessário tomar tais medidas, adoptadas na sequência aliás do pedido de resgate imposto pelo então Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, a 6 de Abril de 2011. Numa entrevista dada em Abril de 2015 à TVI Teixeira dos Santos contou que Sócrates não queria fazer o pedido de resgate nessa altura, preferindo esperar mais algum tempo para esse ónus não cair no seu Governo, mas sim do seguinte, que saísse das eleições legislativas de Junho de 2011 que já adivinhava iria perder. Mas a verdade é que a bancarrota foi provocada por governos do PS, assim como o pedido de resgate às instituições financeiras internacionais. Falo disto porque o PS e os partidos à sua esquerda mostram uma amnésia localizada neste período da história e tentam convencer as pessoas que todos os males começaram quando o PS perdeu eleições. Podia recomendar auxiliares de memória ao Dr. António Costa, que funcionassem aliás em duas vertentes: em relação à forma como o PS governou entre 2005 e 2011 e em relação às reversões e promessas que o primeiro Governo de Costa com a geringonça então fez. E digo isto porque nesta semana soube-se que o Governo procura comprador para a TAP, depois de ter voltado a assumir o seu controlo em 2016, fazendo juras de eterno amor que culminaram na sua efectiva nacionalização. Se a ideia era voltar a privatizar teria sido mais útil dispensar-nos de pagar os 3,2 mil milhões que os contribuintes foram forçados a lá meter. Portanto, a Costa já não chega reverter as decisões de Passos, a ânsia é tanta que até reverte as suas próprias decisões. E o mesmo se passa com o caso da semana, o misterioso plano sobre as pensões de reforma, que afinal, e contrariando todas as juras da geringonça, se anuncia agora que sofrerão cortes num futuro próximo. A síntese podia ser esta: à falta das reformas estruturais, que não faz, António Costa faz reversões pontuais com truques de ilusionista, tapando parte da verdade. Lembrem-se disto nas próximas eleições.



SEMANADA - Metade dos obstetras do SNS tem mais de 50 anos; as aulas arrancaram coim mais de 60 mil alunos sem professor; 59% dos professores em falta estão nos distritos de Lisboa e Setúbal;  no último ano lectivo a PSP apreendeu 75 armas dentro ou junto a escolas; desde Janeiro registaram-se mais de 100 mortes por afogamento;  90 em cada 100 famílias subscreve serviços em pacote dos operadores de comunicação, num total de 4,5 milhões de clientes, mais 3,5% que no ano passado; em 2021 a PSP expulsou 20 polícias e suspendeu 108; as importações de carros usados subiram em Agosto 46%, em relação ao mesmo mês do ano passado; o Governo pretende incorporar no Imposto Sobre Produtos Petrolíferos a Contribuição do Serviço Rodoviário, uma taxa portuguesa considerada ilegal pelo Tribunal de Justiça da União Europeia; os dados pessoais de 115 mil clientes da TAP foram divulgados pelos hackers que assaltaram os sistemas da companhia, que na altura havia garantido que não tinha havido violações de confidencialidade; o Ministério da Defesa português foi vítima de hackers que, na sequência do ataque, divulgaram documentos secretos da NATO a que tiveram acesso; o Processo Especial de Viabilização, criado durante a pandemia, teve 22 empresas interessadas mas apenas sete foram apoiadas; segundo a Marktest na semana de 5 a 11 de setembro, os sites de Informação foram os mais procurados e receberam 23 milhões de visitas, tendo sido seguidos pelos sites de TV, com 15 milhões e pelos de Desporto e Automóveis, com 12 milhões.



O ARCO DA VELHA - A Câmara de Idanha-a-Nova comprou no fim de 2020, por 260 mil euros, um edifício que já era seu e que tinha sido comprado em 1998.

 

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QUADROS EM ECRÃS - A surpresa e o inesperado fazem parte do percurso artístico de Ana Jotta e muitas vezes as suas obras parecem encenações, talvez influenciadas pelos anos em que trabalhou no teatro, como cenógrafa. Desde a semana passada Ana Jotta apresenta a sua nova exposição, “September Song”  na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 19). Desta vez a surpresa que Ana Jotta apresenta reside no material de suporte das suas pinturas, ecrãs de projecção portáteis (na imagem). Assim, em vez de os quadros estarem nas paredes, estão dispostos no meio do espaço da galeria e as pessoas circulam entre eles, o que cria uma forma diferente de ver as obras. Em “September Song” Ana Jotta usa os ecrãs para projectar a sua visão da paisagem que a rodeava enquanto fazia estas obras, num espaço fora da cidade, bem diferente do ateliê onde normalmente trabalha. No site da galeria, miguelnabinho.com , podem ver as onze pinturas da exposição, assim como uma entrevista com Ana Jotta, filmada no próprio local onde os quadros foram feitos. O outro destaque da semana vai para a quarta edição do IMAGO LISBOA Photo Festival, que este ano  gravita em torno da ideia de "Distúrbios''. A programação central deste festival de fotografia apresenta trabalhos  de 23 autores – 6 deles portugueses – que observam e exploram a ideia do distúrbio. O IMAGO LISBOA apresenta até 8 de Outubro nove exposições a decorrer em diversos locais da cidade de Lisboa: MNAC, Sociedade Nacional de Belas Artes, Galeria de Santa Maria Maior, IPCI, Museu da Água, Galeria Imago Lisboa, SALTO, Imago Garage e Carpintarias de São Lázaro.

 

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UMA VIDA NO MÉDIO ORIENTE - Henrique Cymerman é um jornalista que ao longo da carreira se tem dedicado a observar o Médio Oriente. O seu novo livro, “Conversando Com O Inimigo- do Porto a Abu Dhabi via Telavive” é um registo autobiográfico da sua experiência, um relato da vida, onde fala da infância, da decisão de emigrar para Israel, do conflito israelo-árabe, de conspirações internacionais que testemunhou e das conversas com o Papa Francisco, que lhe concedeu a primeira entrevista a um meio de comunicação não pertencente à religião católica, e que  em 2013 o nomeou “Anjo da Paz”. Nascido no Porto, descendente de uma família judia que chegou a Portugal em 1926, Henrique Cymerman, que os portugueses estão habituados a ver como correspondente da SIC em Israel, onde está radicado desde o final da década de 1970, apresenta-nos um retrato de quem vive numa região em conflito. O livro conta como chegou à fala e entrevistou personalidades como Yasser Arafat, Mahmoud Abbas, o fundador do Hamas, Ahmed Yassim e diversos outros líderes da organização, entre os quais o actual,  Ismail Hanie. O livro detalha ainda como os encontros decorreram e em que circunstâncias, incluindo as entrevistas que fez a Osama Bin Laden,  a líderes do Daesh ou ao líder da Jihad Islâmica na Palestina. Acusado de poder ser espião por uns, elogiado pelo seu trabalho de jornalista e entrevistador  por outros, Henrique Cymerman escreveu um relato da sua vida, bem sintetizado no título: “Conversando Com o Inimigo”.

 

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SUPER QUARTETO - Provavelmente está encontrado um dos melhores discos de jazz do ano. Chama-se “Long  Gone” e reagrupa os membros do lendário quarteto que em 1994 gravou “MoodSwing” e que, além do saxofonista Joshua Redman, inclui Brad Mehldau no piano, Christian McBride no baixo e Brian Blade na bateria. O quarteto voltaria a reunir-se em 2020 para a gravação do álbum “Round Again” e agora surge “Long Gone” com seis temas que evidenciam o talento de cada um dos músicos mas, sobretudo, a forma como tocam em conjunto. Posto isto deve dizer-se que o saxofone de Joshua Redman ocupa na maior parte dos temas o lugar principal, nomeadamente na faixa de abertura “Long Gone” e em “Disco Ears”, onde o diálogo com o piano de Mehldau é a demonstração do entendimento que existe entre os dois músicos. “Statuesque” é outro dos temas marcantes, um exemplo de uma bela composição, assim como “Kite Song”, um momento surpreendente cheio de ritmo e melodia.  Mas apesar dos longos solos de Redman este é um disco partilhado e feito em conjunto, com a delicadeza das intervenções de Mehldau, a subtileza da discreta mas presente bateria de Blade e a eficácia do baixo de McBride. A faixa final é um registo ao vivo de um dos temas marcantes de “MoodSwing”, “Rejoice”, uma bela despedida para este disco. Edição Nonesuch, disponível em streaming.

 

TPC - Pensem em beringelas. Depois pensem em forno. Adicionem ao pensamento molho de tomate. Tenham à mão mozarella fresca. Passemos então aos detalhes, seguindo uma receita da deliciosa newsletter El Comidista do jornal El País. Para o molho de tomate devemos ter uma lata de tomate pelado, cebola, uma cenoura pequena, louro, um dente de alho, sal e pimenta e, claro azeite. O primeiro passo será um refogado leve de cebola e alho, ao qual deve ser adicionada a cenoura ralada. Só depois entra o tomate. É nessa altura que se deve adicionar sal e pimenta a gosto, juntamente com a folha de louro. Agora coloquem o tacho, tapado, em lume muito brando durante uma hora. Aproveitem para preparar as beringelas, de preferência não muito grandes. Devem cortá-las em tiras grossas, de pouco mais que 1cm, mas não levem a faca até ao fundo, deixem as fatias presas umas às outras em baixo, ficando a beringela como um harmónio. Salguem entre os cortes e deixem escorrer durante uns 20 minutos. No final passem por água abundante para retirar o excesso de sal e sequem bem com um pano.  Entretanto o forno deve estar pré-aquecido a 180º. O passo seguinte é cortar a mozarella em rodelas de dimensão média e colocar intercaladas nas fatias da beringela - em todas ou de duas em duas, dependendo do gosto de cada um. Depois é colocar a base do molho num recipiente de ir ao forno com as beringelas por cima - pode temperar com oregãos se gostar. Tapar com folha de alumínio e colocar no forno meia hora. Ao fim desse tempo tirar a folha de alumínio e deixar mais meia hora. Se quiser pode pôr um pouco de pão ralado por cima das beringelas para ganharem mais cor no forno. Bom apetite.

 

DIXIT - “A credibilidade, quando se perde, é um caminho sem retorno. António Costa perdeu-a. E já não volta. Ser hábil não é suficiente para ser credível” - Rodrigo Saraiva

 

BACK TO BASICS - “A guerra resume-se a isto: fazer entrar um pedaço de metal num pedaço de carne” - Jean Luc Godard

 

 




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A ESPIRAL  - Quando olhamos para os dados da evolução da inflação em Portugal constatamos um pico na segunda metade dos anos 70, que se prolonga com valores ainda altos nos anos 80 e que só a partir dos anos 90 começa a baixar. Em 1993 o valor da inflação média andava muito perto daquele que já registamos este ano, acima dos 6%. Serve isto para dizer que há quase 30 anos não tínhamos a experiência de viver com esta situação. Ou, se quisermos colocar as coisas de outra forma, há três décadas que empresas, sistema financeiro e cidadãos não se confrontavam com a incerteza que esta situação traz. Podemos ver as coisas noutro ângulo: há várias gerações de gestores, políticos e consumidores que não sabem o que é lidar com uma situação de inflação como esta que estamos a viver. Por mais que tenham estudado o mecanismo da inflação não conhecem a incerteza real e psicológica que provoca. Quem hoje está à frente do Estado e das empresas não está habituado, e muitas vezes não tem conhecimentos nem experiência, para reagir às brutais alterações que a inflação provoca a vários níveis da sociedade. Essa falta de saber e experiência é a face mais perigosa deste período que estamos a passar. Sentimos o improviso nas decisões, o receio nas medidas tomadas, a demora na reacção. E sentimos, também, uma falta de mecanismos de controlo que possam evitar que a espiral dos preços se descontrole. Uma simples visita a um supermercado ou a uma grande superfície mostra como os preços dos mais variados produtos estão a subir muito acima dos valores públicos da inflação. Nalguns casos, em bens não essenciais é certo, essa subida atinge valores muito altos. Existe a sensação de que o momento está a ser aproveitado para estabelecer preços de uma forma especulativa e não controlada. A inflação, como alguns estão agora a descobrir, produz efeitos colaterais que condicionam a vida das pessoas, obrigam a alterar comportamentos, vai acelerar todos os problemas que existem na sociedade portuguesa. Governo e empresas estarão preparados para isto?

 

SEMANADA - A execução do PRR "foi inferior a um décimo do que deveria ser" em julho e agosto, afirmou o Fórum para a Competitividade; o IVA da electricidade e do gás  podia ter descido de 23 para 6% desde Abril, quando Bruxelas o autorizou, mas o Governo não quis fazer essa redução e nem agora a tornou generalizada; a energia e os combustíveis absorvem 17% do orçamento das famílias com menores rendimentos; em Julho o INE registou 183 mil turistas vindos dos Estados Unidos, o maior número de sempre no período de um mês; especialistas defendem que para salvar a floresta 60% do pinhal tem que desaparecer; o grande incêndio da Serra da Estrela parou à entrada de Manteigas de forma natural, junto aos carvalhos e à floresta folhosa, que é de difícil combustão, ao contrário do pinhal; cinco anos depois dos incêndios que devastaram o pinhal de Leiria o mato seco vai-se acumulando, as espécies invasoras ganharam terreno e há árvores plantadas que já morreram; o diploma da reorganização da Protecção Civil, que tutela o combate aos incêndios florestais, está na gaveta há três anos; apenas 2% dos portugueses estão filiados em partidos políticos e, destes, quatro em cada cinco estão inactivo; PS e PSD têm a maioria dos seus militantes na função pública; o último relatório do Grupo de Estados Contra a Corrupção, um organismo do Conselho da Europa,  sublinha que em Portugal 12 das 15 recomendações não foram integralmente cumpridas e afirma que os juízes são os principais culpados da situação que se vive.

 

O ARCO DA VELHA - Por cada 10 euros que o Governo prometeu investir no Serviço Nacional de Saúde apenas foram gastos 1,2 euros nos primeiros seis meses do ano, o que significa que o investimento na saúde está a cair 33%.

 

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FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS - O destaque desta semana vai para uma exposição de fotografias de Moira Forjaz, “Ilhéus”, patente no Mira Forum até 22 de Outubro. Moira Forjaz, natural do Zimbabwe, foi para Moçambique em meados dos anos 70, fez parte do grupo que fundou a Associação Moçambicana de Fotografia, trabalhou com nomes como David Goldblatt e Ricardo Rangel e foi uma das fotógrafas oficiais de Samora Machel. Depois, durante alguns anos viveu em Portugal e chegou ter uma galeria em Lisboa. O trabalho agora exposto foi fotografado na Ilha de Moçambique, onde vive desde 2012. Este projecto é baseado em ilhéus idosos que deixaram entrar a fotógrafa na sua intimidade, contando as suas vidas na primeira pessoa. As mulheres da Ilha vestiram as suas melhores capulanas e assim foram fotografadas e deste trabalho resultou o livro “Ilhéus”, publicado em 2019. A exposição patente no Mira Forum é baseada nesse livro e algumas destas fotografias foram expostas em Veneza, no Pavilhão de Moçambique, em 2019. O Mira Forum fica na Rua de Miraflor 155, Campanhã, Porto, e está aberto de quarta a sábado entre as 15 e as 19h00. Outro destaque vai para o Museu do Neo Realismo, em Vila Franca de Xira onde Jorge Calado apresenta uma nova montagem da exposição “A Família Humana”, integrando uma centena de novas fotografias, entre as quais trabalhos de alguns dos maiores nomes da fotografia, como Walker Evans, Alfred Eisenstaedt, David Seymour, David McCullin e Claude Jacoby. Pela primeira vez nesta colecção estão representados trabalhos de portugueses: Rita Barros, João Mariano e Pedro Bello. A colecção, que tem sido desenvolvida por Jorge Calado, já tem cerca de meio milhar de fotografias de duas centenas de autores de várias nacionalidades.

 

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NA HISTÓRIA DE PORTUGAL - Bernardo Futscher Pereira é um experiente diplomata português com vasta experiência em diversos cargos nacionais e internacionais e tem-se dedicado a estudar a política externa portuguesa e a nossa história diplomática, tendo escrito anteriormente “A Diplomacia de Salazar (1932-1949)” e “Crepúsculo do Colonialismo (1949-1961)”. Actualmente é embaixador em Rabat e  o seu novo livro,  continua os seus trabalhos anteriores, completa  a trilogia dedicada à História diplomática do Estado Novo e é um precioso contributo para melhor conhecermos a nossa História recente: “Orgulhosamente Sós, A Diplomacia em Guerra (962-1974)”. Na apresentação deste novo volume Bernardo Futscher Pereira sublinha: “ Este livro é uma crónica do último acto de uma odisseia que durou 560 anos, desde a conquista de Ceuta em 1415, até à evacuação de Luanda, em 1975. É a história de uma resistência inglória, quixotesca, por vezes criminosa, conduzida com teimosa persistência, a um processo inexorável de mudança. Essa resistência merece ser analisada para explicar a longevidade do Estado Novo e como conseguiu, de 1961 a 1974, conduzir uma guerra em três frentes numa situação de crescente isolamento internacional”. Este volume começa com a evocação da invasão de Goa em 1961, um ano terrível para o regime, o ano em que a guerra em Angola começou. A escrita de Bernardo Futscher Pereira é aliciante, factual mas não enfadonha, bem ritmada, permitindo estabelecer relações entre acontecimentos, fazendo citações da época e procurando interpretar os posicionamentos políticos. Tais como os volumes anteriores desta trilogia “Orgulhosamente Sós - A Diplomacia Em Guerra” é uma obra fundamental para a compreensão dos anos que antecederam o 25 de Abril de 1974. Editado pela D. Quixote.

 

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A GRANDE MÁQUINA CANTADA- A Garota Não chama-se Cátia Oliveira, trabalha na Câmara Municipal de Setúbal com programas para a juventude, fez rádio, escreveu e aprendeu viola quando era adolescente. Já tinha passado dos 30 anos quando gravou o seu primeiro disco, “Rua das Marimbas”. Agora lançou “2 de Abril”, o nome do bairro de Setúbal onde nasceu e cresceu, onde foi ouvindo as músicas que se cruzavam no ar, melodias ciganas, ritmos africanos, rap suburbano. No meio de tudo isto nasceu um estilo próprio, uma identidade musical rara de encontrar hoje em dia na música portuguesa - mais dada a imitações do que à descoberta criativa de novos caminhos. E esse é o grande trunfo de A Garota Não, ao conseguir afirmar-se de forma diferente, com um grande sentido do que é uma canção. Neste “2 de Abril”, há 20 temas com títulos que vão do inicial “Canção sem final” até “Manancial de livre pensamento” culminando numa homenagem: “Canção a Zé Mário Branco”. Pelo meio há uma música de Fausto, a evocação recorrente de Zeca Afonso, sobretudo na escrita das letras das canções. A sua voz e a sua forma de cantar são invulgares, as canções são histórias que ela vai narrando, episódios do quotidiano, observações sobre o que se passa à sua volta - ouçam por exemplo a “A Grande Máquina”, uma prova de vida. No disco A Garota Não tem um leque de colaboradores que vão de Ana Deus a Chullage, passando por Maria Roque e Francisca Camelo e a produção é de Sérgio Mendes. Vale a pena ouvir - está nas plataformas de streaming.

 

DE VOLTA AO PEIXE FRESCO - Depois de passar uns dias do lado de lá da fronteira regresso a Portugal e, no primeiro restaurante onde me sento, em Vila Real de Santo António, dirigem-se-me simpaticamente em espanhol. Sorri e respondi em português - mas na realidade grande parte da clientela era espanhola. E, desta, uma enorme percentagem escolhia um dos vários pratos de bacalhau propostos na lista, que aliás tinha uma secção destacada dedicada ao fiel amigo. Prosseguindo na estatística não deixei de reparar que uma boa parte dos espanhóis que escolhiam bacalhau, mostrando uma grande divergência com a Dra. Graça Freitas, nossa estimada Directora Geral da Saúde,  optava por  Bacalhau à Brás. Deixando para trás o bacalhau devo dizer que a melhor surpresa que tive em Vila Real de Santo António foi o Sem Espinhas Guadiana, na Avenida da República 56. Fui lá depois de ter tentado, sem êxito ir ao tão recomendado Cantarinha do Guadiana, sempre cheio. Mas não tive razão de queixa. No Sem Espinhas provei umas honestíssimas amêijoas à Bulhão Pato e um robalo do mar bem grelhado, fresco e saboroso. Os clientes eram maioritariamente portugueses, o serviço foi escorreito e simpático. Aqui está um sítio onde voltarei com gosto.

 

DIXIT - “É tão estranho vivermos num país onde a principal preocupação é a de gastar dinheiro, mas nunca ou quase nunca de fazer dinheiro, criar negócios, desenvolver actividades e, numa só palavra, criar riqueza” - António Barreto


BACK TO BASICS - Quando alguma coisa deixa de ser controversa, deixa também de ser um assunto interessante - William Hazlitt

 

 




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GOVERNO COM FALTA DE SAÚDE

por falcao, em 02.09.22

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A DOENÇA DA SAÚDE - Quem pensar que é o Ministério da Saúde quem manda no SNS está muito enganado. Quem manda é o Ministério das Finanças, de braço dado com o Primeiro-Ministro, aliás como em muitos outros sectores. O grande problema do SNS vem da falta de condições para médicos e enfermeiros, vem da dificuldade em fazer novas admissões, em preencher os quadros, em pagar condignamente às pessoas e em ter equipas em número suficiente. Quem está a dar cabo do SNS é quem está sentado no Terreiro do Paço, a conversar com S. Bento -  quem está sentado no Ministério da Saúde apenas faz figura de corpo presente e não consegue ter autonomia para nada. Quando uma Ministra emite um comunicado a demitir-se de madrugada, e o Primeiro Ministro só se pronuncia sobre o sucedido muitas horas depois, torna-se evidente que  alguma coisa não está a correr bem para os lados do Governo. Com nem sequer meia dúzia de meses de vida, esta maioria absoluta mostrou mais um sinal de desorganização, cansaço, problemas de comunicação. O que levou Marta Temido a demitir-se é a falta de condições para conseguir reformar o funcionamento do sector e, como se tem visto, este é o problema central do Governo: não consegue reformar o funcionamento do que está mal. Em Janeiro de 2015, antes de chegar ao Governo, António Costa acusou o PSD de ter rompido com o estado social e permitido o caos nas urgências hospitalares. Mais de sete anos depois vê-se o efeito da governação do PS: agravou ainda mais os indicadores do Serviço Nacional de Saúde. Costa diz que quer  “prosseguir as reformas em curso tendo em vista fortalecer o SNS” mas os seus anos de governo demonstram o contrário. 

 

SEMANADA - Segundo a  Direção-Geral de Orçamento até Julho o Estado amealhou 28.156,1 milhões de euros em receita fiscal, quase mais 5 mil milhões de euros do que no mesmo período do ano passado; a inflação em Agosto foi de 9%; a taxa de referência para a atualização das rendas em 2023 já está nos 5,43%; a Pordata recordou que, com a inflação neste nivel, quem recebe um salário de mil euros tem um poder de compra de apenas 910€; 90% dos terrenos rurais das regiões norte e centro não estão cadastrados; o Presidente da Liga de Bombeiros criticou a forma como foi combatido o incêndio na Serra da Estrela e afirmou que houve grupos de bombeiros que estiverem 12 horas sem missão atribuída; a quantidade de lixo recolhido por dia em Lisboa tem vindo a aumentar a atinge já as 990 toneladas; em 2021 os partidos declaram ter 532 funcionários no total e os seus gastos com pessoal foram de cerca de oito milhões de euros; o PCP é o partido com maior número de funcionários, mais de 300, o PS tem 110 e o PSD declarou 70; o Bloco despediu metade dos que tinha antes da derrocada eleitoral que sofreu; o número de motoristas TVDE activos durante este verão aumentou 30% em relação ao início do ano; segundo a Pordata Portugal é o 2º país da União Europeia com o índice de envelhecimento dos professores dos ensinos básico e secundário mais elevado; Portugal é o 21º país da UE em termos de PIB per capita da União Europeia, mas em 2000 estava no 15º lugar; em 2021 as autoridades policiais registaram cerca de 300 mil crimes, 31 mil dos quais identificados como violência doméstica e 82 crimes de homicídio.

 

O ARCO DA VELHA - O Instituto Nacional de Estatística (INE) e o regulador da energia têm leituras distintas sobre a evolução dos preços da electricidade, em Julho: o INE identificou um aumento de 10,3%, a ERSE diz que os tarifários baixaram.

 

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IDEIAS VISUAIS - Até 10 de Setembro ainda pode ver na Galeria Vera Cortês a mais recente exposição de João Louro, “Thylacinus Cynocephalus”, que agrupa um conjunto de obras recentes do artista, abrindo novos caminhos na sua abordagem pessoal da pintura (na imagem). João Louro nasceu em Lisboa em 1963, onde vive e trabalha. Estudou arquitetura na Faculdade de Arquitetura de Lisboa e Pintura na Escola Ar.Co. O seu trabalho engloba pintura, escultura, fotografia e vídeo. Foi o representante de Portugal na Bienal de Veneza de 2015, com a exposição “I Will Be Your Mirror | Poems and Problems”. Na folha de sala desta exposição Joshua Dekter, um historiador de arte, sublinha: “O trabalho de João Louro, e as muitas formas que pode tomar – pinturas, esculturas, instalações, objetos, livros –, está impregnado de ideias e referências da história da arte, do cinema, da literatura, da filosofia, da linguística, da política, e da ciência. Louro aborda a arte como uma plataforma através da qual é possível explorar aquilo que existe para além do universo da arte. Desta maneira, ele participa numa longa tradição de artistas que procuraram reinventar a linguagem das artes visuais minando outras disciplinas culturais.” . Outra sugestão: no espaço Fidelidade Arte, no Chiado, está patente até 16 de Setembro a exposição “Limiar da Trilogia - Ato 3”, com trabalhos em vídeo, instalação e desenho de Joana Ramalho, Filipe Cerqueira e Zé dos Castelos. A exposição está centrada na ideia de Limiar: o limiar social, o limiar criativo, o limiar da percepção humana, todos eles presentes na relação do indivíduo consigo mesmo ou com o outro. A curadoria de “Limiar da Trilogia” é do Manicómio, um espaço de criação e galeria de Arte em Portugal dedicada exclusivamente a artistas que experienciam ou já experienciaram doença mental. 

 

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A HISTÓRIA DE UM RAPAZ SONHADOR - Carlos Alberto Gomes Monteiro é mais conhecido pelo nome de Carlos Tê, com que assinou grande parte das letras das melhores canções de Rui Veloso. Na época, início dos anos 80,  conseguiu introduzir o relato do quotidiano e o retrato de uma época na música popular portuguesa - e isso não é coisa pouca. Escreveu para muitos outros artistas, assinou colunas em jornais, escreveu uma peça de teatro, romances e contos. E agora volta de novo ao romance com “Arquibaldo”, Carlos Tê fala sobre uma sociedade apressada, sem memória, num livro em que sublinha precisamente a necessidade de lembrar e recordar. Depois de em 1999 ter lançado “O Vôo Melancólico do Melro” Carlos Tê dá a conhecer nestas páginas um protagonista, Francisco Frade,  que é uma mistura de «cavalheiro e impostor», cujos sonhos eram escrever banda desenhada e tocar saxofone, mas que acabou por ser tornar assistente social. Francisco Frade trabalha então como assistente social em bairros difíceis, na periferia do Porto. Rodeado de pessoas com quem trabalha e de mulheres com quem fugazmente se relaciona, ele sente abrir-se aquilo que o próprio designa buraco da realidade que, pouco a pouco, o vai consumindo. Enquanto o seu alter ego Arquibaldo – um super-herói da infância – se mantém à espreita, os fantasmas que o perseguem não lhe dão descanso. Arquibaldo tem existência numa realidade paralela e Francisco Frade, acossado, faz uma peregrinação interior que o levará às suas raízes, em busca das respostas que não encontra no seu dia-a-dia. É uma personagem - e uma história - que parece saída de uma das suas canções. No fim, Frade  conclui a páginas tantas, que  «confundir as coisas é o maior problema do nosso tempo». Edição Porto Editora.

 

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JAZZ EM QUARTETO - Julia Hulsmann é uma pianista de jazz alemã muito marcada por uma adolescência a ouvir música pop e a ler poesia. A pop abriu-lhe o caminho para descobrir o jazz e depressa começou a tocar o que ouvia nos discos de Chick Corea, Bill Evans e muitos outros. Estudou piano e começou a compôr, fortemente inspirada pela poesia que foi lendo - a influência da poesia e da literatura nas suas composições é uma característica que é sempre ressaltada por quem analisa a sua obra. A gravar para a ECM, Julia Hulsmann lançou agora “The Next Door”, em que surge com o mesmo quarteto que já gravara, em 2019, “Not Far From Here”, e que além da pianista inclui o saxofonista Uli Kempendorff, Marc Muellbauer no baixo e Heinrich Köbberling na bateria. Os temas são quase todos originais, compostos por Julia Hulsmann e pelos seus companheiros de quarteto. A excepção é uma versão arrebatadora de um tema de Prince, “Sometimes It Snows In April”. Este álbum é demonstrativo da influência que o jazz dos anos 60 continua a exercer nestes músicos, dando-lhes terreno para uma grande unidade musical, ao mesmo tempo que possibilita solos onde o talento de cada um encontra expressão. E assim este quarteto é uma das melhores formações actuais do jazz europeu.


TAPEAR - Uma semana por terras da Andaluzia resulta em boas experiências gastronómicas, desde os sítios mais simples até aos restaurantes mais elaborados. Em todos encontrei sorrisos, casas cheias e animadas, na maioria por espanhóis, boa confecção, bom serviço e preço que não é muito diferente do que encontramos em Portugal. Os destaques vão para as mil formas de tratar a beringela, desde cortada em finos troços bem fritos, às supremas berenjenas califales, provadas em Córdoba, pedaços largos cobertos de delicada polme com uma redução de vinho doce de Pedro Ximénez e sementes de sésamo. Em Málaga  descobri ricas saladas russas bem diferentes das portuguesas, mais ricas, com menos batatas, mais legumes abundantes pedaços de gambas e os incontornáveis pimentos. Mas também reinvenções de tapas com coisas tão simples como lombos de sardinha fumada sobre um pão tostado barrado a tomate, filetes de biquerones anchovados saborosíssimos,  uma salada de vieiras e lagostins salpicada de caju ou almôndegas de rabo de boi guisadas e, por todo o lado, deliciosos croquetes de presunto para entreter  a fome no início da jornada. Na memória ficou-me também a simplicidade de cogumelos (setas) grelhados, servidos com pedaço de excelente presunto cortado fino e pimentos padrón. E sempre, ao chegar á mesa, as azeitonas - que boas e bem temperadas…

 

DIXIT - "Gorbachev foi um dos principais responsáveis pela destruição da União Soviética e a restauração do capitalismo na Rússia, quando o que se impunha era o aperfeiçoamento do socialismo" - comunicado do PCP sobre a morte do ex-líder soviético.

 

BACK TO BASICS - “Há quem acredite que a parte mais difícil desta profissão é derrotar a página em branco, quando o que aterroriza é defender a página escrita contra quem quer apagá-la” - Sergio del Molino no El País

 




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