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O CAOS - Crónica de um pesadelo: um amigo meu queria ir a Veneza. Tinha combinado ir com outra pessoa. Compraram bilhetes no mesmo dia para uma partida na quinta-feira da semana passada. Sexta feira ele recebe um aviso da TAP a dizer que o seu voo tinha sido cancelado e que só partiria no Domingo. A outra pessoa recebeu também um aviso, mas a marcar a viagem para sábado. Ambos tinham o hotel marcado até quarta-feira desta semana. O meu amigo ficou aborrecido, teve que avisar o hotel, que já estava pago, mas preparou-se para sair domingo à tarde. No domingo recebeu um email, e não um SMS, que viu por acaso, onde a TAP avisava que afinal já não iria no domingo, mas sim na terça, sendo que a companhia sabia bem que ele tinha o regresso previsto para quarta. Portanto, o que tinha sido pensado como um fim de semana agradável, tornou-se num inferno de telefonemas e de desilusões. A TAP, na prática, queria obrigá-lo a trocar uma viagem de  quase uma semana por uma ida e volta em dias consecutivos. Não se preocupou com a situação da reserva do hotel, não teve o cuidado de dizer “pedimos desculpa”, limitou-se a colocar a pessoa perante um facto consumado. A pessoa com quem ele tinha imaginado ir a Veneza, e que já lá estava sozinha desde sábado à noite, recebeu na terça-feira um aviso da TAP a dizer que o voo de regresso de quarta tinha sido cancelado. Não lhe deram data alternativa de regresso. Eu sou capaz de compreender todos os problemas do tráfego aéreo na Europa, das greves, dos problemas do aeroporto de Lisboa, mas recuso-me a aceitar o mau tratamento que a TAP dá aos seus clientes, o  desrespeito que sistematicamente manifesta, as aldrabices que invoca como desculpas do que é só mau funcionamento. A coisa não é de agora, já vem de há mais tempo. É o sinal da destruição de uma marca, do aniquilamento da reputação de uma empresa. Recordo que o Estado é o dono da TAP - portanto temos uma empresa que é suposto prestar serviço aos cidadãos, financiada largamente com dinheiros públicos e que maltrata de forma sistemática quem a financia, por via dos impostos, e dos bilhetes que compra. Pergunto eu, usando uma citação: “ e não se pode exterminá-la?”.



SEMANADA - Segundo dados da Pordata de 2021, 16%  da população portuguesa não conseguia aquecer convenientemente a sua habitação; um em cada cinco universitários do Porto ainda não encontrou quarto para ficar; as residências públicas de estudantes no Porto e em Lisboa estão lotadas; o preço médio de um quarto para estudantes em Lisboa é de 400 euros mensais; os depósitos bancários em Portugal têm a segunda taxa de juro mais baixa da Europa; o alojamento local em Lisboa está 40% abaixo de 2019; segundo a Polícia Judiciária regista-se uma subida de homicídios na região de Lisboa e um aumento da violência dos gangues juvenis; em 2022 já morreram 22 mulheres vítimas de violência doméstica; os registos civis receberam quase 200 mil pedidos de nacionalidade em 2021; Portugal continua abaixo da média europeia no índice de igualdade de género; segundo a Marktest um em cada três utilizadores da internet em Portugal faz apostas on line; segundo a organização World Justice Project, Portugal caíu uma posição em termos do funcionamento do Estado de Direito, ocupando agora 0 27ºlugar a nível global e o 20º em termos europeus, sendo que uma quebra nas restrições aos poderes governamentais é a principal causa da situação; este mês quase 300 docentes deixam o sistema educativo por passarem à reforma, agravando o problema da falta de professores; há mais de oito centenas de medicamentos em ruptura de stocks em Portugal por problemas na sua produção devido a falta de matérias primas e problemas logísticos.



O ARCO DA VELHA - A Entidade para a Transparência, o organismo criado há três anos para fiscalizar os rendimentos dos políticos, ainda não tem data para começar o seu trabalho.

 

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UM OUTRO OLHAR - Até este domingo ainda pode ver no Museu do Traje no Lumiar, em Lisboa, a exposição “Viver A Sua Vida” que apresenta, com curadoria de Anabela Becho, quatro dezenas de fotografias de moda do francês Georges Dambier, que começou a publicar o seu trabalho na revista Elle, em 1952. Jorge Calado escreveu sobre esta mostra que “Viver a sua Vida” é uma exposição de imagens de modelos e trajes, mas não é propriamente uma exposição de fotografias. As provas são todas recentes, idênticas no grande formato e apresentadas regularmente sem grande interação mútua. A fotografia é a arte da escala e tem no seu carácter o problema de encontrar a dimensão certa. Senti a falta de algumas provas vintage, mesmo de imprensa, com os tamanhos que o fotógrafo pensou na ocasião e o envelhecimento, autoridade e carisma que a idade lhes confere.” Dambier, considerado um dos melhores fotógrafos de moda do século XX foi um dos vários convidados que vieram fotografar Portugal nos anos 50 (ver imagem), fazendo as suas fotografias de moda em diversos locais, ao ar livre  e não em estúdio, como na época era habitual. Outro destaque incontornável desta semana vai para a quinta edição do Drawing Room Lisboa, um projecto focado no desenho contemporâneo em papel, que decorre na Sociedade Nacional de Belas Artes até Domingo dia 30 e que inclui as  obras dos finalistas do Prémio FLAD de Desenho 2022, cujo vencedor será anunciado no decorrer da mostra. Estarão presentes quase três dezenas de galerias portuguesas e estrangeiras com obras de nove dezenas de artistas. Um bom momento para iniciar uma colecção.

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XEQUE-MATE - Se gostam de xadrez ou ficaram fascinados com a série “Gambito De Dama” que a Netflix tem no seu catálogo, podem agora ler um extraordinário pequeno romance, “Uma História de Xadrez", considerado como uma das grandes criações de Stefan Zweig, aliás a sua última obra - entregou o manuscrito ao seu editor, justamente um dia antes de se suicidar, em 23 de Fevereiro de 1942. O pequeno romance, de 80 páginas, permitiu ao austríaco  Stefan Zweig, nome maior da literatura europeia da primeira metade do século xx, escrever, pela primeira e única vez, sobre a guerra, a violência, o nazismo e o autoritarismo. O livro conta a história de Mirko Czentovic, um campeão mundial de xadrez que, a bordo de um transatlântico com destino a Buenos Aires, se entretém a derrotar os restantes passageiros. Mas  Czentovic descobre durante essa viagem que segue no navio um adversário à sua altura: o doutor B., um enigmático passageiro recém-libertado pelos nazis, que sobreviveu à prisão a projectar jogos de xadrez na sua mente. Do inevitável confronto entre os dois jogadores, nasce o empolgante relato de um jogo que coloca frente-a-frente a criatividade contra a impetuosidade e que expõe os traumas de um homem, mas também a sua capacidade de sobreviver, mesmo sob uma extraordinária pressão.  Desde a sua publicação, em 1944, dois anos após o suicídio do autor, a obra tem vindo a ser traduzida em todo o mundo e foi adaptada várias vezes ao cinema, cuja versão mais recente foi realizada no ano passado por Philipp Stölzl no filme The Royal Game. A edição em Portugal foi feita agora pela Guerra & Paz com tradução de Mónia Filipe.

 

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BLUES CLÁSSICOS- Sou um apaixonado por blues e Doug MacLeod é um dos nomes incontornáveis deste género musical - com duas dezenas de álbuns e mais de 300 canções (só interpreta temas que ele próprio compôs). Ao longo dos anos MacLeod traçou uma carreira caracterizada por temas com palavras incisivas, narrativas na melhor tradição dos blues, misturando sentimento com emoção e a vida quotidiana, frequentemente tomando posição sobre o estado da América. “A Soul To Claim", publicado este ano, é, ao longo dos seus 12 temas, um bom exemplo disso mesmo. Doug MacLeod toca guitarra e canta, Dave Smith assegura o baixo numa perfeita secção rítmica com o baterista Steve Potts, com o fundo envolvente do teclista Rick Steff, muitas vezes em diálogo com a guitarra. Todos os músicos são experientes bluesmen, criados na escola de Memphis. MacLeod comunica de forma fácil, seja quando fala da situação actual, como em “Money Talks”, ou quando aborda a acção dos políticos em “Dodge City”, ou quando conta histórias como em “Only Porter At The Station” ou “Dubb’s Talking Disappointment Blues” ou “Somewhere On A Mississipi Highway”, e até na forma como conta as emoções em “There Is Always Love”. E num dos temas, “Where Are You?”, o ex-Marine Doug MacLeod deixa interrogações sobre o tratamento que no seu país é dado aos soldados norte-americanos, veteranos de várias guerras. Disponível nas plataformas de streaming.

 

OS COGUMELOS- Muita gente está habituada a olhar para os cogumelos como um acompanhamento para bifes e hambúrgueres. Sugiro que encarem a coisa de outra forma e deixem de olhar para eles como acompanhamento. Para isso,  em vez das latinhas de conserva com os cogumelos laminados, procurem o produto original, de preferência os grandes cogumelos Portobello, disponíveis nos supermercados. São carnudos, saborosos e uma bela base para um jantar simples, Experimentem considerar dois por pessoa. Lavem-nos bem e coloquem-nos num recipiente de ir ao forno, com uma fina camada de azeite no fundo. Virem-nos ao contrário, campânula para baixo e o pé para cima, tempere-os com um fio de azeite, sal e pimenta, um salpico de vinho branco, e leve ao forno durante 20 minutos  a 180 graus. Entretanto preparem dois ovos por pessoa, batam-nos bem (com a varinha mágica melhor ainda) apenas temperados com sal e pimenta. Adicionem-lhes um pouco de água e voltem a batê-los. Quando os cogumelos estiverem prontos, numa frigideira larga deixem derreter uma colher de sopa de manteiga e depois deitam os ovos, tendo o cuidado de os ir mexendo sempre com uma espátula, Quando os ovos começarem a mudar para uma textura mais sólida apaguem o lume e dividam-nos pelos pratos. Retirem os cogumelos do forno, espremam um pouco de limão por cima e sirvam ao lado dos ovos com uma fatia de bom pão. Acompanhado por um  vinho tinto ainda fica melhor. Jantar simples, nutritivo e saboroso. A terminar umas notas nutricionais: os cogumelos são uma boa fonte de proteína, vitaminas do complexo B, antioxidantes e fibras.


DIXIT - “Quem é que manda na Europa? Você não conhece. No fundo é uma estrutura que se desenvolveu que ninguém elegeu” - Adriano Moreira


BACK TO BASICS - “A vida é o que nos acontece enquanto estamos ocupados a fazer planos”- John Lennon

 




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publicado às 11:00

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ACTIVISMO FRACTURANTE  - Nos últimos anos tudo mudou: a forma como vemos o que se passa à nossa volta, o que utilizamos para nos mantermos informados, a maneira de expormos os nossos pontos de vista, até o modo como as pessoas protestam, defendem e propagandeiam causas. A evolução digital tornou qualquer acto instantaneamente visível de forma global. Uma imagem forte nas redes sociais é mais impactante que um discurso. Um protesto com dez segundos de fama é mais eficaz que um cartaz. Vem tudo isto a propósito de dois factos ocorridos na semana passada, duas chamadas de atenção para a questão incontornável da crise climática. Nos dois casos, grupos de activistas, atacaram obras de arte expostas em museus. O primeiro caso ocorreu na Austrália, com uma obra de Picasso, à qual dois activistas colaram as suas mãos; e o segundo aconteceu em Londres quando duas activistas também ambientais atiraram com o conteúdo de latas de tomate para cima de uma das obras mais conhecidas de Van Gogh. Nos dois casos as pinturas estavam protegidas e não sofreram danos, mas o sucedido leva a uma questão: os grupos que usam estes métodos, justificando-os como o seu direito à desobediência civil, têm o direito de atentar contra bens culturais? Até onde vai o que os activistas podem fazer para propagandear as suas causas? É lógico apelar à protecção do ambiente enquanto se finge destruir um património cultural universal? Por muito que custe a alguns estas formas de activismo são uma nova forma de terrorismo, e baseiam-se no mesmo princípio, que é chamar a atenção através do choque que causam às pessoas e do impacto que conseguem ter em termos de comunicação. Este não é o caminho para um mundo melhor, por mais simpáticas que as ideias possam parecer. Quando estas acções são encaradas como um direito, alguma coisa está muito mal.

 

SEMANADA - A produção de azeite em Portugal este ano tem uma quebra superior a 60%; um estudo europeu indica que cerca de 16% das famílias portuguesas não conseguem aquecer a casa convenientemente no Inverno; com a pandemia a facturação dos bingos passou de 56 milhões para 13 milhões de euros por ano; o uso de drones para captar imagens subiu mais de 123 vezes em seis anos; foram autorizados mais de 420 voos nocturnos em Lisboa entre 18 de Outubro e 28 de Novembro; segundo o Banco de Portugal a subida da inflação nos seis primeiros meses do ano provocou uma queda de 1% no rendimento real disponível das famílias; segundo a Direcção Geral da Saúde 11,4% da mortalidade em Portugal deve-se a alimentação inadequada; até ao final de Setembro os portugueses gastaram em supermercados cerca de oito mil milhões de euros; os bebés de mães portuguesas no estrangeiro equivalem a 20% dos nascidos em Portugal; mais de um quinto dos portugueses entre os 15 e os 39 anos vivem fora do país, revela um estudo do investigador Rui Pena; 44% das  albufeiras portuguesas que estão com um nível de disponibilidade de água abaixo dos 40%; o crescimento médio de altura que os homens nascidos na década de 90 tiveram em relação aos seus pais foi de 3 cms; há 40 clubes de futebol investigados por tráfico humano e imigração ilegal; em Portugal o YouTube tem cerca de 700 canais com mais de 100.000 subscritores cada e 60 canais com mais de um milhão de subscritores cada e 72% dos criadores portugueses no YouTube conseguem exportar conteúdo para audiências internacionais ;

 

O ARCO DA VELHA - Só um terço dos condenados por abuso de menores cumpre pena de prisão, a maioria fica em liberdade com pena suspensa.

 

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DESENHOS ILIMITADOS - A Festa da Ilustração decorre mais uma vez em Setúbal até ao fim do corrente mês. Com curadoria de José Teófilo Duarte a edição deste ano, a oitava, é dedicada a João Paulo Cotrim, que esteve ligado ao evento e que foi um dos grandes divulgadores e editores da ilustração em Portugal. A Festa decorre em mais de uma dezena de locais e com um total de quase três dezenas de actividades, entre exposições, concertos e lançamentos de livros. De entre a programação destacam.-se as exposições de André Letria, , Alain Corbel, José de Lemos, Luís Cavaco, André Ruivo, Pedro Vieira, João Francisco Vilhena (com um projecto criado em parceria com João Paulo Cotrim) e Luís Miguel Gaspar, entre outros. A Festa tem um magnífico jornal com toda a agenda de eventos e sua localização e a imagem, que aqui se reproduz, é da autoria de André Letria.

 

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AS PLANTAS E A GEOMETRIA - Semana cheia de novas exposições. A Galeria Miguel Nabinho apresenta até final de Novembro onze aguarelas de Pedro Proença onde o tema são as plantas, e que leva um título completamente adequado: “História Natural”. Estas aguarelas, técnica muito usada por Proença, usam cores intensas e começam por encarar a realidade para depois percorrerem a fantasia, aquilo que Proença imagina ser o seu jardim muito particular onde as plantas ganham vida própria - uma visita à natureza que, de múltiplos modos, imita. Como ele próprio afirma, “às vezes faço flores como se fossem budas, ou budas como se fossem flores” (na imagem). Uma outra exposição que abriu na semana passada é “Achadouros”, de Bettina Vaz Guimarães, que fica na Galeria Cisterna (Rua António Maria Cardoso 27) até 29 de Dezembro. João Silvério, o curador da exposição, salienta que a artista trabalha a abstracção geométrica de tal maneira que as formas dos desenhos se unem umas às outras, como se fosse uma série que estabelece uma evolução. “A cor é uma matéria e simultaneamente uma ferramenta para desenvolver um processo de construção e, num mesmo momento, de desconstrução de formas abstratas e referências arquitectónicas” - sublinha João Silvério.  Entre os pequenos desenhos em papel, pinturas de maiores dimensões e objectos tridimensionais, aqui pode ver o trabalho de Bettina Vaz Guimarães, uma artista brasileira que divide a sua actividade entre S. Paulo e Lisboa. E, por último, na Galeria Ratton, por ocasião do centenário de Nuno Teotónio Pereira, Irene Buarque mostra a interpretação que fez, em painéis de azulejos, de desenhos feitos pelo arquitecto um edifício que então projectava  - esboços feitos durante um período em que Teotónio Pereira esteve preso em Caxias, devido à sua oposição ao regime que caíu em Abril de 1974.

 

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OS OUTROS EVANGELHOS  - Frederico Lourenço é um dos mais activos nomes entre os autores portugueses: ensaísta, tradutor, ficcionista e poeta, tornou-se notado pelo seu trabalho em torno de obras clássicas, com traduções a partir do grego e do latim. Assim, traduziu, nomeadamente, a Ilíada, a Odisseia de Homero, tragédias de Sófocles e Eurípides e, noutra área, peças de Goethe, Schiller e Arthur Schnitzler. O seu trabalho de tradução da Bíblia, em seis volumes, é hoje em dia incontornável. Agora, regressa com os “Evangelhos Apócrifos”, gregos e latinos, numa edição com a sua tradução e também comentários. Combatidos a partir do século IV e excluídos a partir do século XVI, os evangelhos apócrifos foram traduzidos para português por Frederico Lourenço a partir das línguas originais – latim e grego e reunidos numa edição bilingue já disponível nas livrarias.  «Para lá da minha admiração pessoal por Jesus, posso garantir que me esforcei por apresentar estes textos de maneira objetiva (para que cada pessoa forme a sua opinião), ao mesmo tempo que procurei respeitar a sensibilidade de leitores religiosos», escreve Frederico Lourenço na nota introdutória. Segundo o tradutor, “antes da imposição de uma doutrina única no século IV, o cristianismo caracterizou-se pela diversidade de pensamento. A par dos evangelhos tornados canónicos, circulavam também outros, atribuídos a nomes como Pedro, Tomé e Filipe, que davam a ver a figura de Jesus Cristo sob prismas diferenciados. O Evangelho de Pedro emprega uma palavra que nunca ocorre nos evangelhos canónicos: «discípula». No único evangelho cuja autoria é atribuída a uma mulher (o Evangelho de Maria), a pessoa a quem Jesus confia a sua doutrina não é Pedro nem João, mas sim Maria Madalena. Muitos destes textos permaneceram desconhecidos até à segunda metade do século xx e o seu conteúdo ainda suscita controvérsia. No entanto, os evangelhos apócrifos constituem um estímulo para repensarmos, hoje, o cristianismo de forma menos dogmática e com mais espírito de inclusão.” Edição de capa dura da Quetzal.

 

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MÚSICA & AMBIENTE - Brian Eno, 74 anos, quase três dezenas de álbuns, produtor, compositor, músico, defensor de causas ambientais. O seu novo disco chama-se “ForeverAndEverNoMore” e tem 10 canções em que podemos ouvir a voz de Eno - uma raridade. A sua anterior incursão pelo território da canção tinha sido há quase dez anos no álbum “Another Day On Earth” onde evidenciava já então as suas preocupações ambientais. “ForeverAndEverNoMore”  não é no entanto um manifesto político, é mais uma reflexão individual de Eno, através de palavras e música, construindo com os seus sintetizadores camadas de sonoridades que criam uma atmosfera que é ao mesmo tempo complexa e bela. Há um momento no disco onde se cruzam épocas, lenda e realidade: “Icarus or Bleriot”, onde Eno evoca o herói grego que voou demasiado perto do sol e queimou as asas, precipitando-se para a morte, e o sucesso de Louis Bleriot, o primeiro aviador a conseguir atravessar o canal da mancha de avião, em 1909. Mais do que um grito, o novo disco é uma contemplação dos problemas ambientais com que o planeta se debate.Mais do que peças de música ambiental estas canções são desabafos vocalizados, como “These Were Bells”, a voz de Brian Eno mais forte que o habitual, deixando perceber a indignação que sente pelo que vê à sua volta.  Numa das canções, “We Let It In”, uma canção marcada pelo aquecimento global e onde aparece a voz da filha de Eno, Darla, repetindo “Deep Sun”. Outra peça fundamental do disco é o guitarrista Leo Abrahams. Todas estas canções têm um sentimento de urgência e intimidade. Em Garden of Stars” Eno aborda o que vê à sua frente:  “These billion years will end/They end in me.”

 

DIXIT - “ Os socialistas têm diante de si um daqueles raros momentos da história em que não é difícil saber o que se deve fazer, em que se tem tempo para a obra, em que se possuem os meios indispensáveis. Será quase criminoso não aproveitar esse momento” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - Estou perfeitamente convencido que existe algures no Ministério dos Negócios Estrangeiros um sótão, escondido, onde os aprendizes de diplomatas  são ensinados a gaguejar” - Peter Ustinov

 

 

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publicado às 12:32

CRÓNICA DE UM DESASTRE ANUNCIADO

por falcao, em 14.10.22

 

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COMO HÁ-DE A ECONOMIA CRESCER?  - Repetidamente temos notícia de que a execução dos apoios previstos numa variedade de fundos fica muito aquém do desejado. E repetidamente ouvimos candidatos a financiamentos queixarem-se da burocracia, da demora, por vezes até do desinteresse dos serviços em viabilizarem a execução de projectos que inclusivamente estão aprovados. O caso do agricultor Luís Dias, que teve que fazer uma greve de fome à porta do Primeiro Ministro, para ser ouvido, é exemplar. Aqui vai o resumo: o pedido foi feito em março de 2013, foi despachado positivamente um ano e meio depois, em Novembro de 2014, momento a partir do qual foram feitas, já em 2015, exigências mais tarde consideradas ilegais. Em 2019 foi reconhecida ao agricultor razão nas suas queixas e em 2021 o apoio contratado ainda não tinha sido integralmente pago, situação que se foi arrastando até hoje. Uma auditoria realizada depois de queixas à Provedora de Justiça reconhece erros mas considera que a sua responsabilidade está prescrita. Em resumo : um projecto que demorou ano e meio até ter um parecer positivo, levou meia dúzia de anos, muitas reclamações e duas greves da fome a ser pago no total acordado. Isto é o retrato do funcionamento do Estado: abuso, prepotência, falta de diálogo com os cidadãos. O Estado e muitos dos seus serviços não entendem um princípio básico: os cidadãos são simultaneamente clientes e fornecedores do Estado. Merecem ser bem tratados. Os seus projectos de desenvolvimento da economia, quando são aprovados, devem ser acarinhados, cumpridos, estimulados. Nada disto se passou. E o país que temos é este, o que rejeita o desenvolvimento da economia e o reforço do Estado. Assim não vamos a lado algum.

 

SEMANADA - Pela primeira vez desde 2013 o investimento vai registar este ano uma taxa de crescimento inferior à economia; nos últimos sete anos Portugal desceu para o 21º lugar do ranking europeu do PIB per capita em paridade do poder de compra; a  execução do investimento público este ano irá ficar 1022 milhões de euros abaixo do previsto em Maio, que era de 7317 milhões; o Orçamento de Estado para 2023, o primeiro de Medina, prevê as cativações mais altas desde 2015, quase 3% do total dos gastos projectados para as administrações públicas; dois milhões de portugueses estão numa situação considerada como à beira da pobreza; o cabaz básico de bens alimentares subiu 15% entre Outubro de 2021 e Agosto deste ano, com alguns produtos a dispararem 20%; no final de 2021 cerca de 18% da população nacional vivia com rendimento mensal inferior ou igual a 554 euros; o preço das casas em Portugal disparou 80% na última década; Portugal é o quarto país da União Europeia com a taxa de desemprego jovem mais elevada; os cortes nas áreas de operação e manutenção dos três ramos das Forças Armadas sofreram cortes de 10% nos ultimos dois anos; já foram recebidas denúncias de 432 casos de abusos sexuais na Igreja; há mais de quatro queixas por dia de partilha não consentida de imagens íntimas; segundo a Marktest quase 33% dos portugueses subscreve serviços de streaming e mais de seis milhões costumam ler notícias on line, o que significa 78,4% dos utilizadores da internet.

 

O ARCO DA VELHA -  Apesar dos ciberataques verificados, o plano para formar militares em ciberdefesa e operações no ciberespaço, que deveria ter começado este ano, ainda não arrancou.

 

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REALIDADE & FANTASIA - Serralves apresenta até 16 de Abril a exposição “Metamorfoses” da norte-americana Cindy Sherman, que integra uma série de obras que atravessam toda a carreira da artista. As salas do museu foram objecto de uma grande transformação, criando um cenário teatral para acolher a narrativa proposta pelas fotografias de Sherman. A mostra inclui também um trabalho inédito, um mural fotográfico, especialmente concebido para o Museu de Serralves. Cindy Sherman ganhou notoriedade com imagens em que se retrata como modelo da sua própria obra, num leque de personagens e ambientes que evocam a representação da mulher pelos mídia e a forma como estes encaram a representação do corpo e da identidade . O curioso é como, com base no retrato, melhor dizendo no auto-retrato, Sherman sai da aparente realidade das imagens fotográficas para uma narrativa ficcional, apagando a fronteira entre o real e o imaginado. Sherman, nascida em Nova Iorque em 1954, tem vindo a construir  desde os anos 70 um corpo de trabalho sólido elaborando muito a encenação das imagens. Desde o início dos anos 2000 Sherman passou a usar a tecnologia digital para manipular ainda mais as personagens que cria, reforçando o seu olhar cáustico e satírico sobre a sociedade. Para acompanhar a exposição da obra de Cindy Sherman em Portugal, o Museu de Serralves apresentará um catálogo da exposição que, além de reproduções de obras expostas, inclui a transcrição de uma conversa entre a artista e Sofia Coppola e também ensaios de Joanne Heyler, Philippe Vergne, Maria Filomena Molder e Sérgio Mah sobre questões como identidade, género, representação, e o papel das imagens na contemporaneidade. (a imagem da exposição aqui publicada é de Filipe Bargar).

 

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DESCOBRIR O JAPÃO - Quando olhamos para a sociedade japonesa, para a cultura do país e das suas gentes, há uma palavra que sintetiza tudo o que deve ser garantido: Bushido. O termo inclui os conceitos de rectidão, justiça, coragem, bondade, delicadeza, sinceridade, honra, lealdade e autodomínio. Esta definição figura no glossário de “O Crisóstomo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa”, um ensaio escrito por Ruth Benedict em 1946 e agora editado pela primeira vez em Portugal. E como nasceu este ensaio? Em Junho de 1944, os Estados Unidos da América não sabiam como encarar o seu inimigo japonês na II Guerra Mundial. Como lidar com e ocupar o Japão após a vitória militar? Para dissipar estas incertezas, o governo e as forças armadas norte-americanas pediram à antropóloga Ruth Benedict que estudasse os japoneses e traçasse um retrato das suas normas e valores culturais. E foi assim que Ruth Benedict apresentou ao mundo um estudo que abriu ao mundo a porta de entrada para o estudo e compreensão dos complexos padrões da cultura japonesa, que explicam não só o militarismo de tempos passados, mas também a fabulosa expansão pacífica levada a cabo pelo povo japonês no período do pós-guerra. Desde a sua publicação, há quase meio século, já foram vendidos mais de dois milhões e 300 mil exemplares no Japão e a sua leitura continua a ser, ainda hoje, indispensável para quem quer compreender a cultura do povo nipónico. Com tradução de Vera Rodrigues o livro inaugura a colecção “Os Livros Não se Rendem”, da editora “Guerra & Paz”.

 

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UM LIVRO DE FOTOGRAFIAS - A colecção Ph. é uma iniciativa da Imprensa Nacional que tem vindo a editar uma série de monografias sobre o trabalho de fotógrafos portugueses contemporâneos. Depois de edições dedicadas a nomes como Jorge Molder, Paulo Nozolino, Fernando Lemos, José M. Rodrigues, ou Daniel Blaufuks, entre outros, surge agora Alfredo Cunha. Trata-se do primeiro volume desta colecção que aborda o trabalho de um fotojornalista. Alfredo Cunha tem uma experiência de décadas bem diversificada - começou no “Notícias da Amadora”, depois no “Século”, trabalhou em agências noticiosas, foi fotógrafo oficial dos Presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares, editor de fotografia do “Público” e “Jornal de Notícias”, colaborador em várias outras publicações, expôs em Portugal e no estrangeiro, realizou ensaios fotográficos e publicou três dezenas de livros. A selecção de fotografias escolhidas para este Ph.9, todas a preto e branco, com uma impressão cuidada mostra a diversidade da sua carreira, da reportagem ao retrato, da guerra à religião, da revolução à descolonização, da cidade ao campo - onde aliás vive desde há uns anos, em Vila Verde, no distrito de Braga. Algumas das suas fotografias do 25 de Abril são imagens já clássicas, feitas quando tinha apenas 20 anos. Na introdução ao livro António Barreto salienta sobre Alfredo Cunha: “A sua fotografia é humana, é a da condição humana, feita de dor e sofrimento, de alegria e paz. É a fotografia das crenças e dos sentimentos das pessoas. É a arte que privilegia o sentido do humano”.

 

RIGOR E ENGENHO - Pizzas há muitas, mas poucas se assemelham às que descobri em Sarilhos Pequenos, junto à baía que confronta o Montijo, localizada num antigo bar no edifício da Associação Naval Sarilhense. Falo da pizzaria Vela Latina, que foi buscar o seu nome a um barco que está nas traseiras do edifício. A história do local é curiosa: quando o Bica do Sapato encerrou o seu chefe de mesa, Hélder Ribeiro, um profissional com muitas provas dadas, decidiu mudar de vida e procurou um espaço onde pudesse construir o seu próprio restaurante. E foi ali, junto àquela baía, que meteu mãos à obra, com a pandemia pelo meio. Desde o princípio quis fazer uma pizzaria, mas diferente do que é vulgar encontrar - “não queria nada dessas coisas industriais que por aí existem”. Por isso instalou um forno italiano, a lenha, estudou receitas, experimentou farinhas, pesquisou produtos italianos e, juntamente com um sócio, lançou-se na recuperação do espaço, de forma cuidadosa. Após longas obras e os constrangimentos da pandemia, finalmente conseguiu abrir este ano a Pizzaria Vela Latina.  Nas entradas há ideias como anchovas sobre focaccia com manteiga, uma tábua de charcutaria italiana e uma com queijos da Sardenha, Toscânia e outras regiões. Na lista estão 17 pizzas diferentes e dois calzone. Os ingredientes são todos seleccionados por Hélder Ribeiro e importados de Itália, assim como a farinha utilizada para preparar a massa, que fica a levedar 24 horas. Assim se consegue uma massa leve, a base da pizza que vai ao forno com molho de tomate, também italiano. Os outros ingredientes só são colocados à saída do forno, o que faz toda a diferença. O resultado é uma pizza bem diferente do que se costuma encontrar por aí, rica, com os sabores bem diferenciados. A Pizzaria Vela Latina fica em Sarilhos Pequenos, Rua de São Domingos, e tem o telefone 967 102 251. Fecha às segundas e terças, aberto nos outros dias ao almoço e jantar, ao fim de semana é melhor marcar.

 

DIXIT - “Tenho uma dor aguda nas costas de suportar tantos impostos. É uma hérnia fiscal” - lido no Facebook

 

BACK TO BASICS - “O mundo é mais governado em função das aparências do que da realidade” - Daniel Webster

 





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publicado às 11:00

ENGANARAM-SE NOS CARRIS?

por falcao, em 07.10.22

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POUCA TERRA  - Hoje vou fazer uma redacção: eu gosto muito de comboios. Quando era pequenino gostava de brincar com o comboio eléctrico do meu amigo João, que tinha montanhas e lagos e passagens de nível. O meu comboio era mais pequeno e não tinha montanhas. Mas os dois tinham a mesma linha, da Marklin. E, por isso, podíamos  trocar de locomotivas e carruagens. Na altura havia comboios eléctricos de outras marcas com linhas diferentes e cada locomotiva só andava nas linhas da sua marca. Depois, durante alguns anos, andei sempre de comboio para ir para a aldeia dos meus avós, na linha da Beira Baixa. Gostava muito, passava pelo Entroncamento e durante um grande bocado da viagem via o rio Tejo, ali à beira dos carris. Já andei de comboios noutros países e uma vez até fui de comboio de Lisboa a Paris e voltei. Eu gosto de andar de comboio e tenho pena que em Portugal se ligue tão pouco a eles. Tenho simpatia pelo ministro dos comboios, um Pedro Nuno dos Santos. Parece um bocado precipitado, mas se calhar é porque quer fazer coisas e não o deixam. Agora diz que vamos ter a viagem Lisboa-Porto mais rápida. Parece que vão fazer uma linha de alta velocidade mas eu tenho medo que se tenham enganado na marca dos carris. É que quando o comboio começou em Portugal, em 1856, alguém decidiu que íamos ter carris iguais aos espanhóis para andarmos todos de um lado para o outro, com facilidade. Mas o resto da Europa fez carris diferentes. É como nos comboios eléctricos, com a Marklin e as outras marcas. Só que os espanhóis já perceberam que nas linhas novas de alta velocidade que vão fazendo o melhor é usar linhas iguais ao resto da Europa para ficarem todos ligados. Por isso é que não percebo porque é que o Ministro dos Comboios quer fazer as novas linhas iguais a umas que os espanhóis já estão a deixar de usar. Alguém me pode explicar porque é que vão fazer as coisas assim e porque é que o Ministro dos Comboios se ri quando lhe fazem esta pergunta?

 

SEMANADA - Os crimes contra os idosos triplicaram desde 2017; o governo espanhol anunciou um pacote fiscal que inclui reduções no IRS para rendimentos baixos e médios e um imposto temporário sobre as grandes fortunas; entre Março e Setembro deste ano a Câmara Municipal de Lisboa plantou 1198 aŕvores na cidade; Lisboa produz 900 toneladas de lixo por dia; as rendas de casa aumentaram  mais de 40% em cinco anos; quase um quinto do IRS está a ser retido em excesso pelo Estado; no último ano o valor dos carros em segunda mão subiu 25%; o sistema de Defesa Nacional foi alvo de dois ciberataques de larga dimensão no espaço de um mês; este ano, no ensino superior, há cerca de 76 mil candidatos a bolsas de estudos, o maior número de sempre; segundo a Marktest os  serviços de streaming de televisão são já utilizados por 44,1% dos portugueses, com a Netflix em primeiro lugar, seguida pela Disney+ e a HBO Max; de acordo com o relatório anual da OCDE sobre a Educação Portugal é dos países que menos investe no Ensino Superior; o preço do metro quadrado de imobliário em Lisboa, para arrendar ou vender, é superior aos preços praticados em Madrid e Milão; os juros dos novos créditos à habitação atingiram em Agosto o valor mais alto desde 2016; desde que António Costa chegou ao poder a despesa pública aumentou 19,5 mil milhões de euros e a receita fiscal 22,4 mil milhões de euros; os Bancos já custaram ao Estado mais de 22 mil milhões de euros desde 2008.

 

O ARCO DA VELHA - Os impostos directos, indirectos e descontos para a segurança social representam hoje mais de 50% do que os portugueses ganham.

 

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A PINTURA - As novas obras de Paulo Brighenti agora  apresentadas na sua segunda exposição na Galeria Belo Galsterer impressionam pela força que transmitem e o impacto que produzem. Em “Sopro” estão em confronto dois momentos de um dia ou dois momentos de dias diversos -  é essa ambiguidade que chama ainda mais a atenção, proporcionando diferentes leituras até entre as duas salas onde as obras de maior dimensão estão colocadas, uma em frente da outra. Cada uma dessas obras  (uma delas na imagem) é uma explosão de sentimentos, um manifesto de homenagem à pintura, que merece ser vista. Paulo Brighenti tem feito um crescente percurso artístico, que passa pelo seu envolvimento num projecto em Maceira, uma freguesia rural de Torres Vedras onde acolhe outros artistas em residência, organiza exposições e dinamiza os laços com a comunidade local.  Na Galeria Belo Galsterer Brighenti apresenta uma série de pinturas inéditas, utilizando pigmentos venezianos e encáustica, uma técnica de pintura que aglutina esses pigmentos através de uma cera que depois pode ser aplicada a pincel ou espátula, criando um efeito surpreendente. Na mesma Galeria (Rua Castilho 71 r/c) está também patente, igualmente até 12 de Novembro, o projeto “Flores” do artista italiano Renzo Marasca que trabalha em Lisboa há uns anos. Outras sugestões:  no museu de Aveiro Pedro Calapez apresenta até 15 de Janeiro a exposição  “Deste espaço iluminado e obscuro”, mostra concebida expressamente para o local e que reúne uma seleção de obras da Coleção de Serralves, da Coleção do Município de Aveiro e da Coleção do artista. Em Coimbra decorrem em vários pontos da cidade, até 16 de Novembro, as exposições de fotografia da Estação Imagem 22, destacando-se as imagens da guerra da Ucrânia feitas por um dos grandes repórteres de guerra, James Nachtwey. E por fim, no MAAT, que esta semana completou seis anos de existência, estão duas novas exposições: “Exist/Resist” de Didier Fiúza Faustino, e a 14ª edição do Prémio EDP Novos Artistas, um bem conseguido conjunto de obras de Adriana Proganó, Andreia Santana, Bruno Zhu, Maria Trabulo, René Tavares e Rita Ferreira.

 

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A INTÉRPRETE - Ao princípio parece uma história banal. Uma mulher, cujo nome desconhecemos até ao final do livro, encontra colocação temporária como intérprete no Tribunal Internacional de Haia e o primeiro grande trabalho que lhe foi atribuído é acompanhar o julgamento de um ex-Presidente de um estado africano, acusado de cometer crimes de guerra. Pelo meio conhece um homem, casado, em processo de divórcio, por quem se apaixona, mas que subitamente parte para Lisboa onde a sua ex-mulher vive uma nova relação. Enquanto ele parte, inicialmente por uma semana, deixa-a ficar a viver na sua casa. Adriaan, assim se chama o homem, aos poucos deixa de lhe responder às mensagens, continua em Lisboa ao fim de meses e a intérprete vê-se em Haia, entre a solidão, a dúvida sobre a relação que vive e os relatos de atrocidades que traduz diariamente no seu emprego. “Intimidades” , assim se chama o livro, foi escrito pela norte-americana Katie Kitamura e lê-se como um thriller psicológico. Poliglota com raízes familiares em vários continentes, a intérprete vive entre o edifício do Tribunal, o apartamento do amante que partiu, e do qual nada sabe, e as conversas com uma amiga que testemunhou um acto de violência. A intérprete gosta do trabalho que faz, estabelece uma relação de proximidade com o Presidente que está a ser julgado enquanto traduz as intermináveis intervenções de advogados , do Procurador e de testemunhas. A qualidade do trabalho de tradução leva a que seja convidada a trabalhar permanentemente no Tribunal, um convite que ambicionava , mas que recusa porque não quer ficar amarrada a Haia. É nesse momento que descobre outro sentido para a sua vida e reencontra Adriaan. E acaba por ficar em Haia, não pelo trabalho, mas por ele. É, no fundo, uma curiosa história de amor nascido do conflito interior de uma pessoa.  O Washington Post sublinhou que ”a incongruência entre a vida doméstica e a vida profissional da narradora é o que faz com que o romance seja fascinante”. “Intimidades”, editado originalmente em 2021, foi lançado agora em Portugal pela Quetzal.

 

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O PIANO -  Em 2016 Keith Jarrett fez a sua derradeira digressão europeia, dois anos antes de ter ficado impossibilitado de continuar a tocar devido a um problema de saúde que o deixou paralisado do lado esquerdo do corpo. Os seus concertos nessa digressão de Julho de 2016 fizeram história e as gravações então realizadas têm dado origem a alguns discos, como por exemplo os que registaram o concerto realizado em Munique ou um outro realizado em Budapeste. Agora ficou disponível mais uma dessas gravações, realizada  também em Julho, mas em Bordeaux. Todos os concertos desta digressão foram a solo e seguem uma mesma lógica de apresentação de uma peça dividida em diversas partes.  A gravação deste concerto em Bordéus tem 13 temas, que no fundo constituem uma peça única. As gravações dos concertos não são iguais, a improvisação é uma constante. No Bordeaux Concert alguns momentos fazem reviver a memória auditiva de passagens do histórico Koln Concert. O jornal Le Monde escreveu a propósito que a actuação de Keith Jarrett criou um ambiente que superou o ruído e a confusão que existe no mundo. Disponível em streaming.


A COMIDA - Foi por puro acaso que vi um post de um amigo no Facebook sobre um restaurante especializado em comida moçambicana, inevitavelmente com uma influência indiana. Tentado pela ideia de viver esses sabores lá fui eu direito ao  Oliveira’s Moçambique. Passemos ao que interessa: o acolhimento pelo Rui é sempre caloroso e na mesa estão uns paparis, que rapidamente recebem a companhia de umas estaladiças e muito honestas chamuças. Na lista há especialidades como o caril de caranguejo ou o caril de camarão com amendoim. No dia da visita o caranguejo tinha acabado mas experimentei o caril de camarão com amendoim, acompanhado com arroz de côco, e fiquei cliente. O outro lado da mesa rejubilou com os camarões fritos. Nas carnes há o célebre frango à moda da Zambézia e uns elogiados chacuti com frango e sarapatel - que aliás é a grande recomendação do meu amigo acima citado. O Oliveira’s é uma história familiar, que evoca memórias de Quelimane e receitas caseiras. A cerveja moçambicana é a magnífica 2M, a selecção musical é boa, a puxar até para um pé de dança, e ao fim de semana volta e meia há música ao vivo. Para sobremesa não percam a babinka, muito boa. O Oliveira’s Moçambique fica na Rua Dr. António Cândido 15, perto de S. Sebastião, telefone 213570159

 

DIXIT - “Temos gerações de técnicos, políticos, empresas do sector público e privado, que viveram, compraram casas, sustentaram as famílias, a fazerem estudos sobre o comboio e o aeroporto” - Inês Teotónio Pereira

 

BACK TO BASICS - “A ignorância é a noite do espírito, uma noite sem lua nem estrelas” - Confúcio

 



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